sábado, 31 de julho de 2010

Chico Xavier

Caricatura do Chico Xavier, cujo centenário é comemorado neste ano, feita para o Estadão.
Cedida por Baptistão Caricaturas
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As sínteses do mito Chico Xavier
Bernardo Lewgoy
Professor do Departamento de Antropologia UFRGS

A biografia e obra de Chico Xavier são paradigmáticas dos caminhos e dilemas que o espiritismo percorre em sua relação com a sociedade brasileira no século XX. Religião letrada e racionalista, ela principia por ser adotada pelos segmentos de elite do Brasil pré-republicano. Ainda que alguns de seus pioneiros tenham participado de causas progressistas como o abolicionismo, o espiritismo se populariza não pelo heroísmo ou pelo profetismo de seus pioneiros, mas sim através da oferta de serviços de cura (o chamado "receitismo mediúnico", cf. Damazio, 1994 e Giumbelli, 1997) passando, após, por movimentos de fragmentação interna e concorrência com outras religiões mediúnicas, especialmente a partir dos anos 20, como aconteceu em sua relação com a umbanda38.
Leigo e anticlerical, o espiritismo kardecista sofre transformações no século XX, absorvendo tendências que pareciam correr em leitos ideológicos, culturais e políticos distintos: uma cultura letrada erudita de um pequeno e nunca inteiramente autônomo campo intelectual, cultivada na crítica literária dos jornais, na Academia Brasileira de Letras e nos colégios da República Velha39; um certo modernismo cientificista, meritocrático e nacionalista, que absorvia com um pesado viés militarista o humanismo racionalista do kardecismo e que extravasava suas conseqüências para uma composição com outros segmentos sociais, através da extensão desse modelo pelo corporativismo profissional, que incluía profissões ligadas a um projeto de nação, como a educação e a medicina.
A composição entre determinismo e livre-arbítrio, base da noção de pessoa espírita (Cavalcanti, 1983), pouco espaço ensejou para a autonomia individual como princípio ético e valor religioso, restringida que estava pelos dispositivos doutrinários e rituais no espiritismo brasileiro de boa parte do século XX. Tratava-se, ali, de uma concepção minimalista de indivíduo, não apenas vinculado sincronicamente a espíritos e homens mas também a leis, regulamentos, estatutos e graus de evolução e, é claro, a uma noção cármica de justiça, no interior do que denominei de "sistema da dívida". Havia certamente uma exacerbação da racionalidade no espiritismo, mas não a racionalidade individualista, liberal e psicologizante mas outra, ligada a uma vertente organizada da sociedade brasileira, mais conservadora, cujas bases sociais eram as camadas médias urbanas da população, de onde saíam os funcionários públicos, professores de escola, advogados, militares e médicos, profissões de tradicional expressão no espiritismo. Diferente de certas tendências psicologizantes e new age de parte das camadas médias urbanas da atualidade, uma das fontes do espiritismo de Chico Xavier, dos anos 40 aos anos 70, enraiza-se numa estrutura religiosa formalmente federativa e doutrinariamente ligada a uma visão corporativista de mundo social, próxima, portanto, do pensamento conservador que circulava na sociedade brasileira da primeira metade do século XX.
Ora, se essa concepção religiosa podia ser muito sedutora para setores organizados das camadas médias brasileiras ou mesmo da elite letrada, durante a primeira metade do século XX, ela ainda pouco ecoava entre pessoas que vivenciavam uma religiosidade popular, tão forte junto às faixas sociais subalternas da população, em boa parte marcada pelo catolicismo, pela benzeção e pelos cultos afro-brasileiros e que não dispunha de recursos culturais e simbólicos que lhe permitissem criar uma identidade espírita, mesmo que dela fizessem uso como recurso de cura. É justamente nesses setores sociais que o modelo de espiritismo de Chico Xavier alcançará um sucesso sem precedentes, não obstante a inegável liderança dos segmentos intelectualizados.
Essa dureza racionalista na concepção espírita de Chico Xavier ¾ de resto vinculada à concepção cármica de justiça ¾ é compensada pela força de sua composição com as crenças e práticas oriundas de um catolicismo familiar, de culto aos santos e à figura de Maria, transformadas através da moeda comum do circuito da intercessão e da graça, da relação personalizada com Jesus e com benfeitores espirituais, tudo isto numa construção eminentemente sincrética, ainda que nunca reflexivamente enunciada.
A relação do espiritismo de Chico Xavier com projetos de organização social e de identidade nacional é basicamente datada, circunscrita a conjunturas históricas específicas do Brasil antes e depois da Segunda Guerra Mundial, quando ocorre uma série de transformações sociais sem precedentes em termos de urbanização, industrialização e padrões da sociabilidade, incluindo-se o degelo da autoridade religiosa, fundada no antigo primado da Igreja Católica sobre a identificação da nacionalidade. Se o caminho pavimenta-se no sentido da pluralização das modalidades de crer e participar das religiões, o modelo de Chico Xavier ofereceu uma alternativa religiosa de pertencimento à sociedade brasileira com uma plena identificação com símbolos laicos de ordem, como a nação, bem como com estratégias de prestígio e distinção ligadas à posse de um capital cultural que valorizava a leitura, o estudo, a erudição e a ciência, de indiscutível valor no mundo contemporâneo. Ele viabilizou ao participante viver a integridade de uma relação com um ethos religioso tradicional pleno de hierarquias, mediações e súplicas a santos, mas também de se sentir participando do mundo da "alta cultura", dos saberes escolares, da erudição e dos conhecimentos científicos, ou seja, de tudo aquilo que goza da reputação social conferida pela cultura letrada.
Ora, é a dimensão de Chico Xavier como santo, letrado e informal, mas também caracterizado como "homem coração", que promete realizar uma série de sínteses que foram fundamentais para a implementação do espiritismo no Brasil do século XX. Em DaMatta (1979) a dimensão simbólica do coração é associada ao improviso do malandro, própria à vertente carnavalesca da sociedade brasileira. Em Chico Xavier o coração tem a conotação homóloga de um englobamento hierárquico da razão, mas sob a influência de um código religioso, indicando uma irrestrita abertura para o Outro, encarado basicamente como um "irmão". Ou seja, trata-se de uma alternativa religiosa à carnavalização, por meio de um estilo communitas ou fraternal de ultrapassar diferenças sociais e individuais sem inversão de ordem. Recusando a vertente carnavalesca na cultura brasileira e não havendo espaço para a criação de uma nova alternativa mediadora, o modelo de Chico Xavier sofrerá uma permanente oscilação entre os paradigmas culturais do "santo renunciante" e do "caxias", assim como o espiritismo oscila entre religião e ciência, entre o religioso e o secular e entre fato e ficção em sua literatura. O ethos hierárquico, fundado na face "religiosa" da doutrina ¾ pois a parte "filosófica" e "científica" nunca aboliu a verve deslegitimadora da razão crítica ¾, transita em Chico Xavier entre uma hierarquia relacional ligada à dádiva e outra, do mérito, ancorada na noção de justiça cármica. Trata-se, assim, de tentativas de composição religiosa e ética que expressem dilemas que não são apenas do espiritismo kardecista, mas da ordem da sociedade e da cultura brasileira no século XX.
Como racionalizar o mundo, como pregar a igualdade de todos, como ser moderno sem afrontar as hierarquias estabelecidas, de tão largas raízes no Brasil? Através da combinação de um ideal cívico de religião, combinando a ordem secular com a ordem transcendente, que não implicasse numa exacerbação da verve crítica ou atomizadora do individualismo moderno. Da mesma maneira que criou modelos de pessoa e de cidadão, a literatura de Chico Xavier formatou aos leitores o convívio interpessoal e institucional no chamado mundo espiritual. Ou seja, ao mesmo tempo em que reintegrou o secular num modelo religioso, contribuiu para dessacralizar o além.
Como ser moderno, letrado, científico e laico sem ser ateu, indiferente à caridade, "subversivo" e desprovido de valores? Como ser cristão sem ser católico num país sem uma massiva tradição protestante? Não apenas pregando as concepções de carma e de reencarnação como indistinção da ordem natural e da ordem sagrada, mas também conciliando alguns dos modelos modernos de autoridade e poder, como a encarnada pela burocracia, com a tradicional devoção aos mediadores, que trilham atalhos e personalizam a rigidez dos formalismos do mundo legal brasileiro, este transposto à condição de ordem transcendente no espiritismo, como se vê em Nosso lar. Conciliar o sistema relacional da dádiva com o sistema cármico da dívida, o país tradicional com o moderno, a hierarquia com a igualdade (ainda que sem o individualismo liberal), a tradição familiar e o corporativismo, a linguagem dos espíritos com o culto aos santos, o letramento com a humildade, o coração e a razão, eis as promessas de síntese embutidas no modelo mítico de santidade de Chico Xavier. Ler a matéria em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012001000100003&script=sci_arttext

Um comentário:

Mirze Souza disse...

Eduardo!

Acredito que Chico Xavier transcendeu ao espiritismo. Ele deixou em sua simplicidade, marcas de um líder. Não apenas espiritual e acho que ele nem tinha consciência disso. Mas deixou em suas palavras que repercutem até hoje, notórias passagens de solidariedade humana.

Não acredito na "cura", a não ser que seja apenas provocada por fatores psicológicos. Mas ele viveu tão dignamente e aceitou tão perfeitamente tudo que lhe acontecia, que seu exemplo de vida será permanente.

Um abraço

Mirze