quinta-feira, 3 de junho de 2010

A queda de Cartago

Destruída pelas Guerras Púnicas, a antiga potência marítima do Mediterrâneo foi o último obstáculo enfrentado por Roma antes de se tornar o império mais poderoso do mundo

Por Ivan Hegenberg

Os cartaginenses, montados em elefantes, enfrentam os romanos na batalha de Zama, durante a Segunda Guerra Púnica, que resultou na derrota para o povo de Cartago

Há quem considere o desfecho das Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.) o maior caso de genocídio da Antiguidade. Se, em outros momentos, os romanos procuraram combinar força militar e diplomacia, neste caso não tiveram qualquer clemência. A ordem na expressão latina "delenda est Carthago" ("Cartago deve ser destruída", em português) foi executada com tamanho rigor que as casas foram demolidas, grande parte da população foi morta, os sobreviventes transformados em escravos e, sobre o solo, foi depositado sal para que nada germinasse. Tamanho foi o estrago em Cartago que não sobraram muitos registros sobre sua civilização, tornando um grande desafio para os historiadores e arqueólogos desvendar um pouco que seja do modo de vida que havia ali.

As Guerras Púnicas são lembradas pelos desdobramentos na História de Roma, já que após a vitória, Roma pôde iniciar um período de grande expansão em que dominaria o Mediterrâneo e se tornaria a principal potência da Antiguidade. No entanto, há mais que se aprender sobre a civilização derrotada, que teve seus dias de glória e esteve perto de derrotar os romanos, o que alteraria completamente a História, tal como a conhecemos.

Personagens da mitologia greco-romana, os amantes Dido e Eneias teriam fundado Cartago. O quadro de Claude Lorrain (1600-1682) mostra a vista da cidade

Uma nova capital

Cartago, ou em fenício Kart-Hadasht, (nova capital), foi uma cidade-estado fenícia, fundada em 814 a.C. pela rainha Dido, irmã do rei Pigmaleão. Nos versos do poeta Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), ouvimos que os dois irmãos dividiam o reinado de Tiro, a mais importante cidade da Fenícia, até o momento em que o marido de Dido é traiçoeiramente assassinado. Inconformada, ela ludibria o irmão para reunir o máximo de navios e de escravos e segue para o ocidente. Falta-nos documentação mais precisa do que a lenda. No entanto, deve ser verdadeira ao menos a ocorrência de alguma dissidência, já que, desde o nome, a "nova capital" não aspirava ser apenas mais uma colônia. Em 332 a.C., Tiro é ocupada por Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), após sete meses de cerco. Nesse momento, no entanto, Cartago já concentrava riquezas invejadas por todo o mundo antigo, além de gozar de enorme influência sobre as demais cidades fenícias.

Os donos dos mares

A localização de Cartago, ao norte da África, parece ter sido cuidadosamente escolhida tanto pelas suas vantagens defensivas quanto pela rota comercial. Apesar de se situar em uma faixa de clima agradável, o deserto se interpunha a qualquer um que pretendesse atacá-la pelo continente, e quem ousasse vir pelo mar teria de se haver com o povo de maior reputação sobre as águas. Tal como Tiro, a cidade era envolta por uma muralha e possuía prédios de vários andares. As ruas eram retas, formando quarteirões regulares. Seu famoso porto, escavado artificialmente, se dividia em duas bacias: uma retangular, destinada às embarcações comerciais; a outra circular, abrigando mais de 200 embarcações militares. Cada um desses navios era impulsionado por cem remos ou mais, dispostos em três níveis - chamados trirremes. Algumas embarcações eram ainda maiores, os pentarremes.

Não eram habilidosos somente na navegação, mas também no comércio, de onde provinha a maior parte de sua riqueza. Seus sofisticados trirremes estabeleciam rotas comerciais do Oriente Médio à Espanha, percorrendo todo o Mediterrâneo, chegando também à Bretanha, ao Mar Báltico e às Ilhas Canárias, na face ocidental da África. Suas embarcações levavam prata e estanho da Espanha, perfumes e tecidos do oriente, ouro africano, cerâmica grega, louça do Egito, mármore do Egeu, peles de cervos, leões, leopardos, presas de elefantes, dentre outros produtos. Seus produtos locais também tinham mercado, como as frutas, a vinha e a oliveira, cultivadas por escravos no interior do continente.

As estruturas de Cartago

Por cerca de 300 anos, a Fenícia, menos um Estado organizado do que uma rede de cidades comerciantes, acumulou grande riqueza. Em especial os metais adquiridos na Espanha lhe garantiam lucros significativos. Ao longo do Mediterrâneo, fundavam diversas feitorias, utilizadas como paradas de pernoite e de abastecimento em suas rotas mar afora. Inicialmente, Cartago não era muito mais do que um desses pontos, assim como a Ilha de Malta ou as colônias na Sardenha e na Sicília. Contudo, a partir do século IX a.C., a Fenícia começa a entrar em decadência devido aos ataques estrangeiros. Após séculos de relações amistosas com os povos vizinhos, os fenícios orientais sucumbem diante do domínio assírio, ao qual se seguiriam o dos babilônios, o dos persas, e o dos macedônios. Ao norte da África, Cartago gozou de relativa tranquilidade por todo esse período e pôde prosperar. Cartago cresceu politicamente ao oferecer proteção às demais cidades fenícias do Mediterrâneo.

O chefe de Estado era um juiz, chamado de sufete, eleito a cada ano. Todavia, o sufete não podia dispor do tesouro ou declarar guerra, restando-lhe, provavelmente, as decisões relativas à moral e aos costumes. O senado, que era quem exercia a política de fato, era chamado de Conselho dos Cem, apesar de contar com 104 membros, oriundos da aristocracia. Havia, também, a Assembleia Popular, acionada nos casos em que o sufete e o Conselho dos Cem divergiam. O corpo político contava também com ministérios designados para atividades específicas.

A relação entre gregos e fenícios parecia combinar admiração e inveja, havendo troca de conhecimento antes de se desentenderem

Poucos povos antigos possuíam constituição escrita, e é possível que os cartagineses a tenham elaborado especialmente para manter seus chefes militares sob rédea curta. Não mostravam grande apreço pelos generais, por mais que lhes dessem autonomia nas frentes de batalha, inclusive para questões diplomáticas. Quando estes falhavam, eram crucificados; e quando vitoriosos, eram logo convidados para a reserva. Comerciantes e políticos concordavam em evitar qualquer estrutura militar consistente, por medo de que os generais impusessem seu poder. Além disso, sendo sua população pequena e dispersa, não lhes convinha a formação de exército próprio, mas a contratação de mercenários. Ainda que Cartago se diferenciasse da Fenícia por ter maiores ambições militares, as forças armadas ainda eram vistas com certo receio por seus cidadãos, que preferiam um exército que pudesse ser dissolvido após cumprir sua missão.

Um povo miscigenado

Costuma-se dizer que os cartagineses eram mais conservadores do que os fenícios orientais. Ao que parece, davam maior importância à monogamia, a religião era mais severa e a educação atendia a fins mais utilitários. Praticamente todos eram alfabetizados, todavia a ênfase estava nas aptidões profissionais.

O quadro acima, de Joseph Mallord William Turner, ilustra a heróica travessia do cartaginense Aníbal pelos Alpes europeus. Mesmo com o frio intenso, no final do trajeto o exército de Cartago ainda contava com 6 mil cavaleiros

É possível que a diferença de postura entre fenícios orientais e cartagineses fosse mais relativa do que se costuma contar. Porém, ao menos fisicamente, as novas condições geográficas fizeram que se distinguissem. Análises de esqueletos nas sepulturas de Cartago apontam para diferenças entre a aparência de seus habitantes e a dos fenícios típicos. Os traços semíticos se mesclaram a traços africanos, tanto dos povos do deserto quanto dos negros, assim como a gregos e outros estrangeiros. Ao menos quanto à miscigenação não tiveram uma atitude conservadora.

Prévia entre fenícios e gregos

A relação entre gregos e fenícios parecia combinar admiração e inveja, tendo havido constante troca de conhecimento antes de se desentenderem. Contudo, os gregos aprenderam tão bem a arte da navegação com os fenícios que não demorou para que resolvessem testar forças contra eles. A Sardenha e a Sicília eram pontos estratégicos para o comércio marítimo, e controlá-las seria um passo crucial para o domínio do Mediterrâneo. Por volta de 580 a.C., começaram as hostilidades por parte dos gregos, e a tensão política faria que Cartago, ao defender as cidades ameaçadas, predominasse no mundo fenício.

A Fenícia oriental tentava resistir aos ataques de Nabucodonosor II (632 a.C.562 a.C.), que governou durante 43 anos o Império Neobabilônico, ao passo que Cartago se encontrava a uma distância ideal dos conflitos para prestar auxílio sem sofrer ataques em suas portas. Enviava para as colônias, bem-preparados exércitos mercenários, já que sua população era pequena, mas a riqueza abundante. Não raro tais exércitos tinham no comando um siciliano de origem grega, talentoso com as armas e pouco patriótico.

Moeda com o rosto de Nabucodonosor II, rei do império Neobabilônico - enquanto a Fenícia oriental resistia aos seus ataques, Cartago se encontrava a uma distância ideal dos conflitos

A disputa pelas ilhas seguiu por gerações sem vencedor claro, intensificando-se no século seguinte. Apesar de enviar forças para os confrontos, somente uma vez Cartago sofreu um ataque direto dos gregos. O exército de Agátocles (361 a.C. 289 a.C.), rei da Sicília, vinha sofrendo grandes derrotas para os cartagineses nas cidades da Sicília, ao que ele respondeu com uma estratégia inusitada. Apesar da desvantagem inicial, encaminhou seus soldados para a África, para colocar a matriz em xeque.

Os cartagineses não estavam preparados para tal investida, e nos primeiros dias foram deles as maiores perdas. Porém, as batalhas não adentravam os muros da cidade, que resistia ao cerco, e Agátocles passou a dominar as cercanias de Cartago. Sua intenção não era derrubar Cartago, mas dissuadir os fenícios de prosseguirem nos ataques europeus. Durou cerca de um ano esta situação, terminada em acordo de paz entre os dois povos nos dois continentes.

As batalhas na Sicília foram tão frequentes que o jornalista e historiador alemão Gerhard Herm considera o Rio Halykos (atualmente chamado de Platani, na Sicília) um dos mais disputados de toda a História, passando de mãos alternadamente entre gregos e fenícios. Nenhum dos dois povos obteve grandes vantagens com a guerra, que se estendeu por várias gerações sem definição. Pareciam destinados a dividir a Sicília, assim como dividiam conhecimentos, divindades (como Deméter, deusa da agricultura, e Afrodite, deusa da beleza) e até mesmo alguns de seus guerreiros. Caberia aos romanos, portanto, consolidar o monopólio mediterrâneo com que gregos e fenícios sonhavam.

Um povo notável
De origem semita, os fenícios fundaram Cartago, circunavegaram a África muito antes de Vasco da Gama e inventaram o alfabeto que serviu de base para o nosso

À diferença de qualquer outro império da Antiguidade, o fenício sempre fora disperso, tendo o mar como ligação entre suas partes, embora estivesse centralizado onde hoje fica o Líbano. Talvez esse território descontínuo contribuísse para que os gregos e romanos o tomassem por evasivo e misterioso, somando-se o fato de eles navegarem por terras que os rivais não atingiam. Semitas, parentes próximos dos hebreus e dos árabes, os fenícios passaram de nômades do deserto a desbravadores do mar. Uma das condições iniciais para tanto, no século XI a.C., foi a qualidade dos cedros que havia na costa do Líbano, com a qual aprimoraram as embarcações usadas nos serviços comerciais que prestavam para o Egito. Começaram a desenvolver suas técnicas e logo superaram até mesmo os gregos, que então eram os únicos a cruzar destemidamente o Mediterrâneo. Consolidaram sua hegemonia sobre as águas e enriqueceram com o comércio.

Os fenícios sempre foram um povo de população diminuta e de humilde ocupação territorial. A Fenícia não ocupava muito mais do que 250 km da atual costa libanesa, sendo suas cidades mais importantes Tiro, Sídon e Biblos. Suas colônias mediterrâneas eram simples feitorias que mal adentravam no continente. Tendo sido tão poucos, é surpreendente o tanto que realizaram. Dentre seus méritos náuticos estão as rotas até a Bretanha e o Mar Báltico, quando nenhum outro povo nem sequer sonhava ir tão longe, e a circunavegação da África, mais de 2 mil anos antes de Vasco da Gama (1469-1524). Tudo isso eles fizeram sem o uso de mapas, contando apenas com a habilidade para construir e navegar seus navios.



Construíram, a mando dos egípcios, o primeiro canal de Suez, hoje em ruínas. O faraó Neco, no século VI a.C., encomendou a construção, concluída alguns anos após sua morte. Também eram famosos seus tecidos tingidos de púrpura e seus vasilhames de vidro, cujas técnicas desenvolveram admiravelmente. A principal contribuição dos fenícios, no entanto, é a invenção do alfabeto, em torno de 1000 a.C. Na época, já se usava um sistema silábico, que os fenícios aprimoraram para um alfabeto de 23 letras, base dos alfabetos europeus modernos. Os gregos aprenderam o alfabeto fonético diretamente com os fenícios, o que tornou o aprendizado da escrita muito mais simples e possibilitou o grande avanço cultural da época clássica.

O ponto alto da Fenícia oriental foi de meados do século XII a.C. ao início do século IX a.C. Tendo maior predisposição para o comércio do que para a guerra, não pôde resistir à opressão assíria em 877 a.C., à qual se submeteu por mais de 150 anos. Quando a Assíria foi tomada por Nabucodonosor II, da Babilônia, a cidade fenícia de Tiro impôs forte resistência, conseguindo o feito de resistir a um cerco de 13 anos diante da maior potência militar da época.

Ao fim desses anos, no entanto, a Fenícia teve de se submeter a um rigoroso acordo que envolveu uma vultosa multa e reféns. Após Nabucodonosor, os fenícios estiveram sob o jugo dos persas. Em obediência aos seus novos senhores, envolveram-se nas Guerras Médicas, entre gregos e persas, durante o século V a.C., diante dos quais sofreram uma grande derrota na Batalha de Salamina. O golpe decisivo, contudo, se deu em 332 a.C., no Cerco de Tiro, imposto por Alexandre, o Grande. Para não repetir o mesmo fracasso de Nabucodonosor, ele se empenhou por meses na construção de um dique entre a ilha de Tiro e o continente. Anulando sua principal vantagem, que era a habilidade no mar, Alexandre pôde subjugar os tírios, pondo fim à sua civilização.

A Primeira Guerra Púnica

O adjetivo "púnico" vem do latim poeni, como os romanos se referiam aos cartagineses. Foram três guerras entre 264 a.C. e 146 a.C. A convivência entre os dois povos era pacífica até os romanos desrespeitarem um antigo acordo de não ocupar a Sicília, tendo se estabelecido na cidade de Messana. Os cartagineses retaliaram com uma série de ataques ao sul da Itália. Estava declarada a primeira das Guerras Púnicas. Naquele momento, os cartagineses certamente pensavam ter as maiores chances de vitória, pois ainda que os romanos viessem se expandindo lentamente pela Itália, estavam longe de ser uma força comparável a de seus inimigos habituais, como os gregos.

Até o início da guerra, os romanos não possuíam sequer uma frota naval, e somente ao estudar um navio cartaginês capturado é que puderam desenvolver suas próprias embarcações. Mas eles não só construíram muito rapidamente cem pentarremes, como inovaram com a criação das pontes de abordagem, que foram cruciais em seus combates. Eram grandes pranchas com esporões de ferro nas pontas, que desciam subitamente até o navio adversário, cravando em seu convés. Isso permitiu que a batalha naval se tornasse luta de infantaria, na qual eram superiores.


Escultura encontrada em Cartago data da época em que cartaginenses e romanos disputavam a hegemonia do Mediterrâneo

Aníbal estava destinado a ser a maior ameaça a Roma antes da queda do grande império

Cartago sempre fora uma potência marinha, e os romanos uma força terrestre. No decurso das guerras, tais posições se relativizaram, mas a adaptação mais rápida foi sem dúvida dos romanos. No sétimo ano de guerra, já eram capazes de vencer batalhas navais mesmo com frotas de menor número, em parte graças às pontes de abordagem. Os romanos avançavam na Sicília, que em pouco tempo controlariam, e ocupavam Tunis, próxima da capital. Ao realizarem um cerco a Cartago, só não anteciparam o fim da guerra graças a um mercenário e comandante espartano, Xantipo, que ensinou aos africanos técnicas modernas de combate, pelo uso de elefantes.

Com isso, surpreenderam a potência terrestre tanto quanto as pontes de abordagem surpreenderam a potência naval. Os cartagineses não só mantiveram seus territórios na África como passaram a expandi-los consideravelmente, reavaliando sua tradição de se concentrar no litoral. Contudo, terminaram a primeira guerra com as perdas de Sicília, Sardenha e Córsega para Roma. Não bastasse isso, tiveram de lidar com uma revolta de mercenários que, voltando derrotados, exigiam seu soldo.

Ardorosa fé
Os cartagineses cultuavam Afrodite com cerimônias de defloração de virgens e veneravam o deus Moloc sacrificando crianças na fogueira

Uma das deusas mais cultuadas do panteão grego era, sem dúvida, Afrodite, a quem devemos o adjetivo "afrodisíaco". O culto à deusa incluía cerimônias de defloração de virgens, a prostituição sagrada e verdadeiros festivais de orgias. O que poucos sabem é que a divindade, assim como os costumes que a acompanharam, não eram originariamente gregos. A deusa era chamada de Aschera (em Cartago, Tanit), e foi introduzida ao mundo grego pelos fenícios, como afirmou o historiador Heródoto (485 a.C.420 a.C.)


Na Antiga Fenícia, a prostituição ocorria nos templos com tamanha naturalidade que mesmo os povos bárbaros do ocidente pareceriam, em comparação, um tanto contidos. Fato é que a prostituição sagrada era um costume amplamente disseminado no oriente, praticado por mulheres de toda a sociedade, não apenas as marginalizadas.

Aschera era a deusa-mãe, casada com a divindade maior, El. O deus mais amado da cosmogonia, contudo, era seu filho, Baal, que morria e ressuscitava a cada ano. Sua morte era causada por um ferimento na coxa após o ataque de um porco selvagem, sendo a repetição anual de tal episódio uma representação dos ciclos naturais. Era nos períodos de luto por Baal que as mulheres se entregavam à prostituição sagrada, oferecendo o corpo a estrangeiros, de modo a comprar uma oferenda para o morto. Isto se dava nos templos da deusa-mãe, que também era protetora das águas e conselheira dos deuses.

A figura mitológica de Afrodite aparece nas culturas grega, romana e até fenícia. Acima, o deus mais reverenciado pelos fenícios, Baal, tornou-se um demônio na religião cristã, pois visitava o inferno diversas vezes

A licenciosidade sexual dessas cerimônias foi compreendida pelos gregos como ritual de fertilidade, não tendo lhes causado o embaraço que causaria mais tarde aos cristãos. O que repugnava aos gregos, apesar da admiração que nutriam pelos fenícios, era o ritual de sacrifício em nome de Moloc, deus do fogo. O escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), em seu romance Salambô, de 1862, reuniu boatos que se propagaram ao longo dos séculos para retratar o terrível ritual cartaginês em que se sacrificavam pequenas crianças. A estátua, de sete andares, possuiria braços de bronze movidos por roldanas, por onde as crianças eram empurradas para serem incineradas em oferenda a Moloc. Apesar de não restar nem estátua nem tofete para verificarmos até que ponto a fantasia de Flaubert corresponde aos fatos, o ritual de sacrifício é comprovado por milhares de urnas encontradas pelos arqueólogos contendo ossadas infantis queimadas.

A julgar pelos indícios, a prostituição sagrada era mais frequente na Fenícia, ao passo que o Moloc ocorria especialmente em Cartago. Nas épocas de dificuldades, reuniam-se centenas de crianças, geralmente os primogênitos das melhores famílias, em uma tentativa desesperada de se mudar a sorte. Quando Agátocles de Siracusa, rei da Sicília, montou seu acampamento em frente à Cartago, uma das primeiras providências em reação ao sacrifício de bebês foi reunir 200 crianças de procedência nobre para o ritual, sendo que mais 300 foram oferecidas pelos próprios pais. Não era permitido demonstrar qualquer comoção durante o ritual, o que seria considerado uma ofensa aos deuses.

Por mais que nos pareçam chocantes, devemos evitar tomá-los por um povo desumano devido a seus costumes. Os fenícios, em especial os cartagineses, eram extremamente supersticiosos, acreditando que por toda parte havia gênios maus e bruxas, assim como deuses protetores para diversas atividades. Sentiam que ao assassinar suas crianças satisfaziam as vontades divinas, recorrendo a um ato desesperado para não se sentirem desprotegidos.

É muito provável que seus parentes próximos, os hebreus, em tempos longínquos também tenham praticado rituais semelhantes. Ao menos é uma das interpretações de uma passagem do Velho Testamento, em que Abraão é impedido no último momento de sacrificar seu filho por ordem de Javé. A morte do filho é substituída pela de um cordeiro, eximindo Abraão do ato cruel, ao qual obedeceria a contragosto para provar sua devoção.

A revolta dos mercenários pareceu incontrolável durante quatro anos, ao fim dos quais foi abafada por Amílcar, general que comandou as forças de Cartago na última parte da primeira Guerra Púnica. Quando este, com muita habilidade, pôde dar fim ao conflito interno, foi considerado herói pelos seus compatriotas, de maneira pouco antes vista em Cartago. Os púnicos, a despeito de sua cautela com os militares, resolveram apostar neste general, que, para compensar as perdas de preciosos territórios para os romanos, investiu em bem-sucedidas campanhas na Espanha. Conseguiu ocupar cerca de um terço da península ibérica, constituindo um pequeno império. A exploração de metais espanhóis pôde dar fôlego a Cartago, que se fortificava para a segunda e mais memorável fase das Guerras Púnicas.

Acima, as ruínas de Cartago - a tropa romana destruiu praticamente toda a cidade, que tinha gigantes muralhas que a defendiam

Aníbal e a Segunda Guerra Púnica

Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.), historiador romano, considerou essa a guerra mais impressionante de que se tinha notícia até então. O filho do general Amílcar, Aníbal (247 a.C. -183 a.C.), jurara aos 9 anos de idade jamais ter relações amistosas com povos romanos. Estava destinado a ser a maior ameaça a Roma antes da queda do grande império. Em 221 a.C., assumiu o comando na península ibérica, dando continuidade à política expansionista. Quando, dois anos depois, invadiu Sagunto, cidade fundada pelos gregos, os romanos acharam que o cartaginês se expandia demais e cobrou satisfações.

Sagunto não pertencia a Roma, porém Aníbal declarou que essa era sua aliada. Houve um impasse diplomático que poderia terminar em paz, caso Aníbal recuasse. Em Cartago, o sufete e o senado abdicaram da decisão, e coube a Aníbal a iniciativa de permanecer com Sagunto. A Assembleia popular estava a seu favor, e os nobres passaram a incentivá-lo assim que recebeu generosos espólios de Sagunto.

O nome Aníbal significa "amado por Baal", a principal divindade da capital. Confiando em seu deus protetor e na tenacidade militar que lhe rendeu fama, empreendeu um arriscado avanço pelos Alpes, apesar de ele e seus soldados estarem mais habituados ao calor tórrido do que ao gelo das montanhas. A travessia custou muitas vidas, mas ao chegar ao norte italiano, pôde contar com 14 mil gauleses mercenários, que se somaram aos 20 mil infantes e 6 mil cavaleiros que lhe restavam.

Os mercenários de Aníbal associaram-se aos romanos e tornaram inevitável a derrota

No rio Trébia, na província itálica de Emília, em dezembro de 218 a. C., Aníbal demonstrou uma tática que o colocou como um dos maiores estrategistas de todos os tempos, que consistia em atacar pelos flancos, com grande sucesso. Outra grande vitória foi às margens do lago Trasimeno, onde pegou os inimigos de surpresa em um vale estreito, dizimando-os quase completamente. A essa altura, estava sem um olho, perdido por conta de um resfriado, o que não parece ter diminuído sua coragem.

No final da Segunda Guerra Púnica, Aníbal sofreu a traição de seus soldados mercenários que se aliaram ao exército romano, facilitando a derrota. O quadro acima, à esquerda, pintado por Cornelis Cort, mostra a fatídica batalha em Zama. À direita, Aníbal atravessando os Alpes, de autor desconhecido

Contudo, Aníbal logo percebeu que não poderia derrubar Roma sem outros apoios, e passou a peregrinar pela Itália em missões diplomáticas. Os romanos preferiram não atacá-lo, e durante mais de um ano, Aníbal caminhou livremente com seu exército pela Itália, tentando convencer as províncias a se rebelarem contra Roma, em troca da isenção de impostos. Algumas cidades como Cápua, além de Felipe V da Macedônia e Siracusa, fecharam com Aníbal, no entanto sua expectativa era de reunir um apoio maior. A Itália era mais coesa do que suspeitava o cartaginês, que, talvez acostumado a associar guerra a negócios, não esperava que a fidelidade dos povos itálicos superasse qualquer vantagem tributária. Enquanto se prolongavam suas buscas por apoio, os romanos obtinham vitórias significativas na Espanha, desprovendo os púnicos de sua maior fonte de riquezas. Também perderam Malta, o último território importante de que dispunham no meio do Mediterrâneo. O exército de Aníbal despontava como a maior esperança dos cartagineses.

Aníbal não pôde salvar seu povo, mas infligiu uma impressionante derrota para os romanos na batalha de Cannae, em 216 a.C. Em semicírculo, a infantaria celta no centro, africanos na retaguarda, e os cavaleiros númidas em brilhante atuação pelos flancos fizeram que 35 mil soldados romanos caíssem. Por muitos anos Aníbal percorreu a Itália como uma ameaça constante, sem, contudo, chegar à capital. Entretanto, nas outras frentes, os romanos venciam Felipe, controlavam Siracusa, retomavam Cápua, e, ao tomarem Cadez, na Espanha, expulsaram completamente os cartagineses de sua península. Por fim, os mercenários de Aníbal mudaram de lado, associando-se aos romanos, tornando inevitável sua derrota em Zama diante de Cipião, o Africano (236 a.C.-184 a.C.), que encerrou a Segunda Guerra Púnica.

A fatídica Terceira Guerra

Foi rigoroso o tratado que Roma impôs, tomando-lhes o território númida na África: uma multa pesada e a proibição de travar qualquer guerra sem autorização prévia. Apesar disso, Aníbal foi recebido como herói por sua bravura. Em outros tempos, teria sido crucificado, no entanto foi acolhido e eleito sufete. Após realizar algumas reformas em sua terra natal, tornou-se conselheiro do rei da Bitínia. Os romanos, temendo uma articulação em segredo contra seu império, pediram sua cabeça. Aníbal se suicidou antes que os soldados o entregassem.

A terceira e última Guerra Púnica se deu em 149 a.C., quando Cartago não significava qualquer ameaça. O senador Catão, ambicionando Tunis, a capital da Tunísia, então o último território em poder dos púnicos, proferiu a sentença de morte a Cartago. O encarregado da tarefa foi o general romano Cipião Emiliano (185 a.C.-129 a.C.), que teria chorado após a vitória.

Derrubada a muralha, os cidadãos cartagineses resistiram por seis dias, lutando bravamente. As mulheres rasparam os cabelos para que se fizessem cordas para as catapultas e os homens preparavam armas às pressas. Apesar dos esforços, a resistência desesperada não foi o suficiente. Roma estava a poucos passos de tomar para si todo o Mediterrâneo, o qual chamaria de Mare Nostrum. As Guerras Púnicas foram divisoras de água na História de Roma, abrindo caminho para um poderio sem precedentes. O temor de Cipião Emiliano, de que um dia Roma enfrentaria destino semelhante ao de Cartago, não ocorreria antes de mais de 500 anos.

Referências

CHARLES-PICCARD, Gilbert e Colette. A vida cotidiana em Cartago no tempo de Aníbal. Oficinas Gráficas de Livros do Brasil, Lisboa.

HERM, Gerhard. O Reino de Púrpura da Antiguidade. Melhoramentos, São Paulo, 1976.

AYMARD, André; AUBOYERR, Jeannine. Roma e seu Império, Difusão Europeia do Livro, 1956.

Ivan Hegenberg é formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, crítico cultural, trabalha com História Institucional pela Lettera.doc. Também é escritor premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo (PAC-SP).
Revista Leituras da História

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