quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Últimos suspiros da República romana

PALAZZO MADAMA, ROMA

O filósofo contra o corrupto: Cícero acusa Catilina de planejar uma conspiração contra o Senado/Cícero denuncia Catilina, afresco, Cesare Maccari, 1882-1888


Consideradas um símbolo da vitória da moral sobre a corrupção na vida pública, as Catilinárias de Cícero registram o derradeiro triunfo do regime aristocrático na Roma antiga

Em 63 a.C., Marco Túlio Cícero, o maior filósofo romano de todos os tempos, ocupava o posto de cônsul, cargo máximo do Senado, quando descobriu que um de seus colegas organizava uma conspiração para assassiná-lo. O mentor do complô era o senador Lúcio Catilina, nobre arruinado por dívidas que contava com o apoio de outros homens ricos e militares igualmente debilitados financeiramente para tomar o poder.

Ao se inteirar dos planos de seu adversário, Cícero convocou uma reunião do Senado e proferiu o primeiro de seus quatro célebres discursos contra Catilina, que ficariam conhecidos como Catilinárias. A intervenção de Cícero se tornou um clássico da política e passou a ser invocada ao longo dos últimos 2 mil anos sempre que um homem público atenta contra o interesse geral da população.

Tomadas como um exemplo de correção no exercício do poder público, as Catilinárias revelam, na verdade, um momento muito específico da história de Roma: aquele em que a República aristocrática lutava para resistir às investidas de generais e políticos amparados por um poder militar cada vez maior.

Por fim, Cícero conseguiu sufocar a revolta de Catilina e deu uma sobrevida de mais alguns anos à República romana. O regime, porém, seria finalmente ferido de morte quando Júlio César cruzou o rio Rubicão e invadiu a península Itálica com suas legiões em 49 a.C.

Trechos do discurso
“Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará?” (Livro I, cap. I)

“Agora [tu, Catilina] já atacas abertamente toda a República; chamas para o extermínio e para a devastação os templos dos deuses imortais, as casas da cidade, e a vida de todos os cidadãos, enfim, a Itália inteira.” (Livro I, cap. V)

“Efetivamente nenhuma nação existe que temamos; nenhum rei há que possa fazer a guerra ao povo romano. Todas as coisas externas estão pacificadas (...) resta só a guerra doméstica.” (Livro II, cap. V)

Revista História Viva

O casamento de padres sempre foi proibido...

Museu do Convento de Santa Catarina, Utrecht




Até o século X, nada impedia os padres de ter relações amorosas


O casamento de padres sempre foi proibido. FALSO!

Seguindo o exemplo de Jesus Cristo e de seus discípulos, os primeiros cristãos permaneceram celibatários. A Igreja impôs a regra a seus sacerdotes desde o princípio, certo? Errado!
por Olivier Tosseri

Jesus Cristo jamais proferiu algo contrário ao casamento de religiosos, e alguns de seus apóstolos tiveram esposas e filhos. O judaísmo, crença da qual se originou o cristianismo, não impunha o celibato aos rabinos. Logo, a Igreja Católica também passou um longo tempo considerando aceitável a ordenação de homens casados.

Uma das primeiras tentativas de imposição do celibato aos padres fracassou no Concílio de Niceia, no ano 325. A reunião só conseguiu proibir o casamento depois da ordenação. Ao que tudo indica, porém, nem mesmo essa cláusula foi respeitada rigorosamente, já que vários clérigos do período viviam com suas companheiras e resistiram à nova regra. No século IV, por exemplo, bispos como Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa eram casados, e 39 dos papas tiveram esposas e filhos, que chegaram, em alguns casos, a suceder os pais.

Essa situação começou a mudar com a ascensão de vários monges a cargos de importância na hierarquia eclesiástica. A multiplicação das decisões papais, concílios e sínodos de bispos em defesa da obrigatoriedade do celibato mostra que a força política desse grupo, praticante da renúncia aos prazeres mundanos, alterou bastante a estrutura de poder da Igreja.

A disputa entre opositores e defensores do celibato se acirrou no século X, quando o Império Carolíngio sucumbiu e a Igreja passou a enfrentar dificuldades para impor suas normas aos clérigos. O afastamento das questões espirituais, a prática da simonia (venda de bens sagrados e de benefícios eclesiásticos) e os casos de nicolaísmo (incontinência dos padres que se casam ou vivem em concubinato) se tornaram mais frequentes. Uma reforma era necessária.

Embora iniciada por Leão IX, foi o papa Gregório VII que emprestou seu nome à chamada “reforma gregoriana”. Esse movimento intensificou a crítica à incontinência dos religiosos e passou a valorizar um clero inteiramente voltado à sua tarefa, sem relações familiares que pudessem afastá-lo dos interesses espirituais ou levá-lo a usurpar bens da Igreja para benefício de seus parentes.

Em vários países, como Alemanha, França, Inglaterra e Espanha, essas decisões foram mal recebidas pelos clérigos locais, e o concubinato dos padres persistiu. No entanto, a população aderia cada vez mais às decisões papais e, ansiosa pela renovação de um clero corrupto e permissivo, rejeitava os religiosos que continuavam a ter uma amante ou a praticar atos condenáveis.

Assim, o desejo de um enquadramento melhor dos padres e de uma definição mais restrita de sua disciplina continuou a ganhar força. Os cânones dos concílios de Latrão II (1139), Latrão III (1179) e, finalmente, Latrão IV (1215) reiteraram a proibição ao concubinato dos padres e à ordenação de homens casados. Essas determinações têm sido rigorosamente aplicadas pela Igreja Católica até os dias atuais, a despeito do que fizeram os cristãos ortodoxos: para eles, a ordenação de homens casados continua sendo, a exemplo do que ocorria nos primeiros anos do cristianismo, uma prática perfeitamente aceitável.
Olivier Tosseri é jornalista
Revista História Viva

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Como eram as minas de carvão na Revolução Industrial?


Como eram as minas de carvão na Revolução Industrial?
por Maria Carolina Maia
Eram galerias subterrâneas exploradas nos séculos 18 e 19 para abastecer a indústria inglesa que estava nascendo. Extraindo cerca de 100 milhões de toneladas de carvão por ano, a Inglaterra trocou o esforço humano por locomotivas, teares e máquinas de fiação, impulsionando a Revolução Industrial. As minas de carvão não são apenas consequência da Era das Máquinas mas também uma causa. Nas primeiras jazidas, usavam-se bombas de água para retirar a água que se acumulava. "Essa tecnologia rudimentar foi adaptada pelo escocês James Watt para os teares, criando seu motor a vapor, que desencadeou a revolução", diz José Jobson de Andrade Arruda, especialista em história econômica, da Unicamp.
Ouro negro
Mineradores ingleses contavam com ajuda de animais e crianças
Carga explosiva
Para abrir túneis e extrair o carvão da terra, os mineiros usavam dinamite - criada graças à invenção chinesa da pólvora, que chegou à Europa no século 16. Vigas de madeira sustentavam galerias com pouco mais de 1 m de altura. A profundidade total de uma mina chegava a 400 m
Força animal
Apesar de abastecer as máquinas da Revolução Industrial, as minas contavam com pouca tecnologia. Pôneis e mulas, animais baixos e resistentes, puxavam pequenos vagões cheios de carvão e moviam elevadores. Uma mina de tamanho médio tinha cerca de 50 animais trabalhando
Enterrados vivos
Umidade, calor e gases gerados pela queima de lampiões deixavam o ambiente insuportável, colocando a vida dos mineiros em risco. Além disso, erros na dosagem da dinamite ou problemas na estrutura que sustentava as paredes transformavam a mina, com frequência, em sepultura
O buraco é mais embaixo
O fosso pelo qual passavam o elevador e a mangueira da bomba que retirava o excesso de água servia como referência espacial. Para ele, convergiam as principais galerias, equipadas com trilhos para o transporte do carvão mineral extraído
Despertar violento
Assim como na maioria das fábricas do século 18, os castigos corporais eram frequentes. A função da chibata não era punir, mas manter o trabalhador acordado durante o extenso expediente, que chegava a 14 horas diárias
Sobrevivendo no inferno
Quanto mais os mineiros se aprofundavam na terra, mais o termômetro subia. A partir dos 300 m de profundidade, a temperatura subia 1oC a cada 33 m. O ar intoxicado das galerias provocava uma inflamação nos pulmões que ficou conhecida como "doença negra"
Trabalho infantil
Túneis profundos eram mais difíceis de abrir. Nesse caso, fazia-se um pequeno buraco e colocava-se uma criança, de 5 a 7 anos, para escavá-lo. Para recolher o carvão extraído, o pequeno funcionário levava um carrinho amarrado ao pé

Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mitologia dos Orixás


Livro conta sobre Mito dos Orixás
Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP Reginaldo Prandi que lança pela Companhia das Letras Mitologia dos Orixás

Através de contos curtos, sem autor, protagonizados por deuses e deusas, semideuses e heróis divinizados, Reginaldo Prandi conta sobre as origens da religião dos orixás no livro Mitologia dos Orixás, lançado na semana passada pela Companhia das Letras. O livro é uma coleção de 301 relatos mitológicos. As histórias são acompanhadas por ilustrações do artista
plástico Pedro Rafael e por fotos de todos os orixás que se manifestam em cerimônias do candomblé no Brasil

Ao narrar episódios com Exu, Ogum, Iemanjá e Iansã, Mitologia dos Orixás chama a atenção para o vasto patrimônio cultural deixado pelos negros iorubás ou nagôs. O culto aos deuses negros que sobreviveu e prosperou em países da América - em particular no Brasil e em Cuba -, nos últimos anos, tem chegado até a Europa. A obra ainda traduz o que os orixás fazem, querem e prometem. Na sociedade tradicional dos iorubás, é pelo mito que se alcança o passado, se interpreta o presente e se prediz o futuro.

Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP. Prandi recentemente lançou os livros Caminhos de Odu, Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático, que foi traduzido para o italiano.

Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, 642 págs., editora Companhia das Letras

Notícias História Viva




Cientistas desvendam profecia maia do 'fim do mundo em 2012'
Especialistas se reúnem no México para discutir teorias apocalípticas geradas a partir da filosofia do tempo de antiga civilização.

Arqueólogos de diversos países se reuniram no Estado de Chiapas, uma área repleta de ruínas maias no sul do México, para discutir a teoria apocalíptica de que essa antiga civilização previra o fim do mundo em 2012.

A teoria, amplamente conhecida no país e contada aos visitantes tanto no México como na Guatemala, Belize e outras áreas onde os maias também se estabeleceram, teve sua origem no monumento nº 6 do sítio arqueológico de Tortuguero e em um ladrilho com hieróglifos localizado em Comalcalco, ambos centros cerimoniais em Tabasco, no sudeste do país.

O primeiro faz alusão a um evento místico que ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012, durante o solstício do inverno, quando Bahlam Ajaw, um antigo governante do lugar, se encontra com Bolon Yokte', um dos deuses que, na mitologia maia, participaram do início da era atual.

Até então, as mensagens gravadas em "estelas" - monumentos líticos, feitos em um único bloco de pedra, contendo inscrições sobre a história e a mitologia maias - eram interpretadas como uma profecia maia sobre o fim do mundo.

Entretanto, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), uma revisão das estelas pré-hispânicas indica que, na verdade, nessa data de dezembro do ano que vem os maias esperavam simplesmente o regresso de Bolon Yokte'.

"(Os maias) nunca disseram que haveria uma grande tragédia ou o fim do mundo em 2012", disse à BBC o pesquisador Rodrigo Liendo, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Autônoma do México (Unam).

"Essa visão apocalíptica é algo que nos caracteriza, ocidentais. Não é uma filosofia dos maias."

Novas interpretações

Durante o encontro realizado em Palenque, que abriga uma das mais impressionantes ruínas maias de toda a região, o pesquisador Sven Gronemeyer, da Universidade australiana de Trobe, e sua colega Bárbara Macleod fizeram uma nova interpretação do 6º monumento de Tortuguero.

Para eles, os hieróglifos inscritos na estela se referem à culminação dos 13 baktunes, os ciclos com que os maias mediam o tempo. Cada um deles era composto por 400 anos.

"A medição do tempo dos maias era muito completa", explica Gronemeyer. "Eles faziam referência a eventos no futuro e no passado, e há datas que são projetadas para centenas, milhares de anos no futuro", afirma.

Para a jornalista Laura Castellanos, autora do livro "2012, Las Profecias del Fin del Mundo", o sucesso da teoria apocalíptica junto à cultura ocidental se deve a uma "onda milenarista" que, segundo ela, "antecipa catástrofes ou outros acontecimentos cada vez que se completam dez séculos".

Para Castellanos, esse tipo de efeméride é reforçada por uma "crise ideológica, religiosa e social".

Ela observa que as profecias sobre 2012 não têm somente uma "vertente catastrófica", mas também uma linha que "prognostica o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa".

Crença no final

A asséptica explicação científica e histórica vai de encontro à crença popular no México, um país onde há quem procure adquirir os conhecimentos necessários para sobreviver com seu próprio cultivo de alimentos em caso de uma catástrofe mundial.

Muitos dos que vivem fora procuram regressar ao país porque sentem que precisam estar em casa em 2012, e há empresas que oferecem espaço em bunkeres subterrâneos, com todas as comodidades.

Afinal, o possível fim do mundo também é negócio. O próprio governo mexicano lançou uma campanha para promover o turismo no sudeste do país, onde estão localizados os sítios arqueológicos maias.

Muitos governos dos Estados onde existem ruínas da antiga civilização maia já estão registrando aumento na chegada de turistas. BBC Brasil

Notícias História Viva

Estudo desmistifica imagem estereotipada da violência do homem medieval
Jornal de Arqueologia

Os Cavaleiros medievais são frequentemente retratados como homens sanguinários, que gostavam de matar. Mas esta imagem estereotipada poderá ser uma concepção absolutamente errada, como pretende mostrar um estudo realizado pelo investigador dinamarquês Heebøll-Holm do Instituto SAXO da Universidade de Copenhaga.

Os cavaleiros não matavam durante a Idade Média apenas porque lhes apetecia, mas porque eram obrigados ou porque era esse muitas vezes esse o seu trabalho, exactamente como se passa actualmente com os soldados de hoje. O homem não foi nem mais, nem menos, violento na Idade Média do que o é hoje, apesar da existência de uma concepção medieval de violência diferente da que temos actualmente.

A "Psicologia militar moderna permite-nos ler os textos medievais de uma nova maneira, dando-nos pistas para interpretar a violência durante a Idade Média na população em geral, e o uso extremo de violência letal por parte dos cavaleiros medievais", diz Thomas Heebøll-Holm que pesquisa temas relacionados com a violência no final da Idade Média.

"Antigamente, os textos medievais eram lidos vendo nos antigos cavaleiros autênticos heróis que adoravam e glorificando a violência. Mas, à luz da psicologia militar moderna, podemos perceber o custo mental que seria para os cavaleiros a sua participação nas guerras terríveis e extremamente violentas que se realizavam na Idade Média.

Violento por natureza ou violento devido à cultura?
Seriam os cavaleiros violentos por natureza, desfrutando e cultivando com gosto o acto de matar? Ou matavam por algo que lhes foi incutido como sendo o mal apontado por uma sociedade marcada por uma cultura de violência?

Alguns psicólogos acreditam que a violência está latente nos genes humanos, enquanto outros acreditam que é algo que aprendemos através da formação. A pesquisa histórica de Heebøll-Holm enquadra a percepção medieval da violência através destas duas categorias de análise.

"A partir de estatísticas criminais e cartas de perdão, os historiadores podem ver que as pessoas na Idade Média não eram mais violentas do que somos hoje", diz o investigador."Mas elas tinham uma percepção diferente do uso da violência, incluindo a violência letal ", sublinha.

Naquela época, as pessoas tinham as mesmas preocupações sobre a violência que temos hoje, e muitos opuseram-se ao uso da violência. Em algumas situações culturais é que foram forçados a usar essa violência.

O investigador relata uma história de Paris passada no século XIV para exemplificar o conceito cultural da violência medieval. Uma mulher foi espancada até à morte pelo seu marido. Os seus dois irmãos exigiram que o marido e agressor pagasse ou fosse punido pelos seus actos, mas ele recusou.

Embora os irmãos não sentissem qualquer prazer em matar o cunhado, e até tentaram evitar tal acto, eles foram forçados a fazê-lo para restabelecer a sua honra. Quando julgados pelas instâncias legais da época , em vez de punição os irmãos obtiveram absolvição, porque, como era publicamente sabido, o marido havia violado a honra deles ao matar a sua irmã.

No que diz respeito à classe dos guerreiros o que se verificava era que os nobres cavaleiros começavam as suas carreiras bastante jovens durante o período medieval. Desde muito tenra idade eram treinados em batalhas e instigados a participarem em jogos extremamente violentos, onde numerosos participantes morriam.

Para evitar que os jovens se transformassem em psicopatas incontroláveis, eles também foram ensinados a usar a violência apenas quando ela servia para limpar a sua honra, ou num conceito mais actual, a usá-la em prol de uma justa causa.

Mas esses mesmos cavaleiros medievais também aprenderam a ter comportamentos corteses e galantes, nomeadamente com as mulheres. “No fundo a violência era apenas um instrumento que permitia assegurar a honra dos indivíduos, ou não permitir o abuso de terceiros. Isso significava que as pessoas comuns tinham muitas vezes que matar para mostrar ao mundo que as rodeava que estavam dispostas a garantir os seus direitos, nem que para tal tivessem que utilizar os meios mais drásticos", diz Heebøll-Holm.

Cavaleiros medievais sofriam de stress pós-traumático
Apesar de terem exercido a violência na sua forma mais extrema, como a participação em guerras, onde os seus companheiros foram cortados em pedaços pelas tropas do inimigo e onde eles mesmos usavam de uma violência brutal e horrível contra o inimigo, os cavaleiros medievais não eram violentos por natureza. As suas experiências de guerra poderiam deixá-los numa situação muito grave de stress pós- traumático, tal como acontece hoje, diz o investigador.

Durante os seus estudos sobre a violência na Idade Média, Heebøll-Holm deparou-se com um livro escrito por um cavaleiro que viveu na primeira metade do século XIV. " O seu nome era Geoffroi de Charny, e foi um dos cavaleiros mais respeitados na sua época. O livro, que descreve a vida de um cavaleiro, fala sobre as consequências psicológicas de se ser um "militar" na época medieval, e essas consequências assemelham-se fortemente aos sintomas de stress pós - traumático sentidos pelas tropas que fazem as guerras na actualidade".

"De Charny descreve os factores de stress dos cavaleiros medievais, e quando comparados com os descritos pela moderna ciência da psicologia militar, verifica-se que esses factores ou causas do stress pós - traumático são muito semelhantes aos dos veteranos da Guerra do Vietname, por exemplo. Este facto mostra que eles estão muito distantes da psicopatia violenta que a maior parte das pessoas atribui aos guerreiros medievais ", disse Heebøll-Holm.

Fontes: videnskab.dk e ScienceNordic

Notícias História Viva

Pesquisa afirma que guerreiros de terracota eram peças de treinamento militar
Estudo inédito contradiz teoria vigente de que exército protegia a tumba do Primeiro Imperador Qin
Efe
PEQUIM - Um pesquisador chinês publicou, após 30 anos de estudo, uma teoria revolucionária sobre o famoso Exército de Terracota de Xian, na qual defende que essas famosas figuras de argila não protegiam a tumba do Primeiro Imperador Qin, mas eram usadas para treinar guerreiros de carne e osso.

Publicada na última edição da revista chinesa História Militar, esta tese, que começou a agitar os círculos arqueológicos do país, sustenta que os soldados de terracota eram utilizados para simular batalhas para testar os exércitos reais do império Qin (século III a.C.).

Sun Jiachun, membro do escritório geológico da província chinesa de Shaanxi - cuja capital é Xian -, é o grande defensor desta teoria, que menciona como um de seus principais argumentos o fato de que o agora turístico Exército de Terracota fica longe demais da suposta tumba do imperador, a 1,5 quilômetro de distância.

Os arqueólogos acreditam que, entre os soldados de terracota e a tumba imperial, pode haver ainda mais figuras de argila, ainda não desenterradas, já que muitos são reticentes a realizar escavações na área temendo destruir os tesouros de uma tumba supostamente tão enorme.

Nem sequer a tumba do imperador foi aberta, apesar de ser visitada por milhares de turistas diariamente, embora tenha se tentado usar robôs para entrar nela, imitando as pesquisas em algumas pirâmides do Egito.

Sun aproveita esta ausência de novos avanços na teoria da tumba imperial para desenvolver a sua própria, defendendo um uso mais pragmático dos soldados de terracota.

Para ele, outra prova que mostra que este peculiar Exército não acompanha o imperador em sua vida além da morte é a desorganização dos soldados, empilhados, e o fato de eles não terem um general ou comando que os lidere, algo que seria inadmissível em uma formação militar da época.

"Isso contradiz o sistema militar da China antiga e as crenças tradicionais nas quais se dizia que um imperador morto deveria ser servido da mesma forma como quando estava vivo", expõe o especialista em sua tese, divulgada pela imprensa oficial chinesa.

Outra razão apontada pelo pesquisador, aproveitando seus conhecimentos geológicos, é a distinta profundidade à qual estão os soldados com relação ao mausoléu imperial. Este fica, segundo os arqueólogos, a dez metros debaixo da terra, enquanto o Exército, naquela época, estava a apenas um ou dois metros de profundidade.

Antes de Sun, outros especialistas tinham desenvolvido novas teorias sobre o Exército de Terracota, embora nenhuma delas tão ousada.

Um célebre historiador, Wang Xueli, tinha notado, por exemplo, que os três grupos de soldados atualmente expostos aos turistas representavam diferentes cenas (o primeiro e mais conhecido, um agrupamento de batalha; o segundo, um acampamento; e o terceiro, alguns quartéis), mas não se tinha atrevido a levar a tese adiante.

No entanto, Sun aproveita as ideias de Wang para reforçar as suas e ressaltar que todo o sítio arqueológico não é mais do que uma escola militar.

As ideias do pesquisador chegaram a outros especialistas sobre o assunto, e embora não tenham refutado-as completamente, defenderam que a teoria da tumba imperial continua sendo a mais convincente.

"Eu pessoalmente acho que se trata de um Exército de guerreiros para o imperador após sua morte, mas, seja como for, precisamos de mais evidências para sustentar suas teorias e as nossas", assinala Duan Qingbo, professor da Universidade Noroeste de Xian, citado pela agência de notícias oficial "Xinhua".

O Exército de Terracota, construído na época do unificador do império chinês Qin Shihuang, foi descoberto há 37 anos por um camponês, por acaso, e o achado é considerado um dos mais importantes da arqueologia do século XX.

O Museu do Exército de Terracota foi estabelecido em 1979. Em 1987, foi incluído na lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Notícias História Viva

Humanos da pré-história tinham cama com repelente de insetos


ED STODDARD - REUTERS
Quase 80 mil anos antes de os humanos começarem a borrifar substâncias químicas para controlar os insetos, os africanos usavam colchões feitos com plantas repelentes de insetos para garantir uma boa noite de sono.

O achado, publicado na revista Science, tem por fundamento uma cama com plantas, de 77 mil anos, descoberta em uma caverna na província de KwaZulu Natal, na África do Sul. A cama é 50 mil anos mais antiga do que qualquer outra pré-histórica já descoberta.

A capacidade de repelir os insetos sugere que os humanos antigos estavam cientes das propriedades químicas e medicinais de algumas plantas.

"As plantas continham substâncias químicas que repeliam mosquitos e outros insetos; assim, sabemos que eles conheciam as plantas medicinais", disse Lyn Wadley, professora de arqueologia na Universidade de Witwatersrand.

A arrumação ajudava a reduzir as doenças provocadas por insetos, embora os antigos humanos provavelmente não tenham estabelecido nenhuma conexão entre os mosquitos e a malária, disse ela à Reuters.

Anatomia de um histórico fracassos

Reprodução
Nikita Kruchev, secretário-geral do PC soviético entre 1953 e 1964


'Ascensão e Queda do Comunismo', de Archie Brown, revisa a doutrina que vigorou na URSS e outros países

Elias Thomé Saliba
Todo livro de história que inclua em seu título a dupla ascensão & queda, já carrega um tom monumental que faz lembrar a clássica narrativa de Edward Gibbon sobre Roma antiga: um império fadado à autodestruição pelo próprio sucesso. O mais recente livro de Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo não foge à regra - com a única diferença que ele trata de um império fadado à autodestruição não pelo sucesso, mas pelo próprio fracasso.


A narrativa começa pelo impacto que a ideia comunista, com sua mistura original de ilusão romântica e determinismo histórico intransigente, exerceu sobre corações e mentes. O dado mais revelador é que a fonte intelectual que deslanchou a atração de muitos pelo comunismo, pelo menos no mundo anglo-saxônico, não foi propriamente a leitura de O Capital, de Marx, mas do Guia da Mulher Inteligente para o Socialismo e o Capitalismo, de George Bernard Shaw, publicado em 1928. O pragmatismo irônico de Shaw, oriundo do seu antigo engajamento no socialismo fabiano, estava mais próximo do oxigênio mental aspirado pela juventude britânica na época.

Didático, mas sem se apegar a lugares-comuns, Brown, historiador britânico e professor emérito da Oxford University, realiza uma autêntica anatomia dos sistemas comunistas, atribuindo-lhes seis características essenciais: o papel de liderança do Partido Comunista; o "centralismo democrático" (que, na verdade, acabou virando um "centralismo autocrático"); a posse pelo Estado dos meios de produção; uma economia de comando e não uma economia de mercado; o propósito declarado de construir o comunismo como um objetivo final e, finalmente, a existência de um movimento comunista internacional com o respectivo senso de pertencer a ele. Em todos os capítulos estas características são destrinchadas, uma a uma, e confrontadas com a história peculiar de cada país. Por que o comunismo durou tanto tempo? Muitas respostas são possíveis, porém a resposta mais óbvia se situa na determinação política e no poder militar da União Soviética. Brown sabe disso, já que mais da metade do livro trata da história da URSS. Mas não deixa de examinar, num impressionante exercício de história comparada, todas as outras experiências muito peculiares a cada um dos 15 países comunistas: Albânia, Bulgária, Camboja, China, Coreia do Norte, Cuba, Hungria, Iugoslávia, Laos, Mongólia, Polônia, Alemanha Oriental, Romênia, Checoslováquia e Vietnã.

Brown mostra-se extremamente capaz de enxergar diferenças entre as escolhas pessoais de militantes comunistas e as razões abstratas, imponderáveis, e não raro, insondáveis, dos Partidos Comunistas, tanto no exercício do poder quanto fora dele. Nos países ocidentais, o percurso óbvio daqueles militantes que ingressaram no partido por motivos idealistas foi deixá-lo, quando ficou evidente a distância entre suas doutrinas e os crimes coletivos perpetrados pelos Estados comunistas. Era, contudo, bem mais fácil dizer isto do que fazer, pois aqueles que deixavam o partido sentiam o estigma de traidores de uma causa sagrada. Brown fornece muitos exemplos de tais trajetórias dramáticas de militantes que ele conheceu pessoalmente. Como o movimento comunista tendia a envolver suas vidas inteiramente, o rompimento com o partido era também uma espécie de luto pessoal: uma ruptura com quase todos os seus amigos e com grande parte de sua vida anterior. Permanecia apenas a atração pela mensagem ética subjacente ao marxismo, ou seja, a convicção de que o destino do mundo como um todo estava ligado à condição dos seus membros mais pobres e desfavorecidos.

Entre muitos, um dos capítulos mais reveladores mostra as falácias por trás da ideologia da "desestalinização" que marcou a era Kruchev (1953-1964). Um dos setores mais afetados foi o front artístico e literário. Artistas e escritores - se quisessem sobreviver - tinham de ouvir e interpretar atentamente a orientação dos dirigentes do partido em prol do "realismo socialista". Uma anedota que circulava, à boca pequena, naquela época, perguntava: "Qual a diferença entre arte impressionista, expressionista e o realismo socialista?". A resposta vinha rápida: "Os impressionistas pintam o que veem, os expressionistas pintam o que sentem e os realistas socialistas pintam o que ouvem".

Com dados reveladores, Brown mostra também os outros lados da era Kruchev. Foi a época da maior revolução imobiliária na Rússia: o índice de construção triplicou e milhares de pessoas mudaram suas vidas para melhor - embora os prédios de apartamentos fossem arquitetonicamente sombrios. O programa de moradias de Kruchev foi a mudança social e política mais importante dos anos pós-Stalin: "Pela primeira vez - declarou um dissidente em 1976 - milhares de famílias russas puderam trancar a porta da frente". Com exceção de dissidentes políticos reconhecidos que tiveram suas casas grampeadas, a grande maioria da população conseguiu entabular conversas livres sobre os mais diversos assuntos, incluindo as perversidades do regime. Decididamente, a glasnost de Gorbachev, três décadas depois, não poderia ter avançado se não tivesse sido precedida por esta espécie de glasnost privada.

Já a ideia de construir o comunismo, uma sociedade na qual o Estado definhou revelou-se a ilusão mais perigosa. O que se construiu, em vez disso, foi o comunismo com um partido-Estado opressivo que, na melhor das hipóteses, foi autoritário e, na pior das hipóteses, implacavelmente totalitário.

Quando a coisa começou a degringolar - no final dos anos 1990, a partir do epicentro situado em Moscou e seus satélites -, nenhuma doutrina unificada e nenhum de seus muitos revisionismos mostraram-se eficientes para controlar a derrocada e, nas palavras do porta-voz soviético Gerasimov, em todos os países comunistas acabou prevalecendo a "doutrina Frank Sinatra" em My Way: "Cada um faria do seu próprio jeito". Com o perdão do anacronismo, até o chiste lembrava aquelas monumentais ironias de Gibbon sobre o Império Romano.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR DE, ENTRE OUTROS, RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pós-muro


Em 1989, na Europa do leste, as pessoas queriam solidariedade e liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal.

por Slavoj Zizek
(Mais de) Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, é comum ouvir que os acontecimentos daquela época foram milagrosos, um sonho realizado, algo que ninguém teria imaginado mesmo poucos meses antes. Eleições livres na Polônia e Lech Walesa como presidente: quem poderia prever? Mas um milagre ainda maior ocorreu poucos anos depois: as eleições livres e democráticas devolveram os ex-comunistas ao poder, Walesa foi marginalizado e tornou-se menos popular que o próprio general Jaruzelski.

Em geral, essa reversão é explicada pelas expectativas "imaturas" do povo, que simplesmente não tinha uma ideia realista do capitalismo: eles queriam se apoderar do bolo e comê-lo, queriam as liberdades democráticas e abundância material sem ter que se adaptar a uma "sociedade de risco" - por exemplo, sem perder a segurança e a estabilidade (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas.

Quando a névoa sublime da Revolução de Veludo foi dispersa pela nova realidade democrática e capitalista, as pessoas reagiram de três formas: algumas tiveram saudades dos "bons e velhos tempos" do comunismo, outras abraçaram o populismo nacionalista de direita, e houve ainda as que manifestaram uma espécie de paranoia anticomunista retardada.

As duas primeiras reações são fáceis de compreender, e até se sobrepõem com relativa frequência, tal como na Rússia atual. Os mesmos direitistas que, décadas atrás, gritavam "Antes morto do que comunista" [Better dead than red] agora resmungam "Antes comunista do que comer hambúrgueres". A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada muito a sério: longe de expressar um desejo verdadeiro de retornar à cinzenta realidade socialista, é uma espécie de luto, um jeito de se livrar delicadamente do passado. E o populismo nacionalista, longe de ser exclusivo ao Leste Europeu, é uma característica de todos os países apanhados no vórtice da globalização.

Muito mais interessante é a recente ressurreição do anticomunismo por toda parte, da Hungria à Eslovênia. Em outubro de 2006, uma onda de protestos contra o Partido Socialista no poder paralisou a Hungria por semanas. Os manifestantes culpavam os sucessores dos comunistas pela crise econômica no país. Eles negavam legitimidade ao governo que, no entanto, foi eleito democraticamente, e, quando a polícia era usada para restaurar o mínimo de ordem civil, faziam comparações com o Exército soviético que esmagou a revolução de 1956.

Em resumo, diziam que a Revolução de Veludo de 1989 precisava se repetir, já que, por trás da falsa aparência de democracia, nada mudara de verdade, pois as mesmas forças do mal davam as cartas no poder. Em dezembro de 2006, a Polônia endureceu a lei que proibia ex-colaboradores da polícia secreta comunista e pessoas ligadas ao velho regime de assumirem cargos públicos.

Outro aspecto do mesmo processo foi a reabilitação, nos países bálticos e na Eslováquia, dos colaboradores nazistas, transformados em "combatentes anticomunistas". Sua colaboração, e mesmo a participação em massacres de judeus, foi considerada necessária na luta patriótica contra o comunismo. Era um mal menor. Na Revolução de Veludo ucraniana, que levou Viktor Yushchenko ao poder, cantavam-se as mesmas músicas entoadas pelos colaboradores nacionalistas que apoiaram a ocupação alemã.

Não é de se espantar que, pressionado por certos países pós-comunistas, o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução que equipara o comunismo ao nazismo. E não é de se espantar que, na Eslovênia, a direita populista reprove a esquerda por ser uma "força de continuidade" do velho regime comunista. Novos problemas e desafios são julgados com base em velhos conflitos, e a luta pelos direitos dos gays é soturnamente interpretada como parte de um complô comunista para desmoralizar a nação.

Como e por que esses fantasmas reaparecem em nações onde a maioria dos jovens nem sequer se lembra do comunismo? Os anticomunistas fazem uma pergunta simples - "Se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?" - e a respondem de maneira direta: é porque ainda não chegamos ao capitalismo, não temos uma verdadeira democracia. Os ex-comunistas ainda estão no poder, disfarçados de proprietários e dirigentes. Precisamos de outro expurgo, a revolução tem que se repetir. É evidente a semelhança que há entre esse discurso e o velho costume comunista de atribuir seus fracassos à perpétua influência das "forças do passado".

Essa nova geração de anticomunistas tem uma imagem da sociedade que é assustadoramente parecida com a imagem do capitalismo alimentada pelos esquerdistas: uma sociedade na qual a democracia formal é uma máscara que esconde a dominação por uma minoria rica. Em outras palavras, os anticomunistas não percebem que aquilo que eles chamam de pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Pode-se dizer que, após o colapso dos regimes comunistas, seus antigos partidários, desiludidos, estavam mais preparados para gerir a nova economia capitalista do que os dissidentes do populismo. Enquanto os heróis das manifestações anticomunistas continuaram a acalentar o sonho de uma nova sociedade baseada em justiça, honestidade e solidariedade, os ex-comunistas se acomodaram sem dificuldades às novas regras capitalistas. Paradoxalmente, na nova situação pós-comunista, os anticomunistas insistiram no sonho utópico de uma democracia verdadeira, ao passo que os ex-comunistas aceitaram o mundo cruel da eficiência de mercado, com toda a sua corrupção e truques sujos.

Será que o realismo capitalista é a única resposta para a utopia socialista? O que se seguiu à queda do Muro foi mesmo a era da maturidade capitalista, o abandono de todas as utopias? Será que essa época também não teve uma utopia própria? Novembro de 1989 marcou o início dos "felizes anos 90", o utópico "fim da história" de Francis Fukuyama. Ele anunciou que a democracia liberal havia vencido, que o advento de uma comunidade mundial global e liberal estava por acontecer, e que os obstáculos que se interpunham a esse final feliz eram apenas contingentes (bolsões de resistência onde os dirigentes locais ainda não enxergavam que a hora deles havia acabado).

Em contrapartida, o 11 de Setembro marcou o fim simbólico dos "felizes anos 90". Assinalou o começo de nossa era atual, em que novos muros estão se erguendo por toda parte, entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira dos Estados Unidos com o México - mas também dentro dos próprios países.

Parece que a utopia dos anos 90 de Fukuyama teve que morrer duas vezes: o colapso da utopia política liberal-democrática do 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo de mercados globais, mas a crise financeira de 2008 certamente o fez. Nos anos 90, acreditava-se que a humanidade havia finalmente encontrado a fórmula para uma perfeita ordem socioeconômica.

A experiência das últimas décadas mostrou claramente que o mercado não é um mecanismo benigno, que funciona melhor quando deixado por sua conta. É preciso violência para criar as condições necessárias a seu funcionamento. A forma com que os fundamentalistas de mercado reagem à desordem que se sucede quando suas ideias são aplicadas é típica dos "totalitaristas" utópicos: eles culpam o fracasso em fazer concessões - ainda há muita intervenção estatal - e exigem uma aplicação ainda mais radical da doutrina de mercado.

Observamos hoje a explosão do capitalismo na China e nos perguntamos quando o país se tornará uma democracia. Mas e se isso nunca acontecer? E se o seu capitalismo autoritário não for apenas a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, vigorou do século XVI ao XVIII, mas um sinal do que está por vir? E se a "malévola combinação do chicote asiático com o mercado de ações europeu" (como Trotsky caracterizava a Rússia czarista) provar-se mais eficiente economicamente do que o capitalismo liberal? E se ficar claro que a democracia, tal como nós a entendemos, não é mais a condição e o motor do desenvolvimento econômico, mas um obstáculo?

Se for esse o caso, talvez a decepção pós-comunista não deva ser descartada como sinal de expectativas "imaturas". Nos protestos contra os regimes comunistas no Leste Europeu, as pessoas, em sua maioria, não pediam o capitalismo. Queriam solidariedade e um tipo bruto de justiça, queriam liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal, queriam se reunir e falar do jeito que bem entendessem, queriam se libertar da doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia. Aspiravam a algo que podia ser melhor descrito como um "socialismo com face humana". Talvez essa opinião mereça uma segunda chance.

A escola totalitária


A escola totalitária

Nos dois projetos mais articulados de dominação social do século 20, a educação operava um papel crucial

Fabiano Curi

Em regimes despóticos, a educação tem um papel estratégico na propagação das ideias de seus governantes. Nos dois grandes exemplos de sociedades totalitárias do século 20, a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin, as escolas e seus programas foram drasticamente reformulados para atender aos interesses do Estado.

Na Alemanha nazista, o programa nacional-socialista reescreveu a pedagogia com base no Mein Kampf, de Adolf Hitler, para aplicá-la em todos os níveis, do ensino fundamental à universidade. Logo ganharam importância as teorias raciais nazistas que enalteciam os arianos e colocavam todas as outras etnias como raças subalternas.

Campos do conhecimento foram alterados, surgindo assim uma "ciência alemã pura" - física alemã, matemática alemã, química alemã - livre da interferência bolchevique e judaica. A religião judaica se transformou em raça e passou a representar todo o mal do mundo. Judeus foram proibidos de lecionar ou de estudar.

Para se tornar professor era necessário passar por treinamento sob observação de funcionários do partido nazista. Os candidatos deviam demonstrar ser pessoas confiáveis na propagação da política do Terceiro Reich. Mais tarde, era vetada a carreira de docente aos que não tivessem passado anteriormente pelos campos de trabalho nazistas, pela Juventude Hitlerista ou pela SA (tropa de assalto do partido).

Durante o regime, as antigas escolas públicas foram abandonadas e a educação de jovens e crianças em boa parte ficou concentrada na organização da Juventude Hitlerista, para a qual os pais eram obrigados a deixar seus filhos ingressarem sob pena de serem presos. Esse modelo visava uma profunda imersão dos alunos em treinamentos físicos e ideologia nazista com um programa militarizado.

A partir de 1937 são estabelecidos três tipos de escolas para as elites: Escolas Adolph Hitler, Institutos de Educação Nacionais e Políticos e Castelos da Ordem. Para os primeiros, iam os jovens de 12 anos que se destacaram em suas escolas; para os segundos, sob supervisão da SS (tropa de elite nazista), eram direcionados aqueles habilitados à vida militar; finalmente, nos Castelos da Ordem, era formada a elite da elite, num cenário teutônico dos séculos 14 e 15, com intensivo treinamento físico e especialização nas "ciências raciais".

Esse processo de apagamento de quaisquer outras ideias que não as que fundamentavam o nazismo não foi menos desastroso do que em outros setores da sociedade alemã. Houve diminuição do número de estudantes e de professores, assim como da qualidade acadêmica. Os professores, intelectuais e artistas judeus ou comunistas importantes que não foram mortos deixaram o país e se estabeleceram em centros de ensino espalhados pelo mundo.

Na União Soviética de Stálin, a política educacional passou por profundas mudanças já na década de 1930, buscando conexão com a industrialização das cidades e com a coletivização das fazendas. O novo sistema tornava obrigatórios quatro anos de educação no campo e sete nas cidades. O número de alunos cresceu rapidamente em instituições rigidamente controladas pelo Estado para a promoção de um patriotismo soviético.

A partir da década de 1940, foi criada uma reserva de trabalhadores intercambiável entre escolas e fábricas com alunos que não tinham um bom desempenho acadêmico. Essa política educacional não admitia pluralidade ideológica e tinha o objetivo de formar trabalhadores para o modelo econômico socialista.

Stálin cunhou o termo "pseudo-ciências burguesas" para definir campos de conhecimento como genética, sociologia, semiótica e cibernética. Tais estudos foram proibidos durante sua permanência no poder. Professores, artistas e intelectuais que não aderiram ao regime foram duramente perseguidos. (Fabiano Curi)

Variações de um conceito

Poucos conceitos têm significados tão oscilantes quanto o de ideologia. Presente pela primeira vez na filosofia moderna em 1801, no livro Elementos da ideologia, do materialista iluminista francês Destutt de Tracy (1754-1836), era concebido como uma ciência do surgimento das ideias na relação do corpo humano com o meio ambiente. Logo foram publicados estudos de outros ideólogos franceses pautando um movimento liberal materialista que se posicionava contra a monarquia, o clero e a metafísica. Esse grupo apoiou Napoleão Bonaparte (1769-1821), que o deixou de lado quando assumiu o poder. Num discurso em 1812, o imperador declarou que a ideologia e os ideólogos eram responsáveis pelas desgraças da França.

Uma outra concepção, talvez a mais reproduzida, ganha força com Karl Marx (1818-1883), para quem o conceito de ideologia diz respeito a um "falseamento da realidade", um obscurecimento das relações que nos leva a naturalizar estruturas consumadas de poder, sem contestá-las. Apesar de a análise de Marx ter como foco a ideologia de filósofos alemães posteriores a Hegel, ela alimentou muitos estudos de pensadores de cepa marxista e continua sendo uma definição bastante presente no senso comum.

Depois de Marx, entre os autores que se debruçaram sobre o assunto destacam-se o italiano Antonio Gramsci (1891-1937) e o francês Louis Althusser (1918-1990). Ambos discordam do conceito segundo o qual uma classe dominante usa a ideologia para ludibriar as classes dominadas, tomando-o a partir de outro ângulo. Para Gramsci, a ideologia articula e sustenta a sociedade, sendo absolutamente necessária para manter a coesão de diferentes realidades sociais. Já Althusser vê na ideologia a proteção que possibilita a sustentação da sociedade. Por seu principal texto, Aparelhos Ideológicos de Estado, o filósofo francês é frequentemente citado como um dos pioneiros da discussão da relação da escola com ideologia, considerando-a um importante aparelho ideológico. Sílvio Gallo, da Faculdade de Educação da Unicamp, contudo, lembra de outro autor que havia discutido a questão anteriormente: "sempre me intrigou muito um autor do final do século 18, chamado (William) Godwin (1756-1836), que alertou, no momento em que se construíam os sistemas públicos de ensino europeus, sobre a necessidade de que houvesse cautela antes de colocá-los todos nas mãos do Estado. Ele antevia que certamente os sistemas seriam utilizados para defender os interesses dos representantes desses Estados".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Como foi a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial?

Renata Costa
Imagem: Marcelo Breyne
No dia 1º de setembro de 1939, as forças nazistas alemãs de Adolf Hitler invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. O Brasil passou a participar do conflito a partir de 1942. Na época, o presidente da República era Getúlio Vargas.

A princípio, a posição brasileira foi de neutralidade. Depois de alguns ataques a navios brasileiros, Getúlio Vargas decidiu entrar em acordo com o presidente americano Roosevelt para a participação do país na Guerra.

Embora a história dos pracinhas - diminutivo de praça, que é soldado - seja ainda pouco comentada no Brasil, Marcus Firmino Santiago da Silva, coordenador do curso de Direito da Escola Superior Professor Paulo Martins, do Distrito Federal, e estudioso sobre a Segunda Guerra, afirma que a participação brasileira foi muito importante. "O apoio do Brasil foi disputado na Segunda Guerra. De forma um pouco velada por parte dos países do eixo (Alemanha, Itália e Japão) e de maneira clara pelos aliados, especialmente os norte-americanos, além da Inglaterra e da França", afirma.

O primeiro grupo de militares brasileiros chegou à Itália em julho de 1944. O Brasil ajudou os norte-americanos na libertação da Itália, que, na época, ainda estava parcialmente nas mãos do exército alemão. Nosso país enviou cerca de 25 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB), e 42 pilotos e 400 homens de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).

Os pracinhas conseguem vitórias importantes contra os alemães, tomando cidades e regiões estratégicas que estavam no poder destes, como o Monte Castelo, Turim, Montese, entre outras. Mais de 14 mil alemães se renderam aos brasileiros, que também ficaram com despojos como milhares de cavalos, carros e munição.

A ação dos pracinhas não foi fácil por vários motivos. O primeiro, porque o treinamento recebido no Brasil e nos Estados Unidos não era muito próximo à realidade da guerra que encontraram. Os soldados não estavam habituados ao clima frio dos montes Apeninos, que atravessam a Itália e nem acostumados a lutar em local montanhoso. Só na batalha do Monte Castelo, houve mais de 400 baixas entre os brasileiros.

"Além disso, foi fundamental para o esforço de guerra a cessão de bases navais e aéreas no território brasileiro. Um desses locais que teve participação decisiva foi Natal, no Rio Grande do Norte", afirma o professor. A capital potiguar serviu como local para abastecimento dos aviões de guerra americanos e base naval antissubmarinos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, a FEB foi desfeita em 1946.