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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O que foi a Ku Klux Klan?


Grupo racista criminoso ganhou força no século 19 devido a um conjunto de leis segregacionistas dos estados dos EUA 
Raquel Carneiro

Foi uma milícia criminosa racista criada no sul dos EUA logo após a Guerra Civil Americana (1861-1865). O grupo formado por pessoas brancas reagiu à libertação dos escravos e a um projeto do governo chamado Reconstrução, que integraria os negros à sociedade. Responsável por massacres, estupros e linchamentos, entre outras atrocidades, a Klan passou por três fases históricas, todas repletas de ódio.

1. Em 1866, na pequena cidade de Pulaski, no Tennessee, seis amigos começaram a sair com lençóis brancos na cabeça durante a noite para pregar peças nos negros das fazendas locais. Com o tempo, as brincadeiras ganham contornos violentos e motivações políticas. Nascia ali a Ku Klux Klan, que emprestou do grego a palavra kuklos (círculo) e dos escoceses o termo klan (clã). Em um ano, eles atingem meio milhão de adeptos em diferentes cidades

2. O governo dos EUA deu à KKK o status de organização criminosa em 1870. Contudo, no sul, eles ganharam força devido a um conjunto de leis segregacionistas dos estados locais. Conhecidas como “Jim Crow” (personagem negro e bobo da cultura popular norte-americana), essas leis ditavam que ônibus, cinemas, restaurantes e outros estabelecimentos possuíssem assentos separados para negros. Quem não cumpria os limites era punido pelas autoridades, com a ajuda da Klan

3. Com a fuga de negros para outros estados, o grupo aumentou sua atuação pelo país. Uma primeira sede oficial foi aberta em Nashville sob a liderança de Nathan Bedford Forrest, o Grande Mago (ver abaixo). Toda a área de atuação era designada como Império. O que estava fora era chamado de “mundo alienado”. O look branco com chapéu pontudo remetia aos fantasmas dos soldados confederados mortos durante a Guerra Civil

4. Com o fim da Reconstrução em 1877, a KKK perdeu sua força inicial. Mas o declínio não apagou sua ideologia: alguns adeptos se envolveram com a política. Como resultado, cinco ex-presidentes dos EUA hoje são apontados como simpatizantes da organização: William McKinley (1897-1901), Woodrow Wilson (1912-1921), Warren G. Harding (1921-1923), Calvin Coolidge (1923-1929) e Harry S. Truman (1945-1953). O discurso racista de Woodrow ajudou a Klan a retomar suas atividades
Revista Mundo Estranho

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O que é a Ku Klux Klan?


O que é a Ku Klux Klan?
Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam.
por Alexandre Versignassi e Eliano Jorge

Começou como uma brincadeira. Em 1865, 6 jovens da cidadezinha americana de Pulaski, Tennessee, resolveram espantar o tédio de um jeito diferente: fundar uma microssociedade secreta, tipo uma maçonaria particular. Bem-humorados, decidiram que os membros receberiam títulos engraçados. Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam. Um deles sugeriu a palavra grega kyklos – que quer dizer círculo (de amigos, no caso). Outro achou que isso cairia bem com a palavra clã. E ficou Ku Klux Klan. A curtição deles era cavalgar à noite, incógnitos sob lençóis e fronhas brancas, para desconcertar os vizinhos. Nada demais. Só que aí a sociedade de brincadeira foi juntando cada vez mais membros. E a coisa degringolou. O movimento racista estava no auge, já que os escravos acabavam de ser libertados pelos vencedores da Guerra Civil Americana, os estados do Norte. E as cavalgadas noturnas viraram perseguições a negros. Em um ano a Klan já tinha virado uma organização assassina. Presente em vários estados, tinha ex-generais sulistas entre os cabeças e contava com o financiamento de agricultores, prejudicados pela alforria. Depois de inúmeros linchamentos, estupros, castrações, incêndios e enforcamentos, a Klan finalmente foi reconhecida como uma entidade terrorista e acabou banida pelo governo americano em 1872. Voltaria em 1915, mas foi perdendo prestígio ao longo do século 20. Hoje, ela tem uns 3 mil membros, que se dedicam a distribuir panfletos racistas. Ah, claro: é apenas um entre os mais de 700 grupos dedicados ao ódio em atividade nos EUA.

Terror virtual

Houve mais linchamentos de negros nos EUA quando a Klan estava proibida do que quando ela voltou em 1915. Foram cerca de 2 mil entre 1890 e 1909; e “só” 400 entre 1920 e 1939. É que a imagem da KKK já metia tanto medo que eles nem precisavam agir muito para deixar a população negra aterrorizada.

Ave, César

A saudação tradicional da KKK parece a dos nazistas. Mas é só coincidência: as duas têm origem romana. Mas não é por acaso que a Klan tenha se associado a grupos neonazistas dos EUA. Hoje eles também são contra judeus, árabes, hispânicos...

Com que roupa eu vou?

Hoje há pouca unidade na Klan, e o poder, na prática, é descentralizado. O que resiste são os modelitos feitos para destacar as hierarquias mais altas da massa de lençóis brancos: o manda-chuva local veste vermelho; a polícia secreta, preto.

Nonsense

A Klan tradicional louvava a Deus e ao Diabo. Hoje os membros se dizem “cristãos brancos”. Mesmo assim, o nome de seu livro sagrado faz uma alusão ao Alcorão, islâmico. É o Kloran (ou “Klorão”).

Nação fantasma

A bandeira dos 13 estados separatistas do Sul virou símbolo racista. É reverenciada pela Klan, e por mais gente do que se imagina: em 2001, um plebiscito apontou 65% de votos pela manutenção dela como bandeira do estado do Mississippi.

A vida imita a arte

O cineasta D.W. Griffith enche a bola da KKK na superprodução O Nascimento de uma Nação (1915), que pinta a Klan como um grupo de nobres cavaleiros que salvaram o Sul dos EUA da “anarquia negra”. Turbinada pelo sucesso do filme, a organização voltou na hora à ativa, após 43 anos de ostracismo.

Revista Superinteressante

domingo, 6 de setembro de 2009

Klu Klux Klan: Cavaleiros das trevas


Klu Klux Klan: Cavaleiros das trevas
Como seis desocupados criaram no século 19 um império do racismo que chegou a se infiltrar na Casa Branca e existe até hoje.
por Texto Marcelo Cabral
Criada para intimidar os negros, a Ku Klux Klan cresceu e ampliou seu alvo: judeus, imigrantes, católicos. Mas como 6 homens vestidos de fantasma puderam espalhar tanto terror? Saiba por que essa encarnação do ódio nunca morre; apenas adormece.

Começou de repente. A calma de Colfax, na Louisiana, foi quebrada pelo som trovejante das armas de fogo. Na manhã de 13 de abril de 1873, uma milícia de 300 homens invadiu a cidadezinha. Todos eram brancos. Muitos estavam vestidos com capuz e túnica igualmente brancos. Logo eles cercaram os defensores da cidade, quase todos negros, dentro do pequeno tribunal local. Alguns dos sitiados tentaram escapar: foram perseguidos e apanhados pelos cães dos invasores. Esses foram os sortudos. Os que finalmente se renderam após a luta foram fuzilados sistematicamente ou jogados vivos aos aligátores dos pântanos da região.

Estima-se que o número de vítimas tenha ficado entre 100 e 300. O Massacre de Colfax oficialmente ocorreu por causa da disputa entre dois candidatos à prefeitura da cidade – um apoiado por brancos e outro por negros. Na verdade, o que transformou uma pequena intriga política em uma tragédia foi o ódio racial. O mesmo ódio responsável pela criação de uma das organizações mais terríveis de todos os tempos: a Ku Klux Klan, culpada pelas mortes em Colfax e por outras centenas de crimes. Ao longo de seus quase 150 anos de existência, a Klan mostrou ser parecida com a ave mitológica fênix, que renascia das próprias cinzas: diversas vezes considerada extinta, ela sempre conseguiu se reerguer com novos nomes, grupos e objetivos. “Esses ciclos sempre começaram em momentos de rápida mudança na sociedade americana”, afirma Michael Newton, autor de The Ku Klux Klan: History, Organization, Language, Influence and Activities of America’s Most Notorious Secret Society (“A Ku Klux Klan: História, Organização, Linguagem, Influência e Atividades da Sociedade Secreta Mais Notória da América”), inédito no Brasil. Segundo ele, as tensões provocadas por mudanças sociais levam à busca de um bode expiatório. “A Klan sempre se aproveitou desse sentimento”, diz. “É fácil culpar os negros ou outras minorias quando se perde o emprego ou sua loja vai à falência. Os nazistas fizeram o mesmo com os judeus, mas a Klan foi criada mais de 50 anos antes.”

Tudo começou com um grupo de amigos entediados. Na véspera do Natal de 1865, 6 colegas resolveram criar um clubinho secreto na cidade de Pulaski, no Tennessee. A idéia era fazer brincadeiras, dar alguns sustos e se divertir com rituais de iniciação – como os trotes aplicados nas universidades. Eles resolveram batizar sua sociedade secreta com a palavra grega kuklos, que significa círculo – no caso, um pequeno círculo de amigos. Como todos tinham ascendência escocesa, também foi acrescentada ao nome a palavra klan, uma referência aos antigos clãs (famílias) da Escócia. Como resultado, a pequena confraria passou a ser designada como Ku Klux Klan. Ela também seria conhecida como KKK, ou simplesmente Klan. Uma das diversões dos rapazes era sair cavalgando à noite, cobertos por lençóis, para assustar os negros da região. Em poucas semanas, a Klan já impedia que os negros se encontrassem nas igrejas e invadia as casas de famílias negras para roubar suas armas. Mais alguns meses e as brincadeiras se transformaram em assassinatos, linchamentos, enforcamentos, estupros, castrações e incêndios criminosos. Nessa altura, a Klan já tinha centenas de membros e se espalhava cada vez mais rápido por todo o sul dos EUA.

Essa explosão de ódio contra os negros se explicava pela situação da região. Os EUA tinham acabado de sair da sangrenta Guerra de Secessão, em que a questão racial foi um dos fatores centrais. Os estados americanos do norte tentaram abolir a escravidão nos estados do sul, cuja economia era basicamente agrícola e dependente da mão-de-obra negra e escrava. Contrariados, os sulistas resolveram se separar do resto do país e formaram a Confederação Americana. O Norte não aceitou a decisão e foi à luta para garantir a unidade do país. A guerra durou de 1861 a 1865 e terminou com a derrota do Sul, que teve sua economia arrasada pelas batalhas e pelo fim da escravidão.

Para muita gente, fazia sentido culpar os negros pela ruína do Sul. “Quando os soldados do exército confederado derrotado voltaram para casa, encontraram a antiga sociedade sulista de pernas para o ar”, diz o historiador Allen W. Trelease, da Universidade da Carolina do Norte. “Muitas das famílias tradicionais estavam arruinadas e seus antigos escravos eram agora seus iguais. A região virou um poço de descontentamento. Os próprios fundadores da Klan eram todos ex-soldados confederados.” Essas condições fizeram com que também surgissem na região outros grupos semelhantes, como os Cavaleiros da Camélia Branca, a Irmandade Branca e a Liga Branca. O que os unia era o fato de seus integrantes serem brancos, sulistas e descontentes.Financiada por fazendeiros e pequenos comerciantes, a Klan começou a crescer.

Estima-se que a organização tenha chegado a reunir cerca de meio milhão de membros, chamados de klansmen, por volta de 1867. Foi aberta uma sede em Nashville e eleito seu primeiro líder oficial, que tinha o título de “grande mago”. O escolhido foi Nathan Bedford Forrest, um famoso ex-general do exército confederado. Mas, na prática, ele tinha pouco controle sobre a organização: a Klan era um amontoado de grupos de radicais espalhados pelos estados do sul. Todos eram clandestinos; não tinham filiação oficial, taxas, jornais ou oradores. No entanto, o grande mago teve um papel fundamental para a Klan – ele definiu um rumo político para a organização.

Após a guerra civil, o Congresso americano criou a chamada Reconstrução, um programa de políticas destinadas a integrar os negros recém-libertos à sociedade sulista. Entre outras medidas, a Reconstrução dava aos negros o direito de votar, freqüentar escolas e portar armas. O objetivo número 1 da Klan era lutar contra a Reconstrução. E também contra seus simpatizantes: o principal era o Partido Republicano (o mesmo do atual presidente americano George W. Bush). Em 1868, a Klan assassinou o congressista republicano James Hinds. Isso teve uma repercussão enorme, e colocou o governo dos EUA contra a Klan.

Em 1869, um júri federal classificou o grupo como “organização terrorista”, e centenas de klansmen foram processados. Foi aprovada uma lei, conhecida como Civil Rights Act (“Ato dos Direitos Civis”) ou Ku Klux Klan Act, para defender os negros.E os crimes raciais passaram a ser julgados em tribunais federais, onde já havia vários juízes negros. Essas medidas resultaram na decadência da Klan a partir de 1872. Mesmo enfraquecido, o grupo ainda era capaz de atrocidades como o Massacre de Colfax – citado no começo desta reportagem. Ainda que a Klan já não fosse capaz de agir em grande escala, ações localizadas como essa eram suficientes para intimidar a população negra. O pavor que o grupo espalhara fez com que muitos negros não aparecessem para votar, permitindo aos democratas manter o controle dos estados do sul. Isso fez com que, em 1876, fossem aprovadas as “leis Jim Crow”: um conjunto de medidas que impunha a segregação racial em ambientes públicos, como escolas, trens e ônibus. Um enorme retrocesso para os direitos humanos. E uma grande vitória para os racistas.

Bombando no cinema

Durante quase meio século, a Ku Klux Klan só existiu como uma lembrança assustadora. Com a maioria dos membros da organização mortos ou muito velhos, parecia que o terror branco não voltaria a assombrar os EUA. Mas dois fatos ocorridos em 1915 fizeram o grupo voltar com tudo. O primeiro foi o lançamento do filme O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith. Baseado no livro The Clansman, de Thomas Dixon Jr., o filme mostra os membros da Klan como heróis – são nobres cavaleiros que lutam contra bandidos negros. O filme inventou vários mitos em torno do grupo, como o ritual de queima das cruzes (que nunca havia sido realizado pela Klan). Mesmo para os padrões da época, o filme foi considerado extremamente racista. O único problema, por assim dizer, é que ele fez o maior sucesso. O Nascimento de uma Nação foi a produção mais lucrativa de todos os tempos até então. Para divulgar o filme em algumas cidades, atores se vestiam como os membros da Klan e cavalgavam em frente aos cinemas antes da estréia. O filme também foi o primeiro a ser exibido na Casa Branca, onde recebeu elogios do presidente, o democrata Woodrow Wilson.

Aproveitando a “klanmania” gerada pelo filme, o representante comercial William Simmons resolveu recriar a organização. Ele era um espertalhão, que via a chance de obter altos lucros com a possível volta da Klan. E outro fato deu mais força à empreitada: em 1915, o judeu Leo Frank foi condenado pelo estupro e assassinato de uma garota chamada Mary Phagan. Muita gente via semelhanças entre a menina e uma personagem do filme, Flora, que se joga em um abismo para evitar ser estuprada por um negro. Inflamado pelos jornais sensacionalistas, o caso suscitou uma onda de anti-semitismo. Foi criado um grupo chamado Cavaleiros de Mary Phagan, que seqüestrou Frank da cadeia e o linchou. O oportunista Simmons recrutou os Cavaleiros de Mary Phagan para formar a espinha dorsal da nova Klan. Batizado agora de Cavaleiros da Ku Klux Klan, o grupo incorporou todos os rituais mostrados no filme de Griffith, especialmente a queima das cruzes. De início, a KKK não chegou a ser um sucesso estrondoso, se limitando basicamente ao estado da Geórgia e apostando na empolgação com o filme de Griffith. Novamente, foi preciso uma onda de mudanças sociais para que o grupo realmente engrenasse: a 1ª Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, deu o empurrãozinho que faltava.

A guerra deslocou um fluxo enorme de imigrantes europeus para os EUA. Fugindo dos combates e da crise econômica, esses imigrantes tiveram um grande impacto religioso (muitos eram judeus ou católicos), cultural e econômico na sociedade americana. Quando os soldados americanos voltaram, encontraram um país em ebulição, e muitos viram a Klan como uma defesa dos interesses dos “verdadeiros americanos”. A xenofobia do pós-guerra transformou a década de 1920 na era dourada da Ku Klux Klan. E a nova Klan tinha 3 diferenças básicas em relação à antiga: em primeiro lugar, tinha vários inimigos. Além dos negros, era contra os imigrantes, os judeus, os comunistas e outros novos personagens da sociedade americana. Em segundo lugar, ela não era limitada ao sul, mas se espalhava por todo o país. E essa nova versão da Klan era mais presente nas grandes do que nas pequenas cidades, que tinham menor concentração de negros e estrangeiros. O novo grupo também era muito bem organizado. Com quartel-general em Atlanta (conhecida como a “cidade imperial”), era uma entidade registrada legalmente, que pagava impostos e tinha reconhecimento jurídico. Só os métodos continuavam iguais: intimidação, assassinato, tortura e linchamento.

O grupo cresceu rapidamente até se tornar a maior organização do país, com mais membros do que o Exército e o governo federal. Em seu auge, por volta de 1924, os Cavaleiros da Ku Klux Klan reuniam mais de 5 milhões de membros, equivalente a cerca de 10% de toda a população urbana americana da época. Em alguns estados, o percentual de membros atingia 40% da população total. O sucesso do grupo foi tanto que chegou até mesmo a ultrapassar as fronteiras americanas, com a criação de uma “filial” no Canadá. Em comum, essa vasta gama de membros compartilhava o fato de que sua esmagadora maioria pertencia ao segmento social conhecido como wasp, sigla em inglês das iniciais de branco, anglo-saxão e protestante. “O conceito wasp está intimamente ligado à segunda encarnação da Klan”, afirma o escritor Michael Newton. “O grupo levava esse conceito de modo radical: era branco, contra os negros; anglo-saxão, contra os imigrantes; e protestante, contra os católicos e os judeus”, completa. Além de conduzir perseguições raciais, a Klan também tentava impor regras morais. Tornaram-se comuns as batidas do grupo em bordéis, atrás de “mulheres imorais” e de homossexuais. O grupo também divulgava listas em que constavam os nomes de jovens que eram pegos fazendo sexo dentro de carros. E no Alabama uma mulher divorciada foi seqüestrada, despida, amarrada em uma árvore e chicoteada.

Apesar de se considerar um movimento não político, a Klan logo passou a ter uma forte influência nos governos de diversos estados, como Alabama, Texas, Oklahoma, Indiana, Oregon e Maine, além de representantes dentro do Congresso. O escritor Wyn Craig Wade, autor de The Fiery Cross (“A Cruz Ardente”, inédito no Brasil), afirma que a Klan teria tido entre seus membros 11 governadores e 16 senadores nos anos 20. Até mesmo alguns presidentes americanos chegaram a flertar com a organização (veja quadro na página ao lado). Em seu auge, o grupo atingiu tamanha força política que tentou indicar seu próprio representante para concorrer à Casa Branca nas eleições presidenciais de 1924. Na convenção do Partido Democrata, em Nova York, a Klan apoiava o candidato William McAdoo contra Al Smith, que era católico. Os klansmen tentaram de tudo para fazer prevalecer sua indicação: marcharam, queimaram cruzes, fizeram o diabo a quatro. O impasse só foi resolvido quando ambos os candidatos retiraram suas indicações e escolheram o moderado John Davis como nome de consenso. O episódio, que se tornou conhecido como Klanbake, teve péssima repercussão para os democratas. Davis acabou derrotado pelo republicano Calvin Coolidge.

Superman versus KKK

A era dourada da Klan começou a esmaecer no final dos anos 20. O desgaste na imagem veio tanto das seguidas ações violentas do grupo quanto da desmoralização de seus líderes. O caso mais notório foi protagonizado por David Stephenson, chefe da Klan em Indiana, preso por estuprar e assassinar uma professora. Durante o julgamento, surgiram detalhes sórdidos. Stephenson feriu sua vítima de tal modo que ela “parecia ter sido atacada por lobos”, segundo os legistas. Também ficou evidente a ligação de Stephenson e de parte da cúpula da Klan com um grande esquema de corrupção que envolvia o governador de Indiana e o prefeito de Indianápolis, ambos apoiadores do grupo. Com vasta cobertura dos jornais, o caso gerou uma péssima publicidade para a Klan e fez cair de modo drástico o número de sócios. Os 5 milhões de membros de 1924 acabaram se reduzindo para cerca de 30 mil por volta de 1930. Com a chegada da 2ª Guerra, o prestígio do grupo caiu ainda mais. Embora a cúpula da Klan apoiasse oficialmente a guerra contra o “invasor amarelo” japonês, eram evidentes as ligações entre as doutrinas do grupo e do nazismo. Mas o golpe final contra a segunda encarnação da Ku Klux Klan viria de dentro. Os responsáveis seriam Stetson Kennedy, escritor e ativista dos direitos humanos, e... o Superman. Isso mesmo, o herói do planeta Krypton teve participação fundamental na queda do grupo. A história começou assim: Stetson Kennedy tinha uma profunda aversão pela Klan desde que sua ama-de-leite negra, Flo, havia sido assassinada pelo grupo por dirigir a palavra a um condutor de bonde que lhe dera o troco errado. Em 1944, ele decidiu se infiltrar na Klan. Procurou uma taverna na qual os membros da organização se reuniam, ganhou a confiança deles e em pouco tempo já era aceito como sócio. Rapidamente, Kennedy aprendeu todos os códigos, palavras secretas e rituais da Klan. Ele começou a vazar essas informações para os produtores do programa de rádio do Superman. O resultado foi uma série de 4 episódios onde o personagem enfrenta e vence os mascarados da Klan. A desmoralização foi total. Ao ter seus segredos revelados e ainda ser derrotada pelo Superman, a organização perdeu muito de sua aura de terror: durante algum tempo, passou a ser objeto de toda sorte de ridicularização. Com a evasão de associados, a Klan não conseguiu dinheiro para pagar seus impostos. Isso foi fatal. A falta de pagamento deu finalmente ao governo uma chance, e ele aproveitou: os Cavaleiros da Ku Klux Klan tiveram decretada sua falência e foram obrigados a fechar as portas no final de 1944.

Em 1981, um grupo que se intitulava Cavaleiros Brancos da Ku Klux Klan planejou uma operação incrivelmente ousada: eles queriam invadir a Dominica, uma pequena nação situada numa ilhota do Caribe. Os líderes do grupo se uniram ao antigo primeiro-ministro local Patrick John. A idéia era levar um barco cheio de armas e munição até a costa da ilha e entregar a carga a um grupo de rebeldes sob o comando de John. Em troca da ajuda, a ilha seria transformada em uma nação branca nacionalista, na linha do apartheid na África do Sul. A pequena força policial da ilha fazia com que o plano, aparentemente maluco, tivesse chances reais de sucesso. O FBI, que vinha monitorando a operação, resolveu intervir: em abril de 1981, prendeu no porto de Nova Orleans os membros do grupo, que já estavam carregando o navio com as armas.

Recentemente, um relatório divulgado pela Liga Antidifamação, organização que monitora grupos radicais em território americano, praticamente decretou o fim da Klan. “Aquela que já foi a organização terrorista mais importante do país é hoje uma coleção amorfa e fragmentada de grupos e indivíduos.” De fato, existem nos EUA entre 100 e 150 grupos que se denominam herdeiros da Klan. Nenhum deles tem ligação direta com a organização original ou com o poderoso grupo dos anos 1920: como o termo Ku Klux Klan é de domínio público, qualquer grupo pode usá-lo. Hoje as principais atividades são a distribuição de panfletos, marchas de protesto e alguns encontros anuais. O dinheiro é pouco, e até os líderes máximos dos grupos precisam ter empregos normais para conseguir sustento. E a famosa influência política virou pó: o único congressista americano com ligações conhecidas com a Klan é o senador Robert Byrd, que foi membro do grupo há quase 50 anos. Ele diz que “se arrepende profundamente”. Alguns dos principais grupos hoje são o Klans Imperiais da América, o Cavaleiros Americanos da Ku Klux Klan e o Cavaleiros da Camélia Branca da KKK. Eles têm forte inclinação cristã fundamentalista e acreditam em uma conspiração judaica para dominar o mundo. Outras facções tentam tornar sua imagem mais aceitável ao criar eufemismos para suas crenças. Falam mais da “glória de sua herança branca” do que no ódio por outras raças. O mais famoso deles é o Partido dos Cavaleiros, que se define como “racialista”.

A diferença é sutil, mas importante. Enquanto o racismo prega a superioridade de uma raça sobre outra, o racialismo diz que elas são iguais, mas devem viver separadas.O conceito de racialismo, aliás, é responsável por um dos fatos mais bizarros dessa história toda: os supremacistas negros que apóiam grupos inspirados na Ku Klux Klan. Segundo a lógica deles, apoiar a Klan é dar força ao movimento racialista – e com isso fortalecer a idéia de separação entre as raças. Marcos Garvey, um dos primeiros líderes do movimento negro do mundo, convidou membros da Klan para falarem em manifestações.

Robert L. Brock, um líder negro anti-semita, doa dinheiro ao Partido dos Cavaleiros e já chegou até a vestir a roupa branca da Klan. “O fato de esse tipo de tese ter seguidores é sinal de que as tensões raciais e sociais continuam fortes na sociedade americana”, diz o historiador Allen Trelease. “Assim, nunca se pode descartar completamente o risco do ressurgimento de um grupo como a Klan”, completa. O escritor Michael Newton tem uma opinião parecida. “Há temas, como a imigração mexicana, com potencial para despertar problemas similares aos que fizeram a Klan renascer na década de 1920”. Quando se fala na Ku Klux Klan, nunca se pode dizer que a ameaça chegou ao fim.

Ódio racial no Brasil

Além dos EUA, a KKK fincou raízes em alguns outros países, como Inglaterra, Alemanha, Canadá e África do Sul. Já no Brasil, o grupo nunca foi muito bem-sucedido. O que existe no país é um grupo (estima-se que sejam menos de 10 pessoas) chamado Klans Imperiais do Brasil, ramificação da organização americana Klans Imperiais da América. Ele foi praticamente desmantelado em 2003, quando a Polícia Federal prendeu o líder da organização (ao contrário dos EUA, no Brasil é crime divulgar conteúdo racista) e tirou o site da organização do ar. No entanto, a operação brasileira da Klan sempre foi pequena quando comparada aos demais grupos de ultradireita que existem hoje no país. Os mais próximos das motivações da Klan são os diversos grupos skinheads (cabeças raspadas) espalhados pelo Brasil. A maior parte deles é composta de neonazistas que abraçam o conceito do white power (“poder branco”), ou seja, a superioridade dos brancos sobre as demais raças. São totalmente contra negros, nordestinos e homossexuais.

Racistas na Casa Branca
Embora o grupo não tenha conseguido eleger abertamente um membro, pode ter exercido forte influência sobre pelo menos 3 presidentes dos EUA
1. Warren Harding (Republicano, 1921 a 1923)

Foi acusado pelo ativista político Stetson Kennedy, que se infiltrou na Klan, de ter se filiado à organização em 1923, em cerimônia realizada na própria Casa Branca.

2. Woodrow Wilson (Democrata, 1913 a 1921)

Retomou a segregação racial no governo federal, que havia sido abolida em 1865. E escreveu um livro em que chama a Klan de “venerável império do sul”.

3. Harry Truman (Democrata, 1945 a 1953)

Em 1924, foi aconselhado a entrar para a Klan (então uma poderosa aliada dos democratas). Chegou a pagar a inscrição, mas ninguém sabe se realmente se filiou.


A nova Klan
É o pesadelo de muita gente, mas já existe até um programa de governo. Um dos grupos atuais que se inspiram na Klan, o Partido dos Cavaleiros, se define como um movimento político e elaborou uma lista de medidas a ser implantadas caso o grupo chegue ao poder. Confira as principais propostas:

• Incentivo financeiro para a repatriação de estrangeiros ao pais natal.

• Internação obrigatória em hospitais de todos os infectados pelo vírus HIV.

• Criação de uma lei proibindo a prática do homossexualismo.

• Aprovação de medidas que incentivem a posse de pelo menos uma arma por cidadão.

• Proibição da entrada de mulheres na Polícia e nas Forças Armadas.

• Fim do ensino da Teoria da Evolução nas escolas.

• Uso de tropas do exército para impedir a entrada de imigrantes no país.

• Proibição da compra de empresas e propriedades americanas por estrangeiros.

• Abolição do aborto.

• Fim de todas as cotas para negros em universidades e para mulheres em cargos públicos.

• Fechamento das agências que monitoram o abuso de crianças pelos pais.

• Término de todos os programas americanos de ajuda humanitária ao exterior.

• Retirada dos EUA das Nações Unidas.


Para saber mais
The Ku Klux Klan: History, Organization, Language, Influence and Activities of America’s Most Notorious Secret Society

Michael Newton, McFarlan & Company, 2006.

The Fiery Cross: The Ku Klux Klan in America

Wyn Craig Wade, Oxford University Press, EUA, 1998.

Behind the Mask of Chivalry: The Making of the Second Ku Klux Klan

Nancy K. MacLean, Oxford University Press, EUA, 1995.

Revista Superinteressante

domingo, 19 de julho de 2009

Ku Klux Klan: passado e presente do terror

Com capuzes brancos e cruzes incandescentes, a organização racista que surgiu no sul dos Estados Unidos no século XIX mostra que ainda não foi totalmente extinta ao lançar uma nota de repúdio à eleição de Barack Obama à presidência

POR SÉRGIO PEREIRA COUTO

Uma das organizações terroristas mais temidas de todos os tempos, conhecida por promover ataques violentos contra negros norte-americanos, chegou a contar com a adesão de 4 milhões de membros durante o seu auge, na década de 1920. A Ku Klux Klan é uma sociedade secreta originária do sul dos Estados Unidos que possui visão política de extrema direita e prega a supremacia branca. Embora a sigla KKK, pela qual a Ku Klux Klan é conhecida, remeta ao passado intolerante dos Estados sulistas norte-americanos, o grupo ainda está em atividade nos Estados Unidos. Há tanta semelhança entre a KKK e os neonazistas que, por vezes, os partidários das duas facções se juntam e geram híbridos, como a Imperial Klans of America (IKA), formada em 1997, que se diz a maior organização desse tipo, atrás somente da própria KKK.

Na foto, uma missão comum durante a Guerra de Secessão, que tinha o intuito de motivar os soldados. Após a derrota, os sulistas resolveram se unir para praticar, inicialmente, atos de vandalismo gratuito

As versões atuais da KKK e de seus subgrupos como a IKA, possuem certas nuances que os diferem da versão clássica. Por exemplo, não são apenas os negros que são perseguidos, mas também fazem parte das listas de ódio os comunistas, os católicos, as feministas, os imigrantes e os homossexuais. Outro ponto: saem de cena os trajes tradicionais brancos e fantasmagóricos vistos em filmes como Mississippi em chamas (Burning Mississippi, 1988), de Alan Parker, e entram em seu lugar uniformes militares, com direito a capacetes e outros acessórios, o que os caracteriza ainda mais como neonazistas.

Apesar de ainda ser um problema para as cidades norte-americanas, que se orgulham de possuírem liberdade de expressão e são, ao mesmo tempo, repressivas com os grupos que por lá aparecem, a KKK ainda se faz presente no imaginário popular. Hoje parece mais um item que se conta nas histórias para deixar as crianças com medo antes que adormeçam. Porém, com essa nova forma e conteúdo, essa sociedade secreta continua a atrair pessoas que, sem saber de seu passado violento, procuram-na com esperanças falsas de expulsar "o invasor de suas terras", seja ele qual for.

AS ORIGENS DO TRIPLO K

Por mais que se fale na KKK, poucos conhecem seu passado ou mesmo sabem apontar o período em que estiveram em maior atividade. É necessário esclarecer que existiram alguns grupos mais antigos que usaram este nome e construíram a mitologia da KKK com o passar dos anos. O grupo original foi criado em 1865 por veteranos do exército confederado sulista, que saiu como perdedor no final da Guerra de Secessão (1861-1865). Seu propósito era restaurar a supremacia branca no período seguinte ao da guerra civil entre os Estados do norte e do sul dos Estados Unidos, que resultou na libertação dos escravos negros que trabalhavam nas lavouras sulistas. O berço da KKK foi a cidade de Pulaski, no Estado do Tennessee.

Os envolvidos na criação da KKK queriam "apenas" se divertir um pouco ao assustar os negros recém-libertados. Como eles eram do exército perdedor, favorável à escravidão, pensaram em fazer uma espécie de provocação tanto para os libertados quanto para os vencedores do norte. Assim, criaram algumas regras, esboçaram alguns rituais sem nenhuma base esotérica e logo partiram para criar seu primeiro nome oficial: kuklos, palavra grega que significa círculo.

A maioria dos primeiros participantes da KKK era de origem escocesa, cuja cultura estimula a organização em famílias ou clãs. Dessa forma, o nome evoluiu para a forma atual ao separar a palavra kuklos, que gerou Ku Klux por aproximação de pronúncia, mais a palavra clan (clã, em português), que se tornou Klan. Foi assim que nasceu o temido triplo K.

Uma referência aos mortos na Guerra Civil Americana é uma das razões que explica os trajes brancos da KKK. Eles queriam representar os espíritos dos soldados que morreram em combate



Em 1867, apenas dois anos após a criação da KKK, o grupo já possuía cerca de 500 mil associados





Assim como o nome do grupo, o uniforme branco tradicional da KKK surgiu também no final do século XIX. Há duas versões para a história da origem da vestimenta. A primeira diz que os membros apenas se aproveitaram de velhos hábitos religiosos de cor branca, modificaram-nos e passaram a usá-los com uma máscara branca. A bata mais o capuz davam o aspecto tosco que os integrantes queriam para amedrontar os negros. Já a segunda, conta que os fundadores da KKK pensaram em um traje específico, que teria sido criado por eles.


A "união branca", que tinha como slogan The Union as it was, the Constitution as it is (em tradução literal: A União como ela foi, a Constituição como ela é), retrata no brasão uma família negra e o título: pior que a escravatura

Os membros da organização queriam parecer fantasmas, ou melhor, espíritos dos confederados mortos na Guerra de Secessão, que voltaram para atormentar os negros. Naquela época, os partidários da KKK usavam de tudo para aterrorizar os ex-escravos, desde ossos de esqueletos ocultos sob as vestes, que serviam para apertar as mãos dos libertados, até abóboras recortadas no melhor estilo Halloween, que lembravam a lenda do cavaleiro sem cabeça.

DE BRINCADEIRA DE MAU GOSTO A CRIME

Em pouco tempo, o que seriam apenas brincadeiras de mau gosto tornaram-se crimes violentos. Para se ter uma idéia, em 1867, apenas dois anos após a criação da KKK, o grupo já contava com cerca de 500 mil associados.

Embora o motivo de assustar os ex-escravos pareça até ser ponto tolo para justificar a criação de uma das mais perigosas e perversas sociedades secretas da História, outros objetivos foram posteriormente acrescentados e causaram uma alta na popularidade do grupo. Além de serem libertados, os ex-escravos também ganharam direito a voto, porte de armas e a freqüentar estabelecimentos de ensino. Isso foi o suficiente para que a KKK começasse a voltar seus olhos para os políticos que, de uma forma ou de outra, estavam ligados a essa nova situação. Um dos primeiros a sofrer um ataque do gênero foi o congressista James Hinds, assassinado por representantes do grupo em 1868, apenas por ter sido um dos responsáveis por uma lei que igualava negros e brancos.

Devido ao assassinato de Hinds, muitos dos klansmen, como ficaram conhecidos os integrantes da KKK, acabaram sendo enviados para a cadeia no ano seguinte. Pouco depois, saiu uma declaração oficial do governo norte-americano que condenava a KKK como um grupo terrorista. Quando a confraria foi extinta, após a aprovação de uma lei anti-KKK, pelo senado dos Estados Unidos, a organização já havia deixado um rastro que acumulava 4.600 vítimas.


Cena do filme Nascimento de uma Nação (Birth of a Nation, 1915). A obra engrandece a escravatura e faz apologia à Ku Klux Klan


A SEGUNDA VERSÃO DA KKK

No início do século XX, quando todos pensavam que a famigerada sociedade secreta racista estava banida para sempre, eis que ela ressurge das cinzas graças ao filme mudo O nascimento de uma nação (The birth of a nation, de 1915), baseado no livro The clansmen, de 1905, de autoria de Th omas Dixon Jr. Esse filme, dirigido pelo norteamericano D.W. Griffin, marcou o renascimento da KKK, já que abordava a segregação racial e tratava os integrantes do grupo como heróis.

Só que dessa vez o grupo não surgiu para fazer brincadeiras. A coisa começou a tomar um novo corpo quando um antigo pregador metodista, chamado William Joseph Simmons, trouxe a KKK de volta à ação em 1915, depois de assistir ao filme O nascimento de uma nação. Segundo depoimento dele mesmo, registrado em alguns livros sobre o assunto, Simmons teve uma "revelação" em um dia do ano de 1901, quando viu uma nuvem passar por sua casa e transformar-se em um grupo de cavaleiros vestidos de branco. Foi essa mesma visão que teria passado a ele uma mensagem para que "libertasse a América dos estrangeiros".

A KKK também perseguiu judeus, católicos, pacifistas e até comunistas. Nem os sindicatos trabalhistas escaparam do grupo

Após 1915, quando o filme de Griffin estreou, o clima de ufanismo que a produção provocou nas pessoas, aliado ao medo que o povo tinha da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conflito que se desenrolava na Europa, proporcionou um terreno seguro para que se iniciasse um programa de recrutamento. Nessa época, a KKK voltou com força total, mexendo com a opinião pública e jogando parte da população contra os negros. A KKK também perseguiu judeus, católicos, pacifistas e até comunistas. Nem os sindicatos trabalhistas escaparam. Como na primeira versão da KKK, o grupo condenava a suposta corrupção de costumes e as tentativas de apoderação do país pelos ex-escravos.

CRUZ, FOGO E SUPREMACIA BRANCA

As características que acabaram se tornando marcas registradas da KKK surgiram durante a segunda versão do grupo. Uma dela foi a utilização da cruz em chamas. Além do significado óbvio, que é o de repudiar a noção de que somos todos iguais perante Deus, a cruz também servia como um enorme poste de iluminação, já que na época ainda não existia iluminação pública suficiente. Além disso, o símbolo era facilmente avistado a quilômetros de distância e sua vista inspirava o medo em todos aqueles que eram suas vítimas em potencial.

Funeral de um membro permanente da seita. Os funerais da KKK mobilizavam parte das cidades sulistas. No dia, nenhum dos associados do grupo deveria trabalhar

De acordo com a literatura especializada, uma das características mais impressionantes da KKK era a capacidade que seus integrantes tiveram de se organizar de forma complexa em pouco tempo. Foi estabelecido um organograma de acordo com uma hierarquia que definia as diferentes filiais em atividade, bem como um regulamento próprio.

Cada Estado onde a KKK atuava passou a ser governado por um "grande dragão", enquanto cada distrito era tratado como um domínio, controlado por um "grande titã". Cada condado, ou província, ficava sob a autoridade de um "grande gigante". O conjunto das atividades do grupo era conhecido como o Império Invisível, controlado por um líder supremo, chamado de "grande mago" ou "grande feiticeiro", cujo primeiro nome foi o de Nathan Bedford Forrest, um ex-general confederado que liderou a primeira fase da KKK, ainda no século XIX. As funções mais modestas eram realizadas por aqueles que ganhavam títulos menos nobres, como "grande monge", "grande escriba" ou "grande turco".

A própria filosofia nacionalista extremista da KKK foi definida já na primeira versão. O objetivo de cada klansmen era "a manutenção da supremacia da raça branca na república". Os integrantes faziam questionamentos absurdos como "os negros são verdadeiramente homens?" e utilizavam argumentos teológicos rudimentares como "o Criador, nos elevando dessa forma acima do nível ordinário dos humanos, quis nos dar, sobre as raças inferiores, um poder que nenhuma lei humana pode nos retirar de maneira permanente".

A NOVA GERAÇÃO DE UM VELHO ÓDIO
Em pleno século XXI há grupos que defendem a supremacia branca e perseguição racial. Para piorar, os bandos não se restringem aos Estados Unidos e se espalham pelo resto do mundo


A organização Imperial Klans of America (IKA) é um dos cerca de 180 diferentes grupos que afirmam ser os verdadeiros descendentes da KKK. O grupo já foi inclusive assunto de um documentário do National Geographic, e anuncia isso com orgulho em seu site oficial. Mas ao contrário das túnicas e dos capuzes brancos da KKK, os uniformes que os integrantes da IKA usam são de estilo militar, com estampas camufladas. Além disso, em suas reuniões, a IKA costuma debater assuntos nórdicos, misturados com supostas questões de cunho social importantes para um WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant ou Branco, Anglo- Saxão e Protestante). Tudo decorado com cruzes e suásticas em chamas.

Mas os integrantes do IKA não são os únicos a pregar idéias racistas em pleno século XXI. Há outros grupos, como o Nationalist Movement (Movimento Nacionalista) fundado no Mississippi, em 1987, por Richard Barrett, um advogado anti-semita que é veterano da Guerra do Vietnã; o Hammerskins, que surgiu em 1988, baseado no Texas, organiza shows de punk rock e tem seu logo inspirado no filme The Wall, da banda inglesa Pink Floyd; e a National Alliance (Aliança Nacional), criada em 1989, em Hillsboro, cidade da Virgínia Ocidental, um dos grupos mais segregacionistas dos Estados Unidos, cujos membros glorificam Adolf Hitler.

Esse fenômeno de organizações defensoras da supremacia branca não se restringe aos Estados Unidos. A internet ajudou a divulgar esses grupos nos quatro cantos do mundo e também a criar similares, como a Unidade Nacional Russa (na Rússia); a Liga Jovem Patriótica (na Austrália); o Partido do Povo Britânico (no Reino Unido); o Grupo de Limpeza Étnica Canadense (no Canadá); e o Fronte Nacional (na Nova Zelândia). Todos com visuais militares, jaquetas pretas, capacetes com cruzes e suásticas, entre outros adereços.


UM SÍMBOLO QUE PERSISTE


Bandeira do Mississippi remete ao passado escravista do Estado


A bandeira do Estado do Mississippi apresenta em seu canto superior direito o símbolo dos confederados do sul da Guerra da Secessão (1861-1865), que defendiam a permanência da escravidão. Em abril de 2001 houve um plebiscito para mudar o desenho para o apresentado do lado direito. No entanto, 65% dos votos foram favoráveis à tradição e a bandeira continuou a mesma.

As letras marcadas na pele do homem acima são cicatrizes e ilustram a crueldade dos castigos da KKK. As pessoas que renegavam a fé protestante eram perseguidas e castigadas pelos membros da seita

AUGE E DECLÍNIO DOS CAVALEIROS FANTASMAS

A década de 1920 representou o auge da KKK. Nessa época, o grupo tornou-se uma força considerável dentro do cenário político-financeiro dos Estados Unidos. Era uma espécie de estadomaior, cujos representantes guiavam seu exército pelo país, organizando conferências e ajudando outras células do grupo a se organizarem.

Os números que envolvem o grupo nesse período são estarrecedores: eram cerca de 4 milhões de membros e mais de 60 uniformes brancos eram confeccionados diariamente. Os dirigentes da KKK, como era de se esperar, tornaram-se pessoas ricas. O "imperador" chegou a mandar erguer um "palácio imperial" na cidade de Atlanta, na Geórgia. As contribuições eram distribuídas da seguinte forma: a cada US$ 10 arrecadados, US$ 6 seguiam para a sede da KKK, enquanto US$ 4 ficavam com o recrutador. Mesmo entre o meio político, o poder de penetração do grupo era grande: 11 governadores e um grande número (não especificado) de senadores.

Porém, apesar de todo esse poder, o declínio começou para a KKK quando o chefe do grupo do Estado de Indiana, David Stephenson, foi preso, em 1925, acusado de estuprar uma professora. As autoridades conseguiram provas que indicavam que a sociedade secreta estava envolvida com esquemas pesados de corrupção, tão amplos que chegavam a envolver autoridades como o prefeito de Indianápolis, cidade localizada no condado de Marion, em Indiana.

No final da década de 1930, o grupo passou por mais uma fase de decadência, causada principalmente pelo acúmulo de vários processos, escândalos financeiros e discussões internas. A KKK perdeu presença perante a opinião pública e o total de associados caiu de 4 milhões para 30 mil pessoas.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a situação do grupo complicou-se ainda mais porque, com a posição oficial dos Estados Unidos ao lado dos países aliados (França, Reino Unido e União Soviética), os americanos colocaram-se oficialmente contra as idéias totalitárias, extremistas e racistas do führer alemão Adolf Hitler. Especialistas e historiadores norte-americanos afirmam que a aproximação da KKK com o nazismo (e por conseqüência dos neonazistas) já era notável na década de 1930. Mas a simpatia foi abruptamente encerrada devido ao ataque japonês, um aliado da Alemanha, à base americana de Pe arl Harbor, no Pacífico, em dezembro de 1941.

Quanto à queda definitiva da segunda fase da KKK, há certas divergências entre os pesquisadores. Uma versão afirma que a KKK, já agonizante, teria sido encerrada de vez em 1944 por causa de dívidas internas. Outra versão afirma que o motivo da decadência na década de 1940 foi a propagação de idéias contra a perseguição racial, após a Segunda Guerra Mundial, e a Declaração dos Direitos Humanos, em 1948.

No entanto, nos anos 1950, o surgimento de leis nos Estados Unidos contra a segregação em escolas e locais públicos, além da xenofobia por causa dos imigrantes do pós-guerra, parece ter dado novo fôlego à KKK. Nessa época, surgiu o que pode ser chamado de terceira versão do grupo, que parece existir ainda hoje.

Para se ter uma idéia da força desses remanescentes da KKK, apenas nos Estados do Alabama, Mississippi e Geórgia, são visados, entre 1954 e 1966, igrejas católicas, líderes sindicais e todos aqueles que se manifestavam a favor dos direitos civis. Em 1964, um atentado de autoria da KKK resultou na morte de três defensores dos direitos civis. O episódio foi retratado no filme Mississippi em chamas.

O QUE É A KKK ATUALMENTE?

A maior parte dos veículos de mídia hoje em dia insiste que a KKK, com seus mantos brancos e capuzes fantasmagóricos, é coisa do passado. Uma prova irrefutável da conquista de uma sociedade norte-americana menos preconceituosa racialmente é a chegada de Barack Obama ao posto de presidente do país. Contudo, em novembro de 2008, Th omas Robb, um pastor protestante que se auto-intitula diretor da KKK, declarou após a vitória do democrata que o novo presidente era "só metade negro".

Thomas Robb, um pastor protestante e membro da KKK, avisa que é hora de o povo branco se unir contra aqueles que odeiam seu modo de vida, fazendo uma alusão direta à eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama

A informação foi veiculada no site oficial do grupo, em um texto assinado por Robb e intitulado América, nossa nação está sob o julgamento de Deus (America, our nation is under judgement from God). Na declaração, Robb afirmou, entre outras coisas, que "Barack Obama se tornou o primeiro presidente mulato dos Estados Unidos, e não negro, já que ele não foi criado em um ambiente negro. Ele foi criado por sua mãe [branca]".

Segundo o dirigente da KKK, com o resultado da eleição mais visada do mundo, o "povo branco [dos Estados Unidos] vai perceber que é hora de se unir contra aqueles que odeiam seu modo de vida - estrangeiros e negros". E Robb continua: "essa eleição de Obama nos chocou? Nem um pouco! Nós vínhamos avisando ao nosso povo que, a menos que os brancos se juntassem, seria exatamente isso que aconteceria". Em resumo, para a KKK, a votação de Obama não foi uma disputa marcada entre liberais e conservadores, mas sim "uma guerra racial e cultural, travada contra o povo branco".

A polícia do Estado de Michigan chegou, durante a campanha eleitoral, a abrir uma investigação para determinar a autoria das marcas feitas com tinta spray em um outdoor pertencente à campanha de Obama. Nas placas, foram desenhadas suásticas e símbolos da KKK, o que sugere que a sociedade secreta não está completamente morta.

REFERÊNCIAS

BRAUDEL, Fernand. A history of civilizations. NY, Penguin Books, 23rd ed, 1995
COGGIOLA, Osvaldo. A revolução iraniana. São Paulo, Ed. Unesp, 2007
HALLIDAY, Fred. Islam and the myth of confrontation. London/NY I.B Tauris, reprint, 2003
HUNTINGTON, Samuel P. O choque das civilizações. SP, Objetiva, 1997
VIZENTINI, Paulo Fagundes. Oriente Médio e Afeganistão - um século de conflitos. Porto Alegre, Leitura XXI, 2002

SÉRGIO PEREIRA COUTO é jornalista e autor de mais de 20 títulos, entre eles Sociedades secretas - o submundo, Investigação criminal e livros de pesquisa como Segredos da Cabala, Códigos e cifras: da Antiguidade à era moderna e Segredos e lendas do rock.

Revista Leituras na Historia

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

As muitas vidas da Ku Klux Klan

A organização racista nasceu após a Guerra de Secessão, mas seus fantasmas assombram até hoje os Estados Unidos.
por Paul-Eric Blanrue



Membros da Ku Klux Klan desfilam em Washington, na Pennsylvania Avenue, próximo ao Capitólio ( ao fundo), em 1928.

Estamos em 1865. Em um sul devastado, arruinado pelo desemprego e pela miséria, jovens veteranos da confederação sulista, o conjunto de estados que se separou da união, inventam algo para passar o tempo.

No dia 24 de dezembro, em Pulaski, obscuro centro administrativo do Tennessee, seis deles - Calvin Jones, Frank McCord, Richard Reed, John Kennedy, John Lester e James Crowe - se reúnem para fundar uma associação. Nada de política. A idéia era apenas prolongar a fraternidade das armas. Respeitando a tradição dos clubes de estudantes, os colegas batizaram a comunidade com um nome cercado de mistério.

Egresso do center college do kentucky, kennedy adotou a palavra grega kuklos, que significa "círculo". Crowe a dividiu em dois e mudou o final, chegando a "ku klux". Observando que os fundadores eram de origem escocesa, lester propôs acrescentar ao nome uma evocação ao "clã", em harmonia com a ortografia adotada. Crowe achou divertida a idéia de fantasiar os membros, assim como seus cavalos, com panos e capuzes roubados da casa de seus hóspedes. Assim nascia a ku klux klan.

O que começou como uma brincadeira logo mudou de natureza. Os desfiles mascarados, realizados pelos seis amigos, tinham como objetivo aterrorizar os negros, sem instrução e supersticiosos, que acreditavam cruzar com os fantasmas dos confederados mortos em combate. Instrumentalizavam, portanto, o medo do além. Os sulistas empobrecidos viram nisso uma oportunidade de trazer de volta para o trabalho nas plantações os 4 milhões de negros que Abraham Lincoln tinha liberado com a Proclamação da Emancipação de 1o de janeiro de 1863. Não precisava de mais nada para os encapuzados seguirem com sua perseguição. Sob o pretexto de manter a ordem, divertiam-se em aterrorizar os negros, utilizando diversos dispositivos para dar credibilidade a seus poderes sobrenaturais: ossos de esqueletos escondidos sob os tecidos com que se cobriam, para apertar a mão dos antigos escravos alforriados, abóboras habilmente recortadas, que colocavam e retiravam rapidamente, para evocar a lenda do cavaleiro sem cabeça etc.

A Klan adquiriu, assim, uma sólida notoriedade na região. Para evitar as denúncias, o segredo se tornou um componente essencial da pequena comunidade, ajudado pelo anonimato garantido pelo capuz e reforçado pelo uso de títulos esotéricos e ritual iniciático: numa seleção impiedosa, o infeliz candidato a membro era punido por sua curiosidade, sendo fechado em um tonel e empurrado para rolar de um barranco.

Tentados pela perspectiva de aplicar, impunemente, trotes contra negros, candidatos das cidades vizinhas afluíam. Os de Athens, no Alabama - onde os professores do Norte tratavam os alunos negros em igualdade com os brancos -, foram os primeiros a introduzir o castigo físico, ao mergulhar numa fonte gelada um negro que viram montar a cavalo com uma professora. Em menos de um ano, os "Atenienses" foram seguidos por centenas de outros grupos mais ou menos autônomos. Quanto mais a Klan se desenvolvia, mais a gama de violências aumentava. No começo de 1867, em Nashville, no Texas, o núcleo de Pulaski, sentindo-se ultrapassado pelos acontecimentos, tentou retomar o controle das operações. Adotou uma proclamação dos princípios fundamentais da Klan, definidos como uma "instituição cavalheiresca, humanitária, misericordiosa e patriótica". Estipulou-se um organograma - um tipo de hierarquia medieval fantasiada, que estabelecia diferentes filiais. Foram redigidos o regulamento e as dez questões colocadas aos postulantes. Cada estado tornou-se um reinado governado por um Grande Dragão; cada distrito era um domínio, dirigido por um Grande Titã; cada condado ou província ficava sob a autoridade de um Grande Gigante. Tudo constituía o "Império Invisível", dominado pelo Grande Feiticeiro. As funções mais modestas eram ligadas a títulos como Grande Monge, Grande Escriba ou Grande Turco.

O dever sagrado de qualquer klanista era "a manutenção da supremacia da raça branca na república". Um objetivo justificado pela sacrossanta "psicologia" (os negros são verdadeiramente homens?) e por uma teologia rudimentar: "O Criador, nos elevando dessa forma acima do nível ordinário dos humanos, quis nos dar, sobre as raças inferiores, um poder que nenhuma lei humana pode nos retirar de maneira permanente". Corolário político: apesar de jurar fidelidade à Constituição americana, da qual se vê herdeiro exclusivo, por ser branco, o klanista prestava juramento de "se preservar" das leis do governo federal, cujo poder era declarado "arbitrário e ilícito". A ruptura com a legalidade foi, assim, consumada. A Klan se tornou um contrapoder clandestino. Sustentada pela maioria dos brancos do Sul e composta por "tipos incômodos" recrutados em todas as classes sociais, a Klan devia sua eficácia sobretudo a seus altos dignitários, dos quais a maior parte eram antigos oficiais confederados. Previsto para ser o primeiro Grande Feiticeiro da KKK, o general Robert Edward Lee, ex-comandante-chefe dos exércitos do Sul, declinou o convite, mas aceitou ser o presidente "invisível".

Para a presidência efetiva designou, em 1867, outra estrela lendária, o general Nathan Bedford Forrest. Ele havia acumulado uma fortuna como mercador de escravos e suas tropas massacraram os soldados negros que se renderam em Fort Pillow, aos gritos de "Matem os negros!". Era o homem de que a Klan precisava. Uma de suas manobras consistiu, em 1869, em proceder à dissolução solene da organização. Na realidade, Forrest blefava e sua intenção era colocar o "Império" numa clandestinidade cada vez maior.

Ondas da violência
As atividades da Klan eram invariavelmente baseadas no racismo. Uma delas, pouco conhecida, era de ordem eleitoral. Consistia em obrigar os negros, por meio de visitas-surpresa no meio da noite, acompanhadas por chibatadas e ameaças de morte, a votar pelos democratas (os republicanos eram assimilados aos inimigos do Norte) ou a se abster. A estratégia era considerada rentável, já que o eleitorado negro dava, pouco a pouco, seus votos para as listas sustentadas pela Klan. A organização também declarou guerra ao arsenal de liberdades concedidas aos negros, principalmente a livre associação. Um certo número deles aderiu à Loyal League, que cultivava o pensamento igualitário de Lincoln e autorizava seus membros, a partir de 1867, a portar armas. Isso era algo impensável. Durante o primeiro semestre de 1868, o Grande Feiticeiro percorreu seus estados convocando para a mobilização.

Cada uma de suas passagens era seguida por uma onda de violência. Respondendo a um jornalista de Cincinnati, Forrest explicou: "Os negros faziam reuniões noturnas, iam e vinham, tornando-se extremamente insolentes, e todo o povo do Sul, em todo o estado, estava muito preocupado". Ele se resguardou de condenar a justiça de seus próprios militantes, que, em nome da "preocupação" dos cidadãos americanos, tiravam ilegalmente prisioneiros negros de suas celas para pendurá-los em árvores.

A Klan atacava os negros que tinham conseguido juntar alguns bens no pós-guerra, em nome do raciocínio segundo o qual eles eram preguiçosos, inconstantes e economicamente incapazes e, por natureza, destinados à escravidão. Esse foi o caso de Perry Jeffers, instalado com a mulher e sete filhos numa plantação da Geórgia como meeiro. Ele gozava de uma excelente reputação junto a seu patrão. A Klan decidiu fazer com que ele pagasse por seu sucesso. Um dos filhos de Jeffers respondeu ao ataque. Resultado: uma morte do lado da Klan. Na ausência de Jeffers, os "cavaleiros" da Klan voltaram com reforço. Enforcaram sua mulher, fuzilaram e depois queimaram o filho mais novo numa fogueira. Por sorte, a esposa foi salva da agonia por um médico - depois assassinado pela Klan. Aterrorizado, Jeffers tentou fugir para a Carolina do Sul. Pegou o trem com os filhos, mas o vagão em que estava foi invadido por klanistas, que o forçaram a descer na última parada da Geórgia.

Algumas horas depois, foram encontrados os cadáveres, crivados de balas. Na história da Klan, contavam-se mortes desse tipo às centenas. A Klan "mantinha a ordem". Natural e social.

Outro alvo privilegiado eram os funcionários ianques, ou seja, do Norte, e mais precisamente os professores que, vindos dali, davam aulas para os negros nos estados do Sul. Perigo terrível: se os negros se instruíssem, o retorno à época de ouro da escravidão seria impossível, pensavam. Toca-se aqui no calcanhar-de-aquiles da doutrina klanista. Temer a instrução dos negros era admitir, no fundo, que estes tinham em si as mesmas capacidades dos brancos. Tudo poderia ser, então, uma questão de instrução e nível social. Os jovens professores eram considerados traidores, responsáveis pela decadência. Daí os insultos e cartas ameaçadoras que começaram a aparecer: "Antes do fim do próximo quarto [de lua], desapareça, professor ímpio de negros! Desapareça antes que seja tarde! O castigo o espera com tais horrores que nenhum homem poderá sobreviver". No Mississipi a repressão atingiu seu maior grau: escolas incendiadas, mestres roubados, assassinatos.

Muitos se foram. Alguns idealistas permaneceram. O diretor da First Coloured School, John Dunlap, era um deles. Mas não por muito tempo: "Havia mais ou menos cinqüenta homens a cavalo armados com pistolas. Eles estavam todos mascarados.

(...) Apareceram diante da minha porta por volta das dez horas da noite (...) Atiraram duas vezes em mim através da janela". Os klanistas o seqüestraram e o levaram para um lugar a vários metros dali. "Eles me colocaram de pé no meio da estrada e me fizeram baixar as calças, tirar a camisa, depois enrolaram-na em minha cabeça.

Então, exceto oito entre eles, cada um me deu cinco chibatadas. Sempre a mesma chantagem: o chefe disse que não me bateria mais se eu saísse do estado." Dunlap foi embora.

A Klan não recuava diante de nada. Tratou de liquidar até o senador republicano Stephens, apunhalado em pleno tribunal. Diante de tais excessos, o governo decidiu reagir firmemente. Em 20 de abril de 1871, o presidente Ulysses S. Grant assinou um ato draconiano, que colocava o grupo na ilegalidade. Autorizava, inclusive, o uso da força para dissolver núcleos de associados. Seis meses mais tarde, foi decretada a lei marcial em nove condados da Carolina do Sul. Membros do exército denominados Azuis foram enviados para lá, imediatamente, e realizaram milhares de prisões. Por falta de provas, a maioria dos detentos foi solta, mas a derrota foi dolorosa. Para escapar à perseguição, os membros da Klan se espalharam em novos organismos: White League, Shot Gun Plan, Rifle Club. Mas a Klan original, mesmo, foi aniquilada.

Sono de meio século
Para os rebeldes do Sul, nostálgicos exaltados, os klanistas adquiriram logo o status de heróis românticos. O retorno à atividade política aconteceria por uma via inesperada: o lançamento, em 1915, do filme O nascimento de uma nação, de D. W. Griffith, baseado em romance de Thomas Dixon. Nessa obra o diretor, segundo afirma o guia de filmes de Jean Tulard, "não esconde a simpatia pelos sulistas e toma abertamente partido pela Ku Klux Klan". O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, apoiou o filme. Para um de seus espectadores, William J. Simmons, era uma revelação. Originário do Alabama, veterano da guerra contra a Espanha, pregador metodista, representante comercial e associado a diversas sociedades maçônicas, Simmons tirou proveito do sucesso do filme e do descontentamento popular devido às imigrações recentes para relançar a KKK. No dia de Ação de Graças de 1915, aquele que se autoproclamava "coronel" reuniu alguns fiéis no cume da Stone Mountain, a leste do Alabama. Ele incendiou uma imensa cruz de madeira: "Eis o Império invisível tirado de seu sono de meio século".

A Klan em "novo formato" retomou a receita que fez o sucesso do antigo: supremacia branca e racismo antinegro. E acrescentou a rejeição ao catolicismo, considerado invasor. A imigração recente incitava a cultivar o anti-semitismo e a xenofobia. Mas esse renascimento parecia bastante com uma operação comercial. Cada associado pagava uma cotização, tinha uma apólice de seguro, comprava sua veste de klanista etc. Com o capitalismo, o "espírito do Sul" se perdeu no caminho. E depois, sobretudo, contrariamente à antiga Klan, o Grande Feiticeiro tentou legalizar a estrutura - e não hesitou em propor seus serviços ao poder público: os fundadores da Klan original devem ter se remexido em suas tumbas.

No entanto, a KKK só se desenvolveu realmente a partir de 1920, com a entrada em cena de dois novos associados de Simmons, o ex-jornalista Edward Clarke e a rica viúva Elizabeth Tyler. Objetivo: desviar, em seu favor, a forte corrente isolacionista que atravessava o país. A América, antes de tudo. Especialista em organização e publicidade, Clarke tornou-se chefe do estado-maior. Ele fixou o quartel-general em Atlanta, reinstaurou, grosso modo, as antigas subdivisões e o ritual clássico de iniciação, multiplicou os desfiles em que queimava cruzes, deu um salário aos que exerciam uma função no seio da Klan.

Em um ano, o Sul foi "reconquistado" e, novidade, o Norte - onde os negros pobres se espremiam nos bairros suburbanos - ficou seriamente tentado, em particular os estados de Indiana, Oklahoma e Oregon. Republicanos e burgueses das cidades ficaram seduzidos. Estima-se que o número de klanistas logo chegou a cinco milhões. Como numa holding, a Klan aproveitou o apoio popular para diversificar suas atividades: publicou jornais e folhetos, comprou imóveis, assumiu o controle da Lanier University. Alcoólatra, Simmons foi deposto e substituído pelo dentista franco-maçom (32.° grau) Hiram W. Evans, de Dallas, que se tornou Feiticeiro Imperial e aproveitou igualmente para expulsar Clarke e Tyler.

Em 1924, durante a renovação do corpo legislativo, 11 governadores e diversos senadores receberam a investidura da Klan. Triunfo. O QG mudou-se para Washington. No ano seguinte, uma lei restringindo a imigração foi votada. Para demonstrar sua força, a Klan organizou um desfile monstruoso na capital. Mas o entusiasmo não tardaria a cair de novo. Fortalecido pela relativa neutralidade da polícia e pelo apoio de diversos magistrados locais, a Klan, copiosamente armada, multiplicou seus atos de crueldade. Os "negros" que a organização caçava, ou aqueles que se confraternizavam com eles, homens da lei - políticos e pastores incluídos -, tinham os cabelos raspados, eram marcados na testa com as três iniciais klânicas, açoitados ou ainda cobertos por asfalto, no qual enfiavam-se plumas. Apresentando-se como guardiã da moralidade pública, a Klan punia as mulheres adúlteras, os médicos charlatões, as prostitutas e os marginais. O cenário era repleto de crimes assustadores, como o de "justiçados" moídos por um trator.

Lei antimáscara
Como reação, a Louisiana votou uma lei antimáscara (proibição de usar máscaras fora do Dia de Todos os Santos e do carnaval), adotada em seguida por outros estados. A perda de respeitabilidade da KKK, unida a divisões internas, levou à degradação de seu público, apesar de a organização continuar a realizar expedições punitivas, desempenhando por exemplo o papel de supervisora de uma agremiação de patrões contra os sindicalistas, cuja cota estava em alta depois da crise de 1929.

Nos anos 1930, o nazismo exerceu uma certa atração sobre a KKK. Não passou disso, porém. A aproximação com germanistas foi bruscamente encerrada na Segunda Guerra Mundial, depois do ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, quando muitos membros se alistaram no exército para lutar contra o "perigo amarelo". Só faltava o tiro de misericórdia ao império invisível. Em 1944, o serviço de contribuições diretas cobrou uma dívida da Klan, pendente desde 1920. Incapaz de honrar o compromisso, a organização morreu pela segunda vez.

Apesar de diversas tentativas de ressurreição (num âmbito mais local que nacional), a KKK não obteve mais o sucesso de antes da guerra. As mentalidades evoluíram. A ameaça de crise estava a partir de então descartada, tendo o soldado negro mostrado que era capaz de derramar tanto sangue quanto o branco. Finalmente, o "traidor" Stetson Kennedy contribuiu para desmistificar a organização, liberando todos os seus segredos no livro Eu fiz parte da Ku Klux Klan. Alguns klanistas ainda insistiram e suscitaram, temporariamente, uma retomada de interesse entre os WASP (sigla em inglês para protestantes brancos anglo-saxões) frustrados, que não compunham mais a maioria da população americana.

Nos anos 1950, a promulgação da lei contra a segregação nas escolas públicas despertou novamente algumas paixões, e cruzes se acenderam. Seguiram-se batalhas, casas dinamitadas e novos crimes (29 mortos de 1956 a 1963, entre eles 11 brancos, durante protestos raciais). Os klanistas tentaram se reciclar no anticomunismo, combatendo os índios ou atenuando seu anticatolicismo fanático.

Mas nada surtiu grande efeito e o declínio da Klan já tinha começado desde o fim dos anos 1960, época em que só contava com algumas dezenas de milhares de membros. Depois, podia-se tentar distinguir os Imperial Klans of America dos Knights of the Ku Klux Klan, ou ainda dos Knights of the White Camelia, alguns dos vários nomes das tentativas de ressurgimento. Mas os klanistas não eram mais uma organização de massa. Apesar das proclamações tonitruantes e de provocações episódicas, as "Klans" não reuniam mais do que alguns milhares de membros, comparáveis assim com outros grupelhos neonazistas com os quais às vezes mantinham relações. O império invisível não parece estar perto de renascer uma segunda vez.

-Tradução de Graziella Beting

Revista Historia Viva