segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza


Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza


por Maurício Tadeu de Andrade

Sobre o autor[1]

BRESCIANI, Maria Stella Martins. São Paulo: Brasiliense, 2004.

Trazer a representação do mundo real para dentro de seus romances era o grande desafio dos escritores no século XIX. Victor Hugo, Baudelaire, Zola, Dickens, e Edgar Alan Poe, saíram a campo para observar o homem em seu habitat.

O resultado é uma descrição do tumultuado e nervoso universo que compunha as cidades de Londres e Paris. Capitais de duas grandes nações do velho mundo, mas que pela pena do romancista, nos traz um agudo olhar sobre até onde sonhos podem ser desfeitos, despertados para a dura realidade das ruas.

A multidão frenética de dia era composta de figuras das mais diversas. Os trabalhadores dos escritórios que contavam os passos à espera do horário do trabalho, os carregadores que corriam desajeitados, as lavadeiras com suas trouxas de roupa, os carteiros de porta em porta. Todos disciplinados pelo novo senhor das cidades, aquele que dita o ritmo das atividades, que faz com que o agora seja o oposto do depois: o tempo. A noção do que seja o tempo útil arrancava o homem da acomodação na natureza, e o jogava na engrenagem puída que teimava em levar a sociedade para frente, como uma bem ensaiada peça de Dickens.

Quando a noite chegava, rostos mudavam, comportamentos afloravam e nem sempre de maneira discreta. No afã de desnudar esse cotidiano, nossos autores se aprofundavam cada vez mais; para entender a cena que se apresentava, concluindo aos poucos que o desenvolvimento econômico por certo não havia contemplado todos os filhos da nação francesa, nem todos os súditos de sua majestade. Quanto mais aglomerado o povo era nas cidades, mais isolado o homem se sentia; misturando-se em meio à sujeira e o mau cheiro.

No final do século os bairros operários se agigantavam, tornando-se quase cidades dentro da cidade. Nesses verdadeiros antros de degradação se misturavam trabalhadores, beberrões e criminosos. Os franceses ao olhar o que se passava na caótica Londres vão em busca de soluções possíveis para tornar a vida urbana suportável em Paris.

Os ingleses viam no crescimento econômico as causas para os males sociais de altíssimo custo, já os franceses julgavam os custos políticos que a miséria poderia trazer à ordem estabelecida. Vendo tanto descalabro e insensibilidade, Balzac questionava se a sociedade seria melhor organizada quando as massas miseráveis fossem mais fortes que os ricos. O proletariado: trabalhadores pobres, famintos, deserdados da prosperidade, apesar de produzirem essa prosperidade, eram vistos como bárbaros, e por isso deviam ser mantidos em seus guetos, sem direitos, sem conforto, sem sonhos nem futuro.

No final do século a imagem do novo mundo industrial era a pior possível. O desenvolvimento econômico tendo como aliadas as máquinas, fez do homem, simples peça, tendo sua vida reduzida não raramente à metade. Para Michelet a submissão do homem ao ritmo das máquinas era por si só uma desordem, um ultraje que o direcionava à morte. Para ele havia o mistério, como o homem que cada vez trabalhava e vivia coletivamente como em nenhuma outra época da história humana, podia ser tão desunido em termos de afeição, bondade e união? Era a própria negação da sociedade, a afirmação do “anti-social”.

Assim como os londrinos, os parisienses se deterioravam nesses bairros fétidos, sofrendo inclusive um processo de degeneração biológica, atingindo a população. Balzac percebeu que o aspecto do povo parisiense era o pior possível, homens e mulheres sem cor, sem alma, sem perspectiva de futuro, perambulando pelas ruas de uma cidade conhecida como “Inferno”. Mesmo aqueles que defendiam a existência e o surgimento da grandiosidade nacional, eram traídos pela sua apreensão ante o poderio representado pelas multidões. A grande massa mostrava-se capaz de levar a sociedade para o alto ou para o buraco quando quisesse.

Os que aceitavam a ordem e o sistema formavam a multidão produtiva, mas eram os que do trabalho fugiam a grande preocupação. Vagabundos e trabalhadores pobres, marginalizados, vivendo em condições apartadas do mínimo conforto, essa multidão assustava, desorientava e fazia surgirem teses das mais diversas. Locke e Smith foram categóricos em suas opiniões: diziam que só o trabalho enobrece, e a concentração desse trabalho enobrece mais ainda, era a multidão levada a produzir prosperidade.

Se a fábrica punha o pão na mesa do trabalhador, as leis dos pobres tentavam com todas as suas variantes, resolver a questão social dos deserdados, mão de obra não utilizável. Em Paris não era tanto a questão econômica, mas a política que fazia com que as massas fossem mais de perto monitoradas. Victor Hugo percebia algo no ar, um clima suspenso e suspeito, uma ameaça num século onde a doença política e a doença social se confundiam. O século XIX representou para os franceses mais do que a confirmação de ilusões nascidas naquele 14 de julho, mas a busca, ainda revolucionária, de uma sociedade igualitária, perfeita e utópica.

Caracterizar uma época tomando como exemplos, duas das maiores metrópoles européias do século XIX pode parecer temerário, mas o argumento cai por terra, quando sem preconceitos e de forma imparcial a autora em suas páginas nos mostra que a dinâmica das sociedades sejam elas britânica ou francesa, leva os homens a construir o seu tempo, nas cortes, nos palácios ou mesmo nos piores estágios da pobreza.



[1] Graduando do Quarto ano de História das Faculdades Integradas de Jaú/SP. Resenha realizada na disciplina de História Contemporânea, sob a orientação da Profª. Mestre Nilva Celise V. Bellotti.

Revista Historia e-Historia

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