quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM (final)


RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII
Mary Lucy Murray Del Priore

Esta estranheza diante da distante diversidade, longe de favorecer o desabrochar de um olhar objetivo, revelou-se para a cristandade como o mais íntimo dos espelhos: aquele dos seus próprios desejos individuais e de seus sonhos coletivos.
Distante ou próximo, diz Nicole Pellegrin, o Outro é permanentemente aquele que está vestido de forma diversa. E isto em um tempo em que a veste, não contente de distinguir o animal do homem, torna-se também um costume e elemento fundamental de discriminação social e cultural. A representação da nudez dos americanos, ou a escolha de seus objetos vestimentares, reporta- se à influência da dupla herança, bíblica e mitificante, que estrutura, então, a cultura européia e cristã. Não é necessário lembraras quatro significações simbólicas que a teologia medieval emprestava à nudez (naturalis, temporalis, virtualis, criminalis) para explicar os julgamentos contraditórios sobre a nudez dos americanos estampada nas representações iconográficas dos mapas. A insistência e a ambivalência destes julgamentos são o fruto de uma obsessão onde coabitam tanto a idéia de uma nudez vergonhosa, devido ao impudor e à indigência, quanto aquela, motivada pelas descobertas greco-latinas no Renascimento, de uma nudez gloriosa, símbolo de inocência ou de humildade.
Entre o sonho da Idade de Ouro e o fantasma da besta brutal, a realidade dos costumes indígenas arriscava-se a fecundar o tema culturalmente valorizado na Europa, de corpos nus e
bem proporcionados, mas as escassas penas que cobriam as chamadas partes pudendas acabaram por introduzir uma irredutível deformidade e também uma uniformidade no despudor.
Numa época de releitura da Bíblia, devido às Reformas, poderiam seres marcados pelo pecado original andar nus sem infringir as leis de Deus? A quase nudez dos americanos não os aproximaria da seita herética adamita, condenada tanto por protestantes quanto por católicos?
As alegorias sobre a América e seus habitantes sublinhavam a parcimônia com que as informações chegavam à Europa. Ao visualizar sob formas sintéticas a aparência de sociedades
inteiras, elas colocam em evidência um sistema iconográfico que revela menos as diversas formas de viver dos vários grupos que povoavam o Novo Mundo do que os reduzidos estoques de imagens de que dispunham os ateliers de impressores entre os séculos XVI e XVII.
No imaginário ocidental o índio nu e emplumado reemerge no fim do século XVIII, depois de atravessar um purgatório de ballets à fantasia que pontilharam as suas aparições nas cortes européias no período anterior. Sua presença nas vinhetas e alegorias, todavia, não teve por finalidade fornecer, na sua totalidade, os materiais de um verdadeiro conhecimento do outro entre os séculos XVI e XVII. Evocando a bizarria humana, sua diferença trabalhava para a única Ciência digna deste nome, aquela que procurava encontrar, através das coisas, a vontade de Deus.
Uma vinheta num mapa de Josua Van Ende (1640) permite uma observação mais acurada do tipo de leitura que se fazia: gesticulando, uma fila de homens segue um índio que bate um tambor em direção a um pequeno santuário com uma abóbada arrendondada. Em seu interior, índios em transe oficiam diante de um ídolo que sustentava várias cabeças de animal.
Ao fundo, homens enterram um morto. A volta, mulheres acocoradas choram. A aldeia é constituída por palhoças arredondadas. Um guerreiro observa a cerimônia. Sentados sobre um banco rústico, selvagens conversam. Ao centro um homem está ajoelhado e de sua cabeça escorre matéria encefálica. O carrasco brande a borduna. Outro índio lança-se, arco em punho e
aljava nas costas, em direção a um grupo de selvagens. Estes estão avaliando a coragem de um prisioneiro que, embora amarrado pela cintura, atira uma pedra ao seu sacrificador. A golpes de
borduna e entre chuvas de flechas, selvagens guerreiam. Feridos agonizam pelo chão.
Ameríndios desmembram um morto e cada qual toma a sua parte. O escalpo desta vítima será retirado depois que um guerreiro enfiar-lhe uma flecha no ânus. Próximo à grelha, um homem agachado aviva o fogo, e todos à volta mastigam carne humana. A sombra de uma árvore, protegida por uma rede em dossel, América observa a cerimônia de canibalismo. Seus cabelos estão amarrados numa longa trança, colares de pérolas pendem de seu pescoço e tornozelos, nas costas uma capa curta de penas. Na mão direita segura o 'Iupã, maça cerimonial, reconhecível por pequenas penas fixadas na parte inferior do punho. A seus pés, o chão está juncado de diferentes capacetes e chapéus que representam as variadas nações que povoaram a América, somados a diversas armas e ornamentos de plumas e penas. Vê-se ainda um como através do qual os índios chamavam-se para a guerra e urna cabeça humana decapitada trespassada por duas flechas. Na mão esquerda, América traz seu arco. Seminua, está sentada sobre um gigantesco tatu.
A imagem permite a descoberta de um Outro absoluto. Aquele sobre cuja antropofagia Montaigne já tinha escrito. Nesta vinheta o ameríndio não é apenas aquele cuja aparência física, mores, vestes, vida social, religião não têm nenhum ponto comum com os cristãos da Europa.
Ele é definitivamente o Outro, cuja presença nem os antigos greco-latinos nem a Bíblia invocavam, diferentemente do africano e do asiático, velhos companheiros de comércio e de trocas. Nestes, o estranhamento ou a “barbárie”, a diferença e a “inferioridade” comportavam níveis conhecidos. O Outro americano, a despeito da bula Sublimis Deus de Paulo III, promulgada em 1537, conferindo-lhe o status de ser humano, estava na consciência comum e no imaginário coletivo europeu mais próximo da besta selvagem, por nutrir-se de carne humana. Contrariamente ao “bárbaro”, que a tradição humanista e a Antiguidade mediterrânica tinham de alguma maneira assimilado, conferindo-lhe um status no seio de uma dialética lingüística e sócio-cultural, o selvagem americano é o primitivo que vive no seio de uma natureza exuberante e virgem, ignorando as leis mais elementares da sociedade, sobretudo, da sociedade urbana, modelo europeu de sociedade e de sociabilidade. Ele não conhecia a comunidade familiar, era incapaz de falar ou empregar uma linguagem de comunicação, e, em resumo, melhor seria que constituísse um capítulo à parte, num livro de História Natural, de Mirabilias et Monstra ou de singularidades. O americano, do qual a alegoria da América é uma representação, faz jus ao texto simbólico e sintético do Atlas que Abraham Ortelius editou em 1568:


“Celle qui tout en bas sur la terre couchée
Toute nüe tu vois de plumettes coiffée
Ayant en l’une main le chef d'un homme mort
Et l'autre le baston, d'ont elle fait l'effort
Meurdrissant les humains d'une cruauté grande,
Les corps desquelz apres lui servent de viande;
Ayant dessus le front une pierre de pris,
Dont elle en a tout plein en sa terce et poupris,
Nous representons icy l’Amerique l'avare;
La gourmande par trop inhumaine et barbare
Les plumes sur son chef et gemmes sur son front,
Autour la greve encor des sonnettes en rond
Son tous les ornements dont elle se decore.
Ell’manie souvent l’arc et flesches encore,
Par lesquelles souloit les pouvres gens navrer,
Pour (comme je t’ay dit) desmembrer et manger
Puis, pleine de la chair des hommes, qu’en Ia chasse
Elle a prins et tuez, et de Ia chasse lasse'
S'en va dormir dessus un harnas estendu
A deuz arbres voisins, où elle 1’a pendu”


Nos textos escritos ou iconográficos observa-se o empobrecimento temporário que acompanhou os valores humanísticos no fim do Renascimento. A Igreja Católica, por seu turno, colocando as artes a serviço da moral e do dogma, ensejava que se lesse a nudez e a antropofagia americanas como mais uma razão para a catequese. A presença de tais representações na iconografia cartográfica era a prova lógica da existência de primitivismo nas terras do Novo Mundo, mas tais imagens sublinhavam também a energia retórica e o poder de legitimação conferido aos mapas na idade moderna. Figurado nas cartas geográficas, o ameríndio deixa de ser sujeito humano para constituir-se em objeto de saber europeu e cristão.
Sua nudez é aquela da fé e da lei. O olhar que lançam sobre ele é o de um colecionador de curiosidades. Na Wunderkammer que possuía Montaigne em seu Chateau, exibia-se uma invejável americana composta por redes, maças, bastões de ritmo e artefatos de penas.
A alegoria da América, o ameríndio e seus petrechos, depois de sofrerem a inevitável deformação dos quadros mentais europeus, saltam dos mapas para outras obras de arte.
Circulam na cultura do Velho Mundo associados à inferioridade técnica, à bestialização e, conseqüentemente, à escravidão. São sempre representados de acordo com os objetivos europeus de exploração e catequese. Michelangelo os insere no grupo do Juízo final pintado na Capela Sistina, próximo ao altar mor. É Fidelino Figueiredo quem descreve: “Um moço vigoroso levanta para os céus, isto é para o mundo da salvação, com toda a energia mas sem constrangimento no esforço dois homens etnicamente exóticos: um negro e um índio, este em hábito eclesiástico. Não lhes dá a mão diretamente, levanta-os pelo rosário a que eles se apegam, como náufragos se afincam no cabo que lhes estendem...”
Frans Francken, num quadro sobre a abdicação de Carlos V, retrata a alegoria da América de joelhos, entre tesouros e um tatu. Araras, papagaios e macacos freqüentam as “festas campestres” pintadas por Dirck Hals ou as gravuras de Jean de Mes. As faianças de Delft, ilustradas por autores anônimos, traziam africanos vestidos à americana. O luxo vestimentar aderiu às cores rutilantes, às plumas e aos rosários de pequenas conchas. Nume festa realizada por Luís XIV em junho de 1662, o Duque de Guise conduziu puma quadrilha de “americanos”, vestidos com peles e galhos de pau-brasil, trazendo às mãos pesadas e mortais bordunas. Israel Silvestre e François Chaveau, encarregados de transportar para gravuras coloridas com guache o famoso Carrousel que se formara, faz acompanhar os bizarros ameríndios por sátiros e um unicórnio, como se todos, indistintamente, pertencessem a uma terra imaginária.
Montaigne perguntava: “Ya-t-il rien de plus conforme a notre nature que d'aimer le changement et de se plaire à la diversité?”
A diversidade serviu para semear, nesta invisível paisagem de idéias que eram os mapas modernos, o retrato de uma América diferente, cuja diferença era sinônimo de perigo e estranhamento. Este “retrato da América quando jovem” foi pintado com traços e imagens que
procuravam convencer o leitor, cristalizando representações e ensinamentos polêmicos, discretos ou explícitos sobre o que seria o Novo Continente. Atrás de tais imagens, a cristandade européia projetava-se como superior, poderosa, remida pela fé e consagrada pelo avanço técnico. Longe da visão romântica que os pintou tio século XIX como se fossem feitos de “astros e éter”, os ameríndios são apreendidos, entre os séculos XVI e XV111, como inumanos, bárbaros, avaros e gulosos. A descoberta, a que se referia inicialmente um entusiástico La Popelinière, transformou-se através dos mapas e cartas geográficas num misto de espanto, desprezo e horror.


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Mary Del Priore é professora do Departamento de História da USP


Revista Estudos Históricos - CPDOC-FGV