terça-feira, 30 de novembro de 2010

Santos, fanáticos ou líderes sociais?

Movimentos com base na fé, abundantes no Brasil, ainda são mal estudados

ANDRÉ CAMPOS


Saga de Antônio Conselheiro registrada na igreja
de Canudos / Foto: André Campos

Em outubro de 1897, após 11 meses de uma guerra sangrenta, finalmente o exército brasileiro derrotou a última trincheira que ainda resistia em Canudos. Terminava assim a epopeia da nação sertaneja surgida em torno de Antônio Conselheiro, a quem eram atribuídos atos de caridade, curas milagrosas, visões e profecias. Havia quatro anos que ele se estabelecera naquele local, para o qual foram afluindo levas e levas de peregrinos. E quatro anos bastariam para que o minúsculo povoado que o acolheu se tornasse a segunda maior cidade baiana de então, com estimados 25 mil moradores – menor apenas que Salvador.

A Guerra de Canudos, onde pereceram 20 mil sertanejos e 5 mil soldados aproximadamente, foi apenas mais um capítulo na história de ebulições sociais que, em terras brasileiras, floresceram no rastro de líderes religiosos. “O Brasil tem sido especialmente pródigo na geração de movimentos messiânicos”, escreve Lísias Nogueira Negrão, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) que estuda temas ligados à religiosidade popular.

O messianismo pode ser entendido como a crença na vinda de um enviado divino que conduzirá determinado grupo à libertação. Nosso primeiro registro de conflito associado a esse ideal remonta provavelmente a 1817, quando um ex-soldado, acompanhado por 400 adeptos, fundou a Cidade do Paraíso Terrestre, vilarejo que abrigava uma laje “encantada” através da qual falava uma santa. Três anos depois, a comunidade seria desmantelada a mando do governador pernambucano.

No Brasil, abundante como as mobilizações messiânicas é o leque de interpretações sobre tais fenômenos – um tema que desperta paixões e pouco afeito a meios-termos, em que adjetivos como “loucos” e “fanáticos” convivem com discursos que tratam seus participantes como heróis ou revolucionários. Tal disparidade é legitimada, em grande medida, pelas dúvidas que ainda pairam sobre esses acontecimentos – sob diversos aspectos, eles permanecem pouco estudados e mal explicados.

Na esteira dessas lacunas, alguns municípios fomentam atualmente ações locais para resgatar a memória sobre certos episódios. São passagens nebulosas da história que, não raro, ainda contam com remanescentes vivos, e que seguem gerando polêmica nas regiões onde ocorreram.

Catolicismo “rústico”

Figuras messiânicas no Brasil têm sido notadas principalmente em áreas rurais, algo que, segundo Renato da Silva Queiroz, livre-docente do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, remete a uma versão “rústica” do catolicismo difundida nos sertões – onde a costumeira ausência das autoridades eclesiásticas facilitou o surgimento de líderes leigos. “É o universo do capelão, que desconhece a doutrina católica mas se encarrega da condução dos ritos, das orações e ladainhas que acompanham as práticas religiosas da população pobre do campo”, escreve o professor.

Em geral, o registro de tais episódios é obra de jornalistas, militares e outros membros das camadas dominantes, a exemplo do clássico Os Sertões, no qual Euclides da Cunha descreve a Guerra de Canudos como um embate entre o progresso e o atraso, e critica a própria religiosidade “mestiça” do sertanejo – que gera “um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano”.

O “racismo científico” foi amplamente utilizado para explicar “surtos” messiânicos no Brasil. A cabeça de Antônio Conselheiro, decepada pelo exército, chegou inclusive a ser estudada pelo psiquiatra Raimundo Nina Rodrigues, adepto de teorias raciais que associavam traços físicos à predisposição ao crime. Antes do fim da guerra, Rodrigues já havia diagnosticado a “psicose sistemática progressiva” do beato, com base em relatos que atribuíam a ele atos agressivos e sucessivas mudanças de emprego e de lugar.

Não era a primeira vez – nem seria a última – que líderes de feições messiânicas seriam desqualificados sob a alegação de transtornos mentais. Na década de 1970, por exemplo, Aparecido Galdino Jacintho, um rezador de Rubineia (SP), mobilizou seus seguidores contra a construção de uma barragem na região e acabou internado num manicômio judiciário pela ditadura militar.

Paraíso terrestre

Em meados do século 20, por meio de uma releitura marxista, experiências como Canudos e o Contestado (ver texto abaixo) foram reavaliadas, ressurgindo quase como revoluções rudimentares – onde o “fanatismo” converte-se em expressão, ainda que alienada, da luta de classes. Não faltaram inclusive autores que enxergassem em comunidades do gênero a plena realização dos ideais de uma sociedade harmoniosa e igualitária.

Alguns registros históricos, no entanto, divergem dessa utopia. Em Canudos havia inclusive a chamada “Rua das Casas Vermelhas” – assim denominada por ter as únicas residências cobertas com telhas –, onde viviam lideranças ligadas ao Conselheiro e comerciantes que prosperaram com o crescimento do arraial. Já no Contestado estudos revelam a existência de privilégios às lideranças do movimento – às quais se destinavam a melhor parte dos mantimentos obtidos em combates –, além de rígidos códigos de conduta internos que incluíam, por exemplo, açoites e a pena de morte para adúlteras.

Apesar disso, é certo que traços de igualdade, por vezes pioneiros, surgiram a reboque de movimentos messiânicos. Um exemplo remete ao Crato (CE), onde o beato José Lourenço liderou, nas décadas de 1920-30, a comunidade do sítio Caldeirão, que chegou a abrigar 2 mil pessoas. Numa área relativamente pequena, a notória prosperidade lá alcançada explica-se, em grande medida, pela adoção de lavouras em regime de mutirão e outras práticas cooperativistas – que permitiram a construção de açudes e microbarragens, bem como uma organização racional da agropecuária que preservava o frágil solo do semiárido. “No contexto do nordeste, a ideia de produzir coletivamente era uma grande inovação”, afirma o geógrafo Arlindo Siebra.

Canudos também se distinguia de seu entorno ao permitir que, em pleno sertão dos “coronéis”, os recém-chegados lá erguessem casas e plantassem sem pagar nada a ninguém – entre eles muitos eram ex-escravos recentemente libertados pela Lei Áurea e com reduzidos meios de sobrevivência. Manuscritos do Conselheiro revelam, aliás, seu apoio à abolição da escravatura, bem como outros aspectos de um pensamento distante da imagem de delirante tantas vezes a ele atribuída. “Ele não era, apenas, um pregador de feição religiosa. Também versava sobre assuntos de ordem social e política”, atesta em seus estudos José Calasans, importante historiador que se debruçou sobre o episódio do arraial. Segundo relatos colhidos à época, um exemplo dessa militância era sua condenação ao “imposto do chão” – cobrado nas feiras livres em que a população pobre expunha seus produtos.

História viva

Em 1993, cem anos após a chegada de Antônio Conselheiro, foi criado em terras canudenses o Instituto Popular Memorial de Canudos (IPMC), uma espécie de centro cultural que reúne religiosos, pesquisadores, trabalhadores rurais e profissionais liberais. Por meio de seminários e publicações, a entidade busca estimular a reflexão local sobre o “passado conselheirista”, ainda hoje cercado de estigmas na região. “Antes tínhamos até vergonha de falar sobre o assunto”, ressalta Sandorval Macedo, membro do IPMC.

O instituto é um dos apoiadores da romaria anual, que desde 1988 exalta a trajetória do líder religioso e de seus seguidores. O percurso abrange pontos da guerra e segue às margens do açude criado em 1969, que inundou os restos históricos da “cidade santa”. “A partir da experiência de Canudos, discutimos os desafios atuais enfrentados pela população do semiárido”, explica o pastor Djalma Torres, um dos idealizadores do evento, que aborda sempre um tema diferente ligado à realidade do sertanejo – como, por exemplo, a importância da organização popular e a luta pelo acesso democrático à água.

A 250 quilômetros dali, em Casa Nova (BA), outra romaria anual, iniciada em 2003, vem chamando a atenção para a mobilização do sítio Pau-de-Colher, que reuniu milhares de pessoas até ser tragicamente dissolvida em 1938. Mais de 400 pessoas foram mortas, entre policiais, fazendeiros contrários ao grupo e, principalmente, adeptos do movimento.

Em dezembro de 1937, Pau-de-Colher, onde vivia José Senhorinho – um respeitado rezador local –, recebeu um súbito e enorme afluxo de camponeses, que abandonavam suas casas para lá viver imersos num cotidiano de orações. Senhorinho já havia estado no Caldeirão de José Lourenço e tivera contato com Severino Tavares, um dos principais seguidores do beato. Segundo relatos de sobreviventes, o objetivo do ajuntamento era viajar para o Crato e refundar a recém-destruída comunidade, distante centenas de quilômetros – um ano antes, a polícia havia expulsado os moradores e queimado as casas do Caldeirão.

Tais motivações, no entanto, permanecem fonte de divergências. Pesquisador do caso e parente de fazendeiros que confrontaram o grupo, o escritor Marcos Damasceno afirma que a tomada de propriedades alheias era o verdadeiro interesse por trás da mobilização, que manipulou as massas por meio de uma “religião de fachada”. Segundo ele, o líder do movimento queria inclusive “fazendeiros vivos e acorrentados pelo pescoço, levados até o arraial para assinar as escrituras das terras”.

Em Pau-de-Colher, hoje um povoado semelhante a outros da região, ainda vivem indivíduos que integraram a mobilização messiânica, bem como descendentes dos adeptos. Um dos organizadores da romaria, o padre Aloísio Alves afirma que o evento tem como um de seus objetivos resgatar a dignidade dessas pessoas – visto que ainda paira sobre elas o rótulo de “fanáticas”. “Na região persiste a fama de que se trata de gente complicada, perigosa”, diz ele.

Propaganda do medo

Em 1984, a “volta do fanatismo” em Casa Nova foi abordada em jornais da região, que traziam denúncias de políticos e agricultores sobre reuniões secretas e incitação à violência na comunidade de Amalhador. O historiador Gilmário Moreira Brito visitou o lugar à época, onde viu pequenos produtores rurais organizando projetos coletivos para o plantio e a comercialização e envolvidos em discussões sobre a condição das famílias locais. Segundo ele, as coincidências entre Pau-de-Colher e Amalhador ficavam por conta da proximidade entre ambos e da retomada, ainda que em termos diferentes, de um processo de vivência comunitária. “Entretanto, foram motivos suficientes para o recurso a uma memória que se apresentava como ameaçadora”, descreve em sua dissertação de mestrado sobre o Pau-de-Colher.

Na história brasileira, o medo de um “novo Canudos” legitimou a luta contra diversos grupos populares. O mesmo se pode dizer da “ameaça comunista”, evocada, por exemplo, em Caldeirão e Pau-de-Colher – onde até hoje não há evidências consistentes que os liguem a ideologias de esquerda. Não coincidentemente, o massacre de ambos distancia-se apenas alguns meses do advento do Estado Novo no Brasil, ditadura justificada por Getúlio Vargas sob a alegação de um suposto projeto comunista para tomar o poder – o Plano Cohen, que depois se descobriu ter sido forjado.

Por trás dos discursos conspiratórios, demandas de elites locais são parte importante do quebra-cabeça de interesses ligados à repressão de grupos messiânicos, visto que a atração exercida por líderes religiosos representou, por vezes, uma real ameaça ao modo de produção latifundiário. Em 1897, o barão de Jeremoabo – proeminente proprietário de terras no tempo de Antônio Conselheiro – já alertava para o fato de Canudos estar deixando fazendas sem agregados e vaqueiros. “Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem a precisa regularidade”, afirmou o barão em artigo de sua autoria.

Clima de irmandade

O rótulo “messianismo” remete a uma grande diversidade de episódios no Brasil, que rejeitam explicações e juízos de valor generalistas. No entanto, as conexões entre alguns casos indicam que a busca por uma “alternativa da fé”, longe de ser resultado de “surtos” isolados, perpassa uma teia maior de ideias e ideais em certas regiões do país.

A experiência do sítio Caldeirão – cuja relação direta com a mobilização do Pau-de-Colher já foi explicada –, por exemplo, deu-se em terras pertencentes ao padre Cícero e por ele confiadas a seu protegido, José Lourenço. Décadas antes, segundo relatos, o venerado religioso chegou a enviar um emissário a Canudos de Antônio Conselheiro, mobilização pela qual ele demonstrava bastante interesse.

Olegário Miguez Gonzalez, em seu trabalho de mestrado sobre o povo do Velho Pedro – comunidade formada em Santa Brígida (BA) na década de 1940 em torno do líder católico Pedro Batista –, conta que os romeiros lá estabelecidos eram muitas vezes os mesmos peregrinos que iam ter com o “santo popular” nordestino, morto em 1934. “Pedro Batista preencheu um vazio deixado por padre Cícero, que também é adorado em Santa Brígida”, afirma.

O Velho Pedro, conhecido como “o Conselheiro que deu certo”, diferencia-se de outros líderes por ter dado origem a um arraial religioso tolerado pelo Estado – e que, de certa forma, continua até hoje. O local cresceu com a chegada de romeiros a ponto de virar município em 1962. Pedro Batista morreu em 1967, mas ainda é lembrado e venerado em Santa Brígida.

Seu “sucesso” explica-se em parte pela aliança com líderes políticos locais, de quem obteve inclusive uma fazenda para assentar centenas de peregrinos. Batista também era uma espécie de organizador da produção e do comércio, financiando sem juros as atividades de seus seguidores com as doações recebidas deles próprios. Já no plano espiritual, comandava rezas e difundia valores cristãos, catalisando um clima de irmandade. “Viver em uma sociedade em que havia respeito entre os moradores era considerado, por muitos romeiros, um verdadeiro milagre”, ressalta Gonzalez.

Suas relações com a elite local, no entanto, refletem aspectos clássicos do coronelismo. Ele arregimentava mão de obra para trabalhar de graça nos latifúndios e, nas eleições, determinava o voto nos candidatos indicados por seus aliados. Chama a atenção que, entre os mais de 400 municípios baianos, Santa Brígida ocupe a quarta pior posição no ranking do último Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), de 2000.

No Rio de Janeiro, outro traço típico do subdesenvolvimento também nos remete à história de uma mobilização messiânica. Ao fim da Guerra de Canudos, alguns soldados que deixaram de receber o soldo instalaram-se num morro da cidade, que foi batizado de Favela em alusão a uma planta de mesmo nome, típica da caatinga. Hoje sinônimo de moradia precária no Brasil, tal termo permanece um lembrete de como nem sempre é tão simples definir de que lado está o “progresso” e a “civilização”.


Episódios marcantes

A história dos movimentos messiânicos no Brasil engloba diferentes circunstâncias e desfechos e reflete a própria diversidade das manifestações religiosas no país. Veja alguns exemplos:

Contestado: na fronteira entre Paraná e Santa Catarina, a construção de uma ferrovia gerou um grande levante social. Sob o comando do monge José Maria, posseiros expulsos pela obra e outras populações excluídas rebelaram-se contra a República brasileira. O resultado foi a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, que deixou milhares de mortos.

Revolta dos Muckers: no século 19, Jacobina Maurer, chamada de “o Cristo feminino”, reuniu seguidores entre imigrantes alemães do Rio Grande do Sul. Dezenas morreram nos confrontos entre o exército e os muckers – termo que significa “falso santo” em alemão.

Surto do Catulé: em abril de 1955, tomados de forte exaltação, trabalhadores rurais de Malacacheta (MG) sacrificaram quatro crianças, que, segundo eles, estariam possuídas por Satanás. A orientação para essa atitude veio do líder de uma irmandade local.

Profecia indígena: os índios guaranis registram grandes migrações comandadas por xamãs em busca da Terra sem Males – onde o arco e a flecha caçariam sozinhos e ninguém envelheceria.

Borboletas Azuis: exemplo de caso urbano, o grupo dos Borboletas Azuis formou-se em torno de um líder espírita de Campina Grande (PB), que anunciou o fim do mundo por meio de um novo dilúvio.

Revista Problemas Brasileiros

2 comentários:

Francisco Araújo Netto disse...

Excelente reflexão.

Att.,
http://wwwteologiavivaeeficaz.blogspot.com/

Prof° Netto, F.A.

Bernadete disse...

Gostei muito desse post. Acredito mais em liderança social. Um povo desesperado acaba se apegando a qualquer ponta que os possa tirar do caus. Isso em qualquer época.