quarta-feira, 8 de junho de 2011

Um enigma chamado Alexandre


Triunfo
Pintura mostra Alexandre entrando na Babilônia, em 331 a.C.

A mais poderosa força militar ocidental de seu tempo decide ajustar as contas com um tirano que vive na região do Golfo Pérsico. Será a chance de vingar-se contra um inimigo detestado, obter riquezas e consolidar o poder do líder nacional. Os ocidentais atacam e vencem, montam um governo de ocupação e assumem o controle do país. Mas afirmam que seu maior objetivo é levar os benefícios da civilização ocidental aos povos asiáticos e construir uma nova sociedade. Parece familiar?

É preciso avisar que o país atacante é a Macedônia do século 4, que o inimigo é Dario, rei da Pérsia, e que estamos contando a história de Alexandre, o Grande (356 a.C. - 323 a.C.). Certamente não é coincidência que seus feitos voltem a despertar interesse popular neste começo de século 21. Mas os feitos de Alexandre intrigam os historiadores há milênios. Como é possível que em apenas 11 anos um homem construa um império que se estendia do mar Egeu à Índia? Que nunca perca uma única batalha, apesar de guerrear continuamente, às vezes em desvantagem de cinco para um? E o que o levava a lutar? Uma sede homicida de glória? Ou uma visão de mundo muito à frente de seu tempo, que o impulsionava a buscar a paz entre Ocidente e Oriente 25 séculos atrás?.

480 a .C. O rei persa Xerxes invade a Grécia e dá início a um ciclo de guerras entre os dois povos que marcará todo o século 5 a.C.
336 Filipe é assassinado por um ex-amante. Especula-se que Alexandre e sua mãe, Olimpia, seriam os mandantes do crime, mas nada é comprovado. Alexandre se torna rei
356 Nasce Alexandre, filho de Filipe 2, rei da Macedônia. Alexandre é educado nos moldes gregos e tem entre seus professores o filósofo Aristóteles
335 Tebas não aceita a autoridade de Alexandre. Este ataca a cidade e escraviza a maior parte da população, mas poupa alguns de seus habitantes
334 Alexandre invade a Ásia Menor e vence os persas em batalha nas marges do rio Granico. Em Górdion, corta um nó que, segundo a lenda, só poderia ser desfeito pelo conquistador da Ásia
333 Em Issus enfrenta em combate pela primeira vez Dario, o imperador persa. Os gregos vencem e Dario foge, mas sua família é capturada por Alexandre. Começa a conquista da costa da Síria
332 Sítio e conquista de Tiro, que será arrasada. Alexandre ocupa o Egito e funda a cidade de Alexandria. Visita um oráculo local para saber se é filho de Zeus
331 Dario sofre uma derrota definitiva na batalha de Gaugamela. Alexandre captura as cidades de Babilônia e Susa, importantes centros do império persa
330 Alexandre ocupa a capital, Persépolis. Dario é assassinado por um nobre persa. O general macedônio Parmênio e seu filho Filotas, comandante da cavalaria, são acusados de tramarem a morte do rei e executados
329 Alexandre penetra no Afeganistão para lutar contra nobres persas que se recusam a aceitá-lo como soberano
327 Casamento com Roxana, uma princesa persa, para aproximar-se da nobreza do país. Continua a dirigir-se para leste, em direção à Índia
326 Penetra na Índia e começa a lutar contra os soberanos locais. As lutas contra o rei Poros serão suas últimas grandes batalhas. O exército se amotina e Alexandre decide voltar para a Babilônia
326-5 Alexandre e seu exército descem o Indo, conquistando os povos que encontram no caminho. Alexandre é ferido e passa quatro dias à beira da morte
325 Chegam à costa do Índico e iniciam o retorno. Parte do exército volta pelo mar, enquanto Alexandre lidera uma caminhada pelo deserto da Gedrósia onde milhares de soldados morrem
324 Em Susa promove uma gigantesca cerimônia de casamento entre macedônios e noivas da nobreza persa. Casa-se com duas delas
323 Após um banquete, sente febre e morre dez dias depois


Para entender o significado da curta vida de Alexandre (veja linha do tempo abaixo), é preciso analisar a realidade grega no século 4 a.C. Suas conquistas são parte do chamado expansionismo macedônico. A Macedônia era um pequeno reino no norte, sem importância política e vista como subdesenvolvida culturalmente. O reino vivia um caos político até que passou a ser governado em 359 a.C. por Filipe, pai de Alexandre. Ele se mostrou um político e soldado de gênio e, valendo-se de pactos, casamentos e conquistas, expandiu sua influência. "O primeiro alvo da expansão macedônica foi a própria Grécia", conta Norberto Guarinello, professor de história antiga da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Um jovem e brutal rei

Ele explica que enquanto o poderio macedônico aumentava, as grandes cidades-estado, como Tebas e Atenas, viviam um momento de crise e declínio político, sem conseguirem resolver seus conflitos sociais internos. Após 20 anos de lutas, Filipe venceu as tropas de Tebas e Atenas na batalha de Queronéia. Tornou-se uma espécie de general em chefe do país e conseguiu, até certo ponto, unificar a Grécia. Seu passo seguinte foi retomar uma antiga idéia de atacar o império persa, contra quem os gregos haviam travado várias guerras desde o século anterior. Mas não era um mero ajuste de contas. "Buscar a expansão para o leste era uma forma de resolver os problemas internos, reforçar a união grega e legitimar a autoridade de Filipe", explica Guarinello.

Filipe, porém, foi assassinado em 336 a.C. Seu filho Alexandre tornou-se rei aos 20 anos. Tebas e Atenas viram uma chance para conquistar mais autonomia. Tebas se revoltou. O novo rei afirmou sua autoridade por meio de uma repressão brutal. A cidade foi arrasada, 6 mil foram mortos e 30 mil escravizados. Era um recado para que Atenas não se revoltasse também. Os atenienses se congratularam com o vitorioso Alexandre.

O grande trunfo dos macedônios era seu exército. Em suas primeiras conquistas, o pai de Alexandre tomou posse de minas de ouro e prata, e investiu parte da sua riqueza na criação de um novo tipo de organização militar. Diferentemente das cidades-estado, que recrutavam seus militares entre seus cidadãos, Filipe contratou mercenários. Para eles desenvolveu uma nova maneira de lutar, a partir de técnicas já existentes.

Enquanto os tradicionais lanceiros hoplitas gregos portavam um escudo redondo de um metro e seguravam uma lança de 2,5 m, os soldados de Filipe portavam lanças enormes, de 5,5 m, e usavam como defesa um pequeno disco no pescoço ou no ombro. Isso permitia aos homens adotarem uma formação que era ao mesmo tempo mais leve e 40% mais compacta, e que era chamada de falange. A eles somavam-se a tropa de cavalaria (tipo de unidade que era pouco utilizada pelas cidades do Sul) e mais alguns batalhões de infantaria leve.

As faces do conquistador
O impacto das conquistas de Alexandre e o culto à sua personalidade podem ser avaliados pela variedade de imagens suas produzidas ao longo da história.
General
Para os romanos, a personificação do talento militar e da bravura em combate

Mais do que apenas reproduzida, a figura do general macedônio foi reinterpretada por diferentes povos e épocas, de acordo com suas próprias perspectivas culturais. É por isso que no antigo Egito (país que se transformará num importante centro da cultura helênica), ele foi considerado não imperador, mas faraó, e retratado como um deles. O rei Filipe da Macedônia gravou no verso das moedas o perfil de seu filho aos 18 anos como imagem de Apolo, o deus grego ligado ao Sol e filho de Zeus. O próprio Alexandre recorreu às moedas como forma de tornar seu rosto familiar aos súditos de seu vasto império.

Faraó
No Egito, um homem divino
Muçulmano
Estudiosos islâmicos acreditavam que um personagem do Alcorão era Alexandre

O império romano absorveu toda a parte mediterrânea do império alexandrino, e junto com ele a admiração pelo seu criador. Pinturas e esculturas mostrando seus feitos eram muito populares em todo o império. Os romanos gostavam de retratá-lo a cavalo, reforçando valores como coragem, audácia e uma imagem de guerreiro perfeito.

Sua figura penetrou também no mundo muçulmano. O Alcorão menciona um personagem chamado Zol Qarnayn, que os primeiros comentaristas do livro sagrado islâmico identificaram como sendo o general macedônio. A literatura persa da Idade Média apresentava Alexandre como um rei cavalheiresco, justo e defensor dos valores do Islã, e muitas miniaturas foram feitas mostrando passagens de sua vida.

"O rei Filipe criou um grandioso exército para matar outros gregos", escreve o historiador militar americano David Hanson em seu livro "Por que o Ocidente Venceu". "Alexandre considerou que essa herança seria ainda mais útil para matar persas", avalia Hanson.

Alexandre era, ele mesmo, uma das mais importantes engrenagens do exército. Foi um general brilhante: as batalhas que travou com os persas, no rio Granico, em Issos e em Gaugamela até hoje são estudadas nas escolas militares. Comandava uma tropa de cavalaria de elite chamada heitairoi, ou companheiros, à frente da qual envolvia-se em combate corporal. Sua coragem pessoal lhe acarretou ferimentos por todo o corpo e quase o matou pelo menos duas vezes. Possuía grande carisma e talento para propaganda pessoal. Dizia que sacerdotes egípcios haviam lhe revelado ser Zeus, o maior dos deuses gregos, seu verdadeiro pai. Tudo somado resultava numa imensa capacidade de liderança sobre seus homens.

A conquista do império persa
Com cerca de 40 mil soldados, Alexandre iniciou a guerra contra um império com uma população estimada em 70 milhões de pessoas. Invadiu a Ásia Menor em 334 a.C. Derrotou os persas pela primeira vez na batalha do rio Granico e em dois anos conquistou a costa do Mediterrâneo Oriental até o Egito. A seguir penetrou no interior e em 330 chegou à capital, Persépolis (no atual Irã), que foi queimada. Neste ano Dario morreu, e Alexandre proclamou-se seu sucessor. Os generais gregos acreditavam que Alexandre iria estabelecer-se na Babilônia para governar. Mas o macedônio tinha outros planos e embrenhou-se cada vez mais para o Oriente. Guerreando sem parar, varou os atuais territórios do Afeganistão e do Paquistão, cruzou o rio Indo e chegou à Índia. Em 326 a.C. estava às margens do rio Hifases, desejoso de mergulhar no coração do subcontinente indiano. O exército porém recusou-se a ir mais longe. Resignado, seu comandante ordenou o retorno. A volta levou um ano. Em 323 a.C. Alexandre participava de um banquete na Babilônia quando começou a sentir febre. O quadro piorou, e ele agonizou por dez dias, antes de morrer. A causa não foi identificada, e imediatamente circularam boatos de envenenamento. Mas como na época não se conheciam venenos de ação lenta, essa hipótese é hoje descartada pelos historiadores, que apostam em doenças como malária.

O avanço dos gregos através do Oriente é mais complexo do que uma simples conquista. Alexandre fundava cidades nas regiões dominadas. O total pode ter chegado a 70 (metade delas chamava-se Alexandria). Elas serviam como suporte administrativo, e foram povoadas com soldados do exército. Nelas, os novos senhores da Ásia viviam à maneira grega: falavam seu idioma natal, obedeciam às suas instituições e praticavam esportes.

Será que ele era?
Um dos elementos centrais de "Alexander", de Oliver Stone, é a polêmica sobre sua sexualidade. Alexandre sente uma atração incestuosa pela mãe Olimpia e vive uma relação íntima com o amigo Hefestion. Os dois se distanciam quando Alexandre se casa com uma linda persa. Mas o conquistador segue dormindo com outros homens. Relações entre homens eram usuais na Grécia, mas a versão de Stone é uma das leituras possíveis. O historiador Plutarco (séc.1 d.C.) descreveu um Alexandre que via as mulheres só como "estátuas inanimadas". Conta que uma vez lhe ofereceram a compra de dois belos escravos, ao que teria respondido: "Que ação vergonhosa me viste praticar para propor semelhantes infâmias?" Mas diz que ele tinha um dançarino favorito, a quem beijou.

A idéia era que os gregos transmitissem sua cultura aos povos dominados. Em algumas regiões, como nos reinos da Índia, as cidades duraram pouco. Mas houve influência artística importante, e o contato comercial e cultural com o ocidente permaneceu. Em outras áreas, como no Egito, surgiu um mundo helenístico que durou séculos até sua absorção pelo Império Romano.

Violento, político e flexível
Por sua vez, Alexandre assimilou elementos dos povos conquistados. Quando capturou a mãe e a esposa de Dario, manteve o status real de ambas. Muitas vezes renomeou os altos funcionários do ex-imperador para os mesmos cargos, como forma de conquistar o apoio da aristocracia persa. Seu vestuário se tornou parcialmente orientalizado. Casou duas vezes, ambas com mulheres não-gregas, e promoveu o casamento de 9 mil dos seus comandados com esposas persas. Adotou o costume persa da prosternação do súdito diante do rei, o que sugeria o caráter divino deste último. O escândalo dos gregos foi grande demais, e o conquistador teve que voltar atrás.

Alexandre sabia ser impiedoso. Nas cidades que conquistou na Ásia, teria feito 250.000 baixas, a maioria civis. O número de mortos no campo deve ser várias vezes maior. Além da pilhagem e escravização de mulheres e crianças, seu exército adotou o uso da crucificação, executou soldados a quem prometera poupar a vida caso se rendessem, chacinou várias guarnições até o último homem e exterminou cidades inteiras, como Tiro, na costa do Mediterrâneo. Houve povoações que preferiram o suicídio coletivo à morte nas mãos dos gregos.

A marca de Alexandre
Rota da Conquista Rota do retorno à Babilônia Limites do Império
Guerra
A falange macedônica mudou a forma como os gregos lutavam

Difusão
A cidade de Ali Khanoum marcou o ponto extremo da expansão da civilização grega

Cidades
Criou 70 cidades no Oriente, como Bucéfala, fundada no lugar onde seu cavalo morreu

Arte
A escultura de regiões como o atual Afeganistão sofreu grande influência helênica

Cultura
O cosmopolitismo de Alexandria, com seu famoso farol, será o mais duradouro monumento a seu fundador

Civilização
Cidades como Petra, na Síria, são um desdobramento do mundo helênico criado pelo macedônio

Comércio
A rota de navegação aberta pelo exército macedônico na sua volta da Índia será depois usada para o comércio

Uma figura romântica

As avaliações do seu legado variam. Maria Regina Cândido, professora de história antiga da Uerj, destaca a transformação na própria Grécia: "Alexandre introduz uma forma de governo centralizadora, e durante o período helenístico os cidadãos vão deixar de participar da administração do poder". Mas há pontos positivos também. "As cidades-estado viam com desconfiança tudo o que era estrangeiro. A influência do multiétnico exército macedônico vai ajudar a abrir os gregos para o mundo", avalia. Um dos maiores especialistas no mundo helênico, o inglês Frank Walbank, chegou a afirmar que "o império romano, a expansão do cristianismo como religião mundial e os longos séculos de Bizâncio foram, em algum grau, os frutos dos feitos de Alexandre". Já a especialista em arqueologia clássica de Oxford Ellen Rice, autora de uma biografia sobre o macedônio, diz que ele deixou "uma figura romântica contra qual todos os grandes homens posteriores se compararam e um ideal de comandante que, em nome da glória, tornava a selvageria algo nobre". Talvez todos estejam certos.
Para ler
"Alexandros", Valerio Manfredi. Rocco. 2000
"Nos Passos de Alexandre", Marie-Therese Davidson. Rocco. 2004
"Alexandre Le Grand", Pierre Briant. Gallimard. 1998

Revista Galileu

Um comentário:

Claudinha Monteiro disse...

Jovem, efemero e intenso. Alexandre é uma figura que intriga até hoje.Belo post.