domingo, 15 de agosto de 2010

IÁ MI OXORONGÁ: As Mães Ancestrais e o Poder Feminino na Religião Africana.


IÁ MI OXORONGÁ: As Mães Ancestrais e o Poder Feminino na Religião Africana.
Prof. Ms.Irinéia M. Franco dos Santos
Doutoranda – História Social (FFLCH-USP)
irineiafranco@usp.br
GP 9 – Religiões Afro-Brasileiras e Kardecismo


Sabe-se que nas culturas orais africanas o mito incorpora reflexões filosóficas, expressa valores últimos e identifica padrões morais. Ao contrário dos ocidentais, os mitos africanos não são recontados como uma simples narrativa, nem há algum conjunto único de histórias estabelecido. Em vez disso, eles são encaixados e transmitidos em práticas rituais. A descrição mitológica do cosmos é antropomórfica. Nela o corpo humano é um microcosmo e incorpora os mesmos elementos primordiais e forças essenciais que construíram o universo.2
Dessa forma, encontra-se uma grande variedade de personagens mitológicos que expressam papéis sociais e psíquicos; entre eles as Mães Ancestrais. Antes de abordá-las é necessário analisar duas características das religiões africanas, aparentemente dicotômicas, presentes na figura das Iá Mi: ancestralidade e feitiçaria ou sortilégio. Em África o culto às mães ancestrais encontra-se, de maneira geral, ligado ao chamado “culto aos antepassados”, identificado pelos especialistas em quase todo o continente. Os ancestrais mortos serviriam como mediadores entre a comunidade e o mundo sobrenatural. Proveriam acesso à orientação espiritual e poder. A morte não seria condição suficiente para se tornar um ancestral. Somente aqueles que viveram plenamente, cultivaram valores morais, e conseguiram distinção social poderiam alcançar este status. Os ancestrais estão aptos a repreender àqueles que negligenciam ou quebram a ordem moral causando problemas aos descendentes errantes através de doenças ou má sorte até que a reparação seja feita.3
Tem-se que considerar a projeção das relações humanas e das relações econômicas de propriedade, não confundindo a veneração dos antepassados com o culto dos mortos em geral.
Gromiko (et. all.) afirma que nas sociedades sedentárias (agrícolas) as relações de parentesco e autoridades dos grupos etários maiores levaria a um culto dos ancestrais. No entanto, as tribos nômades (pastores) com seu “democratismo” natural, o problema da gerontocracia não tem importância e o culto não é típico para estas comunidades. Poder-se-ia identificar as primeiras etapas de desenvolvimento do culto dos ancestrais – antes de se tornar religioso – com a percepção de alguns elementos: (a) o defunto continua a ser membro do clã, (b) maior autoridade quanto mais próximo dos descendentes, (c) maior reverência aos recém-mortos, (d) qualidades pessoais são rememoradas. Tais elementos poderiam ser comprovados no próprio significado da palavra antepassado – “uma classe de pessoas”. Assim, para Gromiko (et.all.) com a alienação das forças sociais que dominavam a sociedade mistificou-se o sistema das relações com antepassados.4 Uma vez que as maiores homenagens eram dadas aos antepassados distantes, a memória de seus feitos reais se enfraquecia e o mito religioso tomava forma, tornando-os seres quase imaginários, com atributos fantásticos e sobrenaturais, um espírito invisível que penetra em todas as coisas e é onipresente. Essa diferença seria marcada também no idioma ao se designar como “espírito do antepassado” e não mais “uma classe de pessoas”.5
Outro aspecto presente no caráter das Iá Mi Oxorongá é o da feitiçaria. Deve-se compreender, primeiramente, seu significado na religião africana. Aqui também o trabalho de Gromiko (et. all.) é elucidativo. O tema da feitiçaria e do sortilégio levantou muita discussão entre os estudiosos da religião. As causas que teriam motivado esse interesse, segundo os autores, seriam: (1) o fato da fé no sortilégio exercer uma influência notável sobre o pensamento e o comportamento de africanos de todas as classes sociais, e, (2) estas formas de religião encontrar-se, indissoluvelmente ligadas e vinculadas a outras crenças e doutrinas, tornando difícil compreender e determinar os limites entre elas. Por conta desses fatores, não há uma terminologia científica fixa.6 Torna-se necessário uma tentativa de sistematização dos termos utilizados. Seguindo as orientações dos especialistas têm-se abaixo as seguintes definições: por sortilégio entende-se um “conjunto específico e particular das concepções estereotipadas e dos rituais institucionalizados, que estão relacionados com a fé na existência, no seio da sociedade, de pessoas misteriosas, enigmáticas, possuidoras do princípio do mal: bruxos e sortílegos”. A partir daí, na visão africana os sortílegos, homens ou mulheres seriam aqueles que “tem poder congênito nocivo, malfazejo, ou uma substância material que permite realizar o mal, sem realizar cerimônias, sem recorrer a conjuros e sem aplicarem drogas”. Ou seja, o sortilégio representa um ato psíquico, de consciência.7 A bruxaria seria o “conjunto de rituais, processos e atos mágicos, com que um crente espera exercer influência em outra pessoa, fenômenos da natureza e acontecimentos”. Ela pode ser “benfazeja e orientada para o bem da comunidade (súplicas da chuva, ritos de colheita, etc) ou malfazeja e estar dirigida contra os homens”. A bruxaria malévola é a chamada feitiçaria e o seu agente, feiticeiro.8 Para Gromiko é importante não confundir os sortílegos e feiticeiros com os curandeiros, adivinhadores e sacerdotes, pois, apesar de ligados pelas crenças animistas9 há profundas diferenças entre eles. Por exemplo, sua importância e lugares opostos na sociedade. Para os africanos os sacerdotes personificam uma ligação recíproca entre os dois mundos: o dos vivos e o além; e, diferentes dos feiticeiros, que também possuem tal ligação, contribuem para o bem da comunidade e a defende contra os malefícios.10
Algumas características identificadas na figura do sortílego são de auxílio para o estudo das Iá Mi Oxorongá. O mais interessante é o seu caráter bifacético; pertence à raça humana, mas possui uma face oculta e dirigida para o “outro mundo”, sobrenatural. Em sua imagem social é vil, invejoso, desrespeita os mais velhos, etc. Como imagem mitológica possuiu poderes fantásticos como a invisibilidade e a capacidade de voar. Comparando as informações de diferentes partes da África, os sortílegos residem nas matas, moitas, zonas fora das áreas habitadas; à noite saem para devorar almas na mata, andam com a cabeça para baixo ou com os calcanhares para frente; dormem em árvores como morcegos, aproximam-se de suas vítimas, retrocedendo, atuam à noite. Os Iorubás chamam o chefe dos sortílegos de Obason, “o rei da noite”. Eles podem voar sobre bastões mágicos ou bengalas de madeira, o vôo é acompanhado de uma luz misteriosa, “bola de fogo”, “nuvem luminosa” ou luz brilhante. Os sortílegos mantêm forte ligação com o mundo animal, tendo como companheiros: mochos, corvos, noitibós, sapos, ratazanas, serpentes e hienas; também se encarnam neles. Associam-se em grupos e comunidades numa estrutura de subordinação e solidariedade mútua. Os chefes são os mais velhos e experientes e suas regras são como da sociedade humana, dividem a presa com os demais. 11 Dessa forma, o caráter duplo das Iá Mi Oxorongá (Ancestral e Feiticeira) ressalta a especificidade do papel feminino representado por elas. A concepção africana da maternidade, ou da força espiritual feminina, torna-as símbolos da adaptação e luta entre as forças masculinas e femininas, fundamentais para a manutenção da continuidade da vida. A importância disto reside tanto nas relações de gêneros e papel comunitário da mulher na África, quanto na maneira como esses elementos mitológicos e ideológicos irão se ordenar nas religiões afro-brasileiras através da preponderância do papel feminino nos cultos.
Segundo Pierre Verger12, a feitiçaria é considerada anti-social em muitas culturas, porém, na sociedade iorubá tradicional, as ajés (feiticeiras) não são execradas, mas constituem um dos pilares essenciais da comunidade. Evita-se falar mal delas abertamente, pois possuem uma força agressiva perigosa. É preciso ter para com elas uma atitude de prudente reserva.
Assim, ignora-se o verdadeiro nome das ajés e, preferencialmente, chamam-nas Iyami Osorongá (Minha Mãe Oxorongá). Assim são descritas: “mulheres velhas, proprietárias de uma cabaça que contém um pássaro. Elas mesmas podem se transformar em pássaros, organizando entre si reuniões noturnas na mata, para saciar-se com o sangue de suas vítimas, e dedicando-se a trabalhos maléficos variados”.13 Segundo o mito: “Iyami, divindade decaída, nossa mãe chamada Odu quando vem ao mundo com poder sobre os orixás simbolizado por eye (pássaro) ela se torna eleye (proprietária do poder do pássaro).
Recebe também uma cabaça (imagem do mundo e repositório de seu poderio). Tendo abusado desse poder perde a cabaça para Orixalá – seu companheiro masculino que veio ao mundo ao mesmo tempo em que ela. Ele exercerá o poder, mas ela conservará o controle”.14
Iá Mi também é o “poder” atribuído às mulheres velhas ou moças muito jovens que o teriam recebido como herança de sua mãe ou de uma de suas avós. Qualquer mulher pode conseguir esse poder, voluntariamente ou sem que o saiba, após um trabalho feito por uma Iá Mi que queira fazer proselitismo.
Tem-se também na origem mítica das Iá Mi a questão da geminidade. Nas religiões africanas o corpo humano é concebido como o gêmeo do corpo cósmico; a geminidade é um tema predominante em muitos mitos e rituais da África Ocidental. De acordo com a cosmogonia dividida entre os Dogon, Bambara, e povos Malinke do Mali, os seres primordiais eram gêmeos. Gêmeos representam o ideal. Muitos indivíduos dividem a estrutura da geminidade, na qual a placenta acredita-se ser o lócus de um único destino e alma gêmea. Seguido ao nascimento, a placenta é lavada e enterrada no cemitério familiar na primeira semana de vida da criança. Entre os Ashanti de Gana, gêmeos são permanentemente assegurados com um status especial, como santuários viventes, porque como um sinal de abundante fertilidade eles são repositórios do sagrado. Para os Ndembu da República Democrática do Congo, ao contrário, os gêmeos representam um excesso de fertilidade mais característico do mundo animal que do humano, e rituais são realizados para proteger a comunidade desta condição anômala.15
Análise do Mito16. No primeiro bloco de sentido numerado de 1-10 vê-se que as Iá Mi são as feiticeiras (ajés) e não orixás, ou seja, são as primeiras “mães da espécie humana”, ligadas às origens do mundo através do mito de Odudua ou Odu (a Terra), companheira de Obatalá (o Céu), dentro da concepção da geminidade. No princípio de tudo, não havia separação entre os dois, o casal primordial vivia apertado dentro de uma cabaça17. Eles se separaram ao brigarem pelo poder (os anéis), que representa a luta entre os dois pólos, um construtivo (axé) e outro destrutivo (Iá Mi). Esse mito também representa o jogo de poder entre o masculino e o feminino, o patriarcado e o matriarcado lutando pelo controle da comunidade. Em última instância, a luta entre a ordem social e o caos primitivo. A característica de velhas-feiticeiras está ligada à concepção africana de que a sabedoria e acúmulo de poder só vêm com a idade, com a experiência de vida. Assim, as Mães Ancestrais por ter vivido muito tempo, por conhecerem os segredos da vida, são feiticeiras, ou seja, podem manipular através da magia, o nascimento e a morte. Possuir o poder de controlar a vida tem dois aspectos, pode-se utilizá-lo tanto para o bem quanto para o mal. Não há um código moral dicotômico que proíba as Iá Mi de fazerem o que lhes agrade. No mito de Odudua, o motivo usado como justificativa para a sua perda de poder seria o abuso deste. Porém, percebe-se que o poder das Iá Mi, representa o próprio poder criador, criativo, que para trazer o novo, precisa destruir o velho. É a própria ordem natural, o ciclo de vida e morte que é a síntese do poder feminino. Segundo Ronilda Iyakemi Ribeiro “as Iya-agba (as anciãs, pessoas de idade, mães idosas e respeitáveis), também chamadas Agba, Iyami (minha mãe), Iyami Osoronga (minha mãe Oxorongá) Ajé, Eleye (Senhora dos pássaros), representam os poderes místicos da mulher em seu duplo aspecto – protetor e generoso/perigoso e destrutivo”18 . Relacionadas às Iá Mi nesse seu aspecto de ancestrais femininas, Ribeiro relaciona Nanã, Oxum, Iyami-Akoko – mãe ancestral suprema e Iemanjá, como poder genitor.
O medo provocado pelas mães ancestrais, devido ao seu grande poder e a forma com que ele é utilizado por elas, torna sua figura impiedosa e temida, pois a sua cólera e o seu ódio
são terríveis. Pode-se interpretar de outra maneira a cólera das Iá Mi. Segundo Verger, a feitiçaria cumpre em várias culturas uma função de moderador social. “Cada vez que alguém se eleva, a feitiçaria está lá para o abaixar”. Assim, também as Iá Mi, como feiticeiras, “através de sua ação, [ela] exerce um papel moderador contra os excessos de poder; mediante suas intervenções, ela contribui para garantir uma repartição mais justa das riquezas e das posições sociais; ela impede que um sucesso por demais prolongado permita a certas pessoas controlar exageradamente umas e outras”19. A constante cólera seria, dessa forma, uma explicação para os males sociais e de seus remédios, como também uma explicação da inquietude e angústia metafísica. O poder das Iá Mi ao ser colocado em oposição com o poder dos orixás (axé), como “única arma do homem” de proteção, remete novamente ao mito de Odudua que perde seu poder para Oxalá. Encontra-se em vários mitos de outros orixás femininos referências de como as mulheres perderam seu poder para os homens. Exemplo disso é um dos mitos de Ogum que conta a estória de como “Ogum conquista para os homens o poder das mulheres” [47]20. Este mito narra que no começo do mundo as mulheres tinham o “poder” (político) e o “segredo” (religioso). Iansã era a possuidora do mistério das sociedades dos egunguns (culto dos antepassados); junto com suas companheiras humilhavam seus maridos, comparando-os com macacos. Ogum e os outros homens, então cansados dessas humilhações, resolvem acabar com isso. Ogum veste-se de guerreiro e assusta as mulheres que fogem. Iansã também fica com medo da figura de Ogum que demonstra tanta violência e é a primeira a fugir. O poder passa a pertencer aos homens que tomam posse do segredo das sociedades egunguns. Iansã continua como Rainha do culto, mas perde o poder de decisão dentro da comunidade. O axé, como referência ao poder masculino, torna-se a proteção contra as mães, submete-se o poder feminino, este, porém, ainda precisa ser respeitado e venerado. Iansã perde seu posto de comando, mas continua sendo a chave do culto. Segundo Verger: “isso tende a mostrar que para os yorubá o poder (axé) de Iyami não é em si, nem bom, nem mau, nem moral, nem perverso, a única coisa que importa é o modo como o axé é empregado”21. O poder deve ser utilizado com calma e discrição, foi por não respeitar esse preceito que Iyá Agbá perdeu o domínio do mundo.
O segundo bloco de 11-29 começa com a vinda das Iá Mi para a Terra e ocupação das árvores como moradia. É muito forte para os iorubás a representação e significado das árvores. Pode-se fazer uma relação entre o mito de Iroco, a Primeira Árvore22 e as Ajés, ambos ligados ao poder da magia e da fertilidade. Iroco aparece nos mitos como um espírito que mora nas árvores, ajudando as mulheres a conceberem e também utilizando sua magia para o bem e para o mal; aparece também como o irmão de Ajé (a feiticeira) e de Ogboí (a mulher comum), com a função de juiz entre a disputa das duas irmãs. Percebe-se dessa forma, que a escolha das árvores como moradia para as Iá Mi é bem proposital. Em suas copas, as Mães Ancestrais podem com a ajuda de seus pássaros (eié) realizar suas magias para o bem e para o mal. Não é possível, por falta de material, fazer uma análise direta sobre o significado de determinadas árvores em relação às ações das Iá Mi, boas, ruins e/ou ambas. Os assentamentos das Iá Mi ficam junto às grandes árvores, como a jaqueira e geralmente são enterrados, mostrando sua relação com os ancestrais e sendo também uma representação do ventre. A referência à cajazeira como árvore fonte de poder para as mães pode dizer respeito à grandiosidade de seus galhos que abrigam muitas aves, e de frutos imensos que nos lembram novos úteros.
No terceiro bloco de 30-32 encontram-se os pássaros que são os instrumentos mágicos de poder das Iá Mi, mediadores entre a feiticeira e as pessoas, ou suas vítimas. Eles são os agentes do poder, sua capacidade de rápida locomoção transforma-os em mecanismos perfeitos para levar a desgraça ou a felicidade. É o ser alado, que possibilita ao poder e ao espírito das Iá Mi viajarem livremente entre os mundos, material e espiritual. Em seguida, no bloco 33-36, a cabaça surge como representação do útero (poder genitor feminino) e da Terra, é o lugar onde fica depositado o pássaro, onde as ajés os guardam até que necessitem deles. É do útero (terra) que nasce a vida, é de onde vem a provisão, a fartura, a fertilidade, a própria existência material da comunidade. A cabaça deve ser protegida e guardada com cuidado, pois dela depende a sobrevivência humana. A Iyalode é a sacerdotisa das feiticeiras e quem distribui o poder entre elas, representado nos pássaros. Nas sociedades tradicionais, a Iyalode era a representante feminina no palácio do Rei e no Conselho; estava presente no tribunal local se uma mulher fosse implicada num caso judiciário. Fora do tribunal, arbitrava as contendas entre as mulheres, controlando-as. As contendas poderiam girar em torno da função de mercadoras desempenhada pelas mulheres yorubás.
No quinto bloco de 37-41, vê-se que abrir a cabaça e libertar o pássaro para uma missão, representa a ação mais cruel das Iá Mi. Matar, abrir o ventre para roubar intestinos ou para impedir a gravidez são atos de violenta ruptura com a continuidade da vida. Interromper a vida aparece como um poder incomensurável e terrível, assim, tentar aplacar a cólera das mães ou encontrar proteção é necessário. Nos períodos 42-44 a expressão utilizada representa uma necessidade de segurança e de uma regra mágica eficaz, a força mágica contida nas palavras é poderosa, e Iá Mi terá necessidade de recorrer às suas companheiras.
No bloco 45-49, têm-se a imagem da assembléia de feiticeiras que é recorrente em diferentes culturas. O trabalho mágico em grupo das ajés torna a possibilidade de fuga da vítima mais escassa. O laço de sangue que as une transforma-se em símbolo do sangue menstrual. Segundo Ulli Beier “toda mulher é ajé, porque as iyami controlam o sangue das regras das mulheres. As „mães‟ podem fazer as regras cessarem ou podem provocar hemorragias. Assim, as „mães‟ controlam todas as mulheres por meio destes poderes místicos”23. E, pode-se incluir, controlam os nascimentos e abortos, o que compromete toda a vida comunitária.
No último bloco encontra-se, nos períodos 50-52, o poder do pássaro que é mutável, paciente e certeiro na forma de realizar sua tarefa. É a própria síntese do poder das Iá Mi, nem bom, nem mau, simplesmente cumpre sua função na ordem universal sendo indispensável para a sobrevivência do mundo. Para que as Iá Mi não deixem de cumprir sua função, que é extremamente vital para a comunidade, sociedades africanas secretas foram formadas com a responsabilidade de cultuar e prestar as devidas homenagens às Mães. Uma delas é o culto Geledé celebrado em famosos festivais em regiões Ketu na África. Na Nigéria é realizado entre os meses de março e maio, como um culto de fertilidade em honra às Iá Mi Oxorongá.
No Brasil, a festa Geledé ocorre em 08 de dezembro em Boa Viagem, no Candomblé do Engenho Velho. Originalmente, Geledé é uma forma de sociedade secreta feminina de caráter religioso, expressando o poder feminino sobre a fertilidade da terra, a procriação e o bem estar da comunidade, visando também, apaziguar e reverenciar as Mães Ancestrais para assegurar o equilíbrio do mundo. As principais representações do culto são as máscaras rituais que simbolizam o espírito das ancestrais femininas e seus diferentes aspectos. As máscaras são usadas por homens que fazem parte de sociedades controladas e dirigidas por mulheres que possuem os segredos e poderes de Ajé. Ronilda Iyakemi Ribeiro ao descrever o festival fala que para as Iá Mi cumprirem sua função de garantir a fertilidade e a procriação, necessitam ser fecundadas e restituídas. “A terra (igba-nla: a grande cabaça) recebe os corpos dos mortos que lhe restituem a capacidade genitora e tornam possíveis novos nascimentos. Assim, todo renascimento está relacionado com os ancestrais. A restituição e o renascimento estabelecem e preservam as relações entre o orum (céu dos orixás) e aiye (mundo)”24. Além de apaziguar, o culto serve para propiciar os poderes místicos femininos, favorecer a fertilidade e a fecundidade e reiterar normas sociais de conduta.
Através do mito [204] foi possível traçar uma imagem das características arquetípicas das Mães. Crueldade, vingança, ira, controle e perseguição, aparecem como sinais do poder das Iá Mi numa visão aterradora, ao mesmo tempo em que doação, fecundação, proteção, dão a imagem da maternidade uma visão carinhosa e vital. As aparentes contradições acima não são inconciliáveis. Os orixás femininos mais cultuados nos Candomblés brasileiros representam aspectos socializados deste terrível poder das Iá Mi Oxorongá. Oxum por exemplo, possui domínio sobre a fertilidade humana, no mito [203]25 deixa as mulheres estéreis em represália aos homens, por não permitirem a participação das mulheres no início da criação das reuniões de organização do mundo. Os orixás são obrigados a reconhecer que sem as mulheres a vida na terra não prospera. Oxum é muito celebrada no festival Geledé com o aspecto da “Mãe Encantadora”, muito doce, mas que sabe ser muito cruel quando se faz necessário, exigindo justiça às mulheres, parte essencial da vida. Este aspecto se repete em Iansã, mesmo não sendo considerada uma mãe muito presente, Iansã é extremamente zelosa com seus filhos e utiliza de muita violência para protegê-los26. Também está ligada às Iá Mi através do culto aos antepassados (egunguns); da mesma forma que Nanã Buruku recebe o corpo humano morto na terra, restituindo o axé do planeta, Iansã auxilia o espírito a alcançar o Orum. Iemanjá, a Grande Mãe do Candomblé, amorosa, conselheira e protetora de seus filhos também possui seu aspecto mais terrível. No mito [244]27, Iemanjá vinga a morte de seu filho destruindo a primeira humanidade. Na sociedade iorubá a mulher, de acordo com estas características, possui em si todas as qualidades e poderes de uma Iá Mi. Em várias épocas de sua existência vivem diferentes aspectos desse poder feminino, legado da natureza às mulheres, como parte de sua função social, cultural e espiritual. O poder feminino, em seu duplo aspecto - criador e destruidor - é a síntese da vida, fornece o axé necessário à continuação da existência na Terra. Ulli Beier define as Iá Mi como “as Grandes-Mães, as Mães encolerizadas e, sem sua boa vontade, a própria vida não poderia continuar, sem elas a sociedade desmoronaria”28. Não é possível controlar o poder das Iá Mi Oxorongá. Esse poder não existe para ser controlado, é preciso que ele flua livremente no mundo, para melhor cumprir seu papel nutridor. Os mitos, ao narrarem histórias das Mães preservam sua memória ancestral, identidade e garantem a continuidade da vida da comunidade africana. No Brasil, mesmo o culto às Iá Mi Oxorongá não sendo amplo, continua presente nos Candomblés através dos orixás femininos mais conhecidos, celebradas como fontes primordiais da vida e essências de beleza e força. A ligação entre as tradições africana e brasileira, traçado no estudo de caso de uma narrativa mítica, auxilia a percepção dos profundos laços que ligam os dois continentes. Transpondo esses elementos para as condições de vida da mulher negra no Brasil, podem-se verificar os traços do arquétipo assumido pelas Ialorixás e líderes comunitárias, na maneira como trabalharam para a organização e proteção do culto e da religião africana, recriada na diáspora. É amplamente conhecida entre os especialistas a importância da mulher africana iorubá nas relações sociais como comerciante, líder comunitária e religiosa e mediadora29. Sabe-se o quanto no ambiente da diáspora, na condição de escravizada, a mulher africana sofreu. A estrutura patriarcal da sociedade colonial portuguesa e brasileira, por exemplo, designava uma posição de subordinação para a mulher. As escravizadas, por séculos, utilizaram de criatividade e muita luta para preservar ou ressignificar sua cultura.
Como exemplo contemporâneo do papel feminino tem-se as Ialorixás dos Candomblés em todo Brasil. O poder exercido por essas mulheres, mantido a duras penas, pode ser interpretado como a afirmação do feminino, mitologicamente representado nas Iá Mi Oxorongá e Orixás e concretamente exercido como líderes espirituais e comunitárias. As conhecidas mães-de-santo Maria Escolástica da Conceição Nazareth (Mãe Menininha do Gantois, 1894-1986) e Maria Stella de Azevedo Santos do Ilê Axé Opó Afonjá (Mãe Stella de Oxóssi, 1925) são exemplos emblemáticos.
Procurou-se, nesse artigo, estabelecer uma relação entre a figura mítica das Iá Mi Oxorongá e o poder feminino na religião africana e no Candomblé. Interessa afirmar que as formas como a religião africana e afro-brasileira identificam e ressignificam o papel da mulher na sociedade podem ser elementos de formação de consciência em um ambiente social machista. É claro que muito se discute sobre a posição da mulher na sociedade brasileira ou africana. O conhecimento desses elementos mitológicos ou religiosos somados às experiências cotidianas das mulheres nos dois continentes pode trazer valorização do ser feminino e de sua ação, essencial para a proteção da vida e manutenção das relações comunitárias. Dentro dos limites deste trabalho, poder-se-ia afirmar ser a figura mítica das Ia Mi Oxorongá a percepção africana da relação entre as forças naturais e a vida social. A distinção entre o mundo natural, o sobrenatural e suas regiões limítrofes é mais flexível do que aquela de origem européia de base clássica ou judaico-cristã. A importância dada aos laços familiares e de clã expressa no culto aos ancestrais uma ligação profunda com seu lugar de origem, sua aldeia e identidade. Sendo assim, como conceber o horror da diáspora, do escravismo, em que se é arrancado de suas raízes e afastado de seus ancestrais?A sobrevivência e manutenção de tradições diversas no ambiente da diáspora são sintomáticas
desse processo. Assim, poder-se-ia afirmar serem as Iá Mi Oxorongá, mais do que referência simbólica das ancestrais-feiticeiras são a afirmação da própria terra de origem (África), Mãe de Todos, distante na memória individual, mas fortemente presente na memória coletiva, em cada orixá celebrada, nos ritos recriados e relações comunitárias vivenciadas.

Notas e Bibliografia


Revista Africanidades

Um comentário:

Claudinha Monteiro disse...

Esse artigo me lembra muito um livro que li há um tempo atrás - O Sagrado Feminino, de Julia Kristeva, em que ela falava exatamente disso - do poder feminino nas culturas religiosas africanas e suas equivalencias na cultura afro-brasileira. Como também o seu efeito na estruturação de ambas as sociedades. Anyway,mas um artigo para eu sinalizar numa eventual pesquisa sobre o assunto.