domingo, 8 de novembro de 2009

Na montanha dos deuses


Na montanha dos deuses

Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.
Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.

Por Renato Pompeu

Uma montanha de exatamente 2917 metros de altura, perdida nos confins do nordeste da Grécia, entre as regiões da Tessália e da Macedônia, influencia desde há perto de 3 mil anos toda a cultura ocidental. E as histórias que se contam dessa montanha são importantes até hoje no cotidiano, no pensamento, nos hábitos e costumes - até na ciência. É o monte Olimpo, que de acordo com a religião dos gregos antigos - seguida do século IX a.C. ao IV d.C., até ser substituída pelo cristianismo - era a morada de seus deuses. Hoje, o Olimpo é a sede de um parque nacional, preservado pelo governo grego. Mas, pelo menos mil anos antes de Cristo, com suas escarpas abruptas, seus altos eternamente cobertos de neves e geralmente encobertos pelas nuvens, o Olimpo, a montanha mais alta conhecida pelos gregos - ou melhor, seu pico então inacessível -, foi conhecido como a casa dos deuses, mais ou menos como os devotos de outras religiões concebem o céu.

Esses deuses, que tinham forma humana, mas eram maiores, mais belos e mais leves que os humanos (sendo capazes até de voar e, acima de tudo, imortais), viviam uma vida cheia de peripécias e aventuras, marcada por intrigas entre eles próprios e entre eles e os seres humanos a que influenciavam. À descrição das vidas dos deuses se dá o nome de mitologia. A palavra mito é grega e quer dizer “palavra final”, pois a mitologia era usada como explicação definitiva dos fenômenos da natureza e da sociedade.

A mitologia grega, adotada depois pelos romanos, que deram outros nomes aos mesmos deuses, foi codificada no século IX a.C. pelo poeta grego Homero, em suas epopéias Ilíada e Odisséia, e um século depois pelo poeta Hesíodo, em sua Genealogia dos deuses. A religião não era hierarquizada nem dogmática. Ou seja, não havia um grupo de sacerdotes encarregado de manter a pureza das verdades doutrinárias. E aquelas codificações variavam enormemente de época para época e de região para região. De qualquer modo, em todas as variantes, os deuses eram comandados por um ser supremo, Zeus (Júpiter para os romanos). Zeus é outra forma da palavra do antigo indo-europeu que deu em português as palavras Deus e justiça. Júpiter é a junção das palavras latinas jus e pater. Jus é o “fazer jus”, que deu justo e justiça, e pater quer dizer pai. Ou seja, pai da justiça.

Zeus originariamente era o deus do clima dos antigos gregos. Tratava-se de nômades guerreiros que, chegando do centro da Europa em ondas sucessivas onde hoje é a Grécia, ali encontraram uma civilização agrícola avançada - baseada na metalurgia do bronze e no cultivo de uva, oliva, trigo e cevada - que tinha seus próprios deuses. Ou melhor, deusas, pois os homens primitivos, ao se fixarem à terra, costumavam cultuar divindades femininas que pudessem assegurar aos seus campos a fertilidade, associada às mulheres. Já os povos guerreiros, como os gregos eram inicialmente, adotavam em geral divindades masculinas, por exemplo, Zeus, o deus das tempestades, que enviava raios à Terra.

Sendo guerreiros, os gregos dominaram os pacíficos povos agrícolas que ocupavam o que hoje é a Grécia. Essa dominação foi se dando de 2000 a.C. até por volta de 1000 a.C. , tempo mais que suficiente para o idioma grego se impor aos povos vencidos e para haver uma fusão das culturas entre dominantes e dominados. Assim, quando a religião grega foi codificada por Homero e Hesíodo, Zeus aparece casado com Hera (Juno para os romanos), originalmente uma deusa dos povos anteriores aos gregos - antigos cretenses e micenianos - associada à fertilidade. No Olimpo grego, Hera passou a ser a deusa da maternidade e da vida doméstica, e assim, de deusa rural, ela se tornou urbana.

A mitodologia diz que Zeus teve casos e filhos com várias outras deusas e ainda com mulheres comuns. Contra elas, Hera vivia armando ciumentas intrigas. Mas quem era Zeus? No princípio, segundo Hesíodo, havia o Caos, que em grego quer dizer vazio. Caos, porém, teve dois filhos, Urano, o céu, e Géia, a Terra. Urano e Géia tiveram vários filhos, entre eles Cronos, o tempo, e Réia. Cronos e Réia casaram e tiveram vários filhos. Mas Cronos, que atacou o próprio pai Urano, também devorou cada um dos seus filhos, até que Réia deu à luz Zeus e escondeu o bebê, substituindo-o nas fraldas por uma pedra. Por engano, na ânsia de devorar seus filhos, Cronos engoliu a pedra.

Oculto do pai, Zeus cresceu e desenvolveu-se como um jovem vigoroso, que acabou derrotando Cronos numa luta e o obrigou a vomitar todos os filhos que engolira. Assim, Zeus libertou, entre outros, dois irmãos com os quais partilhou o mundo conhecido dos gregos: Zeus ficou com o céu, Posêidon (Netuno para os romanos) com os oceanos e os rios, e Hades (Plutão) com o mundo subterrâneo, ou inferno. Como morada, Zeus ficou com o Olimpo, não só porque era a montanha mais alta e, portanto, mais próxima do céu como também porque seu pico sobressai entre as nuvens. De modo que se criou a noção de que na morada dos deuses, acima das nuvens, jamais poderia haver tempestades.

Outros irmãos de Zeus foram também vomitados por Cronos, como Hera, com a qual ele se casou, e Deméter, que os romanos conheciam como Ceres, nome de que derivou a palavra cereal. Ela era cultuada como a deusa da agricultura. Por isso não morava no Olimpo e sim no reino vegetal. Deméter teve uma filha com Zeus, Perséfone, raptada por Hades para viver com ele no submundo. Deméter então queixou-se a Zeus e este decidiu que Perséfone passaria um terço de cada ano com Hades e dois terços com a mãe, no reino vegetal. E aqui está uma das funções do mito, a de explicar a natureza: o terço do ano que Perséfone vivia no inferno era identificado com o seco verão grego, no qual a vegetação sobrevivia precariamente. Mas renascia quando Perséfone voltava para a casa da mãe.

Além de Hera, a mulher oficial, Zeus aprontava das suas. Disfarçando-se de cisne, seduziu Leda, mulher do rei de Esparta, e com ela teve os filhos Helena e Dóscuros (os gêmeos protetores da navegação). Com Europa, filha do rei da Fenícia, a quem seduziu disfarçado de touro, Zeus teve os filhos Minos, rei de Creta, e Radamanto, rei das ilhas Cíclades.

Ambos se tornaram juízes dos mortos no submundo. O rapto de Helena, casada com Menelau, rei de Esparta, acabou, segundo Homero, desencadeando a guerra entre gregos e troianos. Páris, o raptor, era da família real de Tróia.

Essa novela poderia se estender indefinidamente, pois a mitologia tem centenas e centenas de histórias com uma multidão de deuses, heróis (filhos de um deus ou deusa com um simples mortal) e seres humanos. Não faltam também guerras e catástrofes, além de episódios de criação das artes e das ciências como o de Prometeu, o deus que, por ter roubado o fogo dos deuses e o entregado aos humanos, foi condenado por Zeus a ficar eternamente acorrentado a um rochedo e a ter seu fígado repetidamente devorado por uma águia. Entre os deuses mais importantes pode-se citar ainda Afrodite (Vênus), a deusa da beleza.

Ela nasceu junto à ilha de Chipre, na espuma criada no mar pelos órgãos genitais de Urano, que haviam sido cortados e lançados ao mar por Cronos. Afrodite casou-se com Hefaistos (Vulcano), o deus das forjas e dos vulcões, ferreiro dos deuses. Hefaistos, que nasceu coxo, era filho de Zeus e Hera. Deusa da beleza e do sexo, Afrodite teve vários casos extraconjugais. O mais célebre foi com Ares (Marte), deus da guerra e também filho de Zeus e Hera. Apolo , filho de Zeus e Leto, era o mais cultuado, pois enviava presságios aos humanos.

Importante também era Atena (Minerva ). A deusa da sabedoria não tinha mãe, pois nascera da cabeça de Zeus. Tornou-se a protetora da cidade de Atenas.

A mitologia grega sobrevive nas palavras que se usam hoje, como Deus, justiça, cereal etc., nos nomes dos planetas, na palavra geografia, a ciência de Géia. Assim, essa distante montanha, que emprestou o nome à cidade de Olimpo, no Sul da Grécia, onde no Século VIII a.C. começaram a ser disputadas as Olimpíadas, é uma presença permanente no cotidiano das pessoas. O teatro, por exemplo, tem origem nos coros entoados pelas sacerdotisas embriagadas por Dioniso, deus do vinho e das orgias, que os romanos chamavam Baco. Daí originou-se a palavra bacanal. Enquanto as artes plásticas descendem das pinturas e das estátuas com imagens dos deuses gregos, a arquitetura ainda usa colunas, pórticos e naves dos antigos templos da Grécia.

E a vida continua povoada de mitos, pois até hoje a ciência se baseia em dois axiomas que - do ponto de vista estritamente lógico - são tão impossíveis de provar como os antigos mitos gregos: o de que o mundo existe fora da mente humana e o de que ele pode ser conhecido pela mente. Isso sem contar os mitos que geraram grandes descobertas científicas, como o da atração secreta entre as coisas, que levou Newton a descobrir a gravitação universal; ou o de que o movimento dos planetas influencia o sangue, graças ao qual o inglês Willian Harvey (1578-1657) descobriu a circulação sanguínea. E, enfim, o mito de que o movimento das marés, que teria ajudado o naturalista também inglês Charles Darwin a se interessar pela anatomia das espécies. Assim, os mitos criados pelos antigos gregos transformaram-se em eternos companheiros do homens.

Um dia no Olimpo

Como era o cotidiano dos deuses no Olimpo? Invejável, sem dúvida. O único trabalhador era Hefaistos, o ferreiro, que produzia os artefatos - ferraduras para o cavalo alado Pégaso, armas para Ares e para os demais. Os outros viviam em festas e banquetes, presididos por Zeus, de onde só saíam para intervir nos destinos humanos e no dos animais, plantas e elementos. Zeus podia abrir o banquete ordenando que a copeira Hebe, sua filha com Hera, servisse a ambrosia, o alimento dos deuses, semelhante ao mel de abelhas, que deu o nome ao famoso doce. Mas a bebida, o néctar, derivado do mel (uma das primeira bebidas alcoólicas usadas pelos seres humanos foi o mel fermentado, ou hidromel), que deu o nome à substância das flores a partir da qual as abelhas produzem o mel, era servida por Ganimedes. Este, um mortal chamado ao Olimpo, filho de Laomedonte, rei de Tróia. Por sua beleza, esse garçon do Olimpo despertava paixões, não entre as deusas, mas entre os deuses, já que os gregos consideravam o homossexualismo normal.

Durante o banquete Ártemis (Diana para os romanos, deusa da caça) podia comunicar quantas mulheres morreriam naquele dia na Terra, pois era ela quem causava a morte das mulheres, enquanto os homens destinados a morrer seriam indicados ou por Apolo, em caso de morte natural, ou por Ares, em caso de morte violenta. Éris, a deusa da discórdia, não tendo sido convidada para um desses banquetes, armou uma intriga: mandou pôr ao centro da mesa um pomo (maçã dourada) com a dedicatória: “À mais bela das presentes”.

Hera, Afrodite e Atena disputaram a preciosa fruta, que deu origem à expressão “o ponto da discórdia”, e pediram a arbitragem de Zeus, que atribuiu o julgamento a Páris. Este acabou indicando Helena como a mais bela, iniciando com ela um relacionamento que levaria à guerra de Tróia. Ao fim de um desses banquetes, Zeus anunciou que o herói Héracles (Hércules para os romanos), seu filho com a humana Alcmena, seria imortalizado - para o quê, bastaria ele comer ambrosia e beber néctar - a fim de poder casar com Hebe, a copeira. Mesmo imortalizado, Hércules não poderia morar no Olimpo, por não ser deus: iria para os Campos Elísios (“campos dos abençoados”), o paraíso dos heróis, cujo nome foi dado aos palácios do governo da França e do Estado de São Paulo, embora esses palácios raramente sejam habitados por heróis.

Revista Superinteressante

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