quarta-feira, 19 de março de 2014

Mitos do Velho Oeste americano - Os brutos também amam


Foi a arte - primeiro, a literatura e, depois, o cinema - que ajudou a criar o folclore sobre o "bandido romântico" que, nas ruas poeirentas dos vilarejos do Oeste, sem lei e ordem, duelava sozinho contra todos
 
 Rose Mercatelli




CENA 1
No saloon semideserto, mocinhas de vida duvidosa com caras de anjo e cachinhos, mortas de tédio, desfilam pelo recinto. Em uma mesa, um sujeito com barba por fazer e jeito de malfeitor desafia o recém-chegado, impecavelmente barbeado e vestido de preto, para um jogo de cartas. De repente, o forasteiro, furioso, chama seu opositor de covarde e desafia-o para um duelo ao perceber que o barbudo pega na manga uma carta escondida.

CENA 2
Na rua deserta, os dois homens se encaram a uma distância de 20 metros. Repentinamente, o trapaceiro leva sua mão ao coldre. Pena que não foi rápido o suficiente. Veloz como um raio, o forasteiro saca seu revólver e, com um só tiro, coloca uma bala na testa do adversário.

CENA 3
Cowboys desocupados, o barbeiro da cidade, o ajudante do xerife, o caixa do banco e todos que pararam de respirar por alguns segundos voltam às suas rotinas, enquanto o bom moço guarda o revólver e despede-se do malandro dizendo: "Esse foi sua última cartada." E entra pela porta de vaivém do saloon como se nada houvesse acontecido.

Cem anos de Hollywood nos fizeram acreditar que na rota rumo ao Oeste americano todo dia acontecia uma sequência de cenas como essas.

"Clint Eastwood e John Wayne transformavam seu Colt em uma metralhadora batendo rapidamente com a mão no cão do revólver. Esqueçam isso! As armas da época eram tão toscas que essa manobra seria impossível"

O PACATO VELHO OESTE
Os professores da Stanford University, EUA, Peter J. Hill e Terry L. Anderson, em seu controvertido livro The Not So Wild, Wild West: Property Rights on the Frontier (sem tradução em português), demonstraram que a vida por aquelas bandas foi pacata e tediosa, ao contrário do que nos mostrou o cinema.

De 1845 a 1860, cerca de 300 mil pessoas viajavam por terra em comboios de carroças para inúmeros lugares da costa Oeste. Só para Sierra Nevada, no Estado da Califórnia, em1845, com a descoberta do ouro, 200 mil americanos e estrangeiros se deslocaram para lá, atrás do sonho de enriquecer rapidamente.

"EU SOU A LEI E ISSO ACABA AQUI." (WYATT EARP)
Por outro lado, se levarmos em conta os antigos filmes de faroeste, o morticínio também deveria ter sido enorme, certo? Ledo engano, afirmam os pesquisadores Hill e Anderson, que estudaram a conquista do Oeste por 30 anos. Ao pesquisar documentos da época, eles descobriram que cinco foi o maior número de homicídios que qualquer cidade do Velho Oeste testemunhou em um ano durante o período de colonização. Em 1881, considerado o mais violento da história de Tombstone, Arizona, foram contabilizados apenas três assassinatos. Na verdade, a média de homicídios na maioria das cidades era de 1,5 homicídios ao ano. E nem todas as mortes eram ocasionadas por tiros. Ou seja, de acordo com Hill e Anderson, a violência do Velho Oeste não passou de um grande mito.

Roubos a bancos, então, eram raridades. Larry Schweikart, historiador da Universidade de Daytona, Ohio, e coautor do livro A Patriot's History of the United States, estima que, durante o período de colonização compreendido entre 1859 a 1900 houve menos do que uma dúzia de assaltos a bancos em todo o Oeste.
Pat Garrett


MIRA INCERTA
Lembram-se como Clint Eastwood e John Wayne transformavam seu Colt em uma metralhadora batendo rapidamente com a mão no cão do revólver? "Esqueçam isso!" - sugerem os historiadores. As armas da época eram tão toscas que essa manobra seria impossível. Segundo os experts, era muito pouco provável que qualquer um, por melhor atirador que fosse, acertasse o adversário no primeiro, no segundo ou mesmo no terceiro disparo.

Da mesma forma que a Trilha de Overland, rota alternativa entre Califórnia e Oregon, não era um lugar de conflitos, nem perseguições às diligências. Rancheiros e criadores de gado também não viviam às turras. Ao contrário! A Lei de Propriedade Rural, (em inglês, Homestead Act), criada pelo presidente Abraham Lincoln, no dia 20 de maio de 1862, para atrair imigrantes na ocupação do Oeste americano, condicionava a posse de uma propriedade a um limite de 160 hectares (aproximadamente 66 alqueires).

O tamanho das terras, relativamente pequeno para a criação, fez com que rancheiros de Estados como Dakota e Nebraska, levassem seu gado para pastarem em campos abertos e desapropriados. Como as viagens eram longas, passavam por terrenos acidentados e por condições meteorológicas extremas, os rancheiros cooperavam entre si, ajudando-se uns aos outros. Muito diferente da versão hollywoodiana sobre o conflito de terras.


Uma das cartas propondo rendição a Billy the kid: ele tinha que depor como testemunha de um recente assassinato em troca de perdão para seus próprios crimes

QUESTÃO DE MARKETING

Então, de onde surgiu a lenda sobre o selvagem e bravio Oeste americano? Segundo vários historiadores, o mito nasceu junto com Billy the Kid, o lendário fora da lei. Na verdade, o responsável pela criação da fábula foi o livro de Pat Garrett, que dedicou alguns anos de sua vida a caçar o baixinho dentuço e franzino que aterrorizou o Oeste.

Quem escreveu o livro de fato foi o jornalista Marshall Ashmun Upson, que na época era auxiliar do xerife. Pesquisadores afirmam que Garrett era analfabeto. Por isso empregou o jornalista como escrivão para cuidar dos registros da delegacia. Hábil contador de histórias desde a Guerra Civil Americana, Upson transformou o livro de Pat Garrett The Authentic Life of Billy the Kid em uma espécie de bíblia para quem quisesse entender como era a vida no Velho Oeste na época de sua conquista.

Entretanto, o marketing do valentão bom de tiro, de copo e de mulher não fazia bem apenas aos "fora da lei" - que viam nessas histórias uma maneira de serem temidos e respeitados, cidades como Deadwood, em Dakota do Sul, gostavam de exagerar sua natureza violenta e sem lei a fim de atrair colonizadores aventureiros. Até hoje, a cidade tem como uma de suas maiores fontes de renda os turistas que vêm à procura de aventura e emoções.

Ainda que a história contada pelos livros de capa amarela (relatos folhetinescos sobre a conquista do Oeste americano) e pelo cinema não seja totalmente verdadeira, sem dúvida, ela é muito mais eletrizante do que a realidade de um oeste ordeiro, como querem provar muitos dos novos historiadores americanos.

"PROCURA-SE VIVO OU MORTO"

De acordo com o livro de Pat Garrett, William H. Bonney nasceu em 23 de novembro de 1859 na cidade de Nova Iorque e perdeu o pai muito cedo. Com quatro anos, Billy começou sua peregrinação, juntamente com a mãe e o padrasto, por várias cidadezinhas rumo ao Oeste até chegar ao Novo México.
Cartaz oferecendo recompensa pela captura de Billy the Kid, "vivo ou morto". Era assinado pelo xerife Pat Garrett que o matou em 1881

Aos oito anos, praticou seu primeiro roubo ao furtar um pote de manteiga de um mercadinho. Aos 12, cometeu seu primeiro assassinato, em uma briga de saloon, ao matar com um canivete um vagabundo que, dias antes, teria insultado sua mãe em público. O fato de nunca mais tê-la visto depois desse dia foi determinante para o garoto começar sua carreira de bandido, conta a versão romântica de seu biógrafo.

Aos 14 anos, considerado baixo demais para o emprego de cauboi, virou especialista em roubo de cavalos. Em 1878, em uma disputa por posses de terras no condado de Lincoln, no Novo México, Billy se uniu a um bando de pistoleiros que espalhavam terror na região executando sumariamente todos os suspeitos de terem matado um rancheiro da família Tunstall, o patrão querido de todos eles, inclusive de Billy. O governo dos EUA, então, ofereceu 500 dólares para quem entregasse o bandido. Os cidadãos das cidades onde ele atuava triplicaram o prêmio.

Em 1878, entrou na vida do fora da lei o xerife Pat Garrett que, como aquele que se tornaria seu maior desafeto, era bom de tiro, gostava de beber, jogar e correr atrás das mexicanas. Por dever de ofício, durante um ano, dedicou-se a perseguir seu ex-amigo, até que, finalmente, o matou em uma emboscada em 13 de julho de 1881.

Um ano depois, Garret iniciaria, com o jornalista Marshall Ashmun Upson, seu livro The Authentic Life of Billy The Kid, que ajudou a imortalizar o bandido e o modo de vida "selvagem" do Velho Oeste americano.

"O tempo que levo para matar é menor do que você leva para beber um uísque", disse o valentão Joe Grant a Billy the Kid, sem imaginar que essa seria sua última frase em vida

JESSE JAMES
Em 1842, vinha ao mundo, em Kearney, no Missouri, Jesse Woodson James, filho de Robert S. James, agricultor, comerciante de cânhamo e pastor da Igreja Batista no Kentucky e próspero dono de seis escravos que o ajudavam na fazenda. Três anos depois de seu nascimento, Jesse perdeu seu pai e sua mãe se casou com Reuben Samuel, que foi morar na fazenda dos James. A vida seguia mansa até o início da Guerra Civil Americana (1861), a qual esfacelaria o Missouri e mudaria a vida de Jesse James.

Com 16 anos, seguindo seu irmão Frank depois de salvar a vida do padrasto que seria enforcado por uma milícia da União, o rapaz entrou para o bando de ex-guerrilheiros e começou a carreira de assaltante de bancos. Até então, Jesse não era famoso, mas virou notícia de jornal quando, em 1869, com Frank, assaltou o Savings Association, em Gallatin, Missouri, e matou um bancário. O roubo deu tanta notoriedade aos James como um dos mais famosos guerrilheiros fora da lei que o governador do Missouri, Thomas T. Crittenden, colocou uma recompensa pela captura dos irmãos que, junto com outros ex-confederados, formaram a Gangue dos James-Younger.

O bando roubou bancos de Iowa ao Texas, do Kansas até Virgínia Ocidental. Nos intervalos, assaltavam escritórios de diligências, feiras agrícolas e trens que dirigiam ao Estado de Iowa, roubando passageiros e, praticamente, tudo o que encontravam nos vagões de carga. A quadrilha continuou roubando e matando gente em quase todos os Estados do Sul até que, no fim de 1879, com a gangue praticamente esfacelada por prisões, mortes e desistências, os irmãos James resolveram voltar para o Missouri com seus homens de confiança: os irmãos 
Robert e Charley Ford.
Da esquerda para a direita, Billy the Kid, Doc Holliday, Jesse James e Charlie Bowdre. Acredita-se que a foto tenha sido feita no Novo México, em 1879


O que Jesse James não sabia é que Bob Ford havia secretamente negociado com Thomas Theodore Crittenden, o governador do Missouri, a quantia de 5 mil dólares por cada um dos irmãos. Em 3 de abril de 1882, Ford, ao pegar Jesse James desarmado enquanto fazia os preparativos para outro roubo e cuidava dos cavalos, matou o amigo com um tiro na cabeça.

BUTCH CASSIDY
Ao lado de Jesse James e Billy the Kid, Butch Cassidy brilhou como um verdadeiro mestre na arte de roubar bancos e trens. Nascido Robert Le Roy Parker, em 1866, em Beaver, Utah, Cassidy se transformou em um exímio pistoleiro e grande cavaleiro, inspirando-se no seu ídolo Mike Cassidy, esperto ladrão de gado com quem aprendeu todos os truques para fazer carreira no crime. No início, fez carreira solo, roubando bancos em Denver e Telluride.

Em 1894, foi preso, mas saiu da cadeia um ano e meio depois, quando se associou a cinco outros bandidos de primeira linha, entre eles Harry Longabaugh, mais conhecido como Sundance Kid. O bando causou muito pânico nos Estados de Wyoming, Nebraska, Nevada e Texas devastando bancos e trens. Foram eles os protagonistas do grande assalto ao First National Bank em Winnemucca (Nevada), em 1901, levando do cofre mais de 30 mil dólares.

Sundance Kid Jesse James, em 1864 Butch Cassidy

Logo em seguida, Cassidy e seu parceiro Sundance Kid, fugindo da polícia, vieram para a América do Sul, chegando a Buenos Aires, na Argentina, em 1901, em companhia da Etta Place, a namorada de Sundance. Depois de se instalarem no melhor hotel da cidade, abrir uma conta na filial do Banco de Londres com 12 mil dólares, fruto da partilha do roubo do First National Bank de Nevada, entre 1902 a 1906, resolveram viver como cavalheiros refinados que pareciam ser. Chegaram até a comprar uma fazenda na província de Chubut, na Patagônia. Mas quando o dinheiro acabou, voltaram a assaltar bancos, primeiro, na Argentina, depois, roubando comboios e minas na Bolívia, Peru e Chile.

A morte de Cassidy ainda gera conflitos entre historiadores. Na versão oficial, em 1908, ele e Sundance teriam sido perseguidos por soldados bolivianos e mortos a tiros de metralhadora. Em outra variante, em 3 de novembro de 1908, depois de roubarem 15 mil pesos bolivianos do transporte de pagamento de mineiros, esconderam-se em uma pensão, mas foram reconhecidos e denunciados a uma unidade do Exército. No dia 6, depois de uma troca de tiros que resultou em um soldado ferido e outro morto, ouviu-se um grito de dor. Minutos depois, um novo tiro silenciou o gemido.

Na manhã seguinte, os dois foram encontrados mortos. A interpretação do fato: Butch Cassidy teria dado o tiro de misericórdia no amigo ferido e depois se suicidado. A polícia boliviana enterrou os dois em um cemitério próximo ao local do incidente.

Por fim, caro leitor, imagine se você fosse um diretor ou roteirista de cinema. Seria mesmo capaz de resistir a uma história dessas?

*Título do filme de 1953, dirigido por George Stevens e estrelado por Alan Ladd no papel de Shane, pistoleiro errante que vem em defesa de uma pacata família, aterrorizada por um rico boiadeiro e seu atirador de aluguel (Jack Palance).
 
Saiba +
ALGUNS DOS MELHORES FILMES DE FAR WEST DE TODOS OS TEMPOS:
Matar ou Morrer(1952) - Gary Cooper
Rastros de Ódio (1956) - Gary Cooper
Onde Começa o Inferno (1959) - John Wayne e Dean Martin
O Homem que Matou o Facínora (1962) - John Wayne, James Stwart e Lee Marvin
Por um Punhado de Dólares (1964) - Clint Eastwood
Era uma Vez no Oeste (1968) - Charles Bronson e Jason Roberts
Butch Cassidy & Sundance Kid (1969) - Paul Newman e Robert Redford
Bravura Indômita (2010) - Jeff Bridges

FONTES
GARRET, Pat. Billy The Kid - A história de um bandido. L&PM Pocket.
HILL, Peter J.; ANDERSON, Terry L. The Not So Wild, Wild West: Property Rights on the Frontier. Stanford University Press, 2004.
Site: www.deadwood.com/splash.cfm
Revista Leituras da História

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