domingo, 15 de novembro de 2009

Elogio do romance


Elogio do romance
A humanidade triunfará. Ela o fará porque, apesar dos acidentes da história, o romance nos diz que a arte nos restaura a vida, a vida que a história, em sua precipitação, desprezou
Carlos Fuentes


Alguns escritores atingem uma grande popularidade e depois desaparecem. Mas a perenidade não vem de uma ação deliberada. Ninguém pode escrever um livro aspirando à imortalidade
Recentemente (2005), a Academia Norueguesa fez a seguinte pergunta a cem escritores do mundo: “Qual é, em sua opinião, o melhor romance de todos os tempos?” Dos cem, cinqüenta responderam: Dom Quixote, de Cervantes. Esse resultado levanta a interessante questão de saber se os long-sellers (livros vendidos durante muitos anos) se opõem aos best-sellers (livros mais vendidos em um período). Não existe resposta que se adapte a todos os casos: por que se vende um best-seller, por que perdura um long-seller?

Dom Quixote fez um enorme sucesso quando publicado pela primeira vez, há quatro séculos, em 1605, e continua a ser vendido sem cessar. Ao mesmo tempo que William Faulkner foi sem dúvida um mau negócio, se compararmos as magras cifras de venda de Absalom! Absalom! (1936) com as do sucesso do ano, Anthony Adverse, de Hervey Allen, uma saga napoleônica que trata do amor, da guerra e do comércio. O que significa que, em se tratando desse assunto, não há um termômetro real, e mesmo que o tempo não seja única e exclusivamente conselheiro: o tempo fará vender.

Poderíamos pensar que Cervantes estava em simbiose com sua época, e que Stendhal, por exemplo, escrevia apenas para alguns “felizes eleitos” e era pouco vendido enquanto estava vivo. Ele só foi reconhecido, antes de morrer, devido aos elogios de Balzac e, enfim, somente alcançou a celebridade, graças aos esforços do crítico Henri Martineau, no século XX.

Alguns escritores atingem uma grande popularidade e depois desaparecem. As listas dos best-sellers dos últimos cinqüenta anos são, com poucas exceções, um lúgubre cemitério de livros mortos. Mas a perenidade não vem de uma ação deliberada. Ninguém pode escrever um livro aspirando à imortalidade.

Poderíamos fazer grandes digressões sobre as relações que os escritores que citei tiveram com a época em que viveram. Por mais fascinante que seja, eu me pergunto até que ponto isso nos revelaria algo sobre os livros que escreveram, sobre a imaginação que os levou a escrever, sobre seu manejo da língua, sua forma crítica de abordar a arte da literatura e sua consciência de pertencerem a uma tradição ainda mais vasta. Em seu livro, A Cortina1 , Milan Kundera afirma que um romancista pertence, bem mais que a seu país ou até mesmo que à sua língua materna, a uma tradição em que Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot são membros da mesma família, e que essa família, como aspirava Goethe, vive na casa da literatura do mundo que cada escritor cultiva, independentemente das literaturas nacionais, que deixaram de representar algo importante.

Erasmo tentava a reconciliação entre a Fé e a Razão, recusando não só os dogmas da Fé, mas também os da Razão. Por isso Cervantes, seu discípulo, foi forçado a dissimular suas afinidades intelectuais
Se isso for verdade, então todas as grandes obras da literatura compreendem tanto a tradição da qual decorrem e para a qual contribuem, quanto a nova criação, que, por sua vez, depende da tradição anterior, uma vez que a tradição, para continuar saudável, depende de novas criações que a alimentam.

Como este é o ano do quarto centenário de Dom Quixote, e considero o livro de Cervantes a pedra angular do romance, tal como se desenvolveu desde o século XVII, permitam-me estabelecer as raízes de minha reflexão.

Nas pegadas (proibidas) de Erasmo
Cervantes pertence a uma tradição intelectual da qual não pôde falar. Trata-se da tradição de Erasmo de Roterdam (1466-1536), o farol do início do Renascimento na corte do jovem Carlos V, uma vela rapidamente soprada pelos ventos frios e dogmáticos da contra-reforma. Após o Concílio de Trento (1545), Erasmo e suas obras foram anatemizados pela Inquisição, seu testamento permaneceu um segredo. Cervantes ficou impregnado dessa filosofia proibida. Erasmo tentava a reconciliação entre a Fé e a Razão, recusando não só os dogmas da Fé, mas também os da Razão. Por isso Cervantes, enquanto discípulo espanhol de Erasmo, foi forçado a dissimular suas afinidades intelectuais.

O principal livro de Erasmo, O elogio da loucura (1509), é o elogio de Dom Quixote errante através de um universo erasmiano em que toda verdade é suspeita, tudo está mergulhado na incerteza: é assim que o romance moderno adquire seu direito de nascimento. Como Cervantes não pôde expressar a influência libertadora do pensamento erasmiano, ele vai além de Erasmo: a sabedoria de Roterdam torna-se a loucura da Mancha e o casamento da sagesse>2 [sabedoria] com a incertitude3 [incerteza] dá origem ao romance tal qual o entendemos. Um espaço privilegiado, efetivamente, de incerteza.

Lugar incerto: um povoado esquecido em uma província longínqua da Espanha. Lugar com um nome impossível: “En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme” 4 . Autor incerto: quem escreveu esse livro? Cervantes? Saavedra? Cide Hamete Benengeli? Um anônimo copista mouro? O funâmbulo mascarado Ginés de Pasamonte disfarçado de mestre Pedro, o movimentador de marionetes? A falta de autor vem apenas dissimular a recusa da autoridade.

Nomes incertos: Dom Quixote é realmente um fidalgo arruinado chamado Alonso Quijano – ou Quijana? – talvez Quesada? Ou é preciso proceder de outra maneira: o nobre empobrecido é realmente o corajoso cavaleiro errante, um Cid humilhado, um Cortez destronado? Ora, o que contém um nome? A instabilidade onomástica do romance Dom Quixote mina toda a certeza que emana de uma leitura direta. Dulcinea é Aldonza, jovens em perigo tornam-se rainhas e princesas, velhos cavalos muito magros passam por malvados heróicos, castelões iletrados transformam-se em governadores.

Lugares, nomes, autor, tudo é incerto em Dom Quixote. E a incerteza é agravada pela grande revolução democrática que Cervantes forjou e que é a criação do romance enquanto lieu commum
Os adversários imaginários de Dom Quixote têm nomes extravagantes – como, por exemplo, o gigante Pentapolin com mangas arregaçadas – por isso seus verdadeiros inimigos também devem ter: o bacharel Samson Carrasco foi apelidado “o cavaleiro dos espelhos” de modo a entrar no universo onomástico de Dom Quixote. E o próprio nome de Dom Quixote, nome de guerra do castelão Quijada... ou Quijano... ou Quesada... entra em completa montaria de combate nesse carnaval de apelidos, tornando-se “o cavaleiro da Triste Figura” ou “o cavaleiro dos Leões”, “Quijotiz”, no modo pastoral, ou o ridículo “Dom Azote” que, na hospedaria, é “Sr. Cravache” ou ainda o “Dom Gigote” no palácio ducal, um “Sr. Hamburger” do qual se zomba.

Formidável diálogo de gêneros
Lugares, nomes, autor, tudo é incerto em Dom Quixote. E a incerteza é agravada pela grande revolução democrática que Cervantes forjou e que é a criação do romance enquanto lieu commum5 . Lugar comum é o lugar de encontro na cidade, a praça central, o polyforum, o jardim público em que cada um tem o direito de ser ouvido, mas ninguém tem direito exclusivo à palavra. Esse princípio condutor da criação romancista transformou-se no que o ensaísta Claudio Guillén denomina um “diálogo de gêneros” Todos eles encontram-se no espaço aberto de Dom Quixote.

Aqui, o picaresco — Sancho Pança – estende a mão ao épico – Dom Quixote. Aqui, a linearidade da narração é quebrada, cercada por todos os lados, obrigada a se apressar em ir adiante ou, ao contrário, interrompida pelas histórias dentro da história, pelo interlúdio pastoral; além disso, com o romance do amor cortês e os filhos mourescos e bizantinos da narração, ela se encontra tecida na tapeçaria de um romance que, afinal de contas, apresenta-se como a identidade e, ao mesmo tempo, a diferença de seu universo lingüístico.

Antes de Cervantes, a narração podia se esgotar em uma única leitura do passado – o épico —, ou do presente – o picaresco. Cervantes mistura passado e futuro, transformando o romance em um processo crítico que propõe, antes de mais nada, que leiamos um livro sobre um homem que lê livros, livro que se torna, em seguida, um livro sobre um homem que sabe que será lido. Quando Dom Quixote entra na gráfica em Barcelona e descobre que o que ali foi impresso é seu próprio livro, El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, de repente mergulhamos em um mundo realmente novo de leitores, de leituras acessíveis a todos e não só a um pequeno círculo do poder, seja religioso, político ou social.

Desde a época de Cervantes, ao multiplicar ao mesmo tempo os autores e os leitores, o romance tornou-se um veículo democrático, um espaço de livre escolha, de interpretações alternadas do eu, do mundo e da relação entre o eu e os outros, entre tu e mim, entre nós e eles. A religião é dogmática. A política é ideológica. A razão deve ser lógica. Mas a literatura tem o direito de ser ambígua.

A ambigüidade em um romance talvez seja o modo de nos dizer que, uma vez que os autores (e, por isso mesmo, a autoridade) não são confiáveis e são suscetíveis de ser explicados de diversas maneiras, o mesmo acontece com o mundo. Pois a realidade não é fixa, é variável. Somente podemos abordar a realidade se pararmos de pretender defini-la de uma vez por todas. As verdades parciais oferecidas por um romance são um escudo contra os abusos dogmáticos. Por que, então, os escritores, considerados fracos e insignificantes no plano político, são perseguidos pelos regimes totalitários como se fossem realmente importantes?

A polis, em vez das autoritas
Se os autores (e, por isso, mesmo a autoridade) não são confiáveis e são suscetíveis de ser explicados de diversas maneiras, o mesmo acontece com o mundo. Pois a realidade não é fixa, é variável
Essa contradição revela a natureza profunda da política na literatura. A referência é a polis, a cidade, a comunidade de cidadãos que se desenvolve, mas continua constante, não as autoritas, os poderes que passam e são essencialmente efêmeros, mas que, cheios de orgulho, crêem-se eternos.

A ficção de Kafka descreve um poder que atribui um poder à sua própria ficção. O poder é uma representação que, como as autoridades de O castelo, ganha força pela imaginação dos que estão fora do castelo. Quando essa imaginação deixa de dar ainda mais poder ao poder, o imperador faz uma aparição, nu, e o escritor fraco que o menciona é exilado para o campo de concentração ou mandado para a fogueira, enquanto o alfaiate do imperador costura novas vestimentas para ele.

Se um poder político torna-se possível pela escrita é, sobretudo, excepcional. Em condições “normais”, o escritor não tem, por assim dizer, a menor importância política. Ele ou ela pode, obviamente, enquanto cidadão, tornar-se importante no plano político. Ele ou ela tem, portanto, a importância política absoluta de oferecer à cidade, por mais tranqüilos, tardios e indiretos que sejam, os dois valores indispensáveis que unem o pessoal e o coletivo: palavras e imaginação, língua e memória, discurso e intenção.

A ficção de Rabelais e Cervantes a Grass, Goytisolo e Gordimer é outra maneira de questionar a verdade, uma vez que nos esforçamos para atingi-la por meio do paradoxo de uma mentira. Essa mentira pode ser denominada imaginação. Pode ser considerada um espelho crítico do que passa a ser a verdade em um mundo de convenções. Ela certamente ergue um segundo universo do ser, no qual Dom Quixote e Emma Bovary têm uma maior realidade, não menos insignificante, que o batalhão de cidadãos encontrados na pressa, e tão rapidamente esquecidos, com os quais temos alguma relação. É verdade que Dom Quixote ou Emma Bovary iluminam, dão peso e presença às virtudes e aos vícios – a essas personalidade fugidias – de nossos encontros cotidianos.

Talvez o que Aqab (herói de Moby Dick, de Herman Melville), Pedro Páramo (do romance epônimo de Juan Rulfo) e Effie Briest (do romance de Theodor Fontane) possuam seja igualmente a lembrança viva das grandes, célebres e mortais subjetividades dos homens e das mulheres de que nos esquecemos, que nossos pais conheceram e nossos avós predisseram.

Em Dom Quixote, escreveu Dostoievsky, a verdade é salva por uma mentira. Com Cervantes, o romance estabelece seu direito de nascimento em uma mentira que é o fundamento da verdade. Pois no meio da ficção, o romancista põe à prova a Razão. A ficção inventa o que falta no mundo, o que o mundo esqueceu, o que espera atingir e que talvez jamais atinja. Portanto, a ficção é uma maneira de se apropriar do mundo, de dar-lhe sua cor, seu gosto, seus sentidos, seus sonhos, suas noites em claro, a perseverança e até mesmo a tranqüilidade preguiçosa da qual ele tem necessidade para continuar a existir.

Em teu eu, vê o mundo. Neste, conhece-te
A ficção dá ao mundo sua cor, seu gosto, seus sentidos, seus sonhos, suas noites em claro, a perseverança e até a tranqüilidade preguiçosa da qual ele tem necessidade para continuar a existir
Penetre em seu próprio eu e descubra o mundo, é o que diz o romancista. Mas também: percorra o mundo e conheça a si mesmo. Durante as horas sombrias que precederam a II Guerra Mundial, o romancista alemão Thomas Mann atravessou o Atlântico com Dom Quixote como seu mais seguro parapeito, relacionando-o a uma Europa em luta contra a morte. E já antes disso, sob as nuvens ameaçadoras da I Guerra Mundial, Franz Kafta descobrira que Dom Quixote era uma magnífica invenção de Sancho Pança, que lhe permitiria assim se tornar um homem livre para seguir as aventuras do cavaleiro errante, sem ferir ninguém. E para terminar, em seu Pierre Menard, autor del Quijote, Jorge Luis Borges nos explica que basta reescrever o romance de Cervantes, palavra por palavra, mas em uma época diferente e com outra intenção, para recriá-lo.

Cervantes vivenciou sua época: a Espanha decadente dos últimos Habsburgo, Filipe III e a desvalorização, a queda da economia logo após a expulsão sucessiva das industriosas populações judaica e árabe, a necessidade louca de dissimular as origens hebraicas e mouras, o que levou a uma sociedade feita de máscaras frágeis, com ausência de administradores realmente eficazes a serviço de um vasto império, o fim do ouro e da prata das Índias nas poderosas casas comerciais do norte da Europa. Uma Espanha de meninos de rua e de mendigos, de gestos vazios, de aristocratas cruéis, de estradas devastadas, de hospedarias miseráveis e de nobres arruinados que, em tempos mais vigorosos, tinham conquistado o México e navegado no mar das Caraíbas, e dado ao Novo Mundo suas primeiras universidades e suas primeiras prensas de impressão: a fabulosa energia da Espanha investida na invenção da América.

Cervantes e os outros escritores da Idade de Ouro realmente demonstraram que a literatura poderia dar à sociedade o que a história lhe tinha tirado. “Onde estão os pássaros do ano passado?”, suspira Dom Quixote na agonia. Foram mortos e empalhados, por isso Dom Quixote deve dar a seu romance o vôo ressuscitado da águia, a envergadura do albatroz.

Assim como Cervantes respondeu à sociedade degradada de sua época pelo triunfo da imaginação crítica, também nos vemos diante de uma sociedade degradada sobre a qual devemos refletir, refletir de modo que ela se infiltre em nossas vidas, nos rodeie e até mesmo nos exponha à situação perene de reagir à passagem da história por meio da paixão da literatura.

Agora, o orgulho absoluto “que precede a queda”
Temos consciência do perigo de que, no início do século XXI, as ordens do dia dos homens se desloquem. O orçamento militar ultrapassa de longe os investimentos nas áreas da saúde, da educação e do desenvolvimento. As demandas urgentes das mulheres, dos idosos, dos jovens foram deixadas ao acaso. Os crimes contra a natureza multiplicam-se. No céu, escreveu Borges, conservar e criar são verbos sinônimos. Na terra, tornaram-se inimigos.

Ninguém se interessa pelas causas primárias do terror. A resposta ao terror não pode ser o terror, mas acima de tudo a inteligência, o controle democrático e o desenvolvimento socioeconômico, enquanto a identidade cultural das nações que, durante muito tempo, foram submetidas ao jugo da autoridade colonial deve ser reforçada.

Podemos nos tornar escravos de imagens hipnóticas que escolhemos. Podemos nos transformar em alegres robôs e nos divertir até morrer
Os valores internacionais, conquistados graças a muita perseverança crítica e muitos sacrifícios – direitos humanos, diplomacia, multilateralismo, prioridade da lei – são atacados pela precipitação cega do unilateralismo, da guerra preventiva e do orgulho absoluto que “precede a queda” (Provérbios, 16:18). Nossa resposta a essas realidades às vezes é simplesmente uma quietude passiva. Há quem creia viver no melhor dos mundos porque lhe foi dito que o indispensável era impossível.

Mas, por outro lado, fomos atacados pelo medo febril, ainda que inerte, de um Apocalypse latente que se desencadearia se Deus deixasse de amar suas criaturas e tivesse de destrui-las antes de recomeçar desde o início, como evocou Goethe.

O espaço se rendeu. Graças à imagem, podemos estar ao mesmo tempo em todos os lugares instantaneamente. Mas o tempo se pulverizou, fragmentando-se em imagens que correm o risco de negar ao mesmo tempo a imaginação do passado e a memória do futuro. Podemos nos tornar escravos de imagens hipnóticas que escolhemos. Podemos nos transformar em alegres robôs e nos divertir até morrer.

Acredito que são realidades que deveriam nos motivar a afirmar que a língua é o fundamento da cultura, a porta da experiência, o teto da imaginação, a cave da memória, o quarto de dormir do amor e, além de tudo isso, a janela aberta para o ar da dúvida, que questiona e interroga. Descubro em todos os grandes romances um projeto humano, que se chama paixão, amor, liberdade ou justiça, convidando-nos a colocá-lo no estilo de nossa época e realizá-lo, mesmo que saibamos que foi condenado ao fracasso.

Dom Quixote sabe que ele vai encalhar, assim como o Père Goriot [O pai Goriot] (de Balzac), Anna Karenina (de Tolstoi) e o príncipe Mychkine, em O idiota, de Dostoievsky), o sabem. Mas somente graças à tomada de consciência, implícita ou explícita, desses fracassos é que eles salvarguardam e nos ajudam a salvaguardar a própria natureza da vida, a existência humana e seus valores, tais como são vivenciados, oferecidos e relebrados através de todos os tempos, todas as raças, todas as famílias da humanidade, sem que elas mesmas se percam na ilusão de um progresso e de uma felicidade ilimitados e garantidos. De acordo com as experiências dos séculos passados, não podemos mais ignorar as exceções trágicas à felicidade e ao progresso com que a humanidade se deparou sem cessar.

Em Light in August [Luz de agosto], William Faulkner opõe e ao mesmo tempo integra duas personalidades diferentes, Joanna Burden, a ninfomaníaca de idade madura, e Joe Christmas, seu jovem amante negro. Christmas é um representante da liberdade. Mas sabe que sua liberdade é limitada e até mesmo prometeica. Ele tem o sentimento de ser uma águia, duro, poderoso, impiedoso, independente. Mas essa sensação se dissipa e ele percebe, então, que sua pele é sua prisão. Ao tomar posse do corpo de Joe, Joanna Burden deseja ela própria se condenar, não para sempre, mas apenas um pouco: “Meus Deus, não me force a rezar”, ela implora. “Deixe-me apenas eu mesma me condenar um pouco mais durante um bom tempo.”

São apenas dois personagens de Faulkner que descobrem, no amor, a natureza trágica da liberdade e do destino. Em Faulkner, saber que somos capazes de resistir significa que somos capazes também, em alguns momentos, de obter uma vitória.

Trágica liberdade, necessária e limitada
A literatura torna real o que a história esqueceu. E porque a história é o que foi, a literatura vai oferecer o que a história nunca foi
Se enfatizo essa verdade trágica e clássica em Faulkner é porque a considero essencial à própria inspiração do romance: a liberdade é trágica porque é consciente ao mesmo tempo de sua necessidade e de seus limites. “O que espero não é a vitória, e o combate em si não me encanta, ele somente me encanta porque é a única coisa que posso fazer [...]. Enquanto tal, no entanto, ele me encanta mais do que posso apreciá-lo [...]. Se eu cedo, provavelmente não é por causa do combate, mas devido a essa alegria de combater”, escreve Kafka.

“Entre o desgosto e o nada, opto pelo desgosto” – célebre frase de Faulkner, à qual ele acrescenta: “o homem triunfará”. Não seria talvez essa a verdade do romance? A humanidade triunfará, e ela o fará porque, apesar dos acidentes da história, o romance nos diz que a arte nos restaura a vida, a vida que a história, em sua precipitação, desprezou. A literatura torna real o que a história esqueceu. E porque a história é o que foi, a literatura vai oferecer o que a história nunca foi. Por isso jamais poderemos testemunhar o fim da história – salvo se o mundo sobreviesse.

Comparemos, então, as palavras de Franz Kafka e as de William Faulkner com as teorias do fim da história e do choque das civilizações. Falo enquanto escritor de língua espanhola, a língua de um continente ibérico, indígena e mestiço, negro e mulato, atlântico e pacífico, mediterrâneo e caraíba, cristão, muçulmano e judaico, grego e latino.

Não posso aceitar a tese segundo a qual vivemos em um conflito de civilizações, pois todas aquelas que evoquei são minhas e não se conflituam em minha mente. Elas se falam e discutem a fim de se entenderem. Seu lugar de encontro com todos, lugar do discurso, do pensamento, da memória e da imaginação que cada um e cada uma entre nós traz consigo, participa de um diálogo das civilizações e não aceita o fim da história.

Como a história pode cessar enquanto não dissermos nossa última palavra?

(Trad.:: Wanda Caldeira Brant)

1 - Edições Asa, Lisboa, 2005.
2 - Em francês no texto.
3 - Em francês no texto.
4 - “Em um lugar da Mancha, cujo nome não quero me lembrar.”
5 - Em francês no texto.

Le Monde Diplomatique

Um comentário:

Bárbara disse...

Eu amo ler e o genero romance é um dos meus preferidos na lista!
Beijos!