sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Como a Polônia e a Hungria, em 1989, abriram caminho para o fim do comunismo


Todos se recordam das imagens icônicas da dramática derrubada do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989. Mas as iniciativas que possibilitaram a queda do muro foram tomadas em outros países. O destino da Alemanha e do resto da Europa foi decidido em Varsóvia, Budapeste e Moscou.

Naquela noite de 10 de novembro de 1989, Anatoly Sergeyevich Chernyayev vinha escrevendo meticulosamente um diário durante 20 anos. Todos os dias, após chegar no seu apartamento em Deneshny Pereulok, vindo da sede do partido na Praça Velha ou do Kremlin, ele sentava-se à sua mesa de para redigir o seu diário.

Após olhar pela janela para o prédio do Ministério das Relações Exteriores, uma monstruosidade em estilo classicista-socialista construída pouco antes da morte de Stalin no bairro no qual os fabricantes de moeda de Moscou antigamente tinham as suas lojas, ele anotava detalhadamente as suas experiências diárias. Ele concentrava-se particularmente naqueles pensamentos que não podia manifestar no trabalho, onde estava sempre cercado dos camaradas do partido: as suas esperanças fúteis, frustrações e decepções.

Chernyayev, que tinha vínculos estreitos com o então presidente soviético Mikhail Gorbachev, fez uma anotação curta e lacônica no seu diário em 10 de novembro: "O Muro de Berlim caiu. Uma era na história do 'sistema socialista' está chegando ao fim", escreveu o assessor do presidente e diretor do partido naquela noite de sexta-feira.

"Após os episódios envolvendo os partidos dos trabalhadores poloneses e húngaros, agora foi Honecker que caiu, e hoje ouviram-se notícias sobre a queda de Shivkov. Tudo o que nos restou agora foram os nossos 'amigos íntimos': Castro, Ceausescu e Kim Il Sung. Todos eles pessoas que nos detestam".

O seu tom não era de amargor, mas sim de profundo sarcasmo. Fazia muito tempo que Chernyayev enxergava a chegada desse dia. "Isto é o fim de Ialta e do legado stalinista", concluiu ele.

Não enxergando a História passar
O lema "Trabalhadores do mundo, uni-vos!" ainda estava impresso na primeira página do "Pravda", o jornal controlado pelo partido, que encontrava-se sobre a mesa à sua frente. A manchete de primeira página da edição de 10 de novembro dizia, "Hoje é o dia da polícia soviética".

O "Pravda" não enxergou a História passar.

Em outros locais da Europa a história foi totalmente diferente. As pessoas celebravam com extrema alegria, quase sem poderem controlar a emoção diante das imagens de Berlim mostrando alemães orientais e ocidentais se abraçando. "A Alemanha chora de alegria. Berlim é novamente Berlim!", anunciou o jornal BZ. A notícia de que Berlim, dividida durante 28 anos, estava novamente unida chegou a lugares tão remotos quanto a costa oeste da Austrália.

O diretor de cinema alemão Win Wenders, que visitava a região naquela época ("Eu não poderia estar mais longe de Berlim do que estava naquele momento", diz ele), encontrou um eremita vivendo em uma caverna. "Era bem cedo, de manhã, e ele estava totalmente bêbado. O homem era um lituano que falava um pouco de alemão. Ele não parava de beber, fazendo brindes a Berlim, e falando em voz alta, na tentativa de superar a música de Wagner que estrondava na sua moradia. "Acabaram-se os muros! Acabaram-se os muros! Não haverá mais muros em lugar nenhum do mundo!".

1989 passou para a História como o ano da queda do Muro de Berlim e da revolução pacífica na Alemanha Oriental. Esta pelo menos é a forma como os alemães veem aqueles fatos. E foi esta também a forma como o então chanceler alemão-ocidental Helmut Kohl enxergou os acontecimentos desde o início. "Nós estamos escrevendo um capítulo na história mundial, mais uma vez, isto precisa ser dito", afirmou o chanceler em 9 de novembro, em um discurso emocionado durante uma visita de Estado à vizinha Polônia.

Mas por que a queda do muro demorou tanto tempo? E quem na verdade o destruiu?

Pedaço a pedaço
Os responsáveis pela queda do muro teriam sido os berlinenses que ocuparam o posto de passagem de fronteira na Bornholmer Strasse em 9 de novembro? Aqueles indivíduos que a seguir usaram picaretas para quebrar o muro, pedaço a pedaço, até que ele caiu? Ou foram as pessoas que criaram as condições que permitiram que cidadãos de outras cidades alemãs-orientais, Leipzig, Plauen e Dresden, se manifestassem nas ruas em outubro?

Será que o muro teria caído se aquilo que era inconcebível não tivesse já ocorrido em Moscou, Varsóvia e Budapeste? Quando e onde exatamente atingiu-se aquele ponto a partir do qual a libertação da Europa Oriental não poderia mais ser contida?

Uma busca honesta por respostas concluirá que a abertura da fronteira em Berlim foi sem dúvida o acontecimento mais espetacular ocorrido durante o período em que o bloco soviético chegou ao fim. Mas aquilo não foi o verdadeiro ponto histórico de inflexão de 1989.

"Para que se perceba como é limitada a imagem heroica de 1989 que nós criamos de forma retrospectiva basta ler os jornais de 1988 e 1989", afirma o historiador Karl Schlögel. Ele associa "outras datas, outros locais e outros povos" ao fim de uma era. "Na noite da queda do Muro de Berlim, por mais deslumbrante que aquilo tenha sido, só foram sancionadas aquelas coisas que já haviam sido decididas anteriormente e em outros locais".

"A queda do muro foi sem dúvida um símbolo de mudança - ela nos proporcionou aquelas incríveis imagens de Berlim", admite o ex-presidente polonês Alexander wasniewski. "Nós poloneses tivemos que negociar a nossa transformação política em conversações árduas". Em outras palavras, Kwasniewski está tentando dizer que a revolução alemão só teve início quando a revolução polonesa estava quase concluída. Quando o Muro de Berlim veio abaixo, a Polônia já tinha um presidente não comunista. Os ativistas do Solidariedade são ainda mais diretos. Eles afirmam que, sem Lech Walesa, o Muro de Berlim não teria caído.

Uma jornada de volta ao passado
A maioria dos alemães já esqueceu - ou jamais percebeu - que os acontecimentos na Europa Oriental constituíram-se em um roteiro para a virada na Alemanha Oriental. O conceito de conversações em mesa redonda na Alemanha, que teve início no Hotel Dietrich Bonhoeffer Haus, em Berlim, no mês de dezembro, foi importado da Polônia. Os poloneses haviam se reunido da mesma forma dez meses antes, e foi apenas naquela
mesa redonda que eles conseguiram provocar a mudança de governo.

Uma jornada de volta ao passado até aquele dia fatídico; uma lida de documentos anteriormente desconhecidos; reuniões com protagonistas-chaves daquele dia - tudo isso resulta em algumas descobertas surpreendentes duas década depois. O monopólio do poder dos comunistas húngaros, por exemplo, já havia sido quebrado em janeiro.

Àquela época, o Partido Unidade Socialista (SED, na sigla em alemão) do líder alemão-oriental Erich Honecker, ainda parecia estar firme no controle do país. Não havia nenhum grupo de reformistas dentro do partido e tampouco existia um verdadeiro e amplo movimento de luta por direitos civis no seio da população.

Igualmente intrigante é o fato de que o sindicato polonês Solidariedade, apesar da sua magnífica vitória eleitoral em junho de 1989, foi incapaz de enxergar uma chance real de assumir o controle político do país.

Enquanto isso, o presidente soviético Mikhail Gorbachev enfrentava problemas internos tão difíceis que uma intervenção de tropas soviéticas no exterior era inimaginável.

"Uma revolução sem uma revolução"
No início de 1989, apenas duas nações europeias orientais buscavam o seu próprio caminho: Polônia e Hungria. Em Budapeste, a mudança começou dentro do Partido Comunista Húngaro; em Varsóvia o Solidariedade deu início a uma reforma polonesa.

Mas mesmo nesses países, ninguém percebeu para onde aquela jornada conduziria os fatos nos meses seguintes.

"Aquilo foi uma revolução sem uma revolução", afirma o ex-dissidente polonês Adam Michnik, que criou o jornal oposicionista "Gazeta Wyborcza" em maio de 1989 e a seguir tornou-se membro do senado democraticamente eleito. "Ninguém saiu às ruas, e não houve barricadas nem pelotões de fuzilamento".

"1989 foi um ano de milagres", diz Michnik. "Aquilo que ainda não era possível em janeiro tornou-se realidade em fevereiro, e em março era possível exigir ainda mais. Nenhum de nós entendia o que estava acontecendo".

Tradução: UOL

Revista Der Spiegel

Um comentário:

Bárbara disse...

O ano de 1989 foi quando os Estados Unidos deram uma repaginada na Guerra Fria acendendo os ânimos do combate,foram retomados o crescimento econômico e a corrida armamentista.Eu desconhecia o fato de que a Polônia e Hungria ajudaram a dar um fim ao comunismo.