sábado, 18 de dezembro de 2010

O amor, do mito à dialética platônica

14 de março de 2010

Em O banquete, Platão usa o método dialético para investigar um tema mítico
A inauguração do conhecimento filosófico e científico é celebrada como a passagem da explicação mítica para a explicação racional. Essa cisão, datada e delimitada, ocorreu na Grécia antiga e no século 6 a.C. Os manuais escolares consideram apressadamente o mito como algo do passado. Não se dão conta de que os deuses, os heróis e as figuras mitológicas estão enxertados na compreensão que temos do comportamento humano e dos conceitos de corpo, alma, desejo, imortalidade, bem, verdade, beleza e justiça e de outros. Nem toda teoria está livre de resíduos mitológicos. A prova disso é o conceito de Eros ou de amor que Platão examina em O banquete (e nos diálogos Fedro e As leis). Trata-se de um exemplo clássico de como um tema mítico pode ser investigado com o método dialético. A versão mítica adquire gradualmente feição filosófica, embora ambas as formas expressem os mistérios da natureza humana e da sexualidade ligados ao problema da verdade e do conhecimento.
Uma das observações que se encontram, no início de O banquete, é o fato de Eros não ter tido a devida atenção dos poetas e dos filósofos. Por isso, Platão instaura a união entre Eros e Logos. O amor e o desejo passam a ser investigados em uma linguagem conceitual. Aos poucos, o Eros dos mitos e do conhecimento comum não é mais o Eros de Sócrates, filósofo que significativamente ouviu as revelações de Diotima, mulher e sacerdotisa. (Funda-se assim, diria M. Foucault, a scientia sexualis do ocidente em contrapartida à ars erotica do oriente).
Quem não ouviu falar dos amores conjugais, filiais, fraternais, incestuosos, trágicos, cômicos etc. que se encontram nos textos de Homero e de Hesíodo, dos trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e de Aristófanes? O amor de Alceste por Admeto; de Antígona; de Fedra por Hipólito; de Narciso por si mesmo e muitos outros? Além desses amores, Platão recomenda que Eros se torne amor à sabedoria. Escreve sobre as questões do uno e do múltiplo, das formas e do mundo sensível, do ser e do aparecer, do bem e da justiça, do belo e da verdade, da opinião e da ciência e, ao lado desses problemas metafísicos, também sobre a amizade, no Lisis e, o amor, especialmente em O banquete, diálogo filosófico quase romance.
Platão encena o sentido das questões. O início de O banquete parece enredo de telenovela: diferentes épocas e personagens entram em ação com o objetivo de informar o que ocorreu no banquete (simpósio) em que estiveram presentes Sócrates e Alcibíades, na casa do belo Agatão, em comemoração ao prêmio recebido pela sua primeira tragédia. Depois, o diálogo estrutura-se em torno a uma série de discursos sobre o amor. Figura ímpar a de Sócrates, na ocasião, asseado, usando sandálias, dominado pelo daimon (permanece um tempo concentrado, perto da entrada da casa de Agatão, apoiado em um pé só) chega tarde. O tema: o elogio a Eros. Alguns participantes haviam bebido bastante no dia anterior, por isso, recomenda-se o uso moderado do vinho. Só os discursos podem ser apaixonados.
Fedro afirma que Eros é um grande deus primitivo. Mostra o lado trágico de Eros citando exemplos mitológicos, o caso de Alcestes que morre no lugar do esposo. Evidencia a relação entre a morte e o desejo. Pausânias distingue dois Eros relacionados com Afrodite: o celestial e o popular. O primeiro, o amor platônico, essencialmente masculino e, o segundo, busca o prazer nos corpos. Erixímaco, médico, fala de Eros como o princípio universal de harmonia e de saúde. O comediante Aristófones narra o mito dos Andróginos. Os homens no início eram esféricos, tinham dois olhos, quatro pernas, quatro braços e assim por diante. Mas como eles pretenderam se igualar aos deuses, Zeus ordena que sejam divididos ao meio. O cirurgião divino costura na frente de cada um o sexo. Dessa divisão nasce o desejo de cada ser humano completar-se no outro. Agatão mostra que Eros é o mais feliz dos deuses, sempre jovem e belo, justo, corajoso, sábio.
Os cinco discursos preparam a visão dialética dos discursos de Sócrates e de Alcibíades. Sócrates apela a
Diotima, mulher e sacerdotisa, para explicar a dupla origem do amor. O amor deseja o que não possui e deseja não perder o que possui. É um intermediário, passagem. No mito de Aristófanes cada um é a metade de si mesmo (e o amor é a união das partes separadas).
Conforme o mito, Eros não é filho de Afrodite, apesar de nascer sob o signo de sua beleza. Na realidade, é filho de Poros (Recurso) e de Penia (Pobreza). No jantar oferecido pelos deuses por ocasião do nascimento de Afrodite, Penia chega para mendigar junto à porta. Poros, embriagado, adormece no jardim. Penia tem a idéia de ter um filho de Poros, deita-se junto dele e concebe o Amor. Assim, Eros herda dos pais a mistura que o torna inquieto e apaixonado, pobre e rico. Ao mesmo tempo, instável, inventivo, caprichoso. Vivendo na penúria, aspira o saber e a beleza. Alcibíades, no seu discurso, elogia o próprio Sócrates. O que é dito teoricamente no discurso de Sócrates é confirmado nas ações de Sócrates. Também Sócrates não é belo nem feio, mas sedutor. Sendo pobre, é rico interiormente.
O amor entendido dialeticamente não é mortal nem imortal, não é pobre nem rico, não é ignorante nem sábio. Ele está no meio. Consciente de carência aspira à beleza e à sabedoria. Platão, a partir da imortalidade da alma, justifica a passagem do amor sensível para o inteligível. No momento culminante de O banquete, busca a cura da finitude humana apresentada no mito do andrógino do ser mutilado e que, por isso, vive a nostalgia da unidade perdida, fundamento do desejo.
O objeto de Eros é o belo. Porém, a beleza só se revela em graus. O amante afeiçoa-se à beleza de um corpo, depois a todos os corpos, na etapa seguinte ama as ações morais, num grau mais alto as ciências e, finalmente, o belo em si e por si. Os estudiosos de Platão divergem em suas interpretações, mas sua leitura mostra como o conhecimento teórico se instaura em relação às explicações dos demais saberes.
Jayme Paviani é professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade de Caxias do Sul. Autor, entre outras obras, de Filosofia e Método em Platão (EDIPUCRS).

Revista CULT

2 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Eduardo,
Faço link do História Viva de uma forma especial em jeito de balanço 2010...
... e faço votos de um Feliz Ano Novo com muita saúde, boa-disposição e muitos, muitos sucessos.
Abraços.

Miguel Loureiro disse...

Bom Ano!