sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Notícias História Viva


Guerras da Memória e do Tempo
Ex-aliado de Lampião diz que Maria Bonita tinha ciúme e fazia intriga

Desde Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, incontáveis romances, peças teatrais, estudos universitários, músicas e filmes foram feitos aqui e no exterior sobre o massacre de Canudos, em 1897. Teses sociológicas, antropológicas e geológicas defendidas por Euclides caíram ao longo do tempo, mas a versão do escritor sobre a barbárie cometida pelos militares contra os seguidores do líder sertanejo Antônio Conselheiro prevaleceu nas novas obras de acadêmicos e artistas. O poder da palavra do intelectual, somado à força secular das narrativas populares, venceu até mesmo a máquina de reescrever a história da ditadura Vargas.

No começo de 1941, a ditadura do Estado Novo decidiu recontar a história do massacre, para derrubar a versão mais conhecida do episódio. Euclides escreveu que a atuação do Exército na Bahia foi criminosa e campanhas militares apresentaram uma série de estratégias e táticas erradas de guerra. O escritor afirmou que Canudos foi um refluxo no tempo.

A ditadura Vargas encarregou o tenente José de Macedo Braga, do Rio de Janeiro, então capital federal, de revirar arquivos do Exército e buscar informações no Nordeste para mostrar uma história diferente da narrada por Euclides. O tenente tinha por missão revelar que os chefes militares não foram humilhados e os jagunços de Conselheiro eram meros bandidos.

O Estado encontrou nos arquivos do Exército anotações do tenente Braga no decorrer da missão de reescrever a história. Ninguém pode acusar o tenente de não ter se esforçado na empreitada. Ele recolheu documentos, leu relatórios e datilografou depoimentos manuscritos de testemunhas.

A17 de fevereiro de 1941, Braga escreveu um roteiro de arquivos para quem dispusesse fazer novos livros. "A campanha de Canudos, no ano de 1897, (...) infelizmente ainda não foi escrita como devia ser", destacou. "É preciso dizer a verdade. "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e a "Guerra de Canudos", de Macedo Soares, são obras-primas da literatura, porém, sem os dados oficiais, como deve ser escrita uma história militar."

O tenente escreveu que era preciso pedir autos de processos das comarcas de Queimadas, Juazeiro, Monte Santo e Bonfim, listas de médicos, documentos do 6.º Batalhão de Artilharia e até do manicômio de Salvador. Na avaliação dele, esses documentos e os papéis do Exército garantiriam uma "obra notável, inédita e incomparável".

Ao passo em que se enfurnava nos documentos que lhe eram enviados, o tenente foi perdendo o entusiasmo. Em anotações posteriores, ele demonstrou ter perdido a crença em poder cumprir a missão de apresentar uma nova história.

Versão. Um documento de 1.º de março de 1941 expõe o desânimo e a surpresa do militar com testemunhos que coincidem com a versão de Euclides. Trata-se de relatório com depoimentos das "jagunças" Maria Lina e Maria do Carmo. O tenente faz uma observação na abertura do documento datilografado: "É triste, mas é verdade, o coronel Antonio Moreira Cesar, depois de morto, foi devorado pelos urubus!!!" Euclides já tinha deixado claro o fim do comandante da terceira campanha: Moreira Cesar, ao se aproximar do arraial, disse que pretendia almoçar em Canudos. O coronel virou comida das aves.

O depoimento de Maria Lina é um retrato da guerra. "Perguntada se assistiu aos últimos combates e se sabe responder alguma coisa em relação àquele desastre, inclusive à morte do coronel Moreira Cesar, respondeu que assistiu todo o combate travado em Canudos. Morreu muita gente nessa ocasião de parte a parte, sendo, porém, enterrados somente os adeptos de Antônio Conselheiro, ficando insepultos, no meio do campo, os soldados das forças legais."

A "jagunça" Maria do Carmo confirma as palavras de Maria Lina. "Perguntada o que sabe em relação ao último combate travado entre as forças legais e os jagunços de Antônio Conselheiro, respondeu que assistiu de longe a todo o combate. Verificou também a fuga das forças do governo e a resistência dos jagunços, ficando no campo grande número de mortos e feridos de ambas as partes. Disse mais: Conselheiro só mandava enterrar os seus adeptos, deixando insepultos todos os militares, que foram devorados pelos urubus."

A visão de Euclides da guerra - a repressão desmedida a brasileiros com poucas armas e muita fé - foi usada por historiadores e poetas regionais para contar histórias de muitos conflitos, como os descritos neste caderno: Caldeirão, uma pequena Canudos; Barbudos, uma Canudos no Sul; Encantado, a volta de Canudos; Santa Dica, um Conselheiro de saias; e outros capítulos apagados da história.

Guerra contra Lampião. Os nomes de Lampião, Maria Bonita e Corisco estão nas placas dos cibercafés, pizzarias e serviços de mototáxi abertos no atual momento de euforia no comércio popular do Nordeste. Setenta anos depois de erguerem bacamartes e punhais, os sobreviventes do Cangaço, no limite do esgotamento físico, travam agora, juntamente com pesquisadores e artistas conhecidos ou desconhecidos, uma luta para manter na história as marcas da barbárie. É na luta para se manter em pé que os cangaceiros e mesmo seus algozes se assemelham a outros mortais.

Em uma casa coberta de telha, em Delmiro Gouveia, sertão alagoano, vive a agricultora Aristéia Soares de Lima, 87 anos, possivelmente a última cangaceira. Com vestido longo roxo, usado sempre durante as visitas, a mulher miúda se esforça para conversar. Ela se recupera de um problema nas articulações, que a levou ficar internada por uma semana.

A ex-cangaceira busca uma posição na cama em que consiga conversar sem sofrer. Numa trégua do corpo, começa a falar da prisão, em Delmiro Gouveia. Foi pouco antes da volante (tropa) do tenente João Bezerra chegar à cidade carregando a cabeça de Lampião, morto no massacre de Angicos, em 1938. Conta que a qualquer movimento na rua tentava enxergar o que passava do lado de fora por uma pequena abertura na parede. Mas, naquele dia, preferiu ficar agachada na cela, em silêncio. "Eu não quis ver", diz Aristéia, com dificuldades. Só viu, depois, a euforia dos "macacos" - como eram chamados as volantes - e a surpresa dos moradores com o feito do tenente João Bezerra.

Aristéia intercala uma frase com um movimento de mãos ou de rosto expressando dor. Ela demonstra vontade de falar sobre o Cangaço. Sobreviveu porque se entregou à polícia. Foi logo depois do fuzilamento do marido, Catingueira. Antes de morrer, ele pediu a Moreno, chefe do grupo, que tirasse a mulher do Cangaço. Pelas leis dos bandos liderados por Lampião, mulher não podia sair ou ficar solteira. Era morta para não contar à polícia detalhes das estratégias do grupo. Moreno cumpriu a promessa e levou Aristéia para a cidade, onde ela procurou a polícia. Quando estava presa, soube da decapitação da irmã, Eleonora, também cangaceira. "Só arrancavam a cabeça para provar que mataram cangaceiro e ganhar comenda", diz Aristéia.

O filho e a nora de Aristéia, Pedro Soares e Damaris, exibem orgulhosos um brinco que ela recebeu de Cruzeiro, um temido cangaceiro. Aristéia não aceitou ficar com Cruzeiro, mesmo depois da morte de Catingueira. Ela lembra do dia em que o marido morreu. "Corremos quando começou o tiroteio. Na hora, a gente estava lavando os panos dos meninos. Saímos baleados", diz. "Enterraram Catingueira na caatinga." Ela estava grávida de oito meses. O filho, José, morreu tempos depois, em 1964, num assalto.

Temor. Um dia, conta, ouviu um policial dizer que nunca teve medo de Lampião. "Não tinha medo. Só corria à légua", ironiza. Aristéia discorda que Maria Bonita tenha sido a mulher mais bonita do cangaço. "A mulher mais bonita era a Durvinha", diz - e fecha e abre os olhos como se tivesse sentido uma fisgada. Dos homens, ela afirma que Virgínio, cunhado de Lampião, "ganhava a parada". "Ele era provado mesmo", conta. Ela assegura que a "peste" da polícia matou o cangaceiro Português já detido. O Português tinha se rendido em Mata Grande. "Foi só chegar e descer do carro para ser morto", lembra. "Como ele matou o pai de um soldado, o soldado matou Português."

Em suas lembranças, ela reclama que "a cangaceira Quitéria era o capeta" e fazia intriga contra Cristina, mulher de Português. "Dizem eles que Cristina "sartava" a cerca com Jetirana. Dizem eles, eu não vi. Só pode ter sido a Quitéria quem falou. Quitéria era danada por Português. O marido de Quitéria era Pedra Roxa. Pedra Roxa vivia doente, se entregou e pronto. Em pouco tempo também morreu."

Após a prisão, Aristéia teve mais sete filhos. A carteira de trabalho, expedida em 1972, nunca recebeu um carimbo. Teve problemas até mesmo para se alistar nos mutirões formados nas secas por causa da artrite. O problema tem impedido Aristéia de assistir ao Jornal Nacional e às missas, seus programas preferidos na TV.

Sentada na cama, busca uma posição em que possa sentir menos dor. Põe as duas mãos no rosto. Depois, leva a mão direita para baixo do braço esquerdo. Quase não há mais carne para conter o atrito dos ossos. Puxa algo da memória para desmentir alguma afirmação do filho Pedro. "Ôxe!" Solta uma piada, faz uma brincadeira. Não tem mais movimento nas faces para rir das histórias dos cangaceiros que "sartavam a cerca", dos casos de amor e traição. "Frouxos", diz, com voz firme, referindo-se aos policiais.

Do outro lado do município mora Antônio Vieira, 97 anos, sargento da reserva da Polícia Militar de Alagoas. A farda está impecável, como se tivesse de ser usada a qualquer hora. Na roupa está o registro do tipo sanguíneo: A+.

Antes de começar a entrevista, Vieira demonstra incômodo, como se sentisse falta de algo. A filha Edileuza vai até o quarto do pai e volta com um revólver 38. Ela explica que o pai só dorme e conversa com a arma ao lado. Agora, sim, com a arma na mão, ele fala do combate do extermínio de Lampião, em 28 de julho de 1938.

Segurando firme a arma, Vieira olha compenetrado para a câmera. Parece mirar um inimigo que agora não passa de uma criatura apenas de sua memória. "Lampião recebeu um tiro no peito e caiu. Maria Bonita caiu pertinho dele", conta. "Não posso dizer que matei Lampião. Ninguém pode dizer. Não dava para saber, era muita gente atirando."

Do Cangaço ao seringal. Um dos homens de Lampião que escaparam do cerco de Angicos foi Manoel Dantas Loiola, o Candeeiro. Aos 94 anos, ele vive em Buíque, sertão pernambucano. Vestindo camisa comprida, conta sua história, sentado num sofá da sala de uma casa simples. Reclama de Maria Bonita. "Ela não gostava da minha aproximação de Lampião", relata. "Só vivia fazendo intriga. Mas o chefe confiava em mim."

Após o cangaço, Candeeiro foi para a Amazônia trabalhar em seringais e só voltou mais tarde para o sertão. "Nunca esqueci aquele dia em Angicos. Passei muito tempo sem contar essa história", diz. "Lampião foi alertado que a volante estava na região, mas não deu importância." A fuga de Candeeiro do acampamento de Angicos foi uma das maiores proezas da região. Faz calor no sertão. Um dos filhos do ex-cangaceiro diz, baixo, que o pai jamais tira a camisa comprida. Ela esconde as marcas de bala de Angicos no braço esquerdo.
Jornal O Estadão

Notícias História Viva


Flagrantes da resistência às Ditaduras
O Cavaleiro da Esperança - Vida de Luís Carlos Prestes, obra de Jorge Amado, e as Memórias, de Gregório Bezerra - que estão de volta às livrarias brasileiras - recortam a história política do País

Paulo Sérgio Pinheiro - O Estado de S.Paulo

O Cavaleiro da Esperança - Vida de Luís Carlos Prestes, de Jorge Amado, foi publicado em 1942, na época do Estado Novo, e Memórias, de Gregório Bezerra, em 1979, durante a vigência da ditadura militar no Brasil. O problema com a leitura de O Cavaleiro... é haver tantos Prestes na sua longeva biografia que sempre existe o risco de lermos o livro pelos Prestes que virão depois. Quanto a Amado, Mario Vargas Llosa disse, certa vez, que o escritor baiano era uma espécie de Dorian Gray, que se transformava em cada livro, fazendo verdadeiras festas sensuais e literárias. Até em O Cavaleiro... ele mantém a marca registrada de seus romances, colocando no livro pitadas de música, dança, macumba - e mulheres. As que acompanhavam a Coluna Prestes eram chamadas vivandeiras, às vezes "amor no rastro dos homens""; outras, Anitas Garibaldi redivivas "Nas noites de parada, quando a Coluna se estendia pelas pradarias, como um rio de homens (?) nessas noites, sensual e lânguida, a mulata Onça se rebolava no maxixe dengoso. Dançava para os soldados a dança mais nacional e mais tentadora e mais lasciva", escreve Amado à página 121. E, na sequência, na 122: "Tia Maria, preta velha e de olhos brilhantes, que morreu dramaticamente, entre tortura (?) e nua diante das metralhadoras revolucionárias, invocava os deuses negros das macumbas".

Divulgação
Prestes (em primeiro plano) e Bezzera (de terno escuro), em 1945, num comício do PCB, no Recife

Em O Cavaleiro... como um underpainting, debaixo da pintura, Amado demarca-se no campo ideológico e político brasileiro e ajusta-se aos cânones do realismo-socialista, em voga em Moscou. Acerta contas com escritores como Coelho Neto; ataca os modernistas paulistas como um "movimento ligado aos oligarcas"; execra os integralistas e simpatizantes, como o "donzelo" Octavio de Faria. Exalta os "tenentes" da década dos 1920, como Juarez Távora, "puro, honesto (...) seu coração de gigante bom não acreditando na maldade humana", Juracy Magalhães, Eduardo Gomes, Cordeiro de Farias, futuros generais da ditadura de 1964.

Na mais pura vertente do culto da personalidade stalinista, Amado proclama que "todo o povo do Brasil (...) fez o milagre de heroísmo que é Luís Carlos Prestes, P no peito dos negros, no coração dos soldados da Coluna, luz no coração dos homens, operários. Marítimos, camponeses, poetas, sambistas, tenentes e capitães, romancistas e sábios. Luz no coração dos homens, das mulheres também, estrela da esperança. Um povo escravo precisando do seu Herói". Mas o constrangedor viés autoritário stalinista de O Cavaleiro... não foi em vão: Amado recebeu com justiça o Prêmio Stalin, em 1951.

Em O Cavaleiro..., os eventos-chave são a Coluna Prestes, a insurreição de 1935 e a repressão do Estado Novo. Na chochíssima história da Primeira República, a Coluna Prestes foi um evento estelar: entre 1926 e 1927, durante um ano e quatro meses os 1.500 e no final 800 revoltosos percorrem cerca de 25.000 quilômetros, obrigando o governo brasileiro a lançar mão de forças locais e recursos não convencionais, como Lampião e os cangaceiros. Quase três vezes mais longa que a Longa Marcha de Mao Tsé-tung em menos de um ano, num terreno mais acidentado, mas que termina por implantar um governo no Norte da China. A Coluna termina exilada na... Bolívia - e se dispersa. Em maio de 1930, Prestes contatado para liderar a revolução conclama um "governo de todos os trabalhadores baseados nos conselhos de trabalhadores da cidade e do campo, soldados e marinheiros". E em 1935, ele já no Partido Comunista do Brasil, PCB, subestimando a união das forças armadas e o fortalecimento do Estado depois da revolução de 1930, lança a revolta militar comunista no Rio, sem qualquer articulação popular - todos fragorosamente derrotados e barbaramente reprimidos.

Pela primeira vez na obra de um ficcionista foi escancarada com precisão a repressão brutal e bestial, ainda sob a democracia em 1935, bem antes do Estado Novo, que sofreram Prestes, sua mulher Olga Benário - importante quadro da Internacional Comunista, o Komintern, deportada grávida por Vargas para a Alemanha para ter morte certa, como judia e comunista que era, num campo de extermínio -, seus companheiros da revolta de 1935, e os agentes do Komintern enviados ao Rio. O Cavaleiro... foi crucial para a mobilização internacional para libertar a filha de Prestes e de Olga, Anita Leocádia, com 14 meses, presa com sua mãe em Barnimstrasse. O escritor André Malraux, engajado na causa, posou em Paris ao lado de D. Leocádia, a indômita mãe de Prestes.

O golpismo tenentista se conjugou com a estratégia oportunista do Komintern de apoiar uma revolução no Brasil porque correspondia a uma visão militarizada da insurreição nos países considerados "semicoloniais". Se Prestes fora capaz de todos os feitos decantados por Jorge Amado, sem o programa e as ideias comunistas, o que não faria armado do marxismo soviético! A insurreição de 1935 foi o reencontro dos revoltosos das rebeliões dos anos 1920, refratários à revolução de 1930, com o glacê da retórica messiânica do Komintern. Em 1935, Prestes se vale da insurreição militar pretendendo que fosse como a revolução russa de 1917.

Confluência. Uma outra perspectiva sobre a mesma conjuntura está nas Memórias, de Gregório Bezerra, que cobrem o período de 1900 a 1979, desde a infância do incansável combatente, em Pernambuco, seus primeiros anos de militância sindical na década de 1910 e no PCB. Nos 83 anos de sua vida, Bezerra sofreu tortura e prisões desde o começo de sua militância. Ficou preso dez anos, entre 1935 e 1945, por participação na revolta comunista do Recife e depois outros cinco, entre 1964 e 1969, período em que foi torturado e arrastado pelas ruas do Recife, amarrado em cordas, até ser trocado pelo embaixador americano. Não antes de divulgar documento em que condena o sequestro que possibilitou sua libertação.

A confluência de Prestes com Gregório - e com Amado - se dá também no breve período de legalidade do PCB em que Bezerra e o escritor baiano foram deputados e o Cavaleiro, senador na Constituinte de 1946.

As Memórias de Gregório Bezerra têm valor inestimável como visão de dentro da revolução de 1935 sobre a atuação dos comunistas no breve período da legalidade. E ainda mais rara sobre as atividades dos comunistas na clandestinidade, entre 1948 e 1964.

Em 13 de janeiro de 1948, o então deputado Gregório Bezerra foi escolhido para apresentar as despedidas do grupo na última sessão do congresso a que os parlamentares comunistas compareceram. O registro eleitoral do partido fora cancelado em maio de 1947 e os parlamentares comunistas tiveram cassados seus mandatos. A história da anulação do PCB é muito bem reconstituída por Gregório. Foi uma chicana jurídica promovida pelo governo, no novo contexto da guerra fria, dissimulando uma política de repressão popular em curso. A orquestração do fechamento do PCB, como bem mostra Bezerra, pode ser detectada desde o início do governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1950).

As Memórias são uma narrativa tensa, precisa. O heroísmo irrompe menos da personalidade de Gregório que dos feitos em si mesmos. A edição é bem cuidada, como a que traz O Cavaleiro..., com fotos raras, anexos e cronologia. Índice onomástico referido às páginas e aparato crítico de notas, além das originais, teriam ajudado a melhor compreender o contexto em que os livros foram escritos. De qualquer modo, essas reedições são muito bem-vindas. O Cavaleiro da Esperança e as Memórias permitem rever a atuação dos comunistas em toda a República, tanto da rara perspectiva de Gregório, autêntico militante popular, de participante da rebelião de 1935 até a clandestinidade nos anos 1960, em contraste com a do gaúcho Prestes, militar, herói da Coluna e dirigente comunista - ambos, dignos opositores da ditadura de 1964.

O desafio maior diante desses dois livros incontornáveis na história do Brasil é entender as decisões políticas que Gregório e Prestes tomaram, separando-as das admiráveis qualidades pessoais deles. Compare-se apenas as vidas de Gregório e de Prestes com aquelas dos generais - antigos "tenentes", colegas do Cavaleiro da Esperança - que promoveram, de 1964 a 1985, o terrorismo de Estado e os crimes contra a humanidade praticados pela ditadura militar no País.

PAULO SÉRGIO PINHEIRO É PESQUISADOR ASSOCIADO DO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, DA USP, E AUTOR DE ESTRATÉGIAS DA ILUSÃO. A REVOLUÇÃO MUNDIAL E O BRASIL, 1922-1935 (COMPANHIA DAS LETRAS, 1992). FOI SECRETÁRIO DE ESTADO DE DIREITOS HUMANOS NO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Jornal O Estadão

Notícias História Viva


"... No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras…), 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinqüenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. ...

Estado brasileiro matou 556 civis em 32 conflitos esquecidos do século 20
Reportagem do Estado resgata revoltas populares sem ideologia nem tutela de partidos políticos ou de instituições religiosas

Tropas legais fuzilaram ou causaram a morte de pelo menos 556 civis e tiveram 100 baixas ao reprimir 32 revoltas desconhecidas ou simplesmente esquecidas no Brasil ao longo do século 20. Os episódios mostram a paranoia do Estado brasileiro em usar seu poder de fogo para conter beatos barbudos, rezadeiras, descontentes com a política econômica ou pequenos agricultores em busca de terra, e tomar partido de latifundiários e grileiros nas brigas com posseiros.

Foram revoltas populares sem ideologia ou tutela de partidos políticos e instituições militares ou religiosas. Neste caderno, essas revoltas não são chamadas de guerras pelo grau do confronto de forças e sim pelo poderio de fogo da repressão e pelas marcas deixadas nos lugares onde ocorreram. O que ficou são traumas de guerra - e é assim que, do Norte ao Sul do País, testemunhas e protagonistas referem-se ao episódio do qual participaram. A máquina policial do Estado nunca olhou o tempo histórico para tratar revoltosos dos sertões. A fúria da repressão foi igual em momentos de exceção ou de democracia.

A elaboração do mapa das revoltas e as reportagens deste caderno tiveram como ponto de partida a consulta a coleções de inquéritos criminais, das Secretarias de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Pernambuco e Minas Gerais - Estados sempre citados nos estudos sobre conflitos rurais, da década de 1930 aos anos 1960. O levantamento das revoltas se baseou ainda nos dados dos Departamentos de Ordem Política e Social (Dops) dos Estados e das atas do Conselho de Segurança Nacional (CSN) e dos relatórios do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), relativos aos anos 1970 e 1980, guardados no Arquivo Nacional. Pesquisas complementares foram feitas em centros culturais e cartórios criminais e cíveis.

Investigação. Foram consultados ainda diários de famílias, cartas, atas de compra e venda de terras, livretos mimeografados, papéis de paróquias, telegramas, cartões postais, boletins policiais, denúncias de comarcas, bilhetes de rebeldes, dados de hospitais e cemitérios, documentos de prefeituras, gravações, recortes de jornais regionais, álbuns particulares de fotos, arquivos privados de agentes policiais e das Forças Armadas. Para localizar testemunhas e participantes dos conflitos, recorreu-se até a cadastros de fregueses de compra a fiado no comércio.

Uma viagem aos cenários das revoltas genuínas da terra põe em debate a versão de que a população civil dos sertões assistiu calada a duas ditaduras do período republicano - os regimes Vargas e militar. Embora sem conexão, esses conflitos revelam, em sua soma, a face de inconformismo dos brasileiros, que vivem em rincões tão distantes e isolados que parecem integrar outra nação.

A pobreza, a falta de alternativas de renda e a confiança em beatos messiânicos são características de boa parte das revoltas e elos com movimentos como Canudos e Pedra do Reino, no Nordeste. E em cada revolta o Estado via Antônio Conselheiro, líder de Canudos.

A pesquisa não contabilizou mortes em conflitos que ganharam destaque nacional e são sempre lembrados por entidades não-governamentais, como o que resultou no assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em 1988, no Acre, o de Corumbiara, em Rondônia (1995), e Eldorado do Carajás, no Pará (1996) - apoiados pelo Movimento dos Sem-Terra - , além de outros mais antigos, como a Guerra do Contestado, em Santa Catarina (1912-1916) e Revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1910), no Rio. Ficaram ainda de fora mortes causadas por repressão em greves nas grandes cidades.
Jornal o Estadão

O herói negro em seu labirinto


O herói negro em seu labirinto
Dois livros publicados revisitam a acidentada trajetória de João Cândido Felisberto, personagem central da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910 para[br]encerrar os maus-tratos então vigentes na Marinha

Lilia Moritz Schwarcz - O Estado de S.Paulo
Muitas vezes a realidade acaba por se mostrar bem mais criativa do que a própria imaginação. Se são muitos os exemplos retirados da história, arrisco aqui mais um: o caso de João Cândido Felisberto. Marinheiro de formação, filho de ex-escravos, participou da Revolta da Chibata de 1910, transformando-se em líder do movimento, quando ganhou a alcunha de Almirante Negro. A história dessa insurreição popular, até hoje pouco contada entre nós, faz parte da lógica dos vários levantes que assolaram a, assim chamada, República Velha, que nasceu prometendo a igualdade, mas acabou entregando a exclusão social. Se a princípio a República foi saudada como um movimento cidadão, e de distribuição equânime de direitos - afastado de vez o fantasma da escravidão -, já o cotidiano se mostrou muito distinto. A Reforma do Prefeito Pereira Passos transformou o Rio de Janeiro em um cartão-postal do novo Brasil moderno, mas tratou de expulsar boa parte da população pobre para os arredores da cidade: os subúrbios cariocas, cada vez mais apinhados de gente e carentes de infraestrutura ou das benesses do progresso. Exemplo de insatisfação podem ser encontrados nas palavras de uma série de intelectuais, coetâneos, como Lima Barreto ou Euclides da Cunha - descontentes com "a República que não foi". Termômetro aquecido são as inúmeras revoltas que estouram nesse momento, anunciando críticas de toda sorte: Canudos (1897-1900) a Revolta da Armada (1902-3), a Revolta da Vacina (1904), Contestado (1912), e finalmente a Revolta da Chibata.

O estopim do movimento era claro e guardava uma lógica simbólica das mais perversas. No dia 16 de novembro de 1910, uma série de embarcações nacionais e estrangeiras aportam na Baía de Guanabara para saudar a posse do novo presidente da República: o marechal Hermes da Fonseca. A eleição havia sido tensa, uma vez que o militar acabara derrotando o candidato mais popular, Rui Barbosa, que representava, nesse momento, o projeto civilista. Já Hermes corporificava a volta do Exército ao poder, e foi logo recebido com grandes doses de desconfiança. Assim, se em parte dos navios reinava um ambiente de congratulação, em um deles - o encouraçado Minas Gerais, o maior navio de guerra brasileiro - o clima era em tudo distinto. Na madrugada daquele dia, a tripulação fora obrigada a presenciar os castigos infligidos ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes - 250 chibatadas - e seu recolhimento à prisão, sem direito a tratamento médico. Seu delito fora ferir à navalha o cabo Valdemar Rodrigues Menezes, que o acusara de levar ao navio duas garrafas de cachaça.

A chibata é punição herdada da marinha portuguesa, mas no Brasil ganhou carga das mais pesadas. Com a introdução da escravidão em todo o território nacional, tal castigo passou a fazer parte do código punitivo e das sensibilidades locais, sendo, com frequência aplicado em locais públicos, para assim servir de humilhação, execração coletiva e exemplo geral. A escravidão acabara em maio de 1888, mas a sevícia continuava impune na Marinha, e amparada pelo corpo da lei, que arrogava a ela o poder de "quebrar o mau gênio" dos rebeldes. E foi naquele dia que, reunidos em torno das beliches de seus quartos, os marinheiros do Minas Gerais, decidiram que os maus-tratos iriam acabar. O marujo João Cândido tinha então 30 anos, e se tornaria o chefe de uma revolta que lhe custaria caro, mesmo passados os tempo da República Velha, do Estado Novo, do Populismo e do Regime Militar. Morreria aos 89 anos, nos idos de 1969, guardando a pecha de "sujeito perigoso", por mais que tentasse se esconder num insignificante anonimato de carregador nas docas da Praça XV.

Na verdade, a vida de João Cândido mais parece uma saga, a lembrar da sorte de tantos brasileiros de origem humilde e, ainda mais, estigmatizados por sua cor negra. Nascido numa propriedade rural, localizada na fronteira entre Brasil e Argentina, passa a primeira infância ao lado do pai, o qual, depois de liberto, atua como tropeiro na lida com o gado. Com 14 anos recém-feitos é levado para a Marinha, onde faz carreira. Boa parte de seus colegas era formada por negros e pobres, como ele, e acostumados à labuta pesada e regrada. A marinha era o destino da escória; considerada uma espécie de castigo para jovens indisciplinados, que ingressavam mais cedo, e por meio dela, na disciplina militar. O fato é que com 20 anos, nosso personagem já se destaca como instrutor de aprendizes marinheiros, viaja por toda a costa brasileira, assim como empreende algumas rotas internacionais. Numa delas, em missão especial na Inglaterra, assiste à montagem e entrega do Minas Gerais: um navio de manejo difícil e sofisticado; especialmente encomendado pela marinha brasileira.

Várias são as "bagagens" que traz no retorno dessas viagens. Da Amazônia importaria uma tuberculose renitente, que se manifestaria em vários momentos da sua vida. Da Inglaterra carregaria a experiência dos movimentos sociais, dos sindicatos, e a primeira consciência da luta de classes. A Marinha, a essas alturas, e depois da Revolta da Armada, havia sido relegada ao abandono absoluto e praticamente, desde a Guerra do Paraguai que terminara em 1870, pouco se investia no reaparelhamento da frota. Por outro lado, o processo de recrutamento era feito de maneira coercitiva, sendo boa parte de seus elementos analfabetos e alistados à força pela polícia.

Assim, o cenário da revolta ia se delineando. No entanto, entre a sua realidade e a projeção que se criou em torno dela o hiato é grande. O motivo imediato foi a chibata, e o objetivo único a proibição de seu uso. O lema era curto e grosso: "Abaixo a chibata." Eventos ganham, porém, significados e proporções inesperados, dependendo do contexto em que se estabelecem. Apesar de durante a eclosão do levante terem ocorrido raros bombardeios e poucas mortes, a repercussão foi imensa. A Revolta logo virou pretexto para a repressão generalizada e, apesar da primeira promessa de anistia, o destino dos rebelados seria diverso, e a própria cidade viveria em estado de sítio.

É em torno desse episódio dramático e de seu protagonista central que se debruçam duas oportunas publicações recentes: um livro de não ficção, João Cândido, resultado de pesquisa criteriosa empreendida pelo jornalista Fernando Granato; e outro de ficção, João Cândido - O Almirante Negro, escrito por Alcy Cheuiche, autor de mais de 20 novelas, boa parte de conteúdo histórico. Granato acompanha o Almirante Negro até sua morte. Já Cheuiche escolhe terminar sua narrativa no momento em que João Cândido ganha a liberdade. A opção faz com que o leitor tenha sensações distintas ao término dos dois livros: se o romance passa a impressão de uma certa redenção e a merecida liberdade; já a história pregressa se mostrou distinta, e a obra do jornalista revela-se avessa a qualquer happy end.

João Cândido veria muitos colegas amotinados morrerem assassinados; seria preso na Ilha das Cobras e escaparia com vida de uma cela em que 16 companheiros seus morreram asfixiados pelo calor e pelo efeito do cloro espalhado pelo chão; permaneceria internado no Hospital de Alienados (um verdadeiro paraíso quando comparado ao inferno da prisão); para ser libertado em 1912: tuberculoso, magro e pobre. Mesmo assim, volta ao mar, primeiro como carregador nas docas e depois atuando novamente na marinha. No entanto, sempre reconhecido, perde sistematicamente os empregos que consegue. Casa-se duas vezes, e na segunda conhece novo inferno, dessa vez domiciliar: sua mulher e filha colocam fim às suas vidas ateando fogo em suas vestes.

A despeito de tantos acidentes graves de percurso, o Almirante Negro, continuaria trabalhando na Praça XV, onde levava cestos cheios de peixe para o mercado. Distante da política, resiste a tentativas de assédio, como as que empreendem participantes do movimento integralista, já nos anos 1960. É só em 1968 que presta depoimento ao Museu da Imagem e do Som, e sua história passa a ser mais conhecida. Orgulhoso, relata os tempos gloriosos da Revolta, seus anos de penúria, as mazelas domésticas e a tuberculose que insiste em o visitar de tempos em tempos. Mas não seria ela que lhe tiraria a vida, mas sim um câncer fulminante no intestino.

Nos anos 1970, João Bosco e Aldir Blanc, inspirados pela vida de João Cândido escrevem O Mestre-Sala dos Mares; música que se tornaria célebre na voz de Elis Regina. Mas o regime tratou de censurar a primeira versão da canção, que tratava de tema vetado pelas Forças Armadas. Para driblar a proibição, entraram na letra mulatas, baleias e polacas, desavisadas, mas o refrão passou impune: ''Salve, o navegante negro, que tem por monumento as pedras pisadas no cais. Mas faz tanto tempo." E foi só recentemente, em 2008, que Lula sancionou a anistia póstuma do marinheiro, após proposta feita pela então senadora Marina Silva; datada originalmente de 2002.

São muitas as personagens de nossa história que continuam esquecidas, proibidas ou mal lembradas. O Almirante Negro, que morreu no anonimato da Praça XV e negando ser quem era, tem agora sua vida romanceada e devidamente documentada. Termino como comecei. O destino de João Cândido foi tão imaginoso, que seu relato, por si só, já vale muitos romances, tantas narrativas e mais pesquisas. Estamos só começando e "nem faz tanto tempo ..."

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)
Jornal O Estadão

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ideologia e literatura


Redigido, em chinês, para ser lido em duas palestras, o texto a seguir, de autoria do Prêmio Nobel de 2000 - que o cedeu com exclusividade ao 'Estado' -, reflete sobre os embates entre a arte da escrita e a política

Gao Xingjian - O Estado de S.Paulo

No decorrer do século 20 foram muito comuns as ocorrências nas quais a literatura foi contida, controlada, dirigida e até produzida e julgada pela ideologia. Isso não se aplicou apenas à criação literária: a história e a crítica da literatura também apresentaram muitas vezes a marca da ideologia. Poderíamos dizer que a ideologia foi o mal do século - contra o qual foi difícil imunizar-se - e, para os autores sortudos o bastante para escapar dessa doença do período, isso significou que seus escritos foram preservados, continuando merecedores de leitura em épocas posteriores.

Para que uma teoria ou ensinamento consista numa ideologia é preciso que haja uma estrutura conceitual filosófica somada à representação de uma visão de mundo que tenha como base valores correspondentes. Entre as ideologias, o marxismo sem dúvida teve a estrutura mais perfeita e a influência de maior alcance, causando um impacto profundo em gerações de intelectuais. Nem é preciso dizer que esse foi o pilar intelectual oficial dos antigos Estados comunistas, mas, durante algum tempo, foi também a principal tendência dos círculos intelectuais de esquerda de todo o mundo. Liberalismo e nacionalismo também puderam ser transformados em ideologias, e se tornaram o pensamento e os valores promovidos por partidos políticos e nações. E, no mundo intelectual - que inclui sem dúvida os domínios da literatura e da arte -, modernismo, pós-modernismo e até o chamado pós-colonialismo tinham o potencial de serem transformados em determinados juízos de valor e até em dogmas inflexíveis.

As ideologias foram inicialmente construídas com o objetivo de explicar o mundo, e também de estabelecer sistemas de valores para a sociedade humana que servissem como base razoável para as autoridades do Estado e as estruturas sociais. Se pensamos na filosofia como algo confinado ao pensamento metafísico, então a ideologia está ligada a juízos de valor a respeito da estrutura e dos muitos tipos de vantagens na sociedade. A literatura, por sua vez, é a articulação livre dos sentimentos e pensamentos dos seres humanos, transcendendo essencialmente a utilidade prática, e quando os autores seguem esta ou aquela tendência ideológica de pensamento, eles perdem sua independência de pensamento. Infelizmente, foi assim que, nos tempos modernos, a literatura perdeu com frequência sua autonomia de pensamento. Foi assim que, nos tempos modernos, a literatura muitas vezes perdeu sua autonomia e se tornou um acessório da ideologia: a literatura do século 20 deixou para trás muitas lições para todos nós.

A substituição da religião pela ideologia foi outro ato de estupidez do século 20. Sob a bandeira do racionalismo, e fazendo uso de dogmas utópicos que mudariam o mundo, um grande número de revoluções incitou a violência que trouxe consigo a loucura em massa - às vezes de alcance nacional - responsável por desastres de uma escala sem precedentes na história humana. A literatura que foi trazida para a estrutura conceitual da ideologia, promovendo a violência e a guerra, criando a idolatria a heróis e líderes e incitando ao sacrifício parece agora ter virtualmente desaparecido, mas prossegue o apelo para que a literatura se envolva ativamente. Tratar a literatura como uma ferramenta de transformação da sociedade a equipara ao exercício de pregação da ética, exceto pelo fato de a ética ter sido agora substituída pelo politicamente correto. A literatura do presente não é capaz de se libertar das amarras da ideologia com tanta facilidade, e aquilo que conhecemos como envolvimento significa o envolvimento na política real. Essa noção de literatura ainda prevalece no mundo intelectual contemporâneo.

Hoje em dia é bastante comum que os intelectuais debatam a política, mas, a não ser que a pessoa se envolva pessoalmente com a política, esse debate não costuma ser mais do que um discurso vazio de impacto mínimo na situação política e na sociedade. Além disso, a política real de hoje é a política dos partidos e, a não ser que os intelectuais se filiem a um partido político e se tornem políticos profissionais, será difícil que façam alguma diferença. Para um escritor comprometido com a literatura e ansioso por influenciar a política, a situação é duplamente difícil, e esse é o estranho dilema que a literatura enfrenta ao se envolver na política. Entretanto, a política não está preocupada com esse dilema enfrentado pelos autores, nem com a ideologia de qualquer teoria política. Caso venha à tona um conflito entre este ou aquele ismo e os interesses reais da política partidária, o partido acabará descartando a teoria, ou então os teóricos farão as revisões e reinterpretações apropriadas de acordo com as exigências da política real, o que leva a mudanças constantes naquilo que é conhecido como politicamente correto.

O autor patético - estou me referindo aqui ao autor que usa a literatura para servir à política - está preso à biga de guerra da política, não mais no controle de si mesmo, brandindo uma bandeira e gritando, mas ele perdeu a própria voz e, é claro, não deixará como legado obras que valham a pena serem lidas. Ainda mais trágico é o fato de propriedade e vida terem sido enviadas ao túmulo, destino de muitos autores revolucionários que sacrificaram a literatura em nome da revolução sob a política centralizada do comunismo. A história não chegou ao fim e, igualmente, o futuro da literatura que serve à política nos sistemas democráticos não é necessariamente maravilhoso. Além disso, a literatura não é como uma mídia e não pode ser o objeto de uma cobertura diária, e cada facção política que conte com sua própria mídia de massas para apresentar de maneira satisfatória suas visões políticas não espera que a literatura tenha algum efeito. Se a literatura participa da política, ela serve no máximo como floreio decorativo da política partidária.

Basicamente, a ideologia estabelece uma teoria para a política real, mas a teoria não determina o lucro, nem o prejuízo nem o poder comparativo real que controlam a política. Invariavelmente, a política é mais uma questão de dinâmica do que de ideologia, e pode estar correta num dia e equivocada no dia seguinte, mantendo-se sempre politicamente correta. O autor que adere a uma ideologia, ou, poderíamos dizer, que acredita num determinado ismo, descobrirá na verdade seus ideais repetidamente abandonados pela política, mas sua frustração e sensação de perda não serão fruto de erros ou defeitos na ideologia. Em vez de tentar revisar uma determinada ideologia, seria mais fácil simplesmente entregar-se ao serviço da política, sendo este o inevitável resultado do envolvimento da literatura na política. Esse tipo de literatura, é claro, perde a independência e a autonomia que são inerentes à literatura, e pertence somente ao âmbito da política partidária.

O autor - estou me referindo aqui aos autores e poetas comprometidos com a criação literária, e não com as opiniões de comentaristas políticos e colunistas de jornais que pertencem a uma profissão diferente - se vê hoje numa posição em que se torna difícil ganhar a vida. A resistência ao alinhamento político e a recusa em se curvar aos modismos e ao gosto das massas gerados pelo mercado, perseverando em vez disso na escrita literária, são coisas que devem emanar inicialmente de uma necessidade interna que exija expressão. De fato essa é na verdade a intenção original da literatura, e poderíamos dizer que assim tem sido desde a antiguidade até o presente, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Esse tipo de literatura que transcende a ideologia e a política e transcende o benefício prático consiste num testemunho das condições existenciais da humanidade e da natureza humana.

Na época globalizada atual, os ganhos econômicos reais substituíram concretamente a ideologia ou, dito de outra forma, a ideologia tornou-se hoje um discurso vazio e antiquado, na melhor das hipóteses nada além de um cartaz enganoso no palco político, e por isso não há problema em chamar o presente de era pós-ideológica. A literatura contemporânea teve a sorte de escapar das amarras da ideologia e, se ignorar os modismos gerados pelo mercado e ousar enfrentar os genuínos problemas humanos do presente, então a literatura será salva. O que esse tipo de literatura espera do autor é a sinceridade, ou seja, que ele não evite os muitos problemas reais que afligem a sociedade humana, e é essa literatura sincera e verdadeira que os leitores de hoje desejam.

Purificação. O fim da ideologia não é o fim da literatura, e o fim da ideologia não é o fim do pensamento. O colapso de um século de utopias deveria ter ocorrido há muito tempo, e agora o empobrecimento espiritual tenta seduzir a literatura aos gritos. De fato, a literatura é incapaz de salvar o mundo, o autor não é um salvador e, além disso, o que ele precisa fazer é se livrar de tal papel imaginário, voltando a ser um indivíduo autêntico e frágil para que seja possível ter uma consciência lúcida do mundo humano.

A literatura pode ser apenas a voz do autor individual, mas, quando retratada como representante do povo ou porta-voz da nação, essa voz será certamente falsa, rouca e cansada. Da mesma maneira, o autor não é a encarnação da verdade e da dignidade, e suas fraquezas e defeitos pessoais são de fato tão grandes quanto os das pessoas comuns; aquilo que o diferencia é simplesmente o fato de ele poder purificar-se com a escrita da literatura. Além disso, o autor não é um juiz, não decide a respeito daquilo que é certo ou errado nem julga aquilo que é moral ou justo. Ele certamente não é uma espécie de super-homem e não pode substituir a Deus, mas deve-se reconhecer que o mal de época da inflação ilimitada do ego, assim como a ideologia, foi a grande febre durante algum tempo. Se o autor de hoje for capaz de abolir tais delírios pessoais, adotando uma atitude normal, observando com um olhar inteligente as muitas manifestações da vida no universo ao mesmo tempo em que disseca e analisa friamente seu próprio eu caótico, a obra produzida por sua pena será digna de leitura e releitura.

O autor é um observador da sociedade e da natureza humana. Uma vez que ele descarte o benefício prático, ponha de lado os potenciais obstáculos psicológicos e tenha um claro entendimento de si mesmo, suas observações serão incisivas e meticulosas e, sem que nenhum assunto consista num tabu, ele poderá expor e apresentar de maneira penetrante a verdadeira situação da vida humana. A literatura não se satisfaz em documentar pessoas e eventos reais, e a capacidade do autor de sondar a vida e a natureza humana deriva de suas experiências de vida. Mas ainda mais importante é a capacidade inata do autor tanto de sondar as mais distantes profundezas quanto de usar meios estéticos para relatar linguisticamente as percepções que foram despertadas ao seu redor.

O motivo pelo qual o depoimento da existência humana deixado pelo autor se mantém vívido e poderoso com o passar do tempo não se deve inteiramente à habilidade linguística, estando mais associado ao sentimento estético que o autor concede a seus personagens. Esses sentimentos não correspondem diretamente a simples juízos éticos de certo e errado, consistindo em sentimentos humanos transpostos para os personagens. É claro que esses derivam também da atitude do autor diante de seus personagens, e são precisamente esses sentimentos estéticos que fazem com que os personagens ganhem vida.

Tragédia ou comédia, ou tragédia e comédia e todas as demais emoções e desejos humanos podem ser manifestados de maneira estética. Triste ou divertido, absurdo ou hilário, nobre ou cômico são qualidades concedidas pelo autor, e essa estética intimamente associada às emoções é incomparavelmente mais rica do que a cognição racional. É isso que diferencia a literatura da filosofia. A literatura não é um acessório da ideologia e, apesar de não se propor a comentar a filosofia, ela às vezes chega a entendimentos semelhantes. Enquanto a filosofia toma por base a especulação racional pura, o conhecimento conquistado na literatura está sempre associado à sensualidade e às emoções.

Literatura e filosofia chegam cada qual a um entendimento do mundo e dos seres humanos recorrendo a meios diferentes, mas não cabe debater se uma seria superior à outra. Tanto racionalidade quanto sensualidade são caminhos necessários para a compreensão do ser humano. A literatura pode instigar nas pessoas uma reflexão profunda porque pode revelar o estranhamento e a ansiedade, a busca e a perda de rumo na vida humana com tamanha incisividade, podendo manifestar plenamente os detalhes minuciosos da natureza humana. Essa propensão a inquietar e despertar transcende o politicamente correto e os ensinamentos éticos, sendo muito superior a qualquer coisa que a análise semântica pós-moderna e os jogos de palavras possam oferecer. Mesmo que as experiências de vida do autor por trás da linguagem da literatura sejam transformadas em pensamento, este ainda terá de ser infundido com os sentimentos e percepções do autor ou dos personagens, e situações específicas na obra também precisam ser incluídas, o que faz delas mais do que a pura formulação e definição de conceitos racionais.

Há dois tipos de pensadores: um deles é o filósofo, que se apoia na especulação metafísica racional; o outro é o autor, que se vale das imagens literárias. O primeiro tipo pode ser encontrado nos grandes pensadores da Grécia Antiga, e o último pode ser encontrado nos autores das tragédias e comédias gregas da mesma época. Cada qual recorreu a métodos diferentes para proporcionar às gerações futuras o conhecimento a respeito da situação existencial humana (os dilemas, com frequência) e da natureza humana. Na Europa, durante a Idade Média, quando a escolástica sufocou o pensamento, foi do poeta Dante o entendimento do mundo e das pessoas que se revelou superior. Além disso, Shakespeare foi sem dúvida o maior pensador de sua época e, igualmente, Goethe e Kant foram brilhantes.

Hoje a maré do pensamento pós-moderno parece ter passado e, diante dessa vertiginosa época de empobrecimento espiritual, acho que as pessoas devem buscar inspiração na literatura. A crise financeira e econômica mundial projetou pela primeira vez os economistas ao palco na qualidade de pensadores, enquanto a filosofia se mantém em silêncio. Que rumo a humanidade está seguindo? Serão os seres humanos capazes de prever o futuro, ou será que um novo conjunto de utopias será estabelecido? Ou será que as cartas serão novamente embaralhadas para mais uma rodada de jogos semânticos? Seja qual for a resposta, a literatura pode sem dúvida proporcionar até certo ponto um relato da sociedade na qual as pessoas se veem envolvidas hoje.

É claro que a literatura não se resume a replicar a realidade. A literatura realista foi uma das grandes correntes literárias, e do fim do século 19 até o início do século 20 surgiram grandes números de autores talentosos e muitas obras de notável permanência. Os escritos modernistas do século 20 se voltaram para o mundo do inconsciente das pessoas, abrindo outra área para a literatura. A racionalidade não poderia oferecer respostas para o absurdo da sociedade moderna nem para as questões relacionadas ao significado da existência, e a filosofia tinha igualmente se afastado dos temas tradicionais. Sob os auspícios da ideologia, a literatura que reproduzia a realidade social se transformou em propaganda revolucionária. Sob as condições sociais atuais, será a literatura ainda capaz de refletir a realidade social? É claro que sim: trata-se apenas de uma questão de descartar os ismos, libertar-se da estrutura conceitual e dos dogmas da ideologia, afastar a pregação do politicamente correto, retornar às percepções genuínas do autor e narrar com a voz firme e independente do indivíduo. Mesmo que essa voz seja extremamente fraca ou que desagrade ao ouvinte, trata-se da verdadeira voz de uma pessoa, e isso tem valor enquanto literatura.

Independência espiritual. A literatura é a afirmação que um homem faz de sua própria existência. Apesar de o frágil indivíduo não contar com o poder de mudar o mundo, ele pode manifestar suas opiniões sempre que desejar. É relevante que o autor tenha de fato pensamentos próprios a expor, e que não se limite a meramente repetir as afirmações amplamente difundidas pelas autoridades e pela mídia. A independência espiritual do indivíduo é a própria substância da literatura, e responde pela independência e autonomia da literatura. A literatura não se associa ao poder político nem depende do mercado, consistindo num domínio de liberdade espiritual para os humanos. Apesar de não ser sagrada, ela pode ser protegida dos avanços de outros interesses, e constitui uma parte do pouco orgulho que o ser humano pode ter de si.

O homem existe em meio a todo tipo de restrição na sociedade, e a liberdade não é um direito concedido ao nascer. Um preço deve ser pago, há condições, e ela nunca veio de graça. Mas a liberdade espiritual pertence ao indivíduo, embora seja necessário que o indivíduo a escolha, e a independência e a autonomia da literatura são algo que o autor deve escolher. A liberdade espiritual enobrece os seres humanos, e consiste também num atributo da literatura.

A literatura é o despertar da consciência do indivíduo no sentido de que o autor se arma com esse conhecimento intuitivo quando observa o mundo humano ao mesmo tempo em que analisa a si mesmo. Ele infunde seu entendimento lúcido na sua obra. O entendimento único de um indivíduo em relação ao mundo é inegavelmente o desafio que a existência da entidade individual faz ao seu ambiente existencial. Portanto, o entendimento conquistado numa obra literária sempre traz a marca do autor individual. É precisamente cada uma dessas histórias individuais que faz da literatura algo interessantíssimo e insubstituível. Enquanto a especulação da filosofia se apoia no abstrato, a literatura promove um retorno à vida, às percepções das pessoas vivas e às emoções. Em outras palavras, a literatura começa em lugares que são inalcançáveis para a filosofia, e o tipo de entendimento proporcionado por ela não pode ser substituído pela filosofia.

Quando a filosofia clássica se imbuiu de conceitos e racionalidade para construir um sistema de especulação que proporcionasse ao mundo um exemplo perfeito, tudo aquilo que não pôde ser perfeitamente explicado foi deixado nas mãos de Deus. Entretanto, não há limites para aquilo que a literatura pode dizer, e ela não se apressa em se propor a definir uma certa visão de mundo. Além disso, ela sempre mantém a mente aberta e preenche a consciência das pessoas com pensamentos e infinitas emoções. Por confrontar a vida em suas infinitas variações, a literatura não termina com a morte do protagonista ou do autor, e nem com a conclusão de uma obra.

Cada autor apresenta uma visão única, mas ele não usa essa visão única para substituir os demais autores. Não é como na filosofia, na qual a crítica é a premissa para o estabelecimento de uma teoria que com frequência é promovida como única verdade correta e definitiva. Apesar de a filosofia pós-moderna defender a ambiguidade e até a eliminação do sentido, ela é independentemente disso estabelecida com base na premissa da morte de todas as filosofias predecessoras. A literatura não exclui e não abre para si um caminho por meio da crítica; em vez disso, o que ocorre é que cada pessoa apresenta o próprio discurso, coisa que possibilita uma variedade infinita.

A literatura não faz da crítica social sua missão, e não usa uma visão de mundo pré-fabricada nem um sistema de valores nela alicerçado para julgar a sociedade. Os depoimentos da literatura se valem da estética. A estética emana primariamente da natureza humana, estando intimamente associada à incorporação das influências culturais que se deu no decorrer de um extenso período da história humana. Além disso, ela transcende os tipos de linguagem, e pode ser traduzida e comunicada para todo o mundo. As emoções evocadas pela estética infundida numa obra pelo autor são poderosas, e podem encontrar eco em leitores de diferentes nacionalidades e de diferentes épocas, o que confere à literatura uma riqueza espiritual que deve ser desfrutada por toda a humanidade. Portanto, a estética que um autor infunde numa obra literária pode ser considerada um juízo definitivo que transcende os benefícios práticos, o certo e o errado, o bem e o mal, além dos costumes sociais e a época. Enquanto a obra circular pelo mundo, as pessoas continuarão a lê-la, e as sensações estéticas evocadas por esse testemunho literário transcenderão a história, sobrevivendo por muito tempo.

Estritamente falando, a era não tem significado para a literatura, apesar de cada obra de cada autor trazer até certo ponto a marca de seu tempo. Separar a literatura em diferentes períodos e diferentes ismos é tarefa dos historiadores da literatura, mas nada tem a ver com as criações do autor. O modernismo do século 20 passou a existir após o surgimento de certo número de obras que foram reunidas pelos críticos literários: essas foram classificadas em tal categoria e teorias foram estabelecidas. Isso ajudou a pesquisa literária, mas pouco teve a ver com a criação dos autores. De fato, houve autores que se gabaram de serem modernistas, mas somente depois que seus predecessores e as obras representativas tinham se tornado publicamente conhecidas, familiares, e assim a reunião sob esse rótulo criou uma tendência. O valor literário de uma obra nada tem a ver com rótulos, dependendo em vez disso do entendimento único e da apresentação estética do autor e da obra.

A modernidade foi extrapolada a partir de obras muito diferentes criadas por certo número de autores modernos, e portanto era grande a probabilidade de ela ser transformada em dogma. De fato, a modernidade que se tornou um símbolo da época após a reunião de alguns autores extraordinários e obras notáveis numa mesma categoria tinha na segunda metade do século 20 sido transformada num dogma estético ossificado. Para esse dogma era essencial a subversão, e assim foi criado um modelo para a subversão dos estilos predecessores, e a negação da negação foi vista como o princípio universal que ativava a história, tornando-se a estratégia básica do pós-modernismo. Em última análise, as origens disso estão no marxismo que foi formado pela dialética hegeliana. Quando o marxismo foi apresentado à literatura e à estética, continuar a revolução na literatura e na arte tornou-se a maneira por meio da qual a história da literatura e da arte era escrita.

Privada do rico conteúdo da natureza e das emoções humanas, a estética pós-moderna se transformou em retórica e papo furado e, com a análise semântica substituindo a estética, filosofia e literatura se transformaram em jogos linguísticos, o que levou a um desaparecimento natural do significado. Essa estratégia pós-moderna de subversão não era nem mesmo voltada contra a sociedade, e os problemas da sobrevivência e existência humana desapareceram em meio à linguagem vazia, de modo que restaram apenas símbolos vazios de uma era sem autores e desprovida de obras literárias.

A literatura se vale da linguagem, mas a linguagem da pena do autor é muito diferente dos objetivos de pesquisa de gramáticos e linguistas - e pouco tem a ver com eles. A gramática e a análise e descrição das estruturas e funções gramaticais se preocupam com o extrato mais baixo da linguagem e, independentemente disso, essas podem ser a chave de um aprendizado infinito, assim como é o caso de qualquer disciplina. Mas a gramática é muito distante da literatura. A linguagem da literatura transmite o pensamento, as emoções e o espírito dos seres humanos, e também a rica herança literária da humanidade que ela incorpora. Os autores de cada era simplesmente almejam criar novas formas de expressão e, ao fazê-lo, enriquecem a linguagem. Nesse sentido, o autor é criador e inovador na linguagem do seu povo.

Permanência. Para o autor, a literatura não se constitui em significantes, e sim em vibrantes vozes humanas que contêm cada emoção e desejo humano. Quando o autor escreve, essas vozes ganham vida no seu coração e na sua consciência. A linguagem da literatura pode ser lida em voz alta e também interpretada; ela é dinâmica e pode ganhar vida no palco para ressoar forte entre leitores e espectadores. Aquilo que o autor cria é uma linguagem que reverbera com o som - e não a linguagem à qual se referem ou podem se referir os pesquisadores linguísticos. O autor não se contenta com a linguagem empregada em obras anteriores; ele está sempre explorando novas formas de expressão para transmitir percepções recém-descobertas, e sua busca em meio ao potencial expressivo da linguagem não chegou ao fim. Esse tipo de busca não subverte os feitos de seus predecessores; é empreendido sobre os alicerces das expressões existentes.

Os sinais da época pós-moderna anunciando a morte do autor ficaram provavelmente no passado, assim com as revoluções literárias fracassaram em exterminar os autores, tendo elas mesmas se acabado. O autor e a literatura permanecem, e a história não chegou ao fim. Entretanto, o problema é simplesmente determinar como a literatura vai lidar com as condições e dilemas existenciais do homem moderno em relação à literatura. Terá o autor a coragem de apresentar a verdadeira situação do homem? Será que ele vai encontrar uma forma mais precisa de expressão literária?

O autor é o criador de gêneros literários e da linguagem literária. A literatura não é um relato dos fatos, e essa é a grande diferença entre a literatura e o registro da história. As percepções do autor, o gênero, o método de expressão e o estilo da linguagem são características que se desenvolvem simultaneamente, e todo autor realizado terá preferência por certos gêneros e estilos. Além disso, as associações e a imaginação também são infundidas numa obra. Em cada gênero, da poesia aos ensaios em prosa, da ficção ao drama, o autor ainda pode fazer descobertas, e não há padrões ossificados. As percepções estéticas que o autor deseja transmitir não podem ser dissociadas de uma forma literária específica, e uma estética que tenha como base a forma pura consiste num pensamento vazio e desprovido de sentido, sendo também assim o sentido poético da literatura.

Nesta época em que a política a tudo permeia e a lei do lucro mergulha o mundo na incalculável ganância humana, onde podemos encontrar a poesia? A beleza se tornou gradualmente uma memória distante. O homem - não estou me referindo ao conceito humanista do homem, e sim aos díspares indivíduos da sociedade que nunca antes se viram tão fragilizados ao confrontar a solidão que é a existência humana -, este indivíduo solitário, não carece de poder de pensamento: seu questionamento do significado da existência é hoje mais perspicaz do que em todos os momentos anteriores, e ele enxerga a liberdade como uma necessidade urgente. É preciso dizer que em nenhum período anterior um número tão grande de pessoas se dedicou à escrita. Nesta época de empobrecimento espiritual, a literatura se tornou algo a que as pessoas podem recorrer. Existe a esperança de que um traço de vida possa ser preservado, e isto até certo ponto mostra que a literatura não pereceu. Quanto à dúvida de quando haverá outro renascimento literário, isso só pode depender do acaso histórico, e a literatura, como o destino, é determinada por eventos díspares e ocasionais. / TRADUÇÃO A PARTIR DO INGLÊS DE AUGUSTO CALIL
Jornal O Estadão

sábado, 13 de agosto de 2011

Notícias História Viva


Carlo Ginzburg diz que historiador deve agir como advogado do diabo

O historiador italiano Carlo Ginzburg, 71, autor de "O Queijo e os Vermes" e um nome central da vertente chamada micro-história, defendeu anteontem, em sabatina promovida pela Folha, uma postura combativa ao lidar com pesquisas históricas.

Pra ele, o historiador deve agir como um advogado do diabo, apresentando questões difíceis às hipóteses. "Nenhuma afirmação pode ser considerada definitiva", disse. "Mas o ônus [da prova] é de quem suspeita."

Ele veio ao país promover o relançamento do livro "Investigando Piero" (ed. Cosac Naify), em que propõe uma nova interpretação para o quadro "A Flagelação de Cristo", do renascentista italiano Piero della Francesca.

Na sabatina, sugeriu uma leitura detida de fatos e circunstâncias, que chamou de "olhar lento, mas não tedioso", em contraposição a uma sociedade mergulhada em "imagens inflacionadas".

Ginzburg foi entrevistado pelo crítico literário e diretor de programação da Flip, Manuel da Costa Pinto, e pela professora de história da USP Laura de Mello e Souza. A mediação foi do editor da Ilustríssima, Paulo Werneck. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Rodrigo Capote/Folhapress
O historiador italiano Carlo Ginzburg, que participou em São Paulo de sabatina promovida pela Folha anteontem


"Investigando Piero"

Este livro marcou uma guinada inesperada na minha pesquisa. Em um museu de Siracusa [Itália], vi um vaso grego, um gesto de batalha, que identifiquei com o traço de Piero della Francesca. Estava posto um problema de semelhança morfológica entre elementos não relacionados.

"Flagelação"

É um quadro muito anômalo porque a flagelação se dá no pano de fundo, Cristo aparece muito pequeno. A cena também está construída sobre uma perspectiva rigorosíssima. Também aparece a coluna venerada por ser onde Cristo foi acorrentado.

Fui ver a coluna e medi a relação entre a altura real de Cristo e a altura da coluna, uma proporção de um para dez, divina. Tentei reconstituir a densidade da experiência.

Olhar lento


Vivemos numa sociedade em que as imagens são inflacionadas. Por isso é importante reafirmar a densidade de uma imagem como essa, com um olhar lento. É a arte de ler lentamente, como dizia Nietzsche. Nesse caso, é a arte de ver lentamente. Gesto lento, mas não tedioso.

Provas

Quando é que podemos dizer ter provado algo? Seria útil que a linguagem nos oferecesse uma escala de provas --algo como prova de força quatro, cinco--, que pesasse o ônus da prova. O ônus é de quem suspeita. Mas nenhuma afirmação histórica pode ser considerada definitiva: toda afirmação é verdadeira até que se prove o contrário.

Advogado do diabo

A prova é como o advogado do diabo. Não é possível ser audaz e prudente ao mesmo tempo, só se você se desdobrar, uma parte formulando hipóteses com audácia, e a outra, apontando dificuldades e requerendo provas.

O advogado deve fazer as perguntas más, como se houvesse uma prova correta, criando um antagonismo.

Lévi-Strauss foi um advogado do diabo. Quando li pela primeira vez seu "Antropologia Estrutural", foi um encontro com um mundo muito distante. Foi esse desafio à história que me fascinou em Lévi-Strauss. Nos anos 70, o diálogo era intenso entre historiadores e antropólogos.

A antropologia, para mim, foi muito importante. Existe ainda hoje isso do antropólogo como figura inquisitiva.

Micro-história

Insisto que o termo micro não tem a ver com pequenez, com aquilo que esteja à margem dos objetos. Diz respeito a um olhar analítico, microscópico. É possível ver a perna de uma mosca no microscópio ou a textura da pele de um elefante. Esse elemento me é caro. Busco o excepcional, aquilo que nos dá um quadro da anormalidade.

A anomalia, por definição, contém a norma, é mais rica do que a norma do ponto de vista cognitivo. Mas eu não busco exaltar a anomalia.

Filologia

A superfície do texto registra tensões subterrâneas, como um sismógrafo. [Usar a técnica da leitura lenta] É como encostar a orelha no chão, como um índio que sente o barulho que vem de longe. Dentro de um texto, há sempre uma pluralidade de vozes e situações. É possível colher ali traços da realidade que está fora dele.

Google

[Os historiadores] Robert Darnton e Roger Chartier se preocupam com as implicações políticas e legais associadas a projetos do Google, que preveem a digitalização de uma quantidade enorme de livros que pertencem a bibliotecas públicas por uma instituição privada.

Eles veem no Google ferramentas de controle do usuário. Mas acho que ele pode ser usado contra as intenções de quem o domina. Na Revolução Francesa, o livro foi usado como instrumento de luta contra o controle. A possibilidade de um uso imaginativo, subversivo do Google não deve ser descartada.

Anomalia contemporânea

Não devemos partir das boas velhas coisas, dizia [Bertolt] Brecht, mas das malvadas coisas novas. Precisamos usar aquilo que nos ataca e nos enoja. Ver o horror, a feiura da realidade é difícil, mas devemos tentá-lo.
Folha de São Paulo

Notícias História Viva


Revoltas árabes ecoam Revolução Francesa, diz historiador

CLAUDIA ANTUNES

Historiador da Revolução Francesa, Robert Darnton anda emocionado com as imagens e informações que chegam do Oriente Médio. "É o tipo de coisa que faz o seu peito apertar, traz lágrimas aos olhos e faz você pensar que a humanidade pode se regenerar."

O professor de Harvard vê neste 2011 ecos de 1789 e outros períodos revolucionários --na rebelião contra a tirania e na reafirmação do que chama de "possibilismo", espécie de explosão utópica que faz populações acreditarem que são capazes de mudar regimes que antes pareciam inamovíveis.

Testemunha da queda do Muro de Berlim, em 1989, Darnton adverte porém que é cedo para chamar os eventos atuais de revoluções. "Vamos demorar a saber se haverá uma mudança fundamental."

Abaixo, a íntegra da entrevista.

FOLHA - Observando os acontecimentos no Oriente Médio, o sr. diria que o lema da Revolução Francesa liberdade, igualdade, fraternidade está vivo?
ROBERT DARNTON - Bem, não tenho tanta certeza sobre a fraternidade porque há mulheres envolvidas, e a palavra teria sentido diferente hoje do que tinha no século 18. Tivemos o movimento de liberação feminina, e está claro que esses protestos no Cairo e em outros lugares não foram feitos só por homens.
Mas certamente liberdade e igualdade estão presentes, em especial a liberdade. O interessante é que a maioria dos protestos no mundo árabe se dirige contra o que é visto como tirania ou despotismo. Claro que as pessoas querem empregos e melhores condições de vida, mas parecem protestar especialmente contra os abusos e a corrupção do poder.
Isso é fascinante porque acho que era o que ocorria também no século 18. Segundo a interpretação marxista, a Revolução Francesa foi uma luta de classes [da burguesia contra a aristocracia feudal]. Havia conflitos de classe, claro, mas não acho que isso explique aquela revolução. Do mesmo modo, não acredito que explique o que está acontecendo no mundo árabe, mesmo que a pobreza seja um fator crucial.
Muito da minha pesquisa sobre a Revolução Francesa é revisionista no sentido de que mostro que o despotismo era o fator fundamental nas primeiras fases e mesmo durante o período do Terror [de execução em massa dos considerados contrarrevolucionários]. Esse é um dos aspectos em que encontro ecos de 1789 em 2011.

Quando me refiro a fraternidade no caso, me refiro à humanidade, não só aos homens.
Acho que o seu entendimento é correto. A referência [no século 18] era às reivindicações universais de liberação. Nesse sentido, a fraternidade é ainda hoje relevante. Mas não acho que você encontrará pessoas usando essa palavra no mesmo sentido usado há 200 anos.

No livro "Ecos da Marselhesa", o historiador Eric Hobsbawm, que é marxista, diz que a Revolução Francesa plantou uma ideia mais ampla do que a luta de classes, a de que a ação dos povos pode mudar a história. O sr. concorda?
Completamente. Sou amigo de Hobsbawm e acho que ele está certo nisso. Mas a antiga fórmula marxista é que uma revolução é uma contradição entre as relações sociais de produção e as forças produtivas. E não vejo nada disso acontecendo hoje.
Temos em geral dois modelos que competem pela interpretação das revoluções: o marxista e o que vem de [o pensador francês Alexis de] Tocqueville, que tem muito apelo no Ocidente liberal. Sua ênfase é na centralização do poder em um só lugar, em geral a capital, na ideologia e na melhoria de condições econômicas como fator de aumento das expectativas, que então são frustradas.
Tenho procurado sinais desse modelo no Egito e em outros lugares. Não tenho a pretensão de ser um especialista na região, mas vejo lá três coisas que sobressaem.

E quais são elas?
A importância da comunicação e da opinião pública; o que chamo de possibilismo, que é do que fala Hobsbawm quando se refere à mobilização das massas; e por fim o poder dos símbolos.

O sr. comparou os "rumores públicos" da época da Revolução Francesa com as redes sociais virtuais de hoje...
Os analistas destacam o papel de Twitter, Facebook, câmeras digitais etc. Diria que é um pouco mais complicado. Além da existência crucial de novos meios, está o que chamo de força eletrizante de acontecimentos reais, que foram transmitidos e amplificados por eles, criando uma consciência, uma imaginação coletiva.
O movimento de 25 de Janeiro no Cairo foi isso. Não podemos simplesmente dizer que mídia moderna possibilitou a derrubada de regimes tirânicos. É o modo como a mídia é usada. O fato de esse rapaz, Wael Ghonim [diretor do Google], ter posto no Facebook a imagem dessa pobre vítima de violência policial [o jovem Khaled Said] é tão importante quanto a existência do Facebook. O que importa é a habilidade de encontrar símbolos que energizam a imaginação coletiva.

E o que o sr. quer dizer com possibilismo?
Me refiro à liberação de uma espécie de energia utópica com manifestações massivas. O poder da rua, do contato humano, a transmissão oral de mensagens _afinal quando a internet foi cortada a palavra foi transmitida boca a boca. É isso que os franceses queriam dizer quando falavam de "emoções populares" para se referir a tumultos, revoltas.
Há uma dimensão passional que torna as pessoas convencidas de que elas podem mudar coisas que antes pareciam inamovíveis, obter coisas que antes pareciam fora de suas possibilidades. Creio que esse sentido de energia utópica, ou possibilismo, foi liberado nas grandes manifestações no Oriente Médio e norte da África.

E o sr. identificaria os símbolos que potencializam esse sentimento?
É o meu terceiro ponto, o poder simbólico, que é um poder real, capaz de derrubar regimes. Ele envolve ações coletivas como tomar uma praça central, como a Tahrir, e outras praças na região. É como tomar a Bastilha, que se tornou um símbolo do despotismo, apesar de só haver sete pessoas lá no 14 de Julho de 1789.
Passei meses lendo os arquivos da Bastilha e vi que não era um centro de tortura. Mas era um símbolo do abuso de poder. O que acontece é que os manifestantes se unem em torno de um símbolo e particularmente de um inimigo comum, que foi o que [o ex-ditador egípcio Hosni] Mubarak se tornou. Você via esses retratos de Mubarak que as pessoas levavam para os protestos, com orelhas de burro, chifres. Elas estavam dessacrando um símbolo, e acho que isso tem um poder imenso para energizar pessoas que estavam apavoradas com o poder arbitrário que ele representava.

O sr. fez uma comparação entre o papel do revolucionário francês Camille Desmoulins [que chamou à tomada da Bastilha] e o de Ghonim, que deu novo impulso aos manifestantes egípcios ao chorar na TV após sua libertação da prisão.
O interessante é que a maneira como essa entrevista eletrizou os egípcios tem a ver com o ceticismo das pessoas em relação à TV, até então controlada pelo governo. De repente elas estão assistindo e ele [Ghonim] desaba ao saber que manifestantes haviam sido mortos e deixa o estúdio. Havia tanta autenticidade em sua reação que ela rompeu a artificialidade das transmissões habituais.
Na Polônia [comunista], quando a TV anunciou que o sindicato livre Solidariedade havia sido reconhecido pelo regime, ninguém acreditou. É uma situação parecida. A mídia é tão manipulada nesses regimes autocráticos que as pessoas param de acreditar, e algo como esse incidente com Ghonim desafio esse ceticismo. Há esse elemento de autenticidade que pode ser a pólvora que desencadeia as emoções populares.

O sr. diz que a libertação da tirania é a reivindicação mestra nas rebeliões atuais. Um dado interessante é que mesmo os governantes que não eram herdeiros de dinastias monárquicas, como Mubarak ou o líbio Muammar Gaddafi, pretendiam transferir o poder aos filhos. Há um elemento de republicanismo também comum a 1789, não?
Certamente. Dinastias estavam sendo criadas por pessoas que no passado se disseram revolucionárias, mas ficaram no poder por tempo demais. Nesse sentido podemos dizer que as revoltas têm caráter republicano, palavra que tem conotações importantes. Fala-se em republicanismo cívico para evocar o ideal de comunidade e participação cidadã na vida coletiva de uma entidade política. Algo assim está acontecendo e aconteceu na Revolução Francesa, uma emoção republicana, um surto de consciência coletiva dirigido contra o alvo visto como tirânico.

Podemos identificar uma revolução no momento em que ela acontece ou temos que esperar? No Oriente Médio, não está claro que tipos de regime surgirão.
A palavra revolução é usada para tudo e perde sua força. Fala-se em revolução nas técnicas do futebol, na moda. Mas se por revolução nos referimos à transformação de um sistema político pela violência, por rebeliões populares, temos que esperar. Vamos demorar a saber se haverá uma mudança fundamental ou não. Nos sentimos muito tocados pela bravura do povo egípcio, por exemplo, por sua audácia, e queremos chamar o que está acontecendo de revolução. Mas temos que esperar a poeira assentar e examinar todos os elementos que entraram na crise, na explosão e na reconstrução antes de poder determinar a profundidade desses eventos.

No caso da Revolução Francesa, as pessoas que a estavam vivendo a chamavam já desse modo, não?
Sim. Passei algum tempo pesquisando o significado da palavra em francês, e ela está ligada ao verbo girar, um movimento de volta a um ponto inicial. Mas quando as pessoas falavam que estavam fazendo uma revolução estavam dando um novo significado à palavra. Mas ouso dizer que em alguns casos há pessoas que se denominam revolucionárias que na verdade promovem apenas um tumulto que se esgota e não muda nada.

O sr. fala de revoluções de expectativas crescentes, segundo a tese de Tocqueville, e nos casos de Tunísia e Egito isso fez parte do diagnóstico: uma população jovem, com maior nível de educação que seus pais e avós, mas que não via meios de progresso num sistema autoritário.
Acho que esse foi o caso. E envolveu também intelectuais alijados. Está claro que muitos manifestantes nesses dois países eram jovens universitários que se uniram também a trabalhadores. Eram desempregados qualificados que sentiam que sua vida estava sendo desperdiçada, que não havia lugar para eles no velho regime. O fato de essas pessoas serem tão jovens e tão educadas é para mim crucial e isso se encaixa no modelo geral de Tocqueville para revoluções.

Uma outra comparação possível é com as revoluções de 1989 no Leste Europeu. Lá, como no Oriente Médio, não havia uma vanguarda política clara como os jacobinos na França ou os bolcheviques na Rússia. Após o fim do comunismo, ex-comunistas assumiram o poder em muitos países. Isso pode acontecer também no Oriente Médio?
Acho que é um ponto válido, e não sei a resposta. No caso dos clubes dos jacobinos, ele não existiam antes de 1789, se desenvolveram naquele ano e nos seguintes. Alguns historiadores argumentam que eles tinham precursores nas chamadas "sociedades de pensamento", grupos de intelectuais, mas não acho que isso seja verdade. No caso da Revolução Russa, havia um partido leninista altamente organizado. Não vejo nada parecido no Egito, Tunísia ou Iêmen.
As pessoas mencionariam os grupos islamistas, como a Irmandade Muçulmana no Egito. Pode ser que ela se torne o ingrediente jacobino, mas não sei. Minha impressão é que há uma noção muito variada e desorganizada do "povo" indo às ruas, como havia na França em 1789. Mas não vejo nenhum tipo de estrutura preexistente em torno da qual o poder pode se concentrar para empurrar a revolução para o próximo estágio. Pode ser que esteja lá e não a descobrimos ainda.

Por que as revoluções são tão raras e tão difíceis de prever?
Não sei. Ninguém previu esta explosão agora. E eu estava em Berlim em 1989 quando o Muro caiu, no Instituto de Estudos Avançados, com especialistas de todo tipo, e ninguém tinha a mínima noção de que estava para acontecer o momento que poria fim à Guerra Fria.
Na verdade não entendemos as forças profundas da história. Eles entram em erupção subitamente e nos fazem repensar nossas categorias de entendimento. Por isso falo em "possibilismo". Nós historiadores que apenas medimos o preço dos grãos fracassamos em levar isso em consideração.

Por que a influência global da Revolução Francesa é maior do que a da Americana [1776], se houve influência mútua entre ambas e esta aconteceu antes?
É difícil medir influência. No entanto é irrefutável que a Revolução Francesa teve tremenda influência nos séculos 19 e 20. A apropriada pelos marxistas, se tornou um ingrediente da Guerra Fria. Foi vista como a mãe de todas as revoluções, e tenho que admitir que essa é a minha visão. Mesmo Leon Trotsky [1879-1940] na Rússia estava tão convencido do modelo francês que começou a ver sintomas de uma reação termidoriana [referência à condenação à morte de Maximilien Robespierre e ao fim do comando jacobino da revolução, em 1794].
A Revolução Americana jamais foi tratada dessa forma. Mas foi um evento revolucionário e importante de outras maneiras, em particular na noção de uma colônia derrubar o país-mãe e criar uma nova sociedade com seu próprio sistema constitucional. Me parece que esse exemplo também teve ressonância. Há diferentes tipos de revolução, mas acho que a dimensão, o drama e a violência da Francesa foram muitos maiores do que os da Americana.

Há algo mais que o sr. gostaria de acrescentar?
Só que eu acho que [os acontecimentos no Oriente Médio] são comoventes demais, e inspiradores. É o tipo de coisa que faz o seu coração apertar, traz lágrimas aos olhos e faz você pensar que a humanidade pode se regenerar. Há essa enorme população de pessoas vivendo na pobreza, submetidas à tirania e à tortura, e elas tiveram a coragem de ir às ruas e derrubar regimes que monopolizavam o poder. É de tirar o fôlego. Eu só espero que isso não degenere em guerra civil e no restabelecimento de sistemas de interesses escusos e corrupção.

RAIO-X

NOME: Nome: Robert Darnton, 71, nascido em Nova York
CARGOS: Professor do Departamento de História de Harvard, é diretor das bibliotecas da universidade
ESPECIALIDADES: História cultural da Revolução Francesa e história do livro e da imprensa. Acha que o futuro é digital, mas que o livro, impresso ou eletrônico, "está muito vivo"
LIVROS: "O Grande Massacre dos Gatos" (Graal), "O Iluminismo como Negócio", "Boemia Literária e Revolução", O Beijo de Lamourette: Mídia, Cultura e Revolução" (os três últimos da Companhia das Letras), entre outros
Folha de São Paulo

Paris é uma festa

Em 7 de abril de 1831, o imperador Pedro 1º. abdicou da Coroa brasileira em favor de seu filho Pedro e zarpou para Paris. Após seis meses de badalações e tertúlias, viu nascer a filha Maria Amélia e moveu ofensiva militar contra o irmão, d. Miguel, rei de Portugal, a quem derrotou, deixando o trono livre para d. Maria 2ª.

ISABEL LUSTOSA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Biblioteca Nacional de Portugal
Na caricatura de Daumier (1833), apoiado pelo rei da França, D. Pedro encara o irmão D. Miguel (à dir.)

No dia 7, fez 180 anos que o imperador d. Pedro 1º pisou pela última vez em terras brasileiras. A data, hoje esquecida, já teve tanta importância que chegou a ser cogitada como feriado da nossa independência. Era um dia tão significativo que Bernardo Pereira de Vasconcelos, grande personalidade da Regência, daria o nome de "7 de Abril" ao seu polêmico jornal. Talvez o baixo nível de muito do que publicou ali tenha contribuído para o rápido desprestígio da data.

Depois de um processo de desgaste que tivera entre suas razões o profundo envolvimento de d. Pedro com a sucessão da monarquia portuguesa, ele fora levado a abdicar da Coroa brasileira em nome de seu filho de cinco anos, que assim se tornava, automaticamente, o imperador d. Pedro 2º.

Não zarpou logo o ex-imperador.

Seu navio ficou no porto ainda por uma semana, durante a qual ele aproveitou para negociar todos os seus bens, até os mais modestos. A bordo, seus maus modos --especialmente no trato com d. Amélia-- e sua azáfama de dono de armazém cioso da contabilidade de seu comércio causaram espécie na tripulação inglesa do Warspite.

TIRANO Deixava para trás o Brasil, onde, ao longo de um reinado de dez anos, passara de herói da Independência, príncipe liberal indispensável à conservação da unidade do nosso território, a tirano que não respeitava as decisões da Assembleia e que estaria mais ocupado com os problemas do país do qual nos libertáramos do que com os nossos. Poucos dias depois da abdicação, um dos jornais que mais o combateram, o "Tribuno do Povo", do agitador republicano Francisco das Chagas de Oliveira França, publicaria a acusação, até então apenas murmurada, de que a imperatriz Leopoldina, pouco antes de morrer, teria recebido um literal pontapé do marido.

A imagem do imperador do Brasil também não parecia ser muito boa no exterior. O casamento com a segunda imperatriz, d. Amélia, aliás, só foi celebrado depois que 16 princesas europeias recusaram a mão ao pretendente, aterrorizadas com seus modos brutais. Sabia-se também na Europa que ele ostentava uma amante poderosa, a plebeia Domitila de Castro, elevada pelo imperador a marquesa de Santos.

A revolta dos batalhões estrangeiros que ensanguentou o Rio durante três dias, em 1828, traumatizara a cidade. Quando o mesmo cenário se repetiu, em março de 1831, na sequência dos combates entre portugueses e brasileiros que passou à história como a Noite das Garrafadas, o desapreço dos brasileiros por d. Pedro já era total.

DESEMBARQUE No entanto, ao desembarcar na Normandia, em junho de 1831, o agora duque de Bragança foi recebido com salvas de 21 tiros de canhão, batalhões em formação, banquetes e todas as honras devidas ao chefe de Estado que já não era. Cherbourg e o resto da França festejavam d. Pedro como o príncipe que implantara um regime constitucional em um novo país da América.

As notícias sobre a revolução ocorrida em Paris em julho de 1830, que derrubara Carlos 10º, e, com ele, a última encarnação do regime absolutista na França, serviram de estímulo aos que, no Brasil, combatiam d. Pedro, impulsionando o movimento que o levou a abdicar. Na França, no entanto, o imperador tropical representava justamente os ideais modernos do constitucionalismo e do liberalismo.

Ao contrário do irmão, d. Miguel, que promovia um reinado de terror em Portugal, d. Pedro era visto como um monarca à frente de seu tempo, pois dera uma constituição tanto aos "selvagens" do Brasil como ao obscuro Portugal, mergulhado no atraso e na superstição. Impulsionada pelas ações e pela boa imagem do ex-imperador, a causa de d. Maria 2ª, cuja coroa fora usurpada pelo tio, ia ganhando admiradores por toda a Europa e empolgava a imprensa liberal francesa.

REVOLUÇÃO Em Paris, no aniversário de um ano da revolução de julho de 1830, o rei Luis Felipe fez questão de comparecer a todos os festejos na companhia do ex-imperador. D. Pedro causou a melhor das impressões. Elegante, simpático e bom cavaleiro, por onde passava era saudado pela multidão. Se no Rio desconcertava os diplomatas europeus com seu estilo informal --sem atentar para as sutilezas do "vous" (pronome de tratamento formal) e do "tu" (informal)--, só fazia agradar numa França com sede renovada de democracia.

Lafayette, por exemplo, que andava meio em baixa, até gostou quando, ao ser apresentado a ele, d. Pedro não escondeu que era tiete do herói francês. A amizade que firmaram faria com que o próprio Lafayette mais tarde escrevesse a d. Pedro encaminhando-lhe o neto como voluntário para lutar na reconquista do trono de Portugal.

Aurélio de Figueiredo/Wikimedia Commons
Na tela de Aurélio de Figueiredo (c. 1890, d. Pedro 1º entrega a carta de abdicação

Dali em diante, d. Pedro seria constantemente mencionado nos jornais. Até o nascimento de sua filha, em dezembro de 1831, mereceria longa matéria na primeira página do "Le Moniteur Universel". Ali se descrevia em detalhes a reunião em torno do leito da duquesa de Bragança. Entre os convivas, estava o embaixador do Brasil, pois d. Pedro queria garantir para a filha caçula o direito de sucessão ao trono brasileiro.

Diz o jornal que, depois do nascimento da princesa Maria Amélia, foram todos comemorar num restaurante. Devem ter reproduzido ali, no frio do inverno parisiense, mais uma das memoráveis pândegas lideradas pelo maior dos pândegos que sempre foi o imperador. Do grupo, no qual não faltaram o Chalaça e o futuro marquês de Resende, Antonio Telles, é possível que também participassem o pintor Jean-Baptiste Debret e seu pupilo, Araújo Porto-Alegre, então recém-chegados à Europa.

MUNDANISMO Se, do ponto de vista da vida pública, o "séjour" parisiense de nosso primeiro imperador foi um sucesso, do ponto de vista mundano não foi diferente. Ele era visto em toda parte, na ópera, nas corridas, frequentando os melhores cabeleireiros, os melhores alfaiates, fazendo-se retratar pelo melhor gravador e, só para não perder o costume, conquistando corações.

Mas não seria o nosso d. Pedro 1º se tudo o que fizesse agradasse aos esnobes franceses. A condessa de Abrantes, que o vira menino em Lisboa, classificou seus modos como equivalentes aos de um "criado de quarto de uma casa sem muita classe".

Suas composições musicais, apresentadas no Teatro dos Italianos pela orquestra do grande Rossini (diante do qual d. Pedro quedara-se embasbacado), foram bombardeadas pelo jornal "La Mode". Disse o jornal conservador que "o imperador do Brasil faria melhor indo expulsar seu sanguinário irmão do trono de Portugal do que expulsando com sua música os pacatos frequentadores da ópera".

CAMPANHA MILITAR D. Pedro não demoraria a de fato partir para Portugal. Enquanto jogava bilhar com o rei dos franceses ou festejava com os brasileiros e portugueses radicados em Paris, captava os recursos para aquela campanha militar que então todos consideravam de sucesso improvável. A simpatia pela causa de d. Maria no resto da Europa e o apoio da imprensa e dos liberais não eram garantia de ajuda para a expedição. Inglaterra e França preferiam, mesmo que apenas oficialmente, manter-se neutras diante da situa­ção portuguesa.

D. Miguel contava com um Exército de 80 mil homens e com o apoio da população. D. Pedro era um completo estranho, que nunca mais voltara a Portugal e que, ainda por cima, tinha arruinado o país patrocinando a independência do Brasil. Quando deixou a França com destino a Portugal, em janeiro de 1832, mal conseguira juntar 7.000 homens e algumas poucas embarcações, muito mal equipadas. Faltavam a d. Pedro navios, armas e homens. Suas tropas contavam, no entanto, com um bom elenco de poetas e idealistas, entre os quais Almeida Garrett e Alexandre Herculano, além da garra do notável líder militar que o ex-imperador do Brasil haveria de se revelar.

Foi uma campanha heroica e, pela bravura que demonstrou nos campos de batalha, pelo comando firme que impôs aos seus Exércitos, d. Pedro alcançou a vitória em 1834, quando, afinal, pôde coroar rainha sua filha amada, Maria da Glória. Estava fechado o ciclo desse contraditório herói romântico moderno que morreria logo depois, em setembro de 1834, aos 36 anos, deixando fixada na história de Portugal uma imagem bem diversa da que deixou no Brasil quando abdicou, em 7 de abril de 1831
Folha de São Paulo