sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Arqueólogos acham peças de engenho de 1580
Descoberta em São Vicente revela detalhes do início do ciclo da cana-de-açúcar no País

Rejane Lima / SÃO VICENTE - O Estado de S.Paulo
Uma descoberta arqueológica em São Vicente está ajudando a elucidar um período pouco documentado da história brasileira: o início do ciclo da cana-de-açúcar no País, que começou com os engenhos do litoral paulista. Escavações nas ruínas do Porto das Naus descobriram dois tanques de caldo de cana e mais de 400 fragmentos de peças usadas no engenho de Jerônimo Leitão, construído em 1580 na área próxima ao primeiro trapiche alfandegado do Brasil.
Nilton Fukuda/AE

Porto das Naus. Historiador Marcos Braga caminha sobre escavações no litoral, onde foram achados utensílios históricos
"Esses tanques eram utilizados para fazer melado e torrões de açúcar, que eram levados para Portugal. Acreditamos que tenham entre seis e dez deles nessa área", explica o arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez, que comemora a descoberta das duas estruturas circulares feitas com grandes pedras com raios de 2,2 metros e de 1,5 metro.

Entre as peças encontradas, Gonzalez destaca os fragmentos de "formas de pão de açúcar" - peças de cerâmica com pequeno orifício na extremidade, onde o melado era colocado depois de cozido para passar por decantação. Delas saíam torrões de açúcar para então serem levados à "casa de purgar", onde eram limpos, purificados, divididos e classificados segundo a qualidade.

História. Relatos históricos contam que o engenho de açúcar de Jerônimo Leitão funcionou junto à área do Porto das Naus de 1580 até pelo menos 1615, quando corsários comandados pelo pirata holandês Joris Van Spilbergen incendiaram a Vila de São Vicente.

Antes do engenho, o Porto das Naus consistia em um atracadouro de madeiras em estacas, que foi instalado oficialmente por Martim Afonso de Sousa em 1532, mas que desde 1510 já era utilizado por Antônio Rodrigues e João Ramalho, o "Bacharel de Cananeia".

Em 1540, o porto perdeu a importância. Foi quando o chamado "maremoto" destruiu a antiga vila e assoreou a entrada da barra da baia de São Vicente, tornando-a inavegável para embarcações de grande porte.

O historiador da Prefeitura de São Vicente, Marcos Braga, afirma que o achado tem grande importância histórica, porque até então não havia provas materiais da existência do engenho. "Os documentos que existem são generalistas, dizem que Jerônimo Leitão construiu um trapiche, uma capela (Nossa Senhora das Naus) e a casa de purgar, mas os relatos não descrevem o engenho e não há desenhos, pinturas, fotografias ou plantas", afirma.

As escavações no Porto das Naus começaram em maio do ano passado e os tanques são a primeira grande descoberta do projeto, realizado pelo Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas (Cerpa) em parceria com a Prefeitura de São Vicente.

Segundo Gonzalez, que dirige o Cerpa, o Porto das Naus tem potencial arqueológico para dez anos de escavações. "Tem toda a área do entorno, do morro, e as escavações subaquáticas, mas que custam mais caro e para realizá-las precisaremos de parceiros", disse o arqueólogo, que acredita que embaixo do mar possam ser encontradas embarcações, ferramentas e equipamentos bélicos.

As ruínas ficam em área de mil metros quadrados, bem próximas à Ponte Pênsil, e são tombadas pelos órgãos de patrimônio municipal e estadual e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Havia vários desses pequenos engenhos no litoral paulista, mas esse é o primeiro de que temos comprovação. Temos o engenho dos Erasmos, em Santos, mas era um engenho real, movido por rodas de água, não por força animal como o do Jerônimo Leitão", explica o arquiteto do Iphan Victor Hugo Mori.
Jornal O Estadão

Notícias História Viva

BBC
Esgoto de cidade soterrada revela segredos sobre Roma Antiga
Arqueólogos fazem descobertas sobre a vida dos moradores de cidade vizinha de Pompeia

Arqueólogos britânicos estão descobrindo como os romanos viviam há dois mil anos por meio de análises de excrementos encontrados sob uma cidade soterrada pelo Vesúvio.


Arqueólogos fazem descobertas sobre a vida dos moradores de cidade vizinha de Pompeia
As fezes e outros detritos foram retirados de um túnel com 86 metros de comprimento que pertencia ao sistema de esgotos da cidade de Herculano.

Vizinha de Pompeia, a cidade também foi coberta de lava após uma erupção do vulcão Vesúvio que soterrou assentamentos na costa oeste da Itália no ano 79 DC.

Os especialistas do Herculaneum Conservation Project acreditam que este seja o maior depósito de excrementos da Roma Antiga já encontrado.

As nove toneladas de detritos, contendo uma variedade de informações preciosas, foram armazenadas em 750 sacos e vêm sendo estudadas minuciosamente pela equipe.

Ao comparar os excrementos encontrados em diferentes pontos do túnel aos prédios localizados acima - como lojas e casas - os cientistas estão estabelecendo que tipo de alimento os moradores comiam e quais eram suas profissões.

A análise revelou, por exemplo, que os habitantes da Roma Antiga comiam muitos legumes e verduras.

Uma amostra também continha um alto índice de leucócitos (células do sistema imunológico humano), indício de infecção por uma bactéria - dizem os cientistas.

Os arqueólogos também encontraram no esgoto de Herculano artigos de cerâmica, uma lamparina, 60 moedas, contas de colar e um anel de ouro com uma pedra preciosa. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
Jornal O Estadão

Notícias História Viva

Mosaico de parede de 16 metros é descoberto sob as Termas de Trajano
Descoberta é resultado de trabalho desenvolvido desde 1995 em busca de restos sepultados pela erosão

Efe
Roma - Um mosaico de parede, de cerca de 16 metros de comprimento e que pode chegar a 10 metros de largura, foi descoberto recentemente sob as Termas de Trajano.


Massimo PercossiEfe

Acredita-se que o mosaico tenha 10 metros de largura
A descoberta foi apresentada nesta sexta-feira à imprensa pela Superintendência de Bens Culturais da Prefeitura de Roma, que a considera de "um extraordinário valor", já que desvela novas pistas sobre a Roma antiga.

O mosaico foi descoberto graças a trabalhos iniciados em 1995 em uma das sete colinas de Roma com o objetivo de descobrir restos sepultados pela erosão.

Os primeiros resultados desse trabalho apareceram em 1998, com a aparição de um afresco que representava um mapa da Roma antiga.

O mosaico apresentado nesta sexta-feira se estende ao longo de 16 metros de comprimento e se suspeita que possa ter dez metros de largura.

Nele aparecem representados o Deus Apolo e as musas protetoras das artes, o que leva a crer que o edifício possa ter sido um local dedicado a atividades artísticas e culturais.

Umberto Broccoli, superintendente de Bens Culturais de Roma, e o assessor de política cultural da capital italiana, Dino Gasperini, estiveram presentes na cerimônia de apresentação do mosaico.

Broccoli destacou à Agência Efe que a descoberta é muito importante porque nela aparecem "representadas figuras humanas perfeitamente identificáveis que pertencem a um conceito arquitetônico urbano esplêndido".

Por sua vez, Gasperini ressaltou que a antecipação dos fundos para os trabalhos dos arqueólogos é uma prioridade de seu departamento.

"São necessários 200 mil euros para continuarmos avançando", disse.

O edifício é anterior à época do imperador Trajano (98 d.C.-117 d.C.) e os especialistas acreditam que ele tenha sido construído entre 60 d.C. e 109 d.C.

Na data de construção das termas, todos os edifícios nos arredores do complexo urbanístico construídos antes da era do imperador Trajano ficaram sepultados e esquecidos.

Por essa razão, o arquiteto do imperador utilizou estas construções como galerias para suportar os alicerces das termas.
Jornal O Estadão

Câmera na mão, a História na cabeça


Câmera na mão, a História na cabeça
Regina Jehá finaliza Por Mares Nunca Dantes Navegados, documentário sobre a expansão marítima portuguesa e prepara série de cinco filmes sobre as histórias do mercantilismo

Uma pergunta em mente, um concurso ganho, nove meses de pesquisa e três semanas de produção resultaram em Por Mares Nunca Dantes Navegados, um documentário surpreendente, com histórias reveladoras sobre as navegações portuguesas. A diretora Regina Jehá decidiu pesquisar a fundo algumas questões obscuras sobre a aventura mercantilista da Península Ibérica. "Movida por pura curiosidade", a diretora lembra, em seu filme, Camões e Pessoa, poetas que também se deslumbraram com as navegações. Amarrou seu mote à vontade de filmar e foi a Portugal, onde gravou, com equipamento digital, algumas tomadas inéditas e obteve depoimentos inusitados. O filme de Jehá faz o circuito de festivais no início do ano que vem e, formatado para TV, deve ser veiculado também por emissoras.

Uma pergunta em mente - "Sempre que paro para pensar no achamento do Brasil me pergunto o seguinte: por que coube a um país tão pequeno como Portugal impulsionar esse movimento que mudou toda a história da humanidade e deu início à globalização?"

Regina se refere ao domínio português sobre os mares, coisa que todos nós aprendemos nas escolas, ainda no primário. Mas mesmo que essa história pareça tão fundamental ao brasileiro, seja lá quais forem suas aspirações, as verdadeiras causas desse descobrimento ficaram, provavelmente, restritas aos historiadores. "Não sou historiadora e não vou fazer um filme tese, como se soubesse de tudo e falasse aos outros como eu sei. Sou uma documentarista, e sempre que filmo busco só responder a essa minha curiosidade", afirma. Com a visão (e audição) de quem quer aprender que Regina concebeu o projeto de Por Mares Nunca Dantes Navegados.

A metalinguagem do título não é acaso. Camões cantou as glórias das conquistas portuguesas e foi seguido, séculos depois, por Fernando Pessoa. Regina, inspirada no poema Infante, de Pessoa, montou um roteiro que revelasse, além dos virgens mares do Atlântico, como se estruturaram as companhias de navegação portuguesas. Roteiro e projeto prontos, encaminhou-os, ano passado, ao Ministério da Cultura.

Um concurso ganho - Regina não tinha planos de documentar o mercantilismo no começo do ano passado. O projeto era somente escrever um roteiro de ficção, que se passaria no Brasil do século 17. Fazendo as primeiras pesquisas bibliográficas para o roteiro, surgiram, porém, as perguntas sobre o que era aquela metrópole que colonizara de maneira tão intensa o Brasil mas não sofrera um progresso natural, como outras nações da Europa Ocidental. "Portugal veio a recuperar o tempo perdido há poucos anos, com a União Européia", diz Regina. A mudança de idéia veio de uma curiosidade: três porquês sobre Portugal, que revelassem o que antecedeu e justificou o mercantilismo, o que aconteceu durante esse período, e o que seguiu a ele.

O roteiro ganhou financiamento de R$ 80 mil junto ao MinC, no ano passado, no mesmo concurso que possibilitou à Joel Zito Araújo produzir A Negação do Brasil - o Negro na Telenovela, também prestes a ser lançado. O projeto que Regina concebeu a partir dessa primeira aprovação, no entanto, é muito mais ambicioso que essa primeira produção.

Por Mares Nunca Dantes Navegados deve resultar, como espera Regina, numa série com outros quatro episódios de 26 minutos. Cada um deles abordando um tema específico sobre a expansão marítima. Para o próximo documentário, aliás, Regina já tem até verba financiada pelo BNDES, além de viagem marcada para janeiro de 2001. Deve tratar da conquista da Índia pelos portugueses, antes de chegarem às Américas.

Depois, se tudo der certo, filmará um documentário sobre as conquistas espanholas -simultâneas à chegada de Portugal à Índia pelo contorno da África e ao fim da predominância portuguesa nos mares. A quarta parte trata da conquista da costa africana, que também fala do declínio do mercantilismo português, quando o país volta à essência do feudalismo, explorando absurdamente as fontes de minérios do continente e o comércio de escravos. O último filme deve documentar a importância da cultura muçulmana na formação ibérica. Mas para estes Regina ainda não captou recursos.

Nove meses de pesquisa - Regina coloca a pré-produção de um documentário no topo da importância no processo de realização. E por esse tipo de pré-produção subentenda-se pesquisa. A diretora passou oito meses em cima de livros no Brasil e mais quarenta dias rodando Portugal para acumular informações suficientes para iniciar a produção.

Lá, foi auxiliada pela fotógrafa francesa Malie Letrange, que rodou com Regina as principais localidades históricas de Portugal. Começando em Sagres e subindo até Tomar, as duas descobriram algumas informações surpreendentes sobre o mercantilismo. Fazem parecer que o curso de história do ensino médio é uma brincadeira de mau gosto.

O documentário implode os conceitos sobre a famosa Escola de Sagres. "Sagres nunca existiu como a gente imagina", diz ela. Baseada nos depoimentos dos professores e academicistas que entrevistou, Regina explica: Sagres foi uma conseqüência geográfica. Era uma localidade que representava uma parada obrigatória para todos os navegantes, tanto aqueles que saiam do Mediterrâneo para subir até a região do Báltico, no mar do norte, como para quem entrasse no Mediterrâneo. Não tanto pelo Cabo de São Vincente, o último ponto extremo antes do Estreito de Gibraltar, mas principalmente pelas péssimas condições climáticas da região. "Todas embarcações tinham que parar ali e esperar melhores condições para seguir viagem. Às vezes permaneciam ali semanas", explica. "Tantos marinheiros num mesmo ponto, de origens diferentes falando todas as línguas do mundo... era natural que dessa troca de experiências surgisse uma concentração tão grande de conhecimentos, mas nunca existiu ali uma escola de navegação".

Como a própria Regina se anuncia não ser historiadora, formar um certo receio em relação a tantas observações é justificável. Mas o que diz é só transferência de conhecimento. Entre seus entrevistados, estão estudiosos como o historiador Cláudio Torres, de Mértola, e Rui Parreira, historiador da Companhia de Sagres. "É um conhecimento muito enclausurado, restrito à academia, mas não é inalcançável", esclarece.

Outras questões importantes contidas no filme: a importância maior do Infante Dom Henrique para o aprimoramento das navegações; o capital proveniente do tesouro dos monges Templares, que acumularam por anos as riquezas das cruzadas; e a primeira revolução burguesa, surgida entre os mercantilistas lusitanos, décadas antes da Revolução Francesa.

Essas revelações devem estrear em festivais a partir de abril de 2001, como o Vídeo Brasil e o Festival de Cinema de Língua Portuguesa (este último programado para acontecer em Porto Seguro). Contatos com tevês, como o Canal Brasil e TV Cultura, também devem viabilizar o Por Mares Nunca Dantes Navegados para a telinha.


Três semanas de produção - Regina Jehá também se rendeu à realidade da tecnologia digital. Por isso que ela, sozinha, conduziu a sua DV-Cam e dirigiu o documentário durante as três semanas que viajou e redescobriu a história de Portugal.

"Foi bem difícil no começo. Não só estava sozinha, como decidi começar filmando o Cabo de São Vicente, em Sagres, e fiquei muito doente. Dizem que eu ofendi os deuses". Regina se refere ao boato de que ninguém deve se atrever a admirar a alísia paisagem destes penhascos, o que equivale a uma maldição. Por isso, logo após a primeira tomada, Regina teve que ficar alguns dias de cama, bastante gripada. "Fiquei preocupada, pois tinha entrevistas importantes marcadas. Felizmente foi o primeiro e último empecilho grave na viagem", lembra.

Como resultado, a edição final é bela, entrecortada por paisagens e algumas tomadas inéditas de locais históricos (permitidas pelo fato da câmera digital não precisar de luz extra para captar a imagem), que dão leveza e corpo ao documentário - elementos quebrados raramente, ora pela veloz pronúncia portuguesa, ora pelo enquadramento exótico de um entrevistado. Também fazem corte versos dos poemas de Fernando Pessoa, que separam partes específicas da obra.

A câmera numérica, apesar de novidade, não é uma transformação estranha para Regina, que já começou fazendo cinema sem medo de dificuldades. Ao contrário da maioria dos estreantes, seu primeiro filme foi em 35 milímetros. Ela dirigiu O Brás e Bexiga, Ano Zero, da antológica série Brás, Bexiga e Barra Funda, que foi ao ar na TV em 1971.

Viúva do cineasta Luís Sérgio Person, a diretora não é nem um pouco avessa a desafios. Também dirigiu Pantanal, a Última Fronteira, sobre a belíssima região do Pantanal mato-grossense, e em 1981 rezalizou Curumins e Cunhantãs, chegando até a filmar em plena floresta amazônica.
Jornal O Estadão

Joaquim Nabuco - Um acervo à espera de reavaliação


Graça Aranha, Joaquim Nabuco e Magalhães de Azeredo (a partir da esq.) em Roma, em 1904


Um acervo à espera de reavaliação
Escritor, jornalista e diplomata brasileiro ainda é pouco publicado e estudado e aguarda a edição completa de sua obra

Daniel Piza - O Estadao de S.Paulo
Numa carta de 31 de maio de 1883, Joaquim Nabuco (1849- 1910) escreveu que tinha prometido fazer da vida um protesto contra a escravidão, "nada querendo dela, esperando como os escravos o meu dia". O dia da Abolição veio, quase cinco anos depois, e daqui a quatro dias o que vem é o Ano Joaquim Nabuco, uma série de eventos e lançamentos para celebrar o escritor, jornalista, advogado, diplomata e líder mais hábil e vistoso da campanha abolicionista. Cem anos depois de sua morte, ele ainda é um personagem pouco publicado e pouco estudado em contraste com sua importância - ou com a de outros recentes homenageados, Machado de Assis (2008) e Euclides da Cunha (2009), dois amigos e companheiros da Academia Brasileira de Letras.

Nabuco ainda está à espera do dia em que toda sua obra estará integralmente disponível nas livrarias. A carta citada, por exemplo, permanece inédita em livro (leia nas págs. 6 e 7) e foi encontrada pelo Estado ao lado de muitas outras nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco (Funaj), no Recife, responsável pela programação do ano. É endereçada ao Dr. Ubaldino Amaral, que havia criticado o fato de Nabuco não viver no Brasil àquela altura, depois de ter deflagrado - na companhia de André Rebouças, José do Patrocínio e outros - o movimento pela Abolição em 1880, com a fundação da Sociedade Abolicionista Brasileira. Nabuco explica a Amaral que estava no exterior "trabalhando para viver" e propagando suas ideias, elaborando inclusive os textos do livro que vai intitular Abolicionismo. Também reafirma a importância de manter sua independência política e financeira, em nome da causa maior.

Outra carta inédita que a Funaj digitaliza no momento, de 15 de fevereiro de 1888, ano em que a Lei Áurea é finalmente assinada pela princesa Isabel, confirma o papel de Nabuco na articulação internacional do movimento: ali ele conta ao senador francês Victor Schoelcher que havia estado pessoalmente com o Papa Leão XIII e que contava com a opinião pública francesa para pressionar o Brasil a decretar o fim da escravidão. Como sempre em Nabuco, as cartas são muito interessantes porque investidas de sua determinação histórica e de sua prosa estilosa. "A nação quer se purgar de sua vergonha e de seu crime", escreve ao parlamentar francês. E associa a Abolição brasileira de 1888 à Revolução Francesa de 1789: para Nabuco, o fim da escravidão não era apenas a extinção de uma segregação racial, mas também a oportunidade de dar aos brasileiros os princípios de cidadania.

Pouco depois, porém, seus medos recrudescem. Em outra carta inédita, de 2 de janeiro de 1889, Nabuco, que se diz um "liberal monárquico", critica os republicanos por seu ódio racial, pois "falam abertamente em matar negros como se matam cães" e parecem querer uma guerra civil no Brasil pós-abolição. Nabuco, em realidade, esperava que a princesa Isabel levasse o Brasil para o Terceiro Reinado, sucedendo a D. Pedro II, e não admitia que os brasileiros pudessem querer a república em lugar da monarquia. De fato, os primeiros anos da República pareceriam confirmar parte de seus receios, pelo autoritarismo militar; ao mesmo tempo, não trouxeram esse velho temor dos conservadores brasileiros, a guerra civil e o esfacelamento do país em distintas nações, como havia ocorrido nos vizinhos que adotaram o regime.

O quarto documento obtido nos arquivos pernambucanos é um manuscrito de um discurso feito na Argentina. Não está datado, mas é certamente posterior a 1888, porque nele Nabuco se refere à vitória sobre o "feudalismo escravista" e afirma que a causa abolicionista faz parte de uma utopia, a "paz americana", celebrando assim o ânimo futurista do Novo Mundo. Aqui já temos o estado de espírito do Nabuco tardio, que, graças ao Barão do Rio Branco, se reconciliou com o governo e assumiu a vaga de diplomata em Washington em 1905. Também se reconciliou com suas raízes religiosas, que datam de sua infância no Engenho de Massangana, em Cabo de Santo Agostinho, a 48 km do Recife, engenho que está em reforma para o ano comemorativo e foi visitado pelo Estado.

Das mais de 700 cartas escritas por Nabuco, cerca de 450 foram coligidas por sua filha Carolina e publicadas em dois dos 14 volumes de suas Obras Completas (não tão completas assim), publicadas pela Ipê em 1949. Entre outros volumes de cartas de Nabuco estão as que trocou com Machado de Assis, prefaciadas por Graça Aranha (recentemente reeditadas pela editora Topbooks), e com os abolicionistas britânicos, organizadas por Leslie Bethell (mesma editora). Há, portanto, muitas dezenas de cartas inéditas em livro. Felizmente, boa parte estará disponível em acervo digital em 2010. O próprio Nabuco gostaria de ver esse dia chegar, graças à liberdade de uma ideia chamada internet.
Jornal O Estadao de S.Paulo

Marx sem Lenin


Renato Janine Ribeiro - O Estado de S.Paulo
Não há dúvida de que Marx foi um pensador de esquerda. Isso quer dizer duas coisas: primeiro, ele foi um pensador cujas ideias ? como a importância da economia ("condições materiais de existência") na vida social ? influenciaram também outras famílias políticas. Segundo, foi um político cujo nome foi fartamente invocado pelos partidos comunistas e/ou marxistas-leninistas no último século. Mas talvez esses partidos não passassem num exame sobre o pensamento de Marx.

Resumirei esse pensador complexo em três ideias fortes, que estão longe de esgotá-lo, mas são essenciais. A primeira: deve ser extinta a propriedade privada dos meios de produção. Eles devem pertencer à sociedade, e não a indivíduos. É claro que por meios de produção não se entende a casa, o carro, os móveis, mas bens de impacto maior. É esse o ponto que coloca Marx à esquerda e ainda hoje desperta a ira dos anticomunistas, que receiam perder suas propriedades.

Mas vejamos uma segunda ideia-chave. Geralmente a esquerda se pauta pela defesa de um Estado atuante na economia. Até se distingue esquerda e direita pelo papel do Estado na vida econômica. Ora, Marx não defende o Estado máximo. Nem o Estado mínimo, é óbvio. O que ele defende é o Estado nenhum. A supressão do Estado é um princípio fundamental para ele, que aí se aproxima dos anarquistas. O Estado seria um aparelho repressor. Por isso, Marx não queria um Estado se metendo na vida pessoal ou no que quer que seja. As associações de produtores ? isto é, dos trabalhadores tanto produzindo quanto organizando a produção ? deveriam assumir as funções que atribuímos ao Estado e que ainda fossem necessárias. Quanto ao controle da vida sexual, da moral etc., nada de Estado, nada de polícia.

Vemos que esse Marx está muito longe do comunismo do século 20! Ficará ainda mais longe dele se lembrarmos uma terceira ideia do pensador alemão. Os modos de produção ? o capitalismo e, antes dele, o feudalismo ? vivem enquanto são eficazes. Quando um deles não dá mais conta de organizar a produção, é substituído. É um processo traumático, demorado, mas que acontece. O grande exemplo é a vitória do capitalismo sobre o feudalismo. Custou séculos, mas se realizou.

No futuro, esperava Marx que o socialismo (a cada um segundo o seu trabalho) e, depois, o comunismo (de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades) se mostrariam mais eficazes que o capitalismo. Quando este esgotasse sua capacidade de organizar a produção, também passaria sua vez. Um exemplo: se o capitalismo, por seu "instinto selvagem", for predatório a ponto de ameaçar a sobrevivência do planeta (esse é um exemplo meu, mas que ilustra como atualizar seu pensamento para os dias de hoje. Fernando Gabeira não concorda e acha que o capitalismo pode se adaptar a uma economia verde e sustentável).

Ora, como fica o comunismo do século 20 ? e o pouco que dele resta no 21, talvez apenas Cuba, porque China e Vietnã se abriram à economia de mercado e a Coreia do Norte não passa de uma ditadura de família ? no quesito da capacidade de organizar a produção? Quando Castro reprime até mesmo restaurantes simples mantidos por famílias, porque estariam instilando o veneno do capitalismo no "homem novo" cubano, o que ele nos mostra? Simplesmente que o socialismo lá implantado não é mais eficaz que o capitalismo. Por isso, o Estado cubano se fortalece, em vez de rumar para sua extinção. E se fortalece no que tem de pior: a polícia, a repressão.

Marx falou de partidos e falou, também, na revolução armada como meio para tomar o poder. Mas esse não é o cerne de seu pensamento. O coautor de vários de seus livros, Friedrich Engels, que sobreviveu a ele por 12 anos, em seus últimos textos cogitava a vitória do socialismo pela via eleitoral, pacífica. Nesse tempo, colaboraram com ele Eduard Bernstein, autor de Socialismo evolucionista, a obra inaugural do "revisionismo" que os comunistas depois tanto condenariam, e Karl Kautsky, que os comunistas chamariam de "renegado" porque não apoiou a Revolução Russa e manteve um projeto social-democrata ? que Kautsky, é bom lembrar, considerava marxista.

O que quero dizer com isso? Não fossem a 1.ª Guerra Mundial e a queda do czarismo, o socialismo marxista poderia estar associado hoje a uma opção democrática, que era a dos partidos socialistas francês e alemão. A vitória de Lenin e do partido bolchevista modificou profundamente o que significava o marxismo. Um projeto empenhado na extinção do Estado foi desviado para a construção de um Estado totalitário e policial. "Marxismo-leninismo" deveria ser entendido como uma contradição em termos, não como uma expressão que se use tranquilamente. Talvez o hífen seja, na verdade, uma subtração: marxismo menos leninismo, dá quanto?

Quer isso dizer que os projetos políticos de Marx são atuais e podem dar certo? Há pelo menos um problema: o que significa "propriedade social" dos meios de produção? Nós nos acostumamos, na democracia, a ver o Estado como expressão política da sociedade. Como "a sociedade" será proprietária dos meios de produção, se não houver Estado? Difícil de entender. Mas é preciso, para quem discute política, lembrar que Lenin mudou muito o que Marx e Engels disseram; que ele não foi seu herdeiro principal ou necessário; e que, se Lenin adulterou o que havia de melhor em Marx ? um certo espírito democrático ?, não há mal em rever, corrigir e alterar o que, na obra de Marx, está superado.

Não podemos deixar Marx refém do comunismo histórico. Talvez seja bom, um dia, discutir como o leninismo se apropriou, indevidamente, de seu espólio. Mas o fundamental é saber que o leninismo foi um dos usos mais duvidosos que se pôde ter do marxismo.

PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA NA USP, FOI DIRETOR DE AVALIAÇÃO DA CAPES
Jornal O Estado de S.Paulo

Duas teorias da mudança


Duas teorias da mudança
Enquanto pensadores do Iluminismo francês teriam se concentrado no poder da razão, os pensadores do Iluminismo britânico teriam enfatizado os limites da mesma

David Brooks - O Estado de S.Paulo
THE NEW YORK TIMES

Na época em que eu estava na faculdade, fiz um curso sobre o Iluminismo. Naquele tempo, quando as pessoas falavam no Iluminismo, em geral elas se referiam ao Iluminismo francês - pensadores como Descartes, Rousseau, Voltaire e Condorcet. Estes foram filósofos que confrontaram um mundo de superstição e feudalismo e tentaram expô-lo à esclarecedora luz da razão.

Inspirados pela revolução científica, eles depositavam grande fé no poder da razão individual para detectar o erro e chegar por meio da lógica à verdade universal.

Seu grande modelo era Descartes. Ele teve como objetivo propor o recomeço da compreensão humana. Abandonou os preconceitos acumulados do passado e construiu a partir do nada, erguendo uma certeza lógica sobre a outra.

Aquilo que Descartes fez pelo conhecimento, outros fizeram pela política: varrer para longe os antigos precedentes e escrever novas constituições com base na razão. Este foi o objetivo da Revolução Francesa. Mas não houve um único Iluminismo, com sede exclusivamente em território francês.

Houve um outro Iluminismo, centrado na Escócia e na Grã-Bretanha e liderado por David Hume, Adam Smith e Edmund Burke.

Como escreveu Gertrude Himmelfarb em seu livro de 2004, The Roads to Modernity (Os Caminhos da Modernidade, em tradução livre), se os pensadores do Iluminismo francês concentraram-se no poder da razão, os pensadores do Iluminismo britânico enfatizaram os limites da mesma.

Eles deram mais ênfase aos nossos sentimentos. As pessoas nascem com o desejo natural de ser admiradas e de ser dignas de admiração.

Nascem com emoções morais, um sentido de justiça e benevolência. Nascem também com paixões mais sombrias, como o amor próprio e o tribalismo, que prejudicam os empreendimentos racionalistas. Somos antes de mais nada criaturas emotivas, e a política não pode se esquecer disso.

Estas duas visões da natureza humana produziram diferentes atitudes diante da mudança política, articuladas brilhantemente por Thomas Paine e Edmund Burke. Suas opiniões são o objeto de uma soberba dissertação de Yuval Levin, da Universidade de Chicago, intitulada The Great Law of Change (A Grande Lei da Mudança, em tradução livre).

Como demonstra Levin, Paine acreditava que as sociedades existem num "eterno agora". O fato de algo existir há eras nada nos diz a respeito do seu valor. O passado está morto, e os vivos devem usar seu poder de análise para varrer para longe os arranjos existentes quando necessário, e refundar o mundo. Ele até sugeriu que as leis perdessem a validade após 30 anos, para que cada geração pudesse recomeçar.

Visões diferentes. Paine enxergava a Revolução Francesa e a Revolução Americana como modelos deste tipo de mudança radical. De acordo com ele, em cada um destes países os revolucionários deduziram certas verdades universais a respeito dos direitos do homem e então projetaram uma sociedade que se enquadrasse nelas.

Burke, que participou do Iluminismo britânico, tinha uma visão diferente acerca da mudança. Ele acreditava que cada geração é um pequeno elo na corrente da história.

Servimos como herdeiros da sabedoria das eras passadas e somos obrigados a transmiti-la adiante, um pouco melhorada, aos nossos descendentes. Esta sabedoria preenche as lacunas em nossa própria razão, pois as instituições antigas implicitamente encerram mais sabedoria do que qualquer indivíduo jamais poderia acumular.

Burke mostrava-se horrorizado diante da ideia de os indivíduos usarem a razão abstrata para varrer arranjos que resistiram ao teste do tempo.

Ele acreditava na reforma contínua, mas reforma não é novidade. Não se pode tentar mudar a essência fundamental de uma instituição. O que fazemos é modificá-la a partir de dentro, mantendo as partes boas e ajustando as partes que não estão funcionando.

Burke argumentava que a tentativa de recriar a sociedade a partir de planos abstratos produz como resultado todo tipo de novas dificuldades, porque o organismo social é mais complicado do que podemos adivinhar. Nunca poderíamos acertar todas as respostas no primeiro ensaio.

Burke também apoiou a Revolução Americana, mas tinha sobre ela uma opinião diferente daquela manifestada por Paine. Ele acreditava que o Parlamento Britânico tinha atropelado de forma irresponsável as liberdades ancestrais que os colonos aprenderam a desfrutar.

Os americanos buscavam preservar aquilo que tinham. Os americanos nunca conseguiram descobrir se são filhos do Iluminismo francês ou do Iluminismo britânico.

A fundação dos Estados Unidos foi uma ruptura radical ou um ato de preservação?

Isto foi objeto de disputa entre Jefferson e Hamilton, e é objeto de debates hoje, tanto entre os partidos quanto dentro de cada um deles.

Atualmente, se olhamos ao redor na política americana, vemos aqueles que se definem como conservadores radicais, que desejam acabar com cem anos de história e devolver o governo ao seu papel pré-industrial.

Vemos confiantes tecnocratas democratas que depositam imensa fé no poder dos funcionários do governo de usar a razão para controlar e reorganizar sistemas complexos.

Vemos polemistas da esquerda e da direita praticando um estilo de política jacobina altamente abstrato e ideológico.

Os filhos do Iluminismo britânico estão recuando. Ainda assim, resiste o teimoso fato da natureza humana. Os escoceses estavam certos, e os franceses, errados. E desta verdade nasce um estilo de mudança, estilo que enfatiza a modéstia, o gradualismo e o equilíbrio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É AUTOR DE LIVROS SOBRE POLÍTICA AMERICANA E JÁ FOI CORRESPONDENTE NO ORIENTE MÉDIO E EM MOSCOUN
Jornal O Estadão

Em busca de um horizonte inatingível


Em busca de um horizonte inatingível
A democracia de Atenas era indireta. Com o tempo, ela se tornou uma 'forma' branda, flexível e elástica, na qual se pode inserir qualquer coisa.
Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo
Democracia é um conceito formado de duas palavras: "demos", que significa povo, e "cratos", poder, governo - mas é traduzida como "governo do povo, pelo povo, para o povo", como afirmou o grego Péricles. Enunciado que hoje é atribuído, erroneamente, ao americano Abraham Lincoln.

Os cidadãos gregos eram felizes. Por outro lado, os sátrapas, os senhores feudais, os reis e magos que regiam o resto do mundo entre o vale do Indus e a Bretanha, recusavam-se a partilhar seus privilégios com o "povo".

A democracia de Atenas era indireta. Só os cidadãos de primeira classe tinham direito de adotar decisões políticas, ou seja, cinco mil cidadãos para um grupo de 40.000 habitantes, excluídos os, escravos, as mulheres e os estrangeiros. O modelo "democrata" grego foi copiado depois por Roma, demolido por Júlio Cesar e que caiu no Império. Na Idade Média, a preferência foi pela monarquia, pelo feudalismo e o despotismo, exceção feita à Islândia que, nos seus desertos de neve, pratica, com um Parlamento ao ar livre, uma "democracia direta" mais avançada do que a de Atenas.

A democracia só ressuscita depois de passados alguns séculos e vários reis, com a tomada da Bastilha pelos franceses em 14 de julho de 1789, e a abolição do Antigo Regime francês, em 21 de setembro de 1792, substituindo a monarquia pela República e a Democracia - que nascem juntas, o que muitas vezes provoca confusão. Na verdade são dois sistemas parentes, mas não equivalentes (uma das mais respeitáveis democracias do mundo, a Inglaterra, é uma monarquia).

Essa vitória tardia da democracia na França de 1792 foi preparada por um século de filosofia, o século do Iluminismo (Voltaire, Montesquieu, Rousseau), pela franco-maçonaria e pela magnífica Declaração de Independência assinada na Filadélfia em 1776, que iria inspirar na França a Declaração dos Direitos do Homem (1789).

Portanto, no fim do século XVIII vemos o segundo nascimento da democracia e o início da sua cavalgada triunfante em torno da terra. Triunfante, mas muitas vezes enganadora. Hoje, todos os poderes, ou quase, supostamente são democráticos ou republicanos. O voto popular, um dos princípios da marcas da democracia, é praticado em todas as partes, mesmo em Estados os menos democráticos.

Hitler não só chegou ao poder em 1933 pelo voto parlamentar, mas depois multiplicou os plebiscitos com 99% de votos favoráveis. Stalin fez o mesmo. Hoje, o totalitário e feroz Irã é uma "república islâmica". A China comunista é uma república popular.

A democracia se torna, portanto, uma "forma" branda, flexível e elástica, na qual se pode inserir qualquer coisa. Por isso, é preciso manejar esse conceito com prudência. A democracia é o regime em que o poder é do povo (princípio da soberania) sem nenhuma distinção ligada a nascimento, riqueza ou competência (princípio da igualdade). Para que um sistema como esse funcione, ele tem que ser apoiado por outros princípios. Como o da liberdade dos indivíduos, da submissão à maioria, da separação dos poderes legislativo, executivo e judiciário, das consultas regulares ao povo, da pluralidade dos partidos políticos, da independência da justiça, da liberdade de opinião e expressão, da liberdade da imprensa.

Mas tem que existir uma sociedade onde cada um dos cidadãos seja um indivíduo virtuoso para que a democracia se realize. Por exemplo, num ponto todos os países, mesmo os mais democráticos, falham: eles não contemplam a democracia direta. Todas as democracias são indiretas, ou seja, as decisões não são adotadas pela totalidade dos cidadãos, mas por seus representantes eleitos (deputados, senadores).

E não poderia ser de outra maneira: a Índia, por exemplo, tem 700 milhões de eleitores. Impossível consultar 700 milhões de pessoas a cada decisão a ser tomada. Somente a Suíça, um país pequeno, pratica a democracia direta, por meio do referendo.

Mas não basta que um país tenha tradição democrática para estar protegido das perversões do despotismo. A França, por exemplo, dez anos após a Declaração dos Direitos do Homem, caiu no jugo do despotismo de Napoleão Bonaparte e, mais recentemente, de 1939 a 1944, do Marechal Pétain, que chegou mesmo a trocar o nome, República Francesa, por Estado Francês.

A América Latina ficou durante um longo tempo submissa às juntas militares, condenada aos golpes de Estado, à opressão de todos por alguns. Foram horas grandiosas vividas pelo fascismo em meados do século passado, quando grandes Estados, como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, ficaram nas mãos dos militares, do despotismo (se bem que com a cumplicidade dessa grande democracia que são os Estados Unidos). Hoje, o continente tem uma outra paisagem. Chile, Uruguai e Argentina se desembaraçaram dos dirigentes fascistas. O caso mais espetacular é o do Brasil - que, 25 anos depois da ditadura, surge como um modelo de democracia.

Claro que nem todo o continente está curado. A Venezuela, mesmo sendo uma "república bolivariana", não se assemelha à Atenas de Clístenes. A Colômbia não é um Estado perfeito. E se Cuba se diz uma "república", quem pode dizer que é uma democracia?

Esse é o percurso tumultuoso e fascinante da paixão democrática. Um longo caminho em busca de um objetivo radiante, jamais alcançado porque a fraqueza do homem, suas ambições, seu cinismo, seu egoísmo, o poder perverso do dinheiro, não cessam de perverter e infestar esse maravilhoso instrumento imaginado por Atenas, pelos "pais fundadores" dos Estados Unidos, pelos revolucionários franceses de 1789.

A democracia é como um horizonte que se dissipa à medida que nos aproximamos dele. É inatingível. Uma miragem brilhante do nosso futuro. É a busca incessante desse horizonte sempre em fuga que constitui a realidade, o ser, a fascinação, o gênio e a formidável fecundidade da ideia democrática. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
O Estadão

Por outra noção de renascimento


Lorenzo Mammì
O Outono da Idade Média é um livro de escrita tão fluente e evocativa, que é fácil esquecer sua pregnância polêmica. Em parte, a responsabilidade é do próprio Huizinga. Formado em filologia indo-europeia, pertencente a uma geração moldada pelas poéticas simbolistas, chegou à história medieval por vias transversas, mais por gosto e oportunidade do que por formação sistemática. Um tom intuitivo e rapsódico permeia o livro. Não obstante, ou talvez justamente por isso, a obra prima de Huizinga é um texto de referência fundamental, não apenas para entender o período que aborda, mas também como testemunha do clima cultural em que foi escrita.

Saiu em 1919, intervindo numa questão candente da historiografia da época: a noção de Renascimento. A esse respeito, Jacob Burckhardt (A Cultura do Renascimento na Itália, 1860) estabelecera um paradigma que começava a ser questionado: para ele, a sociedade italiana dos séculos 14 e 15 produzira os primeiros "homens modernos", caracterizado por individualismo, relação desencantada com a natureza, independência em relação à religião, sentido da história, etc. Parecia uma descrição sólida. Mas, ao descer nos detalhes, embaçava. Todos os traços que Burckhardt indicara como típicos do homem renascentista podiam ser encontrados também em épocas anteriores. Outros aspectos marcantes, como a superstição e o gosto por complicadas alegorias, pareciam traços ainda medievais. O Renascimento seria realmente um fenômeno italiano? Como situar a extraordinária floração artística franco-flamenga, que é do mesmo período?

O ponto de partida da obra de Huizinga é justamente essa última interrogação. No ensaio incluído na edição brasileira, Anton van der Lam liga a origem do livro a uma grande exposição de primitivos flamengos, organizada em Bruges em 1902. É por volta dessa data que se começa a discutir a existência de um Renascimento nórdico, autônomo e concorrente em relação ao italiano. Huizinga escolhe o caminho oposto, mais ousado. A questão não seria incluir a cultura franco-flamenga na Renascença, mas mostrar como a Renascença permanecia, no fundo, medieval.

A primeira vista, sua posição não é conflitante, e sim complementar à de Burckhardt. O suíço foca sua atenção nas cidades-estados italianas; Huizinga escolhe o Ducado de Borgonha, última floração do feudalismo. Burckhardt acompanha a ascensão de uma nova classe dirigente que é fundamentalmente burguesa, mesmo quando se ornamenta de títulos nobiliários; Huizinga descreve uma aristocracia feudal se fechando paulatinamente em rituais e princípios que perderam sua função originária, e sobrevivem apenas como "jogos" magníficos. O conceito central de Burckhardt é "humanismo"; de Huizinga, "cortesia". Mas a separação não é tão fácil. Visto pela perspectiva de Huizinga, até o humanismo se torna um jogo cortês. O próprio conceito de "estado como obra de arte", central em Burckhardt, adquire outra coloração em Huizinga. Para o primeiro, era vontade de reconstruir a sociedade inteira, esquecendo o passado recente; em Huizinga passa a indicar uma estetização da vida, que encobrisse, sem modificá-la, a feiura do real. E nesse sentido, é claro, encontra-se também na cavalaria medieval.

A discussão teve outros protagonistas e reviravoltas. Pode-se dizer que se encerrou, ou ao menos foi colocada em novo patamar, apenas em 1957, com a publicação de Renascimento e Renascimentos na Arte Ocidental, de Erwin Panofsky. Mas há outro aspecto do livro de Huizinga que destaca sua relevância histórica e sua atualidade: a valorização dos períodos de decadência como momentos em que as convenções culturais, se descolando de sua funcionalidade sócio-econômica, adquirem a forma de um jogo, válido apenas pelas regras arbitrárias que os participantes compartilham. É nesses momentos que os traços característicos de uma cultura mostrariam com mais clareza seu funcionamento. O gesto de Carlos o Temerário, último duque de Borgonha, que encontrou a morte numa guerra contra os Suíços que nada acrescentaria à riqueza de seu reino, era incompreensível para os italianos da época, dizia Burckhardt. Mas é justamente o ponto de vista de Carlos que Huizinga descreve.

Evidentemente, na base desse interesse está uma crise de confiança na racionalidade da história. Atrás do outono da Idade Média, entrevê-se o outono da belle époque. O próprio Huizinga, aliás, se encarregou de estabelecer a ligação (mesmo fingindo que não), numa conferência proferida em plena Guerra Mundial, sobre a importância de modelos semi-míticos nas decisões políticas. Não possui a potência sintética de Burckhardt, nem a precisão cirúrgica de Panofsky. É um historiador-esteta, de extraordinária sensibilidade. Mas toda a historiografia posterior, da arte e da cultura, lhe deve algo. Não é possível ler O outono da Idade Média sem reconhecer, por exemplo, na divisão dos temas e na própria estrutura do texto, uma antevisão do que será, mais tarde, a história das mentalidades da escola dos Annales.

LORENZO MAMMÌ É PROFESSOR DE FILOSOFIA NA USP E CRÍTICO DE ARTE E DE MÚSICA

Jornal O Estadão

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Acre, cidade no Norte de Israel, tem sítios arqueológicos da época dos cruzados
Daniela Kresch (ciencia@oglobo.com.br)



ACRE - Ofuscada por destinos mais famosos como Jerusalém, Nazaré e Belém, a cidade portuária de Acre, no Norte de Israel, nem sempre entra no roteiro turístico de peregrinos cristãos na Terra Santa. Mas duas escavações recentes provam o que arqueólogos e historiadores já intuíam: a cidade de 4.500 anos de idade é mais importante para a história do Cristianismo do que a maioria pensa. Um dos sítios arqueológicos revelou uma cidade subterrânea da era dos cruzados. O outro desencavou uma construção monumental bizantina de 1.500 anos, da época dos primórdios do Cristianismo.

Nos últimos 20 anos, arqueólogos israelenses têm revelado mais e mais tesouros antigos em Acre. Até então, a cidade da Galileia de 50 mil habitantes, um tanto decadente, era mais conhecida pelas ruelas turco-otomanas do fim do século XVIII, pelo mercado oriental e seus restaurantes de peixes. Hoje, é um centro de arqueologia reconhecido internacionalmente. Não por acaso. A cidade já foi habitada por fenícios, egípcios, cananeus, gregos, romanos, mamelucos, cruzados, turcos, bahais e britânicos, para citar apenas membros de algumas civilizações e crenças.

Nos próximos meses, a prefeitura da cidade vai abrir ao público uma nova seção subterrânea revelando um bairro inteiro da Idade Média, quando Acre era a o porto - e a porta - de entrada dos cruzados na região. A cidade foi conquistada pelos cruzados em 1104 e se tornou um centro de soldados e peregrinos cristãos que tentaram reaver Jerusalém dos "infiéis" depois da ocupação da região pelo Islã, no ano 632.

No bairro descoberto, gravações de brasões em gesso deixadas por um viajante medieval abrem caminho para uma rua de pedras na qual funcionava um mercado onde peregrinos compravam souvenirs da Terra Santa. Tudo ficou como era em 1291, quando Acre foi subitamente reconquistada por muçulmanos egípcios.


- É como uma Pompeia dos tempos romanos. É uma cidade inteira - se maravilha o arqueólogo Eliezer Stern, da Autoridade de Arqueologia de Israel, que considera Acre "uma das cidades mais excitantes da arqueologia mundial".

A novidade se une a atrações arqueológicas medievais já visitadas por turistas, como uma fortaleza de cavaleiros da Ordem dos Hospitalários, com salões e pilares suntuosos, calabouços e latrinas, além de um túnel dos rivais Templários. Há também um mercado, além de prédios inteiros, ruas originais e utensílios usados pelos cristãos da Idade Média.

Sob poder dos cruzados, a cidade se tornou uma espécie de encubadoura de monges e soldados, com facções cristãs europeias lutando entre si pelo comércio local. Mercadores de Gênova, Veneza e Pisa conviviam com moradores muçulmanos e judeus. O bispo francês Jacques de Vitry, que visitou a cidade em 1216, não pintou um quadro muito bonito do cotidiano local.

"Quando entrei nessa cidade horrível e a encontrei cheia de incontáveis atos vergonhosos e malefícios, fiquei muito confuso", escreveu o bispo, que descreveu a cidade como "totalmente depravada" e "cheia de prostitutas". Os moradores, segundo Vitry, estavam "totalmente devotados aos prazeses da carne". Os "pecados" podem ter trazido a ira divina, já que a cidade foi reconquistada pelos muçulmanos em 1291.

A presença cruzada fez com que Acre fosse tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Mas, mil anos antes, o porto já era um centro cristão extremamente importante. É o que foi comprovado numa outra escavação recente, que revelou ruínas raras da era bizantina (do ano 324 ao 632). Trata-se, na verdade, do primeiro prédio público bizantino já encontrado na cidade, uma das mais antigas continuamente habitadas da região.


As ruínas foram encontradas depois que empreiteiros decidiram aumentar o estacionamento de um grande shopping center ainda em construção. Os arqueólogos se surpreenderam ao descobrir que, no terreno onde há poucos anos funcionava uma fábrica, se escondia uma construção de 1.500 anos, que inclui paredes monumentais de pedras polidas, canos de terracota e dois mosaicos, um branco e um com moldura azul e padrão piramidal vermelho.

Segundo os responsáveis pela escavação, as ruínas provam que o prédio era proeminente, talvez uma das primeiras igrejas da Terra Santa ou, quem sabe, a mansão do bispo Aeneas de Acre, que participou do Primeiro Concílio de Niceia, em 325 - o encontro histórico que ajudou a delinear os caminhos da Igreja Cristã logo depois que o imperador romano Constantino I adotou a fé em Jesus Cristo.

- Pisos mosaicos eram usados apenas em prédios públicos, como igrejas, ou residências de autoridades ou gente rica - explica a arqueóloga israelense Nurit Faig, líder da escavação.

Historiadores já apontavam Acre - ou Akko, em hebraico, e Akka, em árabe - como centro cristão na era bizantina. Nos arquivos do Vaticano, a cidade portuária aparece nos escritos de um peregrino anônimo de Piacenza, na Itália, que visitou a região no ano de 570. Ele descreveu a beleza das igrejas.

No caso desse prédio bizantino, porém, só um pequeno poço poderá ser visto pelos turistas. A construção já foi enterrada novamente - depois de coberta por um pano espacial e minuciosamente detalhada em fotos e filmes - para dar lugar ao estacionamento.

- Fizemos o que chamamos de "cobertura para gerações". É cruel, eu sei, mas temos que tentar conviver com a mistura de passado e futuro - diz Nurit Feig. - Se barrássemos todos os novos projetos por causa da arqueologia, toda Israel teria que ser construída sobre palafitas.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/07/01/acre-cidade-no-norte-de-israel-tem-sitios-arqueologicos-da-epoca-dos-cruzados-924815487.asp#ixzz1UACY4i00
Jornal O Globo

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Notícias História Viva


As persistentes cicatrizes de Chernobyl

JOE NOCERA
DO "NEW YORK TIMES"

Estranhamente, o 25º aniversário do pior desastre nuclear da História foi rememorado por meio de reportagens sobre animais. Duas revistas, "Wired" e "Harper's", publicaram artigos longos sobre o ressurgimento da vida animal na chamada zona de exclusão que existe em torno da antiga usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia.

Isso é muito bom, mas dado o recente acidente nuclear japonês, será que o leitor não preferiria saber o que aconteceu com as pessoas que foram afetadas por Chernobyl? Conheço uma delas. Seu nome é Maria Gawronska.

Maria Gawronska, 30, é inteligente e atraente, e se transferiu de sua Polônia natal a Nova York em 2004. Eu a conheci por intermédio de minha noiva, há uns quatro anos. Ela sempre usa blusas de gola alta, mesmo no mais quente dos dias.

A cidade de Maria, Olsztyn, no norte da Polônia, fica a mais de 650 quilômetros de Chernobyl. Ela tinha cinco anos em abril de 1986 quando o reator da usina derreteu, espalhando imensas quantidades de radiatividade pela atmosfera. O vento conduziu a radiatividade ao território da Ucrânia, Belarus e também ao norte da Polônia.

"No começo", conta Maria, "eles disseram que tinha acontecido uma explosão mas não era perigosa". No entanto, poucos dias mais tarde a União Soviética relutantemente admitiu a gravidade do acidente. Maria recorda que todos receberam tabletes de iodo e foram instruídos a não ficar ao ar livre. Ela também se lembra de ter ouvido pessoas dizendo que demoraria anos para que os poloneses conhecessem as consequências de saúde do desastre.

Entre outras coisas, a radiação pode causar sérios problemas à glândula tireóide; por isso as pessoas receberam os tabletes de iodo, para minimizar o montante de iodo radiativo absorvido pela tireóide.

O quarto de século seguinte certamente confirmou uma explosão de problemas de tireóide em Olsztyn. Maria me contou que alas inteiras dos hospitais da cidade são dedicadas agora doenças da tireóide. Isso não é exagero. O Dr. Arthur Zalewski, um cirurgião de tireóide de Olsztyn, confirmou um grande aumento no número de cirurgias de tireóide a partir do início dos anos 90. Algumas pessoas sofrem de câncer de tireóide, mas muitas mais sofrem de um inchaço na glândula, ou tem tireóides que deixaram de funcionar devidamente.

Zalewski também me acautelou, porém, que não existiam provas científicas vinculando os problemas de tireóide a Chernobyl. Em parte devido à intransigência soviética, e em parte pelo que a revista médica britânica "Lancet" definiu como "consideráveis desafios logísticos", jamais foram iniciados estudos epidemiológicos que pudessem estabelecer o elo entre o desastre e os problemas de tireóide na Polônia.

Os estudos realizados se concentraram em casos de câncer. De acordo com a "Lancet", é possível que altas na incidência de leucemia infantil e câncer de mama em Belarus e na Ucrânia estejam relacionados a Chernobyl. Mas devido a "falhas na concepção dos estudos", não se pode considerar essas pesquisas como definitivas.

Quando entrei em contato por e-mail com a mãe de Maria, Barbara Gawronska-Kozak, ela se mostrou irredutível, no entanto: "Estou convencida de que Chernobyl causou o agravamento dos problemas de tireóide". Barbara, ela mesma cientista (ainda que não epidemiologista), me disse que essa era a opinião do "cidadão polonês comum".

Ela sofreu uma operação de tireóide uma década depois do desastre. Sua melhor amiga também. Sua mãe passou por duas dessas cirurgias. Uma velha amiga do segundo grau recentemente passou por uma cirurgia de remoção de bócio.

Maria me contou que seu pai era a única pessoa da família que não tinha problemas de tireóide. Cerca de cinco anos atrás, foi a vez dela. Sua tireóide inchou tanto que começou a afetar sua traqueia, tornando a respiração difícil em certas posições. A aparência desagradável do problema era o motivo para que usasse sempre golas altas, evidentemente.

Um especialista em Nova York disse a ela que jamais havia visto algo parecido, e que a operação de correção tinha risco elevado e poderia danificar suas cordas vocais. Por isso, Maria decidiu voltar à Polônia e se fazer operar em sua cidade. Ela o fez no começo deste ano.

Como no caso de Chernobyl, demoraremos anos a saber como o acidente na usina nuclear Fukushima Daiichi afetará a saúde das pessoas que viviam nas redondezas. Ainda que muito menos radiação tenha escapado, houve vazamento de radiação para a água, e traços de radiação foram encontrados em alimentos.

Isso nos faz refletir em como lidar com a energia nuclear, que oferece a deslumbrante perspectiva de eletricidade gerada de maneira não poluente, acompanhada pelo risco constante de desastre caso algo de errado aconteça. Não são questões simples -como nos vemos forçados a recordar sempre que acontece um acidente como o da Fukushima Daiichi. Ou Chernobyl.

Para Maria, ao menos, a história teve final feliz. Zalewski, que realizou a cirurgia, não se assustou com o tamanho de sua tireóide. A operação foi um sucesso. Suas cordas vocais não foram afetadas. Ela se sente muito mais vigorosa do que nos anos da doença.

Maria me contou que, quando estava em Olsztyn, conversou com velhos amigos. Quando souberam o motivo de sua volta, todos riram e mostraram cicatrizes. Quando me encontrei com ela, pouco depois de seu retorno a Nova York, não pude deixar de reparar na pequena cicatriz que ostentava. Maria não estava usando uma blusa de gola alta.

TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI

Folha de São Paulo

Notícias História Viva

Túmulo de nazista famoso é retirado para conter peregrinação

As autoridades da cidade de Wunsiedel, localizada no Estado da Bavária, resolveram retirar o túmulo de Rudolf Hess, conhecido por ter sido o secretário particular do ditador Adolf Hitler, do cemitério municipal.

A razão para a remoção dos restos mortais de Hess está na peregrinação de neonazistas vindos de toda a Europa que ocorre todos os anos no dia 17 de agosto, o da morte de Hess. Mesmo que a homenagem em Wunsiedel tenha sido proibida tanto em nível municipal e estadual como em federal, os neonazistas insistem em realizá-la.

Sem o túmulo, terão de encontrar algum outro lugar que represente a figura de Hess ou, o que as autoridades alemães querem, simplesmente cancelar as cerimônias.



David Ebener/Efe

Parte de cima da foto mostra o túmulo no cemitério de Wunsiedel onde Rudolf Hess estava enterrado; a de baixo evidencia a remoção dos seus restos mortais



Com a concordância da família do nazista, aquilo que restou dele foi retirado do túmulo e será incinerado. A intenção dos familiares é jogar as cinzas no mar.

A retirada foi feita na noite de ontem, coincidindo com o 67° aniversário do fracassado atentado contra Hitler em 20 de julho de 1944, ocasião em que um grupo de oficiais comandado por Claus Schenk von Stauffenberg tentou matar o ditador.

Essa data é considerada pelos alemães como símbolo da resistência contra um personagem da história atualmente repudiado por praticamente a totalidade da população do país.

Por ter ocupado posição de destaque durante o "Terceiro Reich", Hess, que chegou a estar entre os três mais influentes personagens do regime, foi julgado no Processo de Nuremberg em agosto de 1946 e condenado à prisão perpétua sob insistência da antiga União Soviética.

Folha de São Paulo