sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os Druidas

Os Druidas (parte1)
Prof. Dr. João Lupi
Departamento de Filosofia/ UFSC
lupi@cfh.ufsc.br

Resumo
Apesar de sabermos que desde o século XVI foram afirmadas mais fantasias do que certezas acerca dos druidas, dispomos de poucos elementos para construir uma imagem real desses sacerdotes e sábios, admirados por gregos e romanos e venerados pelos celtas. Propomos fazer aqui uma rápida revisão de textos, tanto clássicos como recentes, para estabelecer ao menos dois elementos iniciais de interpretação: a organização dos druidas, e sua sabedoria no que toca ao conhecimento da natureza.
Palavras-chave: Druidas, Astronomia, Fisiólogos


1. O que hoje em dia se pode dizer sobre os druidas parece oscilar entre dois extremos: ou o quase nada, ou o excessivo. Entre os dois ficam mais hipóteses e interrogações do que conhecimentos válidos. O quase nada é constituído por: as poucas referências de escritores gregos e latinos, mormente o texto de Júlio César no De Bello Gallico que mal enche uma página; a perplexidade ou paradoxo de uma escrita ogâmica que existiu para não revelar os ensinamentos dos druidas; a estranheza que nos causa a afirmação de Estrabão de que todos os grupos celtas tinham seus druidas, quando só sabemos da existência deles na Gália e nas ilhas Britânicas. Se a esse muito pouco se acrescentar a crítica às opiniões do conquistador e dominador dos gauleses, então do texto de César fica mesmo quase nada. O “excessivo” fica por conta de todas as idealizações que ingleses e franceses fizeram acerca dos druidas desde o século
XVI, à procura de antepassados nobres e dignos que os colocassem a par com a civilização greco-romana – e com esse ideal imaginaram sacerdotes ecológicos, sábios de mistérios fantásticos, adivinhos quase profetas, conhecedores dos segredos da natureza, com poderes para fazer poções mágicas; e estes exageros deram lugar a uma tão ampla literatura sobre os druidas, com inúmeros livros imperdíveis que parece que mais nada há a dizer. Entre as interrogações que ficam pelo meio estão as narrativas dos monges irlandeses, que tão depressa cortam informações acerca dos druidas (para não ofender nem o cristianismo nem aqueles que ainda respeitavam as doutrinas tradicionais) como destacam o lado anti-cristão dos druidas para justificar o seu banimento.
Para resistir à tentação de não dizer nada – já que nada de novo parece que se pode dizer – só temos três débeis motivos: a pouca bibliografia em língua portuguesa sobre este tema, a necessidade de fazer um panorama tanto quanto possível atualizado dos conhecimentos disponíveis, e a possibilidade de algum ponto de vista interessante que possa surgir ao olhar este panorama – assim como uma linda paisagem, que pode ter sido admirada por milhões de pessoas, mas que nem por isso afasta quem nunca a olhou, e vai lá na esperança de descobrir o que os outros não perceberam. Porém, mesmo os estudiosos mais atentos e criteriosos que investigaram os druidas não escaparam à tentação de arriscar hipóteses e opiniões incertas, e por isso não vamos eliminá-las facilmente: num caso como este uma observação sugestiva e razoável vale como um estímulo para que outros a comprovem, ou a descartem – e é o risco que vamos correr.



2. Comecemos por uma visão rápida dos testemunhos clássicos e demos a prioridade aos gregos. Diodoro Sículo (entre séc. I a.C./ séc. I d. C., em Histórias V, 28, 6 e V, 31, 2-5) diz que os druidas eram filósofos e teólogos de nível superior, que à maneira dos pitagóricos acreditavam na reencarnação das almas, e que eram curandeiros e adivinhos respeitados. Estrabão, contemporâneo de Diodoro (Geografia IV, 4, 197, 4) cita os bardos, de quem Diodoro também falou, os adivinhos e os druidas, e destes diz que são fisiólogos (naturalistas) e mentores da filosofia ética. Dion Crisóstomo (início do séc.II, nos Discursos 49) diz que os druidas se ocupavam com todo tipo de sabedoria e que não só eram conselheiros dos reis como em tudo os reis seguiam as suas normas e diretrizes. Diógenes Laércio (séc.III d. C. , em Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, I, 1 e 6) inclui os druidas entre os sábios das outras civilizações – persas, babilônios, assírios, indianos e egípcios e deles diz que eram homens “ veneráveis (...) que expunham suas doutrinas por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, a
abster-se totalmente de más ações e a ser corajosos “ – mas compara-os neste ponto aos ginosofistas indianos ( os sábios nus, geralmente se supõe que fossem os brâmanes, mas podiam ser ioguis). Entre os cristãos helenísticos falaram dos druidas: Clemente de Alexandria (c.153-220, nos Stromata I, 15), Hipólito (c. 170-236 na Refutação das heresias I, 22) , Orígenes (c.185-254 no Contra Celso I, 16) e ainda Cirilo de Alexandria (c.380-444 no Contra Juliano IV, 133). Hipólito e Clemente relacionam os druidas com as doutrinas pitagóricas e com a adivinhação e
magia; são muito venerados pelos celtas, diz Hipólito porque sabem fazer certos cálculos com números e profetizar o futuro, e também praticam rituais mágicos; e Clemente (que era de Atenas) ao explicar como a filosofia grega teve sua origem entre os povos de outras culturas (bárbaros) afirma: “ E assim a filosofia, que é de qualidade tão elevada, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, iluminando as nações, antes de chegar à Grécia; sua fileira inicial foi constituída pelos sábios egípcios, e pelos caldeus entre os assírios, e os druidas dos gauleses, e os samaneus da Bactriana, e os filósofos dos celtas, e os magos dos persas, que anunciaram o nascimento do Salvador, e chegaram à Judéia guiados por uma estrela, e os ginosofistas indianos (...). “ Clemente lembra ainda que Pitágoras teria estudado com os gálatas e com os brâmanes. Orígenes, que foi aluno de Clemente cita os druidas da Gália (toûs galatoôn druidas) entre os povos antigos de elevada sabedoria, mas para criticar Celso (um romano do séc.II d. C.) que estimava os druidas acima dos judeus; o mesmo Orígenes no Comentário ao Livro de Ezequiel (
apud. Ellis, 132) afirma que os druidas da Bretanha veneravam um deus único antes da chegada do cristianismo e que assim ensinavam o povo, e por isso os celtas estavam predispostos desde antigamente a receber o batismo. Quanto a Cirilo sua obra foi escrita por volta de 435 para refutar a crítica do imperador Juliano aos cristãos (em Contra os Galileus) e a referência aos druidas é apenas de passagem.
Entre as muitas observações que se podem fazer acerca destes escritos gregos é preciso notar antes de mais que as coincidências entre eles, como as listas de povos antigos de Clemente e de Diógenes, denotam a falta de conhecimento direto dos druidas e a presença de uma ou mais fontes comuns, mais antigas, que geralmente se crê sejam os escritos de Timagestes, e a História de Possidônio de Apaméia (c. 135-50 a . C.) de que não restam senão fragmentos esparsos; mas parece que Possidônio teria visitado a Gália, e que seu testemunho era bem fundamentado. A segunda observação é que no conjunto estas afirmações constituem um acervo muito diminuto quando comparado com o imenso volume de obras em grego; no entanto são significativas, pois são notáveis certas opiniões comuns: já é de estranhar que os celtas sejam colocados a par com outros povos que criaram civilizações tidas como muito mais elaboradas, que tiveram amplo uso da escrita, impérios organizados, grandes cidades – como os indianos, assírios, e egípcios – o que nos leva a uma dupla interrogação: os druidas são citados devido à importância dos celtas, ou os
celtas é que são citados pela fama dos seus druidas? Mas os celtas não gozavam de tão boa reputação, portanto é mais provável que eles é que sejam citados devido à importância dos druidas. Mais: mesmo que todos eles falem do que ouviram dizer ou leram em Possidônio, Timagestes ou outro autor anterior a eles, alguma fama dos druidas deve ter permanecido para que não omitam a referência. Portanto colocá-los a par com os magos persas e os brâmanes é um indicador válido do respeito que eles gozavam entre os “civilizados”. Ressalte-se ainda a repetição da referência aos pitagóricos: deveria ser voz comum, não tanto pela matemática celta mas pela aura de ocultismo e mistério que os rodeava. Vejamos agora o que dizem os romanos.
Júlio César (c. 100-44 a.C.) é a referência dominante acerca dos celtas e dos druidas (De Bello Gallico ou A Guerra da Gália VI 4, 13, 14, 16, 18, 21): além de alguns dados sobre a religião – deuses, rituais, sacrifícios, moral - oferece informações sobre a organização dos druidas e suas funções: a eleição de um druidamor, a reunião anual na floresta dos Carnutos, a função sacerdotal ou de presidência dos ritos, a de mestre da juventude, e a de juiz; fala também da isenção do serviço de guerra, da aprendizagem de longos poemas, e da recusa em colocar por escrito os seus ensinamentos; os druidas, diz César, são muito interessados nas coisas do mundo físico: astronomia e natureza. Seu contemporâneo Cícero (106-43 a . C. em Sobre a adivinhação I, 41, 90) é o único que diz ter conhecido um druida: Divicíaco o Eduano, hóspede de seu irmão; mas pouco nos conta das conversas que teve com ele: apenas que sendo um bom conhecedor da natureza era o que os gregos chamam um fisiólogo, e que era áugure ou adivinho. Plínio (c.23-79; na História Natural XVI 249) refere-se à magia dos druidas e aos conhecimentos deles sobre os céus e os astros e dá-nos uma descrição dos rituais do corte do visco no carvalho – é ele que nos fala das vestes brancas dos druidas neste ritual; Plínio estava interessado em saber e divulgar as propriedades medicinais das plantas e animais e descreve ainda o uso que os druidas faziam de outras ervas como selago, e samolo e explica detalhadamente os misteriosos ovos de serpente (XXIV 103-104; XXIX 52) mas mostra evidente desconfiança acerca da validade de tais usos e inclusive considera exagerado o fascínio que a Bretanha tinha pela magia (Britannia attonita celebrat tantis caerimoniis) parecia até que os bretões achavam que foi com os druidas que os magos persas aprenderam (XXX 13). Pompônio Mela (séc. I d.C. em De Situ Orbis ou Geografia III 2, 18-19) considera que os druidas são grandes sábios e mestres que se dedicam ao estudo dos céus e dos astros. Seu contemporâneo Lucano (39-65 no poema Pharsalia I, 450-458) também se refere aos conhecimentos de astronomia, mas tal como Suetônio (69-140 em Claudius 25) reputa os rituais dos druidas desumanos e selvagens. Tácito (c. 56-120 nos Anais 14,30) narra a cena das mulheres enfrentando as legiões ao som das imprecações dos druidas que incitavam os celtas à batalha; e conta a destruição dos vencidos, que entretanto se dedicavam a superstições selvagens; ao falar das profecias dos druidas acerca do Império (Histórias IV 54) Tácito considera-as vãs superstições. Os autores da História Augusta (século IV) Lamprídio ( no capítulo de Alexandre Severo 59, 5) e Vopiscus nos capítulos sobre Numeriano 14, e Aureliano 43) citam a existência de mulheres druidas ( mulier Dryas, dryde mulier) das quais se contavam profecias. Ausonio (c. 310-395 em Commen. Professorum IV 7-10 e X 22-30) cita Febício, um homem “da estirpe “ dos druidas, natural da Armórica (Bretanha francesa) guarda do templo de Beleno, que foi professor em Bordéus. Amiano Marcelino (c. 330-400 em O Final do Império Romano XV 9) distingue os druidas (drasidae) dos adivinhos-profetas (euhagis) e dos bardos considerando os druidas como grandes intelectuais (ingeniis
celsiores) aproxima-os dos pitagóricos e diz que se dedicam ao estudo das coisas mais sublimes e ocultas desprezando as coisas humanas comuns.
Após analisar detidamente os testemunhos dos romanos e de relacioná-los com o contexto histórico Kendrick (o. c. 98-99) é taxativo: até à época do Império os druidas gozavam de excelente reputação mas rapidamente a perderam, e aos olhos dos romanos eles se foram convertendo cada vez mais numa classe religiosa dedicada a superstições e feitiçarias. Mas Ellis (o. c. 60-61, 74, e 77) tem outra opinião: ele julga quase todos os escritores, tanto romanos como gregos (particularmente Estrabão) do tempo do Império favoráveis à política de ocupação e domínio, e suas críticas aos druidas seriam devidas mais à intenção de justificativa da conquista do que ao desprestígio dos druidas. Mesmo assim, por mais que se deva relativizar os conhecimentos que os romanos tinham dos druidas há aspectos em que há uma tal coincidência, ou reforço de opiniões vindas de diversos lugares e épocas, que a margem de dúvidas se estreita; resumindo: os druidas eram intelectuais de alto valor, equiparáveis aos sábios de outros povos mais eruditos; seus conhecimentos mais ocultos tinham semelhanças com os dos pitagóricos; tinham especial sabedoria acerca da natureza em geral tanto da astronomia e cosmologia como dos reinos animal e vegetal; e exerciam funções jurídicas, e políticas além das pedagógicas.
Parece pois que, aos olhos dos intelectuais seus contemporâneos podemos considerar os druidas como uma classe sacerdotal sociologicamente bem definida e com características ou traços que desenham um certo tipo ideal que pode ao menos ser tomado como ponto de partida razoavelmente seguro. Porém ao menos num aspecto os comentadores têm sérias dúvidas acerca da opinião clássica sobre os druidas: é no que toca a considerá-los “filósofos”. Vamos pois analisar os druidas apenas sob estas duas categorias: como classe social, e como fisiólogos.



Revista Brathair

Um comentário:

Mirse Maria disse...

Bom Dia, Eduardo!

Sempre me questiono o porque, de terem negado, pelo menos a nós, ocidentais esse tipo de acesso a povos como "OS DRUIDAS", que notoriamente tinham sua sabefoia e à cultura persa, egípcia e outras tantas.

A nós, não fosse a Europa, não saberíamos ou teríamos acesso a quase nada, a não ser o que viesse após o apogeu americano.

Claro que o Tempo, além de senhor da razão, destróis muita coisa, como documentos, segredos inclusive medicinais.

Lendo The Phycisian, percebi quanta coisa há que não temos conhecimento. O saver de povos "brAmanes", "druídas" e tantos outros que nos antecederam.

Pelo menos, no eu entender faltam elementos, e esses elementos, nos fariam comprender melhor a ciência e a história.

Bem, sempre fui curiosa com os povos que na sua ciência, criaram as PIRÂMIDES, a matemárica certeira do tempo e do espaço. Galileu Galilei é a prova viva desse tipo de absurdo.

Muito boa postagem!

Parabéns!

Forte abraço!

Mirse