segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Diplomacia no Reich

Pesquisa inédita mostra a relação entre diplomatas brasileiros e de outros países da América Latina com os nazistas, antes de a Segunda Guerra Mundial estourar. Seduzidos pelo totalitarismo de Adolf Hitler, o comportamento desses representantes internacionais oscilou entre o calculismo, a ingenuidade e a inabilidade diplomática

POR ROBERTO LOPES


Na segunda semana de maio de 1945, quando a notícia das rendições do exército nazista espalhou- se pela Europa, a Alemanha não passava de uma terra devastada pelos bombardeios, pela fome e pelo medo. As capitulações tinham sido firmadas ao norte do país, pela junta que sucedeu a Adolf Hitler, e em Berlim, pelo comando militar de resistência ao avanço soviético. As fronteiras já haviam sido penetradas no lado oriental pelos temíveis russos, e, no sul e no lado ocidental, pelos anglo- britânicos, secundados por franceses, canadenses e tropas de outras nacionalidades.
Esse cenário de destruição em nada lembrava a nação esplendorosa concebida 12 anos antes pelo Terceiro Reich - o império que Hitler imaginava que iria durar um milênio. Mesmo assim, com a nação desmoronando, algumas administrações provinciais e municipais insistiam em manter certa rotina (a burocracia alemã nunca deixou de lado os carimbos e o preenchimento de fichas), mas tudo ficava prejudicado pela inexistência de um governo central. Nas dispensas do prédio do Ministério do Exterior, na capital, ainda havia chocolates, bebidas finas e enlatados estrangeiros - os restos de uma pilhagem que durara mais de quatro anos no centro da Europa. Bom para os russos, que comeram e beberam artigos das mais nobres procedências - Dinamarca, Holanda, França, Bélgica. Os soldados soviéticos também se abasteceram nas Missões Diplomáticas estrangeiras que haviam fechado as portas na Alemanha: na do Brasil, eles arrombaram salas trancadas e chegaram aos cofres que elas abrigavam, limpando o seu conteúdo.


Batalhão de tanques alemães do tipo Panzer II B desfila pelas ruas de Viena, em março de 1938, após o Anschluss (anexação da Áustria)



Documentos oficiais do Reich foram escondidos dentro de túneis, minas de carvão e até enterrados em chiqueiros
Em meio a essa situação deplorável que a Alemanha se encontrava no fim da Segunda Guerra Mundial, muitos celeiros e galpões do interior do país escondiam caminhões carregados de papéis - a documentação oficial do Terceiro Reich. Havia caixas guardadas dentro de túneis, nos labirintos das minas de carvão e até enterradas sob chiqueiros. Vários diplomatas alemães fugiram de Berlim carregando debaixo do braço pastas e arquivos que consideravam imprescindíveis manter. Grande parte desse material foi queimada, mas nem sempre dava tempo de atear fogo em todo o papelório. E nem sempre, também, essa opção era considerada a melhor.
Antes do suicídio do Führer, ninguém sabia dizer se aqueles nazistas ardilosos conseguiriam, no último instante, fazer a paz em separado com as potências ocidentais e, dessa forma, reagrupar suas forças para interromper o avanço irresistível dos russos. Quiçá ainda houvesse uma chance de sobrevivência para Hitler e sua gente. A máquina administrativa alemã precisava estar a postos, caso fosse convocada a operar novamente. Assim, em maio de 1945, quando a derrota do Eixo veio incondicional, esses papéis tiveram de desaparecer.


Acima, Adolf Hitler e Hermann Goering, entre outros, caminham em Munique, durante a comemoração do aniversário do 14o putsch, em 1937; abaixo, Lutero Vargas, filho de Getúlio Vargas



DOCUMENTOS REVELADORES
Os memorandos da diplomacia alemã no período nazista, que há décadas permanecem guardados em centros de documentação europeus, são provas inarredáveis contra muitos diplomatas latinoamericanos. Servindo em Berlim antes de a Segunda Guerra Mundial estourar, separados por um oceano de suas capitais e de seus superiores, esses homens julgavam poder fazer o que bem entendessem, sem sequer considerar a possibilidade de, um dia, terem suas atitudes iluminadas pelo farol inquisidor e indiscreto da História.
Para boa parte desses diplomatas, que representavam as nações subdesenvolvidas da América do Sul, o regime nazista simbolizava o autoritarismo bem-sucedido. Sob vários aspectos, a Alemanha era considerada um exemplo: politicamente, uma vez que significava o fim de qualquer forma democrática de oposição; militarmente, porque concluiu uma série de projetos armamentistas com extraordinária eficiência; administrativamente, pois recuperou a economia e estabilizou a moeda alemã.

OS VENDEDORES DE CAFÉ


Um relatório da espionagem americana na Suíça, da segunda metade de 1941, mostra que, para alguns diplomatas latino-americanos, a vitória nazista era dada como certa. Em outubro daquele ano, diplomatas colombianos na Europa já haviam entrado em contato com as autoridades hitleristas para organizar a venda de alimentos, incluindo o caro e saboroso café da Colômbia, na Rússia ocupada pelos alemães. Com esse acordo, a Colômbia pretendia saltar à frente da concorrência (Brasil, Guatemala, El Salvador), tão logo Moscou se rendesse aos (supostamente) insuperáveis generais nazistas.

Os estudos sobre a ligação entre os diplomatas do Brasil e dos países vizinhos com a cúpula nazista mostram que esse relacionamento era valioso para ambas as partes. Os alemães precisavam desesperadamente importar os suprimentos estratégicos da América Latina, como alimentos para estocar nos tempos de guerra, para reduzir a independência da economia alemã. Para as nações latino-americanas, essa demanda do Reich representava uma fonte de receita que recuperaria suas economias após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.
As pesquisas a respeito das relações entre os diplomatas latino-americanos e os nazistas, durante as décadas de 1920 e 1930, levaram mais de 20 anos para ficarem prontas e resultaram em um trabalho inédito na historiografia brasileira. Grande parte desse levantamento está no livro Missão no Reich, lançado em 2008, e nas páginas desta matéria exclusiva que os leitores da revista Leituras da História têm nas mãos.
O levantamento explorou fontes documentais de 11 países da Europa e das Américas. Na Alemanha, há fragmentos de dados relevantes para a compreensão das ligações entre os latino-americanos e os nazistas em depósitos tão distantes entre si quanto o Politisches Archiv des Auswärtiges Amt (Arquivo Político das Relações Exteriores), em Bonn, o Mikrofilmarchiv (Arquivo de Microfilmes) da Universidade Livre de Berlim, a Biblioteca de Munique e o arquivo da Hapag-Lloyd, em Hamburgo, além das informações históricas mantidas pelo governo alemão em Colônia, Aachen, Dresden, Freiburg e outras cidades germânicas.

Para boa parte desses diplomatas latino-americanos, o regime nazista simbolizava o autoritarismo bem-sucedido

A investigação também se estendeu pelos arquivos do Estado-Maior do Exército da França - fonte inédita para a historiografia latino-americana -, pelas estantes da Biblioteca da Universidade de Austin, no estado americano do Texas (onde é possível consultar parcela significativa das obras de referência sobre a política externa da América Latina), pelo National Archives, em Washington, o Records Office e o Foreign Office, de Londres. O trabalho de coleta de informações incluiu os arquivos históricos do Itamaraty, no Rio de Janeiro e em Brasília, e dos serviços diplomáticos na Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Venezuela e República Dominicana.


O embaixador do Brasil, Moniz de Aragão (à direita), mostra artigos da produção agrícola brasileira a uma autoridade do Ministério da Agricultura do Reich Hermann Goering, marechal do Reich, em um de seus compromissos de rotina: jantares de gala


JOGOS DE INTERESSES
A rebote das questões de ordem econômica, transparecem na pesquisa algumas atitudes no mínimo inábeis. E outras em que fica sinalizado o interesse pessoal nas relações com funcionários do alto-escalão governamental alemão, a despeito de serem esses os porta-vozes de um regime tão totalitarista quanto cruel para a humanidade. Uma fatal cumplicidade movida (não se sabe ao certo) pela pouca vocação diplomática, a ingenuidade ou a amoralidade dos representantes do Brasil e de outros países latino-americanos envolvidos nos achados desse estudo.
Graças aos documentos pesquisados, sabe-se, por exemplo, que no primeiro semestre de 1941, o embaixador chileno em Berlim, Tobias Barros Ortiz, um militar direitista, deixou seus compatriotas judeus (chilenos naturalizados) mofarem em uma prisão alemã de Paris. Na época, Barros Ortiz negociava com Ernst Woermann, diretor político do Ministério do Exterior alemão, a soltura de oito cidadãos chilenos não-judeus que haviam sido capturados pelos nazistas em Berlim, Paris e Viena. A prisão foi feita em represália à detenção de cinco alemães na cidade chilena de Valdívia, por terem se envolvido em atividades políticas proibidas pela legislação local.
Como forma de demonstrar boa vontade nessa interlocução, Barros Ortiz se dispôs a deixar de lado o pedido de Santiago para que os alemães libertassem os chilenos judeus. Mesmo assim, a "oferta" de Barros Ortiz não adiantou muito e os nazistas só soltaram os chilenos depois de os alemães saírem da prisão de Valdívia, em 30 de setembro de 1941. Quanto aos chilenos judeus, não há registros sobre o destino deles.
Mas essas não são as únicas aberrações que os velhos papéis do Reich revelam. Os textos também registram algumas tramóias diplomáticas, como o caso que envolveu o embaixador do Brasil no Reich, Moniz de Aragão. No início de 1938, Moniz de Aragão tentou parecer ao Itamaraty mais influente do que realmente era junto aos hitleristas, ao insinuar que a nomeação de um alto funcionário do Ministério do Exterior para a chefia da Embaixada no Rio de Janeiro tinha um dedo seu. No fim desse mesmo ano, Aragão tentou novamente se mostrar diplomata de prestígio, ao informar - indevidamente - que o tal embaixador alemão (que se desentendera com o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Oswaldo Aranha, a quem Aragão queria agradar) seria prontamente retirado do posto.


O DIPLOMATA-CUPIDO



Um dos mistérios esclarecidos a partir da análise dos documentos do Reich diz respeito ao telegrama despachado pelo embaixador norteamericano no Rio de Janeiro, Jeff erson Caff ery, em setembro de 1942, a seus chefes na Secretaria de Estado. O representante do presidente Franklin Roosevelt informava Washington acerca da demissão do diplomata brasileiro Fernando Nilo de Alvarenga da assessoria do gabinete da Presidência da República.
Segundo investigações feitas pelo cientista político norte-americano Stanley Hilton, na virada da década de 1970 para 1980, Caff ery, nessa segunda metade de 1942, tinha como certa a exclusão de Alvarenga também dos quadros do Itamaraty. O que aconteceu foi, entretanto, exatamente o contrário: Alvarenga foi promovido e transferido para a bela e pacífica Bogotá. O diplomata safouse da degola funcional graças ao serviço pessoal prestado, três anos e meio antes, a Lutero Vargas, filho mais velho do presidente Getúlio Vargas.

Os diplomatas latinoamericanos deveriam fazer propaganda pró-Hitler em seus países de origem

HERÓIS DA SEGUNDA GUERRA


Apesar da situação de insegurança e dos jogos de interesses que imperavam na Europa no período da Segunda Guerra, alguns representantes de Estado arriscaram o emprego - e a vida - para salvar judeus das garras dos nazistas.


Atualmente, pelo menos duas importantes investigações acerca do comportamento heróico de alguns diplomatas latino- americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, estão em curso: a do cônsul salvadorenho em Hamburgo e Genebra, o coronel Daniel Castellanos; e a do cônsul equatoriano em Estocolmo, Manuel Antonio Muñoz Borrero. Ambos emitiram certificados destinados a salvar judeus dos campos de concentração nazistas. Castellanos fez isso com o apoio de seu governo; Muñoz Borrero lançou os documentos às escondidas e pagou caro pela ousadia: foi demitido do cargo.
Há, contudo, outros personagens que, por seu empenho em salvar a vida dos judeus, mereciam ter suas atuações estudadas. Entre eles estão o ministro da República Dominicana em Berlim, Bonetti Burgos (morto precocemente no fim dos anos de 1930); o ministro do Paraguai em Berlim, general Manlio Schenoni Lugo; e o cônsul-geral da Costa Rica na Europa, Ronaldo Falconer (um diplomata nascido na Inglaterra que, em 1919, naturalizou-se costarriquenho, e, na solidão de seu escritório consular, igualmente no porto de Hamburgo, concedeu vistos a judeus, burlando as restrições impostas pelo governo que representava).
Dois casos famosos de brasileiros que ajudaram a livrar os judeus das garras dos alemães, reconhecidos em Israel pelo Yad Vashem (entidade oficial que preserva a memória do Holocausto), são os de Luis de Souza Dantas, embaixador brasileiro na França; e de Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do Consulado- Geral do Brasil em Hamburg, que depois se tornou esposa do escritor brasileiro João Guimarães Rosa.

Alvarenga era um bom amigo dos nazistas. No final de 1938, ele viajou da Alemanha para o Brasil no mesmo navio do novo embaixador do Reich no Rio, Karl Ritter, que havia sido diretor de assuntos econômicos do Auswärtiges Amt, e gozava de muito bom conceito em Berlim. Na ocasião, Alvarenga voltava ao Rio de férias e Ritter seguia para assumir seu posto. Durante a viagem, os dois estreitaram o relacionamento. Menos de dois meses mais tarde, Alvarenga procurou Ritter na Embaixada alemã no Brasil, a mando do ministro da Justiça, Chico Campos, para pedir a assistência de Berlim na organização de um evento anticomunista que o governo de Getúlio Vargas queria realizar na capital brasileira.

O EMBAIXADOR MAL INFORMADO

No fi m do primeiro semestre de 1939, Pedro Juan Navarro, que acabara de ser empossado como representante da Colômbia na Bélgica, fez uma visita de cortesia a seu colega Pimentel Brandão, embaixador do Brasil. Durante o encontro, que aconteceu na Embaixada do Brasil em Bruxelas, Pimentel deu certeza a Navarro de que a guerra não estouraria na Europa, pelo menos naquele ano. Navarro escreveu sobre a reunião em seu livro de memórias Europa Bárbara, de 1942. O trecho abaixo foi retirado do livro, ainda inédito, 1939: o Ano das Esperanças Mortas, de Roberto Lopes:

"O ministro de Bogotá encontrou-se com o seu colega do Brasil. O embaixador Pimentel Brandão foi ministro das Relações Exteriores, e, como Navarro, era novato no posto. Ainda assim, Navarro supôs que, por seus múltiplos contatos, o brasileiro poderia estar bem informado. 'Não crê que haja guerra, pelo menos este ano', anotou o colombiano. 'Pimentel fundamenta sua opinião dizendo que Inglaterra e França não lutarão por Dantzig (...) Manifesta- se convencido de que de todo o modo se encontrará a fórmula que facilite a anexação pacífi ca pela Alemanha de Dantzig e do corredor, com a aceitação, mediante prévio acordo, de Inglaterra e França. Enquanto os interesses vitais da França não estejam diretamente ameaçados e enquanto a Alemanha não construa uma frota que possa rivalizar com a do Império Britânico, não haverá guerra' concluiu."

A estreita relação entre Alvarenga e os nazistas fez que ele ganhasse com Getúlio Vargas, admirador do regime totalitário Nacional-Socialista de Hitler. Alvarenga e Lutero Vargas haviam se encontrado no início de 1939, quando o diplomata servia como secretário de Embaixada em Berlim. Lutero apareceu por lá, designado para aperfeiçoar-se em Medicina na equipe do prestigioso Dr. Sauerbruch - um médico que detestava os nazistas, mas fingia ser leal a Hitler para não acabar em algum campo de concentração.

SHOÁ VIRTUAL


Documentos liberados pelo Itamaraty sobre políticas anti-semitas devem ser divulgados pelo Departamento de História da USP


Shoá, em ídiche, significa Holocausto. Com o objetivo de tornarem públicos os registros brasileiros sobre políticas antisemitas durante a Segunda Guerra Mundial, o grupo do Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) pretende inaugurar em janeiro de 2009 o Arquivo Virtual do Shoá (Arqshoa). Entre as informações que serão divulgadas, devem estar depoimentos de judeus que, perseguidos pelos nazistas, deixaram a Europa e vieram para o Brasil reconstruir suas vidas. O projeto é coordenado pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, que falou à Leituras da História sobre a importância do arquivo.

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Em um almoço, ao qual compareceu como "escolta" de Lutero, Fernando Nilo ajudou o rapaz a aproximar-se da jovem alemã Ingeborg ten Haeff . O flerte deu certo e os dois começaram a namorar. Em 1940, Lutero foi pressionado a se retirar da Alemanha e incumbiu o fiel amigo Alvarenga de pedir a mão da moça em casamento. Ingeborg aceitou e veio morar no Brasil com o marido. Graças a esse favor que prestou ao filho do presidente Vargas, Alvarenga não foi despedido da assessoria do gabinete da Presidência da República.
Caff ery, embaixador norte-americano no Rio de Janeiro, jamais ficou sabendo por que todo o seu estratagema tendente a eliminar a influência de Alvarenga no governo do Rio fora torpedeado. Foi dito apenas que ele parecia desfrutar de ligações privilegiadas no meio dos Vargas e dos nazistas.




RELAÇÕES [POUCO] DIPLOMÁTICAS
Franceses, ingleses e americanos investigaram, vigiaram e perseguiram muitos diplomatas latinoamericanos (e os parentes deles) suspeitos de colaborarem com o regime nazista. No início do ano de 1940, durante uma reunião interministerial no Quai d'Orsay (Ministério do Exterior, em Paris), os militares franceses alertaram seus companheiros diplomatas: deveriam ter cuidado com o novo ministro da Guatemala na França, José Gregorio Díaz (ex-ministro em Berlim), pois ele estava a soldo alemão.
O FBI (Federal Bureau of Investigation) seguiu os passos dos filhos do ex-cônsul colombiano na capital do Reich, Joaquín Quijano Mantilla - um conhecido simpatizante dos hitleristas -, quando eles resolveram passear nos Estados Unidos. Os agentes americanos também acompanharam os passos da filha do encarregado de negócios uruguaio em Vichy, Luis Dupuy, quando a menina deixou a Europa e voltou a morar em Montevidéu. Dupuy considerava Hitler "um grande caudilho, um verdadeiro condutor de multidões, a quem o povo alemão segue cegamente porque ele sabe (...) de seus deveres de governante e considera o bem do povo a lei suprema".
Um memorando da diplomacia Nazista revela que, em agosto de 1943 - um ano e meio depois de as repúblicas latino-americanas já terem quase todas rompido o seu relacionamento com a Alemanha -, um grupo de diplomatas alemães reuniu-se em uma sala de seu ministério, na rua Wilhelmstrasse. O motivo do encontro era examinar uma relação de diplomatas da América Latina que serviam em Berlim e outras cidades da Europa central, e precisavam de autorização para atravessar as áreas controladas pelas tropas alemãs e alcançar um porto neutro onde pudessem embarcar de volta a seus países.

Detalhe: todos eram considerados simpatizantes do nazismo e aptos a continuarem, em suas capitais, o trabalho de propaganda pró-Hitler. Um deles era o secretário de legação peruano Cerro Cebrián, que não cumpriu a missão, pois foi mandado para outro posto quando chegou a seu país de origem.

A VISITA DE HITLER AO BRASIL


O cônsul brasileiro Vinício da Veiga tentou trazer Adolf Hitler para um tour brasileiro. Mas graças ao extremismo do alemão, o passeio não deu certo


Antes de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, o cônsul brasileiro Vinício da Veiga tentou trazer Adolf Hitler ao Brasil, em 1926. Segundo as anotações pessoais do cônsul, a intenção era permitir que Hitler, na época um político em ascensão na Alemanha, conhecesse a realidade brasileira da América Latina.
O plano de Veiga não deu certo porque o então presidente brasileiro Artur Bernardes negou a concessão do visto. Um dos brasileiros que se manifestou contrário à idéia foi o próprio chefe de Veiga, Guerra Durval, embaixador do Brasil na Alemanha. Durval argumentou que não ficaria bem para o relacionamento bilateral entre Brasil e Alemanha receber um líder extremista que há três anos tentara derrubar a República de Weimar (1918-1933) por uma tentativa de golpe, que ficou conhecido como o Putsch da Cervejaria. Por causa disso, Hitler ficou detido em uma prisão de Landsberg, de 1923 a 1925. Na carceragem, o líder dos nazistas escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta). A proximidade de Veiga com Hitler ficou bem conhecida no Itamaraty, e o cônsul colecionou desafetos por causa disso.


VIAGEM PARA A VERGONHA
Em agosto de 1939, o navio de guerra alemão Admiral Graf Spee deslizou sem ruído para fora do porto de Wilhelmshaven, no norte da Alemanha, em busca de posição no Atlântico Sul. Sua missão era clara: capturar ou fazer desaparecer os navios mercantes dos países que ousassem desafiar o Reich, em conseqüência do ataque à Polônia.
As reações de Londres e Paris, que a 3 de setembro declararam guerra a Berlim, ativaram o corsário alemão. Em contrapartida, o Admiral Graf Spee cumpriu fielmente a tarefa que lhe fora designada: afundou nove embarcações em pouco mais de um mês. Só que a singradura terminou de forma inesperada, com o barco encurralado (e severamente danificado) no porto de Montevidéu, no Uruguai, depois de ter atacado uma frota de três belonaves do Reino Unido.

O CONVITE DO FÜHRER



Acima, o germanoargentino Richard Darré, ministro da Agricultura da Alemanha e guardião dos certificados de pureza racial dos membros da SS; à esquerda, o embaixador argentino no Reich, Eduardo Labougle
Em junho de 1939, ao despedir-se de Hitler, por ter sido removido para o Chile, o embaixador argentino, Eduardo Labougle, elogiou-lhe a obra administrativa: a redução do desemprego, a ampliação da infra-estrutura nacional, a recuperação das finanças. Em resposta, o Führer exibiu falsa modéstia: "Isso não é nada. Volte daqui a quatro ou cinco anos, o senhor sequer reconhecerá Berlim". O embaixador argentino gozava de um acesso especialmente bom à cúpula nazista, e esse canal se devia ao fato de Hitler possuir em seu círculo mais íntimo um germano-argentino, Richard Darré, ministro da Agricultura Nazista, que também era um alto oficial da SS (Schutzstaff el), a organização paramilitar ligada ao partido alemão.
Labougle nunca voltou à Alemanha. Mas mesmo que o tivesse feito, não teria mesmo como reconhecer a avenida Unter den Linden, a principal da porção leste de Berlim, onde ficava o portão de Brandemburgo. Também seria difícil distinguir a Wilhelmstrasse, rua do centro da capital, endereço do Ministério do Exterior e de outros prédios governamentais. Em 1944, esses lugares já estavam irreconhecíveis, de tão degradados. Em 1945, haviam quase desaparecido sob um mar de escombros.

Ao cabo de 72 horas, Hans Langsdorff , comandante do Spee, mandou sua tripulação abandonar a unidade e autorizou que o navio fosse explodido. Langsdorff queria evitar, a qualquer custo, a destruição e captura do Spee pelos navios inimigos, que aguardavam ao largo.
Poucas horas mais tarde, já em um alojamento da Marinha argentina, em Buenos Aires, Langsdorff vestiu seu uniforme branco de gala, enrolou-se na bandeira do Reich e apontou para a própria cabeça uma pistola que tomara emprestada. Por mais de 60 anos, testemunhas desse drama, além de analistas militares e historiadores, ofereceram relatos e conclusões enaltecedoras às qualidades marinheiras do comandante, que, sozinho, engajara toda uma força- tarefa da Grã-Bretanha, inflingira-lhe severas perdas e ainda conseguira escapar por seus próprios meios para o Uruguai. Langsdorff , diziam essas testemunhas, preferira não sobreviver ao seu navio.
Mas essa é a versão que agoniza. Os livros de apontamentos do Admiral Graf Spee voltaram à Alemanha e os dados que eles registraram acerca da chamada "Batalha do Rio da Prata" estão hoje preservados não em Wilhelmshaven - sede, em 1939, do Distrito Naval do Mar do Norte da Marinha alemã -, e sim nos arquivos do Foreign Office, em Londres. As anotações mostram que, bem ao contrário do que se convencionou considerar nas últimas seis décadas, o desempenho do Spee em situação real de combate foi pouco mais do que um fiasco. Seus motores possantes emprestavam ao barco vibração excessiva, sua blindagem era demasiadamente frágil e a pontaria de seus canhões, simplesmente medíocre. Os projéteis disparados pelas baterias secundárias do navio (dos canhões de menor calibre) obtiveram um índice de impacto sobre o inimigo correspondente a 0%.
Caso tivesse decidido manter-se vivo, caberia a Langsdorff , em algum momento, admitir todas essas falhas. Problemas que, de resto, os seus superiores conheciam perfeitamente. Tanto que haviam programado recolher o navio no começo de 1941 para submetê-lo a uma demorada reforma.

ROBERTO LOPES é jornalista, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade, Discriminação e Racismo do Departamento de História da USP, e autor do livro Missão no Reich, primeiro volume de uma antologia que pretende recontar o relacionamento da América Latina com o Nazifascismo, por meio dos relatórios dos diplomatas latino-americanos que serviram na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Nesse momento, Roberto Lopes finaliza o segundo volume da coleção 1939: o Ano das Esperanças Mortas, cujo lançamento está previsto para 2009, ano que marca o 70º aniversário da invasão da Polônia pelas tropas alemãs.

Revista Leituras da Historia

Um comentário:

Mirse Maria disse...

Interessante, Eduardo!

Não sabia term laços tão próximos a diplomaCIA BRASILEIRA COM A HITLERANA.

Por muito pouco nos livramos, ou será que não?

Bela postagem!

Forte abraço

Mirse