sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Escola primária de meninas e a educação da mulher no Brasil, em meados do século XIX


ESCOLA PRIMÁRIA DE MENINAS – EDUCAÇÃO DA MULHER NO BRASIL


Pouca coisa tenho também a dizer sobre a escola para as meninas. Em geral, no Brasil, pouco se cuida da educação das mulheres, o nível de ensino dado nas escolas femininas é pouquíssimo elevado; mesmo nos pensionatos freqüentados pelas filhas das classes abastadas, todos os professores se queixam de que lhes retiram as alunas justamente na idade em que a inteligência começa a se desenvolver. A maioria das meninas enviadas à escola aí entram com a idade de sete ou oito anos; aos treze ou quatorze são consideradas como tendo terminado os estudos. O casamento as espreita e não tarda a tomá-las. Há exceções, sem dúvida. Alguns pais mais esclarecidos prolongam a permanência no pensionato ou fazem dar instrução em casa até dezessete ou dezoito anos; outros mandam as filhas para o estrangeiro. Habitualmente, porém, salvo uma ou duas matérias bem estudadas, francês e música, a educação das jovens é pouco cuidada e o tom geral da sociedade disso, se ressente. Claramente, na sociedade brasileira há mulheres cuja inteligência recebeu alto grau de cultura; mas a minha afirmação não é menos verdadeira; são meras exceções e nem outra coisa poderia ser com o atual sistema de educação; e as mulheres que o personificam sente amargamente a influência deste sistema sobre a situação que para o seu sexo criam os costumes nacionais.

Efetivamente, nunca conversei com as senhoras brasileiras com quem mais de perto privei no Brasil sem delas receber as mais tristes confidências acerca de sua existência estreita e confinada. Não há uma só mulher brasileira, que, tendo refletido um pouco sobre o assunto, não se saiba condenada a uma vida de repressões e constrangimento. Não podem transpor a porta de sua casa, senão em determinadas condições, sem provocar escândalo. A educação que lhes dão, limitada a um conhecimento sofrível de francês e música, deixa-as na ignorância de uma multidão de questões gerais; o mundo dos livros lhes está fechado, pois é reduzido o número de obras portuguesas que lhes permitem ler, e menor ainda o das obras a seu alcance escritas em outras línguas. Pouca coisa sabem da história de seu próprio país, quase nada do de outras nações, e nem parecem suspeitar que possa haver outro credo religioso além daquele que domina no Brasil; talvez mesmo nunca haja ouvido falar da Reforma. Não imaginam que um oceano de pensamentos se agita fora de seu pequeno mundo e provoca constantemente novas fases na vida dos povos e dos indivíduos. Em suma, além do círculo estreito da existência doméstica, nada existe para elas.

Estávamos um dia numa fazenda, quando avistei um livro em cima de um piano. Um livro é coisa tão rara nos aposentos ocupados pelas famílias que fiquei curiosa em saber qual seria o conteúdo daquele. Era um romance, e, ao virar-lhe as páginas, veio o dono da casa e disse em alta voz que aquela não era uma leitura conveniente para mulheres. – "Aqui está (entregando-me um pequeno volume), uma excelente obra que comprei para minha mulher e minhas filhas". Abri o precioso volulme, era uma espécie de pequeno tratado de moral, cheio de banalidades sentimentais e de frases feitas em que reinava um tom de condescendência e proteção à pobre inteligência feminina, porquanto, apesar de tudo, as mulheres são mães dos homens e exercem um pouco de influência sobre sua educação. Após essa mostra do alimento intelectual que lhes ofereciam, não me poderia admirar que a esposa e as filhas do nosso anfitrião demonstrassem um gosto dos mais moderados pela leitura. Nada impressiona tanto o estrangeiro como essa ausência de livros nas casas brasileiras. Se o pai exerce uma profissão liberal, tem pequena biblioteca de tratados de medicina ou direito; mas não sem vêem os livros espalhados pela casa como objetos de uso constante; não fazem parte das coisas de necessidade corrente. Repito que há exceções; lembro-me de ter encontrado, no quarto de uma jovem senhora cuja família nos dera afetuosa hospitalidade, uma biblioteca bem escolhida das melhores obras de história e literatura, em francês e alemão; mas foi o único exemplo desses que encontramos durante um ano de permanência no Brasil. Mesmo quando as brasileiras receberam os benefícios da instrução, há, em sua existência doméstica, tanta compressão, tão pouco estão em ligação com o mundo exterior, que isso basta para pôr obstáculo a seu desenvolvimento intelectual; seus prazeres são tão mesquinhos e raros como meios de instrução.

Exprimindo essas duas verdades faço-me eco simplesmente de grande número de brasileiros inteligentes que deploram esse estado de coisas, mau e perigoso, sem saber como reformá-lo. E se, dentre os nossos amigos do Brasil, alguns que, baseados nos progressos e transformações que se operam na vida social do Rio de Janeiro, ponham em dúvida a exatidão de minhas asserções, tenho resposta bem simples para dar-lhes: é que não conhecem as condições sociais das pequenas cidades do norte e do interior. Nunca vi em parte alguma, para as pessoas do meu sexo, condição tão triste como a das mulheres dessas pequenas localidades. É uma existência horrivelmente monótona, privada desses prazeres sadios que proporcionam vigor; um sofrimento passivo, entretido, é verdade, mais por falta absoluta de distrações do que por males positivos, mas que nem por isso é menos deplorável; um estado de completa estagnação e inércia.

Além do vício dos métodos de ensino, há também uma ausência de educação doméstica profundamente entristecedora: é a conseqüência do contato incessante com os criados pretos e mais ainda com os negrinhos que existem sempre em quantidade nas casas. Que a baixeza habitual e os vícios dos pretos sejam ou não efeito da escravidão, inegável é que existem; e é estranho ver pessoas, aliás cuidadosas e escrupulosas em tudo o que se refere aos filhos, deixarem-nos constantemente na companhia de seus escravos, vigiados pelos mais velhos e brincando com os moços. Isso prova quanto o hábito nos torna cegos mesmo para os perigos mais evidentes, um estrangeiro vê logo os perniciosos resultados desses contatos com a grosseria e o vício; os pais não o percebem. Na capital, perigos já são menores, pois todos os que conheceram o Rio de Janeiro há quarenta anos são acordes em proclamar que notáveis melhoras se deram nos costumes sociais. Não devo esquecer de dizer que a mais alta autoridade se pronunciou em favor da educação liberal das mulheres. Todos sabem que a instrução das princesas imperiais não foi apenas superintendida, mas mesmo, em parte, ministrada pessoalmente por seu pai.


(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil, 1865 – 1866. p.277-279)
Revista Jangada Brasil

Um comentário:

Mirse Maria disse...

Eduardo, pelo que soube da vida de minha avó, era exatamente isso. Às mulheres, não cabiam o requinte da leitura e da escola. No entanto com a descendência européia, ela fugia e aprendeu o suficiente para ler e escrever. Não podiam escolher o marido, assim como deviam obediência tão plena que sentiam-se tolhidas.

No século XX ainda era assim. Aos quatro anos, fui interna num colégio de freiras alemãs. Minha linguagem era o choro. Não entendia nada do que falavam e elas não entendiam o porque do meu pranto. Certamente era saudade da minha mãe, mas elas achavam que era fome. Isto no nordeste, onde nasci. Aos cinco anos, fui interna num colégio de São Paulo, foi quando descobri os livros na biblioteca das freiras. Na calada da noite fugia, e pegava um deles para no dia seguinte, depois de muito bem lido, devolver. Deparei-me aos nove anos com "O CRIME DO PADRE AMARO". Percebi em mim a rebeldia herdada de minha avó. Aos 10 anos já tinha lido a obra de Machado e começava a ler Dostoievsk quando adoeci e voltei para o Rio de Janeiro, para a casa de meus pais. Não conhecia aquelas pessoas, mas dirigindo-me ao meu pai, indaguei da falta de livros num lar. Ele desgostoso, comprou a primeira e última enciclopédia.
Aos 16 anos, quando casei, meu marido me proibia a leitura. Eu já era aventureira mesmo, e conseguia ler o que queria. Mas só tinha o primeiro grau, o que não foi nada difícil, mesmo com filhos, estudar e vencer essa barreira. Fazer faculdade e trabalhar para horror das famílias de ambos os lados. Todos me achavam anormal. Menos eu.

A minha saga, resultou num enorme aprendizado de vários autores, que hoje releio, pois numa idade em que não compreendia, lia assim mesmo.

Depois criei em minha casa, uma espécie de culto de amor ao livro, que passei às minhas filhas . O colégio adotou esta iniciativa, e foi quando conheci Carlos Drummond de Andrade.

Achei que estava no céu, mas ainda não bastava. Queria e quero sempre mais, daí a minha permanência constante no seu blog.

Sempre reclamei do fato de no mundo ocidental, só termos acesso à cultura americana e européia, quando o mais longínquo: a cultura persa, árabe , egípcia, nos eram negado.

Comprei escondido o livro proibido do Raschidi, o Alcorão e ainda percorro todo o mundo submerso que existe.

As viagens que fiz, me abriram novos horizontes, mas até hoje amo a leitura, e sigo os bons autores, embora leia tudo.

Belíssima postagem

Parabéns!

Abraços

Mirse