sexta-feira, 19 de agosto de 2011

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Guerras da Memória e do Tempo
Ex-aliado de Lampião diz que Maria Bonita tinha ciúme e fazia intriga

Desde Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, incontáveis romances, peças teatrais, estudos universitários, músicas e filmes foram feitos aqui e no exterior sobre o massacre de Canudos, em 1897. Teses sociológicas, antropológicas e geológicas defendidas por Euclides caíram ao longo do tempo, mas a versão do escritor sobre a barbárie cometida pelos militares contra os seguidores do líder sertanejo Antônio Conselheiro prevaleceu nas novas obras de acadêmicos e artistas. O poder da palavra do intelectual, somado à força secular das narrativas populares, venceu até mesmo a máquina de reescrever a história da ditadura Vargas.

No começo de 1941, a ditadura do Estado Novo decidiu recontar a história do massacre, para derrubar a versão mais conhecida do episódio. Euclides escreveu que a atuação do Exército na Bahia foi criminosa e campanhas militares apresentaram uma série de estratégias e táticas erradas de guerra. O escritor afirmou que Canudos foi um refluxo no tempo.

A ditadura Vargas encarregou o tenente José de Macedo Braga, do Rio de Janeiro, então capital federal, de revirar arquivos do Exército e buscar informações no Nordeste para mostrar uma história diferente da narrada por Euclides. O tenente tinha por missão revelar que os chefes militares não foram humilhados e os jagunços de Conselheiro eram meros bandidos.

O Estado encontrou nos arquivos do Exército anotações do tenente Braga no decorrer da missão de reescrever a história. Ninguém pode acusar o tenente de não ter se esforçado na empreitada. Ele recolheu documentos, leu relatórios e datilografou depoimentos manuscritos de testemunhas.

A17 de fevereiro de 1941, Braga escreveu um roteiro de arquivos para quem dispusesse fazer novos livros. "A campanha de Canudos, no ano de 1897, (...) infelizmente ainda não foi escrita como devia ser", destacou. "É preciso dizer a verdade. "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e a "Guerra de Canudos", de Macedo Soares, são obras-primas da literatura, porém, sem os dados oficiais, como deve ser escrita uma história militar."

O tenente escreveu que era preciso pedir autos de processos das comarcas de Queimadas, Juazeiro, Monte Santo e Bonfim, listas de médicos, documentos do 6.º Batalhão de Artilharia e até do manicômio de Salvador. Na avaliação dele, esses documentos e os papéis do Exército garantiriam uma "obra notável, inédita e incomparável".

Ao passo em que se enfurnava nos documentos que lhe eram enviados, o tenente foi perdendo o entusiasmo. Em anotações posteriores, ele demonstrou ter perdido a crença em poder cumprir a missão de apresentar uma nova história.

Versão. Um documento de 1.º de março de 1941 expõe o desânimo e a surpresa do militar com testemunhos que coincidem com a versão de Euclides. Trata-se de relatório com depoimentos das "jagunças" Maria Lina e Maria do Carmo. O tenente faz uma observação na abertura do documento datilografado: "É triste, mas é verdade, o coronel Antonio Moreira Cesar, depois de morto, foi devorado pelos urubus!!!" Euclides já tinha deixado claro o fim do comandante da terceira campanha: Moreira Cesar, ao se aproximar do arraial, disse que pretendia almoçar em Canudos. O coronel virou comida das aves.

O depoimento de Maria Lina é um retrato da guerra. "Perguntada se assistiu aos últimos combates e se sabe responder alguma coisa em relação àquele desastre, inclusive à morte do coronel Moreira Cesar, respondeu que assistiu todo o combate travado em Canudos. Morreu muita gente nessa ocasião de parte a parte, sendo, porém, enterrados somente os adeptos de Antônio Conselheiro, ficando insepultos, no meio do campo, os soldados das forças legais."

A "jagunça" Maria do Carmo confirma as palavras de Maria Lina. "Perguntada o que sabe em relação ao último combate travado entre as forças legais e os jagunços de Antônio Conselheiro, respondeu que assistiu de longe a todo o combate. Verificou também a fuga das forças do governo e a resistência dos jagunços, ficando no campo grande número de mortos e feridos de ambas as partes. Disse mais: Conselheiro só mandava enterrar os seus adeptos, deixando insepultos todos os militares, que foram devorados pelos urubus."

A visão de Euclides da guerra - a repressão desmedida a brasileiros com poucas armas e muita fé - foi usada por historiadores e poetas regionais para contar histórias de muitos conflitos, como os descritos neste caderno: Caldeirão, uma pequena Canudos; Barbudos, uma Canudos no Sul; Encantado, a volta de Canudos; Santa Dica, um Conselheiro de saias; e outros capítulos apagados da história.

Guerra contra Lampião. Os nomes de Lampião, Maria Bonita e Corisco estão nas placas dos cibercafés, pizzarias e serviços de mototáxi abertos no atual momento de euforia no comércio popular do Nordeste. Setenta anos depois de erguerem bacamartes e punhais, os sobreviventes do Cangaço, no limite do esgotamento físico, travam agora, juntamente com pesquisadores e artistas conhecidos ou desconhecidos, uma luta para manter na história as marcas da barbárie. É na luta para se manter em pé que os cangaceiros e mesmo seus algozes se assemelham a outros mortais.

Em uma casa coberta de telha, em Delmiro Gouveia, sertão alagoano, vive a agricultora Aristéia Soares de Lima, 87 anos, possivelmente a última cangaceira. Com vestido longo roxo, usado sempre durante as visitas, a mulher miúda se esforça para conversar. Ela se recupera de um problema nas articulações, que a levou ficar internada por uma semana.

A ex-cangaceira busca uma posição na cama em que consiga conversar sem sofrer. Numa trégua do corpo, começa a falar da prisão, em Delmiro Gouveia. Foi pouco antes da volante (tropa) do tenente João Bezerra chegar à cidade carregando a cabeça de Lampião, morto no massacre de Angicos, em 1938. Conta que a qualquer movimento na rua tentava enxergar o que passava do lado de fora por uma pequena abertura na parede. Mas, naquele dia, preferiu ficar agachada na cela, em silêncio. "Eu não quis ver", diz Aristéia, com dificuldades. Só viu, depois, a euforia dos "macacos" - como eram chamados as volantes - e a surpresa dos moradores com o feito do tenente João Bezerra.

Aristéia intercala uma frase com um movimento de mãos ou de rosto expressando dor. Ela demonstra vontade de falar sobre o Cangaço. Sobreviveu porque se entregou à polícia. Foi logo depois do fuzilamento do marido, Catingueira. Antes de morrer, ele pediu a Moreno, chefe do grupo, que tirasse a mulher do Cangaço. Pelas leis dos bandos liderados por Lampião, mulher não podia sair ou ficar solteira. Era morta para não contar à polícia detalhes das estratégias do grupo. Moreno cumpriu a promessa e levou Aristéia para a cidade, onde ela procurou a polícia. Quando estava presa, soube da decapitação da irmã, Eleonora, também cangaceira. "Só arrancavam a cabeça para provar que mataram cangaceiro e ganhar comenda", diz Aristéia.

O filho e a nora de Aristéia, Pedro Soares e Damaris, exibem orgulhosos um brinco que ela recebeu de Cruzeiro, um temido cangaceiro. Aristéia não aceitou ficar com Cruzeiro, mesmo depois da morte de Catingueira. Ela lembra do dia em que o marido morreu. "Corremos quando começou o tiroteio. Na hora, a gente estava lavando os panos dos meninos. Saímos baleados", diz. "Enterraram Catingueira na caatinga." Ela estava grávida de oito meses. O filho, José, morreu tempos depois, em 1964, num assalto.

Temor. Um dia, conta, ouviu um policial dizer que nunca teve medo de Lampião. "Não tinha medo. Só corria à légua", ironiza. Aristéia discorda que Maria Bonita tenha sido a mulher mais bonita do cangaço. "A mulher mais bonita era a Durvinha", diz - e fecha e abre os olhos como se tivesse sentido uma fisgada. Dos homens, ela afirma que Virgínio, cunhado de Lampião, "ganhava a parada". "Ele era provado mesmo", conta. Ela assegura que a "peste" da polícia matou o cangaceiro Português já detido. O Português tinha se rendido em Mata Grande. "Foi só chegar e descer do carro para ser morto", lembra. "Como ele matou o pai de um soldado, o soldado matou Português."

Em suas lembranças, ela reclama que "a cangaceira Quitéria era o capeta" e fazia intriga contra Cristina, mulher de Português. "Dizem eles que Cristina "sartava" a cerca com Jetirana. Dizem eles, eu não vi. Só pode ter sido a Quitéria quem falou. Quitéria era danada por Português. O marido de Quitéria era Pedra Roxa. Pedra Roxa vivia doente, se entregou e pronto. Em pouco tempo também morreu."

Após a prisão, Aristéia teve mais sete filhos. A carteira de trabalho, expedida em 1972, nunca recebeu um carimbo. Teve problemas até mesmo para se alistar nos mutirões formados nas secas por causa da artrite. O problema tem impedido Aristéia de assistir ao Jornal Nacional e às missas, seus programas preferidos na TV.

Sentada na cama, busca uma posição em que possa sentir menos dor. Põe as duas mãos no rosto. Depois, leva a mão direita para baixo do braço esquerdo. Quase não há mais carne para conter o atrito dos ossos. Puxa algo da memória para desmentir alguma afirmação do filho Pedro. "Ôxe!" Solta uma piada, faz uma brincadeira. Não tem mais movimento nas faces para rir das histórias dos cangaceiros que "sartavam a cerca", dos casos de amor e traição. "Frouxos", diz, com voz firme, referindo-se aos policiais.

Do outro lado do município mora Antônio Vieira, 97 anos, sargento da reserva da Polícia Militar de Alagoas. A farda está impecável, como se tivesse de ser usada a qualquer hora. Na roupa está o registro do tipo sanguíneo: A+.

Antes de começar a entrevista, Vieira demonstra incômodo, como se sentisse falta de algo. A filha Edileuza vai até o quarto do pai e volta com um revólver 38. Ela explica que o pai só dorme e conversa com a arma ao lado. Agora, sim, com a arma na mão, ele fala do combate do extermínio de Lampião, em 28 de julho de 1938.

Segurando firme a arma, Vieira olha compenetrado para a câmera. Parece mirar um inimigo que agora não passa de uma criatura apenas de sua memória. "Lampião recebeu um tiro no peito e caiu. Maria Bonita caiu pertinho dele", conta. "Não posso dizer que matei Lampião. Ninguém pode dizer. Não dava para saber, era muita gente atirando."

Do Cangaço ao seringal. Um dos homens de Lampião que escaparam do cerco de Angicos foi Manoel Dantas Loiola, o Candeeiro. Aos 94 anos, ele vive em Buíque, sertão pernambucano. Vestindo camisa comprida, conta sua história, sentado num sofá da sala de uma casa simples. Reclama de Maria Bonita. "Ela não gostava da minha aproximação de Lampião", relata. "Só vivia fazendo intriga. Mas o chefe confiava em mim."

Após o cangaço, Candeeiro foi para a Amazônia trabalhar em seringais e só voltou mais tarde para o sertão. "Nunca esqueci aquele dia em Angicos. Passei muito tempo sem contar essa história", diz. "Lampião foi alertado que a volante estava na região, mas não deu importância." A fuga de Candeeiro do acampamento de Angicos foi uma das maiores proezas da região. Faz calor no sertão. Um dos filhos do ex-cangaceiro diz, baixo, que o pai jamais tira a camisa comprida. Ela esconde as marcas de bala de Angicos no braço esquerdo.
Jornal O Estadão

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