sábado, 16 de maio de 2009

Jóia beneditina


Uma das mais importantes construções barrocas do país, o Mosteiro de São Bento continua impressionando visitantes pelo refinamento de sua arquitetura
Jorge Victor de Araújo Souza

Localizado em um monte rente à Baía de Guanabara, no centro do Rio de Janeiro, o Mosteiro de São Bento teve sua construção iniciada em 1633 e terminada em meados do século XVIII. Um relato anônimo, datado de 1762, descreve minuciosamente a exuberância de sua igreja: “Estava o templo soberbamente adornado; porque sobre ser todo o seu corpo incrustado de belíssima e dourada talha, tinha o arco maior e o das capelas laterais cobertos de setiais (assentos) de veludo carmesim, e rematava-se cada um em pavilhão do mesmo, avivados de melânias (estofo de lã ou seda) de prata e orlado tudo com galões e franjas de ouro”.

Um dos mais belos edifícios barrocos do país, a igreja do Mosteiro de São Bento tem uma arquitetura extremamente contrastante: se no exterior impera uma fachada austera, um esplêndido brilho dourado preenche o interior. Estão dispostos na entrada da capela-mor dois grandes anjos tocheiros. No altar-mor, colunas retorcidas conduzem o olhar para um belíssimo teto pintado. A talha dourada ao longo da igreja é enriquecida com inúmeros detalhes formados por anjos, pássaros, frutas e representações geométricas.

Alguns dos principais artistas que trabalharam na igreja eram também monges, como frei Ricardo do Pilar, pintor, frei Bernardo de São Bento, arquiteto, e frei Domingos da Conceição da Silva, escultor e entalhador. Cumpriam o que reza a Regra de São Bento em seu capítulo 57: “Se há artistas no mosteiro, que executem suas artes com toda humildade, se o abade o permitir”.

As oito capelas laterais da igreja começaram a ser erguidas na segunda metade do século XVII e foram aquilatadas ao longo do século seguinte. Na tradição beneditina, o número oito está ligado à elevação espiritual. O dia do monge se dividia em oito partes, cada uma marcada por um tempo de oração, ou hora canônica (matinas, laudes, prima, terça, sexta, noa, vésperas e completas). O canto gregoriano, executado até hoje, tem oito tons, e são oito os degraus para a ascensão do monge. O simbolismo deste número também está presente na arquitetura do mosteiro. A nave (corpo central da igreja) foi dividida em oito partes iguais, onde foram erguidas as capelas: de Nossa Senhora da Conceição, de São Lourenço, de Santa Gertrudes, de São Brás, de São Caetano, de Nossa Senhora do Pilar, de Santo Amaro e de São Cristóvão. O aspecto simbólico é apenas um dos detalhes pouco conhecidos sobre o mosteiro.

Nas capelas ficavam os monges e demais devotos, principalmente membros de irmandades. Em 1716, o dicionarista Rafael Blateau definiu “irmandade” como “ajuntamento de várias pessoas para exercícios espirituais”. No Rio do século XVIII havia irmandades de pretos, de pardos e de brancos – como a Irmandade de Pretos de Nossa Senhora dos Remédios, a de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos e a do Santíssimo Sacramento da Candelária, de brancos. Suas ações podem ser resumidas em duas palavras: devoção e caridade. As principais funções desses grupos eram o culto a um padroeiro, a assistência médica e financeira aos irmãos, a ajuda a órfãos e viúvas e a administração dos enterros de seus associados.

As irmandades que se organizaram em torno das capelas da igreja do mosteiro eram constituídas, principalmente, de membros das “melhores famílias da terra” e outros grupos socialmente bem posicionados. Testamentos encontrados no mosteiro revelam a forte ligação dos fiéis com suas confrarias. Em 1679, Maria Ferreira exigia: “meu corpo será sepultado na igreja do Patriarca São Bento, em cova da irmandade de São Lourenço, da qual sou irmã”. José de Matos, natural de Arruda, tinha duas opções em 1681: “Meu corpo será amortalhado no hábito de São Bento e sepultado na sua Igreja, em qualquer sepultura das que foram consignadas às irmandades de Nossa Senhora de Monteserrate e São Lourenço, porque de ambos sou irmão”. Uma dupla garantia de bom enterro.

Os monges participavam das atividades das irmandades. Frei André Cruz, por exemplo, “carregado de anos, vivia ocupado no culto do altar de Nossa Senhora do Pilar”. Em torno desse local se reuniam os associados da confraria do mesmo nome, uma das mais ricas do mosteiro: a capela lhe foi vendida em 1688 por 400 mil-réis (valor de dois pequenos sítios), com a condição de os irmãos se comprometerem a dar 24 mil-réis (preço médio de uma criança escrava) nos dias de festa para o serviço de música e sermão. Esta irmandade é citada por frei Agostinho de Santa Maria em seu Santuário Mariano, publicado em 1723. Frei Agostinho relata a presença de ex-votos na capela, descrevendo práticas religiosas populares: “na capela e nas paredes dela se vêem muitos sinais e quadros das maravilhas que a Senhora tem obrado a favor de seus devotos”.

A Irmandade de São Brás era a única formada por pardos. Na venda da capela, em 13 de janeiro de 1698, o mosteiro se comprometeu a fazer sermão e oferecer canto todo dia 3 de fevereiro, data da festa do santo. O valor fixado foi de 300 mil-réis (preço de um pequeno sítio na região), considerado baixo “em razão de serem os compradores pobres, só a fim de que com mais fervor continuem de servir a Deus e ao dito Santo”. Esses homens pardos garantiram, assim, um local de sociabilidade e um espaço para cultuar o seu padroeiro.

Duas capelas laterais eram propriedade de membros da elite da capitania: a de São Cristóvão foi vendida ao capitão Cristóvão Lopes Leitão em 1671, enquanto a de Nossa Senhora da Conceição foi comprada pelo capitão Manuel Fernandes Franco em 1689. Lopes foi oficial de justiça e juiz de fora. Em 9 de dezembro 1688, foi o responsável pela abertura do segundo livro de Tombo do Mosteiro, onde ficavam anotadas as principais transações de bens. Ele e sua esposa, Mariana de Soberal, eram considerados “ambos nobres, ricos e virtuosos” e eram pais do frei Cristóvão de Cristo, monge que teve uma carreira eclesiástica bem-sucedida no mosteiro, chegando a ser abade por duas vezes.

Já o capitão Manuel Fernandes Franco era casado com Cecília de Siqueira, prima de Cristóvão Lopes. Fernandes, que tinha Lopes como testamenteiro, deixou terras na Ilha do Governador para o mosteiro. Teia de parentesco, entre outras, que demonstra a relação do mosteiro com as “principais famílias da terra”. Pode-se imaginar as duas distintas linhagens, próximas nos dias de missa, formando um só e extenso grupo, ocupando seus respectivos lugares na igreja. Todos juntos, a pequena distância de um espaço privilegiado – a capela-mor. Provavelmente, o filho de Cristóvão Lopes, frei Cristóvão de Cristo, agora membro da “família beneditina”, se prostrava no coro, olhando com orgulho sua “família externa”.

Segundo o arquiteto Eugênio de Ávila Lins, o coro é o que essencialmente distingue a igreja monástica das outras. É nesse espaço que ocorria o Ofício Divino – também conhecido entre os beneditinos como Opus Dei – o culto oficial e diário, composto de leituras da escritura, salmos, orações e cânticos. O Ofício Divino era realizado no coro superior da igreja do mosteiro até 1904. A construção foi erguida durante os séculos XVII e XVIII e está localizada sobre o pórtico da igreja. O coro alto, que fica sobre a porta de entrada, faz parte de uma estética arquitetônica que se tornou preponderante a partir da segunda metade do século XVI. Era um espaço onde os monges contavam com um cadeiral formado por estalas com meio assento móvel, dotadas de um elemento denominado “misericórdia”, no qual o monge, cansado, podia se apoiar quando o ritual não permitia ficar sentado.

O teto do coro é abobadado, o que garante uma boa acústica. As paredes são decoradas com cenas da vida de São Bento. São seis painéis, da esquerda para direita, que representam partes de sua hagiografia (biografia de um santo). São Bento é retratado na gruta, entregando ao corvo o pão envenenado, em sua última comunhão, recebendo os seus discípulos, com o falso rei Tótila, e também em sua última visita à irmã, Santa Escolástica. No centro do coro há um armário para os livros corais.
A música era importante parte do Ofício Divino. No mosteiro do Rio de Janeiro, ela aclimatava não somente o ritual da vida monástica, mas também os dias de festa, como a comemoração pelo nascimento do príncipe da Beira, em 1762. Por meio de um relato anônimo, ficamos sabendo que nesse dia, na igreja, “por cima da porta principal, e quase emparelhando com o coro religioso, se elevou a orquestra da música, rica pela armação, pela figura recomendável”.

No Rio de Janeiro do século XVIII, a atividade musical era muito intensa. Para abrilhantar suas festas e procissões, as irmandades recorriam aos músicos. Em ocasiões especiais, como a chegada, em 1747, do bispo beneditino D. Antônio do Desterro, havia inclusive espetáculos operísticos. Mas era às igrejas, como a da Candelária e a da Misericórdia, que a população ia para ouvir música sacra cantada por coros de meninos. O coro do mosteiro era formado por jovens monges.

Algumas ocupações dos escravos do mosteiro estavam ligadas ao “fazer artístico”. Muitos dos elementos barrocos da igreja beneditina foram feitos com mão-de-obra escrava. Miguel do Loreto e Antônio Teles são exemplos de cativos empregados nestas tarefas. Os dois aparecem em documentação do templo entre os anos de 1733 e 1735: “Assim como todas as outras imagens que vemos em todo o corpo da igreja, foram feitas por José da Conceição, que faleceu neste Mosteiro, e por Simão da Cunha, natural de Braga, que ainda vive, e foram estofadas pelos nossos escravos Miguel do Loreto e Antônio Teles”. As imagens mencionadas são doze grandes figuras em meio-relevo, representando autoridades da ordem beneditina que sobressaem na talha. Dada a importância das representações e o local onde se encontram, pode-se ter uma idéia da habilidade dos escravos e da confiança que os monges depositavam neles.

Quase quatro séculos após o início de sua construção, além de servir de local de culto para monges e outros fiéis, a igreja do mosteiro é um grande atrativo turístico. No local funciona ainda o Colégio São Bento, um dos mais tradicionais da cidade. Quem visitar esse singular templo no coração do Rio, onde o Oficio Divino continua sendo realizado todos os dias, certamente irá notar a intenção monástica de se entalhar uma jóia dourada nos trópicos.

Jorge Victor de Araújo Souza é doutorando em História na Universidade Federal Fluminense, bolsista do CNPq e autor da dissertação de mestrado “Monges negros: trajetórias, cotidiano e sociabilidade dos beneditinos no Rio de Janeiro – século XVIII” (UFRJ, 2007).


Saiba Mais - Bibliografia:

LUNA, Joaquim G. de. Os monges beneditinos no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Lumen Christi, 1947.

MATTOSO, José. O Monaquismo Ibérico e Cluny. Rio de Mouro: Círculo de Leitores e Autor, 2002.

ROCHA, D. Mateus Ramalho. O Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro (1590-1990). Rio de Janeiro: Stúdio HMF, 1991.

SILVA-NIGRA. Clemente Maria da. Construtores e artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Salvador: s/ed. 1950.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

Um comentário:

Mirse disse...

Belíssimo post!

Li todo o texto percorrendo com os olhos, o que a memória já gravara.

No Mosteiro de São Bento, batizei minhas filhas, e fazia um ritual, sempre que possível para ouvir o Opus Dei, agora já em CD.

Quando estive na Catedral de Canterbury, comparei as duas e achei que a do Mosteiro de São Bento tinha a construção, mais bem detalhada.

Hoje é ponto turístico e todos podem apreciar.

Acrescento também, o acolhimento e orientação dos monges, àqueles que viúvos ou não seguem o monastério anônimamente, frequentando o que lhes é de direito, mas ao mesmo tempo dentro de seus lares.

O que me faz ainda mais admirar essa tradicional cultura beneditina. O oito além do descrito no texto, é o simbolo do infinito, daí ser adotada há séculos por vários ramos da Igreja!

Parabéns, Eduardo!

Forte abraço!

Mirse