sexta-feira, 16 de abril de 2010

O discurso anticomunista católico e as imagens da Guerra Civil na Espanha: ordem x desordem (parte 1)


O discurso anticomunista católico e as imagens da Guerra Civil na Espanha: ordem x desordem

Marco Antônio Machado Lima Pereira
Graduado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Mestrando
em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP/
Franca). E-mail: mamlpereira@hotmail.com

Resumo:
O cerne desta proposta é apresentar algumas reflexões advindas da análise qualitativa da produção de artigos/matérias veiculados pelo periódico católico O Santuário, sobretudo com relação ao advento da Guerra Civil Espanhola. Além disso, parte integrante deste trabalho consiste em estudar e entender o fenômeno do “engajamento” político da Igreja no Brasil.

Introdução

A guerra civil espanhola chamou atenção das lentes do mundo inteiro, sobretudo da Igreja Católica, merecendo destaque em diversos artigos/matérias publicados pelo Santuário ao longo do ano de 1936. Levando em conta as considerações de Kowalewski e Greil, durante a guerra civil a hierarquia da Igreja Católica Romana esteve profundamente envolvida ao conferir legitimidade e apoio aos generais que se opunham ao regime republicano, em decorrência do seu caráter ateu e anticlerical (KOWALEWSKI & GREIL, 1990: 518). Diante deste quadro, conforme a perspectiva destes autores, a Igreja então encontrou uma maneira para justificar uma revolta contra o regime republicano que revogou o benéfico e mútuo contrato entre Igreja e Estado. Vale sublinhar que Kowalewski e Greil entendem como contrato social o acordo tácito ou explícito por meio do qual a Igreja dialoga com o Estado através da política, da economia, das normas sociais, via serviços religiosos, educação e, por conseguinte, pela não interferência estatal e/ou auxílio nas atividades religiosas (KOWALEWSKI & GREIL, 1990: 516-517).
Ademais, o grau de estabilidade do contrato social estatuído entre a hierarquia eclesiástica e o Estado influencia de forma decisiva a organização religiosa, bem como a identificação e/ou dependência da Igreja em relação ao regime político. Para colocar à prova suas observações, os autores sustentam que a rebelião mexicana e a Guerra Civil Espanhola representam instâncias contra-revolucionárias, nas quais as igrejas rejeitaram os regimes institucionais. Por sua vez, tais regimes removeram as organizações religiosas das posições de influência. Dito isto, quando focamos nossa análise nos artigos/matérias publicados a respeito da Guerra Civil Espanhola em 1936, notamos que o grau de atenção das autoridades eclesiásticas em relação ao comunismo se acentuou consideravelmente. Como disse o historiador Pierre Vilar:

A Espanha do século XX herda do século XIX graves desequilíbrios; sociais: vestígios do antigo regime agrário, estruturas incoerentes da indústria; regionais: um desenvolvimento desigual opõe, mental e materialmente, no seio do Estado, antigas formações históricas; espirituais: a Igreja Católica mantém uma pretensão dominadora, à qual responde um anticlericalismo militante, político-ideológico em uma certa burguesia, passional nas massas populares anarquisantes. É o peso desses problemas que é preciso medir antes de mais nada (VILAR, 1989: 11).

Para Pierre Vilar, a Guerra Civil Espanhola foi com uma certa freqüência descrita como uma guerra de religião. No entanto, o autor acredita que o conflito de 1936 não foi gerado pelos contrastes culturais e, simultaneamente, pelos choques doutrinais entre, por exemplo, as convicções católicas e o ateísmo militante dos anarquistas:

A imputação ao espiritual existe. Mas o que conta, por intermédio do fato político, são as reações passionais aos temores e às esperanças sociais. Com a intervenção daquilo que chamamos ‘causalidades diabólicas’. Por um lado, só vimos pretensos servidores de Deus defendendo o capital e o Antigo Regime, por outro lado, os inimigos de Deus organizando a Revolução. Observemos, contudo, no campo conservador, a utilização de uma fórmula que é bem do século XX: aquela do ‘complô bolcheviquejudeu-maçônico’, o segundo termo aparecendo com a progressão das influências fascistas (VILAR, 1989: 24).

Em seguida, o autor atesta que “a violência interna das lutas de classe e os hábitos espanhóis (não digo o temperamento) são amplamente suficientes para explicar o desencadeamento do conflito” (VILAR, 1989: 42), embora no que diz respeito a sua extensão e duração não se possa dizer o mesmo. Segundo Vilar, entre 1931 e 1933 a Igreja pôde sentir-se de fato ameaçada na sua situação dominante tradicional, e em seus próprios princípios, nos seguintes aspectos: pela proclamação da liberdade religiosa dos cidadãos; pela separação das Igrejas e do Estado; pela legalização do divórcio; pelas leis sobre as congregações e a escola, que acabavam com a identificação entre o Estado espanhol e a doutrina católica (VILAR, 1989: 25-26). Diante desse quadro, não surpreende que a hierarquia católica, ante a perseguição dos padres e da proibição do culto em zona republicana, tenha pregado a “cruzada” em nome do “nacional catolicismo”. Em conformidade com o autor, na Espanha, a Igreja Católica sempre se confundiu com as classes dominantes, levando em conta que, mesmo sem tomar parte materialmente na insurreição, a instituição eclesiástica assegurou sua logística (VILAR, 1989: 69-70).
O relato do escritor George Orwell, em sua obra Lutando na Espanha, nos revela com acuidade o aspecto político da guerra. Exemplo de intelectual engajado, Orwell pertencia a uma milícia ligada ao Partido Operário de Unificação Marxista (P.O.U.M), que fazia oposição ao stalinismo e, outrossim, pretendia modificar alguns pontos da doutrina marxista. Para o escritor, “ao irromper a luta em 18 de julho, é provável que todos os antifascistas na Europa tenham sido tocados pela esperança, pois ali, finalmente, pelo que parecia, a democracia punha-se de pé contra o fascismo” (ORWELL, 1967: 53). A proposta de Franco era derrubar um governo à esquerda do espectro político, através de um motim militar apoiado pela aristocracia e pela Igreja. Em contrapartida, acredita Orwell, Franco tinha contra si não só a classe trabalhadora, mas também setores da burguesia liberal. A resistência da classe trabalhadora foi acompanhada, nos dizeres do autor, de uma “explosão revolucionária definida”, “a terra foi tomada pelos camponeses e muitas fábricas, bem como a maior parte dos meios de transporte, caíram em mãos do sindicato. As igrejas foram destroçadas e os sacerdotes expulsos ou mortos” (ORWELL, 1967: 54). Segundo Orwell, o jornal Daily Mail, de projeção internacional, sob pressão do clero católico, chegou a apresentar Franco como patriota que libertava o país das hordas e “vermelhos demoníacos”. A proposta era utilizar mais um momento histórico como chamariz da concretude maléfica atribuída ao comunismo, como visualizamos a partir do excerto a seguir, retirado de uma matéria do jornal católico O Santuário:

A guerra civil na Espanha que tem suspensa a attenção do mundo inteiro é muito mais do que uma simples revolução parcial, do que um movimento patriotico nacional; é o choque entre duas grandes ideas, é a luta de vida ou de morte entre dois princípios: a autoridade e a ordem de um lado e a tyrania e a desordem de outro. É a civilisação cristã, que creou a organisação e a ordem social atual e o neo-paganismo, que quer implantar novamente o chaos e destruir a dignidade e soberania do homem.1

A cobertura da guerra civil espanhola n´O Santuário

Importante enfatizar que as notícias a respeito das “barbaridades” praticadas na Espanha pelos comunistas dominaram as páginas do jornal, sempre apontando aspectos negativos dos mesmos. O argumento central residia nas ações dos “vermelhos”, acusados de atentar contra padres, freiras, igrejas e conventos. Outro ponto que exasperava as autoridades eclesiásticas era a ajuda fornecida por países como Rússia e França no envio de armas e munição em auxílio do governo espanhol. Não só: “Se o povo brasileiro não perseguir e capturar essas féras, que se denominam extremistas, teremos um mar de sangue e lama a alagar nossa pátria”.2
Levando em conta tais considerações, se faz necessário recorrermos novamente às observações de Pierre Vilar:

A guerra civil determinou, nos dois campos, paradoxos e contradições. O espírito de pronunciamento3 era socialmente conservador, ideologicamente antiliberal (no sentido do século XIX). Para alguns setores, no campo republicano, ter vencido o exército abria caminho para uma revolução. Mas, na atmosfera dos anos 30, convinha às autoridades sublevadas, para tranqüilizar o povo e para não chocar o mundo, se denominarem ‘sociais’ sem pronunciar a palavra ‘fascismo’; convinha às autoridades republicanas limitar os tumultos sociais, para escapar a suspeita de bolchevismo. Aliás, precauções inúteis: a opinião mundial se dividiu, salvo exceções limitadas, entre aqueles que viram na República espanhola a liberdade, lutando contra o fascismo, e aqueles que viram, rapidamente encarnados em Franco, os velhos valores (religião, família, pátria) servindo de alvo às ameaças de Moscou (VILAR, 1989: 75).

Amparados pelo relato de um certo deputado espanhol, o jornal O Santuário não poderia deixar de reproduzir e, ao mesmo tempo, considerar o saldo das ações desencadeadas pelos comunistas entre 10 de fevereiro a 02 de abril de 1936, ou seja, antes de irromper a Guerra Civil, para validar as impressões negativas referentes ao campo republicano:

Assaltos – 58 sédes de partidos; 72 edificios públicos e particulares; 33 só a casas de habitação; 36 a igrejas destruindo tudo. Incêndios – 72 em séde de partidos; 45 em edifícios públicos e particulares; 15 em casas de habitação; 106 em igrejas das quaes 56 arderam por inteiro. Greves geraes – 11; Desordens sangrentas 169; fuzilamentos 36 – Attentados a tiro 85 – á bomba 24 – feridos 345 – mortos 74.4

Os líderes católicos no Brasil e no mundo ficaram perplexos diante das notícias provenientes do cenário político espanhol, uma vez que “os horrores praticados na Hespanha e na Rússia superam tudo o que o mundo presenciou até agora. Tudo faz prever coisas ainda piores”.5 Seguindo o discurso católico, as ações empreendidas pelos comunistas espanhóis foram “[...] talvez ideadas e executadas por alguns poucos”, contudo, “[...] é certo que as horríveis depredações e profanações de igrejas, os ataques infames aos conventos e seminários foram praticados por centenas e milhares de pessoas”.6 Outro indício da preocupação dos católicos, exacerbada pelo contexto espanhol, sobretudo no Brasil, foi a conferência sobre o comunismo realizada na Academia Brasileira de Letras por um certo padre Fallon, catedrático da Universidade de Louvain [Bélgica], onde o orador “affirmou prescindir de tratar das monstruosidades, das iniqüidades, dos factos revoltantes, que se dão na Rússia. Preferiu se ocupar da maneira porque a dictadura tudo obteve do povo russo”.7 Provocando uma reação violenta da parte dos católicos, a grande maioria das matérias enfatizava que os atos cometidos pelos “extremistas” [no caso, os comunistas] foram
idealizados e executados por uma minoria, o que contribuiu para a divulgação de uma imagem deturpada dos republicanos - uma frente reunindo socialistas, democratas e comunistas, contando com o apoio instável dos anarquistas - apresentados simplisticamente como “comunistas” (MOTTA, 2002: 21). Para o padre João Batista, vivia-se uma alucinação coletiva:

Ao lermos as notícias das atrocidades que os communistas hespanhoes há trez mezes estão commettendo, ficamos extremamente horrorisados e concordamos em dizer que isto é mais que crueldade deshumana, é mais que ferocidade bestial, é maldade diabólica: é somente por instigação do demônio que podem chegar a estes extremos de perversidade.8

Neste artigo/editorial o comunismo é mais uma vez tratado como patologia,9 visto que o padre João Batista prescrevia a educação religiosa como o único medicamento eficaz no combate à “ideologia malsã”. Não obstante, padre João Batista acrescenta:

É, por conseguinte, dever de todos, lutar contra o communismo, reagir contra a propagando, condemnar sua acção, prevenir e esclarecer os que estão em perigo ou já foram contagiados, ajudar a formar pela palavra e pela imprensa uma atmosphera de reprovação decidida do communismo, apoiar o combate das autoridades religiosas e civis contra elle. Quem se conserva indifferente mesmo perante o perigo communista e a vista de suas horriveis ameaças contra a Religião, é certamente do numero dos que N. Senhor disse que os cuspirá de sua bocca.10

O receio dos católicos não arrefecera, na medida em que o retrospecto da segunda metade do ano de 1936, com a deflagração das lutas na Espanha, trouxe temor e mesmo revolta aos católicos. De um lado, temor pelas estratégias do comunismo, que avançava pela Europa, tendo como alvo uma nação católica. De outro, revolta diante dos atos antireligiosos atribuídos aos comunistas espanhóis. Dito isto, o artigo/editorial que substancialmente realça os horrores cometidos pelos comunistas espanhóis merece ser aqui destacado:

Atrocidades e abominações sem nome continuam maculando a infeliz Hespanha. A luta sanguinária e feroz que lá se vae desenvolvendo, em lances de uma dramaticidade até hoje inconcebível, está revelando ao mundo estupefacto e aterrorizado a fúria satanica, os instinctos barbaros, o coração perverso e a alma immunda dos adeptos do credo bolchevista. Demônios em figuras humanas. Agentes do inferno, despojados de todos os sentimentos de humanidade. Campeões universaes do crime e da barbaria. Creaturas nefandas, que deviam ser relegadas entre os tigres e as hyenas.11

Interessante também mencionar o processo de “demonização” do comunismo levado a efeito por este órgão católico”, mediante o emprego de expressões: “Demonios em figuras humanas” e “Agentes do inferno”. Torna-se plausível efetuar esta identificação, já que num convento, localizado entre Barcelona e Harabel, “[...] 30 religiosas foram despidas e deixadas nuas por homens que conduziam, em uma bandeija, varias cabeças de padres (narração feita por uma das victimas, uma jovem freira de Assumpção, ao jornalista francês René Lignac, redactor do ‘Jour’)”.12

Revista de História da UNICAMP

Um comentário:

Mirse Maria disse...

Impressionante, Eduardo!

às vezes penso que ainda não saimos desta busca incessante entre a Igreja católica, e as guerras.

Como grande admiradora de Orwell, li uma outra parte que desconhecia do autor do livro "The Big Brother".

Muito interessante essa postagem!

Beijos

Mirse