segunda-feira, 6 de abril de 2009

A RESISTÊNCIA FEMININA AOS MILITARES

"[...] eles me diziam que eu era um perigo, porque mulher não fazia nada, mas eu estava fazendo. Mulher é uma seda, é uma folha em branco [...]"

POR MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES

Revolução de 64: Em meio a tumultos e prisões nas manifestações, o movimento comunista agia em segredo, sob uma comunicação sem infraestrutura , mas eficaz em articular militantes sem deixar rastros para os oficiais de direita. Cargos de imprensa, como o de Maria Amélia, eram os mais estratégicos nos núcleos de ação e exigiam memória exemplar

Em 1964, quando houve o golpe militar, eu já me encontrava de um lado totalmente contrário dos militares, eu já estava vinculada com os movimentos de esquerda, partidos comunistas, sindicatos. Fiquei por volta de oito anos clandestina, constituí família, tive filhos. E em 28 de dezembro de 1972, eu saí de casa com meu marido e um companheiro de militância, que era um dirigente do partido comunista, Carlos Nicolau Danieli; nós saímos para encontrar outros companheiros, e também para comprar medicamento para o César [César Augusto Teles, marido] que se encontrava tuberculoso. Nós precisávamos de um medicamento que não era oferecido nos postos. A situação era muito difícil pra nós – a gente sentia a perseguição o tempo todo. No Sul do Pará estava se desenvolvendo a guerrilha do Araguaia, que tinha vínculo direto conosco, portanto, a perseguição no Araguaia refletia também na perseguição nas cidades. São Paulo, como todo mundo sabe, acabava sendo um centro de convergência da esquerda clandestino.


Então eram 18h, na Rua Loefgreen, Vila Clementino, quando nós paramos o carro. O Danieli já havia descido alguns minutos antes para encontrar um companheiro e nós fomos cercados por quatro carros, que pararam na nossa frente - eu não sei como eles apareceram ali – [...] era aquele momento em que tudo estava escurecendo. Eles cercaram os lados, desceram com metralhadoras na mão: ‘terrorista, terrorista, terrorista!’, gritaram. Vieram pra cima de nós, me tiraram do carro com meu marido, com a metralhadora em nossa cara. Eu saí de um lado e meu marido do outro. Nos colocaram em outro carro, abriram a porta e eu nem sei como, a porta deveria estar meio aberta, só sei que eles abriram e nos empurraram dentro do Opala verde, que tinha até uma sirene, tinha rádio de comunicação com o centro de tortura. A gente viu ele se comunicando.

[...] O Danieli estava sentado no banco de trás, claro que amarrotado, espremido porque eles eram homens truculentos, eram homens muito grandes, sabe aqueles homens que parecem gordos, grandes? E nós éramos muito jovens na época, daí parece que éramos menores. Nos sentíamos muito pequenos [...]. Mas eles falavam no rádio que haviam pegado gente grande, “prepara aí que aqui tem gente grande”, porque o Danieli era um.

SEDE DA OBAN, RUA TUTÓIA
[...] Eles pegavam o Danieli [já no centro da Operação Bandeirantes, onde eram realizadas torturas, à Rua Tutóia, capital paulista] e batiam muito nele. Eles espancavam com as mãos, com as armas, e eu me incomodei com aquilo, porque no primeiro momento eles me deixaram ali, solta no meio do pátio. Quando eu vi que tinha um homem que ficava em frente à porta aberta. Eu percebi que esse era o homem que gritava: ‘a porta está aberta, está aberta!’, com muita raiva. Eu pensei, talvez, se é que a gente consegue pensar naquela hora, que ele era o comandante, e depois eu constatei que era mesmo, era o Major Brilhante Ustra. Na época, chamava Doutor Silva, que nada mais era que o Major Carlos Alberto Brilhante Ustra [hoje coronel reformado], e eu me dirigi a ele, não sei para que, porque não fazia a menor diferença falar com ele ou deixar de falar, mas naquela hora eu fiz um apelo para pararem com o que estavam fazendo ao Danieli. Daí ele me deu o que tive a impressão de ser um soco, um safanão com a mão, com tanta força que me jogou em uma escada abaixo – ‘foda-se sua terrorista, você está matando nossos companheiros lá no Araguaia, foda-se sua terrorista’ – gritando com os comandantes como se eles fossem uns idiotas, porque ele tratava assim os comandantes, por deixar uma mulher chegar até a sua pessoa.

REFLEXOS DO ARAGUAIA


O cerco aos comunistas paulistas e de outros grandes Estados se apertou durante a Guerrilha do Araguaia. Era uma guerra popular encabeçada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que agiu clandestinamente entre 1966 e 1974, na tentativa de implantar o comunismo no País, a exemplo de China (1949) e Cuba (1959). Os conflitos se deram em 72, durante o governo de Garrastazu Médici (foto), nos arredores de Goiás, Pará e Maranhão, às margens do rio Araguaia.
[...] Lá dentro tinha um corredor, que tinha uma porta, bem forte, tipo de cadeia, toda de metal. Aqui tem uma escada para subir, e aqui tem uma salinha [desenhando com os dedos], o Danieli ficou na salinha, e eu e o César subimos para outras duas salas, cada um ficou em uma. E daí começam os gritos. Cada um de um lado sendo torturado. Um ouvia o grito do outro, o tempo todo. Eles torturavam a gente da mesma forma, com choques elétricos, pontapés... era com palmatória, com soco... daí vinha um soco no rosto. Arrancaram a minha roupa, eu estava despida, era tortura sobre tortura. Entravam equipes enormes e ficavam me torturando. E eles queriam gente grande - já tinham outros “peixes”, mas queriam todos. E o Danieli era o mais importante. E ele foi torturado até a morte. [...] Às vezes, quando você é torturado, você deseja que a morte venha logo para você não sofrer.

Eu tinha a sensação de que durou de dois a três dias a tortura. E eu acredito que no terceiro eu o vi morto – ele [ o Danieli ] não sobreviveu. [...] Enquanto isso eu era torturada [...], eles colocavam uma arma na minha cabeça e faziam roleta russa. Eles queriam me matar e eu não entendia o porquê, mas eu desmaiava, acordava, isso os deixava com raiva, eles me colocavam em um pau de arara, me batiam com o pau de arara, davam choque elétrico na vagina, no ânus, no seio, na boca, e nos ouvidos. E aquele lugar era quente, dava muita sede, deixava a gente desidratada, e quando eu pedia um copo de água, eles vinham com um copo de água cheio de sal, e eu não conseguia beber, só provava. Eu me urinava o tempo todo, ficava toda urinada.

Lembro que determinada hora desta noite eles me chamaram, e me disseram que o César havia sido morto. E eles me levaram até lá, ele estava caído no chão, amarelo, quase verde, nu, já estava morto [pensava] e eu tive de ver. E eu não fazia idéia de que ele estava vivo [...].

A MILITÂNCIA
Hoje eu tenho 62 anos e sou militante política, no sentido, assim, de me envolver em movimentos sociais, movimentos populares, sindicatos, movimentos diversos desde 1965, quando eu tinha por volta de 14 ou 15 anos [...]. Quando em 1960 o partido comunista não estava definido, eu fui aprender a ser feminista, e uma feminista isolada e solitária, porque em 1960 a militância era muito mais com o homem do que com mulheres. Você conseguiria sair para fazer uma pichação de madrugada? Não, porque o namorado não deixava, o pai não deixava, o irmão... e é um saco. E minha relação com a família era estreita, mas meu pai era mais legal, era meio anarquista, meio comunista, ele nunca proibiu, muito pelo contrário, ele sempre ensinou.

[Amelinha, Danieli e César, em meados da década de 1960]. Tínhamos uma tarefa especial que era a de imprensa. A imprensa era ligada diretamente ao diretor central do partido. [...] Era uma tarefa muito difícil. Hoje você tem Internet, celular, você tem skype, e mais não sei o quê. Você fala com uma pessoa e já está vendo a imagem dela na mesma hora, tem tv a cores em todo lugar, fax, e nada disso tinha, nada o que se pode ver hoje. E antes era um trabalho difícil, exigia, primeiro, uma memória extraordinária, guardar na cabeça vários contatos com vários países do mundo inteiro, muita gente importante.

[...] A gente tinha que fechar toda a casa, meu marido era tuberculoso [...]. A máquina de escrever era muito barulhenta, tinha de achar uma forma de ela funcionar o mais silenciosamente possível, uma técnica especial, ainda escrever textos e mandar. Todas essas dificuldades. Nós publicávamos mil e quinhentos jornais todo o mês, para mandar a toda a comunidade. Com mimeógrafo a óleo ou a álcool[...]. Mandava pro exterior – Suécia, Inglaterra, França, Itália, e outros países da Europa. E nós ouvimos a rádio, a de Moscou, a de Pequim, nós éramos rádio-escuta também. Então nosso trabalho era um trabalho dificílimo.

MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES (Amelinha Teles)



ordenou três edições do Congresso Paulista de Mulheres. É também autora do livro O que são direitos humanos das mulheres (Brasiliense, 128 páginas, R$16,00). Integrou o Comitê Brasileiro pela Anistia. Foi presa e torturada com o marido (os filhos e a irmã, grávida de sete meses, também ficaram detidos no prédio da Oban).


Revista Leituras da Historia

Um comentário:

Mirse disse...

Maravilhosa POSTAGEM
Não posso me posicionar, pois vivi, sofri e presenciei, mas não podia agir, por ser menor de idade embora já casada e com meu cunhado nas mãos de torturadores. Vivi sob a tutela de dois militares que me seguiam, mas na minha inocência, achava que era proteção.

Parabéns!

Abraços

Mirse