quinta-feira, 29 de julho de 2010

Adam Smith

A ciência econômica é relativamente recente, tem pouco mais de 200 anos. Apesar disso, os antigos tratavam dela sem saber que era de importância fundamental para as relações humanas e sociais. Iniciou-se a Economia com Adam Smith, que poderia ser denominado de patrono da disciplina, já que foi este grande pensador quem lhe deu status de matéria e criou um pensamento sistemático e estruturado em torno dela, publicando a Riqueza das Nações em 1776, na Inglaterra.

Sem medo de exagerar, poderíamos dizer que a Economia é a "Rainha das Ciências Sociais", por ser ela fator determinante nas outras ciências sociais (Sociologia, Política, Estudos Sociais). Seu estudo se tornou obrigatório desde o segundo grau até a universidade. Consta nos cursos de Direito, Engenharia, Psicologia, Administração, Medicina etc... À análise econômica tem se acrescentado instrumentos estatísticos e matemáticos para torná-la mais precisa e, desta forma, poder fazer previsões com maior grau de certeza.

Adam Smith (1723-1790)

Retrato de um Professor Distraído.

"A única beleza que tenho se encontra nos meus livros", esta foi a forma pela qual Adam Smith descreveu a si mesmo. Certamente, o famoso perfil de sua fotografia nos mostra um rosto simples. Além do mais, Smith tinha uma curiosa forma de lento caminhar, cambaleando-se, que um amigo apelidou de "Vermicular" e era propenso a notórios acessos de distração. Esse professor distraído nasceu em 1723 na cidade de Kirkcaldy, na Escócia.

Kirkcaldy orgulhava-se de uma população de 1500 pessoas, e na época em que Smith nasceu, pregos ainda eram usados como dinheiro por alguns habitantes.

Desde os primeiros anos, Smith foi um aluno capaz e com futuro promissor. Era evidente que sua carreira tinha de ser o magistério e, por isso, aos 17 anos, foi para Oxford, graças a uma bolsa de estudos, fazendo uma viagem a cavalo, e ali permaneceu por seis anos. Mas Oxford não era, ainda naquela época, a cidadela do saber que mais tarde se tornou. Havia pouco ou nenhum ensino sistemático e os estudantes ficavam em liberdade para educar-se por si mesmos, contanto que não lessem livros perigosos. Smith quase foi expulso por possuir uma cópia do Tratado da Natureza Humana, de David Hume, um livro que hoje conceituamos como uma das obras de arte filosóficas do século XVIII.

Depois de Oxford, Smith regressou à Escócia, onde obteve o título de professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow. A Filosofia Moral cobria um amplo território na época de Smith. Temos apontamentos de suas conferências nas quais falava de direito, organização, impostos e "política". Nesta última palavra se referia à administração de assuntos domésticos, o que hoje denominamos Política Econômica. Em 1750 Smith publicou The Theory of Moral Sentiments, uma notável investigação sobre moral e psicologia.

Depois de regressar à Escócia, em 1776, Smith compôs lenta e cuidadosamente A Riqueza das Nações.

Quando concluiu a obra, enviou uma cópia a David Hume, de quem era grande amigo. Hume lhe escreveu: Euge! (bem feito em grego). Querido senhor Smith: estou encantado com o seu trabalho, você tem escrito uma obra que mudará para sempre o conceito que a sociedade tem de si mesma.

Adam Smith tornou-se famoso por sua obra mestra, Riqueza das Nações, publicada em 1776, ano da declaração de Independência dos Estados Unidos. Levando em conta todas as circunstâncias torna-se difícil saber qual dos documentos possui maior importância histórica. Na declaração de Independência se fez um novo chamado para criar uma sociedade dedicada à "Vida, Liberdade e à Procura da Felicidade". A Riqueza das Nações explicou como trabalha este tipo de sociedade.

A Filosofia de Smith

Devido ao mercado se regular por sua própria conta, Smith se opõe com veemência à intervenção do governo, que acabaria intervindo para satisfazer seu próprio interesse, prejudicando, desta forma, as forças da concorrência. É por isso que o “laissez-faire” (deixar fazer) se converte em sua filosofia fundamental, não porque Smith se oponha a idéia da responsabilidade social, e sim porque está convencido de que isto se conseguirá de forma mais eficiente através do mecanismo da mão invisível, e não por meio da intervenção do governo.

Sua defesa do laissez-faire não fez de Adam Smith um conservador comum, “A Riqueza das Nações” está cheia de comentários críticos sobre os meios ruins e rapinagem industrial. O livro simpatiza abertamente com os trabalhadores e se preocupa com eles, algo não muito popular na época de Adam Smith. Se Adam Smith defende com paixão o “Sistema de Liberdade Natural”, ou seja, o sistema baseado na liberdade econômica é porque ele acreditava que beneficiaria o público em geral e não os interesses mesquinhos de qualquer classe individual.

Smith na Atualidade

Torna-se evidente que Adam Smith escreveu sobre um mundo há muito tempo desaparecido. A fábrica de dez pessoas, ainda pequena, era tão importante na época que era tida como modelo. Nesse mundo, ainda havia vestígios das restrições mercantilistas, e inclusive feudais, determinando quantos aprendizes podia contratar um patrão. Os sindicatos eram considerados ilegais na sua maioria, quase não existia legislação social e a grande maioria da população era muito pobre.

Apesar disso, Smith captou os atributos fundamentais no sistema econômico que ainda não estavam completamente desenvolvidos na sua época:
1. Uma sociedade de pessoas competitivas à procura de lucro, que pudessem assegurar seu ordenado, fornecimento material, mediante o mecanismo auto-regulador do mercado.
2. Este tipo de sociedade tende a acumular capital e, ao fazê-lo, estimula sua produtividade e riqueza.

O interessante das observações de Smith é que muitas delas ainda são de grande relevância para o mundo moderno. Os economistas da atualidade ainda continuam sendo seus alunos.

Livro de Adam Smith: Riqueza das Nações
Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações


(...)
“O crescimento e a riqueza das cidades comerciais e industriais contribuíram para o melhoramento e o cultivo dos países a que pertenciam de três maneiras diferentes.
Em primeiro lugar, oferecendo à produção bruta do campo um mercado imediato e considerável, estimularam o cultivo e melhoramento do mesmo. Esse benefício não se confinou apenas aos países nos quais essas cidades se situavam estendendo-se em maior ou menor grau a todos aqueles com os quais mantinham relações comerciais.
Facultavam a todos eles um mercado para parte ou a totalidade da sua produção bruta ou manufaturada, estimulando consequentemente em todos eles a indústria e a agricultura. Era, no entanto, o país em que essas cidades se situavam que derivava desse mercado os maiores benefícios, em consequência da sua proximidade. Uma vez que o transporte da produção bruta vendida na cidade saía mais barato, os comerciantes podiam pagar por ela aos produtores um preço dos produtos originários de regiões mais distantes.
Em segundo lugar, a riqueza adquirida pelos habitantes das cidades era frequentemente investida na compra de terras que se encontravam à venda, a maior parte das quais estava por cultivar. Os mercados ambicionam geralmente tornar-se proprietários rurais e, quando realizam esse objetivo, fazem-no geralmente com grande eficiência. O mercador é um homem que está habituado a investir o seu dinheiro em projetos rentáveis, enquanto que o proprietário rural tem o costume de o gastar em despesas. O primeiro só abre mão do seu dinheiro quando vê que o recuperará com lucros; enquanto que o segundo, depois de abrir mão dele não espera tornar a vê-lo. Esses hábitos diferentes condicionam naturalmente o caráter e a disposição de um e outro em todos os assuntos de negócios. O mercador é geralmente um empresário ousado, o proprietário rural um empresário tímido. O primeiro não tem medo de investir de uma vez só grandes capitais no melhoramento das suas terras, desde que haja uma probabilidade grande de que o valor dessa terra se eleve proporcionalmente à despesa de que o valor dessa terra se eleve proporcionalmente à despesa com ela feita. O segundo, mesmo quando tem algum capital, o que nem sempre é o caso, raramente ousa investi-lo dessa maneira.”

Um comentário:

Mirze Souza disse...

Muito bom, Eduardo!

Ainda bem que era excelente aluna de Economia e que lia "livros perigosos". Claro que o estudo da Economia, com suas análises e gráficos, facilita o entendimento de diversas ciências.

Adam Smith, foi um exemplo de vida, numa época onde seu pensamento era singular, e portanto único. Conseguiu seguidores e um livro que deixa as marcas não só de suas idéias mas dos seus ideais.

Parabéns!

Um forte abraço!

Mirze

P.S. Estive ausente por uma semana.