quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Kamikaze Diaries - Pátria e morte


Pátria e morte

Emiko Ohnuki-Tierney

Perto do final da Segunda Guerra, quando a invasão do Japão por tropas dos Estados Unidos parecia iminente, o vice-almirante Onishi Takijiro criou as Unidades Especiais de Ataque por Choque. Elas incluíam aviões comandados por pilotos kamikazes, os tokkōtai, que deveriam produzir o milagre da defesa da nação, cercada de porta-aviões inimigos tidos como indestrutíveis. Para tanto, os pilotos suicidas deveriam conduzir um avião carregado de explosivos a um choque direto e devastador contra um navio inimigo.

Quando a operação tokkōtai foi criada, em outubro de 1944, nem um único oficial treinado nas academias militares japonesas se apresentou como piloto voluntário – todos sabiam que se tratava de missões suicidas.

Os “voluntários” foram perto de 3 mil “meninos-soldados”, nome dado às levas de adolescentes recém-recrutados como parte do esforço de guerra. Outros mil eram “soldados-estudantes”, universitários formados às pressas pelo governo para entrar nas fileiras militares.

Os soldados-estudantes formavam um grupo excepcional. Eles eram cosmopolitas e cultos, dados a reflexões profundas, fruto do exigente currículo escolar japonês. Era obrigatório o estudo de duas línguas estrangeiras, além do latim. Quem tivesse optado pelo alemão, por exemplo, recebia como dever de casa, já na primeira aula, ler Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. E no original, antes mesmo de o aluno ter sido apresentado ao alfabeto romano. Também era avaliada a leitura da Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. O fato de o aluno não entender quase nada, e ser obrigado a reler o texto à exaustão, destinava-se a torná-lo consciente de sua ignorância e do quanto deveria estudar.

Outra característica fundamental: enquanto os soldados alemães eram treinados para matar, os japoneses eram adestrados para morrer. Rendição, fuga, rebeldia, qualquer ato para salvar a vida diante da derrota incontornável eram punidos com a morte. Todo soldado que desobedecesse ao regulamento militar, ou a alguma ordem de superior, era fuzilado na hora. E uma ofensa dessa natureza podia levar à punição dos parentes imediatos do soldado.

Como primeira lição, o soldado-estudante aprendia a usar o rifle para se matar antes de ser capturado. Era-lhe ensinado a acionar o gatilho usando o dedão do pé – tendo por alvo um ponto preciso abaixo do queixo, para a morte ser instantânea.

Ser piloto tokkōtai significava morte certa, e por isso a oficialidade de alta patente imprimiu-lhe a falsa característica de voluntariado. Na maioria das vezes, todos os membros de uma unidade eram convocados a se apresentar num salão comum. Convidavam-se os recrutas a dar um passo à frente caso quisessem aderir à honra de dar a vida pela pátria. Ou o inverso: aqueles que não quisessem se tornar pilotos suicidas deveriam dar um passo à frente. Poucos resistiam à pressão.

O retrato idealizado desses jovens, promovido pelo governo militar da época, corresponde ainda hoje ao estereótipo do kamikaze – eles são vistos como a encarnação moderna dos bravos guerreiros, honrados por poderem se sacrificar pelo imperador.

Kamikaze Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers, livro da acadêmica americana Emiko Ohnuki-Tierney,corrige essa distorção. A seguir, trechos desses diários.



SASAKI HACHIRŌ

O pai de Sasaki Hachirōfez o possível para dissuadir o filho de ser voluntário para a missão de piloto kamikaze. Não tendo conseguido, jamais voltou a lhe dirigir a palavra. Mesmo quando Hachirō, com 22 anos de idade, veio se despedir, o pai saiu de casa e só retornou na manhã seguinte. Terminada a guerra, a família recebeu uma notificação da morte de Hachirō, junto com uma medalha e uma pequena soma de dinheiro. Sem dizer nenhuma palavra, o pai pegou o dinheiro, foi até uma loja de bebidas, comprou saquê e o bebeu sozinho.



10 de fevereiro de 1940_Finalmente invadimos Cingapura. O número de vítimas civis deve ter sido grande. Crueldade da guerra. Cega a esse tipo de questões, a história continua sua marcha diária.



13 de abril_Soa a sentimentalismo, mas, se você precisa morrer, que seja de forma bela.



12 de outubro_O idealismo não é nem uma ideologia fixa nem uma autoridade absoluta.



1º de novembro_Para quem vive no século XX, é preciso saber encontrar a síntese entre o mais passivo e o mais agressivo polo de racionalismo e ativismo... O racionalismo é por demais objetivo e o ativismo, subjetivo em demasia. Como sustenta Heidegger, estamos na história. Ela não nos precede quando nela adentramos. A partir do momento em que nascemos, estamos na história. Somos o sujeito que vive no objeto. (...)

(...)Prefiro pensar que “inevitabilidade” é mais importante do que “necessidade”. Devemos sempre nos empenhar em stirb und werde! [“morra e seja”, ou crescimento por meio da morte]. Estou sinceramente feliz por estar vivo... O que mais importa é a liberdade da vontade, liberdade de espírito em meio ao caos do presente... Obediência cega sem vontade livre não constitui uma resposta ao nosso caos.



16 de abril de 1941_Quantos realmente morrem de “morte trágica” nessa guerra? Estou convencido de haver várias mortes cômicas disfarçadas de mortes trágicas. À primeira vista, ambas são iguais. Mas mortes cômicas camufladas de trágicas não deixam transparecer a alegria de uma vida. Estão cobertas de agonia sem valor ou sentido. Ou seja, são duplamente negativas, o que as torna cômicas.



14 de setembro_Foi anunciado que todos os japoneses devem trabalhar em indústrias vitais para o esforço de guerra. Isso significa que há pessoas saboreando néctar enquanto ignoram o esforço árduo e a humanidade dos japoneses. O que é patriotismo? Como tolerar a matança de milhões de pessoas e a privação de liberdades básicas de bilhões de outras por causa de noções abstratas como patriotismo e pátria?



9 de dezembro_Não consigo me sentir eufórico com as vitórias do Japão na guerra. Sinto ansiedade. Também me preocupo com os rumos do capitalismo depois do fim da guerra.



15 de dezembro_Dado que vivobem, sob a benevolência da nação deste imperador, não me recusaria a me alistar, se chamado. Não sou fraco a ponto de me sentir esmagado pela guerra. Mas faço questão de declarar minha oposição a todas as guerras.



26 de janeiro de 1942_Sei que posso morrer a qualquer momento, e por isso deixo tudo o que é meu arrumado; vivo uma vida organizada e tiro fotografias para a posteridade.



1º de março_Hoje presto exame de admissão para economia na Universidade de Tóquio. Usei meu uniforme de sempre, mas minhas roupas íntimas estavam limpas e novas. Acho que escrevi um ensaio singular sobre a questão da nossa história e da história do Ocidente. Também acho que fui bastante audacioso na resposta sobre a crítica literária contemporânea. Portanto, não sei como serei avaliado. Em retrospecto, penso que poderia ter me saído melhor, mas se for reprovado isso significa que eles não têm a mais vaga ideia do meu potencial. Uma das perguntas foi tirada da obra de Tanabe Hajime, Rekishiteki-geniitsu [Realidade Histórica, sem edição em português]. Fico deprimido ao pensar o quanto esse livro me impressionou no passado. Ele é dogmático e cheio de fios soltos. Não é nada além de raciocínio vazio.



4 de março_Achei uma aranha minúscula dentro do meu livro. Num impulso de malvadeza, aproximei meu cigarro da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei o cigarro aceso à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei o cigarro aceso por cima, e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pela brasa do cigarro.

É possível que, para essa aranha, o tamanho do livro seja o do Japão, e cinco minutos sejam cinco ou dez anos. Durante esse período, e nesse espaço, onde quer que ela fosse, havia fogo. E quando ela parou, o fogo veio de cima... Se isso acontecer a um ser humano, ele enlouquece. A aranha não entendia de onde vinha aquela chama. Seres humanos também perdem.

Desejo me tornar um homem capaz, mesmo que a grande custo. Capaz de identificar objetivamente a causa do problema, e transmitir esse conhecimento à geração seguinte. Feito isso, posso morrer. Através da alegoria da aranha traço um retrato doloroso do povo japonês nestes tempos de guerra – sem entender o que ocorre, ele corre sem rumo, em busca de uma saída para a situação impossível causada pela guerra.



Abril_Os militares: bando de loucos!



Junho_Todos os livros escritos pelos marxistas [japoneses] são demagógicos, combativos ou parecem ensaios de estudantes secundários que descobriram a filosofia. Perdi a ingenuidade de me deixar levar nessa demagogia. Lamento por Marx ser divulgado através desses sujeitos.



Abril de 1943_[A notícia da morte do almirante Yamamoto Isoroku angustia Sasaki. Yamamoto opusera-se inicialmente à entrada do Japão na guerra, argumentando que o país não aguentaria seis meses, mas acabou designado para comandar o ataque a Pearl Harbor. Seu bombardeiro Mitsubishi “Betty” foi derrubado por caças americanos numa emboscada, causando profunda comoção à nação. Sasaki pensa em se apresentar como piloto suicida voluntário e morrer.] Sou um mero ser humano. Por vezes, meu peito explode de excitação quando imagino o dia em que vou decolar rumo ao céu. Treinei corpo e alma o quanto pude, e anseio pela chegada do dia de usar em combate todo o meu potencial. Minha vida e morte pertencem à missão. Mas há vezes em que invejo os estudantes de ciências que continuam em casa, isentos do serviço militar. Invejo os que se tornarão bibliotecários, engenheiros ou médicos, e escaparam do recrutamento. Sou atraído pela minha segunda alma terrena. Tenho duas almas escondidas dentro de mim, e cada uma desponta com os estímulos externos da minha mente. Uma de minhas almas olha para o céu, enquanto a outra sente atração pela terra. Gostaria de me alistar na Marinha o quanto antes, para poder me dedicar à minha tarefa. Tomara que passem logo os dias em que me sinto atormentado por pensamentos tolos.



11 de junho_[O desembarque das tropas americanas na ilha Attu desencadeia um longo solilóquio de Sasaki Hachirōsobre marxismo e capitalismo.] Vejo sinais de um novo ethos para uma nova era. Se o poder do velho capitalismo é algo do qual não conseguimos nos libertar a menos que ele seja esmagado pela guerra, estaremos transformando um desastre num fato positivo. Estamos em busca de uma fênix saída das cinzas. Mesmo que o Japão sofra uma ou duas derrotas, ele não será destruído se conseguir sobreviver. Não sou pessimista, mas não podemos negar a realidade. Temos de olhar para frente, superar os tempos difíceis. Nesta encruzilhada crítica da história, não podemos deixar que velhos capitalistas e militares irracionais se agarrem ao velho regime. Nós, os jovens, precisamos arcar com a responsabilidade de fazer nascer um novo mundo.



Novembro_Não sei se esperam que eu vença esta guerra, mas vou lutar o quanto puder... Rezo para que chegue logo o dia em que possamos saudar um mundo no qual não devamos matar inimigos que não conseguimos odiar. Para esse fim, estou disposto a ter meu corpo destroçado inúmeras vezes.



Dezembro de 1944_Finalmente vou para a Marinha. Treinei meu corpo praticando natação, ginástica e tiro ao alvo. Sinto-me confiante na minha força. Devemos agora tornar-nos escudos para garantir vida eterna à nossa nação e prevenir o avanço do inimigo. Meus estudos universitários são importantes, mas a disciplina que escolhi (economia), que é pragmática e socialmente relevante, será mais bem exercida se eu tiver um treinamento militar. E, mesmo que eu venha a tombar, a sociedade não depende de um só indivíduo.



20 de fevereiro de 1945_[Todos os soldados-estudantes foram reunidos num saguão da Universidade Imperial de Tóquio e “convidados” a se inscrever na lista de pilotos suicidas “voluntários”.]



14 de abril_[Sasaki Hachirōmorre aos 22 anos e 9 meses de idade.]





HAYASHI TADAO

O diário manuscrito de Hayashi Tadao foi compilado e editado por seu irmão mais velho, Katsuya, vários anos após o fim da guerra. As forças de ocupação americanas haviam imposto uma rígida censura ao Japão. Diários como o de Tadao eram confiscados. O irmão de Hayashi também quis dar tempo para que os próprios japoneses começassem a compreender o envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. E o porquê de se ter enviado tantos jovens universitários para a morte.

Os irmãos Hayashi e Katsuda compartilhavam o apego ao comunismo, à música clássica ocidental, à filosofia e a discussões sobre vida e morte. Pouco depois da guerra, a família recebeu uma caixa de madeira com a inscrição “A Heroica Alma do Saudoso Hayashi Tadao”. No lugar das cinzas, em uma pequena folha de papel branco havia as palavras “restos mortais” (ikotsu) escritas em caligrafia nobre.



6 de abril de 1940_À noite leio Debaixo das Rodas, de Hermann Hesse. A jovem alma [o personagem Hans Giebenrath] procura crescer contra a opressão do sistema educacional do mosteiro. Ele abandona o mosteiro e tenta seguir seu próprio caminho. Mas Hans adoece. A beleza e a efemeridade do seu espírito e alma levam ao triste final de sua vida. A corrente subterrânea da impermanência. Sopro de crescimento, bela mas frágil alma da juventude, e morte.



15 de abril_Dominar o idioma inglês e identificar um princípio que me guiará intelectualmente – o liberalismo – são duas tarefas importantes da minha busca. Me pergunto em vão: “Quanto tempo vou viver?”



23 de maio_Sigo uma agenda diária que me impus: ler cinco páginas em inglês e 100 em japonês... Durante meus anos de colegial me proponho a ler 300 livros em japonês, quinze em inglês [além dos do currículo escolar] e melhorar meu condicionamento físico com trinta minutos de exercícios diários. Não ler enquanto descanso.



19 de abril de 1941_A indulgência com emoções e o erótico tem sua razão de ser. Mesmo que não passe de uma união entre dois corpos, o ser humano está destinado a sentir que não pode viver sem a companhia de outro ser humano. É claro que o erotismo não brota apenas da solidão. Algo mais leva ao desejo de companhia. Mas talvez essa interpretação sirva apenas para estetizar o erotismo...



22 de junho_[A propósito da declaração de guerra da Alemanha à União Soviética.]O que vai acontecer com o Japão? A morte é imoral e viver é absolutamente moral.



31 de agosto_Japão, por que eu não te amo e não te respeito?



12 de outubro_A nação é uma entidade com enorme poder de controle.Não posso mais elogiar minha pátria. A guerra não se destina a proteger o país, mas é o resultado inevitável da forma como o Japão se desenvolveu como nação. Sinto que devo aceitar o destino da minha geração, lutar na guerra e morrer. Chamo isso de “destino”, uma vez que somos mandados ao campo de batalha para morrer sem podermos expressar nossas opiniões, criticar e dar argumentos a favor ou contra. Morrer na guerra, morrer sob a demanda da nação – não tenho a menor intenção de elogiar esse estado de coisas. Trata-se de uma grande tragédia.



20 de janeiro de 1942_Uma frase de Jean-Christophe [obra que valeu o Nobel de Literatura ao romancista francês Romain Rolland] me tocou fundo: “A vida consiste em uma batalha contínua e sem trégua. Se você quer se tornar um ser humano honrado, precisa lutar contra inimigos invisíveis, desastres naturais, desejos avassaladores, pensamentos sombrios; tudo o que engana a pessoa, a diminui, a destrói.”



18 de junho_Assisti a uma palestra do professor Tanabe Hajime [venerado membro da Escola de Filosofia de Kyoto]. Sua voz era tão miúda que ficou quase inaudível. Em suma, ele disse que “a filosofia é um treinamento para a morte. A realidade demanda a morte, isto é, o sacrifício da própria vida. Não se morre de acordo com a própria vontade”.



30 de setembro_Preciso ser sincero. O desejo sexual é doloroso. Olho para mim, tomado pela vontade de união física. Em seguida combato o impulso como se fosse sujo e feio, resultado da minha raiva por não satisfazer o desejo. Por outro lado, sonho em aspirar o cheiro do suor [de uma amante] que excita, o cheiro do corpo do sexo oposto, o toque em um corpo quente, a euforia do enlace de duas pessoas apaixonadas se descobrindo, sem o sentimento da vergonha, a dança selvagem do ato, o adormecer abraçado e a doce sensação de despertar a seu lado – são todas imagens que me atormentam. Luto diariamente com esta dor. Preciso assumir o controle sobre mim!



21 de maio de 1943_Outra palestra do professor T. Ele explicou que a Escola Estoica considera a morte um fenômeno natural, não controlável por nossa vontade, enquanto o existencialismo de Heidegger vê a morte como uma possibilidade realista – a possibilidade de renascer que deriva da nossa habilidade de encarar a morte. De acordo com o professor, nossa única salvação é sabermos que devemos morrer, que devemos viver nossas vidas preparados para mergulhar na morte a qualquer momento. A morte não é Sein [ser, em alemão], mas Sollen [dever ser]. Ele prosseguiu dizendo que a humanidade e Deus não entram em contato direto. São as nações que medeiam entre os dois. Devemos fazer o possível para manter os três conectados.



16 de junho_Ao ler Em Torno de uma Vida: Memórias de um Revolucionário [de Piotr Kropotkin, o anarquista], fiquei tocado pela força espiritual dos russos, em especial pelas mulheres da Rússia pré-revolucionária. Apesar de perseguidas pelo regime, elas procuraram obter conhecimento; algumas se aventuraram no exterior e acabaram por encontrar uma faculdade de medicina para mulheres. Nelas encontro o verdadeiro caráter dos russos. Nossa tendência, quando pensamos no povo russo, é evocar a imagem do miserável mundo descrito por Dostoiévski em Recordações da Casa dos Mortos, mas a intensa busca intelectual da verdade também existiu.



1º de dezembro_[Entre 200 mil e 300 mil estudantes foram convocados para a guerra. O número exato permanece incerto.]



9 de dezembro_[Entre os 63 mil jovens enviados para a base naval de Takeyama, em Yokosuka, estava Hayashi Tadao.]



19 de dezembro_Os dias passam rápido. Ainda assim, cada dia parece longo... Não se pode lutar sozinho em guerras modernas. Cada um se torna uma peça da roda. Como estou convencido de que esta guerra é uma Totalkrieg [guerra total], devo concordar com cada etapa necessária.



25 de dezembro_Estou decidido a manter meu diário. Mas o Geist [Espírito] precisa permanecer livre. Dado que procuramos manter a liberdade de espírito, nos sentimos controlados. Por sermos responsáveis pela proteção do país, devemos ter a firme convicção de pro patria mori, trabalhar nossa força física e dominar nossas qualificações técnicas.



1º de janeiro de 1944_Talvez o que nos espera seja uma funda desilusão e, para nossa sociedade, uma anarquia insidiosa. Sonho em me alongar sobre as ondas do mar num dia ensolarado de primavera para me intoxicar com pensamentos soltos enquanto meu corpo se solta à deriva na água... De repente, me vem à mente uma cena de Casa dos Mortos – no entardecer de um dia de verão de céu esbranquiçado, os prisioneiros são empurrados para dentro das celas.

Vivo na solidão.



3 de janeiro_Não fujo do sacrifício. Mas martírio e sacrifício devem ser feitos no auge da realização pessoal. Sacrifício ao término do autoaniquilamento, da dissolução do seu ser, não tem nenhum significado.



22 de janeiro_Os militares exterminam a paixão e transformam o ser humano numa peça que gira uma roda mecanicamente.



23 de janeiro_Estamos todos pessimistas quanto à possibilidade de voltar para casa. Se eu não conseguir sair da Marinha, vou enlouquecer. No momento eu só quero ler livros e nesse estado de espírito não vou conseguir lutar na guerra... Não tenho paixão. Sinto perda e indiferença. Não me importa o que venha a acontecer. O sentimento mais penoso e insuportável deriva dessa vida de forçada indiferença. A parte dura não é morrer, é viver.



28 de janeiro_[Hayashi Tadao é selecionado para piloto reserva e transferido para a base naval de Tsuchiura, notória pelo tratamento brutal conferido aos soldados.]



8 de maio_O individualismo não é um mero “ismo”, mas um princípio inato do ser humano. Realmente odeio os militares. A única utilidade que reconheço neles é o seu papel de protetor do nosso Volk [povo, em alemão].



19 de maio_Sinto-me cada vez mais atraído pela solidão, preces, dívida e responsabilidade social, mas nenhum sentimento de amor, que me parece remoto demais no momento.



2 de junho_Acabo de ouvir a Nona de Beethoven. Me tocou profundamente. Intensificou meu desejo de ler livros.



8 de junho_Prevejo a queda de Paris para dentro de um mês e meio. Agora começa o contra-ataque inimigo, com sua acachapante superioridade bélica. A catastrófica etapa descrita em Nada de Novo no Front [romance pacifista de Erich Maria Remarque sobre a Primeira Guerra Mundial] se aproxima.



16 de junho_Ataques aéreos contra Saipan, ilhas de Tinian e Bonin. A situação é muito tensa, mas para mim tanto faz o Japão ser destruído. É por demais tedioso ficar esperando.



20 de junho_Minha alma treme diante da tapeçaria literária de Tonio Kröger, de Thomas Mann, com sua pitada de solidão, sensibilidade aguda e uma sublimidade quase ameaçadora.



8 de julho_É pouco provável que eu consiga obter O Estado e a Revolução, de Lênin. Meu plano, então, é memorizar A Última, de Wilhelm Schmidtbonn, e O Apóstolo, de Rilke.



14 de Julho_Hoje encerro meu diário, fruto da minha empobrecida vida espiritual. Eu, confusão e anarquia, estou reduzido a isso. O que me atrai são questões sobre a natureza da sociedade moderna. Neste diário eu expus minhas fraquezas. Este misérable humano na sua totalidade está aqui retratado. Escrever o diário foi uma forma de encontrar algum sentido para mim.

O que desejaria, para mim, é andar pelas ruas de Moscou com uma boina na cabeça, estudar economia e política internacional numa Bibliothek alemã ou me envolver numa análise teórica dos rumos a serem tomados pelo Japão. Se eu viver, é o que farei. Se eu morrer, terá sido um mero sonho. Gostaria de pensar neste diário como o primeiro capítulo do registro de um ser humano que tinha um grande sonho, mas que não encontrou uma solução. Tentei como pude realizar este sonho. Fim.



Final de maio de 1945_[Antes de ser transferido para a base aeronaval de Miho, Hayashi Tadao implorou ao irmão que lhe emprestasse O Estado e a Revolução, de Lênin, à época proibido no Japão. O irmão conseguiu fazer-lhe chegar a obra e Hayashi Tadao lhe contou ter lido, página por página, no banheiro. A cada vez, rasgava a nova página em pedacinhos e a fazia sumir na privada. Houve vezes em que engoliu os pedacinhos.]



30 de maio_[Última carta à mãe.] Mãe. Quantas vezes você falou que viveríamos em Kyoto depois da minha formatura da faculdade... Kyoto é realmente uma cidade pacífica e plebeia. Você e eu – não há lugar melhor para vivermos juntos e continuarmos a nos aprimorar. Mãe, já não há esperança de vivermos juntos agora que fomos arrastados pelo redemoinho do tumulto mundial. Como você viverá? De qual força moral poderá você depender para a continuação da vida? Minha pobre mãe.



27 de julho_Entardecer, o momento mais belo... Sem avisar, milhões de imagens aparecem e desaparecem. Amado povo. Como é doloroso morrer no céu.



28 de julho_[Hayashi Tadao morreu aos 24 anos, já depois da rendição aos americanos. Seu avião explodiu numa noite enluarada.]





KASUkA TAKEO

Apesar da publicação de inúmeros testamentos, fotos e filmes mostrando jovens pilotos sorridentes fazendo o último aceno antes de decolar para a derradeira missão, um raro relato de como transcorria a noite de véspera mostra uma história inteiramente diversa. Kasuka Takeo tinha 86 anos em junho de 1995 quando narrou o que viu, numa noite como aquela. Durante a guerra, Kasuka Takeo tinha por tarefa cuidar das refeições, da lavanderia, da faxina e de outros trabalhos manuais para os pilotos tokkōtai da base aeronaval de Tsuchiura. Eis o trecho da carta enviada a um amigo:

No salão onde ocorriam as festas de despedida, os jovens oficiais estudantes bebiam saquê frio. Alguns engoliam o copo de um só trago. Outros sorviam grandes quantidades em goles consecutivos. O local se transformava em caos. Alguns quebravam lâmpadas com suas espadas. Outros arremessavam cadeiras contras as janelas e rasgavam as toalhas de mesa. Um misto de hinos militares com xingamentos enchia o salão. Enquanto alguns vociferavam em fúria, outros soluçavam. Era a última noite de suas vidas. Embora, para todos os efeitos, estivessem prontos a sacrificar sua preciosa juventude ao alvorecer, em nome do imperador e do Japão, eles estavam dilacerados – uns repousavam a cabeça na mesa, outros escreviam testamentos ou juntavam as palmas das mãos em meditação, ou dançavam feito alucinados. Na manhã seguinte, todos decolaram portando a faixa com o sol nascente na fronte.





NAKAO TAKENORI

Nascido em Fukuoka, numa família de classe média-alta, Nakao Takenori estudava direito na Universidade de Tóquio quando foi convocado para a guerra, em dezembro de 1943, aos 19 anos de idade.

Em 1997, seu irmão caçula publicou Registro de uma Busca Espiritual: Diário Manuscrito Deixado por Nakao Takenori, um Estudante que Morreu na Guerra. Com mais de 700 páginas, nele ficam evidentes a procura de um sentido para a vida e o desejo de ser “puro”, livre de qualquer materialismo ou egoísmo. A busca da mulher ideal também permeia os escritos de Nakao Takenori. Seu conhecimento de textos filosóficos em grego e latim, além de literatura alemã e francesa, era profundo.



Agosto de 1939_Embora Hitler e Napoleão tenham guerreado para expandir seus territórios nacionais, do ponto de vista histórico eles são apenas a ascensão e queda de um povo. Seres humanos nascem para a morte. Somos apenas um ciclo histórico. A história se repete. Qual o verdadeiro sentido do universo?



Dezembro_Ameaçar a vida de um inocente jamais deveria ser permitido. Do ponto de vista dos militares, porém, isso não importa, pois a única coisa que conta para eles é a honra. Eles não questionam o que é ou não verdade, apenas enchem o ar de mentiras.

Devo ingressar no mundo do caos em que interesses partidários obstruem a justiça? Não gostaria de fazer parte do mundo que aprimora a justiça somente para os burocratas e aumenta o poder dos militares. Prefiro me manter à margem e, como Zola [Émile Zola, autor de J’Accuse, panfleto de 1898 em defesa do oficial francês Alfred Dreyfus, de raiz judaica, acusado injustamente de traição], orientar a nação em direção à justiça e à verdade.



Abril de 1940_Sócrates foi forte. Sempre se opôs aos hipócritas e manteve seu sentido de justiça. Sinto não ser tão forte como ele.



Maio_Vejo tudo cinza. Desesperança e melancolia sem perspectiva de melhora. Não estou certo de conseguir suportar a exaustão física e mental. Devo simplesmente morrer, sem haver qualquer sentido à minha vida? Sinto como se tudo fosse desmoronar repentinamente.



Abril de 1941_Muitos estudantes aceitam o seu destino, aceitam a necessidade de lutar mesmo diante da matança cruel. Sacrificam as próprias vidas pela pátria e morrem abençoando suas mães e irmãos. É espantoso. Talvez seja esse o espírito que hoje torna a Alemanha vitoriosa. [Nakao Takenori acabara de ler uma coleção de cartas escritas por soldados-estudantes alemães da Primeira Guerra Mundial.]



Abril de 1943_Estamos lutando contra a Inglaterra, esse grande império em declínio, e contra uma América que está no ápice de sua cultura material. Embora eu ainda não esteja no campo de batalha físico, já me considero dentro. Eu, que procuro e amo o absoluto, devo me sacrificar pela pátria... Será o “absoluto” encontrável neste sacrifício?

Não consigo não me debater com esta contradição... Eu, que cheguei a conhecer a profundidade da vida e a viver essa vida, devo me sacrificar pelo país uma vez que é esse meu destino? Persigo a verdade, a duras penas.



28 de abril de 1945_[Última carta endereçada aos pais.] Na festa de despedida o pessoal me deu forças. Também me esforcei para me encorajar. Sinto-me uma pessoa feliz. Posso ir ao encontro da morte na certeza de ter recebido tratamento sincero de quem eu tratei bem... Meu copiloto é Uno Shigero, um garoto bacana de 19 anos... Ele me considera seu irmão mais velho e eu o vejo como meu irmão caçula. Unidos por um mesmo pulsar de coração, vamos mergulhar num navio inimigo. Uma foto minha, que tirei recentemente, ficará pronta em pouco tempo. Ela será enviada a vocês.



29 de abril_[Nakao e Uno decolam para a missão suicida, mas são forçados a retornar à base por mau funcionamento do avião.]



5 de maio_[Os pais de Nakao vão até a base naval de Takuma para ver o filho, mas são informados de que ele já havia sido transferido para outra base; não foram informados de que ele tinha morrido na véspera, ao mergulhar na batalha de Okinawa.]





HAYASHI ICHIZŌ

Nascido numa família cristã de cultura refinada, Hayashi Ichizōse formou pela Universidade Imperial de Kyoto e foi alistado aos 21 anos. Dois anos depois, foi selecionado como piloto tokkōtai. Em menos de dois meses partiu para sua missão final. Todos os trechos de seu diário datam de 1945, quando já estava aquartelado na base naval de Wŏnsan, na Coreia ocupada.



9 de janeiro de 1945_Ganhei um caderno novo e vou começar a escrever meu diário... Embora nossa missão seja lutar, é frustrante ficar esperando... Mais um dia sem poder decolar... Provavelmente não poderei ir à frente de combate antes do florescer das cerejeiras, nem quando elas já tiverem murchado.



22 de fevereiro_[Data em que foi designado para uma unidade tokkōtai.] Devemos seguir a expressão “Sob as ordens de Sua Majestade”. Recebemos a locação da nossa morte. Devemos simplesmente mergulhar com o avião. Seres humanos são dotados da capacidade de perdoar.



23 de fevereiro_Tenho tido tanto medo da morte, mas ela já foi decidida por nós...Quando penso na minha mãe, não consigo não chorar. Sei que tentarão consolá-la, mas sei que não será fácil aliviar sua dor. Choro muito ao pensar nela...

Tenho a sorte de crer em Deus, e minha mãe também. Embora eu vá morrer, sonho com o nosso reencontro... Tenho a forte esperança de que nosso país irá superar esta crise e haverá de prosperar. Não suportaria a ideia de a nossa pátria ser esmagada pelo inimigo sujo.

Para ser sincero, não posso afirmar que o desejo de morrer pelo imperador seja genuíno, que ele venha do fundo do coração. Mas foi decidido assim.

Não terei medo no momento da morte. Tenho medo do quanto o medo da morte perturba a minha vida.



4 de março_O motivo pelo qual ando pensando em suicídio é porque a morte em combate significa o meu completo aniquilamento, impedindo que eu contribua para a sociedade, que eu empreenda algo. É fácil falar de morte no abstrato, como nas discussões dos filósofos da Antiguidade. É a morte real que temo e não sei se poderei superar este medo.



19 de março_Gostaria de fazer alguma diferença no mundo. Não nego que parte desse desejo deriva da minha vontade de ter a existência reconhecida. Mas sobretudo ele deriva do vazio que sinto e da minha ira com os chamados líderes, que são incapazes de reconhecer problemas que até eu consigo identificar.

Os militares que ocupam altos postos estão cometendo um pecado que não pode ser desculpado: estão matando crianças e civis inocentes na China.

Não tenho mais tempo para fugir... Desta vez não vou tentar escapar.



21 de março_Com os preparativos para a decolagem final sinto um peso dentro de mim. Acho que não conseguirei olhar a morte na cara.

Desespero, desespero é pecado.



Abril_[A missão final de Hayashi Ichizōfoi abortada devido ao mau funcionamento do seu avião. Isso permitiu que ainda escrevesse mais três “cartas de despedida” à mãe.] Hoje metade de nossa unidade mergulhou sobre navios inimigos ao largo de Okinawa. Não temos luz, por isso escrevo perto de uma fogueira.

Mando lembranças a todos. Não me resta tempo para escrever-lhes. Vamos afundar navios inimigos. O uniforme de um piloto tokkōtai para sua última missão inclui uma bandana com o sol nascente e uma echarpe de seda branca em volta do pescoço... Para meu último voo vou enrolar no meu corpo a bandeira do Sol Nascente que você me deu e vou colocar uma foto sua no peito... Quando você ouvir pelo rádio que navios inimigos foram afundados, por favor lembre que mergulhei em um deles.

Amanhã não estarei mais vivo. Os que saíram em missão ontem estão todos mortos? Não consigo crer que seja real. Sinto como se fossem retornar de repente. Você talvez pense a mesma coisa em relação a mim. Mas, por favor, desista. Por favor, chore. Mas, por favor, não fique tão triste.

Parto antes de você. E me pergunto se me será permitido ir para o céu. Ore por mim, mãe. Não suportaria a ideia de ir para um lugar onde você não se juntará a mim mais tarde.

Amanhã mergulho contra uma flotilha de porta-aviões inimigos. Se você fizer um funeral religioso, coloque a data certa: 10 de abril.

Salazar - Um ditador fascista?


Político sem brilho, destituído de carisma, Salazar comandou Portugal por mais de 35 anos. A sua condução de um pequeno país, em meio a uma Europa sacudida por abalos, é motivo para que a biografia de um homem insosso esteja longe de ser insossa

por Boris Fausto
Uma série de ditaduras marcou o mundo ocidental a partir dos anos 20 do século passado. Numa sequência que durou mais de vinte anos, Mussolini inaugurou o cortejo, ao tomar o poder na Itália, em 1922. Seguiram-se Salazar em Portugal (1932), Hitler na Alemanha (1933) e o general Franco na Espanha (1939). Atravessando o Atlântico, o Brasil teve a “glória” de figurar no cortejo, com o golpe de Getúlio Vargas, implantando o Estado Novo em novembro de 1937.

Os ditadores chegaram ao poder por diferentes vias, numa conjuntura em que a democracia liberal se enfraquecera e os regimes chamados fortes pareciam ser a fórmula regeneradora das nações doentes, corroídas pela desordem. Benito Mussolini se tornou Il Duce após um passeio, mitificado pelos seus seguidores: a marcha triunfal sobre Roma. António Salazar assumiu o poder sem abalos. Adolf Hitler foi chamado pelo presidente Hindenburg para salvar a Alemanha. Francisco Franco se destacou pela via sangrenta da guerra civil, da qual saiu vitorioso.

Nesse cortejo de ditadores da Europa Ocidental, segundo o grau de sinistra importância, Hitler ficou em primeiro lugar e Salazar na última posição, embora estivesse longe de ter exercido uma “ditadura branda”. Não por acaso, Hitler, Mussolini e Franco foram objeto de excelentes biografias. Salazar, pelo contrário, recebeu poucas atenções fora de Portugal. E é de um historiador português, Filipe Ribeiro de Meneses, uma qualificada e minuciosa biografia do ditador português. O livro foi escrito originalmente em inglês, sob o título de Salazar: A Political Biographye não há nessa edição o subtítulo publicitário “Biografia definitiva”, que consta da edição brasileira. Traduzido para o português de Portugal, o livro tem para nós, brasileiros, um sabor especial, pelo palavreado luso, que lhe dá um curioso gosto de autenticidade.

É de se perguntar: como é possível atravessar as mais de 800 páginas de uma biografia, cujo personagem central não é uma figura especialmente atraente? Se a minha receita servir, li o livro com grande interesse, prestando menos atenção em minúcias que me parecem secundárias para o leitor brasileiro.

António de Oliveira Salazar, ditador sem brilho, destituído de carisma, teve, entretanto, uma longa carreira política: comandou Portugal por 36 anos. Seus traços de personalidade, seu percurso na condução de um pequeno país, em meio a uma Europa sacudida por muitos abalos, o caráter sui generis do regime autoritário português são motivos suficientes para que a biografia de um homem insosso esteja longe de ser insossa.

Salazar nasceu numa pequena cidade, com um desses nomes evocativos de uma aldeia lusa: Santa Comba Dão. Único filho homem da família, viveu a infância num período em que seu pai, vindo da pobreza, alcançara condição mediana. Ao chegar à adolescência, abriam-se para ele dois caminhos numa sociedade que gerava poucas oportunidades econômicas: o sacerdócio e a carreira militar. Salazar entrou para o seminário de Viseu e chegou a receber ordens menores, a caminho de tornar-se sacerdote. Apesar de os padres representarem forte influência na sua formação católica conservadora e no seu moralismo, não seguiu carreira eclesiástica. Seguiu um rumo mais prestigioso, ao ingressar na Universidade de Coimbra em 1910, onde se especializaria em economia e finanças.

Na vida privada, Salazar foi um solteirão, atendido por uma governanta cinco anos mais velha do que ele durante todo o tempo em que viveu em Lisboa. A natureza das relações entre Salazar e Maria de Jesus Caetano Freire, que o país conhecia como dona Maria, deu margem a muita especulação, mas nada de certo se sabe a respeito. Em compensação, dois casos amorosos de Salazar, depois de chegar ao governo, tornaram-se conhecidos. Ambos envolveram relações complicadas: um deles, com uma sobrinha casada; o outro, com Maria Emília Vieira, jovem de vida boêmia, em Paris e na noite lisboeta. Por mais que ele fosse discreto em seus affaires, não era o “monge castrado” como o chamou num panfleto seu opositor Cunha Leal, banido, aliás, para os Açores.

Os casos de Salazar estão bem longe do ideal de família e do papel da mulher que pregava em seus escritos. A família, segundo ele, era “a célula social cuja estabilidade e firmeza são condição essencial do progresso”. Quanto à mulher, o maior elogio que se poderia fazer-lhe resumia-se a um epitáfio romano: “Era honesta, dirigia a casa; fiava lã.”

No plano das ideias, além da raiz fundamental – o catolicismo conservador –, ele foi bastante influenciado pela Action Française, movimento de direita em que figuravam nomes como Charles Maurras, Maurice Barrès e Gustave Le Bon. Este último impressionou Salazar pela relativização das instituições políticas existentes e por não acreditar na capacidade intelectual da grande massa.

A aproximação de Salazar com a política se deu a partir de seus escritos em jornais católicos de província, que tinha em grande conta porque considerava “a imprensa católica do país a mais séria, a mais ponderada, a única decente e limpa, que pode entrar em todas as casas, sem ministrar à donzela incauta o veneno do romance perigoso e sem tecer, sob atraentes formas, a apologia dos criminosos”.

A República portuguesa nunca chegou a se estabilizar. Ficou dividida entre as correntes partidárias, as conspirações monárquicas, a anarquia administrativa e o desequilíbrio orçamentário – herança maldita dos tempos da monarquia, derrubada em 1910. Em dezembro de 1917, um golpe de Estado abriu caminho para a ditadura militar de Sidónio Pais. Figura extraordinária esse Sidónio Pais! Sempre rodeado de belas mulheres, charmoso, carismático, populista, era pessoalmente o oposto de Salazar, que então iniciava seus passos na carreira política. A “República nova” de Sidónio, porém, durou pouco porque o “presidente-rei” foi morto a tiros, num atentado nas ruas de Lisboa, em dezembro de 1918.

Portugal voltou a ser uma democracia cuja morte anunciada percorreu os anos caóticos de 1920 a 1926. Após uma tentativa fracassada, Salazar elegeu-se deputado por um pequeno partido, o Centro Católico Português. Mais tarde, manifestaria desprezo por essa breve experiência parlamentar. Em 1920, oito primeiros-ministros passaram de raspão pelo poder e os assassinatos políticos se tornaram moeda corrente. Por fim, em 1928, uma facção militar desfechou um golpe de Estado. A ditadura, como o regime democrático anterior, seria marcada pela instabilidade não só política, como também econômica e financeira.

Foi um quadro conhecido: gastos crescentes, arrecadação insuficiente, déficits orçamentários. Os ministros da área econômica consideravam essencial obter um empréstimo internacional que ancorasse as finanças portuguesas e permitisse ao país concentrar investimentos em áreas estratégicas. Mas, como lembra Ribeiro de Meneses, havia grande desconfiança de tudo o que fosse português, a ponto de ter-se inventado um verbo em francês – portugaliser –,sinônimo de virar tudo pelo avesso.

Nesse quadro, a estrela do professor Salazar subia. Adversário do empréstimo externo, ele propôs, num relatório amplamente divulgado, medidas fiscais duras para tirar Portugal de uma situação difícil. Entre outras vantagens, o relatório o aproximou dos grandes grupos econômicos, que não eram muitos. Não tardaria a ser chamado para assumir o Ministério das Finanças, como homem providencial. Na véspera de completar 39 anos, tomou posse do cargo, em 27 de abril de 1928. Cada vez mais prestigiado, em meio às divisões no Exército e na sociedade, Salazar foi nomeado presidente do Conselho de Ministros, em junho de 1932. Na realidade, o cargo de primeiro-ministro era mero formalismo. Salazar tornou-se um ditador civil que comandou Portugal quase até sua morte.

Em linhas gerais, as medidas drásticas tomadas por ele, seja como ministro das Finanças, seja como ditador, surtiram efeito. A obstinação pelo equilíbrio orçamentário assim como um choque fiscal, suportado sobretudo pelas camadas pobres, possibilitaram o reequilíbrio econômico de Portugal. O país atravessou relativamente bem a Grande Depressão mundial iniciada em 1929, mesmo sofrendo um corte significativo dos recursos enviados pelos emigrantes portugueses, provenientes principalmente do Brasil. Ribeiro de Meneses rebate a tese corrente de que o Estado Novo luso se caracterizasse pelo imobilismo. Ao contrário, o regime salazarista representaria uma tentativa frustrada, mas nem por isso menos séria, de permitir a Portugal se desenvolver e se modernizar, dentro da ordem e do respeito às hierarquias sociais.

Salazar tornou-se ditador de uma forma bem diversa de seus contemporâneos.Mussolini apelou para a mobilização popular e para o nacionalismo. Supostamente, a Itália, após a Primeira Guerra Mundial, fora desprezada por seus parceiros maiores, vencedores da guerra. Hitler, além de utilizar o terrível ingrediente da conspiração mundial judaico-comunista, inflamou parte da população alemã, batendo na tecla do nacionalismo, ao insistir no direito da Alemanha de ocupar um lugar central na Europa depois de ter sido humilhada pelo Tratado de Versalhes. Franco subiu ao poder como vitorioso em uma guerra civil desastrosa, para ele uma cruzada cristã contra ateus e comunistas.

Bem longe da retórica ribombante dos ditadores de fascio e suástica, Salazar notabilizou-se por ter salvado Portugal do caos, por uma via que se pode chamar de burocrática. Em torno dele, não se elaborou um culto da personalidade, apesar de seu prestígio na maioria da população. Tinha aversão a aparições públicas, recusava-se a participar de comícios e, para completar, era mau orador e não aceitava baixar o nível dos discursos ou ceder a slogans fáceis de lembrar.

Nem por isso deixou de zelar por sua imagem, a fim de obter ganhos políticos. Por iniciativa do Secretariado de Propaganda Nacional – órgão que lembra o Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP do Brasil do Estado Novo – e dele próprio, sempre se apresentou ao público como um homem humilde, destituído de ambições políticas, que se dispusera a salvar o país, sem medir sacrifícios pessoais. Não fora essa elevada missão, permaneceria na cátedra de Coimbra – um remanso diante das dificuldades de dirigir Portugal. Em maio de 1935, o Diário da Manhã, órgão do regime, lançou essa pérola ao comentar um discurso do ditador: “SALAZAR, ou o ANTIDEMAGOGO: Seria essa a sua melhor definição. O demagogo dirige-se aos maus instintos... Salazar dirige-se às consciências bem formadas, aos impulsos de altruísmo e de equilíbrio, à pequena luz da Graça que dorme, latente, no íntimo de todas as criaturas.”

O salazarismo enfatizava a religiosidade, o nacionalismo, o anticomunismo, a crítica a um liberalismo que a modernidade do século XX não podia contemplar. O nacionalismo era “territorialmente satisfeito”, não se destacava pelo expansionismo, e sim como um instrumento para abafar a luta de classes. O importante era se dar bem com os vizinhos – a Espanha em particular – e manter o status quo nas “províncias de além-mar”.

O anticomunismo tornou-se virulento quando eclodiu a Guerra Civil Espanhola, em 1936. Para o regime, os republicanos e os “vermelhos” eram a mesma coisa, e ambos tinham pretensões negativas em relação a Portugal. Anos mais tarde, o perigo comunista viria a ser uma das justificativas de Salazar para tentar manter as colônias da África.

À primeira vista, pareceria que a ditadura salazarista era mais um regime fascista implantado na Europa Ocidental. A oposição portuguesa, na sua difícil luta política, tinha razões práticas para não olhar Portugal como um caso à parte. Mas, na verdade, apesar de seus namoros com o fascismo, o salazarismo distinguiu-se das correntes totalitárias tanto internas quanto externas.

Como nota Ribeiro de Meneses, no início do Estado Novo talvez a principal ameaça ao regime e a seu líder não viesse da esquerda, mas da extrema-direita, formada pelos integralistas e pelo Movimento Nacional-Sindicalista, de Rolão Preto. Os nacional-sindicalistas tendiam a transformar seu movimento, o dos “Camisas Azuis”, em um partido único. Insistiam em se constituir uma verdadeira representação corporativa da sociedade. Atacavam sem tréguas o comunismo e o capitalismo internacional. Batalhavam pela criação de um clima social propício ao surgimento de um líder carismático, condição que Salazar, sabidamente, não reunia.

Salazar preferiu seguir outro caminho – o da implantação de um regime autoritário, apoiado num setor do Exército. Se a garantia da ordem era cara aos militares, muitos oficiais, especialmente os fascistas e integralistas, faziam fortes restrições a Salazar, seja por sua atitude de transferir a cúpula do poder dos militares para os civis, seja pelos cortes orçamentários que impuseram restrições ao aparelhamento das Forças Armadas.

Como reafirmou Salazar nos últimos anos de vida, os limites do Exército eram claros: a instituição não poderia imiscuir-se nas lutas políticas, nem constituir um partido político, devendo cingir-se a suas tarefas específicas. Mais ainda, Salazar nunca pretendeu se apoiar na mobilização popular, como pretendiam as organizações fascistas, nem na força de um partido único. A União Nacional, lançada no início da ditadura, não teria as características de um partido único nos moldes do fascismo e, principalmente, do nazismo. Uma observação do historiador António Costa Pinto, citada no livro de Ribeiro de Meneses, lembrando que a União Nacional foi criada por decreto governamental, destaca com ironia: “A legislação sobre o partido foi passada do mesmo modo que a legislação sobre as ferrovias. A administração controlava-o, adormecia-o ou revitalizava-o de acordo com a situação de momento.”

Salazar se referia a Portugal como país de “elites paupérrimas”. Mas ele pouco fez para ampliar essas elites. Na linguagem de hoje, o primeiro escalão do governo e o aparelho administrativo foram recrutados, essencialmente, nos meios universitários. Além do Exército, apesar das reticências, o regime contou com o apoio da Igreja Católica. Quem, como eu, viveu aqueles tempos associou ao salazarismo dois nomes: o do general Carmona, que foi presidente de Portugal, e o do cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Cerejeira.

O formato autoritário do regime deveu-se tanto às convicções de Salazar quanto a seu pragmatismo, na medida em que ele levava em conta as lentas mudanças da sociedade portuguesa. Comparando o Estado Novo salazarista com o implantado no Brasil, ao lado de muitas semelhanças há, pelo menos, uma diferença básica: no âmbito de uma sociedade em crescimento, na qual a industrialização ganhava ímpeto, Getúlio não poderia prescindir de uma política para a classe trabalhadora, configurada no populismo.

No terreno ideológico, se Salazar não se afinava com o fascismo, adotava alguns de seus modelos. Um bom exemplo é o Estatuto do Trabalho Nacional, de setembro de 1933, inspirado na Carta del Lavoro de Mussolini, de 1927. Quase dez anos depois, a Consolidação das Leis do Trabalho, baixada no Brasil no curso do Estado Novo, teve a mesma inspiração.

O Estado devia ser o centro da organização política e seu papel seria de “promover, harmonizar e fiscalizar todas as atividades nacionais”, tendo como órgão principal o Poder Executivo. Esse Estado forte deveria intervir em todas as atividades e, decisivamente, no campo econômico, em face da crise de que padecia o capitalismo. Ao mesmo tempo, era necessário reconciliar a nação e o Estado, de uma forma nunca conseguida desde o despontar do liberalismo em Portugal, em 1820. A reconciliação teria de ser alcançada pela educação, por um lado, e, por outro, pelo advento de uma nova Constituição, capaz de reavivar o país, ao refletir realisticamente seus corpos sociais ativos: a família, a paróquia, o município e a corporação econômica. Nessa reconciliação, o papel dominante caberia ao Estado, ao qual a nação deveria se integrar.

Entretanto, Salazar insistia que havia limites morais e espirituais à ação estatal, em áreas que, para além da política, pertenciam à consciência individual. Essas áreas privadas serviam como baluarte teórico e prático contra a extrema-direita, e para manter os católicos em papel relevante. Nesse passo, Salazar se distinguia de seus mestres da Action Française, ao rejeitar a noção maurrasiana de la politique d’abord – a política antes de tudo.

Uma expressão muito utilizada na época definiu o regime salazarista como uma “ditadura constitucional”. A expressão tinha razão de ser. Em abril de 1933, uma nova Constituição, aprovada por plebiscito, transformou o Estado numa República unitária e corporativa. A Constituição previa a eleição de um presidente pelo voto direto, cabendo a ele nomear um conselho de ministros e o seu presidente. Outros órgãos institucionais eram a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa.

Teoricamente, a maior soma de poderes cabia ao presidente, mas foi o primeiro-ministro – Salazar, como é óbvio – quem concentrou as decisões governamentais. A Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa tinham um papel secundário. Ambas se reuniam apenas três meses por ano e esta última desempenhava papel opinativo. A Assembleia Nacional era uma caricatura de um Parlamento, mesmo porque Salazar – tal como outros ditadores de seu tempo – considerava o Parlamento uma instituição caduca, expressão de um liberalismo moribundo e palco para disputas estéreis dos partidos políticos. O corporativismo era parte de um programa político católico que Salazar sempre defendera. Na prática, porém, as organizações corporativas tiveram como funções prioritárias exercer uma forma de controle social, desenvolver o capitalismo nacional e reforçar o papel do Estado.

A consolidação de Salazar no poder foi rápida. A oposição formava um arco que ia dos republicanos conservadores, empurrados para fora da ditadura militar e do Estado Novo, ao Partido Comunista Português, o PCP, liderado por Álvaro Cunhal. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, os opositores tiveram escassa repercussão. O desinteresse pela política, a censura aos meios de comunicação, a repressão dos dissidentes, muitos deles sujeitos a prisões e torturas, foram elementos inibidores de uma oposição eficaz.

Em um país de reduzidas dimensões, a polícia política – a famosa Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a Pide – estava por toda parte. Dois estabelecimentos penais eram especialmente temidos: Peniche, uma fortaleza no alto de um penedo, situado na ponta mais ocidental de Portugal, e o campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago em Cabo Verde, onde morreram dezenas de prisioneiros políticos. No verão de 1937, um atentado a bomba – façanha de uma célula anarquista – serviu para “justificar” a repressão e para demonstrações de apoio a Salazar.

Em 1945, na onda de democratização que se seguiu ao conflito mundial (como o fim do Estado Novo no Brasil), Salazar anunciou eleições legislativas para novembro daquele ano, abertas a todos quantos quisessem desafiar a lista da União Nacional. Meses antes, chegara a dizer que “as eleições seriam livres como as da livre Inglaterra”. Republicanos e comunistas uniram-se no Movimento de Unidade Democrática, mas a Pide passou a acossar e prender os membros do movimento, que acabou se retirando do pleito.

Uma variante desse cenário ocorreu nas eleições para presidente da República, de fevereiro de 1949. A oposição, na qual o PCP tinha grande influência, lançou o nome de Norton de Mattos, um general de tendências moderadas. Comícios entusiásticos mostraram que o antissalazarismo ganhava a opinião pública. Mas, ainda uma vez, a acossada oposição se complicou e Norton de Matos retirou a candidatura.

Tornou-se cada vez mais claro que as eleições, mesmo em condições anormais, tinham-se convertido em um problema para o salazarismo. No pleito de 1958, o país foi tomado por uma febre eleitoral com a candidatura de outro general, Humberto Delgado, salazarista histórico que passara para a oposição. Delgado manteve sua candidatura até o fim, e só a fraude eleitoral permitiu a vitória do almirante Américo Tomás.

A vida do general Delgado e de sua secretária brasileira, Arajaryr Campos, terminou de forma trágica, em fevereiro de 1965, quando ambos foram assassinados em território espanhol, ao tentar cruzar a fronteira para Portugal. As mortes, perpetradas por agentes da Pide com a autorização de Salazar, tiveram repercussão internacional e quebraram o prestígio do “manso ditador”. O ex-presidente Jânio Quadros enviou um telegrama a Salazar, insistindo numa investigação completa do caso pelas Nações Unidas.

Espetacular foi a façanha do capitão Henrique Galvão, que em janeiro de 1961 fugiu da prisão em Portugal e, à frente de um grupo rebelde de nome quixotesco, o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação, apresou no Caribe um navio de passageiros – o Santa Maria. Rumando para o sul, Galvão enviou uma saudação ao povo brasileiro, à imprensa e ao recém-eleito presidente brasileiro, Jânio Quadros. Ao que tudo indica, Galvão esperou a posse de Jânio para desembarcar no Recife, pois JK, seu antecessor, tinha boas relações com a ditadura portuguesa. O “homem da vassoura” enviou a Galvão uma mensagem de boas-vindas e lhe concedeu asilo político. Ele nunca mais voltaria a Portugal e, anos mais tarde, morreria no Brasil.

No plano das relações exteriores, Portugal mantinha tradicionalmente laços estreitos com a Inglaterra, numa posição de inferioridade. Apesar da oposição das correntes germanófilas, o país entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados e enviou um contingente militar para lutar nos campos da França. A implantação da ditadura salazarista não impediu a continuidade das boas relações com a Inglaterra, mas esta nem sempre apoiou as decisões do governo português. Salazar suscitou severas críticas dos ingleses, por exemplo, quando, de forma dissimulada mas significativa, ele apoiou o general Franco durante a Guerra Civil Espanhola.

Ao eclodir a Segunda Guerra Mundial, porém, a neutralidade de Portugal foi apoiada sem ressalvas pela Inglaterra. Salazar manteve essa postura, mesmo quando a queda da França parecia prenunciar a vitória do nazifascismo, e procurou influenciar o general Franco para que a Espanha também se mantivesse neutra. Mas em 1941, quando Hitler invadiu a União Soviética, Franco se colocou abertamente do lado alemão, enviando um contingente militar – a Divisão Azul – para lutar, ou melhor, para ser destroçado, na Frente Oriental.

Salazar nunca se identificou com o regime nazista, embora agentes da Alemanha, como de outros países, circulassem em Portugal sem serem incomodados. Numa carta enviada a um de seus confidentes mais próximos, em setembro de 1941, ele afirmou: “Considero uma desgraça para a Europa que (...) o nazismo se imponha por toda a parte com a sua violência e rigidez de alguns de seus princípios. Para os que têm da Civilização uma noção moral, será um franco retrocesso.”

Salazar não via os Estados Unidos com os mesmos bons olhos com que via a Inglaterra. Os americanos – segundo ele – eram estranhos aos princípios europeus. E representavam um capitalismo sem freios, com pretensões hegemônicas. Alguém perguntaria: que importava, afinal de contas, para os Estados Unidos, a postura do nanico Portugal? A resposta pode ser sintetizada na importância estratégica do arquipélago dos Açores. Em julho de 1941, o presidente Roosevelt enviou uma carta a Salazar, afirmando que a utilização do arquipélago, e de outras possessões portuguesas, nada tinha a ver com uma ocupação. Para o propósito de proteger os Açores, Roosevelt dizia ter todo o gosto em incluir forças brasileiras, mas não se chegou a tanto. Depois de muitas pressões e longos entendimentos, Portugal autorizou a utilização dos Açores, primeiro pelos britânicos e depois, com relutância, pelos americanos.

No pós-guerra, a insistência de Salazar na manutenção das colônias da África a qualquer preço acelerou a desagregação do Império português. Portugal invocava a ameaça da União Soviética no continente africano. Dizia que não havia racismo, e sim harmonia de raças nas colônias portuguesas. E lembrava o exemplo maior do Brasil – uma nação luso-tropical cuja história passava pelo papel desempenhado por Portugal. O defensor intelectual dessa ideologia foi Gilberto Freyre, particularmente no livro O Mundo que o Português Criou. Embora Salazar e seus acólitos tivessem horror da importância que ele atribuía à herança africana em Portugal, deixaram o aspecto de lado para utilizar as ideias de Gilberto Freyre, um intelectual de inegável prestígio. Alguns livros do sociólogo brasileiro foram publicados em Portugal e ele visitou o país várias vezes, a convite do governo português.

As colônias portuguesas na Ásia foram caindo, uma a uma: Timor, Goa, Macau. Mas Salazar não podia admitir o abandono das “províncias ultramarinas” da África, cada vez mais convencido de que a independência delas levaria ao domínio da União Soviética ou ao caos generalizado. Os movimentos de independência estendiam-se da Guiné-Bissau e Cabo Verde a Angola e Moçambique. Em busca de uma política integradora e assimilacionista, o governo tentou sem êxito a reforma – uma espécie de luso-tropicalismo em forma legislativa, na feliz expressão de Ribeiro de Meneses. Na verdade, a prolongada Guerra da Angola, cada vez mais impopular em Portugal e na África, a cujo final Salazar não chegou a assistir, foi um fator dos mais importantesna queda da ditadura.

Salazar não teve a morte violenta de Mussolini e de Hitler. Como o general Franco, morreu na cama, de morte natural, em julho de 1970. Meses antes, quando sofrera um acidente cardiovascular, fora substituído no poder, sem seu conhecimento, por Marcelo Caetano, atitude que lhe causou profunda amargura. Caetano tentou inutilmente reformar o regime para garantir sua sobrevivência. A Revolução dos Cravos poria fim à ditadura em 1974, por iniciativa dos quadros médios do Exército, acolhidos pela população, num clima de forte emoção. O deus de Salazar poupou-o desse espetáculo de desordem, como certamente ele o denominaria.

Passadas muitas décadas, a Europa Ocidental de hoje é muito diversa do que foi dos anos 30 até meados da década seguinte. A era das ditaduras teve fim, a Alemanha e a França – inimigas mortais em três guerras – tornaram-se nações amigas, o comunismo deixou de ser um fantasma perturbador, o sonho da União Europeia converteu-se em realidade.

Não obstante, nos dias de hoje, a União Europeia atravessa ventos e tempestades, e os temas econômicos e financeiros – déficits orçamentários, irresponsabilidade fiscal – entraram na ordem do dia. Tudo isso soaria familiar aos ouvidos do professor Salazar e ele talvez pensasse que poderia retornar do “assento etéreo” a este mundo, como homem providencial. Nesse caso, alguém precisaria dizer-lhe que os tempos são outros, pois estamos em busca de líderes, aliás muito escassos, e não de homens providenciais.

Raízes do século XXI


Em Veneno Remédio, José Miguel Wisnik retoma a tradição do ensaio de interpretação nacional, tendo agora o futebol como metáfora

por Pedro Meira Monteiro

Por que não se escrevem mais ensaios de interpretação nacional?

Haverá quem acredite que esse tipo de ensaio não tem cabimento hoje em dia. Afinal, quando Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda escreveram Casa-Grande & Senzala e Raízes do Brasil, há quase oitenta anos, não havia a massa de conhecimento que hoje se tem, graças ao trabalho de décadas de cientistas sociais e historiadores. Mas se esse conhecimento todo permite falar de forma mais nuançada sobre o Brasil, ele também inibe, lembrando que qualquer tentativa de fixar traços nacionais será um exercício impressionista que não resiste a uma análise criteriosa da sociedade e da história.

O ensaio de interpretação nacional, contudo, não é e nunca foi o resultado do acúmulo de informações. O ensaio não fala do Brasil como ele é. Seu horizonte é radicalmente outro, diferente daquilo que pode propor um estudo de cunho científico ou histórico. O horizonte do ensaio é de natureza ética, quase transcendente. Ele sonda a vocação da coletividade: indaga não apenas como se veio parar aqui, mas aonde se vai e, mais ainda, aonde se deve ir. Seu campo de visão inclui o passado, o presente e o futuro num continuum, apostando numa história de larguíssimo alcance, como se navegássemos num fluxo cujo destino é ignorado. E o verdadeiro ensaísta é aquele que nomeia o destino, fazendo dele uma fábula na qual o leitor possa se reconhecer.

Então, depois de décadas de desenvolvimento das ciências sociais e dos estudos históricos, há ainda lugar para um ensaio que nomeie a vocação do Brasil?

A resposta veio há três anos, na forma de um livro que pode se tornar o Raízes do Brasil do século XXI: Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik. É lamentável que, sobretudo no meio acadêmico, ele não tenha ainda gerado grandes debates. Talvez haja alguma reticência por conta do tema, já que nem todos os intelectuais estão a fim de levar o futebol a sério. Mas talvez o problema esteja em que o livro ponha o dedo numa questão mal resolvida: a mestiçagem. Não a mestiçagem como mescla, apenas, de traços genéticos ou fenotípicos, mas sim como a quebra fundamental de padrões associados à ordem e à disciplina. A mestiçagem, em suma, enquanto mistura de matrizes e princípios civilizacionais. Que seria, por assim dizer, uma bagunça fertilizante.

Para Wisnik, o futebol não é uma válvula de escape para tensões sociais, um entretenimento banal, ou mesmo simples expressão de interesses econômicos e mercantis. O futebol é antes um sistema simbólico que aproxima amplos setores da sociedade da experiência real da perda e do ganho, que, como tais, serão sentidos e vividos como uma experiência coletiva. Ou perdem todos, ou ganham todos. Daí não se poder negligenciar o alcance político e identitário dessa aventura compartilhada.

A tentação de ver aí uma pulsão populista, de possível manipulação das massas, é grande, embora equívoca. É verdade que o fanatismo das torcidas é uma forma de apagamento de qualquer respeito pela diferença (o hooliganismo é um fato), mas antes do fanatismo há uma imensa gradação de possibilidades associativas, de identificação com o que se passa dentro de campo. Não escapará ao leitor a matriz psicanalítica de Wisnik: quando se fala do futebol, trata-se de analisar mecanismos de transferência complexos, isto é, o que se dá em campo tem uma implicação para o sujeito que assiste à partida, porque ali está cifrada a história e, porventura, o destino não apenas dele, mas de todos.

Uma diferença fundamental em relação às formações coletivas manipulatórias como o fascismo, dirá Wisnik, é que elas vivem no estado hipnótico que as leva para a frente, evitando tudo o que possa fazê-las cair na real (ou “no real”, em termos psicanalíticos), enquanto o jogo propicia uma batalha encantatória que está sempre à beira do real, e que inelutavelmente cairá nele. De fato, por mais que a partida encante, quando se joga para valer o risco da derrota é assumido e vivido, como se a perda fizesse parte do diálogo que o sujeito entretém com o destino.

Quando se joga, aprende-se a perder, enquanto a formação fascista se sustenta na negação de toda perda, evitando qualquer sombra de frustração, sempre buscando, com irritação e violência, varrer do mapa aqueles que pareçam colaborar para uma derrota inaceitável.



Por que “veneno-remédio”, o termo com o qual Wisnik caracteriza o futebol brasileiro? A fórmula remete ao phármakon, que contém em si as sementes da cura e da destruição. A constatação do livro é mais ou menos simples, em parte intuitiva, mas sempre certeira: o Brasil viveria numa oscilação imaginária entre o sucesso e o descalabro. Somos os melhores, ou então não prestamos para nada.

O país, dirá Wisnik, “é ou receita de felicidade ou fracasso sem saída”. Não se admite nada entre os dois polos, e a mais perfeita sátira desse estado da alma coletiva é o “emplasto Brás Cubas”, que Machado de Assis pôs na imaginação de seu personagem, para que ele morresse pensando numa solução providencial que aliviasse de vez esta “melancólica humanidade”. Contra a tristeza profunda, a alegria eterna. Disso ainda morreremos, seria a lição de Machado.

Veneno Remédio é um livro no qual a erudição futebolística faz par com a análise cultural e filosófica. Se a síntese que ele propõe está próxima da indefinição radical de Sérgio Buarque de Holanda quanto ao futuro do Brasil, o aspecto elíptico e abundante da prosa de Wisnik o aproxima, nesse ponto ao menos, de Gilberto Freyre. Ou talvez, Veneno Remédio faça o meio de campo entre os dois ensaístas, já que é deles que Wisnik extrai as traves de seu pensamento.

Limito-me aqui a uma questão, fundamentalmesmo para aqueles que não ligam para o futebol. Trata-se de algo que, em Veneno Remédio, é nomeado como a “vocação não linear do futebol brasileiro”.

Por que a não linearidade, a elipse e os contornos sinuosos são chamados a dizer algo que vai além do campo de futebol? Como essa resistência ao retilíneo pode ajudar a compreender toda uma formação social, e coloca perguntas sobre o destino coletivo? A resposta parte de uma iluminação provocada pela literatura.

Além de amante do futebol e músico, Wisnik é um talentoso crítico literário. Daí que Veneno Remédio se inspire, logo de primeira, na distinção do cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini, que, no início dos anos 70, imaginou a oposição entre o futebol jogado em prosa, que ele associava às equipes europeias, e aquele jogado em poesia, identificado ao futebol sul-americano e, sobretudo, brasileiro.

A provocação tem consequências profundas para a compreensão do jogo visto por dentro. Mas, ao mesmo tempo, ela aponta para formas diversas de jogar com o pacto social, maneiras diferentes de explorar, enfim, os espaços dentro da sociedade. Num lado, europeu (capitalista, urbano, Primeiro Mundo etc.), a “vocação linear e finalista”, com “passes triangulados, ênfase defensiva, contra-ataque, cruzamento e finalização”; de outro, latino-americano (periférico, rural, Terceiro Mundo etc.), a “irrupção de eventos não lineares”, com a “criação de espaços vazios, corta-luzes, autonomia dos dribles, motivação atacante congênita”. Duas matrizes de jogo, e duas possíveis civilizações em confronto, ainda que se trate de princípios presentes em cada uma das sociedades em pauta.



Mesmo feita a ressalva dessa não exclusividade dos dois princípios, é chegado aqui um momento sensível, quando leitores mais zangados, desconfiados diante da matriz “freyriana” que elogia a civilização tropical em sua maleabilidade e ductilidade, atribuirão a Wisnik a apologia da malemolência nos trópicos, como se cada drible efetivo, em sua fulgurante beleza plástica, fosse a prova da superioridade de uma sociedade que, por assim dizer, contorna o conflito, incapaz que é de enfrentá-lo. Aí estaria, ademais, a leitura risonha do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, que os desavisados costumam identificar ao apagamento da violência, com o sucesso de uma “bondade natural” plenamente realizada na pátria bem-aventurada.

Conviria que o leitor em questão engolisse a zanga e, por um momento, recolhesse os lábios à posição original, antes de ensaiar seu sorriso irônico diante de – vejam só! – mais um a formar na fileira dos seguidores de Freyre. Discutir se Wisnik é mais ou menos freyriano é de uma ociosidade brutal. Evidentemente, há algo propriamente modernista, tendendo porventura mais a Mário e Oswald de Andrade que a Freyre, no estudo das consequências desses dribles, ou dessas “irrupções” que terminam por criar um curto-circuito na ordem linear dos objetivos claros, buscados segundo a lógica cristalina de meios e fins. Ou ainda, haverá aí algo tropicalista, com o sonho de uma civilização que se faz a expensas da ordem ameaçadora da técnica e da previsibilidade, apostando na soltura dionisíaca, vinda do prazer e da alegria do corpo.

O técnico, nesse sentido, é um castrador indesejado. Se necessário, exigirá do sujeito genial que deixe de lado seus rompantes criativos em nome da eficiência, porque os resultados são o que importa. Trata-se de um complexo de Dunga ou de Parreira, que não à toa acabaram por desempenhar a função paradigmática do técnico castrador, odiado exatamente porque poda aquilo que o Brasil teria de melhor.

Não é que castração e técnica sejam dispensáveis. Qualquer organização psíquica (inclusive coletiva) se desenvolve no intervalo entre a regra assumida e internalizada, de um lado, e o espaço que se costuma identificar como a “liberdade”, de outro. Esse espaço “livre” não existiria sem a ordem estabelecida. Não só a transgressão não existe sem a lei, como a própria liberdade depende, afinal de contas, do rompimento de uma regra fixada internamente, funcional no plano subjetivo. Para usar o velho jargão psicanalítico, não se joga bem quando o superego domina absoluto, mas tampouco há que deixar soltos os instintos, ou melhor, o id, o “isto” que, incontrolado, mergulharia a todos numa batalha sem tréguas e sem fim.



Deixo para lá algumas das miragens internas do livro, como o encantamento de Wisnik pelo caráter único do futebol que, ao contrário do football jogado nos Estados Unidos, viveria à borda do imponderável, infenso à natureza cumulativa e progressiva dos esportes mais populares entre os norte-americanos. De fato, há algo muito interessante num esporte como o futebol (soccer), em que os mínimos e inesperados detalhes podem mudar o destino da partida, dando a sensação de que nem sempre o melhor é que vence, como se no fim houvesse uma possível justiça poética a aguardar ainda os mais fracos, para redimi-los. Enquanto isso, esportes como o basquete ou o futebol americano vivem do acúmulo linear de pontos, tornando praticamente inevitável que, ao final, vença o melhor, isto é, aquele que soube conjugar técnica, preparo e talento, abolindo, por assim dizer, o poder do azar.

É o poder do azar (sim, Mallarmé é também central em Veneno Remédio…) que está em jogo, quando entra em cena a “superioridade” do futebol brasileiro. Mas não se trata do azar como castigo cósmico, ou como determinação mítica do rumo da história. O “azar” em questão aponta para o poder fecundante da indeterminação, daquilo que se abre em uma miríade de possibilidades, exatamente porque não há nada capaz de cerrar ou controlar o quadro, quando se trata de uma jogada propriamente poética – e há muitas, belissimamente descritas no livro.

A poesia (e com ela o futebol, em seus momentos epifânicos) vive no limite da indeterminação, explorando as fronteiras do possível, alargando-as, nessa “faixa de gratuidade estrutural” que Wisnik atribui ao futebol. A técnica, no entanto, trabalha com as fronteiras do possível, atendo-se a elas e respeitando-as, numa espécie de reverência pelo que já está dado.

Imagina-se o alcance, portanto, da “não linearidade” que Veneno Remédio postula como característica nacional e que, em vez de constituir um caráter inelutável ou fixo, é simplesmente um elemento em jogo, com o qual os brasileiros devem se haver e que pode inclusive beneficiá-los. De uma perspectiva “racional” (desenvolvida, controladora, técnica etc.), a não linearidade é um defeito maior, mas é dessa droga que o Brasil extrairá seu remédio, ou seja, é a partir desse veneno que o país poderá dialogar com os donos do mundo, o que levaria a pensar no futebol como um “emplasto Brás Cubas que deu certo”. A ideia é tentadora, e fez com que Wisnik, a meio da partida, chamasse a campo um outro Buarque de Holanda, desta vez o filho do autor de Raízes do Brasil.

Observando uma pelada entre garotos europeus e filhos de imigrantes em Paris, em 1998, Chico Buarque notou que os ricos jogavam como “donos do campo”, privilegiando “o controle da bola em função da ocupação organizada do território”, enquanto os pobres eram apenas os “donos da bola”. A passagem vale a citação completa, pelo remate tocante: os filhos de imigrantes, diz Wisnik, secundando Chico Buarque, “se aproveitam, no futebol, da oportunidade de se adestrar o mais possível na intimidade com a bola (desenvolvendo no jogo aquela perícia que conhecemos, dolorosamente esplêndida e desperdiçada no espetáculo fugaz dos ‘malabaristas do sinal vermelho’). Unssãoequilibrados, outros sãoequilibristas”.

Entre o equilibrado e o equilibrista agita-se a questão do domínio dos códigos e, também, da confiança que se pode ter nas regras. Bem equilibrado, o rico joga como se o campo fosse seu plano natural, já que cada milímetro dele pode e deve ser ocupado racionalmente. A exceção, claro, é o ponto exato e itinerante em que está a bola, porque ali é que o “pobre” aparece para equilibrar-se, e o aspecto circense do estilo de Ronaldinho Gaúcho é provavelmente o que vem à mente do leitor. Afinal, ninguém disse ao pobre que o campo é também seu, portanto é melhor que ele não se fie na simples ocupação racional e horizontal do espaço, e é melhor que construa suas maravilhas para cima e para os lados, mas sempre em torno de si, sem perder a bola, em sua condição de ponto instável de equilíbrio.

Ainda na tabelinha entre pais e filhos, José Miguel avança com as observações de Guilherme Wisnik, lembrando que a ocupação do espaço é reveladora quando se trata da história norte-americana em sua marcha para o oeste. Aí estaria a “vocação imperialista para a conquista”, para a ocupação de ponta a ponta do território, que o faz pensar no campo de football, mas também numa grande linhagem poética que vai “de Walt Whitman a Herman Melville, incluindo John Ford, Frank Lloyd Wright e a land art”.

Já nós (um “nós” imaginário, como convém aos ensaios) nos equilibramos onde podemos, e como podemos. Porém, em Veneno Remédio a não linearidade não é chamada a dizer simplesmente a verdade de um “jeitinho”, ou de uma “bossa”: “coisas nossas”, no linguajar de Noel Rosa. De nada adiantaria, aliás, edulcorar tais “coisas” e pendurá-las na parede das nossas ilusões, como um troféu que dissesse a nós mesmos que somos os melhores, mesmo que o resto do mundo não saiba disso. Em suma, não se trata de autocondescendência ou autocelebração. Veneno Remédio é uma pergunta urgente sobre o que fazer com o que temos: como evoluir a partir desse estado de coisas?



Em certo momento do livro, quando escritores diversos são convocados a dizer algo sobre o futebol, Wisnik lembra Mário de Andrade, que, discorrendo sobre uma derrota do Brasil para a Argentina em 1939, imaginou os brasileiros como “onze beija-flores” indefesos diante da azeitada máquina platina, como se uma “Minerva-Argentina” desse uma palmada de mestre “num Dionísio adolescente e já completamente embriagado” que, em sua teimosia divina, inventava todavia “umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar” e “uns voleios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas”.



Aí está o segredo de Veneno Remédio: a sublimidade de uma promessa irrealizada, de um espasmo de beleza e genialidade que se consome no próprio instante, que se esvai sem tornar-se produtivo, espetáculo fugaz e inútil, como o dos meninos malabaristas. Mas como converter essa produtividade improdutiva, esse momento glorioso e sem consequências, em um projeto, em uma cadeia de consequências claras e estáveis para a sociedade? Como, do prazer ininterrupto que move Macunaíma em sua saga de anti-herói, construir algo? Haveria que parar e mandar Macunaíma à escola, ensinar-lhe a técnica que ele por princípio despreza e ignora?

Garrincha é Macunaíma, Macunaíma é Garrincha. Para além das semelhanças “biográficas” desse saci-curupira de pés tortos – nascimento excepcional, crescimento anormal, precocidade e retardamento conjuntos –, Garrincha é o senhor do drible, que o leva a extremos inimagináveis de graça e curvatura. O drible macunaímico de Mané Garrincha é, para Wisnik, a conjunção benéfica de três termos: a elipse (a fuga da linearidade que produz um efeito poético, no plano retórico), o chiste (um instantâneo do inconsciente, nos termos de Freud) e a síncopa (acento contramétrico que se dá no encontro das rítmicas europeia e africana). Todos os três são dribles, à sua maneira: a elipse é uma maneira de contornar o próximo termo lógico, criando uma suspensão e um desvio inesperado no discurso; o chiste (Witz, no original; Freudianslip, em inglês; mot d’esprit, em francês) é o deslizamento que permite enganar a censura do consciente e soltar aquilo que estava guardado e reprimido no inconsciente; já a síncopa abre a possibilidade de que o corpo escorregue entre o tempo e o contratempo, desdobrando-se para caber num espaço que resiste à vocação marcial da marcha, expandindo-se naqueles requebros e meneios capoeirísticos que aos cronistas mais tradicionais da virada do século XIX para o XX pareceriam simples elemento regressivo, perigosamente africanizado, e que aos modernistas, justamente, vão parecer um tesouro, algo próximo à nossa mais pura essência, ou talvez, nos termos de Mário de Andrade, a nossas mais “sublimes promessas”.

Mas nem só de Garrinchas se faz uma nação, e convém perguntar até quando o amadorismo “renitente” e “pré-moderno” poderá existir, numa sociedade que avança e começa a ensaiar seu futuro a sério. Veneno Remédio aparece, não à toa, no momento em que o Brasil vai experimentando a sensação rara de que, talvez, haja um lugar para si à mesa do mundo desenvolvido. Evidentemente, a tensão entre a técnica e a soltura, a previsibilidade e a gratuidade, o virtual e o atual coloca-se como questão agônica para o país e explica, ao menos em parte, por que o “ensaio de interpretação nacional” renasceu justamente agora, em meio ao empuxe da última década, que nos levará sabe Deus aonde. Quando a pergunta transcendente – sobre o fim que aguarda a coletividade – começa a fazer sentido e a subir de volume, o ensaio se torna urgente, permitindo que a imaginação crítica solte as amarras da objetividade estrita, tão necessária quanto limitante.

Melhor nem entrar no caso de Pelé, deixando aos amantes do futebol a tarefa de buscar o diálogo que, em Veneno Remédio, Wisnik enceta com Tostão e Décio Pignatari, para compreender o jogador em tudo excepcional, que parece ter dado “atualidade ao virtual”. Fiquemos apenas com o balanço irresolvido e irresolvível entre a técnica e a soltura, o equilibrado e o equilibrista, que nos joga numa espécie de túnel na história das ideias, em cujo fim estão os luminosos debates do modernismo brasileiro, que por sua vez se atualizam na discussão que, em plena ditadura, o crítico Antonio Candido fez do balanço entre a “ordem” e a “desordem”. Um balanço irrequieto, provocativo, que Candido cunharia celebremente, não sem um fundo de ironia, como a “dialética da malandragem”.



Quando publicou seu ensaio em 1970, Antonio Candido analisou Leonardo, personagem central de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Ali já estava cifrado todo o problema a que Wisnik procura responder em seu ensaio. No romance do século XIX, de acordo com Candido, “poderíamos dizer que há um hemisfério positivo da ordem e um hemisfério negativo da desordem, funcionando como dois ímãs que atraem Leonardo, depois de terem atraído seus pais. A dinâmica do livro pressupõe uma gangorra dos dois polos, enquanto Leonardo vai crescendo e participando ora de um, ora de outro, até ser finalmente absorvido pelo polo convencionalmente positivo”.

Ocorre que, numa leitura crítica de corte nitidamente modernista, Antonio Candido extraiu, segundo Wisnik, “uma interpretação de surpreendente acento positivo”, ao concluir que o romance produziria, em sua atmosfera de negaceios, “um encantador ‘mundo sem culpa’ de ânimo democrático e tolerante, avesso a estigmatizações e caças a bruxas”. Haveria, portanto, uma discreta preferência pelo valor paradoxalmente positivo da desordem, como se Garrincha ganhasse a batalha, embora talvez não a guerra.

Ao apontar para a maneira como a estrutura social se entranha na forma do romance, as teses de Antonio Candido seriam depois fundamentais para Roberto Schwarz, que aliás cobrou dele, num ensaio intitulado “Pressupostos, salvo engano, da dialética da malandragem”, o encantamento pelo polo da desordem, num momento em que, justamente, o Brasil necessitava de alguma ordem jurídica que fizesse frente ao arbítrio da ditadura. Mas antes que nos percamos nesse cipoal de questões tão interessantes, vale a pena notar que a “dialética da malandragem” se refere a um balanço, a uma “gangorra” entre polos diversos, sem apontar necessariamente para a vitória ou prevalência de um dos lados. Nem poesia nem prosa, nem epifania nem técnica, nem futebol nem football, trata-se antes de uma irresolução radical.



A leitura proveitosa de Veneno Remédio exige que se leve a sério a provocação do título, mas também que se preste atenção ao fato de que sua argumentação é cuidadosamente armada em oposições sucessivas, fecundas em sua irresolução e tensão: “prosa e poesia”, “capotão e capital”, “rito e jogo”, “a lama e a grama” etc. Basta notar como se constrói o ensaio, para entender que Wisnik fala de uma indivisível (não à toa, este é o título de seu recém-lançado CD) unidade de contrários, de um balanço perpétuo que grita como a verdade mais funda do Brasil. Não uma verdade essencial, parada no tempo e no espaço, mergulhada nas profundezas geológicas do “ser”, mas a verdade de uma tensão e de uma irresolução, sem que se apague jamais a sensação de que, podendo, os brasileiros cairão no polo da desordem, pois lá os choques se “abrandam” e o mundo se revela potencialmente “mais aberto”.

Aqui regressa o pomo da discórdia, porque essa face supostamente porosa e maleável aponta, justamente, para o encontro incruento, para a cordialidade em sua face mais generosa, abrindo as cortinas do passado para a questão espinhosa da herança da escravidão e de como ela se estabeleceu e desenvolveu no Brasil.

Não se pode dizer que Wisnik fuja ao problema. Ao contrário, ele tenta agarrar o touro à unha quando, recuperando o diálogo do crítico exilado Anatol Rosenfeld com Mário Filho sobre a presença do negro no futebol, sugere que se instaura uma espécie de “democracia racial em campo”. Estando ainda tão cerca o calor das primeiras discussões sobre política afirmativa no país, vale a pena reproduzir a ressalva na íntegra: “Podemos dizer que a democracia racial do futebol brasileiro prescreve (no sentido médico, de indicar um remédio), mas não descreve o Brasil. Ou, ainda, que ela descreve possibilidades realizadas e significativas que não se completam como sistema. Em outras palavras, o país não coincide consigo mesmo, e a democracia racial tem de ser complexamente pensada como algo que é e não é, contendo nesse paradoxo o xis da questão.”

A questão é como sair do campo de futebol, como realizar aquilo que não se realiza senão como momento ínfimo e espetacular, espraiando a promessa para convertê-la em realidade ou num “sistema” que permita à sociedade driblar a oposição dura entre as classes e as raças. O problema é tão mais gritante quanto classe e raça produzam overlaps, confundindo-se tanto e tão frequentemente no Brasil.

A miscigenação não é, portanto, a simples promessa da mistura. Nenhuma “raça cósmica” deve se formar no horizonte dessa civilização, nem há nenhuma intenção de negar o racismo no Brasil (“racismo à brasileira”, diria Roberto DaMatta), ou desqualificar a importância dos movimentos negros, por exemplo. O que há, em Veneno Remédio, é a aposta na pluralidade de uma fórmula compósita, como se uma matriz civilizacional mais “porosa” pudesse nascer daí, dessa desatenção às linhas retas que permitem esclarecer, sem margem a equívoco, quem está de um lado e quem está do outro.

O caminho é traiçoeiro e Wisnik conhece suas armadilhas. A principal delas é o “luso-tropicalismo” de Gilberto Freyre, que, em sua fase mais infeliz e reacionária, se entusiasmou com Portugal salazarista, advogando a excepcionalidade e a doçura do domínio lusitano nos trópicos (quando Portugal possuía ainda suas colônias na África, é bom lembrar). Pode-se argumentar, contudo, que as soluções políticas do Freyre luso-tropicalista não estavam ainda completamente reveladas em Casa-Grande & Senzala, de 1933. Mas deixemos de caminhar sobre brasas, para voltar ao horizonte de Veneno Remédio.

O princípio ingovernável – que Wisnik chamará, com divertida e irônica precisão, de “valor pantropológico” – sugere haver algo indefinível sempre que nos aproximamos desse campo de experimentações que seria, para todos os efeitos, o futebol. Nele, algo como uma indecisão reinante faz lembrar o diagnóstico de Caetano Veloso, que, olhando para o espelho norte-americano, lembra que “aqui embaixo a indefinição é o regime”.

A onda tropicalista, a que se juntam outros além de Caetano e Wisnik (Hermano Vianna, por exemplo), vive da crença nesse espaço limite em que a ordem resvala e falha, permitindo a entrada em cena de um elemento inesperado, resistente à classificação. Podem-se tirar daí teoremas raciais, ou pós-raciais, que não poucos críticos identificarão a uma forma perversa de autonegação de um país que jamais saldou sua dívida histórica com os negros. Mas esta seria uma forma de colocá-los, a autores como Wisnik, Caetano ou Hermano (de resto tão diferentes), numa redoma em que eles se tornam os representantes indesejados de um redivivo e muitas vezes mal compreendido freyrianismo. Esse enquadramento violento e empobrecedor é, no entanto, uma maneira de não ouvir o que eles estão dizendo.

O trabalho e a reflexão sobre os limites da ordem são a forma viva de se pensar os limites da classificação, bem como os limites dos espaços sociais. O que não quer dizer, é claro, que a brincadeira promovida com a des/ordem em campo possa abolir as barreiras reais e cruéis que existem fora dele. Há aí um problema que, não sendo apenas um xis gritante no plano das ideias, nos atira diante de questões de ordem sociológica e histórica. Afinal, a “alquimia” do veneno-remédio – o futebol brasileiro – ainda não produziu a fórmula que traga a democracia para o plano do real, isto é, que promova aquela “queda no real” que Wisnik justamente propõe, e que é talvez a única maneira efetiva de romper o encanto de qualquer fórmula mágica. Mas aí, quebrado o feitiço, que será feito do Brasil?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Notícias História Viva


O túmulo da família Cipião, em Roma, está localizado junto à Porta di San Sebastiano, perto das Termas de Caracalla (AFP, Vincenzo Pinto)

Aberto em Roma o túmulo da família de Cipião, o Africano
(AFP)
ROMA — O mausoléu, em Roma, da família Scipioni, à qual pertenceu o ilustre general Cipião, o Africano, (em latim Publius Cornelius Scipio Africanus), célebre pela atuação durante as guerras púnicas, nas quais derrotou o invasor Aníbal de Cartago, no século III a. C. será aberto ao público no dia 27 de dezembro, depois de permanecer 20 anos fechada.
A batalha de Zama (que alguns historiadores chamam de "Batalha de Waterloo" da antiguidade), foi um feito que rendeu a Cipião a alcunha de Africanus.
O monumento funerário, composto por uma série de galerias subterrâneas de dois metros de altura, com elegantes sarcófagos, está localizado junto à Porta di San Sebastiano, a algumas centenas de metros das Termas de Caracalla, um dos locais mais fascinantes da parte histórica de Roma.
A construção, que possuía na entrada um imponente edificio de colunas, foi iniciada pelo cônsul romano Lucius Cornelius Scipion Barbato.
O general Cipião, o Africano, foi o único que conseguiu derrotar Aníbal durante a Segunda Guerra Púnica, depois da invasão da Itália pelos exércitos cartagineses.
No entanto, a elegância do local traz um dado surpreendente: Cipião, o Africano, não foi enterrado aí.
Acusado de ter recibido soborno, deixou Roma e não voltou nunca mais. Diz-se que passou seus últimos dias dedicado a uma plantação em sua propriedade de Litermum (perto de Nápoles), e que antes de morrer pediu que seu corpo ficasse aí, não na Roma ingrata.
Seu pedido foi atendido e seu túmulo ainda existia em Litermum, segundo o historiador romano Tito Livio.
"Pátria ingrata, não te deixarei nem meus ossos", dizia seu epitáfio.
"Aqui se respira História", comentou Rita Volpe, arqueóloga responsável pelo monumento, em Roma, cercado de ciprestes e pinheiros.
"Estudamos as guerras púnicas no colégio e aqui estão enterrados quase todos seus protagonistas", comentou ela à AFP.
O túmulo foi descoberto por acaso, em 1780, por dois religiosos, proprietários de um vinhedo.
Os trabalhos recentes de restauração, no valor de 1,3 milhão de euros, foram financiados pela prefeitura e começaram em 2008.
A zona arqueológica foi fechada em 1992, devido às más condições do terreno e o risco de desabamentos. Estende-se por mais de 2.000 metros quadrados, até a região de Appia Antica.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX


GRAHAM, Richard. 1997. Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. 542 pp.

Ivana Stolze Lima
Doutoranda em História, UFF

Por que um sistema político forjado para assegurar a manutenção das hierarquias sociais, garantir a continuidade da escravidão e do virtual monopólio da propriedade fundiária precisou de eleições tão constantes e que ocupavam a atenção das comunidades durante quase todo o ano? Por que o último país a pôr fim à escravidão, e única monarquia americana tinha um número de pessoas envolvidas com o processo eleitoral maior que o de alguns países europeus da mesma época? Como o clientelismo, que assegurou o predomínio social e político do chefe local sobre seus parentes e aderentes, foi a base através da qual se construiu a centralização política de um Estado "moderno" e familiar ao mesmo tempo? Estas são algumas das originais e instigantes questões levantadas por Richard Graham em livro que enriquece decisivamente a historiografia sobre a sociedade brasileira do século XIX, mas que nos leva a uma inevitável e um tanto angustiante reflexão sobre as nossas próprias crenças eleitorais.

Através de descrições minuciosas de situações, rituais eleitorais, do detalhamento de processos políticos e administrativos, Graham evidencia o contexto histórico sem separar política, relações sociais, e experiências culturais. O clientelismo, ainda que gerado para consolidar a supremacia dos proprietários de terra e escravos articulada ao poder central, não aparece como um sistema infalível ou isento de incertezas e tensões. O controle social obtido nunca foi absoluto, e as ameaças de desordem, brechas, desobediências, ansiedades continuaram a atuar. Ao tratar das ansiedades dos líderes políticos, das mobilidades sociais e espaciais, Graham indica que sua perspectiva não está restrita à elucidação de um modelo formal, ou de um sistema em funcionamento perfeito e harmônico, uma vez que a tensão e o movimento estão presentes no fenômeno que desvenda.

A legislação, relatórios ministeriais e de outras autoridades, memorialistas, discursos parlamentares, e outras publicações do século XIX foram pesquisados. Mas as principais fontes do livro são correspondências oficiais e pessoais, em quantidade formidável, a que a análise empresta uma inédita dimensão de conjunto, a partir da qual o autor indica a extensão nacional do clientelismo. No fundo mais do que isso, pois a construção do Estado centralizado baseou-se nas redes clientelistas. Nega-se uma imagem mais ou menos atual, provavelmente gestada na Primeira República, de que o Nordeste seria o grande responsável pelo atraso de um suposto projeto de modernidade.

"As estruturas da política", "A atuação política" e "A prática do clientelismo" são as três partes do livro através das quais se vislumbra a vida social e política do Império, em uma narrativa circular. "O Teatro das Eleições" é o capítulo mais inovador e pode ser escolhido como entrada, merecendo um comentário mais longo. A Constituição de 1824 implementou um sistema de eleições indiretas e censitárias. Os votantes escolheriam os membros do colégio eleitoral – ou eleitores – que por sua vez escolheriam os componentes da Câmara dos Deputados. Mas a dúvida levantada pelo autor é: quem eram de fato os votantes? Longe estavam de pertencer a uma "classe dominante", como nebulosamente defenderam algumas correntes da historiografia que não haviam ainda se debruçado sobre tal documentação, e com olhos menos predispostos a reconhecer a especificidade da política na época imperial. Vinham, antes, do variegado mundo dos homens livres, sem distinção formal baseada em raça ou exigência de alfabetização. A junta de qualificação, controlada pela facção no poder, decidia quem seria ou não qualificado como votante. As interpretações da lei sobre as exigências de renda obedeciam à necessidade dos chefes locais em arrebanhar protegidos, levando-os quase como um pequeno exército a encher nos dias de eleição as pequenas cidades. Ali eram calçados, vestidos, alimentados e alojados, e mantidos sob cuidadosa vigilância, pois adeptos do exército inimigo poderiam aliciá-los. Exibir seu número significava medir forças com o adversário. Havia um complexo jogo entre ações extralegais – pela força ou pela fraude – e a legalidade. Ostentar uma força (mesmo que não se concretizasse) seria o caminho para o futuro reconhecimento de um líder político.

Encenava-se a detalhada hierarquia social, os diferentes status dos votantes – bacharéis, membros da Guarda Nacional, clérigos, agregados ou simples lavradores –, a posição inferior dos votantes diante dos superiores, e mesmo a superioridade dos votantes sobre os demais habitantes livres e os escravos (distinção esta fundamental, ali mais uma vez lembrada). Mais do que uma exclusão, as eleições eram uma forma de diferenciação. Os clientes demonstravam lealdade, obediência, reconhecimento; os patrões reafirmavam seu dom de proteção. Por tudo isso o espetáculo devia e podia ser amplo, bem como essencialmente público, quase uma festa, embora uma festa sempre tensa e que podia ser também violenta.

Nas igrejas – onde antes havia sido montado um cenário ligeiramente diferente daquele dos dias comuns e que recortava, na hierarquia social, a ordem política – chegavam, ostentando as insígnias oficiais de cada cargo, o juiz de paz e membros da Câmara municipal, ocupando a mesa eleitoral, soberana sobre o resultado local das eleições. Ao lado destes, o padre. A partir de 1842 juntava-se a estes o delegado, presença do distante poder central, que roubava do juiz de paz – ele próprio eleito localmente – o lugar de presidente da mesa e outras atribuições policiais e judiciais, mudança que não se operou sem reações violentas.

Espelhando o paradigma familiar, a troca de lealdade e obediência por proteção e favores constituía a matriz das relações sociais entre clientes e patrões, recriada quase indefinidamente entre os vários estratos sociais.

O virtual monopólio da propriedade da terra consistia não tanto em interesse econômico imediato, mas em um decisivo instrumento político. Um grande proprietário transformava-se efetivamente em um chefe local ao formar sua própria clientela. Podia conseguir dos "moradores" que ocupavam suas terras algo parecido com um pequeno exército, fosse para trabalhar em alguma empreitada ocasional, para votar ou para lutar. Ele também conseguiria livrar seus potenciais protegidos do recrutamento forçado, poderoso instrumento de controle social, da mesma forma que entregaria os recalcitrantes.

Também o governo central – simbolizado no primeiro pai, o Imperador – funcionava como uma espécie de padrinho para os chefes locais, constituindo-se na proteção contra as tensões sociais latentes, ao controlar uma rede de autoridades para vigiar a manutenção da ordem pública. Ficava cada vez mais claro que a autonomia regional ou provincial podia significar perigo. Ocupar aquela mesma rede de autoridade era objetivo dos chefes locais, uma vez que significaria aumentar sua clientela e prestígio. Surge daí o sentido da expressão "tomar posse" dos cargos públicos, ainda em voga. Por outro lado, o gabinete ministerial necessitava da lealdade do chefe local para consolidar a centralização política. Os ministros, mesmo nomeados pelo Imperador, dependiam do Congresso. Os deputados eram eleitos pelos chefes locais. Mas os ministros tinham o poder de controlar o processo eleitoral através das nomeações, seja para funções diretamente ligadas às eleições, seja para outros cargos que precisariam ser devidamente retribuídos com lealdade. Claro que o poder que nomeava também afastava. Toda a rede clientelista é minuciosamente explorada por Graham, nesse movimento de direções dispersas e às vezes contraditórias entre o poder local e o central.

A estrutura política recriava a hierarquia social. A cada voto, pedido de emprego, concessão de um favor, cada um reconhecia sua posição de inferior ou superior, dependendo da situação. Atender às solicitações dos clientes colocava em questão a própria posição como protetor, mesmo tratando-se de um ministro de Estado.

A análise da organização partidária do Império, evitando categorias anacrônicas, indica como Liberais e Conservadores participavam igualmente dos procedimentos clientelísticos. Sua cisão não era ideológica ou programática. A lealdade partidária, cuja manutenção não era tarefa fácil, dobrava-se antes a uma lealdade pessoal. Durante as campanhas procuravam-se as afinidades familiares, as amizades, as influências, as obrigações muito mais do que se defendia uma plataforma singular.

Curiosamente, era comum a preocupação em realizar eleições justas, o que significava aceitar que os adversários em algum momento participassem do poder. Os políticos acreditavam-se portadores de uma adesão plena aos princípios constitucionais e representativos.

Uma espécie de revezamento implícito expressava como cada partido ou facção, mais do que estar no governo, almejava ser o governo. As tensões entre facções ou entre autoridades, se bem administradas, perpetuavam o sistema como um todo.

Embora estabeleça como limites temporais do livro o reinado de D. Pedro II, entre 1840 e 1889, Graham reflete sobre o contexto de implantação do regime republicano ao abordar a reforma eleitoral de 1881 como fruto de transformações sociais. A introdução das eleições diretas e a exigência de alfabetização reduziu o número de habitantes envolvidos nas eleições de um milhão para 150 mil. Os argumentos favoráveis à reforma evidenciam que, com o fim iminente da escravidão, e o risco de que o sistema, tal como era, não fosse mais capaz de servir a seus objetivos, os fazendeiros aceitaram a restrição aos alfabetizados, bem como a nova forma de comprovação de renda. No entanto, a mudança era uma adaptação do clientelismo, pois os procedimentos básicos continuaram. A República continuou tanto com o voto restrito sob a nova aparência de universal, quanto com o clientelismo, desde então tornado federal. Haveria, entretanto, agora, novos cargos na disputa.

Finalmente, a narrativa não segue um tom comum entre alguns brasilianistas norte-americanos, pretendente a uma descrição empírica neutra que desperta certo enfado, apesar do mérito das pesquisas de grande alcance. Ao contrário, a leitura de Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX é marcada pelo envolvimento de sua escrita. A um entendimento estreito de que o clientelismo seria um fenômeno tipicamente brasileiro o autor contrapõe uma série de referências a lugares e épocas nos quais fenômenos semelhantes têm sido analisados.
Revista Mana