quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Freiras livres


Freiras livres
Pode soar estranho, mas houve mulheres que optaram por viver em conventos para ter liberdade intelectual (e sexual). Conheça as histórias de três freiras que se tornaram grandes escritoras na América espanhola
por Carla Aranha
Apavoradas, as freiras ouviam os tiros disparados por 2 mil piratas. Era 1585, e o corsário inglês Francis Drake mal podia esperar para saquear Santo Domingo, na República Dominicana, onde ficava o convento Regina Angelorum. Uma das freiras, Leonor de Ovando, tomou coragem e conduziu as colegas até a fazenda de um amigo, o fidalgo Diego de Medrano. Os piratas varreram a cidade, mas todas as religiosas escondidas se salvaram.

Com atos como esse, não é de se admirar que Leonor tenha conquistado alguma fama. Mas não foi por causa de sua bravura que ela entrou para a história. Leonor é considerada a primeira poetisa do continente americano. Não é pouca coisa. Na época dela, a maioria absoluta das mulheres era analfabeta e, pior ainda, vivia à sombra dos homens – as que sabiam ler tinham seus livros censurados pelos maridos. Como só devia explicações a Deus, Leonor pôde ter relações próximas com diversos fidalgos. Graças a isso, inclusive, ela foi capaz de salvar suas companheiras do ataque pirata.

Seguindo os passos de Leonor vieram a guatemalteca Juana de Maldonado y Paz, que foi a primeira dramaturga da América Latina, e a mexicana Juana Inés de la Cruz, uma das maiores poetisas latino-americanas. Ambas também optaram pela clausura para escapar da tutela masculina. “Nos monastérios, elas tinham liberdade não só para exercer as atividades de que mais gostavam, inclusive as artísticas, mas também para administrar seu próprio dinheiro e levar uma vida social”, diz Leila Mezan Algranti, historiadora da Universidade Estadual de Campinas e autora do livro Honradas e Devotas, Mulheres da Colônia.

A vida num convento da América colonial pouco tinha a ver com a reclusão de hoje. Voto de pobreza, proibição de contatos com pessoas de fora, nada disso era levado a sério. Pelo contrário. Nos conventos mais exclusivos dos séculos 16 e 17, as religiosas tinham direito até a escravas e a aposentos luxuosos, em que recebiam pessoas da alta sociedade. Os de Juana de Maldonado tinham as paredes forradas com lâminas de ouro e prata. O apartamento de Juana Inés não ficava atrás: possuía duas salas, quarto, estúdio, cozinha e banheiro. “Os conventos mais requintados eram centros onde as mulheres podiam realizar-se artística e culturalmente”, diz a lingüista guatemalteca Luz Méndez de la Vega, da Academia de Letras da Guatemala, especialista na vida e na obra de Juana de Maldonado.

No fim do século 18, preocupada com os abusos cada vez mais freqüentes na vida monástica, a Igreja endureceu suas normas e acabou com os privilégios dos conventos. Por sorte, nos dois primeiros séculos da colonização da América, eles permitiram o surgimento de geniais mulheres escritoras. Acompanhe, a seguir, o perfil de cada uma delas.

Leonor de Ovando

Santo Domingo, capital da República Dominicana, foi a primeira cidade fundada no Novo Mundo, entre 1494 e 1498, por ninguém menos que o irmão de Cristóvão Colombo, Bartolomeu. Foi ali que surgiu a primeira universidade das Américas, a Santo Tomás de Aquino, por volta de 1538. Era na biblioteca dessa instituição que a primeira poetisa latino-americana passava longos períodos, lendo obras de diversas épocas. Os pesquisadores supõem que Leonor de Ovando tenha nascido na Espanha, em 1550, e se mudado ainda jovem para Santo Domingo com a família. “Ela tinha uma cultura acima da média, por isso se conclui que ela deve ter sido educada na Espanha, onde já havia colégios para meninas”, diz a lingüista e poetisa argentina Nela Rio, da Saint Thomas University, no Canadá, especialista nas freiras escritoras da América colonial.

Grande parte dos documentos a respeito de Leonor acabaram se perdendo nas seguidas invasões que a República Dominicana sofreu. O que sobrou, no entanto, basta para comprovar o alto nível de sua produção artística. Entre as obras recuperadas estão cinco sonetos, cartas que Leonor enviava regularmente a seu grande amigo, o ouvidor Eugenio de Salazar, e até alguns comentários sobre religião mandados ao papa (hoje guardados no Vaticano).

Ela sabia latim, conhecia a fundo a gramática espanhola e, nas palavras do ouvidor Salazar, era “sábia, douta e instruída”. Mas, no fim da vida, Leonor foi vítima de perseguições e fofocas. A principal acusação foi a de ter contatos freqüentes demais com homens – inclusive com figuras proeminentes como Salazar. Documentos da época mostram que, no tempo de Leonor, a construção do convento ainda não havia sido finalizada. Por isso, as monjas dele não viviam enclausuradas. “Elas tinham muito contato com a vida exterior”, conta Nela Rio. “O que não quer dizer que Leonor fosse uma devassa, mas ela levava a vida dela, certamente, recebendo quem quisesse e escrevendo.” Para uma freira do século 16, devia ser mesmo um escândalo. Não que Leonor se importasse, do mesmo modo como algum tempo mais tarde também não se incomodariam as duas Juanas. Para ela, bastava ter um espaço onde pudesse exercer sua arte e cuidar da própria vida. Assim foi até sua morte, em 1609.

Juana de Maldonado

Autora da primeira peça teatral escrita por mãos femininas na América, Juana de Maldonado y Paz teve uma vida tão incomum para sua época que, até a primeira metade do século 20, ela era considerada personagem ficcional. Mas, graças a pesquisas em arquivos esquecidos, há cerca de 50 anos foram encontrados os primeiros documentos que comprovaram a existência da freira, que provavelmente viveu de 1598 a 1666.

Os relatos mais antigos sobre Juana foram escritos por um padre e cronista irlandês, Thomas Gage, que morou na Guatemala entre 1627 e 1637. Eles foram publicados no livro The English-American, his Travail by Sea and Land or a New Survey of the West-Indias (“O anglo-americano, seu trabalho no mar e na terra ou uma nova pesquisa sobre as Índias Ocidentais”, inédito em português). A obra é implacável com os costumes da colônia espanhola, especialmente em relação à liberal vida nos conventos guatemaltecos. Ele descreve as aventuras de Juana e não poupa críticas a seus relacionamentos íntimos demais com o clero. “O livro foi proibido na Guatemala, mas a brilhante Juana virou uma lenda nos séculos seguintes”, explica a lingüista Luz Méndez de la Vega.

Filha do ouvidor Juan de Maldonado y Paz, Juana era rica e linda. Sua primeira ocupação foi a de modelo de artistas, o que quase lhe custou a vida. Em 1615, aos 17 anos, foi acusada de heresia quando, durante uma procissão, seu rosto foi reconhecido nas imagens de Santa Lúcia – Juana tinha posado para o pintor. A denúncia foi esquecida, mas o pai de Juana a mandou para o elegante convento La Concepción, na Cidade da Guatemala. “Ela não opôs resistência, pois sabia que ali encontraria um refúgio para suas inquietudes intelectuais e artísticas”, afirma Luz Méndez.

Logo que professou os votos de castidade e obediência, aos 20 anos, Juana tentou ser madre superiora do convento, para indignação das freiras mais velhas. A comoção ganhou ares de guerra civil quando o bispo local, Zapata y Sandoval, resolveu interferir a favor dela. As religiosas recorreram aos nobres e comerciantes mais católicos, que foram ao convento levando suas espadas. Nem assim Juana desistiu. Foi preciso chamar seu pai para que ela finalmente cedesse. No meio da confusão, aumentaram os rumores de que o interesse do bispo Zapata y Sandoval pela linda monja era exagerado. “Ele estava apaixonado por ela”, escreveu Thomas Gage. Em seu livro, o irlandês explica por que a moça despertava tantas paixões. “Juana de Maldonado era admirada em toda a cidade tanto por sua beleza e sua voz como pelo perfeito conhecimento que tinha da música e pela capacidade de improvisar versos.”

Juana escrevia poesias, mas elas jamais foram encontradas. O terremoto de 1717, que destruiu a Cidade da Guatemala, arrasou o convento e vários manuscritos se perderam. Restou, entretanto, o auto de Natal Entretenimiento en Obsequio de La Guida a Egicto (“Entretenimento em obséquio à fuga ao Egito”, sem edição no Brasil). Além de ser a primeira peça de teatro escrita por uma mulher na América Latina, essa foi a primeira obra que mesclou o espanhol falado na Espanha a expressões usadas pelos criollos, os descendentes de espanhóis nascidos na colônia. “Juana exerceu um importante papel na formação da língua nacional”, diz Luz Méndez. Como as pesquisas em antigos arquivos continuam, outros escritos seus, talvez ainda mais surpreendentes, poderão ressurgir.

Juana Inés de la Cruz

Nada foi fácil para Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana, a maior poetisa da América espanhola. Nascida em 1648, num povoado próximo à Cidade do México, vinha de uma família mestiça. Não conheceu o pai. A mãe encontrou um marido enquanto Juana era criança e mandou a filha para a capital, aos 8 anos, para morar com o avô. Foi na biblioteca dele que Juana teve contato com livros. Devorou desde clássicos gregos e romanos até compêndios de teologia. Começava a nascer uma brilhante escritora.

Autodidata, Juana aprendeu latim, passou a dominar o espanhol como ninguém e estudou até português. Mas, para uma moça sem pai e sem fortuna, a vida era espinhosa na América do século 17. Aos 16 anos, Juana precisou se separar do avô para tentar a vida na corte. Se algum nobre caridoso pudesse se apiedar da jovem e lhe conceder um dote, ela poderia entrar para o convento, onde nenhuma moça era admitida sem pagar uma boa quantia. Ou até casar.

Submeter-se a um marido, entretanto, estava definitivamente fora dos planos de Juana. “Se tivesse se casado, ela jamais teria se tornado escritora”, diz Nela Rio. A própria Juana se encarregou de explicar sua opção pelo convento. “Fiz-me religiosa porque, embora soubesse que essa condição tinha muitas coisas repugnantes ao meu temperamento, pela total negação que possuía ao matrimônio, era o mais decente que podia escolher”, disse ela em uma carta ao bispo de Puebla, Manuel Fernández de la Santa Cruz.

Entre as amizades que Juana fez na corte, estava um nobre muito católico, Pedro Velázquez de la Cadena. Sabendo dos desejos da jovem, ele aceitou pagar seu dote e, aos 21 anos, ela pôde entrar para o Convento dos Jerônimos. Ali, conseguiu escrever livremente, assinando como Sóror (“irmã”, em espanhol antigo) Juana Inés de la Cruz. De sua pena saíram desde sonetos e liras até poemas satíricos, mitológicos e amorosos – muitos deles dedicados a mulheres com quem convivia, como a marquesa de Mancera, que foi vice-rainha do México.

Juana também escreveu belos poemas para outra vice-rainha, Maria Luísa Manrique y Gonzaga, que tinha fama de também ser bonita e inteligente. Para ela, escreveu: “Ser mulher, nem estar ausente/ não é de amar-te impedimento/ pois você sabe que as almas/ ignoram distância e sexo”. Foi Maria Luísa que, de volta à Espanha, em 1682, lançou o primeiro livro de Juana, Inunda­ción Castálida (“Inundação castálida”, inédito em português). “Não se sabe se ela tinha tendências realmente homossexuais ou se pretendia apenas adular a corte. De qualquer forma, Juana foi bastante audaciosa”, diz Nela Rio.

Mesmo antes da primeira edição, os escritos da genial Juana já circulavam pelos salões do vice-reinado no México. Pelas mãos de seus muitos admiradores, suas criações não demoraram a chegar à Espanha. Juana sabia cultivar relações com os poderosos, e recebia em seus aposentos desde membros da alta sociedade mexicana até clérigos influentes.

Defensora do direito à educação das mulheres e da igualdade intelectual entre os sexos, ela expunha suas idéias em cartas enviadas a amigos e conhecidos. Como Juana era protegida e querida pelas autoridades, seus escritos sempre despertavam mais admiração que rancor. Mas, por volta de 1690, isso mudou. Levando sua rebeldia até o fim, Juana não viu problema em criticar o padre Antônio Vieira, figura admiradíssima na América colonial. Quando a freira escreveu a Carta Antagônica, com críticas a um dos sermões dele, o jesuíta português que vivera no Brasil já estava morto e enterrado. Mas isso não evitou a polêmica.

Juana descobriu que podia criticar a sociedade de sua época e até receber homens em seus aposentos, mas jamais poderia ter mexido com as figuras célebres da Igreja. Pressionada por seus superiores, ela teve que se retratar e abandonar a escrita. Pouco tempo depois, em meio a uma epidemia de gripe que tomou conta da Cidade do México, Sóror Juana morreu, com cerca de 45 anos. Era o fim de uma das maiores vozes da América Latina.

Aqui, mulher era para casar

Os portugueses não aceitavam freiras no Brasil colonial
Se na América espanhola os conventos criaram condições para que surgissem grandes talentos femininos, no Brasil a história foi bem diferente. Por aqui, durante muito tempo, não era sequer permitido que uma mulher virasse freira. Enquanto nas terras colonizadas pela Espanha havia mais de 70 conventos em meados do século 17, a primeira casa semelhante do Brasil, a Santa Clara do Desterro, foi fundada somente em 1677, na Bahia. A proibição, imposta por Portugal, tinha um motivo demográfico: a carência de mulheres brancas para encher a colônia com seus filhos.

No começo, a coroa portuguesa teve praticamente um só objetivo no Brasil: explorar as riquezas naturais, deixando de lado o povoamento. Com o passar do tempo, isso se tornou um problema, pois faltavam descendentes de portugueses para ocupar o vasto território colonial. Nesse cenário, uma mulher que virasse freira desperdiçava seu potencial de ser mãe. “No Brasil, o direito de escolher entre casar ou seguir a vida religiosa acabava negado às mulheres, em grande parte por essa questão populacional”, diz Maria José Rosado Nunes, historiadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e co-autora do livro História das Mulheres no Brasil.

Uma das figuras femininas mais famosas do Brasil colonial foi Jacinta de Jesus, que lutou pela fundação do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Ela nasceu em 1715, filha de pais nobres, e decidiu seguir a vida religiosa. Como isso ainda era algo restrito, ela viajou até Portugal e conseguiu uma autorização régia para ser freira e viver num convento. Mas Jacinta morreu pouco depois, em 1768, sem ver o início das obras da instituição criada por causa dela. “Jacinta foi uma guerreira. Não nas artes, como as Juanas latino-americanas, mas no desejo de levar a vida que escolhera”, diz a historiadora Margareth Gonçalves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.


Saiba mais
Livros

Sóror Juana Inés de la Cruz, Octavio Paz, Mandarim, 1998

O poeta escreveu a biografia definitiva da maior poetisa da América colonial, analisando sua vida e sua obra.

La Amada y Perseguida Sor Juana de Maldonado y Paz, Luz Méndez de la Vega, F&G Editores de Guatemala, 2002

Escritora da América Central, a autora investiga a vida da primeira dramaturga da América Latina.

Império da Fé, Margareth de Almeida Gonçalves, Rocco, 2005

Compara as vidas de duas freiras: a brasileira Jacinta de Jesus e a portuguesa Filipa de Trindade (que viveu em Goa).

Revista Aventuras na Historia

2 comentários:

Mirse Maria disse...

Poxa Eduardo.... ainda existe isso?
Preciso de um lugar assim. Dispenso a liberdade sexual. Quero só a liberdade intelectual.

Sabendo me avise.

Beijos

Mirse

Glauco Silva/Glaukito(s) disse...

Tudo bom?

vim te avisar que tem mais um selo pra vc aqui:


http://opublicoalvo.blogspot.com/2009/09/4-selos-numa-socada-souauuuuu-gozei.html

Abraço