sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Irã no centro do mundo

Há 30 anos, o mundo assistiu atônito à insurreição popular contra uma ditadura no Oriente Médio. O movimento desequilibrou de vez a balança geopolítica mundial
por Osvaldo Coggiola

© BETTMANN/CORBIS/LATINSTOCK

Manifestação de trabalhadores contra o regime, em 1978

Em 1979, uma revolução popular no Irã derrubou a ditadura do Xá Mohhammed Reza Pahlevi, mudando o mapa político do Oriente Médio e, com ele, todo o equilíbrio político internacional. A primeira conseqüência do movimento foi o “segundo choque do petróleo”, com o aprofundamento da desordem econômica internacional e uma recessão global que duraria até bem entrada a década de 80.

Batizada, retroativamente, de “Revolução Islâmica”, por causa do papel hegemônico exercido pelo clero xiita, a revolução de 1979 é considerada o marco da ascensão mundial do ativismo muçulmano, incluindo (e de modo abusivo) o chamado “terrorismo islâmico”, que estenderia sua ação para bem além das fronteiras onde a religião do profeta Maomé é majoritária.

Se a marca do islamismo militante esteve presente desde o início do movimento revolucionário, não se pode dizer que essa era sua direção única. A revolução iraniana concentrou todas as contradições do desenvolvimento histórico do país, em especial na sua fase moderna e contemporânea, como semicolônia dos imperialismos russo e britânico, no século XIX e na primeira metade do século XX, e do imperialismo americano, depois da Segunda Guerra Mundial.


DIVULGAÇÃO

O Xá Reza Pahlevi, derrubado no ano seguinte

A questão democrática e a agrária, não resolvidas pelo desenvolvimento capitalista dependente do país, se somavam ao pano de fundo do desenvolvimento desigual da sua economia, que gerou uma moderna indústria petroleira e um proletariado que, embora minoritário, ganhou forte poder econômico e político. A classe operária estava concentrada nos centros de produção de petróleo para exportação, na área de serviços de todo tipo e na indústria dirigida ao mercado interno, na periferia da capital, Teerã.

Em 1978-1979, ocorreu no Irã uma agitação vertiginosa na qual a classe operária teve presença marcante. O movimento conseguiu desmantelar o Estado imperial e criar uma situação revolucionária.

Em 1979, o mundo conheceria o que poucos tinham denunciado antes: que o glamouroso regime do Xá, cheio de belas fardas e decorações, se apoiava numa repressão selvagem, na qual se distinguia, pela brutalidade de suas torturas, a polícia política, a Savak. Antes disso, a grande mídia apresentava o regime dos Pahlevi como um oásis de modernidade, em meio a um arquipélago de regimes árabes belicosos (conduzidos pelo nacionalismo laico árabe), ou retrógrados (conduzidos por monarquias feudais).


© GABRIEL DUVAL/AFP/IMAGE FORUM

A volta de Khomeini, em fevereiro de 1979, para proclamar a República Islâmica do Irã

Quando especialistas da CIA escreveram um relatório, em setembro de 1978, sobre a saúde política do regime monarquista pró-ocidental no Irã, eles concluíram que, apesar do governo autocrático, o Xá presidia uma dinastia estável, que duraria mais uma década, pelo menos. Meros quatro meses depois, Reza Pahlevi foi forçado a fugir de uma revolução popular que o derrotou.

TORTURA

Sua polícia secreta, a Savak, com 65 mil policiais, funcionava nos moldes do Mossad israelense. Embora tenha sido oficialmente criada como um grupo de contra-espionagem, suas principais táticas eram a tortura e a intimidação, fazendo com que os opositores do regime se sentissem prisioneiros em seu próprio país – com a conivência dos Estados Unidos e de Israel.

A Savak havia penetrado em todas as camadas da sociedade. Até o ditador chileno Pinochet mandou seus torturadores para treinamento em Teerã. E o mundo descobriria também que o Islã, considerado uma velharia religiosa, ultrapassada até no Oriente Médio, poderia ressurgir como força política, abalando não só os regimes alinhados com a “modernidade” capitalista, mas também o “socialismo real”. A União Soviética, preocupada com a “revolução islâmica”, invadiu o vizinho Afeganistão, criando o teatro do que seria o “Vietnã soviético”.


© REUTERS/LATINSTOCK

População armada: também as mulheres foram preparadas para lutar nas ruas das cidades do país

A revolução no Irã debutou como um vasto movimento democrático dirigido pelo clero tradicional, alijado do regime político pela “modernização” empreendida pela dinastia Pahlevi, no poder desde 1925. Esse foi o caráter do movimento em seu início, quando tinha seu centro na cidade de Qom, onde a hierarquia religiosa xiita liderou a mobilização de massas contra o regime ditatorial do Xá.

Durante dois anos, o caráter e o ritmo do movimento – sua direção, enfim – foram garantidos e controlados pela hierarquia islâmica, financiada pela burguesia comercial e financeira do Baazar, o pequeno comércio local. O enfrentamento entre esse setor e o regime monárquico dominava o centro da cena política. O aprofundamento da disputa teve, porém, uma conseqüência imprevista: a crescente afirmação do proletariado no interior do movimento democrático e antiimperialista.

Uma transformação do processo revolucionário aconteceu quando o proletariado começou a combater o regime do Xá, com seus próprios métodos – greves e ocupação de fábricas, por exemplo. A ampliação do combate democrático conduziu a classe operária à independência da direção burguesa e religiosa.

O núcleo geográfico do movimento, então, deslocou-se para os centros petroleiros de Abadán e para a capital do país. Foi a partir da greve geral petroleira de outubro de 1978 que começou a contagem regressiva do governo do Xá. E foi também a partir dessa data que se desenvolveram os comitês operários nos centros petrolíferos e no cinturão industrial em torno de Teerã, além de 105 comitês de bairro na própria capital.

© UNIVERSIDADE DA COLUMBIA/DIVULGAÇÃO

Ahmadinejad, atual presidente do país, foi “guarda revolucionário” (esq.); Bakhtiar, premiê na monarquia, viu ruir a idéia de transição tranqüila (dir.)


PEITO ABERTO

No fim de 1978, as telas das TVs do mundo inteiro mostraram um espetáculo surpreendente e inesperado. As ruas das principais cidades do Irã se enchiam de manifestantes que, lançando vivas ao imã Khomeini, reclamavam o fim da monarquia. A ação repressiva do exército e da polícia, fiéis ao regime, não conseguia deter a determinação dos manifestantes. Estes eram massacra dos às dúzias e às centenas, para se tornarem mais numerosos no dia seguinte. O povo iraniano, literalmente, oferecia seu peito às balas e até aos blindados do poderoso exército imperial. Poucas vezes se tinha visto semelhante determinação num movimento popular.

O caráter “islâmico” das manifestações surpreendia menos, porém, do que o fato de que, pela primeira vez, uma revolução era transmitida ao vivo pela TV. Paradoxalmente, se o mundo podia acompanhar a evolução e vicissitudes do processo em tempo real, essa revolução não parecia inspirada em idéias contemporâneas, mas nos ensinamentos de um personagem religioso do século VII: o profeta Maomé.

A volta do exilado aiatolá Khomeini, líder xiita do clero, criou as bases para uma saída do impasse em que o país estava mergulhado. Ele vinha de 15 anos no Iraque e, depois, na França. Os Estados Unidos, por sua vez, que até ao fim de 1978 sustentaram sem reservas o regime dos Pahlevi (seu principal cliente internacional de material bélico durante as décadas precedentes) começaram a agir, em busca de uma saída sem o Xá, uma transição que preservasse o exército imperial. A diplomacia americana atuou para que o Xá e sua família abandonassem o país. Velho e doente, Reza Pahlevi morreria nos EUA poucos anos depois.

ASSALTO AO PODER

Khomeini retornou da França em 1o de fevereiro de 1979, foi recepcionado por 5 milhões de pessoas e não tardou muito a proclamar a República Islâmica do Irã. Uma greve geral paralisava o país havia dois meses. E bastaram 11 dias da presença dele em Teerã para que a insurreição iraniana, com uma alternativa política “visível”, ganhasse os contornos de um verdadeiro assalto popular ao poder.

O processo teve alguns lances interessantes. Antes da proclamação da República, o primeiro-ministro Chapour Bakhtiar declarou que não admitiria um poder paralelo ao seu. Khomeini ainda estava exilado quando colaboradores do aiatolá comunicaram ao premiê que seria organizado o Conselho da Revolução Islâmica, para dirigir provisoriamente o Irã depois da “queda do governo de Bakhtiar”. Acrescentaram que armas estavam sendo distribuídas à população.

A tentativa de conciliação com o antigo regime ficou evidente quando o novo primeiro-ministro, Mehdi Bazargan, revelou a existência de um acordo que chegou a prever a nomeação do mesmo Bakhtiar, membro da Frente Nacional de Oposição, como primeiro-ministro. O roteiro da transição seria: a partida do Xá, a instauração de um Conselho da Coroa, convocação de eleições gerais e livres, instalação de uma Assembléia Constituinte e, por fim, a transferência do poder.

Bakhtiar aderiu a esse projeto, assim como os chefes do exército e da polícia. Mas o movimento expresso na greve geral possuía já um alto grau de independência, pois estava apoiado num forte movimento popular. Sua expressão maior foi a insurreição popular armada de 10, 11 e 12 de fevereiro de 1979, que quebrou o exército imperial e liquidou os planos de transformação pacífica da monarquia. “Eu não tinha ainda declarado a guerra santa”, contou Khomeini, tempos depois.

O dia 10 de fevereiro de 1979 foi um sábado sangrento na capital do Irã. Multidões investiram contra quartéis, delegacias de polícia e outros postos de resistência da monarquia. A cidade cobriu-se de grossas espirais de fumaça, por causa dos incêndios em prédios públicos e dos confrontos com a polícia. Os seguidores do aiatolá Khomeini insuflavam o povo por meio de alto-falantes. No fim da tarde, combatia-se por toda a cidade. Pelo menos 200 mortos e 800 feridos foram recolhidos das ruas. A fúria do levante trazia ao mundo, no terceiro quarto do século XX, cenas que antes só apareciam em livros de história.

Dois dias mais tarde, renderam-se os últimos oficiais leais ao governo. Pouco depois, o Estado-Maior das Forças Armadas comunicou que as tropas seriam chamadas de volta aos quartéis, “para evitar mais derramamento de sangue e anarquia”. Os soldados começaram a confraternizar com a multidão, gritando: “Nós estamos com o povo”.

A repressão contra a esquerda e o movimento organizado dos trabalhadores começou imediatamente depois de vitoriosa a revolução antimonárquica, dando um papel decisivo às milícias islâmicas, depois transformadas em Guardas Revolucionários (dos quais fazia parte o atual presidente iraniano, Ahmadinejad), que conquistaram enorme poder político no novo Estado, limitan do o próprio poder dos mullahs.

No entanto, ainda em 1979, quando a direção islâmica queria dar por terminada a revolução, para a população ela recém-começava. A autoorganização operária se manteve pelo menos até 1981 nos principais centros industriais e fez pairar o fantasma de uma segunda revolução social. Não só no Irã, mas em toda a região, principalmente na Arábia Saudita.

Os comitês “khomeinistas” começaram então a concorrer e, depois, a se chocar militarmente com os comitês independentes surgidos da insurreição popular. O primeiro ministro Bazargan resumiu a situação nestes termos, aos correspondentes estrangeiros: “Vocês não concebem a que fantástica pressão popular estamos sendo submetidos, todos, sem exceção”.

Diante do temor e da fraqueza da burguesia iraniana, da dissolução do exército imperial e da carência de independência política da classe operária, o clero xiita pôde jogar um papel de arbitragem que se estendeu por todo o período histórico, chegando até os dias atuais. Essa arbitragem o colocou na cabeça do Estado islâmico, vigente até hoje, no qual as instituições representativas, eleitas em escrutínio, estão subordinadas a instâncias não-eleitas próprias à instituição religiosa, configurando um regime de natureza bonapartista e teocrática.

PAÍS É ATOR DE PESO NA TORMENTA MUNDIAL


WHITE HOUSE PHOTOGRAPHIC OFFICE/DIVULGAÇÃO

Depois do Irã e da Nicarágua, Reagan e Thatcher criam agenda de contenção de revoluções

Em 1979, as revoluções no Irã e na Nicarágua se seguiram à saída dos Estados Unidos do Vietnã e do sudeste asiático. Nos EUA e na Grã-Bretanha, os regimes de Ronald Reagan e de Margareth Thatcher, eleitos logo depois, tentariam impor uma reversão na tendência política mundial. Mas se a revolução iraniana não era um raio em céu de brigadeiro, tampouco se esgotou na queda da monarquia. Ao contrário, a partir daí, desfraldaria todas as suas contradições.

Em 1980, logo depois da revolução, a guerra do Irã contra o Iraque, o último financiado e armado pelos EUA e por potências européias, atenuou as contradições internas do país, pois havia um inimigo externo a combater. Serviu também como álibi ideológico e militar para a repressão contra a esquerda e o movimento operário independente iraniano.

O Iraque não conseguiu derrubar o regime do Irã – depois de 8 anos, a guerra terminou com um cessar-fogo patrocinado pela ONU. Isso fortaleceu o clero xiita no Irã e deu à sua milícia armada um lugar central no poder. A partir de meados da década de 80, o declínio dos preços internacionais do petróleo acrescentaria um fator econômico à queda do poder da classe operária. A luta dos trabalhadores retrocedeu a níveis elementares com o desemprego e a queda da renda.

Os acontecimentos atuais demonstram que a revolução iraniana de 1979 alterou decisivamente o equilíbrio político do Oriente Médio. A população do Irã, que era de 34 milhões na época, pulou para 70 milhões, e 65% dela tem menos de 25 anos de idade, um recorde mundial em juventude. Esses jovens formam a população mais instruída do país de todos os tempos – o índice de alfabetização saltou de 59% para 82% nos últimos 20 anos. Entretanto, 40% deles estão desempregados.

A nova geração tem desafios que põem novamente o Irã no centro da tormenta política mundial. A “questão iraniana” se projeta como um poderoso fator de crise política mundial, pela via da instabilidade no Oriente Médio.

O Irã foi acusado de ser a força por trás das milícias do Hezbollah, que impuseram humilhação ao Exército de Israel em 2006. Nos dias que correm, é visto como um dos financiadores ocultos do Hamas palestino, contra o qual Israel investiu brutalmente a partir de dezembro de 2008, em ataques na Faixa de Gaza.

De fato, o Irã joga um papel central nos conflitos geopolíticos da atualidade, tanto por sua força econômica e militar quanto pela liderança política que começou a exercer em 1979, quando uma revolução o colocou no centro da atenção mundial, de onde nunca mais saiu. – O. C.

Osvaldo Coggiola é professor do programa de pós-graduação em história econômica da USP e autor do livro A revolução iraniana(Unesp, 2008)

Revista Historia Viva

Um comentário:

Guilherme Scalzilli disse...

Mitos iranianos

As eleições no Irã servem perfeitamente à propaganda do Eixo do Mal, o estilo “Guerra Fria” modernizado que continua a pautar a cobertura internacional da grande imprensa. A desinformação tende a piorar com o acirramento dos ânimos, alimentando um repertório de bobagens que, sem as devidas correções, ganharão status consensual. É interessante romper esse processo de criação de falsas verdades enquanto a imprevisibilidade dos acontecimentos ainda o permite.

Fraudes provam que Ahmadinejad perdeu? – tudo leva a crer que houve uma série de irregularidades por todo o país. Mas ninguém conseguiu dimensioná-las ou determinar seus autores, enquanto vazam contagens paralelas e apócrifas que beiram o inverossímil. Nenhuma fonte iraniana confiável (incluindo vários oposicionistas) questiona a inevitabilidade da reeleição do presidente, extremamente popular entre as classes menos favorecidas e no interior.

Uma revolução em curso? – os numerosos protestos são inéditos na história recente do país. Mas concentram-se nas grandes cidades, especialmente em Teerã. O tal “clima nacional” das manifestações não foi comprovado, pois os correspondentes internacionais se restringem à capital. Ali também houve pelo menos duas grandes passeatas favoráveis a Ahmadinejad, que não receberam destaque na imprensa. O movimento oposicionista é menos organizado e uníssono do que parece.

Mousavi é liberal? – A mídia internacional sempre o considerou um radical. Hoje ele assume discurso moderado, mas jamais questiona a República Islâmica, antes defende o retorno a seus princípios originais. Foi primeiro-ministro de 1981 a 1988, período particularmente repressivo da política iraniana, que coincidiu com a guerra contra o Iraque. Seu governo perseguiu oposicionistas e impôs diversas das restrições de vestuário e comportamento que se costuma associar à dureza do regime.

Os EUA cautelosos? – É evidente (e pouco dissimulado pelo próprio governo Obama) o apoio conferido à oposição. As cifras envolvidas variam de acordo com o informante, mas coincidem na escala milionária. Sob a censura e a repressão do governo iraniano, seria materialmente impossível organizar, financiar e divulgar um movimento reformista (tão bem-sucedido quanto instantâneo) sem forte amparo externo.

Uma ótima fonte dos acontecimentos pode ser obtida nos relatos de Robert Fisk, talvez o mais importante correspondente internacional no Oriente Médio (em inglês):
http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/