domingo, 17 de abril de 2011

A emancipação da África Negra

Desigualdade e autoritarismo nos países independentes da África
João Luís de Almeida Machado

Imagem-em-preto-e-branco-de-menino-negro-em-meio-a-entulhos
As mazelas sociais africanas permaneceram mesmo após a saída das metrópoles
européias que dominaram o continente até a década de 1960. As novas lideranças
iniciaram brigas internas ou aliaram-se ao capitalismo internacional e mantiveram
a exploração das riquezas locais concentrada nas mãos de poucos.

O final da Segunda Guerra Mundial criou um clima amplamente favorável a democracia e a emancipação dos países que ainda estavam sob o jugo colonial de nações estrangeiras. A vitória no confronto com os nazistas liderada pelos Estados Unidos, Inglaterra e França trazia no seu bojo o claro constrangimento das nações européias. Esses países da Europa, que proclamavam em alto e bom tom o seu ideário liberal e democrático, ainda se valiam do domínio sobre territórios africanos e asiáticos para aumentar suas riquezas e fortalecer suas economias.

Isso aumentava ainda mais as dificuldades internas dos países africanos em busca de emancipação e estabilidade política e econômica. Até mesmo em países que teoricamente estavam mais preparados para realizar a transição da posição de colônias para a de países livres, como eram os casos do Quênia e da Nigéria (ex-colônias britânicas) ocorreram muitos problemas.

O Quênia, país pobre situado na África Oriental, caracterizado por um território sem água, em que as terras são estéreis, tinha enormes problemas em setores básicos como a produção e a distribuição de alimentos. Suas poucas áreas propícias ao desenvolvimento de culturas agrícolas situam-se na região sul do país, na proximidade do Oceano Índico.

Se não bastasse essa penúria, o Quênia também sofria com os conflitos internos causados por algumas de suas tribos, como foi o caso da Rebelião Mau Mau (1952). Esse imbróglio foi causado pelos membros da tribo Kikuyu, que se organizou numa organização terrorista que atuava secretamente e lutava contra os colonizadores brancos que viviam em seu país, causando grande terror entre os membros dessa comunidade. Esse foco de rebelião foi sufocado apenas com a conquista da independência do país, em 1958.

A libertação da dominação colonial inglesa permitiu que chegasse ao poder o presidente Jomo Kenyatta, de origem Kikuyu. Kenyatta havia sido preso em 1953, onde permaneceu durante sete anos, sob a acusação de ser lider da revolta dos Mau Mau. Durante seu período de reclusão o presidente da recém libertada nação estudou o socialismo e criou uma versão própria dessa corrente política, adaptada a realidade africana.

Imagem-de-Jono-Kenyatta
Jono Kenyatta liderou reformas importantes em seu país, o Quênia.
Adepto do socialismo, o presidente queniano não se submeteu a modelos
externos e propôs soluções que procuravam conceder autonomia a seus concidadãos.

Acreditava Kenyatta que o Quênia deveria adotar um socialismo que se aproximasse mais dos modelos escandinavos e britânico e não dos padrões adotados pelos russos ou pelos chineses. Advogava em favor do fim dos ressentimentos e tensões com os antigos colonizadores em prol da construção de um país melhor. Ao propor essas idéias, refutava os conceitos de luta de classes do marxismo clássico por entender que essa estrutura social não imperava na África. Em sua versão do socialismo, Kenyatta acreditava que seus compatriotas deveriam evitar que o poder e as riquezas de suas terras fossem apropriadas por indivíduos e grupos estrangeiros. Defendia-se também a participação plena e igualitária dos cidadãos na vida política nacional.

A Nigéria por sua vez, vivia assolada por denúncias de corrupção, desmandos e violência que se tornaram ainda mais devastadoras para o processo emancipatório local com o assassinato de seu primeiro-ministro e a ascensão de um governo militar em 1966. Para piorar ainda mais a situação um movimento separatista proclamou o surgimento da República de Biafra apenas um ano depois do estabelecimento dos militares no poder.

O país foi então tomado por uma guerra civil que se estendeu por três anos e vitimou mais de um milhão de pessoas. As maiores perdas não ocorreram nos campos de batalha e sim em virtude da fome e de doenças ocasionadas pela devastação do país. A derrota dos separatistas ocorreu apenas em 1970 e impediu a plena organização do país, um dos mais ricos em recursos minerais do continente africano (possui reservas de gás natural, carvão, petróleo e colúmbio – mineral utilizado para a produção do aço).

Havia também casos de países que realizaram sua independência sem que o poder fosse repassado para a maioria negra. Nesses casos a minoria branca concentrou as atribuições políticas, militares e econômicas e legou aos negros uma posição de submissão controlada a partir de um aparato de estado de caráter repressor.

Isso aconteceu, por exemplo, no Zimbábue (antiga Rodésia), onde a conquista da Independência levou ao poder o primeiro-ministro Ian Smith, que cortou todos os laços que uniam o país a metrópole inglesa, inclusive a participação na Comunidade Britânica. Essa atitude radical não promoveu, porém, o gradual repasse das atribuições políticas e econômicas à comunidade negra que formava a esmagadora maioria da população do país.

Imagem-do-líder-negro-sul-africano-Stephen-Biko
O líder negro sul-africano Stephen Biko trabalhou em prol da recuperação
da auto-estima de seu povo, abalada pelo preconceito racial que imperava
até mesmo juridicamente com o Apartheid. Foi assassinado
a mando dos líderes que comandavam o país.

Acuado por pressões políticas externas, advindas principalmente da Inglaterra e dos Estados Unidos, Smith promoveu uma lenta abertura política a partir da qual se comprometeu a passar o poder político para os negros. Em 1979 o país teve o seu primeiro presidente negro eleito. Apesar disso as oposições mais radicais ao domínio dos brancos acreditavam que esse novo governo havia sido eleito de forma fraudulenta e que os componentes do governo eram apenas títeres controlados pelos brancos.

O mais célebre caso de governo despótico e racista aconteceu, no entanto, na África do Sul. Nesse país vigorou durante muitos anos o Apartheid, ou seja uma política discriminatória e extremamente preconceituosa em relação a comunidade negra que tinha respaldo não apenas dos dirigentes que controlavam o país, mas também da própria lei maior do país, a constituição.

Líderes nacionais que abertamente se posicionavam contra os abusos cometidos na África do Sul foram penalizados de forma brutal. Stephen Biko, influente defensor do protesto não violento foi assassinado na cadeia a partir do comando das principais autoridades do país. Ele realizava importante e expressiva campanha em prol da recuperação da auto-estima de seus compatriotas ao liderar protestos que tinham como principal bandeira o slogan “Black is beautiful”.

Nelson Mandela ficou encarcerado por décadas até que fosse libertado e pudesse se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul já no início dos anos 1990. Desmond Tutu, bispo anglicano, respaldou-se na sua condição de religioso para proteger inimigos do estado racista e pregar abertamente contra o Apartheid em nível internacional. Apesar de seus esforços e de diversos outros ativistas a comunidade internacional que investia no país não apoiou de forma efetiva um boicote a África do Sul contra o racismo.

Outro caso contundente quanto as dificuldades dos países africanos para atingir autonomia plena foi o de Gana. Essa ex-colônia britânica, conhecida anteriormente como Costa do Ouro tornou-se independente em 1954. O líder do movimento emancipacionista foi Kwame Nkrumah (1909-1972), que apesar de suas origens humildes foi educado na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Imagem-do-líder-nacionalista-Kwama-Nkrumah
O líder nacionalista Kwama Nkrumah, de Gana, investiu em saúde e educação.
Pregava em favor da valorização da rica cultura local africana e procurou apoio
político na União Soviética. Foi deposto por um golpe militar que contou com o apoio da CIA.

Tinha fortes tendências socialistas e era um estudioso do marxismo, apesar disso nunca declarou formalmente ter aderido ao socialismo. Buscou apoio para algumas de suas políticas internas em Moscou. Acreditava que as tradições culturais africanas como as de seu próprio país não poderiam ser esquecidas em favor das influências européias. Centralizador, o presidente de Gana criou um regime político unipartidário. Investiu em ações de caráter social com a construção de hospitais e um importante trabalho na área educacional.

Foi deposto por um golpe militar sob a acusação de corrupção e da criação de um culto a sua própria personalidade. Esse golpe, conforme auferido posteriormente foi financiado pela CIA (Agência Central de Inteligência) dos Estados Unidos. A ação norte-americana fazia parte das estratégias de combate a expansão do comunismo internacional daquele país. O importante era derrotar os russos, o que aconteceria com a África pouco importava...

Foi no Congo, colônia da Bélgica, que ocorreu uma das mais duras e violentas revoltas do continente africano. Prevendo que os acontecimentos locais poderiam redundar num banho de sangue os colonizadores belgas concedeu a independência a seus súditos locais. Esse acontecimento desencadeou lutas internas que motivaram o surgimento de movimentos separatistas, com especial destaque para a revolta que ocorreu em Katanga.

Katanga era a principal fonte de renda do país com suas ricas minas de cobre, controladas por empresas belgas. Lideranças locais motivadas pela riqueza de seu subsolo iniciaram revolta contra o poder central do país e promoveram o assassinato de vários líderes nacionais, inclusive do líder esquerdista Patrice Lumumba. Para isso contaram com o auxílio da CIA, preocupada com a possibilidade dos comunistas tomarem o poder no país.

A ação do Conselho de Segurança da ONU impediu a continuidade da guerra civil no país, no entanto não impediu que a história daquela nação continuasse problemática e cheia de dificuldades já que em 1971 assumia o poder o ditador Mobutu, que mudou o nome daquela nação para Zaire.

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

http://www.planetaeducacao.com.br

Um comentário:

gerardo cailloma disse...

Muy interesante este breve artículo; siempre me atrajo la figura de Patricio Lumumba, gran líder olvidado de nuestros días y que el Balck Power y MalcomX solían recordar. Una de las voces de la lucha contra el Apartheid era Miriam M´Keba (de la famosa canción Pata Pata) fallecida en 2008, cuya voz en solitario cantaba la historia de su país, Sudáfrica. Y quedan rastros tristes como el caso de Ruanda, excolonia belga que sembró el odio entre tutsis y hutus. Hay que ver el film Algún Día de Abril (some day in april) para recordar.