quinta-feira, 30 de abril de 2009

Salvem os porcos!


Manual do tempo do Império alertava o país para um problema urgente: os suínos estavam ameaçados de extinção
Fabiano Vilaça

“O porco é o animal que simboliza a falta de asseio, mas porventura é menos asseado do que o cavalo, o cão e outros animais? Certamente que não; se estes animais andam limpos é porque têm quem os trate, quem os lave”. O autor desta frase não estava preocupado apenas em limpar a imagem do porco. Sua missão era maior e mais urgente: salvar os rebanhos de suínos do Brasil.

Isso mesmo. Houve um tempo em que a carne de porco perigava desaparecer da mesa dos brasileiros. Esta constatação levou Joaquim Antônio d’Azevedo, presidente da Seção de Melhoramento das Raças Animais da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, a escrever um Manual do tratamento dos porcos.

Publicado em 1861, o impresso encontra-se na Divisão de Obras Gerais da Biblioteca Nacional (apesar da classificação como obra rara) e traz um diagnóstico pessimista sobre a situação dos suínos no Brasil no século XIX. As primeiras palavras não deixam dúvida quanto à gravidade do problema: “A degeneração da raça suína é bem conhecida de todas as pessoas (...) e o clamor contra este mal é geral”. O esforço para afastar de vez a ameaça de desabastecimento da carne de porco precisava unir as diferentes esferas, do governo imperial às províncias. “A criação, a multiplicação e o aperfeiçoamento da raça suína” inspiravam cuidados, pois a carne do porco ocupava lugar de destaque no cardápio das populações urbanas e rurais, alertava o autor do Manual.

As soluções para a crise que se avizinhava não partiram do gabinete dos políticos do Império. A Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional foi criada em 1827 para promover todos os ramos da produção. Segundo a historiadora Lúcia Guimarães no Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889), o órgão tinha grande prestígio junto aos altos escalões do governo. Deve ter sido graças a este prestígio que a legação brasileira em Londres teve que se mobilizar para comprar alguns porcos da “bela raça inglesa Berkshire” e enviá-los ao Brasil. Ao contrário dos nossos, os suínos vindos da Corte de St. James eram fruto de cruzamentos perfeitos, que lhes garantiam grande vantagem na engorda. Eram pretos ou brancos, de “pernas curtas, formas arredondadas, cabeça pequena, focinho pontagudo (sic), orelhas direitas e longas”. Um bijou! A operação de salvamento dos suínos nacionais ganhou também a adesão pública de representantes da elite imperial, como D. Maria Henriqueta Carneiro Leão Leme, a marquesa de Paraná, e Antônio Clemente Pinto, o barão de Nova Friburgo, dono de várias fazendas na província do Rio de Janeiro e uma das maiores fortunas da época.

Mas de que adiantaria importar suínos de “boa estirpe” se os criadores brasileiros ignoravam as técnicas de criação e de cruzamento dos porcos? O Manual se preocupava em mudar esse quadro, e também em acabar com o “desleixo e a falta de instrução” dos criadores. Para isso, além do diagnóstico do caos em que viviam os rebanhos, Joaquim Antônio d’Azevedo indicou vários meios para “evitar a completa degeneração e desaparecimento” dos nossos suínos. Era preciso variar a comida, misturando sal e carvão, dar alimentos crus e cozidos para estimular o crescimento dos animais e lavar as vasilhas a cada troca de comida. A limpeza dos chiqueiros era fundamental. Nada de porcas paridas e leitões chafurdando na lama e na sujeira.

Hoje, as técnicas de criação evoluíram, a carne suína segue firme (e gorda) na dieta brasileira e os porcos vagam livres em diversos rincões. Nada parece lembrar o tempo em que alguns indivíduos se preocuparam com o futuro da raça. Se no século XIX existisse uma lista de animais ameaçados de extinção, os porcos, quem diria, estariam nela. E ocupando um lugar de destaque.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

2 comentários:

Marina-Emer disse...

Me parece muy bien el titulo de tu post" salven los cerdos" antes fueron las vacas...luego las gallinas ...ahora los cerdos...yo creo que antes esto no pasaba....ahora no se si es lo que comen los pobres animales o...no se yo veo la vida tan rara que ya no se ni que pensar
bueno un abrazo
Marina

Mirse disse...

Não uso carne na minha alimentação. Mas já tive fazenda e sempre atenta aos cuidados necessários com os animais, que por sinal dão um banho de exemplo no ser humano.

Soube através do Globo CiÊncia, que os suinos são os animais mais limpos, o que não significa que seus criadores os sejam. Até porque criou-se o mito de porcos na lama e tendo a lavagem como alimentação.

De qualquer forma deram a um surto de gripe o nome de gripe suina para que? Simplesmente para eliminar os suínos, que por sinal é o alimento proibido na cultura judaica.

Assim como os suínos, há um animal em extinção que ninguém quer saber de comentar, porque é feio e se alimenta de carniça.

O abutre não faz mal a ninguém. Espera pacientemente seu alimento, não devora nem faz presa. Mas só se fala nos ursos pandas e no mico leão dourado.

O poder como sempre degenera.

Parabéns pela postagem.

Abraços

Mirse