terça-feira, 3 de novembro de 2009

E assim nasceu o ritmo brasileiro

Quadro " Chorinho" de Cândido Portinari

E assim nasceu o ritmo brasileiro

Primeiro gênero genuinamente nacional, o chorinho deu origem ao samba

CARLA ARANHA




Reprodução


A alegria corria solta nas festas que avançavam madrugada adentro nas casas do centro do Rio de Janeiro, em fins do século 19. Era um tal de sacode daqui, remelexe de lá, que ninguém conseguia ficar parado. Se a fuzarca contasse com o inovador Choro do Callado, grupo liderado pelo jovem flautista Joaquim Callado (1848-1880), melhor ainda: era diversão na certa. A brincadeira não tinha hora para terminar, como conta o músico carioca Alexandre Gonçalves Pinto (1870-1940) no livro O Choro: Reminiscências dos Chorões Antigos. "As festas se prolongavam por dias, sempre no maior entusiasmo", diz ele. A trilha sonora era uma música nova, contagiante, ideal para dançar juntinho, bem ao gosto da nova classe social que emergia – nada mais de distância regulamentar entre os pares e formalidades do passado. Era a hora e a vez da ginga nacional, e com ela surgia a primeira música popular brasileira, criada nas festas da classe média baixa e nas ruas, coretos e praças, e cujas bases eram lançadas pelo grupo de Callado. "O choro vem bem antes do samba e é, certamente, a primeira criação artística brasileira, e que inclusive contribuiu grandemente para o sentido que temos hoje de brasilidade", diz o historiador André Diniz, autor do livro Joaquim Callado, o Pai do Choro, lançado em 2007.

Até a década de 1870, havia poucas opções musicais. Existia somente a música europeia tocada nos bailes, como a valsa, a polca e a mazurca, as melodias eruditas ou a batida africana, até então restrita a essa comunidade. Não havia meio-termo. Essa polaridade refletia a própria organização social do país. Os ricos – fazendeiros e banqueiros – permaneciam a oceanos de distância do restante da população, escravos ou negros libertos que faziam pequenos serviços nas ruas. Além deles, havia apenas alguns poucos comerciantes. No século 19, porém, já não seria mais assim. Com a vinda de dom João VI ao país, em 1808, o Rio de Janeiro mudou de ares, ganhando teatros, palácios, jardins e uma grande biblioteca. O regente também abriu os portos, e o Brasil começou a comercializar diretamente com a Europa e os Estados Unidos – pela primeira vez, chegava ao país uma infinidade de artigos importados, de pianos e chapéus a tecidos finos para roupas, colchões e sombrinhas. Um pouco mais tarde, na segunda metade do século 19, iniciou-se uma onda de modernização ainda mais revolucionária, dessa vez sob a batuta de dom Pedro II, coroado imperador em 1841 – e que viria a abrir espaço para uma nova maneira de viver e uma nova cultura. "A criação da primeira música nacional está inserida nesse contexto de mudanças sociais e econômicas", explica Diniz.

Cidade efervescente

Na época de Callado, o Brasil fervilhava de novidades. As ruas do Rio de Janeiro, capital do Império, já não precisavam mais ficar às escuras quando o sol se punha. A cidade ganhou iluminação a gás em 1854, e em 1864 teve início a construção da rede de esgoto. Um pouco antes era inaugurada a primeira ferrovia brasileira, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis. O instituto pioneiro de ensino musical no país, o Conservatório Imperial de Música, já havia surgido em 1848, ano de nascimento de Callado, no Rio de Janeiro. Muitos desses empreendimentos eram tocados por empresas públicas e privadas, que precisavam de funcionários. Com isso, formou-se um novo estrato social, a classe média baixa, formada por mestiços, brancos e negros. Mesmo com salários estáveis, eles não podiam se dar ao luxo de morar em bairros como Botafogo e Laranjeiras, considerados nobres. Muitos preferiam se instalar em áreas novas, próximas ao centro, local de trabalho de grande parte dessa população. "A classe média baixa logo se espalhou pelas casas de porta e janela da Cidade Nova, bairro construído sobre antigos mangues, e pelas casas de vila do centro antigo da cidade até os bairros do Estácio e da Tijuca", diz o historiador José Ramos Tinhorão. Indo de vento em popa, com empregos garantidos, a nova classe social também queria se divertir, e, como não tinha cacife para frequentar os bailes da corte e os teatros, tratou de dar festas em casa mesmo, segundo Tinhorão.

Só faltava a música ideal, feita para dançar e com um quê maroto, com cara dos novos brasileiros, nem brancos, nem africanos, nem pobres, nem ricos. Não demoraria muito para os moradores das casas da Cidade Nova bailarem, felizes, até o sol raiar com uma música revolucionária. Entre 1865 e 1870 surgia um grupo altamente inovador, o Choro do Callado, que tocava de um modo que nunca se ouvira até então. Seu criador, o flautista Callado, nascido e crescido na Cidade Nova, filho de pais mestiços, juntou o som dos salões, da polca e de outros estilos europeus com a música das ruas, tocada pelos negros. Pela primeira vez, a cadência africana dialogava com as melodias de salão. O ritmo dos escravos finalmente ganhava as salas de visitas, as festas, o Rio de Janeiro e o Brasil. "Já não existiam somente a música europeia e as danças africanas. Uma mescla das duas coisas começava a tomar forma. Mais tarde, já no século 20, é o choro que vai dar origem ao samba e a todos os demais gêneros brasileiros", diz Anna Paes, musicista e pesquisadora da música brasileira do século 19.

Talento precoce

O flautista Joaquim Callado, considerado o criador do choro, cresceu em um ambiente altamente musical – e que só existiu graças às mudanças sociais e econômicas que aconteciam no Brasil. Seu pai era professor de música e tocava trompete na Banda Sociedade União de Artistas. A família tinha uma pequena casa na Cidade Nova. "Havia tantos negros e mestiços ali que o local era conhecido como Pequena África. Havia também muitos músicos, gente que tocava em bandas e adorava fazer festas", diz o historiador André Diniz.

Quando Callado nasceu, as bandas de música já eram famosas no Rio de Janeiro. Desde a chegada de dom João VI ao Brasil, esses grupos vinham crescendo. No início, pertenciam a corporações militares e serviam para homenagear o monarca em comemorações oficiais, mas depois expandiram sua atuação. Em 1855, por exemplo, já tocavam em espaços como o Passeio Público, um grande jardim próximo ao centro do Rio de Janeiro, como conta o escritor José de Alencar em crônica publicada no jornal "Correio Mercantil". Tornara-se comum, então, as bandas se apresentarem em coretos e praças, geralmente aos domingos. Era a grande diversão do final de semana para os remediados. O repertório agradava a gregos e troianos. Tocava-se desde música clássica até marchas militares e gêneros da moda, como a valsa e a polca, mas já com uma certa ginga.

As bandas tiveram também o importante papel de abrir as portas para a profissionalização dos artistas. Foi o que aconteceu com o pai de Callado, que, como músico profissional – uma atividade já remunerada, na época –, tornou-se amigo de grandes musicistas. Um deles, o regente e compositor Henrique Alves de Mesquita (1838-1906), concordou em dar aulas particulares de piano e flauta a Callado. Não era pouca coisa. Mesquita foi um dos maiores músicos de seu tempo: estudou em Paris, como bolsista do governo brasileiro, e de volta ao Brasil compôs várias operetas e partituras para teatro, sempre recebendo muitos aplausos. Ele também foi professor de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), futura pianista e compositora que se tornaria grande amiga de Joaquim Callado.

Aos 15 anos, Callado já mostrava talento ao compor sua primeira música, Querosene, uma polca. Aos 19, outra composição sua, Carnaval, logo ficou famosa em toda a cidade. Em seguida, veio a polca Querida por Todos, feita em homenagem a Chiquinha Gonzaga, além de outros sucessos, como Salomé, Perigosa e A Flor Amorosa – esta, parecidíssima com o choro que se ouve atualmente. "A Flor Amorosa até hoje é gravada pelos chorões. É um dos marcos fundamentais do início da música popular brasileira", diz Anna Paes. Por volta de 1870, o compositor já havia formado o grupo Choro do Callado, em que era acompanhado por dois violões e um cavaquinho, praticamente a mesma formação do choro moderno. Só não tinha pandeiro. "A percussão naquele tempo era vista como coisa de segunda linha, já que vinha dos escravos, e por isso só se incorporou à música brasileira no século seguinte", explica a pesquisadora.

O Choro do Callado, ou Choro Carioca, como também era conhecido, tocava em festas – com os músicos ganhando cachês – e nas rodas de choro que começaram a pipocar pela cidade, tal o sucesso da nova música. Callado, considerado um flautista excepcional, algumas vezes também se apresentava sozinho, em concertos nos teatros da cidade. Os aplausos eram infindáveis. Entre seus fãs incondicionais estava o escritor Machado de Assis, que lhe fez um elogio público no conto História de 15 Dias, em que diz: "Foram convidar um lacedemônio a ir ouvir um homem que imitava com a boca o rouxinol. ‘Eu já ouvi o rouxinol’, respondeu ele. A mim, quando me falaram de um homem que tocava flauta com as próprias mãos, respondi: ‘Eu já ouvi Callado’?".

Nome controvertido

Não era apenas o virtuosismo de Callado e seus amigos que atraía a atenção de personalidades como Machado de Assis. Havia ali um jeito novo de tocar, longe do formalismo da corte e dos bailes oficiais. Os músicos de choro se provocavam entre si para ver quem tocava melhor as difíceis harmonias que inventavam, para surpresa e encanto da plateia. No início, no entanto, o choro era mais uma maneira de tocar, incorporando a cadência dos ritmos africanos, do que um gênero musical reconhecido como tal. Como aconteceu com outros movimentos musicais, como a bossa nova e o rock, só tempos depois a nova música ganhou roupagem própria e decolou. A segunda geração de chorões, do início do século 20, com os geniais Pixinguinha e Ernesto Nazareth, é que vai estruturar e consolidar o estilo, diz o historiador André Diniz. Foi a partir de Pixinguinha que o choro passou a denominar um novo gênero musical, e não apenas uma maneira de tocar como na época de Callado.

O choro nasceu de forma tão espontânea e desprovida de rótulos que o próprio nome com que ficou conhecido tem origem controversa. Para o historiador José Ramos Tinhorão, a palavra vem da maneira como os músicos cariocas de fins do século 19 começaram a tocar o violão, tirando do instrumento um tom melancólico, choroso. Já na visão de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), um dos maiores folcloristas do país, o termo vem de xolo, palavra de origem africana que designava as festas que os escravos faziam nas fazendas. Seja como for, na década de 1870 o nome já estava na boca do povo, e Joaquim Callado colecionava um sucesso atrás do outro. Em 1871, tornou-se professor de flauta do Conservatório Imperial de Música e, juntando o salário ao cachê recebido nas festas e aos ganhos com aulas particulares, dispunha de dinheiro suficiente para andar na moda e frequentar as elegantes ruas do Ouvidor e do Rosário, no centro do Rio de Janeiro. Callado, considerado um homem bonito, esbanjava charme com sua gravata-borboleta, os óculos pince-nez e o paletó cinza combinando com a calça azul-clara com que se apresentava em seus shows – a roupa preferida dos chorões, na descrição do teatrólogo França Júnior, que viveu na época de Callado e escreveu artigos sobre comportamento para o jornal "O País", do Rio de Janeiro.

Os historiadores de música sofrem, no entanto, com a falta de dados biográficos mais detalhados sobre Joaquim Callado e os músicos de sua época. Pouco se sabe da vida pessoal do inventor do chorinho e de seus companheiros. Callado morreu cedo, aos 32 anos, e numa época em que ainda não se usava fazer biografias de músicos populares. Seu inegável talento e a forte impressão que causou entre seus admiradores fizeram, no entanto, com que sobrevivessem ao esquecimento pelo menos 66 de suas composições. As partituras foram guardadas pelos seguidores de Callado e a partir do final dos anos 1940 foram gravadas por uma nova geração de chorões, interessada no resgate dos primórdios do estilo, formada por mestres como Jacob do Bandolim – que em 1949 deu uma nova versão à música A Flor Amorosa, registrada em disco pela primeira vez em 1902 pela gravadora dos Irmãos Eymard, do Rio de Janeiro –, Altamiro Carrilho e Carlos Poyares, que fizeram questão de incluir Callado em seu repertório. Mais recentemente, no ano 2000, o flautista Leonardo Miranda relançou 14 músicas do pai do choro no CD Leonardo Miranda Toca Joaquim Callado, da Acari Records.

Se hoje é grande o prestígio de Callado, não foi menor no tempo em que o músico viveu. Até o imperador era seu admirador confesso, e em 1879, um ano antes da morte súbita do compositor, dom Pedro II o condecorou com a Ordem da Rosa, como comendador, em uma clara demonstração de carinho pelo músico. Casado e com quatro filhos, Callado contraiu em 1880 meningoencefalite, doença provocada por bactérias que infeccionam parte do cérebro e as meninges. Em uma época anterior à penicilina, que só seria descoberta em 1928, e aos antibióticos, as doenças infecciosas muitas vezes representavam uma sentença de morte. Em Callado, o mal teve efeito fulminante. Cinco dias depois de cair de cama, o compositor morria em sua casa, cercado pela mulher, Feliciana Adelaide, e pelos filhos, Alice, Luiza, Elvira e Arthur. Em 15 de março de 1880, o Brasil perdia um de seus maiores gênios musicais. Foi uma desolação geral na capital do império. Várias notas foram publicadas em sua homenagem na imprensa, e a "Revista Musical de Bellas Artes" chegou a dedicar três páginas ao compositor.

Mesmo depois da morte de Callado, a nova maneira de tocar continuou viva nas rodas de choro que tomaram o Rio de Janeiro. A ginga dos músicos do século 19 influenciou grandes mestres como Villa-Lobos e ainda teve o mérito de dar origem ao samba. Donga (apelido de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, que viveu de 1889 a 1974), um dos músicos que acompanhavam Pixinguinha, registrou o primeiro samba de que se tem notícia, Pelo Telefone, em 1917. A novíssima geração do choro, formada por músicos como José Paulo Becker, Marcello Gonçalves, Luciana Rabello e Maurício Carrilho, também continua a tirar o chapéu para Callado, que segue mais serelepe que nunca nas novas versões de suas músicas.


Talentosas mulheres do choro


Chiquinha Gonzaga, autora de "Ô Abre Alas", além de uma infinidade de marchinhas, maxixes e polcas, foi sem dúvida a compositora mais famosa de seu tempo – mesmo porque se atreveu a tocar em público e a ter uma vida independente, em uma sociedade patriarcal. No fim do século 19 e início do 20, contudo, o Brasil teve outras compositoras talentosas, como Serafina Augusta Mourão do Vale (1858-1936) e Lina Pesce (1913-1995). A diferença, segundo a pesquisadora Anna Paes, é que elas não tiveram uma vida tão pública como a de Chiquinha Gonzaga, e com isso acabaram ficando menos conhecidas.

Serafina deixou mais de 50 composições, entre choros, valsas e polcas. A compositora era de Rio Bonito (RJ) e mudou-se aos 25 anos para o Rio de Janeiro. Pianista, promovia saraus na loja de instrumentos musicais que herdou do marido, Ao Piano de Cristal, no Rio de Janeiro. Ela também imprimia e vendia as partituras de suas composições.

Outra importante compositora, a paulista Lina Pesce, filha do maestro italiano Giacomo Pesce, ficou conhecida em 1942, quando o choro "Bem-Te-Vi Atrevido", então famoso no Brasil, foi incluído na trilha sonora de um filme de Hollywood, "Dupla Ilusão" ("Twice Blessed", no título original). Em 1958, mais de 200 músicas de sua autoria já haviam sido gravadas. Em 1963 lançou, como pianista, o disco "Chorinhos bem Brasileiros", com o renomado músico Radamés Gnattali. "Lina, assim como outras excelentes compositoras, como Tia Amélia e Carolina Cardoso de Meneses, que aos 16 anos teve sua primeira música gravada, acabaram esquecidas, como acontece com tantos artistas brasileiros. É uma pena, porque elas são ótimas", diz Anna Paes. Para resgatar a obra dessas compositoras, em 2001 a gravadora Acari Records lançou o CD "Mulheres do Choro".

Revista Problemas Brasileiros

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