quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Lenço no pescoço, samba no bolso


Lenço no pescoço, samba no bolso
Adepto da malandragem, Wilson Batista inscreveu seu nome no samba com muitas composições e uma famosa polêmica
Valdemar Valente Júnior

“Samba é como meretriz: de quem pagar mais”. Wilson Batista definia sua atividade sem meias palavras, admitindo a venda da autoria de seus sambas quando a situação apertava e ele ficava sem nenhum. E embora tenha sido um dos mais produtivos compositores do país, com mais de 700 canções, o pagamento nunca esteve à altura de sua arte. Viveu para a malandragem e morreu sem nada.

Desde pequeno, em Campos, sua cidade natal, no norte fluminense, Wilson já demonstrava versatilidade musical: compunha, tocava triângulo na banda Lira de Apolo e criava paródias de músicas conhecidas para o Bando Corbeille de Flores, do qual também era integrante. Tinha 16 anos quando se mudou com a família para o Rio de Janeiro, em 1929. Sua vida mudaria rapidamente.

Pouco dado ao trabalho e aos estudos, resolveu morar sozinho perto do bairro da Lapa, reduto de músicos e boêmios, passando a freqüentar as rodas nos bares e cafés do Largo da Lapa e da Praça Tiradentes. O teatro de revista era a principal vitrine musical de uma época em que o rádio ainda não tinha se firmado como canal de comunicação urbana, e para se aproximar do meio artístico, Wilson arranjou bicos como contra-regra e iluminador dos espetáculos. Foi assim que fez chegar à cantora Araci Cortes (1904-1985) o primeiro samba que compôs, “Na estrada da vida”. Era ainda 1929 quando ela apresentou ao público os versos “Todo homem carrega a sua cruz/ Na estrada da vida que é longa e sem luz”.

Da estréia no teatro de revista decorreu a gravação, em 1932, de “Por favor, vá embora” (parceria com Benedito Lacerda), cantada por Patrício Teixeira. No ano seguinte, Wilson Batista entrou numa polêmica que se tornou histórica, envolvendo outro grande nome da música: Noel Rosa.
No samba “Lenço no pescoço”, gravado por Sílvio Caldas, Wilson exalta a condição de malandro: “Eu tenho orgulho/ Em ser tão vadio/ Sei que eles falam/ Deste meu proceder/ Eu vejo quem trabalha/ Andar no miserê”. Em resposta, Noel Rosa compõe “Rapaz folgado”: “Malandro é palavra derrotista/ Que só serve para tirar/ Todo o valor do sambista”. A tréplica veio com “Mocinho da Vila”, uma clara referência ao desafeto: “Você que é mocinho da Vila (...) Injusto é seu comentário/ Fala de malandro/ Quem é otário”.

Daí se seguiu uma aparente trégua entre os compositores, mas ela só durou até 1935, quando “Feitiço da Vila” reacendeu a questão. Não pela letra original, um dos muitos sambas a exaltar um bairro da cidade, mas pelas provocações de Noel durante improvisos feitos no “Programa Casé”, veiculado pela Rádio Philips. O samba original ganhou os seguintes versos: “A zona mais tranqüila/ É a nossa Vila/ O berço dos folgados/ Não há um cadeado no portão/ Porque na Vila/ Não há ladrão”. A paródia teria a ver com a vida pessoal de Wilson, que havia sido preso várias vezes por furto e por vadiagem. Comentava-se no meio musical que Noel preparava uma série de novos sambas pondo lenha na fogueira. O revide de Wilson Batista veio no ato, com “Conversa fiada”: “É conversa fiada/ Dizerem que samba/ Na Vila tem feitiço (...) Antes de irem dormir/ Dêem duas voltas no cadeado”.

A irritação de Noel não tardou a se manifestar. Em 1936, Araci de Almeida gravou seu bombástico “Palpite infeliz”: “Pra que ligar a quem não sabe/ Aonde tem o seu nariz?/ Quem é você que não sabe o que diz?” Wilson ainda compôs dois sambas que ficaram sem resposta. Em “Frankenstein da Vila”, referia-se ao defeito físico de Noel, uma deformação no queixo provocada no parto: “Boa impressão nunca se tem/ Quando se encontra um certo alguém/ Que até parece o Frankenstein”. E em “Terra de cego” ironizava a melhor condição social do “Poeta da Vila”: “Perde a mania de bamba/ Todos sabem qual é/ O teu diploma no samba”.
Algum tempo depois, no restaurante O Leitão, na Lapa, os dois fizeram as pazes. Como era de se esperar, o encontro também deu em samba: Noel pôs nova letra na melodia de “Terra de cego”, que passou a se chamar “Deixa de ser convencida”.

Vítima de tuberculose, Noel morreu em maio de 1937, meses antes da entrada em vigor do Estado Novo de Getulio Vargas. O regime promoveu uma intensa propaganda do trabalhismo, investindo na formação de um proletariado ordeiro e tutelado, numa espécie de imagem digna da pobreza. As referências à malandragem, até então vistas com certa tolerância, passam a ser censuradas com rigor. Nesta situação, por questões de sobrevivência, o malandro provisoriamente “se regenera”.

Até mesmo Wilson Batista, antes defensor convicto da malandragem, se rende ao ambiente da época e, em samba, ressalta a importância do trabalho. Em 1941 ele compõe, com Ataulfo Alves, “O bonde São Januário”, sucesso no carnaval: “Quem trabalha é que tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar/ O bonde São Januário/ Leva mais um operário/ Sou eu que vou trabalhar”.

Os valores tradicionais da família também passaram a ser louvados pelo agora bem-comportado mundo do samba. O maior sucesso de Wilson Batista até então trata exatamente disso: em “Oh, seu Oscar” (1940), um marido abandonado se lamenta: “Fiz tudo para ver seu bem-estar/ Até no cais do porto eu fui parar/ Martirizando o meu corpo noite e dia”. E a figura do chefe de família responsável aparecerá em várias outras composições, como “Ganha-se pouco, mas é divertido” (1941), “Boa companheira” e “Emília”, ambos de 1942.

Os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial – especialmente com a entrada do Brasil no conflito, em 1944 – deram origem a sambas primorosos. A figura do sambista Laurindo, personagem fictício que aparece pela primeira vez no samba “Triste cuíca”, de Noel Rosa e Hervê Cordovil, é recuperada como herói de guerra em “Lá vem Mangueira”, “Comício em Mangueira” e “Cabo Laurindo”: “Laurindo voltou coberto de glória/ Trazendo garboso no peito/ A cruz da vitória”.
O malandro tornou-se “chefe de família” em 1945, ao casar-se com Marina. Era uma jovem baiana que ele conhecera num baile de carnaval. Desde o namoro, a musa inspiradora já lhe rendia belos sambas, como “Lealdade” – “Serei, serei leal contigo/ Quando eu cansar dos teus beijos, te digo” – e “E o 56 não veio” – “Será que ela não veio porque se zangou?/ Ou o bonde Alegria descarrilou?” O nome do bonde não era licença poética. Quando os namorados brigavam, Marina deixava de ir ao seu encontro na Central do Brasil e pegava uma condução que passava pelo cais do porto, percurso diferente do Alegria, linha 56. Os quatro anos de casamento coincidiram com algumas das melhores composições de Wilson, como “Louco (Ela é seu mundo)” e “Vulto”.

A parceria com o compositor e caricaturista Nássara (1910-1996) foi outra fonte de sucesso. Emplacaram as marchas “Balzaquiana” (1950) e “Sereia de Copacabana” (1951) e o samba “Mundo de zinco” (1952). Quando o cantor Francisco Alves morreu num acidente de carro em 1952, recebeu da dupla uma homenagem comovente – em “Chico Viola”, Wilson aproveita para mostrar que seu antigo desafeto, Noel Rosa, também tinha lugar de honra na memória do samba: “Na voz do seu plangente violão/ Ele deixou seu coração/ Partiu, disse adeus/ Foi pro céu/ Foi fazer, foi fazer/ Companhia a Noel”.

Com a chegada da Bossa Nova e, mais tarde, da Jovem Guarda, Wilson Batista tornou-se um compositor fora de moda. Para piorar, sua saúde era precária. Com problemas cardíacos e uma infiltração pulmonar, era uma pálida lembrança do homem elegante de outros tempos, sempre vestido de terno azul-marinho ou branco e camisa de seda. O consumo de drogas agravava ainda mais seu estado. A aparência dizia tudo: olheiras profundas, rosto magro e barba por fazer.

Viveu seus últimos anos na mais absoluta miséria. Quem o conhecia se cansara de “levar mordidas” de dinheiro emprestado que nunca voltava. Wilson vendia seus sambas por qualquer preço, especialmente para Jorge de Castro, contraventor do jogo do bicho. Foi despejado do apartamento onde morava, na Rua Senador Dantas, por falta de pagamento.

Wilson Batista morreu numa enfermaria coletiva do Hospital Souza Aguiar no dia 7 de julho de 1968, quatro dias depois de completar 55 anos. A seu pedido, foi providenciado um smoking, pois queria ir para o outro mundo em traje de gala. Seu corpo foi enterrado ao anoitecer, em homenagem a quem tanto amou a noite.
Deixou um sofá, uma geladeira, uma vitrola, um gravador, um caderno com letras de músicas e alguns troféus. Mas seu maior legado não tem preço: as composições e a malandragem que ele eternizou no imaginário carioca.

Valdemar Valente Júnior é professor de Literatura Brasileira da Universidade Castelo Branco e da UniverCidade e autor da tese “Entre a cidade e o campo: Mário de Andrade e a música popular” (UFRJ, 2003).

Saiba Mais - Bibliografia:

CUNHA, Fabiana Lopes da. Da marginalidade ao estrelato: o samba na construção da nacionalidade (1917-1945). São Paulo: Annablume, 2004.

GOMES, Bruno Ferreira. Wilson Batista e sua época. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

PIMENTEL, Luís e VIEIRA, Luís Fernando. Wilson Batista: na corda bamba do samba. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.

SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 1 (1901-1957) . São Paulo: Editora 34, 1997.

Saiba Mais - Discografia:

João Nogueira. “Wilson, Geraldo e Noel”. (1981) CD.

Joyce e Roberto Silva. “Wilson Batista”. (1985) CD.

Wilson Batista. “MPB: Compositores” (1987) CD.

Cristina Buarque. “Ganha-se pouco, mas é divertido: Cristina Buarque canta Wilson Batista”. (2000) CD.

Roberto Paiva e Francisco Egídio. “Polêmica”. (2003) CD.

Malandro que é malandro...

Vagabundo, esperto, preguiçoso, contraventor: as características mais variadas são associadas à figura do malandro. Está aí uma das grandes dificuldades para se chegar a uma definição sobre sua identidade. No clássico estudo Carnavais, Malandros e Heróis, o antropólogo Roberto DaMatta descreve o malandro brasileiro como alguém que transita dentro e fora da ordem social. Para o autor, ele se posiciona na linha intermediária entre o caxias, que segue todas as regras, e o criminoso.

É alguém que prova a existência de uma outra maneira de se realizar na vida: no lugar das preocupações com o trabalho e com o acúmulo de riquezas, o prazer e os sentimentos passam a ser prioridade.

Além da boemia, o malandro se caracteriza pela facilidade em burlar leis impossíveis de serem cumpridas, revelando um modo tipicamente brasileiro de lidar com imposições absurdas. DaMatta adverte, no entanto, que quando o campo de atuação do malandro passa das malandragens socialmente aceitas para a violência explícita, ele se torna um criminoso de fato: “É quando o malandro corre o risco de deixar de viver do jeito e do expediente para viver dos golpes, virando então um autêntico marginal ou bandido”. (Equipe RHBN)

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

2 comentários:

Marina-Emer disse...

Hola paso de visita de verano ...bonito texto y muy interesante.
abrazos
Marina

Cris Prata disse...

Como sempre, ótimos posts! Parabéns!
Cris
http://vagasurgentes.blogspot.com