segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Canibalismo: amor e ódio


Ronald Raminelli

Na Grécia antiga, o ato de comer carne humana era denominado anthropophagía. Somente depois da descoberta da América, difundiu-se o termo canibalismo. Sua origem remonta à primeira viagem de Colombo, quando o navegador soube, por intermédio dos arawak, que os carib, seus inimigos, eram ferozes, bárbaros e conhecidos como cariba. Antropófagos e canibais são, em princípio, idênticos, mas há uma importante distinção: antropofagia seria ritual, enquanto o canibalismo ocorreria motivado pela necessidade, pela fome. Essa diferença destaca que o consumo da carne humana como mantimento era mais degradante do que a ingestão segundo regras sociais. Os antropólogos discordam da variação, pois não há notícias de sociedade que consumiu carne humana como alimento. No período colonial, foram descritos dois tipos de canibalismo ou antropofagia: exo-canibalismo, comum entre os tupis, e endo-canibalismo, praticado, segundo cronistas coloniais, pelos tapuias do nordeste.

Entre os primeiros, os festins canibais faziam parte da guerra. O prisioneiro era conduzido à aldeia, onde, mais tarde, encontraria a morte em ritual marcado pela vingança e coragem. Logo após a chegada, o chefe designava uma mulher para casar com ele, mas ela não podia afeiçoar-se ao esposo. O dia da execução era uma grande festa. No centro da aldeia, os índios, sobretudo as índias, se alvoroçavam. Os vizinhos também estavam convidados, todos provariam da carne do oponente. No ritual, homens, mulheres e crianças lembravam e vingavam-se dos parentes mortos. Imobilizada, a vítima não esquecia do ímpeto guerreiro: enfrentava com bravura os inimigos e perpetuava o sentimento de vingança. Seus parentes logo o reparariam a sua morte. Essa morte era honrosa, criava elos entre amigos e entre inimigos e identidade entre grupos. Depois de morto, a carne era dividida entre músculos e entranhas. As partes duras eram moqueadas e consumidas pelos homens; mulheres e crianças ingeriam as partes internas cozidas em forma de mingau. O matador, no entanto, não participava do banquete, entrava em resguardo e trocava de nome. Com a colonização, esse rito foi paulatinamente abandonado, provocando, segundo Eduardo Viveiro de Castro, a perda de uma dimensão essencial da sociedade tupinambá: a identidade. O antropólogo ainda comenta que a repressão ao canibalismo não foi o único motivo para o abandono. Os europeus passaram a ocupar o lugar e as funções dos inimigos, alterando a lógica do ritual.

O endo-canibalismo não se pautava na vingança, mas na ingestão da carne de amigos ou parentes já mortos. Entre os tapuias, não havia melhor túmulo do que as entranhas dos companheiros. Era um ato de amor: mães e pais devoravam seus filhos. Depois de morto, o parente era retalhado e cozido em uma panela. Incineravam os ossos e, em seguida, raspavam-no. Nada era esquecido, nem mesmo o pó que era engolido com água. Os restos eram guardados e consumidos, posteriormente, em solenidades. Ao término do repasto, punham-se a gritar e a chorar.

Ronald Raminelli é professor de História da UFF

JB 500 anos

2 comentários:

Marina-Emer disse...

¡¡¡que barbaridad comer carne humana !!! pero se dice que aún existe ohhhhhhhh.
besos
Marina

gerardo cailloma disse...

No hay que olvidar que los cristianos tienen ese mito en forma figurada, con la transubstanciación en cuerpo y sangre de cristo. la comunión es un acto de canibalismo-antropofagia figurado. Sería interesante ver los orígenes de este proceso que nos viene de manera oscura desde la última cena.