sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Revolução de Fidel Castro chega aos 50 anos e ainda alimenta proselitismo e controvérsias


Revolução de Fidel Castro chega aos 50 anos e ainda alimenta proselitismo e controvérsias

CECILIA PRADA


Quando, nos primeiros dias de 1959, Fidel Castro e seus companheiros desceram a encosta da Sierra Maestra e marcharam sobre a capital Havana para derrubar a ditadura de Fulgencio Batista, seu brado de vitória estendeu-se pelo mundo e repercutiu envolto em aura mítica pluriforme, que remonta à antiguidade de todas as civilizações: reviviam o mito do herói guerreiro que desce da montanha (do céu) para lutar contra a injustiça e liberar seu povo da opressão. De Prometeu, o semideus que desafiou o Olimpo para trazer o fogo aos mortais comuns. Do jovem Davi, que enfrentou o gigante Golias, opondo à sua força bruta uma inteligência aguçada. E de todos os super-heróis que povoam o imaginário dos povos englobando a esperança da salvação, encarnada em uma “força superior”.

Sierra Maestra, inegavelmente, foi uma bela página da história do século 20 – e como tal está sendo lembrada, na comemoração dos 50 anos da Revolução Cubana. A transformação, porém, do movimento revolucionário que bradava pela liberdade e pela democracia em uma persistente, fechada e dinástica ditadura há muito deslustrou seu brilho inicial e lançou uma espessa nuvem de controvérsias sobre seu destino político e sobre o mérito de suas conquistas.

Envolta no irracionalismo do prolongado período da Guerra Fria (1945-91), condicionada pelos dois imperialismos vigentes (estadunidense e soviético), a revolução sofreu, de um lado, as agruras impostas pelo sistemático boicote econômico americano, que obrigou o povo cubano a uma vida de limitações e sacrifícios; de outro, recrudesceu o autoritarismo personalista de seus dirigentes, sua intolerância, e estruturou um regime de violência e negação dos direitos humanos que acabou por isolar o país do convívio até mesmo dos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) – da qual foi Cuba excluída, em 1962.

Entre o radicalismo esquerdista – que tudo defende em nome do bem comum – e o da direita – que tudo condena em nome de interesses corporativos ou individuais –, um ponto de vista mais equilibrado não pode esquecer alguns grandes benefícios do sistema cubano: a erradicação do analfabetismo, o desenvolvimento de pesquisas científicas e de um sistema de saúde adequado, eficiência em serviços básicos e manutenção de um padrão de vida estrito mas capaz de assegurar a sobrevivência de todos os cidadãos. Dado dos mais significativos é Cuba ter atingido no ano passado a mais baixa taxa de mortalidade infantil de sua história, 5,3 para cada mil nascidos vivos – a segunda menor taxa da América, abaixo apenas dos índices do Canadá.

Na década de 1960, a vitória dos revolucionários do Movimento 26 de Julho (a organização político-guerrilheira fundada por Fidel Castro) tornou-se inspiração e motriz da esquerda latino-americana e fomentou núcleos rebeldes em um bom número de países, inclusive no Brasil; mas seu fracasso em “exportar a revolução”, como pretendiam, a violenta repressão e a morte de Che Guevara em 1967, e principalmente a profunda modificação da política mundial após o desmanche da União Soviética em 1991 e o fim da Guerra Fria abalaram a estrutura ideológica e material de uma utópica e simplista “revolução” baseada na luta armada.

Se a teimosa e rígida resistência do castrismo à desintegração do regime, durante meio século, fez a famosa ilha permanecer até hoje como incômoda pedra no sapato americano, seu esclerosamento cultural (que o digam os intelectuais exilados), a miopia de seus preconceitos (como atestam os homossexuais perseguidos), o rigor de suas punições aos dissidentes (que incluem até a aplicação da pena capital) fecham o país ao diálogo das nações.

Ingerência americana

Bertolt Brecht, um dos maiores escritores do século 20, deixou-nos um grande legado intelectual, e como poeta soube condensar pensamentos como este: “Infeliz do povo que precisa de heróis” – o que prova que mesmo um escritor atrelado ao marxismo-leninismo tem seus repentes de lucidez em relação ao exagerado “culto à personalidade” que sempre caracterizou os sistemas totalitários, à esquerda ou à direita. Fidel Castro e Che Guevara foram transformados (ou antes, se construíram) em emblemas arquetípicos capazes de despertar nas multidões o eco do inconsciente coletivo do tempo em que a luta pela subsistência dominava completamente o homem primitivo, obrigando-o à violência cotidiana – o lema revolucionário cubano, “patria o muerte, venceremos!”, já diz tudo.

A revolução de 1959 não surgiu repentinamente, nem do esforço patriótico de alguns poucos inspirados. Ela se situa como o derradeiro capítulo de uma longa história de lutas pela soberania do país, que remonta ao fim do século 19 e às várias campanhas pela independência. Cuba foi a última colônia da América Latina a libertar-se do domínio espanhol, em 1898, após 30 anos de guerras – iniciadas em 1868 pela insurreição chefiada por um fazendeiro iluminista, Carlos Manuel de Céspedes. Dez anos mais tarde, as tropas espanholas retomaram o controle da ilha. Em 1895, porém, após intensa campanha desenvolvida nos Estados Unidos, o jornalista e advogado José Martí desembarcou à frente de uma tropa em sua ilha natal, perecendo em batalha um mês depois. Os combates prosseguiram até 1898, quando, com a intervenção americana no conflito, a guerra cessou e Cuba foi declarada Estado independente.

Só de fachada, é claro. Pois ao longo domínio espanhol sucedeu o dos Estados Unidos, assumindo Cuba o status de protetorado, sob um governador-geral americano, o general John Brooke. Na economia, estabeleceu-se o monopólio de compra pela potência americana de toda a produção açucareira do país – sua maior riqueza. Desde 1823 a Doutrina Monroe outorgara ao governo americano o poder de patrulhar o Caribe como se fosse um “mar interno” e de intervir a seu bel-prazer nas nações da América Central. Em Cuba, pela denominada Emenda Platt, de 1901, o direito de intervenção dos EUA foi garantido por um dispositivo da própria Constituição, que vigorou até 1933. Se a partir de 1934, ao fazer um novo tratado com Cuba, o democrata Franklin D. Roosevelt abrandou o domínio sobre as nações caribenhas, tentando englobá-las em sua Política da Boa Vizinhança, ainda na década de 1950 o embaixador americano era reconhecido – segundo testemunhos da época – “como o segundo homem mais importante de Cuba e, às vezes, até mais que o próprio presidente”.

Cuba praticamente não conheceu, em toda a sua história, a chamada “normalidade democrática”. Foi passando de uma dominação estrangeira a outra, de um golpe militar e consequente ditadura a outro; donde não constituir para seu povo uma exceção o longo continuísmo castrista – que, do ponto de vista das massas, ofereceu pelo menos mais estabilidade administrativa e uma melhora das condições de vida.

Quando, em 1933, Fulgencio Batista, um sargento-estenógrafo mestiço, um homem do povo de ideias radicais, derrubou o ditador precedente, o liberal Gerardo Machado, foi a princípio festejado pelo povo e apelidado de Pai do Front Popular pelo líder comunista Blas Roca, por adotar uma política contrária à ingerência americana. Eleito presidente para o período 1940-44, promulgou uma Constituição liberal, mas continuou a ser apoiado pelos radicais, em um tempo em que duas facções se digladiavam pelo poder: os autênticos (estudantes radicais liderados por Ramón Grau San Martín, a quem Batista fez seu sucessor) e os ortodoxos (revolucionários oposicionistas). Na realidade, eram duas gangues ferozes, que cotidianamente se empenhavam em episódios de violência, sob o fundo geral da corrupção política. Era um tempo, dizem os historiadores, em que no campus, onde a polícia não conseguia entrar, os estudantes se orgulhavam de portar armas de fogo de grosso calibre – e de usá-las, é claro. Muitas vezes as aulas da universidade eram interrompidas por disparos. Como diz o historiador Hugh Thomas em seu livro Cuba, or the Pursuit of Freedom, publicado na Inglaterra em 1971, o próprio Fidel Castro, partidário em seus tempos de estudante dos “ortodoxos”, rapazes de famílias muito ricas que queriam acabar com a “corrupção” atribuída aos comunistas, confessaria com orgulho, mais tarde, que já naquela época era um bom pistolero. Aos 20 anos, Castro tomava parte em “ações de grupo”, como uma invasão armada da vizinha República Dominicana, e na organização de tumultos populares em outros países latinos. Em Cuba, envolveu-se em um tiroteio com a polícia e foi acusado de matar o ministro dos Esportes.

Vários colegas de Fidel no curso de direito afirmaram, em depoimentos, que ele era “sedento pelo poder, destituído de princípios e disposto a apoiar qualquer grupo que lhe desse sustentação em sua ascensão política”. Essa visão do líder personalista coincide em conteúdo com o que dele diz, usando outras expressões, o historiador marxista Eric Hobsbawm, em seu livro A Era dos Extremos, de 1994: “um jovem forte e carismático, de boa família proprietária de terras, de política indefinida, mas que estava decidido a demonstrar bravura pessoal e ser um herói de qualquer causa da liberdade contra a tirania que se apresentasse no momento certo”.

Esse momento chegou no ano de 1952, quando Fulgencio Batista, proclamando a necessidade de “abolir o gangsterismo”, em mais um golpe de Estado resolveu dissolver os partidos políticos e assumir-se como ditador.

“La hora es de lucha”

Essa foi a palavra de ordem imposta por Fidel Castro aos integrantes de seu bando, focalizando na derrubada do tirano seus objetivos políticos. A corrupção, a violência, as negociatas, o apogeu da exploração de negócios ilícitos, como o jogo em cassinos e a prostituição – as mais rentáveis indústrias da ilha –, devastaram o país no último governo de Batista e promoveram um descontentamento generalizado entre a população, empobrecida repentinamente e com o mais alto nível de desemprego já alcançado, o de um terço de sua totalidade. Vários movimentos estudantis fizeram vãs tentativas armadas de tomar o poder.

Segundo ressalta o historiador britânico Paul Johnson, no livro Modern Times – The World from the Twenties to the Nineties (1992), Batista provavelmente teria com o tempo restaurado o estado de direito, como fizera antes, mas “Castro não lhe deu tempo para isso”, com seu feroz ativismo. É sabido que o ditador, reconhecendo o perigo que Fidel representava, chegou a propor-lhe um acordo, rejeitado pelo líder revolucionário com a resposta de que “por questões geracionais” não podia aderir à sua forma de governo.

Em 1953, em um movimento de guerrilha urbana, Fidel atacou simultaneamente duas guarnições militares, a de La Moncada, em Santiago de Cuba, e outra em Bayamo. Capturado e condenado a 15 anos de prisão no primeiro momento, conseguiu mais tarde ser indultado por interferência de religiosos e viajou para o México – onde prepararia mais cuidadosamente suas futuras ações militares. Foi lá também que conheceu o médico argentino Ernesto Guevara Lynch de la Serna (Che Guevara), comunista, que o ajudou a reunir 82 homens armados que em dezembro de 1956 partiram para Cuba, dispostos a derrubar Batista – desse grupo inicial consta que somente 12 sobreviveram.

Após desembarcar, os guerrilheiros resolveram escalar as montanhas de Sierra Maestra, fazendo dela sua base de operações – entre eles estavam, além de Fidel e Guevara, Raúl Castro, irmão de Fidel e seu sucessor no poder, e o jovem e carismático padre Camilo Cienfuegos, que seria declarado um dos “mártires da revolução” ao morrer em um desastre de avião em voo de Camaguey a Havana, em outubro de 1959.

Fracassaram as sucessivas tentativas feitas pelo governo para extirpar o núcleo guerrilheiro usando grandes contingentes de forças armadas, apesar das pesadas perdas infligidas aos rebeldes. Simultaneamente, outros núcleos revolucionários foram estabelecidos em vários locais da ilha, principalmente com a iniciativa tomada por Guevara, que partiu chefiando 148 homens para a conquista de pontos estratégicos. Apesar de todos os esforços, a primeira cidade de mil habitantes só foi tomada pela guerrilha de Fidel em 1958. Esse ano foi fundamental na história da revolução, porque então o exército de Batista estava desmoralizado e todo o país unia-se contra o ditador. No dizer de Hobsbawm, “Fidel venceu porque o regime de Batista era frágil, não tinha apoio real, a não ser o motivado pela conveniência e pelo interesse próprio, e era liderado por um homem tornado indolente por longa corrupção”. Diz ainda esse historiador, que esteve presente na grande festa da vitória e ouviu com entusiasmo os discursos de seis horas de Fidel: “Uma vez na vida, a revolução foi sentida como uma lua de mel coletiva”, pois reunia as mais variadas classes sociais na oposição, da burguesia democrática aos comunistas e aos próprios ex-soldados e policiais de Batista, convencidos de que o tempo dele se esgotara.

No entanto, fatores externos também contribuíram para o sucesso da revolução, nos primeiros dias de 1959: os interesses americanos já não eram há algum tempo servidos pela ditadura de Batista. Diz Paul Johnson que “em seus aspectos essenciais, a luta por Cuba foi uma campanha de relações públicas travada em Nova York e Washington”, com o apoio expresso do “New York Times” – o que mudou até a posição do Departamento de Estado para um radical “Batista has to go”. Mais tarde, o próprio Guevara diria, em seu livro Oeuvres Révolutionnaires 1959-1967, publicado na França em 1968, que “a presença de um jornalista estrangeiro, preferivelmente americano, era mais importante para nós do que uma vitória militar”.

Os encantos da precária “lua de mel” se esgotaram rapidamente com as medidas adotadas por Fidel assim que se estabeleceu no poder – reforma agrária, desapropriação de bens americanos, execução sumária dos inimigos e dos que considerava nocivos a seu sistema (no famoso paredón). Logo ele seria visto pelos Estados Unidos como simpatizante comunista, mesmo antes de qualquer comprometimento com a URSS, e o serviço secreto americano (a CIA) foi autorizado a providenciar sua derrubada. O detalhista Johnson cita a declaração do próprio chefe da CIA no tempo de Kennedy, Richard Helms, anos mais tarde: “A política do tempo era a eliminação de Castro, mesmo que matá-lo fosse uma das coisas a fazer [...] sentimos que estávamos agindo bem, de acordo com as orientações”. E enumera as várias tentativas – fracassadas – que foram feitas ou ideadas: usar gângsteres para provocar a morte das autoridades cubanas, atacar trabalhadores das plantações de açúcar com produtos químicos não letais, utilizar sais de tálio para fazer a barba de Castro cair, incorporar em seus charutos produtos químicos que causassem perturbação mental ou contaminá-los com o mortal botulismo, dar à amante de Castro, Marita Lorenz, cápsulas de veneno, presentear o líder cubano com uma veste de mergulho impregnada com o bacilo da tuberculose e com um fungo de pele, colocar uma espécie rara de concha com um explosivo na área do oceano onde ele costumava mergulhar... O que parece provar, pelo menos, que o barbudo cubano tinha “corpo fechado”.

Em abril de 1961, o governo de John Kennedy, sob a pressão de militares linha-dura e da CIA, resolve autorizar a invasão de Cuba por uma força de 1.297 cubanos exilados – mas a fracassada tentativa efetuada na baía dos Porcos serviu somente para acirrar os ânimos e aprofundar as dissidências entre os dois países. Como medida de proteção, Castro apela para reforços militares da URSS e instala bases de foguetes de longo alcance em seu território. Descobertas essas bases, em outubro de 1962, a Crise dos Mísseis cria o pior momento da Guerra Fria, e o mundo, aterrorizado, assiste impotente ao jogo da brinkmanship militar que por pouco, e somente pelas inteligentes negociações diplomáticas desenvolvidas dos dois lados e pela sensatez de Kennedy e de Kruschev, não leva à terceira guerra mundial.

“San Ernesto de La Higuera”

Se Brecht apiedava-se dos povos que precisam de heróis, o que não diria dos que precisam de santos? E como o hoje santificado Ernesto Che Guevara, comunista e ateu, veria o novo status de que goza na Bolívia, especificamente no povoado de La Higuera, onde sofreu seu “martírio”?

A própria população, que nunca compreendeu os guerrilheiros de Guevara e teria até ajudado a delatá-los às tropas que os procuravam, ergueu mais tarde uma estátua em homenagem a Che e o cultua como santo, e dos mais milagrosos, dizem. Embora aquela gente não tenha a mínima ideia de quem era, de onde vinha e qual era a sua autoimposta missão – a de “criar muitos vietnãs na América Latina” –, cultua-o com ritos diários e flores. No inteligente e imparcial documentário Personal Che, de Adriana Mariño e Douglas Duarte, assistimos ao depoimento daquelas humílimas pessoas, que até hoje vivem no maior atraso, mas que se orgulham de sua povoação e de seu santo, uma “almita buena” disposta a ajudar a todos – principalmente por intermédio dos turistas que ali deixam seus dólares. Eles têm esperança, parece, de que o local se torne uma outra Lourdes ou Fátima. Ou pelo menos uma Juazeiro do Padim Cícero.

Guevara foi o mito por excelência do século 20 – o herói guerreiro que tinha tudo, da boa aparência à inteligência, à inegável coragem, carisma, enfim. Sua foto, feita por Alberto Korda e divulgada pela Paris Match, tornou-se uma das imagens mais difundidas da era contemporânea, perdendo só para a de Jesus Cristo – e até mesmo com este Guevara concorreu, pela também famosa foto que fizeram dele depois de morto, e que mostra uma semelhança com o Cristo deposto da cruz. O guerrilheiro encantador, de ousada boina hispânica, inundou o mundo no “ano do descontentamento generalizado”, 1968, e tornou-se emblema de rebeldia e de esperança para os jovens de todas as partes. Sua imagem até hoje é reproduzida em pôsteres, livros e revistas, e também na banalização triste dos mais variados objetos de consumo, de canecas a lenços, de estampas de biquínis a tatuagens – algumas famosas, como as que figuram no braço de Maradona e no peito de Mike Tyson. Em Cuba, suplantando as divergências que tivera com Guevara quando este deixara o país para tentar realizar a utopia da Revolução Universal, Fidel Castro fez erigir à sua memória uma estátua e instaurou seu culto obrigatório.

Visto à distância de 42 anos, o homem que existe por trás do mito transparece em toda a sua ambiguidade: os contrastes de força/fragilidade, idealismo/fanatismo, altruísmo/intolerância, liderança/irresponsabilidade. Guevara soube criar um slogan que impregnou o mundo – “É preciso endurecer sem perder a ternura jamais” –, mas, inteiramente desprovido de qualquer ternura ou sentimento humanitário, participou de fuzilamentos em massa no paredón e até mesmo comandou-os pessoalmente – como quando autorizou, na prisão da Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, nos primeiros meses da revolução, a execução de 120 prisioneiros. E escreveu: “As execuções são uma necessidade para o povo de Cuba, e um dever imposto por esse mesmo povo”.

Há poucos anos – em 2003 –, quando novas execuções ocorreram em Cuba, foi grande (e inútil) o número de protestos e de pedidos de clemência, no mundo todo. Dois amigos de Fidel, os escritores Prêmio Nobel Gabriel García Márquez e José Saramago se manifestaram: o primeiro afirmando que era “contrário à pena de morte em qualquer lugar, motivo ou circunstância”. O segundo, fazendo críticas à execução sumária de três pessoas, acrescentou: “Dizem que me distanciei da revolução, mas foi a revolução que se distanciou de si mesma”. O Vaticano, numa autocrítica a seu longo silêncio em relação ao regime cubano, declarou, por seus porta-vozes: “Fidel está usando seu punho contra quem pede justiça, contra o povo, contra a mais elementar expressão da democracia, como é o ato de discordar”.

No Brasil, lamentavelmente, os atos arbitrários de Fidel foram desculpados por nosso governo em nome do princípio da soberania nacional, e nosso embaixador em Havana na época, Tilden Santiago – não um diplomata de carreira, mas indicado politicamente – justificou-os dizendo que os três dissidentes “representavam uma tentativa americana de desestabilização do regime” e que as execuções deviam ser consideradas apenas como “um evento de âmbito familiar”. Uma caravana de intelectuais esquerdistas logo foi formada, com Chico Buarque e outras personalidades destacadas à frente, e seguiu para Cuba, para levar sua solidariedade ao ditador e desagravá-lo pelas acerbas críticas mundiais.

Revista Problemas Brasileiros

Um comentário:

Mirse Maria disse...

Oi Eduardo!

Essa eu acompanhei de perto. Tinha Fidel e Che como ídolos. Nascia na flor dos meus 18 anos a alma não diria revolucionária, mas inspirada em amparar e proteger à qualquer custo os não bem aventurados.

Partia da premissa que um mendigo idoso, poderia ser meu pai, caso meu pai não tivesse tido a sorte de ser escolarizado e de ter líderes com escalas de valores.

Não posso dizer que mudei, mas atualmente, Che Guevara e Fidel castro, diante da abertura que Obama fez, abrindo um novo olhar sobre Cuba, já não são mais heróis.

E as ideologias revolucionárias, embora em mim continuem, tem outro sentido.

Belo texto!

Parabéns!!

Forte Abraço

Mirse