segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A corrente da moeda


A corrente da moeda
Desde o tempo do escambo, a sociedade constrói uma relação próxima com a forma monetária de consumir mercadorias. O dinheiro já foi pluma, prego e vaca, criou impérios e destruiu nações
por Rafael Tonon
Para cultuar suas divindades, os astecas costumavam realizar uma série de oferendas que envolviam sacrifícios de animais e seres humanos. Na capital do império, a cidade de Tenochtitlán, os ritos mortais eram comuns. Durante as cerimônias, os sacerdotes abriam o peito da vítima e arrancavam-lhe o coração, que era ofertado a Huitzilopochtli, deus do sol e da guerra. O ritual macabro não custava apenas vidas, mas uma boa quantidade de tecidos. É isso mesmo: o fiel que quisesse ter sua própria vítima para ofertar aos deuses precisava desembolsar cerca de 40 mantos. O tecido era a moeda mais valiosa da época. Mas poucos eram os que dispunham dos pedaços de pano: estes já eram um privilégio dos ricos. Para os menos favorecidos, a moeda se resumia a grãos de cacau. As sementes serviam como dinheiro para as transações comerciais daquele povo. Nos mercados, eram aceitas como pagamento para tudo que estivesse à venda: frutas, legumes, sandálias, joias etc. O manto (cada um equivalia a 300 grãos de cacau) só era utilizado na compra de mercadorias nobres. A semente foi eleita como a melhor forma de dinheiro pelos ameríndios porque, além de abundante, era de fácil manipulação, tinha boa durabilidade e um valor intrínseco. Moída, virava chocolate, produto querido aos astecas. O cacau permaneceu moeda corrente durante pelo menos quatro séculos, até a chegada dos espanhóis. E representou um dos mais sofisticados sistemas monetários da História.

"Em épocas e sociedades distintas, o dinheiro se metamorfoseou em diversas mercadorias para atender as necessidades comerciais das pessoas no decorrer da história da humanidade", diz Mathieu Deflem, da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, que estuda a relações entre sociedade e dinheiro.

Renas, pregos e plumas

Na Grécia antiga, por muito tempo, bois eram usados como moeda. Os nativos da Índia usavam amêndoas. Os guatemaltecos da América pré-colombiana preferiam o milho. Os antigos babilônicos, a cevada. E o dinheiro foi ganhando novas faces em diferentes países ou regiões: arroz no Japão, renas na Sibéria, manteiga na Noruega, búfalos em Bornéu, pregos na Escócia, além de conchas, pedras, plumas, dentes de baleia e muitas outras excêntricas mercadorias.

Antes de surgirem essas moedas-mercadorias, porém, o escambo era o jeito de trocar produtos: alguém que tivesse mais peixe do que o necessário permutava o excesso pelo milho que outra pessoa tinha plantado e colhido. Assim, tudo era trocado, sem levar em conta a equivalência de valor. Mas essa forma primitiva de relação comercial começou a se mostrar inviável. Era necessário que o produtor de milho quisesse o peixe do pescador. Ou não poderiam fazer negócio e o pescador passaria sem os grãos.

Foi aí que surgiu a necessidade de adotar mercadorias que, por sua utilidade ou abrangência, seriam amplamente aceitas e assumiriam a função de moeda, circulando como principal elemento para as relações comerciais.

Os primórdios do dinheiro datam do fim do terceiro milênio antes de Cristo. Habitantes da Mesopotâmia passaram a usar lingotes de metais preciosos em troca de produtos. Escritas cuneiformes mencionam o uso de prata por esse povo desde 2500 a.C. O metal foi o objeto que melhor traduziu as necessidades de troca e, por isso, foi adotado em larga escala por diversas culturas através dos anos. "O metal vingou por ter todas as características exigidas de uma moeda: é maleável, é resistente, não é nem abundante nem raro, é considerado bonito e, portanto, desejável. E ele permite a padronização, o que é fundamental", afirma Oscar Pilagallo, jornalista e autor do livro A Aventura do Dinheiro - Uma Crônica sobre a História Milenar da Moeda.

A prata, em maior representatividade, e o ouro e o cobre eram bastante usados no comércio. Mas, para desempenhar suas funções como dinheiro, os metais precisavam ser pesados a cada transação, tanto pelo comprador quanto pelo vendedor, para que sua importância fosse certificada. Desse ato minucioso deriva, por exemplo, a libra esterlina, moeda atual da Grã-Bretanha, que leva esse nome por representar uma medida de peso, a libra (cerca de 450 gramas).

Somente milênios depois, no século 7 a.C., o metal se tornou, enfim, uma unidade padrão. O reino da Lídia (atual Turquia) cunhou a primeira moeda, muito similar às de hoje: prática, de fácil manuseio e amplamente aceita nos arredores. Era a primeira grande revolução monetária da história. Estimulou o comércio e a especialização do trabalho e tornou os lídios um dos povos mais ricos da Antiguidade. O modelo do stater, a moeda lídia feita de eletro (liga de ouro e prata), foi copiado pelo mundo todo para configurar o primeiro sistema monetário global.

Denário, o antepassado Em Atenas, os trabalhadores recebiam um dracma pelo dia de labuta. Essa unidade era a base do sistema monetário helenístico, cujas moedas estampavam a efígie de uma coruja, símbolo de Atena, deusa protetora da cidade. Mas foram os romanos que melhor incorporaram o novo dinheiro. A primeira cunhagem de que se tem notícia em Roma - ainda na República - foi em 268 a.C. A moeda, chamada denário, foi tão representativa que o termo foi aproveitado para designar diversas moedas nacionais, como o denier francês e o dinar, de vários países árabes. A própria palavra dinheiro, em português (e dinero, em espanhol), vem do latim denarius. Mas esse dinheiro também trouxe problemas para a sociedade romana. Nas Guerras Púnicas contra a república de Cartago, o financiamento das ações militares desestabilizou primeiro o sistema monetário, levando Roma a uma inflação - não havia moeda suficiente para as despesas -, e, depois, o sistema político e econômico. A economia se enfraqueceu após a guerra e passo u a ser baseada em sistemas feudais que, por sua vez, eram autossustentáveis. A cunhagem de moedas foi então suspensa em todo o Império Romano.

Já no Oriente, o Império Bizantino deixou sua moeda como legado. O besante era todo feito de ouro e, cunhado a partir do século 4 na antiga Constantinopla, predominou por mais de um milênio. Foi o dólar da Idade Média. Enquanto o império esteve de pé, até 1493, com a queda de Constantinopla pela conquista do Império Otomano, a moeda bizantina preservou o seu valor. Foi um dos casos mais bem-sucedidos de sistema monetário da história. Foi no Oriente, também, que o dinheiro de papel deu seus primeiros sinais.

Para que o papel-moeda pudesse ser inventado, era necessário, claro, um papel resistente e durável. Portanto, não é de estranhar que as primeiras cédulas tenham demorado tanto para surgir: a tecnologia para fabricação das primeiras notas apareceu tarde e se difundiu lentamente. O uso do papel como moeda teve seu registro na dinastia T’ang, na China, que durou entre os anos de 618 e 907. Mesmo não tendo sobrado uma nota para contar história, algumas ilustrações do período indicam o uso das cédulas. "Os burocratas chineses faziam cédulas usando o papel fabricado da casca de amoreira. Uma vez estampado com o selo do imperador, essas notas levavam o valor total de ouro e prata", escreveu o antropólogo Jack Weatherford, autor do livro A História do Dinheiro.

Marco Polo, em suas viagens à Ásia, no século 12, ficou surpreso com a determinação com que o Estado obrigava as pessoas a usarem as cédulas nas relações comerciais. O resultado era que, de fato, elas circulavam na mão de todos. Na Europa, de onde vinha o viajante veneziano, as cédulas só ficaram conhecidas e populares depois de sua morte em 1324.

No início do século 17, na Holanda, a tulipa virou mania. Os bulbos da planta, altamente valorizados, eram vendidos de junho a outubro, época do plantio. Mas os produtores passaram a comercializá-los também no inverno, para serem entregues depois. Os compradores recebiam um papel, que valeria um bulbo na estação das flores. Mas os papéis começaram a ser usados como dinheiro, passados adiante e negociados a valores irreais. Foi o primeiro ataque especulativo da história e quase quebrou o país.

Mesmo assim, era o princípio do papel como moeda na Europa. A técnica foi aprimorada depois por um escocês que chegou a Paris, em 1716, disposto a fabricar dinheiro. John Law tinha consentimento do duque de Orléans para abrir um banco e emitir notas. A demanda pelas células foi tamanha que logo elas passaram a valer mais que o dinheiro de metal. Até que as pessoas não tinham mais o que fazer com tantas notas e exigiram seus metais de volta. Foi a falência do banco de Law. Em Londres, a Companhia Mares do Sul atravessou susto parecido. Parte da dívida pública da Inglaterra se transformou em ações da empresa. A procura pelos papéis superaqueceu o mercado de ações. Mas surgiu o Banco da Inglaterra para defender a moeda do país. Enquanto isso, na América do Norte, assistia-se à invenção da cédula de papel, a segunda grande revolução no sistema monetário. O grande nome por trás do papel-moeda, tal como o conhecemos, é Benjamin Franklin, que, além de herói da independência, era gráfico. Foi ele quem fabricou algumas das primeiras cédulas da América. Aos 23 anos, escreveu seus panfletos sobre o papel-moeda. Por essa dedicação ao dinheiro, mais idealista que ambiciosa, Franklin foi homenageado. É dele o rosto na nota de 100 dólares, a cédula de maior valor em circulação nos EUA.

Revista Aventuras na História

A força negra na política


A força negra na política
Afro-descendentes que ocuparam cargos de destaque no mundo
Na noite de 4 de novembro de 2008, ao ser eleito, Barack Hussein Obama, 47 anos, começou a escrever uma nova página nos livros de História. Livros que ganham mais um capítulo este mês, quando o primeiro presidente negro dos Estados Unidos toma posse. Antes de ele chegar lá, outros homens e mulheres africanos e afro-descendentes lutaram por espaço em suas comunidades. Conheça alguns que alcançaram postos antes exclusivos dos brancos.

DE FARAÓS A BANQUEIROS
Em 2700 anos, os destaques de três continentes

REI PIYE - 752 A.C.
Diante de um Egito decadente, o imperador da Núbia (atual Sudão) decide colocar ordem no país vizinho. Piye ocupa a capital, Tebas, e inicia um governo de 35 anos, que dá origem à chamada dinastia dos faraós negros. Ao morrer, o imperador é enterrado em uma pirâmide, junto com quatro de seus cavalos favoritos

HENRIQUE DO HAITI - 1807
Nascido escravo em Granada, participa da luta do Haiti contra as tropas francesas, em 1791, e assume a presidência do país, em 1807. Em 1811, proclama a si mesmo imperador. Durante seus nove anos de reinado, Henrique cria uma nobreza haitiana, com 47 títulos.

SHAKA ZULU - 1818
Ao assumir a chefia sobre a tribo zulu, transforma a etnia em um império. Para isso, conquista diversas tribos, em uma campanha que inspira comparações com Alexandre, o Grande. No momento em que é assassinado, Shaka (1778-1828) governa cerca de 250 mil pessoas.

HARRIET TUBMAN - 1861
A ex-cativa (1820-1913) é a primeira mulher a liderar tropas americanas. Durante a Guerra Civil, ela comanda uma ação militar de resgate, que consegue libertar 750 escravos das mãos da Confederação. A operação lhe rende o apelido de "Moisés dos negros".

JOHN RICHARD ARCHER - 1913
O ativista (1863-1932) é o primeiro prefeito negro eleito na Inglaterra. Após seu mandato na cidade de Battersea, marcado por acusações racistas divulgadas pelo partido de oposição, passaria a vida militando contra o preconceito.

KWAME NKRUMAH - 1960
O líder político (1909-1972) é um dos maiores responsáveis pela independência de Gana, alcançada em 1957. Depois, torna-se premiê e presidente do país. Em 2000, é eleito pelos ouvintes da rádio BBC o homem africano do milênio.

KOFFI ANNAN - 1997
Nascido em Gana, termina os estudos nos Estados Unidos. Começa a trabalhar na Organização das Nações Unidas em 1962. Em 1997, entra para a História como o primeiro secretário-geral negro da entidade, cargo que deixa em 2007.

STANLEY O’NEAL - 2002
Nunca antes um afro-americano tinha dirigido um grande banco de Wall Street. O’Neal assume o Merril Lynch e só se afasta em 2007, após a empresa perder mais de 8 bilhões de
dólares em créditos.

BARACK OBAMA - 2008
O democrata vence as prévias contra a senadora Hillary Clinton. Nas eleições de novembro, conquista o posto de 44º presidente do país. Nascido no Havaí, Obama é filho de um economista queniano. Sua esposa, Michelle, é tataraneta de um escravo da Carolina do Sul.

DOCUMENTOS HISTÓRICOS
A eleição americana nas primeiras páginas

No dia 5 de novembro, os americanos fizeram filas nas bancas de revistas. Todos queriam os jornais com o resultado das eleições para presidente. Alguns periódicos reimprimiram 5 vezes a mesma edição. Sinal de que os leitores perceberam que, naquele dia, os jornais tinham História pura impressa nas primeiras páginas.

VOCÊ SABIA?
por Caio do Valle

OBAMA É O SEGUNDO
Americano negro já foi presidente

Em 1847, Joseph Jenkins Roberts (1809-1876) tornou-se o primeiro norte-americano afro-descendente a assumir a presidência de um país. A diferença entre ele e Barack Obama é que Roberts governou uma nação estrangeira, a Libéria. Nascido em Norfolk, na Virgínia, ele era filho de uma ex-escrava libertada. Em 1829, a família se mudou para a Libéria, pequena colônia sustentada por políticos e religiosos brancos que bancavam a transferência de negros interessados em deixar os Estados Unidos. Com apenas 24 anos, Roberts já era xerife. Aos 32, ele se tornou o primeiro gestor não-branco do local. Em 1846, convocou um referendo para aprovar a independência da Libéria. Em outubro de 1847, foi eleito o primeiro governante do novo país. Sua gestão foi marcada pelo reconhecimento junto à comunidade internacional - em 1848, ele causou impacto na Inglaterra ao visitar a rainha Vitória. Mas, apesar do sucesso no exterior, no plano interno o presidente não conseguiu aproximar os colonizadores estrangeiros das etnias nativas. "Roberts foi um administrador hábil, mas não criou um ideal de nacionalidade para a região", afirma o historiador norte-americano Eric Burin.

Revista Aventuras na Historia

sábado, 28 de novembro de 2009

A medicina na Idade Média


A medicina na Idade Média
A medicina medieval cresceu ligada à Igreja, sendo fortemente influenciada pelas convicções religiosas que dominavam o cenário.
por Vivianne Santos


AIdade Média compreende um período de aproximadamente mil anos, iniciado com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e tendo seu fim assinalado pela queda do Império Romano do Oriente (Bizâncio), em 1453. Caracterizou-se pelo predomínio do Cristianismo em todas as esferas da vida humana. Muitas vezes é chamado pejorativamente de idade das trevas, pois não teria tido nenhuma criação filosófica ou científica autônoma. Tal idéia é criticada por muitos estudiosos, que tendem a ver o período de desenvolvimento econômico e tecnológico, que começou por volta do século XII, como um importante requisito para o desenvolvimento científico na era moderna.

Como resultado das migrações bárbaras e da implosão do Império Romano do Ocidente, a Europa Ocidental do início da Idade Média era pouco mais que uma colcha de retalhos de populações rurais e tribos bárbaras. Perdeu-se o acesso aos tratados científicos originais da antiguidade clássica, ficando apenas versões resumidas e até deturpadas que os romanos tinham traduzido para o latim. A única instituição que não se desintegrou juntamente com o império foi a Igreja Católica, que manteve o que restou de força intelectual, especialmente através da vida monástica. O homem instruído desses séculos era quase sempre um clérigo, para quem o estudo dos conhecimentos naturais era uma pequena parte de sua escolaridade. Esses estudiosos viviam numa atmosfera que dava prioridade à fé e tinham a mente mais voltada para a salvação das almas do que para o questionamento de detalhes do universo físico.

No século X ocorre a contenção das últimas ondas de invasões estrangeiras. Por volta de 1100 d.C. ocorre uma revolução que combinou renascimento urbano e comercial, ampliação de culturas e fronteiras agrícolas, crescimento econômico, desenvolvimento intelectual e evoluções tecnológicas. Começam a ser abertas novas escolas ao longo de todo o continente, inclusive em cidades e vilas menores. Por volta de 1200 são fundadas as primeiras universidades, em Paris, Bologna e Oxford (em 1500 já seriam mais de 70). Começa um forte movimento de tradução de documentos árabes e gregos, que tornam o conhecimento do mundo antigo novamente disponível para os eruditos europeus. Tudo isso possibilitou um grande progresso em conhecimentos como Astronomia, Matemática, Biologia e Medicina.

Causavam espanto e admiração as inovações, tais como grandes relógios mecânicos que transformaram a noção de tempo nas cidades. Presenciaram-se descobertas, como os óculos, em 1285, e a prensa móvel, em 1448. Houve também inovações na forma de utilizar os meios de produção, com as técnicas de serralheria e incisão de pedras, a fundição de ferro e os avanços nas técnicas de construção aplicadas ao estilo gótico. No setor agrícola, temos o desenvolvimento de ferramentas, como a charrua, melhorias em carroças e carruagens, arreios para animais de carga e a utilização de moinhos d’água. Avanços em instrumentos como a bússola e o astrolábio, a confecção de mapas e a invenção das caravelas tornaram possível a expansão marítimo-comercial Européia na Idade Moderna.
Medicina medieval

A medicina medieval cresceu ligada à Igreja, sendo fortemente influenciada pelas convicções religiosas. Os religiosos assumiram o controle da arte de curar através de medicamentos e deixaram para os barbeiros, que já lidavam com a navalha, a arte de drenar abcessos e retirar pequenas imperfeições da pele.

No século VI, em Monte Cassino (entre Roma e Nápoles), um nobre italiano chamado Benedito de Nursia fundou uma comunidade monástica denominada Ordem Beneditina. Seus membros faziam votos de pobreza, castidade e obediência, aperfeiçoaram o ofício da caligrafia e do iluminismo, e transcreveram textos gregos e latinos remanescentes. Em Monte Cassino, como em toda a Europa, o primeiro médico medieval foi um padre ligado a alguma ordem religiosa.

A medicina monástica era simples e praticada por monges que apenas conheciam a medicina popular, extraindo remédios das ervas medicinais cultivadas nos jardins dos mosteiros. O declínio da medicina monástica deu-se no século XII, quando as autoridades eclesiásticas recearam que os monges estivessem por demais afastados de seus votos religiosos por razão de seus deveres médicos.
No início do século XIII, as atividades médicas foram banidas dos mosteiros, passando o conhecimento médico da época a ser transferido para escolas e universidades leigas. A partir desta época, os hospitais floresceram em toda Europa, em especial pela influência e interesse pessoal do Papa Inocêncio III, que fundou, em 1204, um grande hospital em Roma. Os hospitais do Espírito Santo, como ficaram conhecidos, surgiram em diversas cidades: em Paris, o Hôtel-Dieu, ao lado da catedral de Notre Dame; o Hospital de São Bartolomeu e o Hospital de São Thomás, ambos em Londres.

A Escola de Salerno

O primeiro centro medieval de Medicina leiga surgiu junto ao Mar Etrusco, numa estação de cura. Na cidade de Salerno, ao sul de Nápoles, durante o século X, reuniu-se uma comunidade de médicos, professores, estudantes e tradutores, com a finalidade de criar a primeira faculdade de medicina do Ocidente. Seu corpo docente de médicos, professores, freiras e monges foi o primeiro dos tempos medievais.

Um dos mais famosos professores de Salerno foi Constantino, o africano, que trouxe consigo uma ampla coleção de manuscritos árabes. Neste famoso centro de ensino médico as mulheres também ensinavam, dentre as quais destacou-se Trotula, uma das “damas obstetras de Salerno”, que escreveu sobre moléstias femininas e de pele – De Mulierum Passionibus.

Em Salerno, a obra mais famosa e mais editada (cerca de 1500 edições) foi o Regimen Sanitatis Salernitanum, que destacava-se por sua isenção de superstições e baseava-se em fontes galênicas, hipocráticas e pseudoaristotélicas.
Salerno estimulou o renascimento da tradição hipocrática, inspirou uma nova literatura médica pela publicação de mais de 50 novas obras, fomentou o estudo e desenvolvimento da cirurgia e traçou o esboço da vida universitária.

Higiene

Durante a Idade Média, um dos aspectos mais fundamentais da higiene, o banho, era considerado prejudicial se tomado em excesso. E “banhar-se em excesso” geralmente significava fazê-lo mais de duas ou três vezes por ano, antes da páscoa e do natal. Nas áreas urbanas, os dejetos e a água usada eram simplesmente atirados pela janela, muitas vezes na cabeça do transeunte que estivesse passando.

As roupas eram lavadas, geralmente, duas ou três vezes por ano, devido ao custo do sabão e, conseqüentemente, viviam infestadas de pulgas, percevejos, piolhos e traças. Quem mais corria risco eram os recém-nascidos, já que as mulheres costumavam forrar as camas com lençóis sujos e velhos para dar à luz, pois assim não estragavam os bons. Cerca de um terço das crianças morriam antes de completar um ano e muitas outras antes dos dez anos. De cada dois nascimentos bem-sucedidos podia resultar um único adulto saudável. As casas eram ninhos de ratos, que disputavam com os animais de criação os restos de comida.
A dieta era mal balanceada, consistindo basicamente de cereais, na forma de pão. Vinho, carne, peixe, legumes, gorduras e queijo, não passavam de “acompanhamento”. As classes mais abastadas tinham direito ao pão fino, enquanto os pobres comiam o pão escuro, ou mesmo o chamado “pão de escassez”, feito de aveia.

A verdadeira causa da doença era ignorada. Mesmo no final da Idade Média a medicina preventiva limitava-se ao isolamento e quarentena. Atribuía-se quase tudo à influência dos astros, e não era raro que os médicos mais famosos fossem também astrólogos. Para os pobres e ignorantes, a resposta era bem simples: todos os males eram castigos de Deus, irado com os constantes pecados cometidos pelo homem. Para quase tudo receitava-se a sangria, além de infusões herbais e misturas estranhas, quase sempre inócuas. O pensamento médico, preso à teoria das influências astrais, ressaltava o ar como o meio de transmissão das doenças, principalmente as pestes.

Peste Negra

A ira de Deus em vista dos pecados dos homens parecia, no século XIV, a única explicação possível para a série de golpes devastadores que abalaram todo o mundo conhecido. Durante o primeiro quarto do século, a Ásia foi atormentada por secas, enchentes e terremotos que provocaram uma fome sem precedentes. Na Europa, a mudança climática que começou na década de 1250 e tornou o clima mais frio e úmido teve seus efeitos mais nefastos sentidos no final do século XIII e início do XIV, com a perda sucessiva de colheitas e a fome generalizada que espalhou a doença e o desespero nas comunidades. Mas nada foi tão devastador como a peste negra, epidemia que, entre 1346 e 1352, assolou todo o continente e chegou a ceifar mais de um terço da população européia.

A peste negra é provocada pelo bacilo Pasturella pestis, descoberto somente em 1894. A doença se manifesta de três formas: a pneumônica, que ataca os pulmões; a septicêmica, que infecta a corrente sangüínea; e a bubônica, a mais comum, cujo nome deriva das tumefações do tamanho de um ovo, conhecidas como bubos ou bubões, que aparecem no pescoço, nas axilas ou nas virilhas do doente nos primeiros estágios da doença.

Os vetores do bacilo podem ser vários tipos de insetos hematófagos, que o transmitem através da picada. O mais comum destes vetores é a pulga Xenopsylla cheopis, que na época parasitava tanto o pequeno rato preto dos navios, o Rattus rattus, como o rato marrom, muito comum nos esgotos. O bacilo vive alternadamente no estômago da pulga e na corrente sangüínea do rato.
A doença era aterrorizante. Os bubões purgavam pus e sangue, e eram acompanhados por manchas escuras, resultantes de hemorragias internas. Os doentes sentiam dores muito fortes e geralmente morriam em até cinco dias após a manifestação dos primeiros sintomas. No caso da forma pneumônica, o doente tinha febre alta e constante, tosse forte, suores abundantes e escarro sangrento, e morriam em três dias ou menos.

A presença simultânea das três formas tornava o contágio rápido. Contava-se casos de pessoas que dormiam com saúde e morriam antes de acordar. A ignorância a respeito da verdadeira causa da doença e da forma de transmissão tornava impossível a prevenção e a cura. Esta ignorância levava a interpretações delirantes. As causas mais aceitas para a epidemia eram uma conjunção planetária ou simplesmente o castigo divino. Entre os possíveis responsáveis pela origem e disseminação da praga, os preferidos eram os judeus, que foram perseguidos e massacrados.

Os médicos receitavam poções exóticas e ineficientes. Os tratamentos mais comuns eram as sangrias, o lancetamento ou cauterização dos bubões, a purga com laxantes ou a aplicação de emplastros quentes.

A devastação causada pela peste diminuiu sensivelmente após 1350, embora a doença permanecesse no continente europeu, de forma endêmica, até o início do século XVIII. Sua marcha mortal pela Europa deixou seqüelas permanentes, que transformaram a relação entre as pessoas, abalaram a imagem de infalibilidade do clero, reforçaram a fé pessoal e aumentaram a popularidade de cultos místicos.

Lepra

Outra doença comum na Idade Média era a lepra, que foi durante muito tempo incurável e mutiladora, forçando o isolamento dos pacientes em leprosários, onde eram obrigados a carregar sinos para anunciar a sua presença.
Por falta de conhecimento mais específico sobre as doenças, havia na Idade Média uma dificuldade de se diagnosticar a lepra. Por isso, ela era muitas vezes confundida com outros tipos de enfermidades, principalmente com as de pele e venéreas. Partindo desta premissa, a segregação dos leprosos pode ser vista também como uma maneira empregada de afastar da sociedade um símbolo vivo da lascívia e da promiscuidade, pois a lepra era tida como um símbolo do pecado, como um sinal externo e visível de uma alma corroída pelo erro e, em especial, pela transgressão sexual.

A identificação do leproso era feita, inicialmente, através da denúncia. Qualquer pessoa que notasse uma doença de pele num vizinho, parente ou cônjuge, deveria indicá-lo à autoridade secular ou religiosa para que um tribunal fosse convocado.
O doente comparecia perante um júri composto por um médico, um preboste e um padre, que representavam a Ciência, o Estado e a Igreja. A pele do acusado sofria um exame minucioso e precisava passar por vários testes. O número de pessoas consideradas leprosas era grande. Uma vez estabelecida a natureza da lepra pelo tribunal, os leprosos eram excluídos da comunidade e de toda vida social. Em certos lugares eram realizadas cerimônias que solenizavam o dia da separação do leproso da sociedade. A leitura das proibições, como, por exemplo, entrar nos moinhos, tocar nos alimentos etc, acompanhava a entrega e benção das luvas, da matraca e da caixa das esmolas, elementos que o leproso deveria usar para que fosse rapidamente reconhecido pela sociedade.
As instituições específicas para o tratamento dos leprosos, os leprosários, nasceram em um contexto de crescimento das hostilidades para com estes doentes e em meio a convicção de que eles deveriam ser separados do convívio social. Esses estabelecimentos teriam atingido a seu apogeu no final do século XI e início do século XII e o seu declínio no final do século XIII.

Declínio

Além de estancar o processo de inovação, a peste negra foi um dos fatores que colocaram em xeque todo o modelo de sociedade que havia encontrado seu apogeu nos séculos anteriores. O século XV presenciou o início do florescimento artístico e cultural da Renascença.

A redescoberta de textos antigos foi aprimorada depois da Queda de Constantinopla, em meados do século XV, quando muitos eruditos bizantinos tiveram que buscar refúgio no ocidente, especialmente na Itália. Esse novo influxo alimentou o interesse crescente dos acadêmicos europeus pelos textos clássicos de períodos anteriores ao triunfo do Cristianismo na cultura européia. No século XVI já existe, paralelamente ao interesse pela civilização clássica, um menosprezo pela Idade Média, que passou a ser cada vez mais associada a expressões como “barbarismo”, “ignorância”, “escuridão”, “gótico”, “noite de mil anos” ou “sombrio”. Inicia-se o “renascimento” da humanidade.

Bibliografia

- MARTINS, Roberto de Andrade. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. São Paulo: Moderna, 1997.
- FARRELL, Jeanette. A assustadora história das Pestes e Epidemias. São Paulo: Ediouro, 2003.
- ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo. Porto, Afrontamento, 1982.
- BEAUJOUAN, Guy. A ciência no Ocidente medieval cristão. In: TATON, René (dir.). A ciência antiga e medieval (A Idade Média). São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1959. v. 3.
- HODGETT, Gerald A. J. História social e econômica da Idade Média. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.
- PERROY, Édouard. História geral das civilizações. A Idade Média. São Paulo, Dif. Européia do Livro, 1957. t. 3, v., 2.

Revista Hebron

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Massacre de My Lai

Durante a guerra do Vietnã, o ataque norte-americano contra a vila vietnamita deixou centenas de civis mortos e chamou a atenção da opinião pública mundial para as atrocidades que estavam sendo cometidas nesse conflito

Por Orivaldo Leme Biagi

Foto de Ronald L. Haeberle registra mulheres e crianças em My Lai, no Vietnã, pouco antes de soldados americanos atirarem e os matarem

As recentes denúncias de desrespeito aos direitos humanos feitas por prisioneiros iraquianos ou suspeitos de terrorismo, capturados pelos norte americanos durante as guerras do Afeganistão, do Iraque, além da "caçada" a Osama Bin Laden e seus seguidores, não é novidade. Durante a participação efetiva dos Estados Unidos na guerra do Vietnã (19591975), muitos vietnamitas foram agredidos covardemente - e o massacre de My Lai é o episódio mais significativo desses ataques.

Soldado americano em vilarejo vietnamita durante a guerra. Cerca de 60 mil soldados americanos morreram no Vietnã e mais de 300 mil ficaram feridos


A destruição da vila

Massacres eram constantes no Vietnã, tanto por parte das forças militares dos Estados Unidos e seus aliados sulvietnamitas quanto pelos guerrilheiros do Vietcongue e tropas do Vietnã do Norte - a guerra do Vietnã foi violentíssima em todos os sentidos. Como as forças de resistência aos Estados Unidos estavam intimamente ligadas à população sulvietnamita, em particular nas inúmeras aldeias do país, era difícil de separar esta população do guerrilheiro - e, na dúvida, muitas vezes aldeias inteiras eram bombardeadas com napalm e seus habitantes hostilizados. My Lai foi o mais contundente desses casos.

A Companhia C, Primeiro Batalhão, Vigési ma Infantaria, DécimaPrimeira Brigada, Divisão Americanal, entrou na vila de My Lai em 16 de março de 1968 e matou aproximadamente cen tenas de aldeões (347, segundo estimativas nor teamericanas, ou 504, de acordo com os dados vietnamitas), inclusive mulheres e crianças, sob o comando do tenente William L. Calley (1943). De acordo com os soldados que estavam em My Lai, moradores da vila foram reunidos em grupos e abatidos com fogos de armas automáticas, sendo que qualquer sobrevivente era, depois, alvejado.

Pouco mais de um ano depois do massacre, o exatirador de helicóptero Ronald Ridenhour (1946 1998), que foi informado do ataque por meio de testemunhos de vários soldados da Companhia C, enviou 30 cartas de sua casa, no Arizona, relatan do o que tinham exposto a ele - cartas enviadas para o presidente Richard Nixon (19131994), autorida des militares, senadores e congressistas. A maioria jamais respondeu suas cartas, com exceção do con gressista Morris Udall (19221988), que telefonou a Ridenhour prometendo fazer tudo a seu alcance para o esclarecimento do massacre. O exército iniciou as investigações em 23 de abril de 1969 e, em setembro, poucos dias antes de seu desligamento do exérci to, acusou o tenente Calley pelo assassinato de 109 "seres humanos orientais", número reduzido depois para 102. Esse fato foi pouco divulgado pela impren sa (o New York Times, em 8 de setembro, destacouo apenas no final da página 38) e o assunto parecia encerrado, até o repórter free lance Seymour Hersh (1937) retomar a questão.

Em 22 de outubro de 1969, um conhecido de Hersh, o advogado Geoff Cowan, informou que o exército procurava submeter um sujeito à corte mar cial, em segredo, pela morte de aproximadamente 75 civis sulvietnamitas. Dois dias e 25 telefonemas depois, Hersh descobriu que o número de civis era 109. Conseguiu cerca de US$ 1 mil do Fundo de Jornalismo de Investigação, voou para Fort Benning e, em 11 de novembro, entrevistou o tenente Calley.

Nixon, em sua campanha para presidência dos EUA, afirmava que iria promover a paz no Vietnã, mesmo que, para isso, tivesse de aumentar a dimensão da guerra. Ele pretendia apoiar os sulvietmanitas a defender seu território e a negociar com os nortistas
As imagens que chocaram o mundo

Com a matéria pronta, Hersh teve dificuldades de publicála - as revistas Life e Look a rejeitaram. As sim, ele voltouse a uma agência fundada por David Obst poucos meses antes em Washington e ainda pouco conhecida, a Dispach News Service. Obst telefo nou para cerca de 50 jornais oferecendo a matéria por US$ 100, e 36 jornais a publicaram - a primeira pu blicação aconteceu no dia 13 de novembro.

No mesmo dia, o New York Times, que começara a trabalhar na matéria seis dias antes, divulgou sua versão dos fatos. Mesmo assim, o assunto parecia que não ia estourar na mídia. Então apareceram as fotos do massacre, tiradas pelo fotógrafo do exército Ro nald L. Haeberle, que estivera em My Lai com Calley. As imagens foram decisivas na matéria, e My Lai transformouse em um trauma para o exército dos Estados Unidos e para todo o país, que tanto justificara suas ações no Sudeste Asiáti co para salvar aquele povo, e não para destruílo.

A matéria chocou a opinião pública mundial. O massacre de My Lai foi levantado por Hersh, um jornalista dentro dos Estados Unidos, que pôde assim ter uma distância suficiente para se impres sionar com os fatos, ao contrário dos seus colegas correspondentes na região, que viam massacres constantemente, sem mais se impressionar com eles, pelo menos a ponto de relatálos.

Uma das consequências do episódio de My Lai foi que a imprensa norteamericana considerou a guerra do Vietnã praticamente acabada, pois nada mais poderia justificála e, contandose que os soldados norteamericanos estavam sendo retirados no processo de "vietnamização" (substituição das forças norteamericanas pelo treinamento e armamento das tropas sulvietnamitas), o conflito estaria logo encerrado e as preocupa ções deveriam ser desviadas para as conversa ções de Paris, onde o destino da guerra estava sendo decidido diplomaticamente. A quantidade de tempo e espaço dedicado a ela começou a declinar. Mas a guerra não diminuíra.


Soldado queimando cabanas no Vietnã. Estimase que, durante o massacre, mais de 500 mil vítimas vietnamitas tenham morrido e milhões ficaram feridas


O impacto de My Lai no Brasil

A cobertura da guerra pela imprensa brasileira foi influenciada pelas condições políticas de caráter excepcional que o País atravessava. Dominando a produção de imagens e palavras (quer pela censura ou por órgãos próprios de criação de propagandas), passando a sua visão dos acontecimentos e utilizan do todos os meios de violência possíveis, inclusive a prisão sem justificativas e a tortura, o regime militar (19641985) controlava a situação no País, impedin do qualquer possibilidade de os grupos guerrilheiros aumentarem o seu quadro ou conseguirem maiores propagandas.

Apenas os sequestros de embaixadores deram alguma notoriedade a esses movimentos, mas eram mais atos de desespero para salvar seus colegas da prisão (e da tortura) do que atos de iniciativa es tratégica. Para os grupos de esquerda, o definitivo estabelecimento do aparato repressivo foi outro fator decisivo para a sua derrota. Neste aspecto, os órgãos de repressão foram organizados para dar maior pra ticidade às operações antiguerrilha.

A revista Veja destacou muito a guerra do Vietnã nesses anos, pois era um dos poucos assuntos com os quais a censura exercia uma pressão menor. Cuba e China eram (praticamente) assuntos proibidos e não sobravam muitos espaços - o Vietnã foi uma opção que jornais e revistas aproveitaram. Mas foi a imprensa alternativa que mais utilizou esse recurso - ou em termos concretos, O Pasquim, pois nesse momento era o único veículo de comunicação relevante desse estilo.

Foi o jornalista Paulo Francis quem dedicou os maiores espaços para o tema do Vietnã. Um dos mais importantes artigos de Paulo Francis foi justamente sobre o massacre de My Lai. O texto, simplesmente com o título de "My Lai", mostrou que apesar desse genocídio específico ter sido colocado como um fato isolado e excepcional, os massacres na região eram rotineiros.

A presença norte-americana no Vietnã era, por si só, um massacre, argumentou Paulo Francis: várias regiões do Vietnã do Sul não poderiam ser cultivadas nos próximos 50 anos por causa da quantidade de herbicidas despejadas ali; Sai gon não passava de um bordel; 30% das forças norteamericanas funcionavam sob efeito de drogas.

O autor completa que o "genocídio é indiscutível", e que My Lai é o "dia a dia" no Vietnã. Não que os comunistas fossem menos violentos, mas lutavam pela liberdade de seu país. Paulo Francis não se posicionou como pacifista, mas reconheceu que Hanói e o Vietnã do Norte tinham popularidade, e que só com o apoio da população, principalmente dos camponeses, a guerrilha poderia ter chegado onde chegou.


Imagem registrada pelo fotógrafo do exército americano Ronald L. Haeberle, em 16 de março de 1968, após um embate em My Lai, mostra uma criança e uma mulher mortas na estrada
A liberdade nos Estados Unidos foi valorizada pelo articulista, pois os grupos pacifistas podiam exercer pressão para as investigações sobre o massacre. Naturalmente, o Pentágono ou a Casa Branca não aceitavam tal liberdade tranquilamente - o primeiro omitiu até quando pôde o massacre, e o segundo agiu sob pressões para que não ocorressem modificações nas perspectivas oficiais.

Outro fator considerado por Paulo Francis para a ocorrência do ataque em My Lai foi a própria tática de guerra aplicada pelos Estados Unidos, ou seja, a tática de "search and destroy", ("busca e destruição", em português) que consistia em atirar em qualquer um em área suspeita de presença do Vietcongue - e My Lai foi uma das vítimas inocentes dessa tática.

A deturpação dos fatos pela imprensa norte-americana

Enfim, o massacre de My Lai pode não ter tido uma grande repercussão nos resultados da guerra, pois a "maioria silenciosa" ignorou tais fatos e a minoria que contestava a guerra era detestada por essa maioria. Os mass media (grandes veículos de comunicação) não entravam no assunto da guerra baseados em especialistas, mas em jornalistas engajados com o executivo, sendo que qualquer coisa antes de My Lai era apresentada como mera excepcionalidade.


William Calley, tenente do Exército dos Estados Unidos, foi indiciado pelo assassinato de civis vietnamitas e estupro de dezenas de mulheres. A pedido do presidente Nixon, foi solto e, com diversos habeascorpus, acabou cumprindo três anos e meio de prisão na base de Fort Benning, Georgia
No artigo de Paulo Francis, a guerra do Vietnã quase foi completamente esmiuçada. Os pontos que marcaram a guerra foram discutidos em profundidade, apresentando uma visão difícil de ser exposta em 1969, pois a grande imprensa brasileira f F otogrRafFia ofFicial da casa brRanca CIciÊNCIAncia Ee VIDAvida estava sofrendo pressões da censura. Muitas das ideias contidas no texto de Francis já estavam sendo discutidas em outros meios e em outros países, não sendo sua temática, portanto, inédita. O artigo atualizou esses debates como nenhum outro meio o fez no Brasil. E o próprio jornal iria denunciar a omissão dos outros meios de comunicação.

O "repórter fantasma" Pedro Ferreti (que não existia, sendo um nome fictício que poderia ser utilizado por qualquer membro do O Pasquim, tanto para fugir da censura quanto de eventuais prisões mandadas pelos militares), na edição 25 do jornal, também criticou o massacre de My Lai, afirmando que a imprensa norteamericana tratava o caso de forma a colocálo como um ponto a favor da democracia dos Estados Unidos.

Outra denúncia importante de Pedro Ferreti foi quanto à chacina cometida por Charles Manson (1934) e sua "família" (uma comunidade no estilo hippie, liderada por Manson) contra o casal La Bianca e da atriz Sharon Tate, esposa do diretor de cinema polonês Roman Polanski (1933). A imprensa norte-americana aproveitou-se desse crime, denunciando as práticas de grupos de jovens, que tanto criticavam a sociedade norte-americana. Charles Manson e seus adeptos cometeram tal chacina baseandose nas leituras de Manson da Bíblia com a música do Álbum Branco dos Beatles, grupo de rock inglês mais adorado pela juventude daquela época, o que demonstrava o perigo das contestações comandadas por jovens, de acordo com a grande imprensa norteamericana.


Os crimes cometidos por Charles Manson foram usados pela imprensa norteamericana para desviar a atenção das atrocidades que eram cometidas no Vietnã
Pedro Ferreti não enxergava as coisas nesse sentido, denunciando que a chacina feita pela comunidade de Manson estava sendo usada para que a sociedade norteamericana esquecesse o massacre de My Lai, que, de uma maneira ou de outra, foi feito pelo "sistema". Charles Manson, ou a cultura "antissistema" que o produziu, estaria sendo valorizado demais, não pelo que fez, mas para culpar a rebeldia da juventude.

O massacre cometido pela "família" Manson, assim como o trágico Festival de Altamont (que aconteceu em 6 de dezembro de 1969 e resultou em violência e quatro mortes), foram golpes consideráveis para quem confiava na juventude norteamericana e no Rock'n'Roll como elementos de mudança social. A grande imprensa norteamericana utilizouse muito bem desses fatos: a opinião pública dos Estados Unidos condenou o comportamento de Manson e os incidentes de Altamont (e, consequentemente, da juventude rebelde), enquanto transformou o tenente Calley em herói, assunto que o próprio O Pasquim tratou muitas vezes.

Orivaldo Leme Biagi é doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da FAAT (Faculdades Atibaia).

Revista Leituras da Historia

Festas Juninas: Rituais Pagãos

Ney Vilela

A PREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA, DE FRANCESCO UBERTINI BACCHIACCA II MUSEUM OF FINE ARTS, BUDAPEST

Em total desencontro de ideários, as festas juninas dedicadas a São João - no centro da pintura de Francesco Ubertini Bacchiacca II (1494-1557) - são pagãs e não cristãs, uma vez que celebram os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo

Milênios antes do cristianismo, nossos ancestrais já reconheciam que a natureza possui ritmos e ciclos inevitáveis de nascimento e morte. Os primeiros pensadores, ao se preocupar em tentar compreender o mundo, sentiam que existia uma sabedoria cósmica, anterior à própria existência dos homens e que era totalmente independente das decisões tomadas pela humanidade.

Os velhos homens sábios recomendavam que nós devêssemos procurar a integração com a ordem universal do cosmos. Precisaríamos aceitar a organização cósmica (o logos), reverenciando-a carinhosamente.

Há dois momentos no calendário solar em que os ritmos universais são marcantes: os solstícios de verão e de inverno. Desde tempos imemoriais, os homens festejam essas datas com monumentos impressionantes (como o de Stonehenge) ou com festas deliciosas e sensuais.

Festas de solstício

No hemisfério norte, na época em que o cristianismo se consolidava, o solstício de inverno ocorria em 25 de dezembro e o solstício de verão acontecia em 24 de junho. O dia 25 de dezembro, contradizendo o pleno frio e o fato de que se vive a noite mais longa do ano, marca o renascimento: a partir daquela data, o Sol - vagarosa e inexoravelmente - ampliaria o seu percurso diário, vencendo as trevas. O dia 24 de junho, que era o dia mais longo do ano, expressa o auge do convívio, da fertilidade e da alegria; é o momento de se alimentar com guloseimas e de se purificar saltando sobre uma fogueira em que se atiram substâncias com efeitos sobrenaturais. As festas de solstício, consagradas pela sabedoria pagã e pela filosofia grega, marcam a comunhão com a ordem universal, externa ao domínio humano. Os gregos festejavam os solstícios com bebedeiras homéricas e orgias dionisíacas.

São João (que é festejado no Brasil com fogueiras, quadrilhas, comida, bebida, danças, jogos e adivinhações) provavelmente rejeitaria o estilo dos festejos criados para homenageá-lo. As festas juninas (que têm no dia de São João o seu ponto alto) são dionisíacas, celebrando o mistério da renovação da natureza. Em dia de São João, os convivas não se preocupam com os dogmas do catolicismo, mas em reverenciar os ciclos existenciais dirigidos por uma ordem universal, anteriores ao cristianismo e à própria existência da espécie humana.

São João e o logos

São João era primo de Jesus e morreu degolado na Palestina. Em seu apostolado, decretou que o logos encarnou em um Homem-Deus, que se fez crucificar e ressuscitar para salvar a humanidade. Para São João, a imortalidade não é algo anônimo e universal: só podem ascender ao paraíso aqueles que fazem a opção, individual e consciente, que assumem certos comportamentos e que obedecem a determinadas prescrições. O logos, no evangelho segundo São João, deixou de ser usufruído de maneira universal e inexorável; nem todos irão se salvar, permanecendo integrados ao cosmos, à vida eterna. São João construiu barreiras, distanciando do paraíso aqueles que não seguem as prescrições do Verbo que se fez carne.

Cristianismo e paganismo


Rituais como beber, comer, pular fogueiras, dançar quadrilhas, são herdados pela sabedoria pagã e pela Filosofia grega. Ainda que haja as procissões e algumas manifestações cristãs, os rituais dionisíacos, típicos da cultura pagã, predominam no imaginário social
Por que o cristianismo (que se afasta tanto da ideologia pagã) se apropriou das datas reverenciais mais importantes do paganismo? Há dois motivos que, no decorrer da Idade Média, tornaram-se evidentes: facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Assim se construiu a tríade maior das festas da cristandade: a Páscoa, que ocorre no primeiro domingo de Lua cheia após o equinócio de primavera; o nascimento de Jesus de Nazaré, convencionado para o solstício de inverno, 25 de dezembro; São João, coroando as festas juninas, em 24 de junho.

No que concerne à Páscoa, a Igreja atingiu seus objetivos: os sensuais rituais celtas e germânicos do equinócio foram substituídos pelo jejum, penitência, retiro e contemplação religiosa da quaresma. Mesmo que se afirme que as penitências tenham encolhido nos tempos atuais e que pouco resta além da atitude de abstinência em relação à carne vermelha (na Sexta Feira da Paixão), o espírito da quaresma norteia, ainda hoje, o comportamento de centenas de milhões de pessoas.

O Natal está escapando ao domínio ideológico da Igreja: os atos de consumismo, os presentes caros, as mesas fartas obscurecem, em muitos lares, o mistério do nascimento de Deus-homem. Até a ideia de confraternização migrou para a semana seguinte, em que se comemora o início do ano, de acordo com o calendário do Papa Gregório, o grande.

Mas não há como negar que a força dos rituais de alimentação, o arrasta-pé sensual, o "quentão", a vontade de adivinhar quem vai casar e o calor da fogueira indicam que, na batalha ideológica das festas de junho, a vitória é do sensualismo pagão. Santo Antonio tornou-se o legitimador de conjunções carnais; as procissões foram substituídas por quadrilhas; a roupa de caipira substituiu o traje litúrgico; heróis ibéricos, cavalhadas e os rojões que simbolizam as armas dos cavaleiros medievais ocupam os lugares que eram dos santos, dos martírios e da cruz.

No confronto do solstício do meio do ano, a Igreja perdeu para o paganismo. As festas juninas são rituais pagãos.

NEY VILELA é mestre em Comunicação Midiática e coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

Revista Leituras da História

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

31. ago. 1939 - A Europa antes da guerra


31. ago. 1939 - A Europa antes da guerra
por Carla Aranha
O mundo ainda fazia pouco de Adolf Hitler. Ele havia anexado a Áustria e invadido a Tchecoslováquia, com promessas de não seguir adiante. Todos pareciam acreditar. O primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, se encontra algumas vezes com Hitler, confiante de que não haveria uma guerra na Europa. Seu colega francês, Edouard Daladier, concorda com ele. O fato de o Japão ter invadido a Manchúria, na China, e de Mussolini ter feito o mesmo com a Albânia e a Somália também não impressiona os líderes europeus. Enquanto eles cochilavam, a Alemanha se movimentava: firmava um pacto de não-agressão com a União Soviética, que cairia por terra três anos depois, e costurava alianças com a Itália fascista e o Japão, sedento por novas terras. No dia 1º de setembro de 1939, Hitler invade a Polônia e começa o maior conflito armado de todos os tempos, que iria matar nada menos que 17 milhões de civis. Inglaterra, França, Austrália e Nova Zelândia declaram guerra à Alemanha em 3 de setembro. Dois dias depois, os Estados Unidos declaram sua neutralidade. O teatro de guerra é totalmente favorável à Alemanha e seria assim pelos próximos três anos.

Neville Chamberlain foi primeiro-ministro britânico de 1937 a 1940. Sua estratégia de dialogar com Hitler e manter a neutralidade da Grã-Bretanha quanto à anexação da Áustria e dominação da Polônia levou à sua exoneração do cargo em maio de 1940, quando seria substituído por Winston Churchill.

Herói da I Guerra Mundial, o austríaco adolf hitler, nascido a 20 de abril de 1889, se tornou chanceler da Alemanha em janeiro de 1933 e imediatamente assumiu poderes ditatoriais. Declarou ilegais todos os partidos políticos, com exceção do Partido Nazista. Em 1937, revela em uma conferência seus planos imperialistas e assume o comando das forças armadas.

A linha maginot, era uma barreira de concreto e ferro de 3 metros de espessura ao longo da fronteira da França com a Alemanha. Possuia casernas, baterias anti-tanques e armamentos. Pensada para uma batalha de trincheiras, se revelaria ineficaz frente às estratégias da Segunda Guerra.

Edouard Daladier fora eleito primeiro-ministro da França em abril de 1938, aos 54 anos. Assinou, junto com Chamberlain, o pacto de Munique de paz com os alemães. Seria destituído do cargo em março de 1940. Após a ocupação da França, tentou fugir para o Marrocos, onde planejava juntar-se a um governo paralelo. Daladier foi preso e entregue aos alemães pelo governo de Vichy em 1942. Só seria libertado em maio de 1945, de um campo de concentração, por soldados americanos.

Benito Mussolini cria o Partido Fascista em 1921. No ano seguinte, o rei da Itália, Vittorio Emanuelle III, o conduz ao governo. Mussolini anuncia seu projeto de expansão territorial. Até 1940, fica neutro na guerra entre Alemanha, França e Inglaterra.

A primeira blitzkrieg (guerra-relâmpago) marca a invasão da Polônia. Hitler ataca de surpresa, usando bombas de alto poder de destruição nas cidades e no front, seguidas por ataques velozes de divisões, que nada lembravam as guerras de trincheiras e ascargas de cavalaria do passado. O assalto final a Varsóvia, capital da Polônia, surpreende o mundo com o bombardeio de 1200 aviões alemães sobre os civis.

No dia seguinte, 1º de setembro, uma sexta-feira, a Alemanha invadiria a Polônia, praticamente sem encontrar resistência. Quatro divisões alemãs atacariam o país pelo norte, centro e sul da fronteira. Em 3 de setembro, Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha marcando o começo da II Guerra Mundial. Dez meses antes, a Alemanha já havia invadido os sudetos da Tchecolosváquia, uma região do país, na Boêmia, habitada por alemães. Em março, toda a Tchecolosváquia e a Áustria estavam anexadas à Alemanha. Os aliados, seus futuros inimigos, não se manifestaram diante de tais desafios à soberania dessas nações.

A itália havia invadido, três meses antes, a pequena Albânia. A Etiópia, onde havia uma forte resistência guerrilheira, estava ocupada pelos italianos há três anos. No ano seguinte, o expansionismo italiano se meteria em uma nova aventura, invadindo o Egito, a Somália e a Grécia. Despreparado, o exército italiano pedia socorro aos alemães.

Joseph Stálin foi indicado por Lenin para ser secretário-geral do Partido Comunista em 1922. Após a morte de Lenin, em 1924, torna-se líder máximo da União Soviética. Preocupado com uma invasão pela Alemanha, propôs a Chamberlain um pacto de união, que foi negado. A União Soviética entraria para a guerra em 1941 e sofreria as mais pesadas baixas entre os aliados. Mas suas tropas foram as primeiras a tomar Berlim, capital alemã.

Imperador do Japão desde 1926, hiroito relutou em apoiar a invasão pelo seu exército da Manchúria, na China, mas estava de acordo com o ataque a Pearl Harbor. Após os revezes que o Japão sofreria em 1944, pediria o fim da guerra ao seu gabinete, sem sucesso. Na capitulação final, Hiroito chocou os japoneses ao afirmar que não era um deus e que a família real só deveria existir se o povo assim o desejasse.

O Japão consolidava seu domínio sobre os principais portos chineses, de Xangai às Ilhas Hainan, que havia invadido dois anos antes. A ocupação da vasta Manchúria, no nordeste da China, vinha sendo mantida desde 1931. As tropas japonesas iniciariam a segunda fase do seu expansionismo em 1941.

Revista Aventuras na História

Mitológicos reis da África


Mitológicos reis da África
Pequeno perfil e história dos mitológicos reis da África.

Na Europa, eles são chamados "reis negros" da África, numa entonação que está mais para o deboche do que para a admiração. São os chefes das tribos que habitavam o continente quando os europeus iniciaram a colonização daqueles territórios. Hoje, as colônias tornaram-se países independentes, governados, quase todos, à maneira européia. Mas as tribos continuaram a existir, dentro desses Estados, cultivando suas tradições, seus hábitos, dialetos — e sobre essas questões os antigos reis ainda dão a última palavra. Seus antepassados, poderosos guerreiros, inquietaram os colonizadores europeus; hoje, eles ainda são capazes de inquietar os governantes a que estão submetidos

O mant Yav, imperador dos lundás (Zâmbia), jamais se separa de seu bracelete sagrado, símbolo de sua autoridade. Pesa 4 quilos e é feito de tendões humanos trançados como corda. Na Costa do Marfim, o governo pediu emprestadas as relíquias do rei de Agnis, para uma exposição em Paris, e esqueceu de devolvê-las. Uma maneira astuciosa de confiscar-lhe o poder. A força dos antepassados está, quase sempre, representada num objeto sagrado. Em Burundi, é um tambor; na região dos akans um tamborete; na terra dos bayékés, no Zaire, uma concha tornada sagrada pelos sacrifícios humanos feitos no passado.

As pesquisas mais autorizadas indicam que foi na África que surgiu o homem. Historiadores modernos situam o início da história africana entre o sétimo e o sexto milênio antes de Cristo. Tempo mais do que suficiente para a formação de dinastias cheias de tradições. Mas, em 1885, uma conferência realizada em Berlim, na Alemanha, decidiu a partilha do território africano entre a França, a Alemanha, a Bélgica e a Inglaterra, que intensificaram a colonização. Séculos de tradições foram destruídos em poucos anos, enquanto os exércitos daqueles países se empenhavam numa ambiciosa luta de conquista.

Duas gerações foram suficientes para a administração colonial enquadrar os reis, que perderam seus poderes de vida e morte sobre os respectivos súditos. O código penal sobrepujou o direito consuetudinário (apoiado nos costumes), mas não o eliminou de todo. Afinal, não é tão simples apagar séculos, em alguns casos milênios, de tradições. Por isso os reis negros continuam lá, liderando seus povos, conservando muito da bizarra pampa de sua realeza, ainda que seu poder efetivo em geral não vá além de decidir querelas sobre bruxarias.

Revista Superinteressante

Um mistério chamado Atlântida


Um mistério chamado Atlântida
Uma ilha fantástica que desapareceu sob as águas do oceano ou uma das muitas lendas

Por Ivonete D. Lucirio


Uma ilha fantástica que desapareceu sob as águas do oceano ou uma das muitas lendas contadas através dos tempos. Várias são as opiniões sobre a existência ou não da Atlântida, e mesmo os que nela acreditam divergem quanto a sua localização e o modo como desapareceu. A primeira referência sobre a Atlântida aparece em dois célebres diálogos de Platão, filósofo ateniense que viveu no século IV a. C. No primeiro deles, Timeu, Crítias, um dos personagens de Platão, conta a história de um povo que habitava além das Colunas de Hércules — que hoje é o Estreito de Gibraltar — e cujos “reis haviam formado um império tão grande e maravilhoso". No outro diálogo, chamado Crítias, ou A Atlântida, Platão, sempre pela boca de Crítias, fornece maiores detalhes sobre aquela sociedade. Conta que, quando os deuses dividiram as terras do planeta entre si, Poseidon (o deus dos mares) ficou com a Ilha de Atlântida. Em uma montanha no centro da ilha vivia Cleitó, uma jovem mortal por quem o deus se apaixonou. Para proteger sua amada, ele isolou a montanha, rodeando-a com água e terra, fossos e muros, alternadamente.Da união de Poseidon e Cleitó nasceram dez filhos homens, em cinco pares de gêmeos. Poseidon dividiu então a ilha em dez partes, uma para cada um dos filhos. O mais velho recebeu o nome de Atlas, que em grego significa suporte e que passou a designar a ilha intei-ra. O trono era herdado pelo filho mais velho de cada um dos reis, e o poder se conservou assim durante séculos. A ilha, segundo Platão, era maior que a Líbia e a Ásia juntas, pelo menos do que se conhecia desses territórios na época. Muito rica dispunha de grande quantidade de oricalco, uma espécie de liga de metal muito valiosa.Lá viviam muitos animais domésticos e selvagens, incluindo elefantes, e a terra proporcionava grande quantidade de frutos. Os reis tinham todo o poder sobre seu reino e faziam a maioria das leis, podendo castigar e condenar à morte quem quisessem. Contudo, o poder de um rei sobre outro era ditado pelos decretos de Poseidon. Uma inscrição gravada pelos primeiros reis sobre uma coluna de oricalco que se encontrava no templo em honra a Poseidon, no centro da ilha. ordenava que eles se reunissem periodicamente a cada cinco ou seis anos, quando acontecia um julgamento mútuo.A cerimônia se iniciava com ritos táureos. Os reis ficavam sozinhos no recinto sagrado de Poseidon, onde eram soltos vários touros. Eles tinham de capturar e degolar os animais, após o que se aspergiam com seu sangue. Jogavam parte dele no fogo, enquanto juravam respeitar as leis sagradas. Ao anoitecer, vestidos com belas túnicas, sentavam-se para serem julgados uns pelos outros.Esses reis permaneceram durante muitas gerações ligados às leis divinas e, como conta Crítias, mantinham seu senso de justiça. Mas, com o decorrer do tempo, abandonaram o principio divino e passaram a ser dominados por humanos, tornando-se ávidos de poder. Foi então que começou a decadência. Zeus, o deus do Olimpo, decidiu tomar providências e promoveu uma reunião com todos os deuses. Nesse ponto, Platão interrompe a narrativa.Entretanto, retomando oTimeu, é possível saber como Platão imaginou o fim da ilha: "Durante um dia e uma noite horríveis, todo seu exército foi tragado de um golpe pela Terra, e ainda a Ilha de Atlântida afundou no mar e desapareceu". Junito de Souza Brandão, um dos maiores especialistas brasileiros em mitologia, que estuda há quarenta anos, e autor do livro Mitologia grega não acredita na existência da Atlântida. Para ele, o interesse pela história de Platão atravessa milênios porque é inerente ao ser humano buscar um modelo de paraíso e "a Atlântida realmente existe submersa dentro de cada um que a busca".Para afirmar sua tese, Brandão, aponta o recurso usado por Platão de localizar a história em um tempo bastante remoto. Na obra Timeu, Crítias conta que tomara conhecimento da Atlântida por seu avô, que por sua vez a tinha ouvido de seu bisavô, que ouvira o tal relato do governador ateniense Sólon (630 a 560 a.C.). Sólon ficou sabendo da existência da Atlântida em uma de suas viagens ao Egito.Nessa ocasião, alguns sacerdotes Ihe contaram que possuíam escritos nar-rando como Atenas havia conseguido vencer o povo atlante quando esse tentou subjugar a cidade. O fato teria ocorrido por volta de 9 000 anos antes de Sólon, ou seja, em cerca de 10000 a.C. A origem da Atlântida, assim, perde-se no tempo. As primeiras culturas urbanas cuja existência pode ser comprovada através de restos arqueológicos começaram a se desenvolver na Mesopotâmia por volta de 2800 a.C.Várias são as hipóteses que buscam explicar a real localização da Atlântida, e muitas delas a colocam na região do Mediterrâneo. Deve-se levar em conta que os mitos gregos—de onde vêm as lendas atlânticas-foram criados por pessoas vivendo em territórios que mantinham contato muito estreito com a Creta minóica, autêntica superpotên-cia política e econômica da Antiguidade. Localizada no Mar Mediterrâneo, Creta era uma ilha muito rica e muito sofisticada, a ponto de lá existirem palácios de vários pisos. Também vale mencionar que os cretenses celebravam festas táureas (SUPERINTERESSANTE número 6, ano 4). Como se pode ver, são várias as analogias entre Creta e a Atlântida.Mas há ainda outros fatos que também são relacionados com a ilha fantástica. Trata-se da enorme explosão do vulcão da Ilha de Thera, no Mar Egeu, ocorrida provavelmente no século XVI a.C. Tudo o que restou do vulcão e sua cratera foi um círculo de ilhas que os italianos chamam de Santorini e os gregos, de Thera. Em 1967, o arqueólogo grego Spyridon Marinatos descobriu os restos de uma cidade cretense da Idade do Bronze em uma dessas ilhas.A população provavelmente abandonou a ilha quando os primeiros tremores de terra anunciaram a erupção, e essa fuga teria dado origem à lenda da Atlântida. A hipótese da erupção do vulcão é reforçada pela leitura de textos bíblicos. Para alguns pesquisadores, muitos dos fenômenos que a Bíblia narra, como o escurecimento do céu sobre o Egito e a separação das águas do Mar Vermelho, foram conseqüência da explosão em Santorini.Ainda dentro da linha de pesquisas que situa a Atlântida na região do Mediterrâneo, existe outra hipótese para localizar o reino perdido. Ele poderia estar situado na pequena Ilha de Pharos, em frente ao delta do Nilo, que na Idade do Bronze possuía um grande porto. Pharos estava na área de influência política e econômica dos cretenses seu porto era dotado de uma bacia interior e outra exterior. Hoje, essas impressionantes construções portuárias estão submersas nas águas, talvez devido a um terremoto submarino.Por outro lado, o gigante Atlas dos mitos anteriores a Platão habitava na cadeia montanhosa que se encontra no Norte da África, que recebe precisamente seu nome. A esse fato deve acrescentar-se a descrição final de Platão no Timeu, quando a Atlântida já tinha sucumbido sob a fúria dos deuses: nessa zona marítima havia sérias dificuldades para a navegação devido à "quantidade de limbo que a ilha depositou ao submergir". Ainda hoje existem perigosos arrecifes na costa do Norte da Africa. Eles indicam que antigamente ali havia uma cadeia de ilhas, das quais restaram Djerba e Kerkenna.A história de Platão, entretanto, situa a Atlântida além das Colunas de Hércules, no Oceano Atlântico. Portanto, é para essa região que converge grande parte dos pesquisadores que buscam a ilha submersa. No mundo antigo existia a crença de que o Ocidente Distante era um lugar cheio de mistérios, pois as terras conhecidas se encontravam no Oriente. Mais além das Colunas de Hércules nascia a dúvida.Essas colunas têm sido identificadas freqüentemente com a civilização de Tartessos, destruída por volta de 500 a.C., e que provavelmente se situava numa região nas proximidades da cidade de Cádiz, no sul da Espanha. Curiosamente, Platão menciona essa cidade em seu relato—chama-a Gadiros—, servindo como ponto de referência para assinalar um dos extremos da Atlântida. Para muitos, há coincidências suficientes entre a civilização de Tartessos e a descrição de Platão para identificá-la como sendo a Atlântida. Se aceita, essa suposição seria então um ponto intermediário entre a hipótese mediterrânea e a do Oceano Atlântico.No fundo daquele oceano se estende uma larga cordilheira, cujos picos mais altos aparecem na sul superfície, desde a Islandia, no extremo norte do oceano, até Cabo Verde no Atlântico central inclinando-se nesse ponto para sudeste até as ilhas de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, no Atlântico sul. Segundo a hipótese que situa a Atlântida nessas latitudes, essas ilhas seriam o último vestígio de sua existência.A teoria adquire certa credibilidade quando se centra a atenção no arquipélago das Ilhas Canárias. Localizado a 108 quilômetros da costa noroeste da África, ali os arqueólogos têm encontrado restos de antiqüissimas tumbas gigantes. Uma das hipóteses que permeia a teoria da Atlântida é que seus habitantes seriam muito altos.Porém, pesquisas antropológicas revelam que os antigos habitantes das Canárias vinham das costas africanas e teriam trazido consigo uma cultura rudimentar do Período Neolítico (por volta de 5000 a.C). Outro dado revelador é que, à exceção das Canárias e dos demais picos mencionados, toda a Cordilheira Atlântica tem estado submersa por pelo menos 60 milhões de anos. A história do homem, como grupo específico, desligado das diferentes raças de hominídeos, abrange meros 600 000 anos.O patamar submerso de Dogger Bank, no Mar do Norte, seria outra das possíveis coordenadas. Em outros tempos, ele não esteve coberto pelas águas e, mais importante, era habitado. Porém, os restos de ossos e utensílios recolhidos mostram que o desastre que ocasionou seu afundamento aconteceu no Paleolítico, há aproximadamente 500 000 anos. Os sobreviventes, dotados de uma tecnologia extremamente rudimentar, dificilmente poderiam navegar à deriva por uma grande extensão de água e chegar às costas européias e egípcias, levando consigo a recordação da catástrofe.Em meio às diversas hipóteses que localizam o continente perdido no Oceano Atlântico, contudo, uma pelo menos é bastante singular. Trata-se da que identifica a Atlântida como sendo a América do Sul. Quem defende essa tese é o físico Enrico Mattievich, um peruano de 52 anos, que vive há vinte no Brasil. Suas pesquisas sobre a Atlântida começara n em 1981, quando, já um físico respeitado em seu país, visitou as ruínas arqueológicas no Palácio de Chavin de Huantar, no Peru.Numa das partes do palácio, um verdadeiro labirinto, encontra-se a figura da Medusa (personagem da mitologia grega que tinha os cabelos em forma de serpentes, e cuja cabeça foi cortada pelo herói Perseu) gravada em pedra. Esse detalhe inspirou os primeiros pensamentos de Mattievich sobre uma possível ligação entre a América do Sul e a Grécia, mais especificamente Creta.Além disso, segundo o físico, alguns objetos encontrados no Palácio de Chavin eram feitos de uma liga de ouro e prata, que ao receber uma parte de cobre tornava-se avermelhada. Esse metal, que os incas, habitantes dessa região hoje pertencente ao Chile, chamavam de coriculque, é semelhante ao oricalco. Platão, ao referir-se a ele, dizia que tinha reflexos de fogo. Por essa razão, para Mattievich, "não faltam evidências de que os gregos alcançaram o continente americano e por centenas de anos devem ter explorado a região, rica em ouro".Como essas viagens devem ter ocorrido entre 1500 e 1200 anos antes de Platão nascer, Mattievich supõe que o filósofo tenha se enganado quando localizou a existência do continente atlântico por volta de 10000 a.C. O físico acredita que Platão tenha aproveitado o cenário, no caso a Atlântico/América, para nele desenvolver o seu modelo de sociedade ideal. Para ele o que Platão chamava de submersão do continente nada mais era que a deturpação da história, causada pelo tempo, da explosão do vulcão na Ilha de Thera.Nessa catástrofe, o que restava da frota marítima de Creta acabou e com ela o império colonialista dos micenos, que então habitavam aquela parte do mundo. O contato com a América foi interrompido como se 0 continente tivesse sido simplesmente tragado pelas águas. Mattievich, que também estuda Física aplicada a Arqueologia, afirma ser possível testar cientificamente sua teoria, lembrando que testes de rádio-carbano, por exemplo, poderiam determinar a idade de fortalezas incas para saber se as épocas coincidem.Essa teoria, como as demais, possui sua carga de verossimilhança. Porém, nenhuma delas pôde ser totalmente comprovada ante a absoluta carência de restos arqueológicos que possam ser identificados, com certeza, como sendo da Atlântida. Talvez o mistério maior não esteja em saber se ela existiu ou não, ou onde se localizava, mas por que, há tanto tempo, os homens continuam à sua procura.

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Cleópatra: a rainha dos reis


Cleópatra: a rainha dos reis
Para reviver a glória dos faraós do Egito, Cleópatra seduziu os dois mais poderosos chefes romanos de seu tempo. Um terceiro a derrotou.
Para reviver a glória dos faraós do Egito, ela seduziu os dois mais poderosos chefes romanos de seu tempo. Um terceiro a derrotou.


Ano 51 a.C. Cleópatra, aos 18 anos, torna-se rainha do Egito com a morte de seu pai Ptolomeu XII. É provável que os oráculos profetizassem que a jovem ambiciosa, meio grega, meio macedônica, estava destinada a interferir nos meandros da História. Mas tudo que Cleópatra queria era manter-se no poder. O Egito, celeiro do mundo ocidental e uma das nações mais ricas do Mediterrâneo, representava um troféu muito cobiçado pelos inquietos romanos; afinal, uma centena de anos antes eles haviam começado sua expansão para o Oriente. Mais de uma vez falara-se em anexação e o próprio pai de Cleópatra só conseguiu manter-se no trono distribuindo subornos. Assim, a rainha ainda adolescente sabia muito bem que o caminho para a permanência no poder passava por Roma — e seus governantes. Tornou-se amante e aliada de Júlio César (100-44 a.C.), o primeiro ditador romano. Mais tarde, conquistou as atenções de seu sucessor, Marco Antônio (82 ou 81-30 a.C.).

A história desses romances, misto de desejo e jogo de interesses, repercutiria intensamente na política romana, que passava por um período crucial. A República, implantada em 509 a.C., agonizava em meio à guerra civil. Os generais mais ricos, que podiam pagar seus exércitos, procuravam obter o poder para si. "Nesse tabuleiro de xadrez Cleópatra manobra com habilidade", avalia o professor de História Antiga Ciro Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense. "Num mundo em que os negócios do Estado estavam nas mãos dos homens, ela usou a sedução para vencer como estadista." A personagem Cleópatra, na maioria dos livros de História, encarna como nenhuma outra mulher da Antigüidade o papel de irresistível sedutora. "Mas esta é uma visão deformada", critica Flamarion Cardoso, que se diz um admirador da figura histórica da rainha. "Cleópatra foi uma administradora competente, uma mulher culta, que além do mais devia ter consideráveis dotes eróticos. Apostou na sua estratégia e perdeu. E a História não costuma ter complacência com os vencidos."

Surpreendentemente, apenas há poucas décadas, passou-se a pesquisar com outro enfoque a vida da rainha do Egito. Até então, baseados no que diziam seus inimigos, que por sinal não eram poucos, os textos clássicos a descreveram de maneira extremamente pejorativa— mulher venal, amante de orgias, que conseguiu, com seus ardís, enfeitiçar dois generais romanos. Além das lendas, são poucos os registros históricos dignos desse nome sobre Cleópatra. Para evocar a sua aparência existem algumas efígies em moedas e um busto no Museu Britânico, em Londres. Não se sabe, portanto, se a moça tinha os olhos claros e cabelos loiros dos macedônios, ou a tez morena dos gregos. Parecia ter olhos grandes, boca pequena e bem desenhada. "Se o seu nariz tivesse sido mais curto, toda a face da Terra teria mudado", disse o matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), pioneiro da Teoria da Probabilidade. O nariz era aquilino . O fato é que a beleza não constituía o seu maior atributo. Plutarco, o historiador romano que viveu um século depois, explicava de outro modo o fascínio que ela exercia: "A presença de Cleópatra era irresistível e havia tal encanto em sua pessoa e no seu modo de falar, misturado com uma força singular que permeava cada palavra e cada gesto, que a todos ela subjugava."

Cleópatra pertencia à dinastia de Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), cujo império se estendia do Egito até a Índia. "Alexandre, de origem macedônica absorveu a cultura oriental e se comportou como um monarca divino", classifica o professor de História Antiga Ricardo Mário Gonçalves, da Universidade de São Paulo. "Os sucessores imitaram o seu exemplo." Depois da morte do imperador, suas terras foram divididas, cabendo a Ptolomeu o Egito. Para consolidar seu poder, o general se fez sagrar faraó, retomando as tradições das linhagens que comandaram o país durante três milênios, sob cuja autoridade se desenvolveu uma peculiar civilização de que as pirâmides são o signo mais conhecido. Cleópatra VII Thea Philopator (deusa que ama o pai, em grego) era o seu nome todo. Herdeira da dinastia ptolomaica, gostava de vestir-se como Ísis, a deusa-mãe, de quem se dizia a reencarnação.

Nascida em 69 a.C., na rica Alexandria cujo porto era o mais importante da época, nada mais natural que Cleópatra se sentisse uma deusa. Dos jardins do seu palácio, ela podia ver algumas das maravilhas legadas ao mundo por seus antepassados: a mais famosa biblioteca da Antigüidade, com mais de 700 mil volumes, e um museu freqüentado por sábios do Mediterrâneo. Os Ptolomeu eram patronos das artes e muito do que se conhece hoje de filosofia e ciência gregas foi conservado em Alexandria, a capital do Egito. Do palácio também se avistava a féerica agitação do porto, os monumentos e o magnífico farol, construído por Ptolomeu II, uma das Sete Maravilhas do Mundo. Como regente do Egito, Cleópatra controlava, com a ajuda de administradores gregos, não só a vida da cidade mas a agricultura ao longo do Nilo, de onde provinha a fabulosa riqueza de seu país. Dispondo de poder absoluto, tinha objetivos definidos para o seu reinado, além de obstinação suficiente para dedicar a vida à realização de suas ambições: garantir a riqueza e a independência do Egito e restaurar a glória dos faraós.

Cercada de uma corte corrupta, Cleópatra não tinha escrúpulos. Mandou matar quatro dos cinco irmãos (dois homens e três mulheres) que podiam atrapalhar-lhe os planos. Era porém uma mulher culta. Nas negociações comerciais e nos encontros diplomáticos dispensava intérpretes, sendo a única rainha macedônica a falar o egípcio — além de nove outras línguas. Durante o seu reinado, patrocinou as artes e as ciências e teria, segundo alguns historiadores, escrito duas obras: um improvável tratado sobre pesos e medidas e outro, mais compatível com sua figura no imaginário popular, sobre penteados e cosméticos. Para conquistar a confiança do povo, subiu o Nilo até Tebas, onde presidiu uma cerimônia de culto ao touro sagrado, manifestação do deus Ra. Nos 21 anos em que governou o Egito, evitou que a massa se rebelasse, o que contraria a afirmação de que era odiada por sua crueldade.

Em compensação, logo que se tornou rainha, enfrentou a primeira conspiração palaciana. Como de costume entre os Ptolomeu, Cleópatra deveria dividir o trono com seu irmão Ptolomeu XIII, de apenas 10 anos, de quem era formalmente a mulher. Temendo, com bons motivos, que ela pretendesse governar sozinha, os tutores do irmão-marido a expulsaram para a Síria. Nesse meio tempo, o triunvirato que governava Roma desde 60 a.C. havia se desfeito e César disputava com Pompeu o controle da República. Pompeu foi assassinado em 48 a.C.. no Egito, para onde César se dirigiu com suas legiões. A fim de entrar incógnita em Alexandria e conquistar as graças de César, Cleópatra arquitetou um plano ao seu estilo. Detalhe miúdo, ela se fez embrulhar num tapete, colocado nos ombros de um servo. Pode-se imaginar a expressão do ditador romano, ao ver o que continha o tapete desdobrado aos seus pés. Não espanta que a apresentação tenha terminado na cama. Seja como for, no dia seguinte César entregaria o controle do Egito para Cleópatra. Era um presente sujeito a condições. Em troca, a rainha, que mais tarde deu à luz a um filho apropriadamente chamado Cesário Ihe garantiu riquezas para sustentar seus exércitos.

Assim, apesar do que diziam as más línguas da época, a sedução de César não era cega. Mas, ao voltar a Roma, em 46 a.C., depois de uma vitoriosa campanha na Ásia Menor, o ditador convidou a rainha a visitá-lo. E, para provar a todos que Cleópatra era mais do que uma amante casual, mandou colocar sua estátua no templo dos próprios ancestrais dedicado a Vênus, como se sabe, a deusa do amor e da beleza na mitologia romana. César tinha então 54 anos. Cleópatra, 23. Os dias do conquistador, no entanto, estavam contados. Os inimigos acreditavam que ele pretendia tornar-se rei e instalar o governo do império em Alexandria para ficar junto da amante. Em 44 a.C., num dos episódios mais dramáticos da história de Roma, César foi assassinado por um grupo de republicanos. Sua morte pôs um fim à primeira campanha de Cleópatra pelo poder. Discretamente, retirou-se para o Egito à espera dos desdobramentos que não tardariam, na luta em Roma.

Divulgado por Marco Antônio, o melhor amigo de César, o testamento do finado não mencionava sequer uma vez o nome de Cleópatra nem fornecia indicação de um eventual projeto monárquico. Os conspiradores que acreditavam que a morte de César traria de volta a República tiveram de sair do país. Formou-se um novo triunvirato com Marco Antônio, Otávio — um jovem de 18 anos, herdeiro de César — e Lépido, o maior de seus generais. Logo ficou claro que a ambição dos dois primeiros iria jogá-los um contra o outro. Em 42 a.C., na primeira batalha de que os dois participam juntos, em Filipos, na Grécia, o maior quinhão da glória cabe a Marco Antônio — ou assim parece, já que nessa época Otávio era apenas um rapaz doente. Para consolidar o poder recém-conquistado, Antônio sonha com uma invasão da Pérsia e, para esse objetivo, convoca todos os aliados da República Romana a um encontro em Tarso, na Síria. É a oportunidade que Cleópatra esperava para voltar à História. Sua entrada é nada menos que triunfal. Baseado nos textos de Plutarco, o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) imortalizaria acenara peça Antônio e Cleópatra, em que a rainha, adornada como Vênus, aparece na popa dourada de um barco com velas de cor púrpura enfunadas ao vento. Cleópatra se faz abanar com plumas de avestruz por meninos vestidos de Cupido, enquanto, ao som de flautas, oboés e alaúdes, escravos movem ritmicamente os remos de prata. A ser verdadeira a cena, Hollywood não terá inventado nada de novo na breguíssima reconstrução de Cleópatra, filmado em 1963, com Elizabeth Taylor. Dado a festas e ostentações, como poderia Marco Antônio resistir? No golpe de misericórdia, Cleópatra, aos 29 anos e no auge de seus encantos, convida o general quarentão para um banquete inigualável. Segundo Plutarco, dai em diante Cleópatra fez o que quis de Marco Antônio: "Ela despertou e inflamou paixões até então adormecidas em sua natureza, abafou e finalmente corrompeu quaisquer resquícios de bondade e justiça que ainda subsistissem nele."Na realidade, o general era emotivo, bêbado e mulherengo", precisa Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense.

Marco Antônio desistiu da campanha da Pérsia e aceitou o convite da rainha para visitar Alexandria. Na bela cidade eles formaram uma sociedade chamada "os que vivem para o prazer", bem ao gosto do general romano. Em 34 a.C., Antônio deu a Cleópatra, como prova de amor, a ilha de Chipre, mais a Líbia e a Síria, a Armênia, a Média (no noroeste do atual Irã) e a Cilícia (sudeste da atual Turquia) — e, é claro, o velho Egito. Em troca, como já havia acontecido com César, a rainha sustentaria com suas riquezas as legiões romanas. Marco Antônio foi um amante mais generoso do que seu antecessor. Numa das festas que promoveu, deu a Cleópatra o título de Rainha dos Reis, repartindo entre Cesário, o filho que ela tivera com César e as três crianças que eram filhos dela consigo, partes das terras conquistadas pelo seu exército. Em Roma, tais doações foram usadas por Otávio para indispor o populacho contra seu rival. Segundo o professor Ricardo Gonçalves, "ao unir-se com Cleópatra, Marco Antônio tornou-se para os romanos um monarca despótico e absolutista. Enquanto Otávio, embora também quisesse o poder absoluto, parecia agir como um defensor da República." Não tardou que ambos se guerreassem. A batalha de Ácio, no leste da Grécia. em 31 a.C., foi definitiva. Embora seu exército fosse melhor preparado, Antônio não conseguiu furar o bloqueio marítimo montado por Otávio. Cleópatra, ao lado do amante, foi a primeira a reconhecer a derrota e fugir para o Egito. Para não perdê-la, Marco Antônio foi atrás, abandonando os que ainda lutavam — pecado imperdoável para um chefe militar. No Egito, o par formou a sociedade dos "inseparáveis na morte". Como bom soldado, ele matou-se com a espada. Cleópatra, porém, tinha apego à vida. Prisioneira dos romanos, com 39 anos, apelou para a velha fórmula, tentando seduzir Otávio. Mas este recusou o jogo. Não restou mais nada à rainha senão suicidar-se, fazendo-se picar por uma áspide, pequena cobra venenosa.

O mito masculino da mulher fatal

Morena, cabelos negros, olhos cor de violeta. Assim era a Cleópatra made in Hollywood, por quem o público masculino suspirava em 1963. Não só o público: o ator inglês Richard Burton, que fazia Marco Antônio no filme, sucumbiu aos encantos, como se diz, de Elizabeth Taylor-Cleópatra e com ela viveu um longo, intermitente e tempestuoso casamento. O episódio, que um dia talvez vire filme também, foi um acréscimo primoroso para fixar no imaginário popular o mito de Cleópatra mulher fatal, cuja dimensão trágica está em ser ela ao mesmo tempo prêmio e perdição para o homem. "Cleópatra é capaz de deixar qualquer homem a seus pés, mas homem algum pode ser feliz a seu lado", resume o professor Flávio Di Giorgi, que leciona Lingüística e Teoria Literária na PUC de São Paulo.

Com uma história que mistura política, intriga, violência, luxo e erotismo, é natural que a arte se apropriasse da figura da rainha do Egito, desde as pinturas que descrevem de forma romântica e grandiloqüente o seu suicídio às peças de Shakespeare e Bernard Shaw e ao romance histórico de Théophile Gautier. Vivendo num ambiente de opulência e sensualidade — a corte dos faraós na faustosa Alexandria — Cleópatra é esculpida como a mulher irresistível que usa o corpo para conseguir o que quer dos homens e depois os descarta. Ou, segundo analisa o psicanalista Renato Mezan, também professor da PUC, "como ela não tem existência real, sendo apenas a projeção dos desejos masculinos, o mito a despoja de sentimentos".
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A origem da expressão "Tio Sam"


A origem da expressão "Tio Sam"
O nome Tio Sam vem de Samuel Wilson, cujo apelido era Uncle (tio) Sam.
De onde vem a expressão “Tio Sam” para designar os Estados Unidos?


Vem de Samuel Wilson (1766-1854), cujo apelido era Uncle (tio) Sam. Responsável pela fornecimento de carne para o exército americano na guerra de 1812 com a Inglaterra, o comerciante Wilson carimbou as embalagens com um enorme US, para designar o destinatário, United States. Como, porém, essa ainda não era a abreviação oficial do país, um empregado de Wilson imaginou que aquelas letras representassem as iniciais do apelido do patrão. O erro propagou-se e o enviou das rações militares passou a ser atribuído à generosidade desse personagem, que conquistou o carinho de todo o país e com ele acabou sendo identificado. Em 1961, o Congresso dos Estados Unidos oficializou a expressão Tio Sam como símbolo nacional.
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Calígula, um maluco no poder

Que o terceiro imperador romano tenha sido um sanguinário, ninguém duvida. Suas famosas crises de epilepsia, porém, explicam pouco ou nada desse perfil. Para conhecê-lo, é preciso falar de suas origens familiares e do ambiente depravado que o cercava.

COLEÇÃO PARTICULAR/© THE BRIDGEMAN ART LIBRAY/KEYSTONE

O aspecto assustador e o desequilíbrio mental do terceiro imperador de Roma inspiravam medo e terror na população Caligula Caesar, gravura, artista da escola italiana, 1596

A história não foi complacente com Calígula, o detentor de um reinado tão curto quanto violento no primeiro século de nossa era, em Roma. Ele permaneceu no poder de março de 37 até seu assassinato, em janeiro de 41. Foi o terceiro imperador romano, membro da dinastia júlio-claudiana, iniciada por Augusto.

A reputação de louco feroz, capaz de incríveis crueldades, foi construída ao longo de apenas quatro anos de poder, um período curto demais para fama tão arraigada, mas nada indica que ele fosse diferente do que ainda hoje se diz do personagem. O próprio nome Calígula tornou-se sinônimo de atrocidade.

Cabe, contudo, buscar a fonte primordial: a obra A vida dos doze césares, do escritor e historiador Caio Suetônio (69-c.141), que não foi contemporâneo de Calígula, mas ótimo observador dos costumes romanos. Outros historiadores, como Filo (30-50 d.C.), Josefo (37-92 d.C.) e Dião Cássio (data imprecisa do século II), também citaram o imperador em suas obras. Especificamente no caso de Calígula, Suetônio é de longe o mais influente entre os quatro, mesmo que se apontem frequentemente imperfeições em sua obra.

Para conhecer o monstro da antiga Roma, parece uma boa opção desistir de buscar refúgio atrás das crises de epilepsia de Calígula e de algumas insanidades a ele atribuídas. Doenças física e mental explicam uma parte, talvez pequena, da biografia. A outra parte passa necessariamente por sua origem familiar, o ambiente depravado no qual cresceu e, sobretudo, o estado das instituições do Império.

Até porque na Antiguidade a epilepsia simplesmente não era compreendida como hoje. Era um estigma na vida do paciente e uma mancha em sua biografia. Foi preciso que nascessem homens como os escritores Fiodor Dostoievski e Gustave Flaubert ou um teórico e político como Vladimir Lenin, todos epiléticos, para que o mundo passasse a ver a doença de outra forma. A percepção de que doença e crueldade não caminham juntas certamente nem passava pela cabeça dos historiadores antigos.

CNG COINS (HTTP://WWW.CNGCOINS.COM)


Moeda cunhada durante o reinado de Calígula (37 - 41 d.C.), com efígie do imperador em um dos lados (à esq.) e de suas três irmãs, Agripina, Drusela e Júlia


MITOLOGIA PESSOAL
Caio César Augusto Germânico, vulgo Calígula, nasceu em Âncio, província de Roma na região do Lácio, no dia 31 de agosto do ano romano 765, ou seja, no ano 12 de nossa era. Seu pai era Germânico, sobrinho de Tibério, e sua mãe, Agripina Maior, neta de Augusto.

Sendo Tibério filho de Lívio, adotado por Augusto, Calígula pertencia à linhagem de César, alegadamente descendente do lendário Ascânio, filho do troiano Enéas, ele mesmo filho de Vênus. Sua origem, como se vê, se mistura com a mitologia.

Ainda jovem, Calígula manifestava as qualidades do pai, homem de personalidade e de honestidade escrupulosas, além de um general notável. Germânico era amado pelo povo. E, de início, o filho Calígula também era, pois se mostrava brilhante e muito modesto. Frequentava as tropas do pai e se vestia como legionário, exibindo nos pés as caligae (espécie de calçado) regulamentares, o que lhe valeu o codinome.

Mais tarde, entregue às intrigas do círculo de Tibério, ele sucumbiu às promessas de agitadores – em particular de Névio Sutório Macro, o líder da guarda pretoriana, que garantia a segurança do imperador. Era tal o poder de um prefeito pretoriano à época que por vezes ele assumia a condição de “segundo homem” do Estado. Macro preparava em segredo a sucessão do imperador e mobilizou todos os meios para que a dignidade imperial coubesse a Calígula. Foi então que surgiram os primeiros sinais da nova vida de desregramento do jovem herdeiro, que desembocaria em ligação explícita com a irmã, Agripina Menor, a futura mãe de Nero, e de todo tipo de fantasias bissexuais.



MUSEU ROMANO-GERMÂNICO, COLÔNIA (AGRIPINA) / GLIPTOTECA DE MUNIQUE /© BIBI SAINT-POL/CREATIVE COMMONS (DRUSELA)

gripina Menor (à esq.) e Drusela (à dir.), duas irmãs com quem Calígula mantinha relações sexuais. O imperador também as obrigava a se prostituir Agripina Menor e Drusela, esculturas em mármore, autor desconhecido, sem data

Um episódio narrado pelo historiador Públio Cornélio Tácito (55-120 d.C.) atesta a atmosfera que reinava em torno de Calígula. Certa vez, o imperador Tibério aportou no cabo Miseno, em Catânia, hoje região da Sicília. Seu médico pessoal não tardou a atestar que o velho não tinha mais que dois dias de vida. Foi o que bastou para que se instalasse uma rede de intrigas palacianas.

Nas palavras de Tácito: “No dia 17 das calendas de abril, Tibério mergulhou em uma inconsciência profunda: acreditou-se que ele estava morto. Caio [o nome verdadeiro de Calígula], já em meio às felicitações de uma numerosa corte, saía para tomar posse do Império quando alguém veio subitamente anunciar que Tibério recuperava a consciência, a fala. (...) Caio, em um silêncio morno, não esperava outra coisa senão o suplício; Macro, mais ousado, mandou sufocar o ancião sob uma pilha de cobertores, e ordenou que todos se retirassem. Assim desapareceu Tibério, aos 78 anos de idade”.

E assim começou o reinado de Caio Calígula.

Mas quem comandava o jogo a partir de então? Seguramente não era Calígula. O imperador não passava de um chefe dos exércitos que devia seu poder a um bandode guerreiros que o escolheram para comandante.

Aparentemente, tudo estava de acordo com as leis. Havia um Senado, guardião das instituições romanas. Havia magistraturas, todas respeitadas. Calígula foi reconhecido como imperator, mas também era cônsul, pretor, censor, edil, “tribuno do povo” e, sobretudo, grande pontífice, mestre da religião oficial romana.



ROGER-VIOLLET /TOPFOTO/KEYSTONE

O imperador aproveitava espetáculos de gladiadores para lançar inimigos às feras, assim como combatentes que demonstrassem fraqueza Calígula retratado por Suetônio, ilustração de Gustav Surand, 1901

Só que o conjunto abrigado sob a denominação de Império Romano, com um líder inconteste à frente, não era mais que uma gigantesca vigarice. Simplesmente porque por trás de um personagem que desempenhava o papel principal agiamos que o manipulavam. Essa era a fraqueza e o paradoxo do sistema.

O imperador era necessário, pois era a imagem do poder de Roma. Nessas condições, deixava-se que ele agisse como bem quisesse, desde que não contrariasse os interesses da classe dirigente. O povo nunca intervinha, pois os habitantes de Roma já não eram os virtuosos cidadãos da República, o regime que vigorou de 509 a.C. a 27 a.C. No Império a população, de modo geral, poderia ser comparada a uma multidão de desocupados e mendigos que se calavam se fosse distribuída comida e providenciadas distrações, como os combates do Circo.

Calígula adorava presidir essas festas, aliás. Ele se sentia o senhor e mestre de Roma e se regozijava ouvindo elogios a sua pessoa e majestade e notando a bajulação que fortalecia sua indomável megalomania. Paralelamente, se desenvolvia dentro do jovem imperador uma paranoia igualmente invencível. Roma teve o azar de essa pessoa ser o homem a quem o Estado facultava decidir, em nome da coletividade, o que era bom ou mau, quem obteria os favores do governo e, pior, quem deveria ser eliminado.

Os crimes de Calígula passaram a ser incontáveis. E suas fantasias e excentricidades também. Sobre isso, o historiador Suetônio conta que o imperador presenteou o cavalo com uma estrebaria feita de mármore, uma dentadura de marfim, sem falar de uma casa e de empregados para tratar esplendidamente os convidados em nome do animal. Diz-se que quis transformar o quadrúpede em cônsul.


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Cena do filme Calígula, de 1978, na qual o diretor Tinto Brass recria uma orgia na corte do terceiro césar

Como seu orgulho não tinha limites, ele mandou fazer uma estátua de si mesmo, como se fosse Júpiter, e ordenou que fosse colocada no Templo de Jerusalém. Júpiter não é um deus qualquer da mitologia romana, derivada da grega. É o senhor do Olimpo, pai de muitos outros deuses, como Marte e Vênus, por exemplo. E o Templo de Jerusalém – no caso, o segundo – era o secular local de culto de Deus de Israel.

Nessas agressivas incursões mitológicas e religiosas, a loucura de Calígula não deixava de ter natureza mística. Mesmo seus desregramentos sexuais tinham algo de sagrado. O incesto remetia ao casamento dos faraós com as respectivas irmãs. Já a orgia era uma ativação das forças cósmicas, por meio da qual se atingia o sublime. O imperador queria se transformar em um deus.

Ocorre que nesses assuntos da alma a mentalidade da população trilhava caminhos distintos. A religião romana rejeitava a teofania, ou seja, a encarnação de um deus exterior nos vivos. A palavra-chave da mística romana era a apoteose, o rito funerário que divinizava o defunto. O primeiro imperador romano, Otávio Augusto, por exemplo, havia recusado em vida as honras divinas. Teve, porém, direito a uma apoteose depois de morto. Calígula, porém, não quis esperar a morte para se tornar um deus.

Em virtude da exigência do sistema romano de que o imperador fosse eleito, chegou o momento em que os que governavam efetivamente já não precisavam de personagem tão tresloucado apenas para fazer a figuração. Os excessos de Calígula deveriam andar tão insuportáveis que os verdadeiros governantes de Roma decidiram se livrar dele. Foi mais uma vez o chefe da guarda pretoriana que comandou a ação. Em 24 de janeiro do ano 41, Calígula foi assassinado e substituído por Cláudio.

Revista História Viva