terça-feira, 17 de março de 2009

Watergate- a queda do estadista

A operação conhecida como "o caso Watergate" veio colocar um fim inesperado num governo que conseguia grandes feitos na política internacional, como foi, por exemplo, a aproximação com a China.
por Rémi Kauffer

Richard Nixon anuncia a renúncia em 4 de agosto de 1974

Naquele domingo, 28 de maio de 1972, tudo parecia dar certo para Richard Nixon. Havia três meses, em 21 de fevereiro, o presidente americano tivera uma calorosa acolhida em Pequim, um turbilhão diplomático que os soviéticos, impotentes, foram obrigados a engolir. Em 8 de maio, exatamente 20 dias antes, apoiado por 64% dos americanos, Nixon tinha determinado a colocação de minas em Haiphong e em todos os portos norte-vietnamitas pela marinha dos Estados Unidos - uma pedra, ou melhor, uma bomba no jardim dos países comunistas. Russos e chineses não ousaram se mexer. Para coroar a situação, Nixon, primeiro presidente dos Estados Unidos a realizar uma viagem a Moscou, havia justamente acabado de obter com dificuldade um avanço significativo nas negociações Salt (Strategic Arms Limitation Talks) sobre a limitação dos armamentos nucleares. Nos Estados Unidos, o produto nacional bruto crescia 6,3% por ano; a inflação caía a menos de três pontos. Era tida como certa a reeleição do presidente republicano. Nixon e seu ministro das Relações Exteriores, "Dear Henry" Kissinger, tinham todas as razões para se vangloriar...

Naquele mesmo 28 de maio, pouco depois das 23 horas, uma equipe de funcionários do comitê para a reeleição de Nixon, teleguiada por um veterano da CIA, Everett Howard Hunt, e por um antigo integrante do FBI, Gordon Liddy, pagos com fundos da Casa Branca, entrou no sexto andar do Watergate Office Building, prédio de escritórios bem conhecido em Washington. Objetivo: o quartel-general da convenção democrata. Mais precisamente, o escritório de Lawrence O\\'Brien, adversário político de Nixon. Fotos foram tiradas, microfones foram colocados nos bocais dos aparelhos telefônicos. Os "encanadores" podiam comemorar: tudo havia dado certo. No dia seguinte, entretanto, Liddy, furioso, constatou o fiasco: não somente as fotos não estavam nítidas, como o telefone grampeado quase nunca era utilizado por O\\'Brien. Era preciso retornar a Watergate. E rapidamente.

Houve uma reviravolta em 17 de junho, por volta de uma hora da manhã: três agentes da polícia municipal de Washington, alertados pelo vigia noturno, surpreenderam cinco "encanadores" em ação. Bernard Barker, Virgilio Gonzalez, Eugenio Rolando Martinez, Frank Sturgis e James McCord. Hunt e Liddy não tardaram a ser presos. O escândalo Watergate estourou. Ele conduziria, em 7 de agosto de 1974, à renúncia pura e simples de Nixon.

Como se chegou a isso? Como o presidente dos Estados Unidos pôde cair de maneira tão sórdida?

Quando Nixon chegou à Casa Branca, em janeiro de 1969, a situação militar no Vietnã não estava boa. Com 549 mil homens em ação naquele país, o número de soldados americanos atingira seu ápice histórico. As perdas também: entre 300 e 450 mortos por semana! Era preciso levar a guerra a um outro terreno, menos favorável aos vietcongs. Sob as ordens do novo eleito, os bombardeiros gigantes B-52 começaram a atacar sistematicamente o Camboja. Oficialmente neutro, o país em grande parte nas mãos de comunistas, de vietnamitas ou do Khmer vermelho, servia de base de apoio para o exército norte-vietnamita. Atacá-lo significaria atingir o adversário em seu ponto mais vulnerável, acelerarando a repatriação dos soldados. Em compensação, os ataques constituíam uma violação das leis internacionais. Portanto, os bombardeios do Camboja deveriam permanecer secretos.

A cólera presidencial explodiu no dia 9 de maio de 1969, quando o jornal The New York Times revelou o segredo. Com a esperança de identificar o autor daquele "vazamento" catastrófico, uma série de escutas telefônicas de altos funcionários foi decidida, em nome da segurança nacional. O diretor do FBI, J. Edgar Hoover, garantiria a execução do plano. Seria o último serviço que aquela velha raposa entregaria ao presidente. Desprovido de caráter, Hoover possuía faro: ele compreendia que os cidadãos americanos não mais aceitavam a espionagem interna na qual ele mesmo havia se especializado desde 1924, data de sua ascensão ao posto de diretor da Polícia Federal. Pior para seu "velho amigo" Nixon, abandonado à própria sorte.

Felizmente, a "vietnamização" levou vantagem, com a retirada efetiva de dezenas de milhares de jovens americanos e a emergência de um exército sul-vietnamita muito combativo. Sobretudo, Nixon cultivou o grande objetivo que havia anunciado publicamente desde 1967, ele, o "caçador de vermelhos" da época da Guerra Fria: a ruptura da unidade comunista pelo reconhecimento oficial da República Popular da China. Com esse objetivo, contatos ultra-secretos foram feitos com Pequim. O assunto foi tratado com a máxima seriedade. Assim, sondou-se discretamente o jornalista de extrema-esquerda Edgar Snow, velho amigo dos comunistas chineses.

Snow, que Mao Tse-tung, à boca pequena, suspeitava ser um agente da CIA, a agência americana de informação. Também foram feitas sondagens junto a Owen Latimore, alto funcionário afastado 20 anos antes das Relações Exteriores em razão de sua simpatia pelos maoístas. Como Snow e todos os sinólogos, Latimore lembrou que os dirigentes chineses tinham horror à publicidade; qualquer anúncio intempestivo teria conduzido a uma ruptura imediata dos diálogos por mais de duas décadas.

Entretanto, no domingo, dia 13 de junho de 1971, o New York Times publicou trechos de vasto estudo de 7 mil páginas sobre o envolvimento americano no Vietnã, os famosos "Pentagon Papers". A um mês da viagem decisiva de "Dear Henry" à China, cercada pelo maior sigilo, aquele novo "furo" constituía uma verdadeira catástrofe. Se havia alguma possibilidade de negociação com Pequim, o projeto fora por água abaixo.

O inquérito sobre o vazamento das informações dos "Papéis do Pentágono" conduziu ao autor das revelações, Daniel Ellsberg, antigo colaborador do programa de pacificação da CIA no Vietnã.

Mas, por falta de provas, o homem, predileto da mídia, permaneceu intacto no plano jurídico. Nixon deixou então transparecer sua fúria, exigindo de seus colaboradores um trabalho mais eficiente, mesmo que fosse ilegal: "Não quero desculpas, quero resultados. Quero que seja feito, custe o que custar".

Em 9 de julho de 1971, Henry Kissinger passou secretamente pelo Paquistão para ir à China. No dia 14, às vésperas de seu retorno, Nixon e John Ehrlichman, seu assessor para assuntos internos, designaram um novo chefe para evitar vazamentos de informações secretas na Casa Branca. Seria David Young, um jovem advogado nova-iorquino. Cabia-lhe coordenar as escutas federais do FBI, o trabalho da CIA e o dos "particulares" recrutados a seu pedido. Três dias mais tarde, Egil Krogh, um conhecido de Ehrlichman, veio finalmente trabalhar com Young. Krogh convocou Gordon Liddy e Howard Hunt para dirigir a equipe "Ação" da Casa Branca. Os dois agentes seriam especialmente apoiados por cubanos anticastristas. Alojado em escritórios anexos à Casa Branca, o grupo deles, cuja missão era conter, de todas as formas, a divulgação de informações secretas, se apelidaria, pejorativamente, de "encanadores". Mas os "vazamentos" redobraram. Em 23 de julho de 1971, o New York Times tornou públicas as posições americanas nas negociações Salt de Helsinque. Nada mais inoportuno para colocar os diplomatas americanos em situação de inferioridade em relação a seus pares soviéticos. Temendo ver o resumo das negociações com Pequim aparecer estampado num dos jornais de uma hora para outra, Nixon e Kissinger ficaram cada vez mais preocupados. Se no último instante tudo saísse errado, seria o fim de uma oportunidade histórica. Com raiva dos resultados medíocres obtidos pelos "encanadores" no caso do dossiê Ellsberg, a Casa Branca se exasperava. Nixon queria muito fazer daquele alto funcionário "renegado" um "bode expiatório". Então, Hunt e Liddy intensificaram as operações: no mês de setembro, os "encanadores" arrombaram o apartamento de Lewis Fielding, o psiquiatra de Ellsberg, onde esperavam encontrar informações pessoais sobre o "traidor".

Mesmo com essas ações, o vazamento de informações continuava. Em dezembro de 1971, Jack Anderson revelou, ainda no New York Times, o conteúdo de vários memorandos do Conselho Nacional de Segurança a respeito da guerra indo-paquistanesa em Bangladesh. Documentos secretos falavam de um possível apoio militar americano ao Paquistão. Essas revelações valeriam ao jornalista Anderson o prêmio Pulitzer. Os "encanadores" foram então redirecionados para novas tarefas: provar - velha obsessão de Nixon -, que a campanha eleitoral democrata teria sido em parte financiada pelos cubanos. Assim, eles lançaram a operação Watergate, com os resultados já conhecidos.

A princípio, o caso passou despercebido. Mas, em dezembro de 1972, o Washington Post, outro diário de tendência liberal, revelou as relações entre os "encanadores" e a Casa Branca. Regularmente informados pelo famoso "Garganta Profunda", os jovens jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein fariam estourar o escândalo. Tudo indicava agora, apesar de todos os cuidados, que havia mais de um informante, todos republicanos, todos ligados a um membro particularmente ambicioso entre as relações de Kissinger. Um informante que o presidente e Henry Kissinger estavam a mil léguas de imaginar quem fosse. Isso levou Nixon, sob ameaça de impeachment, à renúncia.

Richard Nixon havia cavado sua própria sepultura. Entretanto, longe de se assemelhar a sua grotesca caricatura no filme de mesmo nome, de Oliver Stone, o presidente, esfolado vivo, fora, antes de tudo, um dirigente de grande envergadura. A bomba de efeito retardado, que ele havia plantado em 1972 com a conversão da China, explodiria 20 anos mais tarde, e seria então a URSS que desmoronaria.

Nixon, o homem da América dos humildes
Nascido em 9 de janeiro de 1913, em Yorba Linda, cidade campeã agrícola, vizinha de Los Angeles (Califórnia), foi por tenacidade, esforço e um gosto inato pela algazarra que Richard Milhous Nixon, autêntico filho do povo, conseguiu ascender na hierarquia social.

Seus pais tinham uma mercearia. Durante toda a infância, o menino acordava às 4 horas da manhã para comprar frutas e legumes no mercado de Los Angeles antes de ir para a escola às 8 horas. Dois irmãos seus, Arthur e Harold, morreram de tuberculose. Nenhuma semelhança com a colher de prata na boca de John Kennedy, filho de multimilionário que o venceria por 113 mil votos na disputa presidencial de novembro de 1960. Dinheiro, beleza, descontração, facilidade, sedução: tudo o que Nixon, pai de família irrepreensível, de físico ingrato, mandão, rabugento e, às vezes, maldoso, jamais havia possuído. Sua inteligência notável, sua rara compreensão da correlação das forças mundiais? A mídia sempre ressaltou essas qualidades.

Depois de lustrar sua imagem, a impressa passou a detestá-lo. Ele, que ela havia apelidado de "Trick Dick" ou "Dick Vigarista". E "Dick Vigarista" retribuiu cem vezes mais a gentileza e a ela dedicou completa hostilidade, "àqueles asquerosos" jornalistas, sempre prontos a cometer uma traição por uma boa história, aos esnobes da Ivy League, as grandes universidades elitistas da Costa Leste americana.

Vejam como foram injustos: antes de desaparecer, Kennedy colocou o dedo na engrenagem vietnamita, e foi ele, Nixon, quem teve de reparar os estragos! E os boys, que haviam retornado à casa com honras militares, foram o tema central de sua campanha eleitoral em 1968.

Enfim, cai a máscara do
Depois de mais de 30 anos acobertado pelo codinome "Garganta Profunda" (Deep Throat, em inglês, referência a um filme pornô dos anos 70), a lendária fonte do FBI que abasteceu os jovens jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal Washington Post, com informações sigilosas sobre o caso Watergate finalmente veio a público, desvendando o mistério que instigou a curiosidade de sucessivas gerações.

O enigmático informante era Mark Felt, segundo homem na hierarquia do FBI na época do escândalo, hoje um idoso de 92 anos, debilitado e com lapsos de memória. "Eu sou o cara que costumavam chamar de \\'Garganta Profunda\\', afirmou Felt a John D. O\\'Connor, advogado e autor do artigo bombástico publicado na revista Vanity Fair em maio de 2005. Depois de muito relutar, Felt aceitou quebrar o silêncio a pedido dos familiares, que não queriam que ele terminasse seus dias como um herói anônimo. Justiça histórica que ainda angariou dinheiro, com a venda do texto, para saldar dívidas da família.

Traidor da pátria ou justiceiro? Esse conflito cindiu a consciência de Felt por três décadas. Certa vez, desabafou para a filha: "Eu só estava fazendo meu dever". No entanto, a culpa o assombrava, já que um homem do FBI deveria ser fiel ao departamento, segundo sua ética de conduta. Enxergava seu papel dentro do governo com extremo patriotismo, por isso não sentia orgulho em ser um delator, mesmo em nome de uma causa nobre. Não sabia se após a publicação seria visto como um homem decente ou um desertor, e essa incerteza o inquietava. Além disso, receava ser processado por seus atos passados.

Se o segredo atravessou décadas incólume, foi graças à fidelidade jornalística de Bob Woodward para com sua fonte. Contudo, depois do furo da Vanity Fair, ele não teve outra escolha senão publicar o livro O homem secreto (Rocco, 224 págs., R$ 25,00), no qual escancara sua relação com o "Garganta Profunda". Sobre as motivações de seu informante, o jornalista lança duas possibilidades: a discordância em relação à corrupção e às artimanhas de Nixon para impedir investigações que envolviam a cúpula do governo e a decepção de não ter sido indicado para o cargo de diretor do FBI com a morte de J. Edgard Hoover semanas antes da invasão em Watergate. Ele ainda descreve o primeiro encontro dos dois, entre 1969 e 1970, numa ante-sala da Casa Branca, quando Bob era tenente da Marinha. Do acaso nasceu uma relação de confiança e interesse mútuos que, anos mais tarde, mudaria o curso da história americana, bem como da própria imprensa.

por Raphaella de Campos Mello

Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Revista Historia Viva

2 comentários:

Juliano Sanches disse...

Olá tudo bom.

Casos políticos como esse, graças aos jornalistas, tiveram um desfecho. Claro que, em alguns, o desfecho teve seu lado sangrento. Mas, há motivos para comemorar os desfechos da história. O caso Collor, por exemplo, foi um alívio à humanidade. E os jornalistas trabalharam muito para que os fatos chegassem ao conhecimento do povo. Salve os jornalistas! Salve os historiadores! Salve os músicos de protesto! Salve o povo lutador! Saravá...

Abraços.

Isabel Branco disse...

Eduardo

Watergates continuam todos os dias em escândalos públicos e corrupção constante. Felizmente, casos cada vez mais dificeis de disfarçar ou encobrir. Porém, cada vez mais ardilosos...continuam a levar tanta gente e tanta causa em arrastamento.

Um beijinho.