segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Histórias infantis: Quem te medo do Lobo Mau?


Histórias infantis: Quem te medo do Lobo Mau?
No século 16, os contos de fada nãoeram brincadeira de criança. Sexo, violência e fomeapimentavam as tramas inventadas por camponesasnas poucas horas de diversão
por Flávia Ribeiro
E se o lenhador não chegasse no fim da história para salvar Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha? E se a menina, antes de ser devorada pelo Lobo Mau, ainda fosse induzida por ele a beber o sangue da avó, além de tirar a roupa e deitar-se nua na cama? Você contaria tal historinha a seu filho? Os camponeses da França do século 16 contavam – e os detalhes violentos e libidinosos desta e de outras histórias que povoam o nosso imaginário infantil não param por aí. Se você nunca ouviu as versões apimentadas, foi por obra e graça de escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponesas criadas em comunidades de forte tradição oral.

Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida e outros contos de fadas tão familiares foram passados de geração para geração por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias. Nestas reuniões, chamadas de veillées pelos franceses, as mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, o que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”. Os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes. No universo dos camponeses franceses pré-Revolução, nos séculos 17 e 18, não havia tempo para descanso. Durante o Antigo Regime, diversão e trabalho misturavam-se, como na história da pobre Gata Borralheira.

Sem papas na língua, as contadoras de histórias caprichavam nos detalhes, digamos, escabrosos. Na versão original, A Bela Adormecida, por exemplo, foi violada por um anão durante o sono. Isso acontecia porque, naqueles tempos, essas não eram exatamente histórias infantis. “Era uma cultura rústica. Não havia distinção entre infância, adolescência e idade adulta. As crianças vestiam-se como adultos, ouviam e falavam como adultos, participavam do mundo do trabalho e do mundo familiar como adultos”, diz o historiador Antônio Edmílson Martins Rodrigues, professor das universidades UERJ e PUC-RJ. “Esses contos eram galhofas, que serviam para unir a comunidade, mas já com a função de educar: não saia da estrada, obedeça ao mais sábio, não ande sozinho à noite, é que o diziam”, completa.

Tanta inspiração nascia do cotidiano: a segurança da casa e da aldeia opunha-se aos perigos da estrada e da floresta, como em Chapeuzinho Vermelho. A crueldade fazia parte do roteiro pois era pobreza e morte que se esperava do mundo no século 16. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria, em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los. “De forma simbólica ou realista, produtos culturais tematizam valores e aspectos sociais. Por isso é fácil ouvi-los ou lê-los e deixar-se envolver por eles”, diz Marisa Philbert Lajolo, professora de Teoria e História Literária da Unicamp. “O exemplo clássico é ver no abandono de Joãozinho e Maria tanto o registro de um comportamento adulto em época de grande fome quanto a representação do medo infantil de ser abandonado”.

O mundo dos contos de fada só fica cor-de-rosa quando começa a ser feita a distinção entre infância e vida adulta. “A invenção da infância ocorre no século 18, quando as casas são separadas em quarto, sala e cozinha, e as tarefas e interesses também começam a ser divididos. É quando a redenção chega aos contos e se enfatiza o final feliz”, diz Antônio Edmílson. Foi nesse momento da história que entraram em ação Perrault, os irmãos Grimm e, mais tarde, Andersen. Eles não foram os primeiros a passar para o papel as histórias dos camponeses, mas foram os mais bem-sucedidos em sua adaptação ao gosto da nobreza e das crianças. Perrault, por exemplo, incluiu comentários sobre os costumes e a moda das elites em suas versões para dar uma cara à nação francesa.

O que o escritor fez em seu Contos da Mamãe Gansa, de 1697, de certa forma foi o que os contadores faziam nas aldeias: adaptou um fio condutor comum a sua realidade, eliminando detalhes violentos ou de conteúdo sexual – e incluindo a “moral da história”. A adaptação ao gosto do contador, aliás, é uma marca que atravessa os tempos. Em uma história da China do século 9, por exemplo, uma moça chamada Yeh-Hsien é ajudada por um peixe mágico, que lhe dá chinelas de ouro para a festa da aldeia. Na volta para casa, ela perde uma das chinelas, que vai parar nas mãos do governante. No fim, o chefe local apaixona-se pelos pés pequenos de Yeh-Hsien, em consonância com os costumes chineses de enfaixar os pés das meninas para que não crescessem. As diferenças culturais estão claras, mas pode-se reconhecer as origens de Cinderela no conto. “Uma história contada oralmente pode ser adaptada à situação e aos ouvintes. Já um conto escrito tem sua forma fixada. Mas o que a escrita fixa, o leitor e o ouvinte reescrevem, adaptando à sua própria experiência”, diz Marisa Lajolo. É, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, seja na China do século 9, na França do século 18 ou nos dias de hoje.

Chapeuzinho vermelho

Na França do século 18, Chapeuzinho Vermelho não usava um chapeuzinho vermelho. E o Lobo matava a vovó, enchia uma jarra com o seu sangue e fatiava sua carne. Quando a menina chegava, ele, já travestido, mandava que ela se servisse do vinho e da carne. Depois, pedia à menina para se deitar nua com ele. A cada peça de roupa que tirava, Chapeuzinho perguntava o que fazer, e o lobo respondia: “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais”. E ela não perguntava dos olhos, orelhas ou nariz do algoz. Dizia, sim: “Ah, vovó, como você é peluda!”, ao que ele respondia: “É para me manter mais aquecida”. Citava ainda seus ombros largos e suas unhas compridas, em comentários sensuais, antes de dizer: “Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!”. E a história terminava com o lobo devorando a garota. Sem caçador para salvá-la, sem final feliz e sem medo de mexer com tabus.

Na versão dos irmãos Grimm, do início do século 19, não tem banquete canibal, nem strip-tease ou mortes. Chapeuzinho, incitada pelo Lobo, desvia-se do caminho para colher flores. Enquanto isso, o lobo devora a vovozinha e veste suas roupas. Quando a gorota chega, faz as perguntas clássicas: Por que a senhora tem orelhas tão grandes?” É para te ouvir melhor”, responde o Lobo, e assim sucessivamente, passando pelos olhos, o nariz e as mãos, até a pergunta fatal: “Por que a senhora tem essa boca enorme? “É para te comer!”, diz o Lobo, devorando-a. Os Grimm incluíram na trama ainda a figura do caçador, que corta a barriga do Lobo e liberta a avó e a neta. Chapeuzinho então joga pedras na barriga do Lobo, que morre. E aprende a obedecer a mãe, a andar sempre no caminho certo e a não dar papo para lobos.

Cinderela

Incesto, assassinato, mutilação... Assim eram as versões primitivas de Cinderela. Em uma das histórias, a moça vira empregada para fugir do assédio sexual do pai. Em outra, a madrasta, tentando matar a enteada, joga uma de suas filhas na fogueira. Numa terceira, a madrasta deixa Cinderela sem comer, numa época em que a fome rondava as aldeias. Há outra, registrada por Giambattista Basile na coletânea Pentameron, do início do século 17, em que o pai de Cinderela casa-se com uma mulher que a trata mal, quando ela queria que ele se casasse com a governanta. Cinderela, então, assassina a madrasta.

A versão dos irmãos Grimm para Cinderela ainda era sangrenta. Nela, a Gata Borralheira plantou uma aveleira no túmulo da mãe e a regou com lágrimas. Na árvore morava um pássaro, que a cobriu de ouro para três dias de baile. No terceiro dia, o príncipe pegou o sapatinho da desconhecida. Na hora de experimentar nas donzelas do reino, uma irmã de Cinderela cortou o dedo do pé e a outra o calcanhar. Claro, o sapatinho só serviu na dona. E, no dia do casamento, duas pombas perfuraram os olhos das irmãs. Na versão de Perrault, famosa hoje, não há mutilações, cegueira ou pássaros mágicos. E, sim, uma fada-madrinha.

A Bela Adormecida

Em relatos franceses e espanhóis do século 14 ao 16, os detalhes de A Bela Adormecida arrepiam. O príncipe encantado já é casado e viola a princesa durante o sono. Ela tem dois filhos com ele, ainda dormindo, e é despertada não por um beijo, mas pela mordida de um dos filhos enquanto os amamenta. A sogra do príncipe descobre tudo e tenta matar e comer a princesa e as crianças bastardas.

No início do século 17, o italiano Giambattista Basile escreveu a Pentameron, com sua versão para A Bela Adormecida, intitulada O Sol, a Lua e a Tália. A princesa chamava-se Tália, e seus filhos Sol e Lua. Ela dorme após espetar o dedo, e é acordada quando o filho suga a farpa. A versão se assemelha à da tradição oral, com a diferença de que é a esposa do príncipe que manda matar a princesa. Já no fim do século 17, em Contos da Mamãe Gansa, Perrault publica A Bela Adormecida no Bosque, em que um príncipe, belo e solteiro, desperta a princesa. A versão popular hoje é dos irmãos Grimm, do século 19. A princesa pica o dedo no fuso, dorme cem anos e acorda com um beijo do príncipe encantado.


Saiba mais
Livros

Da Fera à Loira: Sobre os Contos de Fadas e seus Narradores, Marina Warner, Companhia das Letras, 1999. Análise de várias versões de contos de fadas

Contos de Grimm, volumes 1 e 2, Jacob e Wilhelm Grimm, Editora Ática, 2003. As versões dos irmãos alemães para 17 contos de fadas famosos

Histórias ou Contos de Outrora, Charles Perrault, Landy, 2004. Versão completa de contos como Cinderela e A Bela Adormecida no Bosque

A Princesa que Dormia, Charles Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm e Giambattista Basile, Editora da Unisc, 1996. A Bela Adormecida em suas três versões

Revista Aventuras na Historia

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