quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Diário da loucura


Diário da loucura
O Alienista pode ser lido como intervenção caricatural de Machado de Assis no grande debate entre o altar e o trono

Ivan Teixeira

A figuração da loucura é uma das linhas de força de O Alienista, mas não a única nem a principal. A denúncia irônica da ciência e a exploração humorística da loucura exercem função secundária em argumento mais importante na dinâmica da história. Apoiado no motivo da insânia, o tema central da novela é a disputa pelo poder, processo em que se destaca o padre Lopes, alegoria da Igreja. Desde o início, ele ambiciona desautorizar as pesquisas de Simão Bacamarte, neutralizar as verdades da ciência, ratificar a teologia e manter o controle da cidade. Afinal, é ele quem decreta a loucura de Bacamarte, confinando-o na Casa Verde. Assim, O Alienista pode ser lido como intervenção caricatural de Machado de Assis no grande debate entre o altar e o trono, ocorrido por ocasião da Questão Religiosa (1872-1875), em que Pedro II teve de se curvar diante do poder internacional do clero. Por essa perspectiva, o dirigente da Casa Verde seria uma espécie de simulacro irônico do imperador, que representaria certas distorções do poder ilustrado da razão. Nas décadas de 1870 e 1880, era corrente no Rio o pensamento irônico de que o clero pretendia assumir o controle da vida pública no país. Trata-se de reação contra o desfecho da Questão Religiosa. O Alienista pode ser entendido como versão literária dessa tradição caricatural, sustentada sobretudo pelos jornais satíricos da época.

Em Nota Preliminar, aos contos humorísticos de Edgar Allan Poe, Oscar Mendes levanta a hipótese de que Machado teria se inspirado em The System of Dr. Tarr and Prof. Fether para escrever O Alienista. A nota de Oscar Mendes não vai além dessa revelação. Mas não é pouco, visto que daí poderá resultar relevante estudo comparativo, donde se extrairão dados sobre o repertório técnico de Machado, particularmente sobre seu modo de apropriação das fontes.

É bem provável que a história de Poe tenha menos alcance artístico que a de Machado e não ocupa, na literatura americana, o mesmo lugar que O Alienista ocupa na brasileira. O conto de Poe também narra a reviravolta nos critérios de estabelecimento da loucura em um asilo. No sul da França, em meio a uma floresta sonâmbula, um hospício tornara-se famoso pela adoção do método de brandura, cuja doutrina consistia em dar liberdade aos internos e em satisfazer suas fantasias, admitindo como verdade seus delírios. De tanto conviver com os insanos, o diretor do asilo, Sr. Maillard, enlouqueceu e foi convertido em paciente. Tirando proveito da liberdade do método de brandura, o ex-diretor liderou uma revolta, libertou os maníacos e internou os funcionários, reimplantando o método tradicional, ao qual, além do confinamento, ele adiciona a tortura do alcatrão e da pena.


Um dos dispositivos técnicos mais fortes do conto consiste na escolha do ponto de vista da narrativa, que se constrói pela ótica de um visitante ao asilo. Aqui, a técnica compõe o assunto. Testemunhando as ocorrências pelo prisma do espanto e da novidade, o visitante descreve a situação com olhos ingênuos. Sendo completamente maluco, o Sr. Maillard apresenta-se como prudente diretor do asilo. E o narrador acredita nisso. Unindo-se pelo tema e pela perspectiva relativista do humor cínico, os dois textos possuem estrutura muito diversa. A narrativa de Poe inicia-se perto do final da ação, cujo início e meio se reconstituem por informes fragmentários que se intercalam ao desenrolar dos fatos que compõem o presente de enunciação. O conto abre-se pela chegada do narrador à clínica. Em seguida, o visitante conhece as instalações e os habitantes, até presenciar a revolta final, quando os antigos funcionários livram-se das prisões e, com violência, restabelecem a ordem no hospício.



O interesse do conto funda-se na duplicidade do modo narrativo, rigorosamente irônico. O fermento da mudança ou da catástrofe, que converte o drama em comédia, estando em plena maturação e já em ponto de explodir desde o início do texto, é ignorado pelo narrador, que não o percebe por falta de domínio sobre o cenário. Assim, a evidência da loucura, sendo apreendida muito cedo pelo leitor, só será notada pelo narrador no momento crucial do óbvio. Assim, o relato será sempre duplo, oscilando entre o delírio e a razão. Por trás da falácia do diretor, instaura-se a verdade da ironia, que deixa espaço para a independência dos acontecimentos. Além de reproduzir as múltiplas vozes das personagens, que funcionam como casos intercalados na história central, a voz do narrador dialoga com a voz hipotética do leitor, produzindo não só a impressionante variedade rítmica da narrativa, mas também a diversidade da estrutura e a polivalência do sentido. Assim, o núcleo da significação irônica do texto decorre da disparidade entre o que o narrador observa e aquilo que o leitor entende a partir da interpretação das observações dele.



Em que pese as diferenças entre O Alienista e o conto de Poe, parece bastante aceitável a hipótese de que Machado não só leu The System of Dr. Tarr and Prof. Fether, como pode ter extraído daí, no mínimo, três sugestões específicas para compor sua novela: a tópica do mundo às avessas, segundo a qual os loucos assumem o lugar dos normais; o modo alegórico de composição, que faculta a existência de diferentes planos bem delimitados na significação do texto; conquista do humor pela exploração do grotesco. Além disso, ambos os textos adotam a técnica do conto enquadrado, graças à interpolação de pequenas histórias no fio central da narrativa.



Diferentemente do que ocorre em O Alienista, The System of Dr. Tarr and Prof. Fether concentra-se no assunto da loucura, sem deixar de expandi-lo em outras direções. Privilegiando a instabilidade do conceito de demência, ambos satirizam a precariedade da terapia adotada nos respectivos espaços culturais. Se a insânia não se deixa caracterizar com precisão, o que dizer dos métodos de cura? Assim, os textos, em sua ruidosa inversão de valores, estabelecem um paradoxo entre a relatividade da definição de loucura e a certeza dos métodos, donde resulta o humor satírico de cada narrativa. Machado não só apresenta uma resposta ficcional a questões importantes no debate político do tempo, como intervém na controvérsia cultural sobre o tratamento da demência, que foi uma das primeiras preocupações do governo do segundo imperador.



Da mesma forma, o conto de Poe contém diversas alusões a discursos políticos e culturais de seu tempo. Poe deve ter freqüentado o State Hospital for the Insane at South Boston, um dos pioneiros na aplicação do método soothing system nos EUA, cujo diretor, Dr. Pliny Earle, era seu amigo. Além disso, é corrente a idéia de que The System of Dr. Tarr and Prof. Fether dialoga com escritos de Charles Dickens e Nathaniel Parker Willis. Mas nenhum desses textos associa o estudo da demência ao propósito de classificação das pessoas como forma de controle social, tal como o faz Machado de Assis. Por isso, a atenção de O Alienista recai sobre a cidade, sendo a Casa Verde o meio pelo qual se mantém a viligância sobre a população. Em Poe, ao contrário, a narrativa concentra-se no hospício, que se constrói isolado de qualquer contexto social, visto que sua função é, basicamente, problematizar o conceito de sanatório e condenar, por meio do ambiente fechado do asilo, os métodos abertos de punição física do século 18 conhecidos como tarring & feathering.


Ivan Teixeira é professor da Universidade do Texas; o texto é resultado parcial de pesquisa que desenvolve com apoio do Lozano Long Institute

26 de setembro de 2008

JORNAL O ESTADÃO

Um comentário:

José Antonio Martino disse...

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