segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Literatura nos anos JK

Poesia concreta de Manuel Bandeira, 1958

Dora Rocha
Quando se iniciou o governo JK, na segunda metade da década de 1950, fazia algum tempo que não se identificavam novos movimentos ou correntes literárias no Brasil. Depois da rebelião modernista de 1922, início de uma liberação estética que rompeu com os códigos acadêmicos e subverteu a maneira de pensar e de escrever anterior, as polêmicas pareciam ter cessado, e os manifestos desaparecido. Tudo era permitido, e tudo era simplesmente moderno. Nos anos 30, assistiu-se ao amadurecimento das conquistas, seja na poesia, seja na prosa, com o romance regionalista e introspectivo; na década seguinte, a busca de rigor formal comum a um grupo de poetas fez com que fossem identificados como a "geração de 45". Depois disso, nenhum novo marco foi apontado, até justamente o ano de 1956, quando uma nova bandeira foi empunhada: a da poesia concreta. Como o modernismo de 1922, o concretismo não se restringiu à literatura, e teve a ver também com as artes plásticas.

É claro que o concretismo não foi a única manifestação literária da época. Ao longo dos anos 50, poetas das três gerações anteriores, esplendidamente representadas por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, continuavam a publicar e a ser lidos. E outros, também: Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes... Bandeira, o estreante de 1917 com A cinza das horas, lançava em 1954 sua biografia literária, Itinerário de Pasárgada, escrevia crônicas, traduzia e acrescentava à sua obra poética, Estrela da tarde (1958), documentando, segundo Ledo Ivo, "a última tentação de sua disponibilidade intelectual" ao incluir "experiências com a cognominada poesia concreta". Drummond, estreante em 1930 com Alguma poesia, atingia a maturidade na expressão de seu "sentimento do mundo" e recebia pleno reconhecimento da crítica e do público. João Cabral, o poeta da objetividade que se apresentara em 1942 com Pedra do sono, combinava rigor formal e preocupação social em Cão sem plumas, de 1950, e Morte e Vida Severina, de 1956.

Na prosa, também, nomes conhecidos continuavam a produzir: Graciliano Ramos, tendo já publicado seus grandes romances, que nos anos anos 60 iriam inspirar o cinema novo, lançava em 1953 Memórias do cárcere. Jorge Amado deixava para trás o romance ideológico e publicava em 1958 Gabriela, cravo e canela, primeiro de uma série de romances pitorescos sobre tipos baianos que alcançariam enorme sucesso. No Sul, Érico Veríssimo prosseguia com sua longa saga, O tempo e o vento (1949-1961). Fernando Sabino lançava um romance que marcou época: Encontro marcado, de 1956. Os anos 50 foram também o período áureo da crônica, que em alguns casos, como o de Rubem Braga, deixou de ser tópica para se situar a meio caminho entre prosa e poesia. Dois nomes, ligados ao romance e ao conto, alcançaram então o respeito da crítica, por sua obra extremamente pessoal e inovadora: Clarice Lispector, com Laços de família (1960) e Maçã no escuro (1961), e João Guimarães Rosa, que em 1956 publicou Corpo de baile e Grande sertão: veredas e passou a ocupar lugar central na ficção de vanguarda brasileira.

Do grupo dos concretistas, faziam parte um núcleo paulista, formado pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, e outro carioca, formado por Ferreira Gullar, Reinaldo Jardim – editor do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB) - e José Lino Grünewald. Valorizar a construção verbo-visual do poema, substituindo a estrutura frásica do verso por estruturas nominais capazes de estabelecer relações espaciais, era o projeto que unia a todos, ao menos no início, como o demonstravam as primeiras antologias Noigrandes (1952, 1955 e 1956), e o próprio SDJB. No fim da década, contudo, uma cisão separou cariocas paulistas. Enquanto Ferreira Gullar voltava ao verso e se dedicava a uma poesia politicamente engajada, o grupo paulista prosseguia com suas experiências. Depois de publicar o "Plano-piloto para poesia concreta" em Noigrandes no 4 (1958), os paulistas teriam na revista Invenção sua principal referência. Ambas as correntes teriam importantes desdobramentos ao longo da década de 1960.

Fundação Getúlio Vargas

Um comentário:

Bárbara disse...

Gosto muito das manifestações especialmente as populares.Não sabia da existencia dessa manifestação literária.Na escola estou estudando o movimento feminista, o movimento negro e o movimento hippie dos quais gostei muito de estudar,história é minha matéria predileta.
Adorei o post!
Beijos!