sexta-feira, 11 de junho de 2010

O vestuário medieval

O vestuário medieval

Os povos germânicos tinham como traje principal uma túnica* curta formada por dois pedaços de couro costurados de forma bastante rudimentar. Mais tarde, a túnica* foi feita de lã ou de linho. Sob a túnica*, os homens vestiam calções ou calças largas, o que, aos olhos romanos, era um sinal de barbárie. Naturalmente os germânicos sofreram influência em seus contatos com o mundo romanizado e aos poucos adotaram algo parecido com o traje romano, mas, em geral, feito de tecidos mais grosseiros como o cânhamo*. A túnica* e o manto, vestuários básicos dos tempos greco-romanos, atravessaram ainda muitos séculos, mudando pouco a pouco suas formas. Quando a túnica* tornou-se o traje mais importante do vestuário, passou a ser cuidadosamente elaborada, apresentando variadas faixas de debrum* colorido.
No final do século I d.C., os godos (de origem escandinava), uma tribo do norte da Europa havia-se estabelecido na região da Prússia oriental e ameaçaram a civilização romana.
Como os ostrogodos que rumaram para o leste em direção à atual Rússia; os visigodos, rumaram para o oeste em direção à Espanha e a outras regiões, saqueando Roma sob o comando de seu líder Alarico, no século V. Os longobardos ou lombardos fixaram-se no norte da Itália. Através das descrições de historiadores romanos como Sidônio Apolinário, sabemos que originalmente esses povos usavam túnicas* de linho com mangas tendo pele nas bordas, mas que gradualmente se romanizaram. Novas ondas de invasores vindos do Oriente ameaçaram as próprias tribos germânicas (teutônicas). Os hunos, originários da Mongólia, em meados do século I d.C., haviam chegado à Europa, e, no século IV, sob o comando de Átila, à própria Roma. Na França, os gauleses haviam adotado não só as roupas e costumes romanos, como também a língua latina. Como os bretões, eles haviam-se tornado (pelo menos nas classes mais altas) completamente romanizados. A “Gália foi conquistada pelos francos (teutões) que habitavam a outra margem do Reno e, por volta do século V d.C., dominavam a maior parte do país”.61
Talvez nada soubéssemos sobre as roupas da época merovíngia na França (481-752) se não fosse o fato de os invasores francos, que controlavam o país, terem o hábito de enterrar seus mortos, ao invés de queimá-los como faziam os gauleses romanizados. Com os corpos dos reis dos nobres e dos abastados, enterravam-se as roupas, as armas e equipamentos militares que usavam em vida. Segundo James Laver, escavações em Les Mans (Lorena) revelaram espécimes de roupas de linho fino que, apesar de fragmentários, mostram que era costume usar uma túnica* caindo até os joelhos, chamada gonelle, bordada nas extremidades e presa por um cinto.
Sabe-se pouco sobre os trajes femininos dessa época uma vez que as mulheres estão menos representadas na cultura dos ritos funerários. “Entretanto, encontram-se, em outras fontes, registros que, em geral, elas usavam uma túnica* longa chamada stola adornada com faixas bordadas. Os braços ficavam nus. Broches prendiam as roupas aos ombros e usavam-se cintos de couro. Uma espécie de lenço chamado palla era drapeado em volta dos ombros”.62
A túnica*, indumentária comumente usada pelas mulheres, consistia em uma longa camisa de linho ou sisal de decote* baixo e mangas curtas (fig.5). Por cima, usava-se o casaco ou túnica*, de mangas longas e justas, que tinha o mesmo feitio ao de uma camisa, começava no pescoço e descia até aos pés.



Fig. 5: As quatro partes do Império (Eslavínia, Germânia, Gália e Roma prestando homenagem a Otão III) Fonte: LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras.


“Essas túnicas*, como as dos homens, eram rematadas no decote*, nos punhos e na barra com largas faixas de debrum* colorido”.63 Sobre a túnica* as mulheres usavam uma capa fechada por uma fivela no meio do busto – as fivelas de bronze cinzeladas ilustram os primórdios de migração das nações (fig. 5) – ou um traje semelhante ao que ficava por baixo, porém mais curto e com mangas também mais curtas. Em geral, essa sobreveste não era usada com cinto, mas muitas mulheres não o dispensavam quando usavam apenas um traje.

Fig. 6: Fivelas de bronze cinzeladas. Primórdios de migração dos povos.
Fonte: KÖHLER, Carl. História do Vestuário. São Paulo: Martins, 2001, 2ª ed.



A túnica* das mulheres era mais longa e não tão ampla quanto à dos homens; apresentava pequenas variações como o decote* baixo da camisa e mangas curtas na peça que se usava sobre ela. Todos os trajes da indumentária feminina tinham o mesmo feitio que os dos homens. Em termos gerais, as roupas femininas eram confeccionadas de forma primitiva.
A parte da frente era unida à de trás (mais estreita na altura do busto) por costuras nos ombros e nos lados. As mangas eram justas e tinham apenas uma costura. O decote* era invariavelmente cortado na parte da frente.
Uma descoberta na igreja de Saint-Denis, perto de Paris, fornece informações mais precisas sobre os trajes femininos. Foram encontrados fragmentos de tecidos da tumba de uma rainha merovíngia, Arnegonde (550-570), que fora enterrada com um chemise de linho fino e uma veste de seda cor de violeta por cima. Sobre a vesta, uma túnica* de seda vermelha, aberta na frente, com mangas compridas e amplas. “Um cinto largo, cruzado nas costas e preso na frente, mantinha a túnica* no lugar. Preso à túnica* por broches de ouro ricamente trabalhados em esmalte, havia um véu que ia até a cintura”.64 Os sapatos fechados eram de couro preto com tiras suficientemente longas para serem cruzadas nas pernas até a altura da liga.
Graças aos manuscritos com iluminuras, podem-se obter informações consideráveis sobre as roupas das mulheres anglo-saxônicas. A vestimenta principal era a túnica*, usada sobre uma camisola e vestida pela cabeça. A sobretúnica, também vestida pela cabeça, era às vezes puxada sobre o cinto para mostrar a peça de baixo, pois essa possuía bordados junto ao pescoço, na barra e nas mangas. O manto era preso sob o queixo e, às vezes, tinha o comprimento da túnica*, nem os homens nem as mulheres usavam chapéus*; ambos tinham cabelos compridos, sendo que os homens e as meninas os deixavam soltos. As mulheres casadas prendiam os cabelos em uma espécie de chinó*, cobriam-nos por um véu em forma de turbante* ou “por um véu comprido o suficiente para ser cruzado sobre o peito e cair até os joelhos, cobrindo todo o corpo”.65
Quando os carolíngios sucederam aos merovíngios (752-987), as condições na França e na Europa Ocidental eram bem mais estáveis, e assim o luxo aumentou. Carlos Magno tornou-se o soberano dos francos, controlando, em 771, um território que praticamente correspondia à França e à Alemanha. A conquista normanda, entretanto, foi um caso muito diferente, pois os descendentes dos escandinavos que se estabeleceram na Normandia estavam, nessa época, completamente afrancesados, tendo até abandonado a língua de seus antepassados. “Os monges, cronistas da época, já reclamavam que os ingleses haviam perdido sua simplicidade costumeira, ao cortarem os cabelos, encurtarem as túnicas* e adotarem costumes franceses”.66
Quando os normandos invadiram a Grã-Bretanha, o vestuário consistia em algumas
túnicas* e um manto largo. A principal inovação da época foram as chausses, calças muito justas nas pernas e quadris; em toda a Antigüidade Clássica essa peça era específica do vestuário bárbaro. Os gibões e as jaquetas medievais, conhecidos pelos nomes de pourpoints*, jupons*, jerkins* e doublets*, se originam todos da túnica*.
Tem-se considerado, há tempo, a influência das Cruzadas nas alterações das roupas na Europa Ocidental. Antes do século XI já houvera contatos com o mundo muçulmano através da Sicília e da Espanha, e os ricos produtos do Oriente alcançaram, assim, o Ocidente, quando da conquista da Sicília em 1060. Na ocasião, os normandos depararam-se com uma civilização bastante superior à sua em termos de conhecimentos e de artesanatos, e que vivia em meio a um luxo desconhecido para época. Muitos artesãos permaneceram sob as ordens de seus novos soberanos e eram rapidamente empregados nos trabalhos de tecelagem e ourivesaria.

Na Espanha, no século XII, a reconquista gradativa das terras ocupadas pelos mouros resultou na coleta de um rico saque: jóias e tecidos finos, muito mais luxuosos do que os produtos da Europa cristã. Em seguida vieram as Cruzadas e a reabertura do comércio com o Oriente Próximo. Ao retornarem à Europa, os cruzados trouxeram não só os tecidos orientais, mas as próprias roupas e a técnica do corte. As mulheres ocidentais adotaram o véu mulçumano, e um pequeno véu cobrindo a parte inferior do rosto. Em contrapartida, começaram a moldar os vestidos ao corpo por meio de abotoamento lateral que deixava a parte superior justa sobre o busto. As mangas tornaram-se muito compridas e amplas no punho como se pode ver na figura abaixo a esquerda, um dos documentos mais valiosos da época, o Hortus deliciarum da abadessa de Landsberg, da Alsácia, feito por volta de 1175.
Valiosas fontes de informações são as esculturas das catedrais que começaram a ser construídas na França e na Alemanha no século XII. (fig. 7)



Fig. 7: Rei e rainha santificados da catedral de Chartres, c. 1150. Senhora Uta, uma das fundadoras, na catedral de Naumburg, c. 1243. Fonte: LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Em meados do século XII, as roupas passaram a ser mais justas. Pouco antes do final do século XIV, as barras recortadas tomaram uma forma exagerada, mantendo-se assim por mais de meio século. Os grandes chapéus* brancos, como os das freiras atuais, começaram a desaparecer, dando lugar, em fins do século XIV, aos chapéus corníferos*, à mitra*, ao turbante*, culminando no característico hennin*, chapéu* alto, em forma de cone, de cujo vértice pendia um véu, originário da França do século XV(fig.8).


Fig. 8: A sala e o quarto. Ilustração do romance Renaud de Montauban, século XV.
Paris, Biblioteca do Arsenal.
Fonte: DUBY, Georges. ÁRIES, Philippe. História da vida privada. Vol. 2: da Europa feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Do vestuário feminino surgiu um novo modelo por volta de 1130, sendo o corpete do vestido, pelo menos para as classes altas, moldado bem justo até os quadris e a saia ampla, caindo em pregas até os pés. Era, às vezes, suficientemente longa para formar uma cauda. A sobretúnica também era mais ajustada e tinha mangas mais amplas.
O véu costumava ser preso por um semicírculo ou um círculo completo de ouro usado em volta da testa. Além disso, do final do século XII ao início do século XIV usava-se a barbette*. Era uma faixa de linho passada sob o queixo e puxada sobre as têmporas. Na mesma época usava-se também o gorjal*; “era feito de linho fino branco ou seda, cobria o pescoço e a parte do colo, sendo às vezes enfiado dentro do vestido; as pontas eram então puxadas para cima e presas no alto da cabeça sob o véu, para emoldurar o rosto”67 (fig. 9).



Fig. 9: Sir Geoffrey Luttel com sua esposa e nora, do livro de salmos Luttrel.
Inglaterra, c. 1335-40.Londres, British Museum.
Fonte: LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa.
São Paulo: Companhia das Letras,1993.



Consideravam-se, em épocas anteriores, imorais os cabelos femininos à mostra. Por essa razão, imagina-se que tenham surgido tantas inovações para adornar os cabelos com a desculpa de ocultá-los. O fillet*, adorno surgido no século XIII, adquiriu nova forma, caindo sobre a cabeça duas tiras ocas trabalhadas, onde eram colocados os cabelos. Conforme a figura acima, pode-se observar que a dama usa o fillet*: adorno quadrado deixando o rosto fechado numa moldura, contrastando com o adorno nébula* arredondado (fig. 10).

Fig. 10: HARPISTE. Boccace. Des claires et nobles femmes. Collection Spencer.
France, vers 1470. New York. Public Library.
Fonte: Carnet d’Adresses des Dames du Temps Jadis, Éditions Solar: Paris, 1988.

Pode-se notar, na imagem mostrada acima, o decote* pronunciado evidenciando o colo e o busto, e a aplicação de uma fina camada de tecido translúcido sobre o colo. A veste possui o corpo acinturado e a saia vai se alargando do quadril aos pés, caindo em grande volume de tecido. As mangas são muito justas e não se percebe enfeites, nem debruns*. Os cabelos estão soltos e são arrematados no alto da cabeça por um adorno circular estruturado para cima; adorno “turbante*”, feito de um semicírculo de linho evidenciando o rosto.

61 LAVER, James, op. cit., p. 51.
62 ibid, op. cit., p. 51.
63 KÖHLER, Carl, op. cit., p. 165.
64 LAVER, James, op. cit., p. 51.
65 LAVER, James, op. cit., p. 54.
66 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 189.
67 LAVER, James, op. cit., p. 62.

Este artigo é parte integrante
A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental
Medieval
Reflexo da opressão sofrida pela mulher na Idade Média (século: XI-XV)
Orientadora: Prof.ª Drª Maria Eurydice Barros Ribeiro
Aluna: Georgia M. de Castro Santos
Dissertação para obtenção do grau de mestre em
Arte Contemporânea, Área de concentração:
Teoria e História da Arte.

Um comentário:

Thaís Rosa disse...

Muito interessante :)