quinta-feira, 19 de maio de 2011

O revolucionário projetista do exército de Napoleão

No final do século 18, o Exército Francês era o único que dispunha de métodos de cálculo para determinar as melhores posições para escapar do fogo da artilharia inimiga. Para fugir dos complicados cálculos usualmente empregados nesse e em outros problemas da engenharia militar, o matemático Gaspard Monge (1746-1818) desenvolveu uma técnica tão simples que não recebeu atenção dos superiores. Assim começou a geometria descritiva, que hoje se aplica não só a desenhos ou projetos técnicos, mas também nas artes e na fotografia.

Ainda adolescente, após fazer um mapa elogiado por especialistas, Monge foi incentivado a ingressar na escola militar, onde desenvolveu sua técnica para representar no papel as manobras militares, de tal forma que nada ficasse sob a mira do inimigo.

Ao perceberem a genialidade e a importância bélica do novo método, os militares o mantiveram em segredo por 15 anos. Só era permitido ensiná-lo aos futuros engenheiros militares. Somente em 1794, em plena Revolução Francesa, Monge pôde divulgar sua invenção em escolas civis de Paris.

A idéia da geometria descritiva é notável e elegante pela simplicidade. Basicamente é a representação ou projeção (perspectiva) de sólidos e figuras tridimensionais sobre um plano. Por esse método, uma figura é projetada inicialmente em um plano vertical, em retas perpendiculares a ele e em um plano horizontal (veja ilustração à direita).

Assim, todo objeto ou figura no espaço é representado por duas projeções em um plano só, colocando em uma folha de papel plana o que visualizamos no espaço de três dimensões. Com um pouco de prática, pode-se facilmente ler essa representação - ou épura - e reconstituir o objeto real que deu origem a ela. Assim, o Exército Francês colocava no papel as armas e suas peças e componentes para serem especificadas geometricamente aos fornecedores.

A geometria descritiva de Monge é hoje estudada nos primeiros anos de todas as áreas de engenharia. Vários projetos são baseados nela. É também estudada nas escolas de artes porque tem aplicação no estudo das perspectivas das pinturas dos quadros. Pode ser empregada também na análise da veracidade de fotografias, para saber se são montagens ou não. Quadros e fotografias são projeções, e geometria descritiva é o estudo das projeções.

Como era comum aos cientistas da época, Monge pesquisou várias áreas do conhecimento. Tomou parte na Revolução, assumiu a liderança na produção de munição e ocupou um cargo público em uma época arriscada, quando correu o risco de ser morto, mesmo participando do lado dos revolucionários. Na era napoleônica, foi amigo íntimo do imperador, chegando a acompanhá-lo na invasão ao Egito e na tentativa de impor ao país os moldes da cultura dominante européia. Quando Monge morreu, a monarquia tinha sido restaurada na França e o rei não permitiu que alunos da Escola Politécnica de Paris, que o matemático havia ajudado a fundar, participassem da cerimônia fúnebre.

Talvez pela característica secreta, prática e não teórica de sua matemática, além de ter morrido inimigo do rei, Monge seja pouco conhecido ou lembrado hoje. Mas ele está por trás de quase todos os projetos de engenharia e de todos os livros e trabalhos de geometria descritiva.

Revista Galileu

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A grande colméia humana

Através da história, as sociedades vêem
a atividade das abelhas como espelho – ou
utopia – de si próprias

Okky de Souza

As abelhas sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. Não tanto por produzirem o mel, uma das delícias da natureza, mas, principalmente, pela organização que rege a vida das colmeias. Nelas, a abelha rainha é alimentada por 50.000 abelhas operárias e voa uma única vez na vida para copular com uma dúzia de zangões, cujo esperma retém por várias semanas e que serve para fertilizar 15 000 ovos. As operárias, por sua vez, se dividem entre vários serviços ao longo da vida – desde recolher o pólen nas flores até cobrir as larvas com cera para mantê-las aquecidas – sem que ninguém lhes precise dizer que é hora de mudar de tarefa. Essas e muitas outras atividades que uma colmeia envolve se sucedem com tanta precisão que é inevitável comparar a faina das abelhas com a dos seres humanos. A historiadora inglesa Bee Wilson, da Universidade de Cambridge, nota que essa comparação tem sido feita exaustivamente através dos séculos. Todas as sociedades ocidentais desde a Grécia antiga enxergaram a colmeia como microcosmo de si próprias, como espelhos – ou utopias – de suas formas de governo, de sua política, de sua economia e das relações entre os sexos em suas organizações familiares.

As observações de Bee Wilson encontram-se em seu livro recém-lançado na Inglaterra, The Hive: the Story of the Honeybee and Us (A Colmeia: a História das Abelhas e de Nós), um passeio delicioso pelo fascínio da humanidade por aquilo que o poeta romano Virgílio definiu como "pequenas repúblicas de grandes líderes". Os romanos referiam-se à maior abelha da colônia como rex, dux, imperator ou ductor – termos que significam chefe ou imperador. Desde então, através dos tempos, o sistema que rege a colmeia já foi definido como monarquia, oligarquia, aristocracia, império e ditadura comunista, entre outras tantas formas de governo. "Como acontece no mundo dos fenômenos políticos, cada um enxerga a colmeia da maneira que lhe convém", escreve a historiadora. Na Idade Média, a colmeia foi definida pelos apologistas do feudalismo como uma comunidade regida por um rei a que todos os trabalhadores admiravam, um rei tão misericordioso que, mesmo possuindo um ferrão, jamais o usava para subjugar seus súditos. Até então, pensava-se que a abelha rainha era um macho.

Na Europa do século XVIII não só se descobriu que o manda-chuva da colmeia era fêmea como a metáfora entre abelhas e seres humanos atingiu seu ápice. Depois que a Revolução Francesa enxotou a monarquia, instituiu-se a crença de que, se a colmeia era uma monarquia, era uma monarquia republicana, nunca absolutista. O trabalho incessante das abelhas operárias não mais significava obediência cega à rainha, mas demonstração de virtude republicana. Anos depois, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder, pediu sugestões para novos símbolos que representassem o império. O Conselho de Estado propôs que fossem escolhidas as abelhas, que simbolizariam "uma república com um chefe", dotadas de ferrões mas capazes de produzir mel.

Os conselheiros de Napoleão sabiam que esses insetos eram símbolos dos reis do Egito e que 300 abelhas de ouro foram encontradas na tumba do rei Childéric, precursor dos monarcas franceses. As abelhas, portanto, serviam para tornar mais crível a transformação do filho de um advogado da Córsega, cujo nome original era o italianíssimo Buonaparte, no mandatário supremo da França. As novas roupas do imperador foram cobertas de imagens de abelhas, assim como os panos decorativos que pendiam da Catedral de Notre Dame no dia de sua coroação. Posteriormente, a águia se tornaria o emblema do imperador francês, mas as abelhas continuaram a ter lugar de honra entre os símbolos da pátria – assim como no imaginário humano em todas as épocas.

Cultura e pensamento: o declínio da Grande Arte

A capela Sistina, no Vaticano, foi criada por Michelangelo. Foto: AFP

A capela Sistina, no Vaticano, foi criada por Michelangelo
Foto: AFP

VOLTAIRE SCHILLING
O Estado e a Religião, por séculos, foram os verdadeiros patrões das artes, pelo menos da Grande Arte. Das pirâmides de Gizé ao Pártenon de Atenas, do palácio de Dario em Persépolis à catedral de São Pedro em Roma, da escultura de Zeus em Olímpia à estátua eqüestre de Marco Aurélio, dos murais de Giotto no Santuário de Assis à pintura da Capela Sixtina do Vaticano feita por Miguel Ângelo, todas elas foram expressão estética da grandeza do Estado ou o da Religião. Será possível ambicionar-se que a Grande Arte possa vir algum dia a ocorrer em sociedades democráticas em que aqueles dois poderes não existem mais na mesma dimensão?

O artista, o estado e a religião

Não foi somente os que lidavam com cinzéis, pincéis e formões, como se deu no caso dos escultores e pintores tais como Fídias, Policleto , Agatarco, Appeles, quem se avassalou frente ao Estado e à Religião, pois quem empunhava a pena e o papel também o fizeram. O poeta Homero eternizou os príncipes bárbaros da Grécia Arcaica, os filósofos Platão e Aristóteles redigiram constituições para tiranos e reis: o orador Cícero serviu à República Romana, o magistral Dante criou a epopéia do cristianismo enquanto Shakespeare encenou a crônica trágica dos reis bretões. Das mãos e dos cérebros deles é que se gerou a Grande Arte, aquele que atravessou os tempos e imortalizou seus autores e patrocinadores.

Da arte popular, aquela feita pelo povo para o seu usufruto, o tempo, o vento e a areia trataram de fazer desaparecer. Aqui e ali, nas escavações arqueológicas no Egito, na Turquia, na Grécia ou na Itália, encontra-se uma ânfora, um vaso, um copo de estanho, uma lasca de cerâmica, quase mais nada. Bem pouco disso é relevante sob o ponto de vista da estética e da própria historia da arte.

Houve, assim, ao longo da história, uma íntima relação entre os dois maiores patrocinadores, o imperador e o papa, com a Grande Arte, que é a realmente significativa e que se mostrou capaz de sobreviver aos vandalismos, às guerras e às demais agressões das intempéries. A quem, pois, estaria a Grande Arte a serviço quando tais colossos do Ocidente, a coroa e a mitra, começaram a declinar juntamente com o poder da aristocracia? A quais novos patrocinadores o artista se colocaria então à disposição?

A Era da Soberania do Artista

A revolução Francesa, é consenso, inaugurou uma nova era na história ocidental. Do mesmo modo que emancipou o servo das obrigações feudais e o vassalo em relação ao suserano, emancipou por igual o artista dos seus patrocinadores históricos: o Estado e a Religião.

O contraditório da nova situação deles na modernidade viu-se pelo fato de que pela primeira vez em que os artistas ficaram totalmente livres dos seus antigos patronos, inaugurando a Era da Soberania do Artista, eles sentiram-se totalmente desamparados (a triste fama do artistas solitário, esfaimado e meio doido, tipo Van Gogh, Gauguin ou Modigliani, destruídos pelo álcool e pela incompreensão, surgiu justo naquele época). A liberdade estética deles cobrou seu preço, reduzindo muitos deles a uma vida de privações e doenças.O sentimento de orfandade os acompanhou para sempre.

Nietzsche enxergou nisso o maior perigo para a Grande Arte pois a ausência dos patrocinadores históricos, obrigava o artista a seguir o gosto popular, abrindo assim o caminho para o mau gosto: o império do kitsh.

Duas tentações passaram desde então a rondar os artistas contemporâneos. De um lado, a exigência de dedicarem-se à arte engajada, de colocar o seu métier "a serviço das causas sociais", transformando o artista em "companheiro de viagem" dos novos evangelistas, em defensores das reivindicações dos operários e dos pobres em geral (o ápice desse comprometimento da arte com uma ideologia político-social foi atingido durante os regimes totalitários do século 20 , como por exemplo foi o caso do "realismo socialista" dos stalinistas, e da "arte ariana" dos nazi-fascistas, ambos com pretensões de expressarem a estética do povo comum).

Hermético, incompreensível, inatingível

A outra alternativa era alienar-se das coisas da política. Manter-se à inteira disposição do mercado, em atender aos inconstantes gostos, crescentes e insaciáveis, da sociedade de consumo. Fazer da arte uma mercadoria (como Andy Warhol fez com o seu pôster da sopa Campbell, de 1968) ou um entretenimento ligeiro, como é o caso da novela policial e da historinha de amor.

Os que se negaram a seguir a "Causa" ou ao Mercado, entregues a si mesmo, posam como eremitas modernos, caso foi o caso de Marcel Duchamp. Estes se refugiam numa espécie de limbo estético crescentemente inacessível ao público usual de arte, cultivando um conceptualismo hermético e cada vez mais indecifrável.

Seja como for a Grande Arte parece ter-se ido para sempre do cenário artístico do Ocidente.(**)

(**)A famosa crítica que George Steiner fez em relação aos Estados Unidos, como um país incapaz de produzir a Grande Arte, procede mas com a atenuante de que na América do Norte nunca houve um estado forte como o absolutismo ou uma igreja dominante com deu-se com o catolicismo na Europa Medieval. A falta desse dois grandes patrocinadores das artes fez com que os Estados Unidos se destacassem na cultura de massas, naquilo que é descartável: Hollywood e a Disneylândia.

Imagem na História


Eckhout, Albert
Servo de Dom Miguel de Castro com Cesto Decorado , s.d.
óleo sobre madeira (carvalho)
72 x 62 cm
Statens Museum for Kunst (Copenhague, Dinamarca)
Reprodução fotografica autoria desconhecida

Observação
Obra atribuída também a Jasper Becx http://www.itaucultural.org.br

Um africano ricamente vestido, um paradigma dos escravos negros do Brasil, mas este, serve ao embaixador do Congo. O que nos chama a atenção é o olhar deste escravo, que nos mostra por exemplo a submissão e oferenda do objeto em sua mão. http://www.artenaescola.org.br

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O Casamento de Jupiter e Juno: um banquete típico dos nobres renascentistas é servido às divindades do Olimpo. Foto: Corbis/Stock Photos
O Casamento de Jupiter e Juno: um banquete típico dos
nobres renascentistas é servido às divindades do Olimpo

O Casamento de Júpiter e Juno (ao lado), pintado na Villa Medici, em Florença

Imagem na História

Banquete de Casamento, tela de Pieter Brueghel, o Velho: registro. Foto: Superstock/Keystone
Banquete de Casamento, tela de Pieter Brueghel, o
Velho: registro do cotidiano de camponeses flamengos

Banquete de Casamento, executada entre 1566 e 1568 pelo artista flamengo Pieter Brueghel http://revistaescola.abril.com.br

Prostitutas - Casos de polícia

Prostitutas e cafetões do início do século XX usaram a legislação para se defender de maus clientes e do cerco da própria Justiça
Marina Maria de Lira Rocha

Helena Petro era uma prostituta grega de 26 anos que vivia na Rua da Conceição, no Centro do Rio de Janeiro. O ano é 1908, quando a circulação de notas falsas de dinheiro era comum no país. Ao tentar trocar num botequim uma cédula de 50 mil-réis que recebera por seus serviços, Helena descobriu que fora enganada por um cliente. Sem titubear, levou o culpado à delegacia para denunciá-lo por pagar com dinheiro falso.

Pode parecer estranho uma prostituta recorrer justamente à polícia – que normalmente é associada à repressão a essa atividade – para receber seu pagamento, mas o Arquivo da Justiça do Rio prova que isso aconteceu com frequência nas zonas de meretrício da cidade entre 1907 e 1917.

Geralmente tratados pelos agentes do Estado como perturbadores da ordem, os que viviam da prostituição também sabiam usar a legislação quando tinham seus direitos violados. Os cafetões, que ganhavam dinheiro explorando a prostituição, costumavam recorrer à lei para se defender quando ameaçados. Mas, enquanto as prostitutas iam à delegacia para denunciar os maus pagadores, os que viviam do lenocínio (exploração de pessoas para fins sexuais), a maioria cidadãos estrangeiros, iam atrás de advogados para ajudá-los quando eram presos. Dessa forma, a estrutura repressiva criada pela elite, representada pela polícia e pela Justiça, acabava servindo também para defender os interesses dessas “profissões” excluídas.

Nos processos do Rio, as mulheres que vendiam o corpo tinham, em geral, entre 25 e 30 anos; eram, na maioria, estrangeiras e não escondiam de onde tiravam seu sustento. Pediam pagamento adiantado e costumavam levar o cliente à polícia se desconfiassem que ele estava dando uma nota falsa.
A prostituta inglesa Clara Double é um exemplo. Após receber uma nota de 50 mil-réis do cliente português José de Almeida, perguntou a dois amigos que bebiam cerveja na Rua Senador Dantas – uma prostituta russa e um negociante português – se a cédula era verdadeira. O trio se dirigiu ao Café Avenida, onde constatou que se tratava de dinheiro falso. O passo seguinte foi levar o cliente à delegacia.
Incidentes como esse resultavam em processos de sumário-crime, instrumento aplicado nos casos de uso de moeda falsa como atentado à fé pública. A punição prevista no Código Penal de 1890 era de um a quatro anos de prisão pela fabricação de dinheiro falso e de dois a quatro por sua introdução e circulação.

No entanto, a maioria dos crimes ficava impune por falta de provas sobre a intenção do denunciado de pagar com cédula falsa. Dificilmente algum acusado confessava que sabia da falsificação. Foi o que aconteceu com o português José de Almeida. O juiz Olympio de Sá Albuquerque o absolveu argumentando que era um indivíduo ignorante e analfabeto. Sua intenção ao passar a nota falsa, a única que tinha no bolso naquele momento, seria apenas a de impressionar a prostituta pagando um valor muito superior ao acertado entre os dois.

Apesar da absolvição, histórias como essa mostram que as prostitutas não estavam totalmente sós. Elas tinham a solidariedade de pessoas que se dispunham a testemunhar a seu favor: trabalhadores e donos de casas comerciais, colegas de meretrício, costureiras, cozinheiras, manicures, garçons. A inglesa Clara teve a ajuda de outra colega e do negociante, que a acompanharam ao Café Avenida.

Já com uma lógica comercial, elas valorizavam o direito de receber por seu trabalho. Por isso, não se envergonhavam de contar a todos quando sofriam uma injustiça e de ir à polícia em busca de reparação. É o que mostra o exemplo da russa Rosa Godemberg, que em 1909, ao receber de um cliente português uma nota aparentemente falsa de 120 mil-réis por um “programa” – ou “serviço”, como se dizia na época – de 40 mil-réis, saiu gritando pela Rua da Conceição que havia sido enganada.

A necessidade de recorrer à polícia é fruto da falta de uma regulamentação específica para essa atividade – algo que persiste até hoje. A partir do sumário-crime, a polícia e a Justiça assumem a responsabilidade de mediar as relações profissionais entre as prostitutas e seus clientes, atuando em favor daquelas que não receberam devidamente por seus serviços.

Numa época em que as mulheres começavam a deixar a vida privada e a sair de casa para trabalhar fora, a polícia precisava disciplinar os costumes nas áreas de meretrício para que fosse possível o convívio, no mesmo espaço público, entre as profissionais do sexo e as mulheres ditas “honestas”.

Ao mesmo tempo, a sociedade esperava que a polícia coibisse a ação dos cafetões. Eles costumavam ser encarados como os vilões do negócio da prostituição – algozes das mulheres que exploravam.

Em novembro de 1915, um russo, um francês e um brasileiro foram presos por cafetinagem. O jornal A Rua elogiou: “As primeiras prisões de cáftens (cafetões) efetuadas ontem pela polícia (...) foram uma bomba que arrebentou nos arraiais dos exploradores do lenocínio. Os cafés e bares onde habitualmente se reuniam tão nojentos indivíduos ficaram vazios. Durante toda a noite, era mais fácil encontrar libras esterlinas pelas ruas que os profissionais da infâmia (...) A polícia está fazendo o que prometeu”.

O destino da maioria dos cafetões estrangeiros presos era enfrentar um processo de expulsão do país baseado na Lei Adolfo Gordo. Criada em 1907 com o objetivo principal de reprimir operários estrangeiros que incitassem greves, ela também estabelecia o lenocínio como motivo para expulsão. A mudança no Código Penal em 1915, que intensificou a repressão ao tráfico e ao aliciamento de mulheres brancas, aumentou o número de cafetões a serem mandados para fora do país.

Quando eram presos, eles assumiam o papel de vítimas. Alegavam que sofriam perseguição pelo simples fato de serem estrangeiros. Ao serem presos, acusados de lenocínio, eles recorriam ao dispositivo jurídico do habeas corpus. Para consegui-lo, alegavam que residiam no país havia muito tempo e que aqui trabalhavam. Assim, valiam-se da própria Lei Adolfo Gordo, que negava a expulsão de quem já vivia aqui por mais de dois anos seguidos. Declaravam-se, então, cidadãos brasileiros.

Grande parte dos acusados, no fim do processo, não se encontrava mais nas prisões, o que nos faz pensar que já haviam sido expulsos do país. Foi o que aconteceu com cinco russos em 1917. Isaac Fiflick, Moyses Fiflick, Jacob Golberg, Samuel Revesck e Haimam Abraham foram presos e ameaçados de expulsão. Os acusados declararam-se residentes da Praia da Lapa e trabalhadores: dois ourives, dois comerciantes e um alfaiate. No fim do processo, o juiz declarou que eles não estavam presos.

Uma exceção foi o caso da costureira Nelli Vitte, em 1916, conhecida como Argentina, presa sob acusação de cafetinagem em sua casa, na Rua da Conceição. O advogado criminalista Evaristo de Morais assumiu sua defesa e conseguiu comprovar que ela vivia no Rio de Janeiro havia mais de dois anos, tinha uma profissão e nunca havia sido denunciada por lenocínio.

Estudioso das patologias sociais do Brasil, Evaristo de Morais se destacou, entre outras áreas, na defesa das prostitutas. Num ensaio que escreveu em 1921, vanguardista até para os padrões atuais, ele defendeu a regulamentação da profissão de meretriz. Propôs que a questão fosse tratada do ponto de vista da saúde pública e do direito do trabalhador, e não como um problema policial.

“Quem conhece as dificuldades da vida dos proletários; quem sabe até que ponto a grande indústria moderna, explorando e desmoralizando a mulher trabalhadora, tende a destruir os elos e freios familiares, que está a par dos ‘salários de fome’, em especial aplicados ao trabalho feminino, não estranhará também a afirmativa de Fiaux dizendo que a prostituição deve ser considerada (e respeitada, acrescenta ele) na constituição atual das nossas sociedades contemporâneas como um fenômeno econômico, como sendo o complemento do salário insuficiente ou a falta absoluta de salário”, dizia Evaristo.

Parece que as ideias do advogado não foram ouvidas com atenção. Quase 90 anos após a publicação do seu ensaio, a prostituição continua a ser abordada no Brasil principalmente sob o aspecto da moralidade pública, e não como uma atividade econômica ou uma questão social. Enquanto isso, persistem a repressão policial, a exploração de mulheres, homens e crianças e a pobreza entre a maioria dos profissionais do sexo.

Marina Maria de Lira Rocha é autora do artigo “Dos crimes contra fé pública aos crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias e do ultraje público ao pudor: visões sobre a prostituição entre 1907 e 1917” (em conjunto com Carlos Augustus Jourand).


Saiba Mais - Bibliografia

KUSHNIR, Beatriz. Baile de Máscaras – Mulheres judias e prostituição: as polacas e suas associações de ajuda mútua. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MENEZES, Lená Medeiros. Os estrangeiros e o comércio do prazer nas ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.

PRIORE, Mary Del (org.). História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.

RIBEIRO, Miguel Angelo (org.). Território e prostituição na metrópole carioca. Rio de Janeiro: Editora Ecomuseu Fluminense, 2002.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Assim nasceu a bruxaria

Para pregar o bem, cristãos convenciam seu rebanho da existência do mal: o demônio estava solto e a mulher era perigosa
Carlos Roberto Figueiredo Nogueira

O cristianismo surgiu com a proposta de ser uma religião universal, mas o mundo tinha particularidades, sobretudo religiosas. Para levar a Boa-Nova a todos os homens, os cristãos precisavam se impor sobre seus oponentes. Assim foi construída a Igreja, primeiro apartando-se do judaísmo, o mais incômodo adversário pela inquietante proximidade. Eliminados os judeus – “assassinos de Cristo” –, os heterodoxos foram os seguintes a ser calados ou perseguidos.
Ao longo do período medieval, a Igreja era atormentada pelas seitas de “adoradores do diabo”, e por isso as perseguiu. Com rigor cada vez maior, chegou à caça às bruxas da Europa moderna: a combinação trágica e eficaz entre a alteridade e a erudição.

A construção de uma mitologia satânica implicou um monumental esforço de reconhecimento do demônio, de suas formas e possibilidades de atuação. Também era preciso identificar seus agentes, ou seja, aqueles que, embora inseridos no rebanho dos fiéis, tramavam secretamente para a sua perdição. Entre estes estava a mulher. Teólogos e eruditos medievais a converteram em bruxa, o suprassumo da traição e da maldade, o veículo preferencial de toda a malignidade de Satã – enfim, o feminino em toda a sua tragicidade.

A doutrina cristã apresentava como razão para a submissão feminina a própria Criação: se o homem não foi criado pela mulher, ela estava numa posição automaticamente submissa. E ela também era a introdutora do pecado responsável pela condenação dos homens aos tormentos deste e do outro mundo, tornando-se a vítima e, ao mesmo tempo, a parceira consciente do diabo. De presa preferencial do demônio, Eva – a primeira mulher – foi convertida em seu lugar-tenente.

Os movimentos e seitas que ameaçavam e se opunham à Igreja no período medieval levaram à conclusão de que o diabo estava solto. Teólogos e eruditos deixaram de sustentar que o demônio tinha sido totalmente vencido. Se assim fosse, não haveria razão para a continuada existência da Igreja.

O rumor público serviu para ajudar a identificar o mal e seus agentes, especialmente numa Europa em crise. O continente convivia com a peste, as guerras, o Cisma do Papado – a existência de um papa em Avignon e outro em Roma, cada um deles se proclamando o verdadeiro – e a súbita ruptura do mundo tradicional, que eram terríveis novidades que deviam ser causadas por Satã e seus representantes, fossem feiticeiros, adivinhos ou judeus. Havia um imaginário frenético de um mundo em mudança, onde os homens assistiam perplexos à traição do costumeiro, ou seja, da pacífica continuidade que deveria levar o mundo de sempre à bem-aventurança da Jerusalém Celeste. Eles se perguntavam “chorando e gemendo neste vale de lágrimas”: por que os diabos agora se apoderam de tudo e de todos, destruindo o rebanho cristão, com a misteriosa permissão de Deus?

Deste modo, a partir do século XIV, o medo do fim do mundo e da danação eterna é intensificado e difundido na Europa de forma jamais vista. Mas esta angústia em relação ao mal não produziria efervescência sem a ação dos pregadores mendicantes, especialmente franciscanos e dominicanos. Conclamando todos ao arrependimento e à penitência, eles evocavam os horrores dos castigos eternos para obter a cura espiritual da cristandade.

Os esforços didáticos da pregação, em vez de tranquilizar as consciências, acabaram impondo, através do diabo, um rígido código ético e moral a partir do final do século XV. Resultado: todos os fatos da vida coletiva foram justificados pela sombria e inescapável mediação do Maligno.

A humanidade era atormentada pela cólera divina, o Dies Irae, e pelo medo de Satã, estreitamente associado à espera do fim dos tempos no senso comum. O Martelo das Bruxas, o “Manual de Caça às Bruxas”, assim o enuncia: “Em meio às calamidades de um século que desmorona, o mundo em seu ocaso desce para seu declínio e a malícia dos homens aumenta”. E Satã “sabe em sua raiva que tem pouco tempo”.

Assim, foi no início dos Tempos Modernos, e não na Idade Média, que o diabo e seus seguidores ocuparam o cenário principal do imaginário europeu. A era das reformas, o período das dissidências religiosas na cristandade que deu origem ao Protestantismo, correspondeu ao momento máximo da repressão à bruxaria. A presença do diabo era necessária para justificar o árduo e ininterrupto esforço missionário, ao mesmo tempo em que a existência de um Satã todo poderoso servia de fundamento para toda sorte de medidas repressivas e de violências, transformadas em luta contra o diabo, seus agentes e suas armadilhas.

Esse é o momento do “triunfo de Satã”. Herdando os conceitos e as imagens modeladas pelas consciências medievais, o início da modernidade emprestou ao demônio uma coerência e uma difusão jamais alcançadas. O medo desmesurado e onipresente do demônio estava associado, na mentalidade popular, à espera do fim do mundo. A luta religiosa conferiu ao diabo o seu estatuto de grandiosidade: ele é o grande rebelde. As reformas confirmaram seu direito de existir em toda a sua potência, em toda a sua majestade. E as perseguições, os processos inquisitoriais, acabaram materializando as ilusões – por que não dizer decepções? – e os medos de uma cristandade que se sentia permanentemente ameaçada pelo mal.

Carlos Roberto Nogueira é professor da USP e autor de Bruxaria e História (Edusc, 2004).


Saiba mais - Bibliografia

CLARK, Stuart. Pensando com os demônios. São Paulo: Edusp, 2006.
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. (Edição de bolso). São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A evolução das guerras

Amargurado com a invenção da bomba atômica, o físico alemão Albert Einstein teria dito: "Não sei como será a terceira guerra mundial, mas a quarta será de paus e pedras". No dia 7 de outubro, os EUA iniciaram uma série de bombardeios ao Afeganistão, na primeira grande guerra do século 21. É um conflito desigual: bombas e mísseis de alta precisão contra uma milícia tribal. Não é a terceira, nem a quarta guerra mundial, mas ajuda a refletir sobre a longa história dos conflitos humanos, desde que os gregos montaram o primeiro corpo de infantaria. Da Antiguidade, as guerras avançaram pela Idade Média, Moderna e Contemporânea até hoje. Não há previsões sobre o que ocorrerá depois do Afeganistão.

A evolução das guerras

c. 3000 a.C.
Relatos da batalha
Aparecem os primeiros escritos sobre embates entre povos da Mesopotâmia (atual Iraque) e invasores

490–480 a.C.
Gregos derrotam persas
Cidades-estado se organizam para repelir duas ondas sucessivas de invasão. Persas são derrotados na Batalha de Maratona e, em seguida, nas batalhas de Salamina e Platéia

431–404 a.C.
Guerra do Peloponeso
Travada entre Atenas e Esparta, com aliados nos dois lados. A guerra, a mais sangrenta entre as cidades-estado, encerra a hegemonia ateniense no Mediterrâneo

338 a.C.
Batalha de Queronéia

Filipe 2º, à frente do exército macedônio, derrota os gregos em batalha decisiva. A Macedônia, império em expansão, passa a ter o domínio da região

336–323 a.C.
As conquistas de Alexandre

Filho de Filipe 2º, Alexandre, o Grande, torna-se rei da Macedônia e empreende uma conquista de grandes proporções na Ásia, tomando o império persa e chegando até a Índia

264–146 a.C.
As Guerras Púnicas

A República Romana, com o fortalecimento de suas legiões, derrota Cartago, firmando-se como potência no Mediterrâneo

50–44 a.C.
Guerra Civil de Roma

Na disputa pelo poder, César derrota Pompeu e torna-se ditador. É o fim da República. Após sua morte, Otávio (foto) divide o poder com Lépido e Marco Antônio e torna-se o imperador Augusto em 27 a.C.

476
Queda de Roma

Depois de ter alcançado sua maior extensão (entre os anos 122 e 136), o império começa a ser gradualmente invadido por germânicos, visigodos e vândalos, entre outros, até a queda final

768–814
Reinado de Carlos Magno

Rei franco retoma o poder centralizado na Europa, esfacelado desde a queda de Roma. Principais vitórias ocorrem depois de cercos a cidades muradas (Pádua, 774, Barcelona, 801)

987–1040
Rede de castelos

Fulk Nerra, conde de Angevins, constrói uma série de castelos de pedra (foto) na fronteira de seu território, no oeste da França, para dificultar as tentativas de invasão

1096–1099
A primeira cruzada

Cruzados sitiam cidades como Antioquia (1098) e Jerusalém (1099). Para proteger os novos territórios, o exército constrói fortificações e muralhas

1320–1330
O começo da artilharia

Depois de ter surgido na China por volta do século 12, o canhão começa a aparecer em relatos europeus e árabes. Ainda rudimentar, a arma não chega a ser bem aproveitada em batalhas até o século 15

1337–1453
A Guerra dos Cem Anos

Ingleses e franceses travam batalhas intermitentes, pela disputa de territórios na França, como Calais (então sob o domínio inglês) e Bretanha. Cercos, infantaria e cavalaria têm papéis fundamentais

1529
Viena resiste ao avanço islâmico

Os exércitos otomanos de Suleimã, o Magnífico, chegam até Viena, cidade fortificada e com provisões suficientes para resistir a um longo cerco. Os islâmicos recuam e o Sacro Império Romano Germânico inicia a reconquista de suas terras

1487–1590
Expansão portuguesa

No auge do poderio naval, o Estado português entra em confronto com muçulmanos e estabelece fortalezas ao longo das costas do Oceano Índico e do Mar da China

1519–1521
O fim dos astecas

Espanhóis e povos indígenas mexicanos (ao lado) se unem, sob o comando de Hernán Cortez, para derrotar o império asteca, usando estratégias e tecnologias desconhecidas no continente

1531–1537
A derrota dos incas
Sob o comando de Francisco Pizarro, os espanhóis vencem e conquistam o império inca, depois de repetidos cercos a cidades fortificadas

1618–1648
A Guerra dos Trinta Anos

Travada por diversas nações européias, é marcada por campanhas com o uso disseminado do canhão e do mosquete, uma das primeiras armas de fogo portáteis

1756–1763
A Guerra dos Sete Anos

Um dos primeiros conflitos globais, envolvendo, entre outros, prussianos, russos, franceses e austríacos. Na América e na Índia, franceses e ingleses lutam pela posse de territórios

1775–1802
Lutas revolucionárias

Batalhas pela Revolução Francesa (1789), entre 1792 e 1802, e Independência dos EUA (1775–1783, ilustração ao lado), criam o sentimento nacionalista dos exércitos. As tropas se modernizam

1803–1815
Guerras napoleônicas

Com soldados dedicados e sistema tático inovador, Napoleão empreende importantes vitórias na Europa. É derrotado em Trafalgar (1805) e em Waterloo (1815)

1853–1856
Guerra da Criméia

França e Inglaterra, entre outros, se unem contra os russos. O uso de rifles de maior alcance e do navio a vapor faz a Rússia sofrer pesadas baixas

1861–1865
Guerra Civil dos EUA

Exércitos do Norte (Republicanos) enfrentam os do Sul (Confederados), em uma guerra de movimentos e trincheiras. Norte (ao lado) vence o conflito

1870–1871
Guerra Franco-Prussiana

Prussianos, utilizando linhas férreas para movimentar suas tropas, mostram uma logística superior à francesa. Com pesadas baixas nos dois lados, a França é vencida

1914–1918
Primeira Guerra Mundial

Disputas coloniais e nacionalismo levam os principais Estados europeus à guerra, em 1914 (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano contra Inglaterra, França, Rússia e, depois, EUA)

1916–1917
Surgem os tanques e aviões

Em 1916, os tanques dominam o campo de batalha, para abrir caminho à infantaria. No ano seguinte, aparecem os aviões. Seu emprego em grande escala só vem na guerra seguinte

1936–1939
Guerra Civil Espanhola
O general fascista Francisco Franco inicia guerra contra o governo republicano. A aviação militar de Adolf Hitler o apóia e aproveita para testar novas táticas, como o uso de bombardeios contra civis

1939–1945
Segunda Guerra Mundial

A Alemanha inicia a mais sangrenta guerra da História. Apoiada por Itália e Japão, é combatida pelas forças aliadas, formadas por Inglaterra, França e, posteriormente, URSS, EUA e vários países

1945
Começa a Guerra Fria

Após duas bombas atômicas dos EUA terem sido lançadas no Japão (foto), no fim da Segunda Guerra Mundial, inicia-se uma nova fase, em que as grandes potências evitam se enfrentar diretamente

1948
Israel rechaça árabes

Com apoio das Nações Unidas, é fundado o Estado de Israel. Ocorre em seguida a Guerra de Independência contra palestinos e países árabes e enfrentamentos posteriores, como a Guerra dos Seis Dias (1967) e a do Yom Kippur (1973)

1950–1953
Guerra da Coréia

A Coréia do Norte, influenciada pela URSS, invade a Coréia do Sul, e tropas norte-americanas intervêm na região. A guerra se complica, com a entrada da China, e só é encerrada com o estabelecimento de uma nova fronteira dos países

1960–1973
Americanos vão ao Vietnã

Forças dos EUA intervêm no Vietnã do Sul contra a guerrilha Vietcongue e tropas do Vietnã do Norte, aliado da URSS. Apesar da superioridade e do uso de bombardeios, os americanos não conseguem vencer

1991
Guerra do Golfo

EUA e aliados declaram guerra ao Iraque depois que o ditador Saddam Hussein invade o vizinho Kuwait. O conflito (ao lado) é marcado pelo uso de armas de alta tecnologia e rapidez na movimentação de tropas

2001
Ataque ao Afeganistão
Após os atentados suicidas a Washington e Nova York, os EUA, com o apoio de diversos países, decidem bombardear o Afeganistão para depor o governo talebã que favorece os terroristas

Exércitos disciplinados derrotam os inimigos


A Infantaria
Hoplita grego com escudo e armadura de bronze, em estatueta do século 6 a.C.

Corria o ano de 490 a.C. À frente de um poderoso exército de 30 mil homens, o imperador persa Dario 1º desembarcou em terras gregas com o propósito de subjugar aqueles que haviam ajudado algumas das cidades-estado, na costa da Ásia Menor, a se rebelar contra o seu domínio. Atenienses e aliados tinham no máximo 10 mil combatentes a seu favor. Parecia, portanto, uma guerra perdida. A desvantagem numérica, porém, não afetou o resultado. Os gregos, de armaduras de bronze, escudos arredondados e lanças, avançaram em um bloco compacto na direção dos persas, cujo exército mostrava-se pouco coeso e desorganizado. Amedrontados com aquela "loucura destrutiva", os soldados de Dario foram derrotados.

O segredo da vitória, constatou-se depois, estava na forma de combate, que viria a se tornar a base dos exércitos a partir daquela época. Os gregos criaram a infantaria, conhecida como falange, unidade treinada e unida, capaz de enfrentar com facilidade os embates comuns entre os povos do Mediterrâneo e do Oriente Médio e registrados desde 4 mil anos antes de Cristo. Antes do aparecimento da falange, assírios, sumérios e egípcios usavam homens, carros, arcos e cavaleiros dispostos sem organização. Depois, a guerra nunca mais foi a mesma.

"As batalhas não eram mais vencidas pelo valor individual dos guerreiros, mas pelo trabalho em equipe", comenta Maria Beatriz Florenzano, historiadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Os guerreiros, chamados hoplitas, eram pequenos proprietários, responsáveis pelo próprio armamento. Defendiam suas terras e marcavam as batalhas entre as colheitas. Não costumavam perder tempo: após cada enfrentamento, com duração de uma a duas horas, um dos lados saía vitorioso.

A estratégia dos hoplitas só começou a sofrer abalos após a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), travada entre cidades-estado gregas. Constituíam a base do exército, mas não eram os únicos combatentes. A partir daquela época, as batalhas eram travadas também com tropas de reserva e mercenários. Os exércitos venciam fortificações, enfrentavam ataques marítimos. Enfraquecidos por repetidos conflitos, que se prolongaram durante o século 4 a.C., os gregos não resistiram à invasão de um povo considerado quase bárbaro, vindo do norte. Em 338 a.C. , sucumbiram ao poder de Felipe 2º, da Macedônia.

Legiões de voluntários

Sob o comando do general Caio Mário (157-86 a.C.), foto, a legião romana passou a aceitar o alistamento de qualquer cidadão romano, em vez de apenas proprietários de terra. Os legionários lutavam com armas pagas pelo Estado e serviam durante 16 anos. Ao fim da carreira, recebiam lotes de terra ou dinheiro. "Os cidadãos se alistavam voluntariamente", comenta Maria Luiza Corassin, da USP. "Ser legionário trazia prestígio e, além disso, seus generais eram muito generosos ao distribuir o butim conquistado do inimigo."

A profissionalização do exército teve um efeito que posteriormente derrubaria a República, no século 1 a.C. Os legionários começaram a ser mais ligados a seus líderes que ao Estado. Esse foi o caso do general Júlio César (100-44 a.C.). No comando de legionários fiéis, enfrentou o poder do Senado e arrastou Roma à Guerra Civil.

A expansão macedônia


Os legionários
Porta-estandarte e soldado de infantaria das legiões romanas

Para vencer os gregos bem treinados, os macedônios sofisticaram a velha idéia da falange. Os soldados das primeiras linhas de ataque usavam lanças mais longas, de 4 a 5 metros, formando uma impenetrável barreira de lâminas. Felipe 2º criou também a unidade de cavalaria, disposta de forma a defender os flancos mais vulneráveis das falanges e a atacar rapidamente o inimigo.

A tática foi ampliada pelo filho de Felipe, Alexandre, o Grande. Considerado um grande general, Alexandre cavalgava à frente das tropas e assim derrotou os persas e chegou até a Índia. Mostrou grande capacidade de adaptação à localização das batalhas, mesmo quando pareciam desfavoráveis a seu exército. A coragem e o carisma de Alexandre empurravam os soldados. Uma vez vitorioso, não permitia clemência; perseguia os inimigos até destruí-los. Morto com apenas 33 anos, Alexandre deixou um império, disputado por generais que não tinham a sua capacidade.

Enquanto isso, uma outra força despontava no Mediterrâneo: Roma. Os soldados, que a princípio formavam uma versão das antigas falanges, evoluíram. Foram divididos em legiões, formadas por blocos, ou manípulos, para ganhar mobilidade. Em vez de lanças, usavam espadas curtas (gládio) e atiravam dardos (pilum). "Essa estratégia levou à superioridade militar dos romanos", diz Maria Luiza Corassin, professora de História de Roma na USP. A partir do século 2 a.C., as legiões passaram por grandes reformas, instituídas pelo general Caio Mário (leia texto acima). Mas a forma de lutar em blocos mudou muito pouco nos séculos seguintes.

Na Idade Média, fortalezas e cidades muradas se espalham pela Europa para barrar os invasores


Castelos sitiados
Cavaleiros tentam dominar fortificação medieval, em ilustração do século 13

No início do século 3 d.C., o Império Romano já estava se esfacelando. Havia chegado ao auge nos cem anos anteriores, alcançando da atual Grã-Bretanha à Síria, mas não conseguia mais manter tantos territórios freqüentemente ameaçados pelos chamados povos bárbaros. As legiões eram deslocadas para as fronteiras, em formação defensiva, e cidades estratégicas, como Roma e Milão, ganharam fortificações para se defender. Os romanos também foram obrigados a abandonar a tática de alistar apenas seus cidadãos.

"Os bárbaros começaram a ser empregados nas batalhas, e não havia mais recursos para treiná-los à moda romana", conta a professora Maria Luiza Corassin, especialista em História de Roma da Universidade de São Paulo. Foi o início de um lento processo de desintegração, que culminou com a queda do Império Romano do Ocidente, e a tomada de Roma, em 476.

As legiões agruparam-se em torno de soberanos locais, como os primeiros reis francos, e aos poucos deixaram de ser caracterizadas dessa forma. "No início da Idade Média, ou seja, depois da queda de Roma, a guerra era travada em escala muito menor", afirma o historiador Modesto Florenzano, da USP. "A cavalaria passou a ter mais importância, unindo-se às tropas de infantaria." Florenzano faz uma comparação. Por volta do ano 300, o imperador romano Diocleciano tinha a seu dispor um exército de 435 mil legionários. Nos séculos seguintes à queda de Roma, os soberanos francos e germânicos agrupavam, no máximo, 20 mil combatentes.

Enquanto as mudanças se davam na frente de batalha, na retaguarda fortalecia-se uma nova forma de organização social: entre os séculos 5 e 9, o feudalismo se instalava na Europa. Conforme se estabeleciam novas fronteiras, os chefes guerreiros ligados aos reis começaram a receber lotes de terra, que, aos poucos, se tornaram hereditários. Esses guerreiros se comprometiam a colaborar com os soberanos nas batalhas. Nas palavras do historiador inglês John Keegan, no livro Uma História da Guerra, o feudalismo "tornou-se a base sobre a qual os reis mobilizavam exércitos e a classe militar detinha terras na Europa a partir da metade do século 9".

A era dos canhões

Embora as fortificações tenham caracterizado as cidades durante toda a Idade Média, elas já eram conhecidas desde tempos imemoriais. Ruínas descobertas em Jericó, na Palestina, sugerem que a cidade, por volta de 7000 a.C., teria sido fortificada, provavelmente para impedir o ataque de povos nômades. Mas na Europa medieval, as fortificações foram o modo pelo qual cidades e estados sem um exército efetivo podiam se defender de inimigos e invasores. Na Inglaterra, por exemplo, foram construídos 900 castelos, entre 1066 e 1154. Todos tinham em comum as muralhas altas, para impedir as escaladas, e fortes o suficiente para suportar as cargas de catapultas ou aríetes.

Todo esse aparato caiu por terra na metade do século 15, quando os primeiros canhões começaram a ser usados nos campos de batalha. Depois do surgimento do canhão, no século 16, os muros das cidades tornaram-se mais baixos e largos, com canhões em torres projetadas para fora das amuradas e dispostos de forma a ter uma visão completa do campo ao redor onde poderiam se esconder os inimigos.

Fortalezas de pedra


Defesa eficaz
Forte inglês com canhões, construído por Henrique 8º na década de 1530

Essas mudanças tiveram reflexos imediatos nos campos de batalha. Entre os séculos 6 e 10, enquanto as antigas fortificações romanas foram utilizadas para fortalecer a defesa das cidades, novas fortalezas, nos moldes medievais, começaram a ser construídas. Eram dotadas de altas paredes de pedras, com torres de observação e espaço adequado para os defensores. Eram praticamente inexpugnáveis, pois os canhões só começaram a ser utilizados de fato no século 15. Em geral, os atacantes venciam pelo cansaço, ao bloquear a entrada de mantimentos ou a chegada de reforços.

Os enfrentamentos em campos abertos também mudaram. A cavalaria passou a ser privilégio dos nobres. Atacava em conjunto esperando a resposta do inimigo posicionado firmemente, de modo a conter o seu avanço. Os guerreiros a cavalo manejavam espadas e escudos, até então armas de uso exclusivo dos soldados a pé, e se protegiam com uma malha de ferro, eficaz contra os ataques dos arqueiros inimigos.

Essa maneira de guerrear prevaleceu até o século 15, mesmo porque nenhum soberano europeu tinha forças suficientes para manter o domínio de todo o seu território. Ela foi marcante durante a Guerra dos Cem Anos (1337–1453), caracterizada pela disputa por terras e por direitos dos nobres, entre a França e a Inglaterra. No entanto, com as armaduras cada vez mais pesadas, mostrou-se aos poucos ineficaz. Nas batalhas de Crécy (1346), Poitiers (1356) e Agincourt (1415), os cavaleiros precisaram desmontar para enfrentar a infantaria, que voltava a desempenhar um papel importante na resolução dos conflitos e tinha forte apoio dos arqueiros.

Armas de Portugal e Espanha iniciam conquista da América e Ásia


Na América
Ilustração mostra Cortez (à dir.) com espanhóis e escravos indígenas

Nos períodos anteriores, falou-se muito de batalhas em terra. Mas elas não eram as únicas: enfrentamentos no mar, travados inicialmente em grande escala pelos gregos, continuaram até o fim do século 15, e o exemplo das invasões vikings por mares e rios é bastante conhecido. Mas não variavam muito. A bordo das galeras, embarcações movidas a remos longos, e munidas de velas para torná-las facilmente manobráveis, as tropas armadas esperavam o momento certo para atracar à embarcação inimiga e travar um violento combate corpo a corpo. Tudo isso começou a mudar nos primeiros anos do século 16, como resultado da introdução dos canhões nas batalhas.

Em 1571, por exemplo, Espanha e estados italianos impediram que o Império Otomano tomasse o controle do Mediterrâneo na batalha de Lepanto, o primeiro grande confronto travado no mar com galeras munidas de canhões. A tecnologia náutica permitiu também aos europeus enfrentar o mar aberto e viajar a quase todos os cantos do planeta. No Oceano Índico e no Mar da China, embarcações portuguesas, munidas de armas de fogo, conquistaram territórios e posições estratégicas, que permitiram a construção de fortalezas e entrepostos comerciais do outro lado do mundo. Na América, os espanhóis se depararam com civilizações de culturas muito diferentes, dizimadas pelos seus soldados.

Em livro recém-lançado no Brasil (Armas, Germes e Aço – comentário na seção de livros desta edição), o escritor Jared Diamond sustenta que os europeus se impuseram na América porque tinham aço, armas e germes, ou seja, conhecimento tecnológico e estratégias de guerra mais sofisticadas, além de transportarem em seus organismos bactérias mortais para os povos com as quais nunca haviam tido contato, como a varíola.

Os astecas eram um povo de cultura avançada e grandes cidades. Sua capital, Tenochtitlán, era uma cidade lacustre com cerca de 1 milhão de habitantes e atividade comercial intensa. Mas não estavam acostumados a lutar como os europeus. Empenhavam-se em cerimônias, batalhas rituais e no aprisionamento de inimigos para posterior sacrifício. "Os astecas não conheciam armas de destruição em massa", diz Leandro Karnal, professor de História da Universidade Estadual de Campinas. "Suas guerras tinham hora marcada, não admitiam traições ou emboscadas." Apesar da diferença numérica, os espanhóis levaram a melhor contra astecas e incas. Foi a conjunção desses fatores no campo de batalha (mais uma epidemia de varíola que matou boa parte da população local) que decidiu a guerra a favor dos europeus, diz Jared Diamond.

A vez de Napoleão

Os combatentes franceses introduziram uma palavra importante no vocabulário da guerra que se seguiu à Revolução Francesa de 1789: o nacionalismo. Para derrotar as grandes nações européias que estavam dispostas a esmagar a revolução e instaurar o Antigo Regime na França, os soldados precisavam demonstrar a mesma disposição em combate que seus comandantes.

E não apenas isso. "Com a Revolução, surgiu o exército de cidadãos e o começo do patriotismo", diz Modesto Florenzano, professor de História da USP. Os franceses inovaram ao suprimir a nomeação automática de aristocratas aos postos de comando. No lugar, foram colocados militares que provaram a coragem e habilidade no campo de batalha. Foi este exército que Napoleão Bonaparte (ele mesmo, um general egresso das classes mais pobres) herdou, ao assumir o comando das forças francesas em 1799.

"Napoleão foi um gênio, mas só foi bem-sucedido porque podia contar com um exército totalmente novo para a época", conta Florenzano. O general francês valorizou os canhões e ficou célebre pela grande mobilidade que deu ao seu exército, deixando suas linhas de suprimentos para trás e arrumando provisões pelo saque. Foi derrotado em Waterloo (1815).

Expansão e extermínio


A nova ordem
Napoleão Bonaparte, coroado imperador depois de assumir o poder na França em 1799

"A concepção de guerra dos espanhóis era de extermínio", conta o professor Karnal. Os espanhóis se valiam de emboscadas e traições e não poupavam os inimigos capturados. Formaram alianças estratégicas com os povos rivais, de modo a receber apoio tático no cerco às cidades. "Estima-se que a conquista tenha causado o maior genocídio da História em números absolutos", diz Karnal. Alguns dados indicam que, dos cerca de 25 milhões de índios espalhados pelos impérios americanos, 90% morreram no século 16.

A introdução de uma nova arma nos campos de batalha da Europa também modificou o destino das guerras no velho continente. Por volta de 1550, os soldados de infantaria ganharam mosquetes, armas portáteis que disparavam balas a distâncias de até 100 metros. Exércitos nacionais, entre 1530 e 1630, formavam longas fileiras de mosqueteiros, disparando de modo a criar uma "chuva de chumbo", como foi descrito posteriormente o cenário dos enfrentamentos.

As fortalezas se modificaram, adquirindo formas complexas para enfrentar os canhões. Os reis dispunham de dinheiro suficiente para formar exércitos de mercenários que, embora estivessem mais bem treinados para a guerra, facilmente desertavam por infidelidade aos soberanos ou mesmo por falta de pagamento.

Produção industrial de armas aumenta o poder de fogo das nações

A partir da segunda metade do século 19, a tecnologia militar e a produção em série de armamentos prenunciaram o que seria a nova estratégia dos conflitos entre as grandes nações: a guerra mecanizada. Os primeiros indícios apareceram na distante Criméia, quando o Estado russo decidiu anexar terras do então enfraquecido Império Otomano e foi repelido por tropas francesas e inglesas (1853–1856). Foi a primeira guerra travada com apoio da tecnologia industrial. Rifles aumentaram o alcance dos tiros para 250 metros, as balas, com maior poder destrutivo, se fragmentavam ao atingir o alvo. Navios a vapor moviam tropas com mais rapidez e o telégrafo aumentou o poder de comunicação entre os exércitos.

A Guerra de Secessão (1861–1865), que colocou em campos opostos de batalha as regiões sul e norte dos Estados Unidos, somou o maior envolvimento civil ao aumento da tecnologia. É considerada a primeira guerra moderna da História. "O país tinha muitos recursos, o que tornou o conflito mais violento", comenta o professor Modesto Florenzano, da História da USP.

A princípio, Sul e Norte dos Estados Unidos não esperavam que a guerra fosse durar tanto tempo. Mas as guerras modernas demonstraram que não são fáceis de vencer. Precisam de mais soldados e mais armas a cada nova etapa. No fim do conflito, 10% de uma população de 32 milhões de habitantes nos Estados Unidos na época, estiveram diretamente envolvidos na guerra. Cerca de 620 mil pessoas morreram, mais do que a soma das baixas americanas nas duas guerras mundiais, na Coréia e no Vietnã.

A mesma violência pode ser percebida por quem estuda a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). O plano de ataque prussiano previa batalhas curtas, de movimentação rápida. Não se imaginava que a guerra tomaria outros rumos com os canhões de disparo mais rápido e as novas metralhadoras. "Para quem estava acostumado a armas de um tiro só, foi realmente assustador", comenta o professor de História João Fábio Bertonha, da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná. Depois de uma fase de movimentação, ao estilo antigo, mas que durou apenas quatro meses, os adversários se equilibraram no que ficou conhecido como guerra de trincheiras: alemães de um lado e aliados de outro, em canais cavados na terra. Essa fase cruel foi bem caracterizada em um clássico da literatura de guerra, o livro Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque.

Aviões e tanques

Se o deslocamento rápido era o objetivo dos alemães, nos primeiros meses da Segunda Guerra Mundial, eles conseguiram alcançá-lo plenamente. A Alemanha usou suas divisões Panzer – tanques de guerra que avançavam à frente da infantaria – e sua força aérea, a Luftwaffe, que minava previamente as defesas inimigas.

Tanques e aviões, no entanto, não eram novidade. Surgiram no final da Primeira Guerra Mundial; os primeiros com a função de abrir caminho, entre as trincheiras e as cercas de arame farpado, para a infantaria. Aviões faziam também missões de bombardeio e reconhecimento. O professor de História João Fábio Bertonha afirma que, na Segunda Guerra Mundial, "os alemães usavam os tanques sem esperar pela infantaria; tornaram-se uma arma independente". Os aviões, por sua vez, tornaram-se uma arma mortífera testada na Guerra Civil Espanhola (1936–1939), como sabem os que conhecem o episódio de Guernica, imortalizado no quadro de Picasso.

A terrível devastação

Com a defesa bem estabelecida nas trincheiras, ataques contra posições inimigas eram suicidas. Na batalha de Verdun (1916), a França teve 500 mil mortos e feridos. No primeiro dia da Batalha de Somme, no mesmo ano, os britânicos perderam 60 mil soldados. Até o final da guerra, que mobilizou 70 milhões de pessoas, houve ao menos 9 milhões de mortes. Não foi suficiente.

A Alemanha voltou à guerra em 1939, invadindo a Polônia e preparando-se para dominar toda a Europa. "Os alemães criaram a Blitzkrieg (guerra-relâmpago) para que o inimigo não tivesse tempo de se entrincheirar". Mas não foi isso que aconteceu. A partir de 1940, forças aéreas iniciaram uma campanha de bombardeio contra alvos civis e militares. Entre 24 e 30 de julho de 1943, 80% dos prédios de Hamburgo foram destruídos, matando 30 mil habitantes. Até agosto de 1945, essa guerra, que se estendeu pela Europa, Ásia, África, Oceania e até no litoral das Américas, matou pelo menos cerca de 40 milhões de civis e militares.

"A Segunda Guerra foi a última série de conflitos de destruição em massa do inimigo", conta Bertonha. Nas décadas seguintes, uma nova arma, usada em 1945 contra civis japoneses, moldaria o cenário mundial. Tratava-se da bomba atômica.

Potências militares se envolvem em conflitos de países pobres


Destruição
Míssil norte-americano vietnamita explode em arsenal dos EUA , em 1968

No final da Segunda Guerra Mundial, estrategistas dos EUA argumentavam que uma invasão às ilhas japonesas provocaria até 1 milhão de baixas ao seu Exército. Esse foi o motivo oficial para jogar, em agosto de 1945, duas bombas atômicas contra alvos civis nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. A rendição japonesa foi imediata. Mas a exclusividade atômica dos EUA durou apenas quatro anos; em 1949, a então URSS também mostrou que possuía armas nucleares. O mundo, dividido em dois blocos geopolíticos, precisou sobreviver a um novo embate, a Guerra Fria. "A partir daquele momento, as grandes nações não se atreveram a entrar em conflitos diretos, por causa do temor de usar seus arsenais atômicos", afirma o professor João Fábio Bertonha, da Universidade Estadual de Maringá.

Sem confronto direto, as guerras adquiriram um caráter diferente. EUA e URSS passaram a intervir em conflitos regionais entre os países do Terceiro Mundo, principalmente na África e na Ásia, mas também em Cuba e na América Latina. Um dos primeiros conflitos da nova era ocorreu em 1946, quando a França enviou uma força expedicionária à Indochina, então sua colônia, para eliminar a guerrilha comunista Vietminh. Derrotados, os franceses se retiraram em 1954 e amargaram o fracasso também na Argélia, que tornou-se independente em 1962.

A Indochina se tornou o foco de uma disputa entre as grandes potências, EUA de um lado, China e URSS de outro, tendo como alvo a independência do Vietnã. Os americanos estimavam que a guerra seria resolvida rapidamente. Mas não foi assim, apesar do conflito desigual, entre uma nação industrializada, com armas de alta tecnologia e grande poder de destruição, e milícias mal equipadas, mas muito bem preparadas para a guerrilha.

No Afeganistão, que vivia na esfera soviética desde os anos 50, as tropas da URSS enfrentaram problemas semelhantes. O Exército soviético invadiu o país em 1980, para restaurar o governo aliado, abalado por conflitos partidários desde 1978. Conseguiu manter as grandes cidades do país, mas a guerrilha conservou o controle do interior e acabou expulsando os soldados invasores. Este ano, foi a vez dos EUA testarem o poder dos afegãos. O país bombardeou várias vezes o território afegão, em retaliação aos ataques a Nova York e Washington em setembro, atribuídos a terroristas islâmicos escondidos na região.

A mídia no front

"Os homens ao meu redor estavam gritando. Os tiros eram agora um ruído contínuo. Estávamos sendo alvejados até pelos nossos próprios rapazes", relatou um soldado americano à revista Saturday Evening Post, em janeiro de 1967. Seu batalhão havia sido pego de surpresa pelos vietcongues, a guerrilha comunista que tentava conquistar o Vietnã do Sul. Descrições como essa durante a Guerra do Vietnã chocaram o público norte-americano, que passou a pressionar o governo de Washington a abandonar o conflito, o que só aconteceu em 1973. "A opinião pública tornou-se muito importante nas guerras", indica o historiador Allan Millett.

No Vietnã, militares americanos, com clara superioridade tecnológica, depararam-se com uma guerra não-convencional, baseada na guerrilha. Foram derrotados. Já na Segunda Guerra, a nação começou a se preocupar com as imagens e relatos divulgados. Esse foi o caso, por exemplo, da Guerra do Golfo, em que apenas imagens selecionadas eram transmitidas ao público americano. E agora, que o governo americano pede aos meios de comunicação que tenham cuidado com as imagens do Afeganistão.

Conflitos regionais

Sem o mesmo arsenal de longo alcance dos países desenvolvidos, as guerras regionais costumam ser cruéis. Traficantes de armas abastecem sociedades tribais com lança-mísseis portáteis, minas terrestres e o famoso fuzil de fabricação soviética, o AK-47 Kalashnikov, utilizados para massacrar a população civil espremida entre grupos rivais. Muitas vezes, ditadores e chefes tribais têm acesso a armamentos ainda mais perigosos, como armas químicas e biológicas. No conflito do Vietnã, os EUA usaram o agente laranja para devastar as matas e desalojar o inimigo. E, na guerra entre Irã e Iraque (1983–1988), tropas iraquianas usaram gás de mostarda contra posições militares e civis do adversário.

Mesmo a queda da União Soviética, no final dos anos 90, e a hegemonia dos EUA e de seus aliados europeus, não interromperam os conflitos regionais. Eles ocorreram nos ex-estados da antiga Iugoslávia, na Chechênia, e na longa disputa entre palestinos e israelenses. Em 1991, no entanto, os EUA se envolveram diretamente em um conflito. Armados com bombas de alta precisão e caças invisíveis aos radares, os americanos entraram em guerra contra o Iraque em defesa dos poços de petróleo do Kuwait. Depois dos ataques aéreos, a infantaria fez uma rápida invasão por terra. "Só o uso do poder aéreo não vence batalhas", diz Allan Millett, professor de História Militar da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA. Poderia acrescentar: não existe guerra em que os dois lados não sofram severas baixas.

RICARDO BONALUME NETO*


Ao ataque
Caça F-14, dos EUA, decola do porta-aviões Enterprise, em missão de bombardeio ao Afeganistão

Houve momentos na civilização ocidental em que a guerra foi considerada algo que deveria desaparecer com o desenvolvimento da indústria, da agricultura e dos meios de comunicação. "Progresso" e guerra não combinariam, como escreveu um parlamentar britânico, William Mackinnon, em 1828. "À medida que a civilização avança, a arte da guerra atinge maior perfeição e o fardo desse guerrear fica mais pesado para a comunidade", escreveu.

Um dos filhos do parlamentar morreu na Guerra da Criméia (1854–1856). A partir daquela época, houve até momentos em que o conflito foi considerado algo bom e natural, necessário mesmo ao progresso das nações. Só depois da hecatombe da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), a guerra foi vista de novo como algo nefasto. O que não impediu o surgimento de um conflito ainda maior – o segundo conflito mundial (1939–1945) – que fez ainda mais constante o uso da tecnologia para aperfeiçoar a "arte da guerra".

A Segunda Guerra Mundial trouxe a hegemonia militar americana, que dura até hoje. Os EUA têm armamentos em quantidade e qualidade que nenhum outro país possui. Esse triunfalismo impediu que o território americano fosse alvo de combate no século 20, como ocorreu na Europa e em boa parte da Ásia. Esse estado de coisas só foi abalado com os atentados de 11 de setembro.

Há quem preveja não só mais um século, mas pelo menos meio milênio de hegemonia americana. "Assim como o canhão moldou o poder e a cultura européias, parece-nos que as munições guiadas com precisão vão moldar o poder e a cultura americanos", escreveu uma dupla de autores triunfalistas, o casal George e Meredith Friedman, em um livro com o arrogante título O Futuro da Guerra – Poder, tecnologia e a dominação mundial americana no século 21.

"Assim como a Europa expandiu a guerra e seu poder para os oceanos do globo, os EUA estão expandindo a guerra e seu poder no espaço e entre os planetas", afirma o casal Friedman. Para eles, a Europa moldou o mundo por meio milênio, e os EUA estariam destinados a fazer o mesmo. "Para o mal ou para o bem", dizem, o futuro da guerra e do homem está nas mãos dos EUA.

Mas há uma maneira de resistir ao poderio dos EUA: o chamado "conflito assimétrico", no qual o lado mais fraco tenta explorar os pontos vulneráveis da sociedade americana. É o que faz o terrorismo. A guerra deixou de ser – se é que foi algum dia – uma luta entre Estados e seus exércitos para envolver também grupos armados não-estatais. Dessa forma, também deixou de ser caracterizada pelo que ocorre nas frentes de batalha. Assim é a maioria das mais de 20 guerras em curso no mundo hoje. Esse parece ser o verdadeiro futuro da guerra, pelo menos por algum tempo.

"O futuro não pertence a estações espaciais, mas aos fuzis de assalto Kalashnikov, carros-bomba, cercas de segurança, aparatos de visão noturna e sistemas eletrônicos de alarme", diz o historiador israelense Martin van Creveld, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

* Ricardo Bonalume Neto é jornalista especializado em ciência e em história militar. É autor de A Nossa Segunda Guerra – Os brasileiros em combate, 1942–1945, Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1995

Anote

Para ler

  • Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm. Companhia das Letras. 1996
  • Uma História da Guerra, de John Keegan. Companhia das Letras. 1995
  • Warfare, Cambridge Illustrated History, organizado por Geoffrey Parker. Cambridge University Press. 1995

  • Revista Galileu