terça-feira, 30 de março de 2010

Malevitch: Arte abstrata, Política concreta

The Banquet of Kings por Filonov
A Peasant Family (The Holy Family) por Filonov
A Man and a Woman (Adam and Eve) por Filonov
A Party of Three at the Table por Filonov

A Woman with a Vase por Leporkaya
Woman and Child por Ermolayeva
Three Figures por Ermolayeva

Self-portrait por Ermolayeva
Composition por Ermolayeva
A Man with a Basket por Ermolayeva
A Man in a Wadded Coat por Ermolayeva


Malevitch: Arte abstrata, Política concreta
Poucas vezes a vida de um artista esteve tão ligada à história de seu país. A trajetória pessoal de Malevitch - um dos maiores pintores do século 20 - conta a evolução do poder soviético na Rússia
por Veronica Stigger
Imagine um pintor que, um dia, acorda inspirado, olha para a rua, mas nada do que vê pela janela parece justificar seu apetite criativo. Não tem vontade de representar pessoas, nem animais, nem paisagens, muito menos objetos. Decide, então, num ímpeto, pintar um quadrado, um simples quadrado negro sobre o fundo branco da tela. E mais nada. Ao fazer isso, será que passou pela cabeça do artista a idéia de que, alguns anos depois, o seu quadro iria lhe causar graves problemas com o governo? Que acabaria sendo proibido de expor suas obras, talvez a maior condenação que um artista pode sofrer?

Nascido em Kiev, em 1878, na Ucrânia, então parte do Império Russo Kasimir Malevitch teve a vida marcada pela história política e social de seu país. Os passos do homem ajudam a contar o caminho que a Rússia tomou, após a Revolução Bolchevista de 1917. Desde o início do século, o país estava em ponto de ebulição. Nos âmbitos social e político, aos poucos, iam-se criando as condições para a derrubada do regime dos czares. A derrota na guerra contra o Japão (1904 - 1905) e a desastrosa participação na Primeira Guerra Mundial haviam deixado o povo empobrecido, faminto e, é claro, descontente. No campo das artes, as mudanças não eram menos radicais. Depois de muito tempo presa às formas medievais, a arte russa passava por um momento de transformação. Nada do que estava sendo feito na Europa, contentava os artistas da vanguarda russa. O poeta russo Vladimir Maiakovski disse na época algo que resume esse sentimento: “não há arte revolucionária sem forma revolucionária”.

Quando eclodiu a revolução já fazia dois anos que Malevitch tinha exposto pela primeira vez o seu Quadrado Negro, uma das primeiras obras do que denominou suprematismo. Nas telas suprematistas, não há representação de coisas reconhecíveis na natureza. A abstração é total. Só vemos quadrados, círculos, cruzes e outras figuras geométricas dispostas para combinarem entre si.

A princípio os artistas da vanguarda russa buscaram inserir-se na realidade revolucionária. Eles enxergavam no movimento político as conquistas empreendidas por eles próprios no campo das artes e participaram ativamente da implantação do Estado socialista. Poetas, como Maiakovski, escreviam slogans para cartazes com propagandas do governo. O cineasta Sergei Eisenstein fez filmes sobre as lutas e as conquistas dos comunistas. Pintores e escultores fundaram museus e galerias e reorganizaram as escolas de arte com um programa baseado na arte abstrata. Entre 1918 e 1921, 36 museus foram abertos e mais 26 foram projetados. Com essa proliferação, a Rússia (então rebatizada como União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi o primeiro país do mundo a exibir arte abstrata oficialmente e em tão larga escala.

Os vanguardistas podiam ser vistos em cargos do governo ligados ao Comissariado para a Educação do Povo, órgão que regulamentava também as artes. O próprio Malevitch assumiu a direção do Departamento de Artes e ajudou a decorar ruas, trens, barcos, salas de reuniões e outros locais públicos com suas figuras geométricas. O suprematismo era, então, visto por toda a parte.

Contudo, esse namoro não durou muito. Nos inícios dos anos 20, Lênin, o líder máximo do partido, decidiu que era preciso utilizar a arte para comunicar às massas. Ele queria apresentar ao povo imagens de acontecimentos verdadeiros e não figuras abstratas. Fatos, não idéias. Realidade, não imaginação. Por isso, Lênin gostava tanto de cinema. Foi então que Malevitch começou a ver o tempo fechar. Quadros do artista não agradavam mais, porque não correspondiam à realidade e seu suprematismo era considerado idealista e espiritual. Pecados mortais diante da política de seu país, pautada pelas qualidades palpáveis e materiais. Afora isso, por romper regras tradicionais da arte, as obras de Malevitch requeriam novos critérios de juízo.

Frente a uma pintura sua, não se poderia mais julgar se era boa ou má simplesmente a partir de noções como “belo” ou “feio”. Era preciso considerar o alcance das transformações formais empreendidas pelas vanguardas – uma mudança de tal proporção colocava em xeque a própria noção de arte.

Tudo isso era muito difícil de ser compreendido pela maioria das pessoas. E talvez ainda seja. O próprio Lênin declarava sua ignorância frente à nova arte. Certa feita, teria dito: “Não posso elogiar as obras dos expressionistas, futuristas, cubistas e outros ‘istas’ como a máxima revelação do gênio artístico. Não os entendo. Não me agradam”. Por serem consideradas difíceis, as pinturas abstratas foram tachadas de elitistas e burguesas, um termo comum na época para definir tudo e todos que não eram comunistas. E o pior: poderiam tornar-se perigosas e suscitar intranqüilidade nas massas (outro bordão da época). Embora não fosse totalmente contrário aos vanguardistas, Anatoli Lunatcharski, o comissário do povo para o ensino das artes, proclamava no início dos anos 20:

“Não tenho nenhum tipo de dúvidas de que, ao proletariado e aos camponeses, se lhes oferece muito mais com a plenitude de vida de umas obras de uma arte rica e cheia de idéias, a qual pertence às melhores épocas do passado, do que com uma arte que nos indica desde um princípio não ter conteúdo, a qual é puramente formal, e finalmente chega a ter uma impessoalidade de conteúdo completamente vazio”.

Com tal opinião sendo cada vez mais comum entre os governantes soviéticos, criou-se uma situação irreconciliável, pois os problemas apontados pelos políticos no suprematismo de Malevitch eram justamente aquilo que de mais revolucionário e valioso havia na obra do artista. E do que ele não abriria mão.

Mas o governo também não cedeu. Foi nessa época que surgiu a Associação dos Artistas da Rússia Revolucionária. Alinhada com o ideal comunista de utilizar a arte como instrumento de propaganda do Estado, a organização defendia o monopólio de um estilo realista derivativo do século 19 como a única arte genuinamente proletária. E aí viria o golpe final.

Quando Lênin morreu, em 1924, o caminho estava aberto para Stálin – seu sucessor na direção do partido comunista – implantar uma política muito mais dura contra aqueles que imaginava serem seus inimigos. Politicamente, foi a época dos expurgos e exílios. Um a um, ex-líderes comunistas, antigos aliados, professores, cientistas, ou qualquer um que pudesse ser considerar minimamente crítico ao sistema, foram sendo eliminados. A linha dura de Stálin se refletiu no plano artístico com a criação do chamado realismo socialista, o último passo no retrocesso estético promovido pelo governo soviético. O realismo socialista consistia numa doutrina obrigatória que tinha por objetivo orientar a criação artística. O partido deveria tornar-se, definitivamente, a única fonte de inspiração.

Naturalmente, Malevitch estava entre os mais visados e a escola em que trabalhava como professor foi colocada sob suspeita. Apesar de tudo, o artista não deixou de expor, nem de exercer cargos públicos. No princípio, a perseguição que sofreu foi muito mais psicológica do que efetiva. Malevitch não precisou se esconder ou fugir, mas teve de suportar restrições às suas obras, aos seus escritos e aos seus projetos de estudo. Nesse período, ele se dedicava ao que chamou de suprematismo aplicado: fazia objetos e maquetes com caráter geométrico, os planits e arquitetons. Também publicava artigos e críticas nos jornais soviéticos, nos quais defendia sua arte, jamais fazendo concessões ao realismo socialista. Num texto de 1924, Malevitch disse aceitar que considerassem ele e seus colegas estúpidos, mas repudiava, que lhes impusessem formas antigas, porque, afinal, para os artistas verdadeiramente revolucionários, estava encerrada a fase das representações tradicionais.

“Queremos criar novas relações com o conteúdo atual, que não se movam no nível da antiguidade, senão no presente, na atualidade”, afirmou.

No fim de 1926, ele perdeu seu cargo e sua escola foi fechada. Na mesma época, ele obteve uma autorização para viajar ao exterior (o que era muito raro). Assim, em março de 1927, saiu da Rússia levando consigo mais de cem pinturas, desenhos e diagramas (leia no quadro da página 47). Quando Malevitch retornou à União Soviética, foi submetido a um longo interrogatório. No fim, liberaram-no e designaram-no para um cargo sem importância no Instituto de História da Arte de Leningrado, de onde acabou sendo demitido em 1929. Em seguida, uma exposição de suas obras em Kiev foi fechada por ordem do governo. No ano seguinte, entre o fim de setembro e o início de dezembro, ele foi detido e interrogado sobre a ideologia da arte moderna. Por precaução, amigos do artista queimaram alguns de seus manuscritos sobre arte. Depois disso, só voltaria a lecionar em círculos amadores de arte, em Leningrado.

Vencido, o artista retomou a pintura que realizava antes do suprematismo, algo bem menos subversivo. Nessas representações não havia nada de abstrato. À frente de uma paisagem geralmente desértica, figuravam, em primeiro plano, camponeses em forma de manequins, a maioria sem rostos, parados numa posição fixa, com as pernas levemente abertas e os braços soltos ao lado do corpo. Estas pinturas figurativas – embora muito distantes do realismo socialista – não eram desaprovadas pelo governo e uma grande exposição individual somente com estes trabalhos foi realizada na prestigiada Galeria Tretiakov, em Moscou. Suas figuras foram se tornando, gradativamente, mais reconhecíveis. No final de sua vida, em 1933, quando já estava acamado com câncer, retratou a si mesmo, à sua mulher e aos amigos em estilo renascentista. O artista assinou estes quadros, ironicamente, com um discreto quadrado negro, na margem direita inferior da tela.

Em 1934, quando piorou do câncer, seu pedido para viajar ao exterior para fazer um tratamento em Paris foi negado. Em 1935, sem condições de escrever, ditou uma última carta suplicando auxílio médico e comida a um amigo com cargo no governo. Mas ele não conseguiu ajudá-lo. Em 15 de maio de 1935, Malevitch morreu. Seu corpo foi cremado e a urna com suas cinzas, enterrada num bosque da cidadezinha de Nemchinovka, onde o artista costumava descansar.

Para homenagear o mestre e marcar o local de sua tumba, seu aluno e amigo Nikolai Suetin construiu um cubo no centro do qual pintou um quadrado negro. Durante a Segunda Guerra Mundial, urna, tumba e monumento sumiram: não se sabe se foram destruídos a mando do partido comunista ou por bombardeios nazistas. O nome de Malevitch foi proscrito da história da arte russa durante um longo período. Somente na década de 80, com a Glasnost, a abertura política engendrada por Mikhail Gorbatchov, a memória do artista foi reabilitada. Em 1987, um novo cubo, desta vez com um quadrado vermelho ao centro, feito pelo artista Vladimir Andreenkov, foi erguido no local em que se presume ter sido sepultado malevitch. Em 1988, como uma espécie de pedido de desculpas, foi organizada, na União Soviética, uma grande exposição em homenagem ao artista depois de um jejum de quase 60 anos. Hoje, extinta a Rússia soviética, a arte de Malevitch sobrevive e resplandece. Ela, enfim, venceu.

Vida e obras
Malevitch aprendeu a pintar sozinho e suas primeiras obras tem notadamente um estilo impressionista. Quando conhece o que está sendo produzido em Paris, no entanto, inspira-se a produzir algo novo. No início da década de 10, a influência do cubismo e futurismo se revelam em 1915, ele descobre a abstração, que lhe daria fama. Doente, no fim de sua vida, ele recupera o figurativismo

1904

Paisagem com Casa Amarela

1911

No Boulevard

1912

O Afiador de Facas

1913

Vaca e Violino

1915

Aeroplano Voando

1915

Quadrado Vermelho

1928-32

Cabeça de Pessoa


A coleção perdida
Malevitch viajou uma única vez ao exterior. Quando o fez, em 1927, foi para a Alemanha e levou consigo mais de 100 pinturas, desenhos, manuscritos e diagramas. Além de mostrá-los aos artistas da vanguarda alemã, seu objetivo era proteger as obras e guardá-las num lugar seguro. E foi o que ele fez: quando foi chamado de volta ao seu país, deixou tudo com dois de seus melhores amigos: Gustav von Riesen e Hugo Häring. Porém, a Alemanha hitlerista era tudo, menos um lugar seguro. Em 1934, diante do avanço dos nazistas e da perseguição a artistas e escritores, Riesen escondeu as obras que estava com ele num porão. E ali elas ficaram por quase 20 anos. Durante a Segunda Guerra, a casa foi bombardeada e desabou: porão, quadros, documentos, tudo ficou soterrado. Só em 1953, durante os trabalhos de recuperação de Berlim foi que se descobriu o pacote intacto.

Nele, estavam manuscritos, livros de anotações, desenhos e fotos A outra parte das obras de Malevitch, entregue a Häring, também foi escondidas, do nazismo, na década de 30. Mas não foram parar num porão. Häring emprestou algumas para museus fora da Alemanha, outras foram vendidas e tiveram diversos donos. Em 1943, a escola onde Häring trabalhava pegou fogo e ele fugiu com os quadros de Malevitch. Em 1957, essas obras, finalmente, encontraram um lugar para ficar: o Museu Stedelijk, em Amsterdã.

Revista Aventuras na História

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