sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A PAZ NAS SENZALAS


A PAZ NAS SENZALAS
Os escravos como agentes
Marina De Mello E Souza

Unindo suas experiências de pesquisas anteriores com o tráfico de escravos ("Em Costas Negras") e com as redes de parentesco e compadrio por eles estabelecidas ("O Cativeiro Imperfeito"), os autores propõem uma visão rica e original das famílias escravas. Ao cruzar informações relativas ao tráfico, como momentos de intensificação e queda, com informações relativas à constituição dos núcleos familiares, como quantidade de uniões consensuais e legítimas, índices de casamentos interétnicos e idade dos cônjuges, apontam padrões conformadores das redes de parentesco entre escravos que iluminam a compreensão das comunidades afro-brasileiras, das relações entre diferentes etnias e entre escravos e senhores.
O livro busca resgatar as normas reguladoras da família escrava baseando-se fundamentalmente em informações contidas em inventários e registros de batismo. A análise quantitativa dos dados é exposta em gráficos e tabelas que fundamentam cada suposição levantada num exercício hercúleo de combinar as variáveis das mais diferentes formas. Processos judiciais e narrativas de viagem vez ou outra são invocados para que o leitor não perca de vista o alvo último da pesquisa: seres humanos portadores de sentimentos, vontades, individualidades.
Florentino e Góes argumentam que o tráfico era um dos esteios da escravidão, alimentando as plantações de braços e agudizando as tensões internas aos plantéis com a chegada de estrangeiros. Um outro esteio do cativeiro era a formação de laços familiares por meio dos quais as pessoas, oriundas de diferentes etnias aleatoriamente agrupadas, constituíam uma identidade comum de cativos de origem africana. O parentesco tecia a paz das senzalas e cimentava a comunidade ativa. Portanto, o tráfico e a família escrava, nuclear ou extensa, eram fundamentais na manutenção da escravidão.
Além disso, procuram também desvendar o que ela era para seus membros, como era sentida, como a ocupação específica dos escravos influía ou não sobre a sua constituição, quais os padrões de atribuição de nomes em seu interior, quais fatores poderiam ou não afetar sua estabilidade. A família era o "lugar social da criação, recriação e transmissão dos valores escravos, e seu espaço maior de solidariedade e proteção".
Contestando posições enraizadas na historiografia, os autores defendem que a união de casais tinha como meta a geração de filhos e levantam a hipótese de que a procriação seria importante elemento na perpetuação da comunidade cativa. Os filhos poderiam ser um meio de recriar e tornar mais complexo o parentesco: elemento portador da paz.
Mas a procriação não seria objetivo apenas dos cativos, pois constatam em suas fontes um movimento de mulheres escravas dos plantéis menores para os maiores nos momentos de queda da entrada de africanos no mercado, o que os leva a acreditar num estímulo à capacidade reprodutora dos escravos levado a cabo pelos senhores, havendo então uma "contundente valorização das capacidades reprodutivas da mulher cativa fértil". Dessa forma, num de seus brilhantes lampejos, os autores buscam substituir por outra uma das mais consolidades idéias acerca das comunidades escravas no Brasil, isto é, a de que evitavam reproduzir-se.
Criador e fruto de regras culturalmente aceitas, transformando homens apresados em escravos, diferentes etnias em comunidades homogêneas, pacificador de um latente estado de guerra, o casamento era controlado pelos homens mais idosos, detentores de autoridade e poder político, unidos às mulheres mais jovens, enquanto aos homens jovens restavam as mulheres mais velhas. Este padrão só se alterava nos momentos de intensificação do tráfico, quando a chegada de grande quantidade de homens jovens atingia o monopólio do poder dos mais velhos.
Florentino e Góes confirmam uma tendência atual da história demográfica voltada para as populações escravas e mostram a presença significativa de famílias nos plantéis, principalmente nos maiores, construindo um texto que, se algumas vezes se mostra árido, está cheio de idéias originais e instigantes. As lacunas das fontes e os problemas inerentes às especificidades destas, apontados pelos próprios autores, fazem com que ao longo de todo o livro sejam extremamente cautelosos ao levantar hipóteses, deixando claras todas as variáveis que podem influenciar as análises. O cuidado em explicitar quando os números permitem afirmações seguras e quando estão propondo leituras possíveis a partir de suposições difíceis de serem fundamentadas exclusivamente pelos dados leva a uma forma original de análise quantitativa, permeada de indagações e contribuições da imaginação histórica.
As questões levantadas pelo livro, mesmo quando polêmicas, contribuem para a consolidação de uma historiografia que retira da "vontade senhorial o devir da história da escravidão", tornando os escravos agentes de sua própria história, que pode inclusive ser a de se constituírem em cativos e buscarem a convivência pacífica dentro da comunidade escrava e, desta, com os senhores.
Marina de Mello e Souza é doutoranda no departamento de história da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de "Parati - A Cidade e as Festas" (UFRJ/Tempo Brasileiro).
Folha de São Paulo

Um comentário:

Mirze Souza disse...

Eduardo!

Há uma pergunta em mim que não quer calar: na época da escravidão, existiam cartórios? E se existiam a condição de escravo dava ao senhorio o direito do registro e de nomes?

Digo isto, porque minha avó paterna, nascida em 1898, não tinha registro, pois no interior não existiam cartórios. Meu avô, era senhor de engenho e tinha escravos, que segundo ela dizia, não eram registrados devido à falta de condução e condições para se chegar aos grandes centros, no caso dela, Recife.

Que sobrenomes adotariam os escravos? Os de seus senhores?

Desculpe a curiosidade, mas neste Brasil, muitas famílias não escravas ainda não são registradas por falta de dinheiro e/ou por não saberem a procedência paterna.

Atenciosamente!

Mirze