terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sala de milagres


De mechas de cabelo a tese de doutorado: vale tudo para agradecer aos céus pela graça alcançada.
José Cláudio Alves de Oliveira

Miomas in vitro, um casamento filmado em fita VHS ou em DVD, um capacete, miniaturas de carros de boi, um buquê, teses de doutorado, mechas de cabelo, um par de chuteiras de futebol, um pára-choque de automóvel. Objetos que no dia-a-dia parecem inconciliáveis podem habitar um mesmo espaço: em santuários espalhados por todo o Brasil, a diversidade de ex-votos atesta a presença da fé na vida de gente comum, com suas histórias, desejos, ambições, lutas e esperanças.

Tradicionalmente pintados ou esculpidos, os ex-votos brasileiros assumem incontáveis formatos no democrático espaço das “Salas de Milagres”. Tão democrático que pode acolher até mesmo objetos com conotação sexual, como uma escultura fálica feita em parafina flagrada no teto da Sala de Milagres da Igreja do Bomfim, em Salvador. Curioso é que essa igreja abriga um museu especialmente para os ex-votos. Fica claro que essa peça em parafina jamais seria exposta ali. Só mesmo na Sala de Milagres o agradecimento poderia vir a público (mesmo que por pouco tempo). 

E se o Brasil se distingue de qualquer outro lugar pela variedade dessas expressões de agradecimento, há um santuário que exemplifica com perfeição tamanha riqueza. A começar pelo próprio espaço que recebe os ex-votos: não é igreja ou outra construção erguida pelo homem: Bom Jesus da Lapa é um monumento natural de calcário com 30 metros de altura e três quilômetros de extensão, cercado de grutas e “águas milagrosas”. Descoberto oficialmente em 1692, é, talvez, o mais antigo destino de romarias no Brasil. Nos meses de julho, agosto e setembro, a cidade de Lapa vê sua população, de menos de 200 mil pessoas, quadruplicar devido às caravanas de fiéis que convergem para o santuário. A Sala de Milagres fica na gruta da Soledade, que tem cerca de 50 metros quadrados e é totalmente natural, apenas com alguns retoques no piso (degraus) e uma fraca iluminação elétrica. Esse espaço recebe e abriga os ex-votos que representam não somente a existência das romarias, mas a fé de pessoas que pagam ou que solicitam uma graça.

Os ex-votos são expostos por toda a sala, pelo próprio crente ou a pedido, com pouca ou nenhuma arrumação. A conservação é simples: vassoura, espanador e o descarte de objetos. Esse descarte tem dois destinos: lixo ou incineração e as doações. Os retratos e cartas vão para o lixo ou são queimados. Muletas, cadeiras de rodas e bacias são doadas a instituições de caridade. São todos objetos efêmeros, já que a cada dia, a cada hora, chegam novas “promessas”. Sua variedade é tão incontrolável que se torna impossível catalogá-los. Formas mais antigas – como os quadros produzidos pelos “riscadores de milagres” e as esculturas feitas pelos santeiros – hoje são raras. A fase é fotográfica, “cartográfica” – do universo de cartas encontradas, dos objetos orgânicos, dos objetos industrializados. Há uma rápida substituição de signos e símbolos. A cada momento um tipo é descartado, a cada instante um novo (e até então inexistente) ex-voto surge. 

É notório o potencial informativo dos ex-votos. É evidente o poder simbólico que ele traz em sua forma, seja ela artística ou não. No caso específico de Bom Jesus da Lapa, dois exemplos demonstram sua capacidade de expressar diferentes dimensões humanas – de sentimentos subjetivos até questões estruturais do país. O primeiro são os caixões funerários. Simples, decorados artesanalmente, com bilhetes e cartas, eles agradecem ao padroeiro por não terem “ido”, transmitem o sentimento diante da morte, de alguém que esteve à beira dela e se salvou. O ex-voto é o “pagamento” com aquilo que seria o símbolo do seu enterro. 

Outro exemplo são as maquetes que representam ranchos, fazendas, casas de campo e roças. Produzidas artesanalmente em madeira, pintadas ou envernizadas, chegam a incluir detalhes como gado, mato e cerca. Geralmente possuem inscrições ou um “anexo” (bilhete) que agradece pela terra conquistada, pede por um “pedaço de terra” ou até mesmo pela melhoria da lavoura no país. São pedidos e agradecimentos que nos conduzem à questão agrária, ponto crítico dos problemas brasileiros, que ocasiona injustiças e privilégios, conflitos e mortes.

Não importa o suporte: todos os ex-votos da “sala de milagre” são documentos. Exposições provocadas por todo tipo de pessoas – camponeses, trabalhadores, desempregados, turistas, estudantes, ricos e pobres. Refletem a crença, a fé e as atitudes do homem diante da vida, da doença, da morte, da ambição, da festa, de variados valores sociais, políticos e econômicos. Ao manter (e atualizar) a tradição, essas pessoas se espelham no costume de ir a um ambiente do povo rezar e fazer a desobriga. Testemunham a comunicação com entes superiores, e com isso perpetuam um rito de longa duração, no rico mundo da religião do povo. Da Grécia a.C. ao Brasil de 2009 d.C.

José Cláudio Alves de Oliveira é professor de Museologia da UFBA e coordenador do Projeto Ex-votos do Brasil.

Saiba mais - Bibliografia:
SCARANO, Julita. Fé e milagre: ex-votos pintados em madeira séculos XVIII e XIX. São Paulo: EDUSP, 2004. 128 p. il. 
VALLADARES, Clarival do Prado. Riscadores de Milagres: um estudo sobre a arte genuína. Rio de Janeiro: Sociedade Gráfica Vida Doméstica; Salvador: Superintendência de Difusão Cultural da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, 1967. 171 p. il.

Saiba Mais - Site:
Ex-votos do Brasil. Disponível em http://ex-votosdobrasil.blogspot.com
Revista de História da Biblioteca Nacional

2 comentários:

Lu Cidreira disse...

Uma materia de peso, parabeniso ao blog espaço pelo trabalho de pesquisa e divulgação.
Muito bom, deve ser dissiminado para um grnde público.
Abraço

BRECHÓ DO SUL . PODE SER !!! disse...

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