sexta-feira, 18 de março de 2011

TARSILA DO AMARAL - "Quero ser a pintora da minha terra."

A Negra - TARSILA DO AMARAL
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Foi assim que Tarsila do Amaral definiu uma vez sua ambição nas artes do Brasil. E é assim que, hoje, o seu trabalho é reconhecido. Uma das principais artistas modernistas brasileiras, Tarsila do Amaral nasceu em 1º de setembro de 1886, em Capivari (São Paulo), no casarão da fazenda São Bernardo.

De tradicional e rica família de fazendeiros paulistas, filha de Lydia Dias do Amaral e José Estanislau do Amaral Filho, Tarsila estudou em São Paulo, no tradicional colégio Sion, e depois, em 1902, no colégio Sacré-Couer, em Barcelona (Espanha).

Em 1904, fez sua primeira viagem a Paris (França), cidade que seria fundamental na sua formação artística. Voltou ao Brasil em 1906 e se casou com André Teixeira Pinto, primo de sua mãe, com quem teve sua única filha, Dulce.

Tarsila começou seus estudos de pintura em 1917, com o acadêmico Pedro Alexandrino. Três anos depois, após estudar escultura, desenho e pintura com diversos artistas brasileiros, voltou à Europa com a filha. A menina ficou interna no Sacré-Couer de Londres (Inglaterra) e Tarsila fixou residência em Paris.

Lá, cursou a Academia Julian, tomou contato com as vanguardas européias e frequentou os ateliês dos cubistas André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes. O primeiro casamento acabou nessa época, devido ao ciúme do marido. De volta ao Brasil, em junho de 1922, Tarsila manteve contato com Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia, com os quais formou o chamado "Grupo dos Cinco", grupo responsável pelo início do modernismo no país. No ano seguinte, casou-se com Oswald de Andrade.

Ainda em 1923, pintou o quadro "A Negra", que se aproximava do cubismo e era considerada a primeira manifestação do que viria a ser o movimento Pau-Brasil. Voltou a Paris e frequentou com Oswald o circuito artístico local, mas convenceu mais por sua beleza que por sua arte. "Bem curiosa essa belíssima fêmea brasileira que pretende pintar negros monstruosos com cores suaves", escreveu o pintor futurista italiano Luigi Russolo a uma amiga.

Em 1928, Tarsila pintou aquela que se tornaria sua mais conhecida obra, "Abaporu". A tela, um presente para o seu então marido, foi entregue na data de aniversário de Oswald, 11 de janeiro, ainda sem nome. Extasiado com a beleza da tela, Oswald chamou seu amigo modernista Raul Bopp e, folheando um dicionário de Tupi de Tarsila, encontraram o nome que batizou a tela e que significa "o homem que come carne".

O quadro, mais próximo do surrealismo, é considerado um emblema do movimento antropofágico brasileiro. O casamento com Oswald terminaria em 1930, quando ela descobriu que ele a traía com Patrícia Galvão, a feminista Pagú. Depois, se casou com um médico que a iniciou nas hostes do Partido Comunista —Tarsila chegou a passar um mês na cadeia por ter feito uma viagem à Rússia.

Por último, Tarsila casou-se com um jovem crítico de arte, 20 anos mais novo que ela. Tarsila foi também escritora. Suas primeiras crônicas para os "Diários Associados" datam de 1936. À época, a pintora lutava para reaver a fazenda da família, hipotecada por causa do crack de 1929, e contra as dificuldades financeiras resultantes. Ela manteria a atividade por 20 anos. No fim da vida, acometida por um câncer e presa à uma cadeira de rodas por problemas na coluna, mantinha-se entretida estudando grego antigo e recitando poesias.

Morreu, por complicações do câncer, em 17 de janeiro de 1973 e foi enterrada de vestido branco, como era seu desejo. Em 1995, o colecionador argentino Eduardo Constantini arrematou, em leilão, a tela "Abaporu" por US$ 1,3 milhão, na Christie's, casa de leilões de Nova York (EUA). É até hoje o valor mais alto pago por uma obra de arte brasileira.
Folha de S.Paulo

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