domingo, 14 de setembro de 2014

Cidade de Sarajevo comemora fim de "século de conflito"

Em uma esquina à margem do rio foram disparados os tiros que deflagraram a Primeira Guerra Mundial. Os moradores esperam expurgar os fantasmas de conflitos passados

ANDREW MCDOWALL
DO "OBSERVER", EM SARAJEVO


Deitando uma coroa de flores no lugar em que o arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher Sofia, grávida, foram assassinados, exatamente 100 anos antes, Aleksandar Simec e Alexander Schneider explicavam porque sentiam que a morte do herdeiro do trono austríaco foi uma tragédia para a Europa e para o mundo.

"Se esse trágico evento não tivesse ocorrido, a guerra e milhões de mortes poderiam ter sido evitadas. O fim do Império Austro-Húngaro criou um vácuo político no centro da Europa que foi ocupado inicialmente pelos nazistas e depois pelo comunismo soviético", afirmam.
Antonio Bronic - 28.jun.2014/Reuters 

Atores vestidos como o arquiduque Franscisco Ferdinando e a condessa Sophie Chotek em performance na Bósnia.


"Os Habsburgos [a dinastia imperial austríaca] teriam resistido", diz Schneider, ativista austríaco da Aliança Aurinegra, uma organização que defende a restauração da monarquia austríaca e de uma união centro-europeia que acompanharia os limites do império Habsburgo.

Francisco Ferdinando e Sofia foram mortos a tiros por Gavrilo Princip ao lado da Ponte Latina em Sarajevo, a capital da Bósnia, em 28 de junho de 1914, um ato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Schneider se inclina para posicionar fotos do casal assassinado ao lado da coroa, e Simec –nascido na Áustria e dotado de nacionalidade iugoslava, ostentando um rabo de cavalo e um broche monarquista no paletó– explica que Francisco Ferdinando desejava criar uma terceira entidade no Império Austro-Húngaro, para os eslavos, como os sérvios, bósnios e croatas. "Ele tinha a ideia de estabelecer uma espécie de Iugoslávia como parte do Império Austro-Húngaro".

Mais cedo naquele dia, a Aliança havia percorrido o trajeto do casal real em Sarajevo, mas em lugar de se deterem no local do assassinato eles prosseguiram até o destino planejado para o percurso do arquiduque, a estação ferroviária.

"Começamos exatamente na mesma hora e viajamos exatamente na mesma velocidade", diz Simec. "Queríamos desfazer o assassinato, simbolicamente".

Ao lado da placa que marca o local do assassinato, a coroa de flores da Aliança tem a companhia de duas outras, e de três ramalhetes. Sob um retrato emoldurado do casal, uma legenda em alemão diz "o objetivo da vida deles era paz para as nações. Sua morte trouxe guerra para as nações".

A dois metros de distância, uma placa provisória e um ramalhete de flores ocupam o lugar do qual Princip disparou. Velas finas de cera de abelha, como as usadas nas igrejas ortodoxas, estão acesas. Bósnio de etnia sérvia e encarado como herói nacional na era iugoslava, o legado de Princip é controverso, hoje. A placa recorda que um memorial a Princip foi removido do local em 1992, quando a Bósnia decaiu à guerra.

Mas os memoriais estão atraindo muito menos atenção do que uma réplica do carro do casal real estacionada ao lado, onde turistas posam com um homem vestido como Francisco Ferdinando. As edificações que cercam o local ainda mostram marcas de balas de uma guerra mais recente. Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi dilacerada por um conflito entre os bósnios muçulmanos e os bósnios de origem sérvia e croata, no qual 100 mil pessoas morreram e Sarajevo foi submetida a um cerco de 1.425 dias por forças sérvias. A cidade vem relembrando o assassinato do arquiduque na esperança de que isso "feche o ciclo" de um século de conflito. Pouco antes da meia-noite, diversas performances aconteceram na Ponte Latina. Às 11h, o horário aproximado do assassinato, turistas e jornalistas enchiam as ruas próximas à ponte e as margens do rio Miljacka, por sob as árvores que acompanham o curso do rio, cujas águas brilham ao sol do verão. Acima avulta a cadeia de montanhas da qual a artilharia sérvia bombardeava a cidade durante a guerra.

"Sarajevo é o foco: os olhos do mundo estão voltados para nós", diz Ivo Komsic, prefeito da cidade. "Nós, de Sarajevo, queremos enviar uma mensagem de nova esperança para as novas gerações, e de um melhor futuro".
Dado Ruvic - 24.jun.2014/Reuters 
O edifício Vijecnica em Sarajevo

Uma das peças centrais da celebração foi um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena no edifício Vijecnica, a poucos metros de distância do local do assassinato, com o presidente da Áustria como um dos convidados. O notável Vijecnica, em estilo pseudomourisco e próximo à Ponte Latina, é um símbolo especialmente significativo para Sarajevo: ele abrigava a prefeitura na qual Francisco Ferdinando e Sofia participaram de uma recepção pouco antes de serem assassinados. O edifício mais tarde passou a abrigar a biblioteca da Bósnia e Herzegóvina e foi atacado pela artilharia sérvia durante o cerco, o que causou a perda de cerca de dois milhões de livros. Os moradores de Sarajevo descrevem como o ar estava repleto de pedaços de papel cobertos por elegante caligrafia árabe, que se convertiam em cinza ao cair no chão.

"O Vijecnica é muito importante para nós; é um símbolo de Sarajevo e sua mistura de estilos arquitetônicos demonstra que Sarajevo é um ponto de encontro de culturas", diz Komsic.

O edifício passou por uma restauração que durou 18 anos, mas especialistas em conservação disseram ao "Observer" que ele continua em estado precário. O edifício representa outro ponto de disputa em uma nação que ainda está dividida. Uma inscrição na parede, em inglês e no idioma local (até o nome do edifício é contestado), se refere aos "criminosos sérvios", o que o presidente e primeiro-ministro da Sérvia definem como difamação e os levou a boicotar a cerimônia em Sarajevo.

A guerra não deixou apenas cicatrizes físicas e psicológicas. A Bósnia se divide administrativamente entre a Federação, em sua maioria muçulmana e católica croata, e a República Sérvia, fortemente autônoma, cujo líder, Milorad Dodik, agita regularmente pela independência. Em 27 de junho, no distrito leste de Sarajevo, separado e governado pelos sérvios, Dodik inaugurou um parque que leva o nome de Gavrilo Princip, decorado por uma estátua do assassino.

Para muitos sérvios, Princip é um herói da independência dos eslavos do sul. E 28 de junho era um dia importante mesmo antes de 1914, porque foi a data de uma batalha travada em Kosovo em 1389 na qual, de acordo com o entendimento popular se não com o conhecimento histórico exato, uma derrota sérvia resultou em séculos de opressão pelos otomanos. É essa espécie de complexidade histórica que os encarregados de organizar eventos e exposições precisam encarar, em um ambiente altamente volátil. A Bósnia tem uma eleição geral marcada para o quarto trimestre, e a retórica nacionalista deve ganhar ainda mais força.

Uma exposição especial no Museu Histórico Nacional da Bósnia e Herzegóvina, com apoio do Museu Imperial da Guerra em Londres, foi aberta em 26 de junho, registrando a visita de Francisco Ferdinando, o assassinato e o período da guerra no país. A mostra começa com descrições de viajantes sobre Sarajevo em 1914, e mostra um bazar lotado de artesãos judeus e muçulmanos convivendo com uma cidade nova repleta de parques e de cafés em estilo vienense.

"A ideia não é que nos concentremos em um ou outro lado da história, mas que façamos de Sarajevo a principal protagonista", diz Elma Hasimbegovic, diretora do museu. "Francisco Ferdinando não é o personagem principal, e não estamos nos concentrando na história nacional. Bósnios combateram dos dois lados na Primeira Guerra Mundial, e queremos ver como as pessoas comuns foram afetadas pela guerra, e sua luta por sobreviver".

O museu foi vítima da política étnica do pós-guerra, já que não recebe verbas regulares do governo nacional, da federação, do governo cantonal ou da prefeitura. Passados 19 anos do final do conflito na Bósnia, ele e outras sete instituições nacionais continuam a viver em um limbo jurídico e financeiro –não existe Ministério da Cultura nacional, já que a cultura é alvo de disputas tão ferozes entre os políticos étnicos. Esses políticos são alvo de raiva de todas as partes em conflito, em um país no qual o desemprego é estimado em mais de 40% e o progresso quanto à integração com a União Europeia se viu bloqueado por disputas étnicas. Muita gente sonha com as certezas e a paz da Iugoslávia unida.
Dado Ruvic-27.jun.2014/Reuters 
O ator Jovan Mojsilovic reencena o assassinato de Gavrilo Princip em frente a sua estátua, inaugurada no último dia 27 em Sarajevo


"Os políticos deveriam ser todos mandados para Goli Otok!", diz Milan Bosanac, 79, sérvio da Bósnia, em referência a uma ilha árida no Mar Adriático que servia como presídio político na era comunista. "Tudo vai piorar. Quando o [ditador comunista] Tito estava vivo, tudo era ótimo, todo mundo tinha emprego. Agora centenas de milhares de pessoas estão desempregadas, e não há nada para os velhos".

A vida de Bosanac foi afetada pelo conflito desde a infância: na Segunda Guerra Mundial, sua família lutou com os partidários comunistas iugoslavos, contra os nazistas e os aliados destes. Depois que a guerra irrompeu na região em 1941, o pai dele morreu no campo de concentração de Jasenovac, operado pelos croatas, e a família fugiu para as montanhas Kozara, no nordeste da Bósnia. Um dia, ele se perdeu dos parentes na neve e foi resgatado por uma mulher que cuidou dele por meses.

Com a bengala na mão, Bosanac está sentado em seu apartamento em Grbavica, um subúrbio de Sarajevo que no passado era majoritariamente sérvio mas hoje é predominantemente muçulmano. A família viveu no bairro durante toda a guerra, se protegendo no porão quando os combates se intensificavam, e em certas ocasiões teve de provar sua nacionalidade a combatentes sérvios fanáticos. Eles deixaram a região e foram viver no sul da Bósnia e no Montenegro quando o bairro "mudou de mãos" depois da guerra, diz Stasha, sobrinha-neta de Bosanac, que voltou anos depois para ser "uma forasteira em minha própria cidade, em lugar de sermos forasteiros em terras distantes".

A filha dela, nascida quase uma década depois do final da guerra, também é afetada. No ano passado, as crianças muçulmanas da escola se recusaram a brincar com ela no período que antecedeu o primeiro recenseamento bósnio no pós-guerra, com o recrudescimento da retórica nacionalista para que as crianças, como os adultos, se identificassem como muçulmanas, sérvias ou croatas.

O lema para os eventos da semana passada era "um século de paz depois de um século de guerra". Há poucos países para os quais ele seja mais apropriado, e mesmo para alguns dos que desejam preservar o passado, o aniversário é um doloroso lembrete.

"A Ponte Latina é um símbolo da guerra, e por isso lamento por Sarajevo que a cidade seja vista como símbolo da guerra", diz Mirzah Foco, funcionário da comissão de preservação da herança cultural bósnia, durante uma conferência em Sarajevo. "Estive no exército e pode acreditar: quero esquecer tudo que me aconteceu. Acredite: foi um pesadelo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de S.Paulo

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