sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quem tem medo do islã?


Quem tem medo do islã?
por Rodrigo Cavalcante
Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, um atentado terrorista transformou o Islã na grande preocupação do Ocidente. Mas o que nós aprendemos sobre os muçulmanos desde então? Será que a religião seguida por mais de 1,2 bilhão de pessoas é a responsável pelas imagens de violência e radicalismo a que assistimos diariamente na TV? Para começar a responder a essas perguntas, precisamos desviar dos estereótipos e voltar no tempo. Numa viagem que começa na inóspita Arábia da época de Maomé.
No século 7, a Arábia Saudita, hoje cobiçada por possuir a maior reserva mundial de petróleo, não passava de um rincão desértico que não interessava ninguém. Naquele local habitado por tribos nômades (os beduínos), a vida valia pouco. Os mercadores que cruzavam a região em direção aos vizinhos reinos da Pérsia, no atual Irã, ou Bizâncio, na Turquia, viviam ameaçados pelos constantes conflitos tribais. Até que, no ano 610, um mercador de 40 anos da cidade saudita de Meca passou por uma experiência sobrenatural que mudaria a história da região – e do mundo.
Enquanto dormia em seu retiro habitual, que ficava numa caverna do monte Hira, o mercador Maomé teve a visão de um anjo que ordenou: “Recita”. A divindade, mais tarde identificada como Gabriel (o mesmo que teria visitado Maria seis séculos antes para anunciar a chegada de Jesus), teria abraçado Maomé com força e insistido: “Recita”. No limite de sua resistência física, o mercador sentiu, finalmente, que algumas palavras inspiradas por Deus começavam a sair da sua boca. Mais tarde, elas fariam parte do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, que contém as mensagens consideradas divinas que Maomé continuaria recebendo até o fim de sua vida, em 632.
A revelação preencheu um vazio religioso que havia muito perturbava os povos da Arábia. Até então, a região era um centro de santuários de culto a diversas divindades, mas não havia nada parecido com as sofisticadas revelações das escrituras judaicas e cristãs. Por isso mesmo, os árabes também previam que um dia receberiam uma revelação direta do mesmo Deus dos judeus e dos cristãos. A experiência que Maomé teve naquela noite parecia confirmar essa previsão. Nascia, assim, o Islã (palavra que significa “submissão a Deus”).
Assim como o judaísmo e o cristianismo, o islamismo reivindica para si o DNA do mesmo pai: Abraão, o patriarca bíblico que, há cerca de 4 mil anos, teria feito uma aliança com Deus em troca da promessa de que sua “semente” iria prosperar por toda a Terra. A tal semente, de fato, se espalhou. Hoje, mais da metade da população do planeta (cerca de 3,5 bilhões de pessoas) segue uma dessas três crenças.
Apesar de serem irmãs, entretanto, toda vez que uma dessas religiões se expandia pelo resto do mundo, o conflito com as outras parecia inevitável. Quando o cristianismo tornou-se, no século 4, a religião oficial do Império Romano, os judeus começaram a ser perseguidos por não reconhecerem Jesus como filho de Deus. Séculos depois, os muçulmanos entraram em confronto direto com os cristãos: as palavras de Maomé unificaram as tribos árabes e, apenas um século depois, seriam a base de um império que ia da Espanha e do Marrocos, no Ocidente, até o Afeganistão e o Paquistão, no Oriente. Os muçulmanos só sairiam da Europa Ocidental no século 15, após serem expulsos pelos reinos cristãos da Espanha e de Portugal – que, por sua vez, continuariam massacrando os judeus.
Há algumas décadas, entretanto, judeus e cristãos se aproximaram. A fundação do Estado de Israel, no Ocidente, fortaleceu as relações entre as duas comunidades. Em contrapartida, os muçulmanos se tornaram cada vez mais distantes, a ponto de hoje serem vistos como promotores de governos despóticos, de repressão contra as mulheres e, é claro, de atentados terroristas. Mas o que há de verdade e o que há de mito nessa imagem dos países de maioria muçulmana? Por que temos a impressão de que Estado e religião são inseparáveis nesses países? Um olhar atento mostra que as possíveis respostas a essas perguntas estão mais na história dos últimos séculos que no conteúdo de escrituras sagradas.

Profeta armado
Segundo alguns historiadores, parte da dificuldade dos países muçulmanos em separar Estado e religião está na própria gênese do Islã. Para que a nova fé prosperasse, Maomé esteve à frente de uma série de batalhas até derrotar os politeístas da cidade de Meca. Se a vida dele terminasse em uma delas, ele provavelmente seria lembrado como um grande mártir religioso, que sonhou com uma sociedade justa e fraterna e sucumbiu em meio à insensibilidade dos homens. Mas diferentemente de Jesus, que foi crucificado numa terra governada pelos romanos, Maomé não apenas continuou vivo como conseguiu, na base da espada, transformar a cidade de Meca no centro do Islã. Ele morreu como um homem comum de sua época, doente e cercado pelos filhos e esposas. A historiadora inglesa Karen Armstrong, em seu livro Maomé – Uma Biografia do Profeta, lembra que ele não foi nenhum santo. “Maomé viveu numa sociedade violenta e perigosa e às vezes adotou métodos que nós, que temos a sorte de viver num mundo mais seguro, achamos perturbadores”, afirma ela.
Para compreender melhor as conse qüên cias que a vida de Maomé teve para seus seguidores, um cristão precisa fazer uma pergunta curiosa: se, por algum motivo, Jesus tivesse tido tempo de fundar e liderar uma comunidade baseada nos seus ensinamentos, o que mudaria no cristianismo? Provavelmente muita coisa, não? De certa forma, foi exatamente isso o que se deu com Maomé. Como diz Bernard Lewis, professor de Estudos Orientais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e autor de O Que Deu Errado no Oriente Médio?, Maomé conquistou sua terra prometida e criou seu próprio Estado, do qual ele mesmo foi soberano supremo. E, como tal, promulgou leis, ministrou justiça, arrecadou impostos, recrutou exércitos, fez guerra e fez paz. “Numa palavra, governou”, diz o historiador.
As normas de Maomé ficaram registradas no Alcorão, que ainda hoje é o fundamento da legislação de vários países muçulmanos. Comparado com as alegorias dos Evangelhos, esse livro é, de fato, bem mais específico nos seus mandamentos. Entre os 6326 versículos da obra sagrada dos muçulmanos, há desde instruções para o casamento até regras sobre como o governante deve agir na cobrança de impostos. Como diz o xeque Jihad Hassan Hammadeh, um dos líderes da comunidade islâmica no Brasil, o Alcorão é mais que um livro religioso: “É um sistema econômico, jurídico e político”.
As mensagens emitidas por Maomé em nome de Deus foram transmitidas durante longos 23 anos, durante os quais o líder precisava resolver conflitos típicos de uma sociedade em formação. Não é de estranhar, portanto, que algumas das revelações tratassem inclusive da melhor maneira de lidar com os inimigos em uma guerra. No Alcorão, as instruções de Alá para lidar com os politeístas são bastante claras. Primeiro, diz o texto, deve-se tentar convertê-los. Caso eles não aceitem a proposta, podem manter sua fé, desde que paguem tributos. Se os infiéis, ainda assim, resistirem, aí a violência se justifica, expressada na polêmica frase: “Matai os idólatras, onde quer que os achei; capturai-os, acossai-os e espreitai-os”.
Por cerca de 14 séculos, o resgate das passagens belicosas do Alcorão tem sido usado, no Ocidente, como confirmação de que o Islã incitaria a violência. Para os especialistas em religião, contudo, o Alcorão não é mais violento ou cheio de leis do que outros textos sagrados, como a própria Bíblia. O livro bíblico do Levítico, que trata de leis e foi herdado da Torá dos judeus, é um caso exemplar. Afinal, ele está repleto de normas que, se fossem seguidas ao pé da letra hoje em dia, fariam com que nossa sociedade fosse pouco diferente de um regime opressor como o do Talibã. Além disso, é bom lembrar que a separação entre Igreja e Estado é uma conquista recente no Ocidente, que ainda vem se aprofundando (devido à pressão da Igreja Católica, o divórcio, por exemplo, só foi legalizado no Brasil na década de 1970).Mas, se as mensagens contidas no Alcorão não são tão diferentes assim de outros textos religiosos, por que a violência está sempre associada aos países muçulmanos? Qual a origem do extremismo religioso?
O Ocidente ataca
As tropas inglesas no golfo Pérsico receberam ordens do primeiro-ministro e começaram a invasão. Quatro meses depois, as forças ocidentais, vitoriosas, ocuparam a fronteira da região do Iraque. Diferentemente do que talvez você esteja imaginando, a invasão acima não foi transmitida pela CNN. Nem poderia. Essa “Guerra do Golfo” foi, afinal, travada em 1856, quando o primeiro-ministro britânico lorde Palmerston mobilizou as tropas inglesas para lutar contra o Exército da Pérsia (atual Irã), que havia invadido a cidade de Herat, na divisa com o Afeganistão.
“As semelhanças desse conflito com a atual Guerra do Iraque são muitas, ainda que tenham mudado as motivações do confronto”, escreveu o historiador inglês Miles Taylor, professor de História Moderna da Universidade de Southampton. Para ele e outros especialistas, a invasão da Pérsia na época é um indício de como o mundo muçulmano já estava vulnerável diante das forças do Ocidente. Já em 1798, sob o comando de Napoleão Bonaparte, os franceses tinham invadido o Egito. Depois foi a vez da Argélia, em 1830. Em pouco tempo, Sudão, Líbia, Marrocos e Tunísia também foram repartidos por países europeus. No início do século 20, o Império Otomano foi ocupado e partilhado entre França e Inglaterra, que estabeleceram protetorados na Síria, no Líbano, na Palestina e no Iraque.
Segundo Karen Armstrong, o Egito é um dos casos emblemáticos de como as potências imperialistas encaravam o que deveria ser a “democracia” no mundo islâmico. Entre 1922 e 1948, houve 17 eleições no país, todas vencidas pelo Partido Populista. Mas em apenas cinco delas os vitoriosos conseguiram governar, já que a Inglaterra intervinha no Egito e derrubava autoridades sempre que o resultado nas urnas não era o desejado. No Irã, a descoberta de jazidas de petróleo fez com que britânicos e americanos se envolvessem diretamente na disputa pelo poder no país. Em 1953, eles apoiaram um golpe militar que depôs o primeiro-ministro Mohammad Mussadeq e instaurou uma ditadura liderada pelo xá Reza Pahlevi. Resultado: depois da “revolução branca” de 1963, que almejava modernizar o país nos moldes ocidentais, a corrupção e a ditadura do xá descontentaram boa parte da população e das elites locais. Em 1978, a oposição se uniu sob a liderança de Ruhollah Khomeini, então exilado na França. Em abril do ano seguinte, ele e os oposicionistas declararam oficialmente que o Irã era uma República Islâmica cuja autoridade suprema é o chefe religioso, o aiatolá. Khomeini ocupou o cargo até sua morte, em 1989, e o regime ainda permanece o mesmo.
Terra prometida
Em meio a tantas histórias de interferência ocidental nos países islâmicos, o conflito que provoca a maior cisão entre o Ocidente judaico-cristão e o Oriente muçulmano vem sendo travado numa pequena porção de terra. Seus protagonistas são árabes e israelenses. Tudo começou na passagem do século 19 para o século 20, com o advento do movimento sionista, que lutava pela fundação de um Estado judeu na Palestina (área onde hoje está Israel). Na época, os judeus foram estimulados a migrar para a região, que então era uma província do Império Otomano administrada pelos britânicos de maioria muçulmana. Em 1922, os judeus representavam apenas 11% da população. Mas logo isso iria mudar.
Como conta o historiador inglês Albert Hourani em Uma História dos Povos Árabes, os britânicos não fizeram muito para conter o movimento, mesmo sabendo que o fluxo migratório judeu terminaria levando ao pedido de um Estado autônomo. Após a Segunda Guerra, as tensões na região aumentaram. “Os britânicos não tinham mais tanta liberdade de ação por causa de suas estreitas relações com os Estados Unidos e sua dependência econômica deles”, escreveu. O governo americano, por sua vez, pressionado por sua enorme e ativa comunidade judaica, inclinava-se a favor da fundação de um Estado controlado pelos judeus – que, a essa altura, já eram quase um terço da população na Palestina. Sob o impacto das recentes revelações do martírio imposto aos judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra, a idéia ganhou legitimidade.
Apesar do protesto dos países árabes, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou, em 1947, um plano prevendo a fundação do Estado judaico. Para boa parte dos muçulmanos, a perda da Palestina se tornou o maior símbolo da humilhação que os países islâmicos passaram nas mãos das potências ocidentais. Os árabes que perderam seus lares com a independência de Israel estavam se transformando, na visão do escritor palestino Edward W. Said, nas “vítimas das vítimas” – se os judeus haviam sido vítimas de nazistas, os palestinos não entendiam por que deveriam arcar com outro sacrifício.
Inconformado, o mundo árabe enviou forças para lutar contra o Exército de Israel. Egípcios, jordanianos, iraquianos, sírios e libaneses atacaram o país em 1948, logo após sua declaração de independência. O saldo da guerra, contudo, beneficiou os vitoriosos judeus: em 1949, cerca de 75% da Palestina foi incluída dentro da fronteira de Israel (pouca gente no Ocidente se mostrou sensível aos 750 mil palestinos que foram exilados). Para piorar a situação, os países árabes atacaram novamente. Foram humilhados pela derrota na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O segundo fracasso parecia confirmar a tese de que os muçulmanos não seriam bem sucedidos enquanto não fossem governados segundo as estritas regras da “visão original do Islã”. Esse tipo de ideologia, inspirado em leituras radicais do Alcorão, influenciou grupos como o Talibã (que, na língua pashtun, quer dizer “estudantes”, numa referência ao fato de seus fundadores terem se formado nas madrasahs – escolas islâmicas conservadoras – do Paquistão).
Em 1994, o Talibã assumiu o poder no Afeganistão, determinado a resgatar a “pureza islâmica”. Na prática, o regime reintroduziu castigos como o apedrejamento e a mutilação, impediu as mulheres de atuar profissionalmente e de sair nas ruas sem véus e proibiu toda transmissão de informação que não estivesse de acordo com a ortodoxia religiosa. Mesmo representando o pensamento de uma minoria, eles acertaram em cheio os corações de milhares de muçulmanos com baixa auto-estima – e seguem manchando a imagem da comunidade islâmica, já que tal minoria reúne desde terroristas do grupo Hamas até o líder da temida Al Qaeda, Osama bin Laden.

Impasses do Islã
A escalada da violência e do extremismo religioso tem reforçado no Ocidente o preconceito contra o mundo muçulmano. Enquanto as diferenças entre culturas afloram, as semelhanças perdem força. Poucos cristãos costumam lembrar, por exemplo, que Jesus é um dos grandes profetas do Islã, ao lado de Moisés e Maomé. Ao procurarem citações de violência no Alcorão, muitos se esquecem de que nele há mais citações de Maria que em todo o Novo Testamento – a mãe de Jesus é considerada um exemplo de mulher a ser seguida. Mas a força dessas semelhanças, é claro, não é capaz de concorrer com a terrível imagem de um Boeing 767 se chocando contra uma das torres do World Trade Center.
Para os historiadores, isso não significa, é claro, que aspectos como a discriminação contra a mulher, a violência e a repressão em vários países muçulmanos devam ser relativizados (veja quadro na pág. 32). Significa apenas que boa parte do que ocorrerá nesses países vai depender da forma como o Ocidente irá compreender (ou não) os impasses do mundo muçulmano. A guerra civil no Iraque é um exemplo de como a tentativa ocidental de extinguir a ameaça dos terroristas pode se tornar, no decorrer do caminho, uma verdadeira fábrica de novos homens-bomba, cujo ardor suicida é quase incompreensível para o Ocidente. Mas, como lembra a historiadora Karen Armstrong, quando o império islâmico estava em seu apogeu e os cristãos acuados, no século 11, eram os governantes muçulmanos que não entendiam por que alguns seguidores de Jesus, em vez de guardarem sua fé na intimidade, blasfemavam contra Maomé publicamente mesmo sabendo que isso os condenaria à morte. Hoje, muitos deles são mártires da Igreja, cultuados como santos por milhões de católicos.

Islã global
O mundo muçulmano é bem maior do que o mundo árabe
Diferentemente do que o noticiário faz parecer, os povos de língua árabe representam apenas cerca de 20% dos 1,2 bilhão de muçulmanos do mundo. As comunidades islâmicas mais vastas vivem em países de língua não-árabe, como a Indonésia e o Paquistão.
Fundamentalistas ou totalitários?
As ditaduras islâmicas distorcem a religião em nome do poder
Em um mundo tão politicamente correto, nem sempre é fácil estabelecer o limite entre o que é respeito à diversidade e o que é violação a direitos básicos. O uso do véu pelas muçulmanas é um caso típico: enquanto boa parte do Ocidente o vê como um sinal de atraso e discriminação contra a mulher, muitas muçulmanas se ofendem e argumentam que o pior é a “ditadura da moda ocidental”, que obrigaria as mulheres a seguir um padrão de beleza inatingível. Não é à toa que, na França, muçulmanas têm protestado contra a decisão do governo de impedir o uso do véu em instituições públicas de ensino. Mas em lugares como o Irã o uso do véu não é uma opção. É lei. Em mesquitas, universidades e até mercados de muitos países islâmicos, há espaços demarcados para segregar as mulheres dos homens. Na Arábia Saudita, elas sequer podem dirigir um automóvel – e como o Alcorão surgiu no século 7, quando o camelo era o único meio de transporte da região, é difícil argumentar que haja alguma base religiosa para essa proibição. Toda vez que um grupo religioso toma o poder prometendo resgatar a pureza do Islã, o que se vê em seguida é mais repressão. Foi o que sentiu na pele Shirin Ebadi, ativista pelos direitos humanos no Irã e prêmio Nobel da Paz de 2003. Pouco antes da revolução islâmica no país, em 1979, ela havia se tornado a primeira iraniana a exercer o cargo de juíza, chegando a presidir o tribunal da capital, Teerã. Após chegar ao poder, o aiatolá Khomeini afirmou que a magistratura era “incompatível com o caráter demasiado emocional das mulheres”. Pronto: Shirin Ebadi foi forçada a abandonar o cargo e, desde então, tem se dedicado à luta pelos direitos humanos, investigando a morte de intelectuais perseguidos pelo regime. Ao receber o Nobel, em 2003, Shirin, que é muçulmana, defendeu a separação entre Estado e religião e lembrou que não há nenhuma contradição em defender a democracia e praticar o Islã. Alguns autores, aliás, não utilizam o termo “fundamentalismo islâmico” para denominar os grupos extremistas que instauram ditaduras violentas em alguns desses países. Esse é o caso de Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, que está escrevendo um livro sobre o Islã. De acordo com ele, chamá-los de “fundamentalistas” termina enobrecendo esses grupos, como se eles tivessem o propósito de seguir os preceitos fundamentais dos muçulmanos. “Eles estão mais perto de Hitler do que de fanáticos religiosos como Jim Jones”, diz Kamel. “E devem ser chamados pelo nome certo: totalitários do Islã.”
Um dia sob dois véus
Acompanhe a rotina de duas sauditas
Giovana Sanchez
História entrevistou duas muçulmanas da Arábia Saudita sobre seus cotidianos. Ambas respeitam o horário das rezas (que duram de 5 a 8 minutos e não podem ser feitas durante a menstruação nem no pós-parto) e vestem “abaya” (véu que cobre o corpo e parte do rosto). As duas agradecem a Alá por serem as únicas esposas de seus maridos.
Fatma Fahad Al-Dukhain, saudita, 49 anos, casada, sete filhos. Dona-de-casa, cursou o ensino fundamental. Mora em Riad, capital saudita.
5h03 - Salát Fajr (oração da manhã)
7h - Ela prepara e serve o café, com ovos, queijo e pão preto. Depois despacha as crianças para a escola com o motorista.
9h - Hora da faxina, de cozinhar e cuidar dos bichos de estimação (três papagaios, 12 outras aves e coelhos). Alguns dias da semana treina direção. Quer ser a primeira saudita a ter carteira de motorista. “Vai ser em breve.”
11h53 - Salát Dhuhr (oração do meio-dia)
15h - Com a ajuda de uma empregada, Fatma prepara o almoço para os filhos, recém-chegados das escolas. À mesa, carnes ou peixes.
15h44 - Salát Asfr (oração da tarde)
17h - Um motorista leva Fatma à instituição feminina para trabalhos voluntários, ao shopping ou ao cabeleireiro.
18h43 - Salát Maghreb (oração do pôr-do-sol)
19h - O jantar é servido: pratos leves, como sopa de vegetais com carne. A família janta unida. Após a refeição eles conversam, assistem à tevê. Fatma gosta de ler revistas.
20h09 - Salát Isha (oração do anoitecer)
21h - Fatma e o marido recebem, geralmente, amigos e parentes. “Nós temos uma casa grande e gostamos de ter amigos por perto.” Quando está sem companhia, Fatma assiste a filmes árabes na tevê, acompanha o noticiário e às vezes navega na internet, para checar e-mails.
23h - Fatma vai para a cama.
Samar Fatany, saudita, 52 anos, casada, três filhos. Formada em Comunição, publicou dois livros, apresenta um programa de rádio. Vive na cidade de Jeddah.
5h03 - Salát Fajr (oração da manhã)
7h - O desjejum começa com chá, torradas e cereais e termina com café turco (de sabor muito forte). A família de Samar está reunida.
9h - Samar chega à rádio Jeddah. Redige reportagens e apresenta um programa, com entrevistas feitas também por ela.
11h53 - Salát Dhuhr (oração do meio-dia)
15h - Volta para casa. Quem cuida da limpeza é a empregada e, nesse horário, Samar geralmente aproveita para terminar alguma atividade da rádio e checar e-mails enquanto os filhos não chegam – dois meninos estão na faculdade e uma menina termina o ensino fundamental.
15h44 - Salát Asfr (oração da tarde)
16h30 - O almoço feito pela cozinheira é servido: frango ou carnes grelhadas, saladas e frutas.
17h30 - Todos repousam durante uma hora.
18h43 - Salát Maghreb (oração do pôr-do-sol)
20h - O marido de Samar chega do trabalho. O jantar é substituído por um lanche (chá com biscoitos e torradas). Todo o clã se encontra. Depois, os filhos vão encontrar os amigos e Samar assiste a filmes e programas árabes na tevê.]
20h09 - Salát Isha (oração do anoitecer)
23h - Antes de dormir, Samar lê jornais e revistas. Nos fins de semana (quinta e sexta, na Arábia Saudita) vai a restaurantes e visita amigos.
Sexo no Islã
De acordo com o Alcorão, o sexo só é permitido dentro do casamento. E o assunto é tratado com receio em comunidades tradicionais e religiosas. Mas uma mulher quebrou o gelo: após concluir seu doutorado em Sexualidade na Universidade do Cairo, no Egito, a médica Heba Kotb, 39 anos, tornou-se apresentadora de um programa sobre o tema na televisão. Duas vezes por semana, ela fala abertamente sobre masturbação, noite de núpcias, métodos contraceptivos etc.
Para ela, o sexo é um presente de Alá para a humanidade. Para aproveitá-lo, é necessário que as pessoas consigam controlar seu comportamento de acordo com a ética social e pessoal. E que se livrem do medo, da vergonha e da culpa. “As mulheres sofrem mais com os problemas sexuais. A maioria não está satisfeita e não sabe como expressar seu desagrado”, explica a doutora, que atende cerca de 20 pacientes por dia em seu consultório no Cairo.

Saiba mais
Livros
Uma História dos Povos Árabes, Albert Hourani, Companhia das Letras, 1994
Vasto e elegante panorama sobre o mundo árabe, de antes de Maomé até os conflitos mais recentes.
O Islã, Karen Armstrong, Objetiva, 2001
Resumo da história do islamismo, revela como os movimentos extremistas surgiram em reação ao domínio colonial do Ocidente.
O Que Deu Errado no Oriente Médio?, Bernard Lewis, Jorge Zahar, 2002
O polêmico historiador vai em busca das causas da decadência do poder do mundo islâmico diante da emergência das potências européias.

Revista Aventuras na História

A fofoca na história: Você sabe da última?


A fofoca na história: Você sabe da última?
Um dos fenômenos sociais mais populares há séculos, a fofoca já interferiu nos rumos da história e, bem contada e devidamente espalhada, chegou até a (quase) se transformar em verdade absoluta
por Érica Montenegro e Cláudia de Castro Lima
Ei, preciso contar uma coisa. Você soube que a rainha Elizabeth I tem um amante? Toda a corte está dizendo...
Difícil não prestar atenção no que vai ser dito quando a conversa começa assim. A fofoca sempre fez parte da história da humanidade. E nunca poupou ninguém, muito menos os “famosos” – se hoje são artistas de cinema e TV, antes eram guerreiros, políticos, exploradores, monarcas. “A rainha inglesa Elizabeth I, por exemplo, foi intenso alvo de fofocas entre 1560 e 1570”, afirma o historiador Bernard Capp, da Universidade de Warwick, no Reino Unido. “Ela tem um caso? Está grávida? Teve um filho ilegítimo? Boatos assim eram muito comuns entre os ingleses.”
Fofocas já correram tanto de boca em boca que mesmo as mentirosas acabaram convencendo tanta gente que até hoje são conhecidas. O fato de Michelangelo, o genial pintor renascentista, ter matado um sujeito para estudar a anatomia de seu corpo é um desses casos. Ou de o alemão Johannes Brahms estrangular gatos para reproduzir seus gritos em trechos de sinfonia.
Falar da vida alheia é um hábito do tempo das cavernas. Segundo Frank McAndrew, especialista em fofoca da universidade norte-americana Knox College, ela ajudou na evolução humana. “Para obter sucesso nos grupos sociais, os homens pré-históricos tinham de saber sobre a vida das outras pessoas e o que elas sabiam fazer”, afirma. Para ele, quem tinha mais informação conhecia as fraquezas dos adversários – e sabia tirar vantagem disso.
Se espalhar boatos sobre os outros é hábito antigo, foi só há cerca de 30 anos que especialistas como historiadores e antropólogos resolveram estudar o que pode haver por trás da fofoca. Para muitos deles, histórias inventadas ou meias-verdades dizem bastante sobre os medos, desejos e preconceitos de quem os espalha. Outros defendem que as histórias difamadoras funcionam como uma força conservadora, esclarecendo que tipo de estrutura social e que normas de conduta devem ser seguidos para não cair na boca do povo.
Mas os boatos também interferiram na história e tiveram papel político em várias ocasiões. No século 1, por exemplo, um deles foi fundamental para o destino da rainha egípcia Cleópatra e seu amante romano Marco Antônio. A própria rainha, acuada pelo Senado romano, que declarara guerra a ela e a Antônio (que devolvia terras sob domínio de Roma para a amada), fez circular a fofoca de que tinha se matado. Antônio acreditou e enfiou uma faca na própria barriga. Cleópatra, mais tarde, acabou realmente se matando.
Séculos depois, na Europa medieval, a fofoca adquiriu caráter de válvula de escape. “Na Idade Média, a fofoca sobre gente importante, como senhorios e reis, era vista como uma forma de resistência escondida”, diz Bernard Capp. “Não era permitido protestar abertamente contra essas pessoas, mas, por trás delas, contavam-se histórias sobre suas vidas, ria-se de suas caras, diminuía-se sua importância.”
No século 18, surgiu o bisavô das revistas de fofoca de hoje, o La Chronique Scandaleuse. Impressas em território suíço e contrabandeadas para a França, as crônicas reproduziam histórias picantes sobre o cotidiano da corte. Numa época bem anterior a assessores de imagem, contratos publicitários milionários e processos judiciais por danos morais, os textos pegavam pesado na maledicência.
Sexo e monarquia
Histórias picantes sobre a vida amorosa de reis e rainhas já prejudicaram muito a imagem da monarquia. Às vésperas da Revolução Francesa, corriam boatos de que a rainha Maria Antonieta, da França, por exemplo, deitava-se com outros homens, como o cardeal Edouard e o soldado e diplomata sueco Axel Fender. A fofoca ia além: o marido traído, o rei Luís XVI, seria impotente, teria levado anos para consumar o casamento e não era o pai verdadeiro do príncipe herdeiro. As histórias, aos olhos da população, comprovavam a decadência da monarquia. E foi a luta pelo fim dela um dos motivos da revolução que eclodiu na época – e que acabou com o rei e a rainha guilhotinados.
O mesmo aconteceu mais de um século depois, quando os russos começaram a ouvir boatos sobre a vida sexual do czar Nicolau II e de sua esposa Alexandra. A versão mais maliciosa insinuava orgias entre o czar, a esposa, sua dama de companhia e seu conselheiro Rasputin. Mesmo sem ter a veracidade comprovada, as fofocas ajudaram a desmoralizar os monarcas, que seriam destituídos do poder em fevereiro de 1917. Oito meses depois, estouraria a Revolução Bolchevique – e a Rússia nunca mais teria czares.
Fofocas sobre quem está no poder sempre foram populares. “É uma maneira de ver os poderosos despidos”, diz o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, autor de Tratado Geral sobre a Fofoca. “A fofoca é um importante veículo de controle social, por isso não pode ser desprezada”, afirma.
A história mostra que são comuns também os casos de mentiras que não são desmentidas – ao contrário, são muitas vezes reforçadas – por motivos políticos. Na Itália de Mussolini, por exemplo, simpatizantes e adversários do ditador concordavam pelo menos em uma coisa: ele havia recuperado o sistema de transporte ferroviário do país. Além de símbolo da eficácia do fascismo, a pontualidade dos trens virou orgulho nacional. Só que, na verdade, os trens começaram a ser recuperados antes de Mussolini chegar ao poder, em 1922. E ele pegou carona em uma realização que não era dele.
O nascimento do colunismo social nos moldes atuais pode ser entendido como uma espécie de institucionalização da fofoca, a aceitação (e escancaração) dela pela sociedade. Isso ocorreu em meados dos anos 20. A revolucionária coluna do jornalista americano Walter Winchell no The New York Times revelava segredos de pessoas que “pulavam a cerca”, namoros até então escondidos, nomes de quem estava em dificuldades financeiras. Como as histórias de Winchell eram publicadas em vários outros jornais, 50 milhões de pessoas tinham acesso a elas. Hoje, as colunas de jornais não contam apenas fofocas de festas e bastidores. Elas trazem também furos de reportagem e informações exclusivas, inclusive políticas. Aliás, você leu na semana passada...?
Michelângelo assassino
Sabia que, para produzir uma escultura de Cristo no século 16, Michelângelo teria matado a facadas um rapaz que lhe servia de modelo? O crime teria sido cometido para que o artista pudesse dissecar o cadáver e estudar os músculos. Os biógrafos do artista dizem que ele tinha gênio difícil e era egocêntrico – características, no entanto, que não são suficientes para motivar um crime. Mas há quem acredite nisso até hoje.
Brahms e os gatos
Soube do Brahms? Um dos músicos mais importantes do romantismo europeu do século 19 estrangulava gatos para usar seus gritos em sinfonias! Essa história circulou por mais de um século, até que um pesquisador desmentiu a fama de assassino de felinos, em 2001. Depois de ler mais de 20 biografias, ele concluiu que o boato nasceu do rival Richard Wagner.
A morte de Mozart
E o compositor italiano Antonio Salieri, que, com inveja da fama de Mozart, envenenou o músico prodígio? A fofoca correu a Europa depois que Mozart morreu prematuramente, em 1791. O povo logo espalhou que Salieri, que havia dado aulas para Beethoven, Schubert e Liszt, tinha feito isso. O italiano, com raiva, alimentou o boato ao assinar uma confissão falsa. Mozart, na verdade, sucumbiu a uma febre reumática. Salieri não teve nada a ver com isso, mas ganhou a fama de ser um baita invejoso.

Telefone sem fio
Derrota na guerra virou piada
Durante a Primeira Guerra, um exemplo de quem-conta-um-conto-aumenta-um-ponto, típico das fofocas, ficou famoso. O jornal alemão Kolnische Zeitung noticiou a derrota da cidade belga de Anvers para a Alemanha: “Depois do anúncio da queda de Anvers, tocaram-se os sinos”. O jornal se referia aos sinos germânicos que comemoraram o feito. O francês Le Matin deu: “De acordo com o Kolnische Zeitung, o clero de Anvers foi obrigado a tocar os sinos quando a fortaleza foi tomada”. O The Times, de Londres, acrescentou: “Segundo o Le Matin, os padres belgas que se recusaram a tocar os sinos por ocasião da derrota de Anvers foram destituídos de suas funções”. O italiano Corriere della Sera aumentou: “Segundo o Times, os infortunados padres que se recusaram a tocar os sinos por ocasião da queda de Anvers foram condenados a trabalhos forçados”. No Le Matin, nova versão: “Segundo o Corriere della Sera, está confirmado que os bárbaros conquistadores de Anvers puniram os infelizes padres que se recusaram a tocar os sinos dependurando-os de cabeça para baixo, como badalos vivos”.
Saiba mais
Livro
Tratado Geral sobre a Fofoca, José Ângelo Gaiarsa, Summus Editorial, 1978
O psiquiatra defende no livro como todo ser humano está envolvido, como vítima ou agente, numa fofoca.

Revista Aventuras na História

Origem do bolo de aniversário



Origem do bolo de aniversário
Delicioso costume teve origem nas oferendas feitas aos deuses da Antiguidade
por Rodrigo Cavalcante
Celebrar uma data importante com direito a guloseimas tem sua provável origem nas festas de culto aos deuses da Antiguidade. Agradeça à deusa Ártemis, celebrada pelos gregos como a matrona da fertilidade, pelo aparecimento do bolo de aniversário. Ele é provavelmente a evolução de um preparado de mel e pão, no formato de uma lua, que fiéis levavam ao famoso templo em homenagem a ela em Éfeso, antiga colônia grega na atual Turquia.
Há especialistas que defendem outra teoria. Segundo ela, a tradição surgiu na Alemanha medieval, onde se costumava preparar uma massa de pão doce no formato do menino Jesus no Natal. Depois essa guloseima seria adaptada para a comemoração do aniversário de crianças.
Já o uso de velas também teria sido herdado do culto aos deuses antigos, que tinham a missão de levar, por meio da fumaça, os desejos e as preces dos fiéis até o céu, para que eles fossem atendidos.
Mas e as festas de aniversário? Até hoje, não se sabe a data exata de quando os nascimentos começaram a ser celebrados. Ainda nos dias atuais, a comemoração é um costume ocidental nem sempre seguido por outros povos. No Vietnã, por exemplo, os aniversários não são comemorados individualmente no dia do nascimento – e sim coletivamente, no ano-novo vietnamita, que segue o calendário lunar e acontece, em geral, entre os nossos 21 de janeiro e 9 de fevereiro.
Embora não saibam exatamente quando a tradição surgiu no Ocidente, os historiadores sabem que a festa já era conhecida na Antiguidade. “Os romanos não apenas comemoravam o dia do nascimento como tinham um nome para a festa: dies sollemnis natalis”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas. “Há, por exemplo, um registro do século 2 em que uma cidadã chamada Cláudia Severa convida sua amiga Sulpícia Lepidina para a comemoração”, diz.
Outra tese que reforça a idéia de que foram os romanos os difusores dessa tradição é a existência de túmulos que registram com precisão o número de anos, meses e dias no sarcófago – o que indica que eles sabiam o dia exato do nascimento do sujeito. “Eles também comemoravam outros aniversários, como o da fundação de Roma, em 21 de abril”, diz Funari.

Revista Aventuras na História

O Imperialismo, Hoje


Pablo González Casanova
Ex-reitor da Universidade Nacional Autônoma do México.

No fim do século XX, o imperialismo, que é a formação mais avançada do capitalismo, domina no mundo inteiro, com exceções como Cuba, muito pouco explicadas na teoria das alternativas.
Desde os anos 1970 e 1980, as redefinições ou reestruturações do imperialismo deram uma força especial ao processo conhecido como “globalização”.
Sob esse processo se delinearam as novas formas de expansão das grandes potências, em particular dos Estados Unidos.
Na década de 1970, os Estados Unidos tomaram a ofensiva no controle mundial ao impor o dólar em vez do ouro, que até então tinha sido o referente de todas as moedas. Os Estados Unidos, juntamennte com a Europa e o Japão, formaram uma Tríade (que o primeiro país encabeçou) e com ela promoveram uma política de endividamento interno e externo dos governos que enfrentavam uma crise fiscal crescente ou uma crise na balança de pagamentos.
Suas principais vítimas foram os governos dos países dependentes,
incapazes de alterar a relação de intercâmbio desfavorável, ou o sistema tributário regressivo, e coagidos ao mesmo tempo a satisfazer demandas populares mínimas para manter sua precária estabilidade. A política global de endividamento dos poderes públicos e nacionais renovou o velho método de submissão dos devedores pelos credores, e ocorreu em nível macroeconômico mundial, incluindo muitos governos das cidades metropolitanas. O processo de endividamento correspondeu ao desenvolvimento de um capitalismo tributário e à submissão financeira renovada dos países dependentes. Com taxas de juros móveis, que podiam aumentar à discrição do credor, a política de globalização impôs um sistema de renovação automática de uma dívida crescente e impagável que fez da dependência um fenômeno permanente de colonialismo financeiro, fiscal e monetário.
Desde 1973, após o golpe de Estado de Pinochet, implantou-se no Chile o neoliberalismo. Desde os anos 1980, o neoliberalismo se converteu na política oficial da Inglaterra, com Thatcher, e dos Estados Unidos, com Ronald Reagan. As forças dominantes enalteceram o neoliberalismo como uma política econômica de base científica e de aplicação universal, reafirmando e renovando a ofensiva anglo-saxã, que desde o século XVII impulsionara a Inglaterra, sob o manto do liberalismo clássico, a aproveitar as vantagens que o fato de ser o país mais industrializado lhe dava no comércio mundial.
A globalização neoliberal iniciada no fim do século XX também teve como objetivos centrais: a privatização dos recursos públicos; a desnacionalização das empresas e patrimônios dos Estados e povos; o enfraquecimento e a ruptura dos compromissos do Estado social; a “desregulagem” ou supressão dos direitos trabalhistas e da previdência social dos trabalhadores; o desamparo e a desproteção dos camponeses pobres em benefício das grandes companhias agrícolas, particularmente as dos Estados Unidos; a mercantilização de serviços antes públicos (como a educação, a saúde, a alimentação, etc.); o depauperamento crescente dos setores médios; o abandono das políticas de estímulo aos mercados internos; a instrumentação deliberada de políticas de “desenvolvimento do subdesenvolvimento” com o fim de “tirar do mercado” globalizado os competidores das grandes companhias.
O neoliberalismo globalizador exportou a crise para as periferias do mundo ao mesmo tempo em que se apropriou dos mercados e meios de produção e serviços que tinham sido criados no pós-guerra, substituindo os que não fossem rentáveis e estabelecendo um neocolonialismo cada vez mais acentuado e repressivo, em que compartilhou os lucros com as oligarquias locais, civis e militares, e negociou com elas privatizações e desnacionalizações para associá-las ao processo.
A negociação, como concessão, cooptação e corrupção, adquiriu características macroeconômicas e esteve constantemente vinculada a novos fenômenos de paternalismo, de humanitarismo caritativo, de cooptação e corrupção de líderes e clientelas, fenômenos que abarcaram até mesmo as populações mais pobres e castigadas, contra as quais se preparou um novo tipo de guerra chamada de baixa intensidade, com o emprego de contingentes militares e paramilitares, e com as mais variadas formas de terrorismo de Estado por conta das “forças especiais”, encarregadas de “operações encobertas” realizadas por agências governamentais, ou por agentes subsidiados e contratados pelas mesmas. Os negócios da droga aportaram contribuições milionárias na montagem de um teatro de confusões e à perda de sentido das lutas alternativas. Também serviram para consegur a criminalização, real ou fingida, de líderes e movimentos populares, sistêmicos e anti-sistêmicos.
Nos anos 1990, a guerra econômica entre as grandes potências substituiu o projeto de governabilidade do mundo pela Trilateral. Os Estados Unidos subjugaram em poucos anos o Japão e os Tigres Asiáticos. O grande capital impôs uma política de apoio fiscal, político e militar crescente aos contribuintes mais ricos, muitos deles possuidores dos bancos e das megaempresas, amiúde também integrantes dos altos cargos públicos e das velhas e novas elites dominantes. Os privilégios para o grande capital legalizaram formalmente a apropriação de recursos públicos e privados no centro e na periferia do mundo capitalista, incluindo o direito a especulações gigantescas como a que esteve a ponto de falir o Banco da Inglaterra.
Passados pouquíssimos anos do início do processo, o complexo militar-empresarial dos Estados Unidos, expressão máxima do capitalismo organizado dominante, confirmou que suas mediações, instituições e recursos de dominação ideológica, política e econômica tinham chegado a um ponto de crise ameaçadora ao seu domínio e interesses. Isso o levou a endurecer sua política e empreender novas ações que lhe permitissem se manter na ofensiva e ampliar sua situação de privilégio.
A crise das mediações do capitalismo organizado se manifestou: em um crescente desprestigio de seu projeto de democracia de mercado; nos graves escândalos de corrupção de que foram atores os principais gerentes e proprietários das megaempresas – supostamente mais honrados do que os funcionários populistas e socialdemocratas dos governos dos Estados “minimizados”; no insuportável mal-estar de uma cidadania sem opções, aprisionada entre os mesmos programas e políticas de democratas e republicanos, e vítima da insegurança social e do desemprego em ascensão; da deterioração e da insuficiência das escolas públicas; da falta de serviços médicos e de remédios; da criminalidade generalizada em zonas urbanas e rurais. As eleições fraudulentas e elitistas em que Bush perdeu a presidência dos Estados Unidos por 500.000 votos e pouco depois a ganhou pela decisão de uma minoria de quatro juizes a favor e três contra, foram o ponto de partida de um processo de lógica totalitária em que as mentiras não são ditas para que se acredite nelas mas, sim, para que sejam obedecidas. E como à crise de instituições e de mediações se somou o perigo de uma recessão que não cedia, os Estados Unidos levaram a Europa à guerra econômica com a qual já tinham controlado o Japão. Ao mesmo tempo, aceleraram uma ofensiva geopolítica mundial que já tinham iniciado anos antes. Com a invasão do Iraque culminaram suas intervenções na Europa Central (Kosovo), na Ásia Central (Afeganistão) e no Oriente Médio, esta última por conta de Israel, um elemento da estratégia militar do “Ocidente” cada vez mais instrumentalizado pelos Estados Unidos. Dez anos de bombardeios contra o Iraque, apoiados pelas próprias Nações Unidas, após debilitar e empobrecer terrivelmente este país, facilitaram a ocupação de seu território e, sobretudo, de suas imensas riquezas petrolíferas. Os Estados Unidos mostraram cada vez mais estar na posição de líder da globalização neoliberal e inclusive fizeram gestos simbólicos e prepotentes que confirmaram seu caráter de “Soberano” que pode estar acima das Nações Unidas para declarar a guerra, da Suprema Corte da Justiça para violar os direitos humanos, dos acordos de Kioto para não assinar um compromisso que os obrigasse a tomar as medidas necessárias para a preservação da Terra.

A nova política globalizadora diante da crise interna e externa consistiu em dar prioridade ao neoliberalismo de guerra e à conquista de territórios, empresas e riquezas mediante o uso da força. No campo ideológico os Estados Unidos complementaram sua ideologia de luta pela democracia e pela liberdade, gravemente desprestigiada, pela ideologia de uma guerra preventiva contra o terrorismo. Adjudicaram-se o direito de definir o que seria terrorismo e de incluir na definição todos os opositores de que precisassem se desfazer, bem como de excluir dela todos os delinqüentes de que tivesse necessidade e seus próprios corpos especiais militares e paramilitares “com direito a matar” e “torturar”. A guerra não esteve incluída nos atos de terrorismo, nem o bombardeio e extermínio das populações civis, de povos, cidades e países inteiros. Pelo contrário, os Estados Unidos afirmaram empreender uma guerra do Bem contra o Mal, dispondo-se a travá-la em todas as partes do mundo e por um tempo indefinido.

Nem todos os falsos mitos da Idade Moderna foram destruídos. Muitos, como a democracia com sangue, foram impostos pela força. O governo dos Estados Unidos fingiram que tinham ido ao Iraque para impor a democracia e construir um país independente mediante a conquista. Seus enganos premeditados mostraram tanta violência quanto a que exerceram sobre a população do Iraque com o argumento de que seu verdadeiro objetivo era aprisionar Sadam Hussein, enquanto, para tanto, destruíam o país, cidade por cidade e casa por casa, e se apoderavam de seus ricos poços de petróleo.
A consternação mundial diante dessa política desumana se manifestou no desfile de milhões de pessoas nas grandes capitais do mundo. Também apareceu no desconcerto e na sensação de impotência que viveram os movimentos sociais partidários da paz e em luta por “outro mundo possível”.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos se propuseram a demonstrar sua decisão de atuar sozinhos quando fosse necessário, e de associar aos seus projetos de intervenção mundial os governos dos países altamente desenvolvidos e das potências intermediárias, assim como as demais burguesias e oligarquias do mundo que se submetessem a aceitar e apoiar “os seus valores e os seus interesses”. Mediante concessões e repressões, trataram de forjar um complexo imperialista. Pelo sentido comum entenderam que a repartição do butim e das zonas de influência deveria conceder prioridade sempre aos Estados Unidos, com pequenos ajustes prévia ou posteriormente negociados.
A política de repressões e de negociações abarcou todos os atores e todas as ações. Orientada sempre pela política de privatização, incluiu a privatização das empresas de guerra e dos exércitos, e a privatização em profundidade e em extensão, incluindo a terra e o subsolo, as fontes energéticas, a água e os mares, o ar e o espaço aéreo.
Nesta etapa da globalização neoliberal, os Estados Unidos e seus complexos e redes de associados e subordinados continuaram aproveitando a crise atravessada pelos movimentos de libertação e aqueles favoráveis à democracia e ao socialismo. Os movimentos alternativos, sistêmicos e não sistêmicos, continuavam padecendo da desestruturação e alienação de ideologias e estruturas e dos fluxos de informação e ação. Embora desde os anos 1990 começasse o movimento universal por uma nova alternativa, que procurava combinar e enriquecer as experiências das lutas anteriores, a clareza de idéias e a eficiência da organização de povos, trabalhadores e cidadãos mostraramse muito ineficientes para enfrentar a terrível ofensiva. Muitos deles tinham pensado que a crise crescente do capitalismo em si mesma os favorecia. Não tinham imaginado a imensa capacidade de reação e de violência de que era capaz o capitalismo. Ou não quiseram vê-la. A “guerra preventiva de ação generalizada” não constituiu somente uma mudança profunda em comparação com a “estratégia da contenção” que tinha predominado durante a guerra fria: foi também a forma mais adequada – a curto prazo – para que o grande capital e as potências imperialistas impedissem o desenvolvimento da consciência e a organização das forças alternativas emergentes.

Nessas circunstâncias, umas contradições começaram a atropelar as outras sem que se destacassem as lutas pela libertação, pela democracia e pelo socialismo como aquelas capazes de dar um novo sentido à História. Juntamente com as grandes manifestações de protesto contra a guerra, apareceram movimentos locais e globais de uma riqueza teórica e organizativa extraordinária; mas suas lutas tenderam a limitar-se a ações de protesto, e quando muito a ações de pressão passageira, ou de lenta construção de alternativas.
Em sua maioria, continuaram a mostrar-se incapazes de diminuir o ímpeto da política neoliberal que, na paz e na guerra, está levando o mundo a uma catástrofe generalizada.
A tais movimentos, ao mesmo tempo alentadores e incipientes, somaram-se outros, de um pensamento religioso e fundamentalista, que tendem a reproduzir a situação anterior de opressão e alienação dos povos oprimidos e fanatizados. Os líderes da resistência raramente se mostraram líderes de um pensamento crítico e radical; ou, freqüentemente, o representaram em
suas formulações mais autoritárias e confusas, como no caso dos maoístas do Nepal, que voltaram a agir como líderes de movimentos armados incapazes de construir um mundo alternativo. Em muitos outros casos, os movimentos guerrilheiros foram penetrados pela contra-insurgência que, com o narcotráfico e os agentes especiais, os desabilitaram a empreender a necessária revolução ético-política. Numerosas guerrilhas se transformaram em grupos de foragidos sem outra lei nem ideologia além da pilhagem e da dominação repressiva das próprias populações em que se inseriam, às quais por vezes chegavam a impor políticas clientelistas e de privilégios excludentes, étnicos ou lingüísticos. Pareciam estar feitas à imagem e semelhança dos “terroristas bestializados” pelo terrorismo de Estado. Por todas as partes, e nas mais diversas culturas, desenvolveram-se instintos autodestrutivos, individuais e coletivos, muitos deles vinculados a uma violência do desespero. No campo das lutas políticas e sociais, dos partidos e das organizações da sociedade civil, os modelos de corrupção e repressão, de conformismo e de alienação anularam diversos movimentos que, de início, indicavam uma saída aos povos.

Seus líderes foram cooptados ou corrompidos, ou simplesmente se adaptaram a um mundo controlado em que predominam as filosofias individualistas segundo as quais cada um “defende o seu”.
É verdade que, ao mesmo tempo, foram surgindo grandes movimentos como os de Chiapas no México, Seattle nos Estados Unidos, Porto Alegre no Brasil, o outro Davos na Europa, Mombay na Índia e muitos outros, que tentam unir o local e o universal e criam os novos projetos de um mundo livre, eqüitativo e independente que se aproxima da verdadeira democracia, do verdadeiro socialismo e da verdadeira libertação.
Todas as lutas mencionadas, porém,ocupam um espaço pequeno demais no tocante às necessidades da mudança sistêmica e da sobrevivência humana, ameaçada por uma guerra contra os pobres que pode terminar em guerra bacteriológica e nuclear.
Apareceram ao mesmo tempo, por conseguinte, as contradições entre o imperialismo e os países dependentes, neocoloniais e recolonizados; as contradições entre os trabalhadores e o capital, muitas delas mediatizadas e estratificadas; as contradições entre as etnias e as nações-Estado; as contradições entre as potências atômicas e nucleares e entre os próprios integrantes da comunidade imperialista, zelosos de suas zonas de influência e temerosos de perder poder e privilégios. Todas estas e muitas outras contradições se esboçaram em um imperialismo dominante mais ou menos coletivo, que tende a identificar-se com o capitalismo como sistema global. O desfecho das contradições não pareceu assegurar-se no sentido de que um sistema mais
justo e livre do que o sistema capitalista mundial pudesse ser atingido no tempo de uma geração de lutadores políticos, sociais ou revolucionários. Ainda mais, a ameaça à sobrevivência da humanidade fez com que os governantes obrigatoriamente pensassem em uma alternativa ainda mais sinistra, capaz de manter seus privilégios e seu poder: a destruição de uma parte da humanidade para a sobrevivência do resto dela. Este raciocínio levou à imposição paulatina e constante de um regime de “nazismo-cibernético”, com a eliminação de povos inteiros pelo mundo afora, à maneira de Pol-Pot, ou do equivalente aos sete milhões de judeus vitimados pelo nazismo anterior, que agora desponta no campo de concentração e eliminação em que o imperialismo e seus associados converteram a Palestina.

A imoralidade e a criminalidade doentias dos novos dirigentes do sistema, como as dos antigos nazis, combinadas com o conhecimento e o uso que fazem das tecnociências e dos sistemas auto-regulados, adaptativos e criativos, anunciam obscuramente um futuro negro para a humanidade, caso os povos das periferias, e inclusive os das metrópoles, não consigam impor a transição para um sistema de produção e democracia pós-capitalista que assegure a vida humana e a sobrevivência da espécie.
Todas as redefinições do imperialismo de hoje parecem dirigir-se à construção de um império liderado pelos Estados Unidos, seus associados e subordinados, em que é mais provável uma guerra entre as potências nucleares do que uma revolução social, ou do que uma mudança de rota em direção à socialização, democratização e independência real das nações, cidadãos e povos. Deste fato derivam, em parte, as afirmações irresponsáveis de Michael Hart e Antonio Negri no sentido de que seja necessário substituir o conceito de imperialismo pelo conceito de império e o de luta de classes pelo de uma luta da “multidão” contra o “império”. A superficialidade desta interpretação se deve em grande medida a uma conjuntura histórica em que é evidente que a construção do império mundial pelos Estados Unidos ocupou o primeiro plano da cena. Também se deve ao fato evidente de que a luta de classes original e atual tem sido fortemente mediatizada por outras lutas políticas, econômicas, ideológicas e sociais, e de que as organizações que lutaram
contra o sistema de dominação e acumulação característico do Capitalismo foram mediatizadas e derrotadas, primeiramente no século XIX, depois no século XX.
No início do século XXI ainda se vive a desorganização das forças alternativas e de suas próprias organizações ou meios para alcançar o socialismo, a democracia, a libertação. O caráter relativamente desestruturado e multitudinário que as forças alternativas ainda apresentam é evidente. Mas, nem do projeto norte-americano de um Império Global, nem da crise mundial das alternativas se pode derivar que, em vez de pensar e agir contra o imperialismo, se deva pensar e agir contra o império, e que, em vez de pensar nas novas organizações da resistência e da organização do poder alternativo, se deva lutar nos termos vagos de um pensamento libertário ou neoanarquista conservador que pretenda enfrentar a multidão desorganizada ao capitalismo mais organizado de toda a História.

A origem da formulação mistificadora de Hart e Negri provém de uma lógica das disjuntivas que geralmente tem sido reacionária. Consiste em pensar que as novas características do imperialismo acabem com o imperialismo, ou que os novos aspectos da luta de classes se expressem em uma luta histórica empreendida pelas multidões – este outro termo que o pensamento conservador e elitista sempre aplicou aos povos que teme agressivamente.
A verdade é que hoje, mais do que nunca, o conceito do imperialismo como uma etapa do capitalismo e da História da humanidade continua sendo um conceito fundamental. Ao articular a História dos impérios com a História das empresas, o conceito de “imperialismo” pôs a descoberto o poder crescente das empresas monopolistas e do capital financeiro. Também reformulou a luta antiimperialista combinando a luta das nações oprimidas com a luta das classes exploradas.
Se hoje estamos assistindo à construção de um império mundial pelo complexo militar-empresarial dos Estados Unidos (e a palavra império lhes parece grata desde a rainha Vitória), tal projeto de Império corresponde às mais avançadas políticas imperialistas e capitalistas: combina a força crescente das megaempresas e das potências, em que se apoiam e de que se servem, com as novas formas de dominação e exploração dos povos e dos trabalhadores.
De fato, o projeto mencionado articula cada vez mais o imperialismo ao capitalismo, até tornar cada um deles incompreensível sem o outro. Ainda mais, permite explorar as contradições na construção do império mundial norte-americano em pugna inevitável com outros impérios dada sua crescente apropriação e dominação de territórios, recursos e populações, bem como o fato de que apareça como o beneficiário principal da nova acumulação original e ampliada de capitais, formulando problemas de insegurança às grandes potências e às potências intermediárias.
A luta contra o imperialismo e o capitalismo, encarada como uma luta pela democracia, pela libertação e pelo socialismo, corresponde, por sua parte, a um fenômeno alternativo de sistemas emergentes, e, tanto por suas tendências naturais como pelas que serão encaminhadas para atingir tais objetivos, pode ter um crescimento exponencial que inclua a própria população dos Estados Unidos, sem mencionar a do resto do mundo. Nesse futuro o exemplo de Cuba, longe de ser “excepcional”, tem características universais que se tornarão cada vez mais evidentes conforme se descubra nela a necessidade ético-política que todo movimento pela libertação, pela democracia e pelo socialismo deve priorizar na organização de seu pensamento e de suas ações.

Revista Tempo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Batismo de Sangue

Depois de uma espera de 1.878 anos, os judeus ganhamum país. Mas a independência de Israel não encerra a longa marcha: a diplomacia fracassou e a guerra com os árabes continua

O nascimento de uma nação: palco improvisado, estrelas de Davi e a histórica declaração do patriarca David Ben-Gurion

As cadeiras vieram emprestadas de cafés vizinhos. Os microfones, de um empório musical. Dois carpinteiros chamados às pressas ergueram o palco de madeira em tempo recorde. Um retrato do pioneiro sionista Theodor Herzl foi colocado em posição de destaque no salão principal, ladeado por duas bandeiras gigantes com a estrela de Davi (símbolo ancestral do povo judeu), lavadas e passadas de forma expedita para a ocasião. Em um piscar de olhos, o Museu Nacional de Tel-Aviv transformou-se para sediar uma cerimônia aguardada pelos hebreus há exatos 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac. No compromisso deste 14 de maio de 1948, porém, a história seria finalmente reescrita: a terra prometida estava voltando às mãos dos judeus.
Os convites para a reunião, marcada para as 16 horas, foram impressos na véspera e distribuídos apenas na manhã do dia do evento, com um pedido de segredo aos cerca de 250 convidados para evitar qualquer interferência externa. Entre os locais, porém, foi impossível segurar a alvissareira notícia, que rapidamente se espalhou por Tel-Aviv e levou, já por volta do meio-dia, uma multidão a cercar o local da congregação. De qualquer forma, poucas horas depois de o mandato britânico na Palestina ter se encerrado, sem maiores sobressaltos, em uma cerimônia célere, demarcada pelas firmes batidas do martelo de nogueira de David Ben-Gurion, presidente do Conselho Provisório de Estado sionista, a criação da nação judaica na Palestina – o estado de Israel – foi solenemente anunciada aos quatro ventos.

O troco árabe: destruição em Tel-Aviv

Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes ao histórico evento, a declaração de independência do mais novo país do globo buscou no passado histórico e no presente político as bases morais e legais para sua fundação. O documento notificava que a Terra de Israel era o local de nascimento do povo judeu e que o movimento sionista era testemunho do papel representado pela Palestina em sua história e religião. Dizia também que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. A cerimônia, transmitida pela Kol Yisrael, "a voz de Israel", tornada rádio oficial do novo estado sionista, provocou uma explosão incontida na população hebraica em todos os rincões da Palestina. Enquanto dentro do Museu Nacional de Tel-Aviv o público, emocionado, entoava a plenos pulmões a Hatikvah (tradicional canção judaica que celebra a esperança), do lado de fora do recinto, assim como em diversas cidades da nova nação – à exceção de Jerusalém, que se encontrava sem eletricidade –, populares ganhavam as ruas para congratular-se uns aos outros.
Combates ferrenhos - Em meio aos festejos, contudo, era possível notar no semblante de David Ben-Gurion que o calejado líder não comungava do regozijo de seus pares. Antes de sair do local, acompanhado da mulher, Paula, confidenciou, diligente, a um de seus auxiliares: "Não sinto alegria dentro de mim. Apenas uma ansiedade profunda, como no último 29 de novembro [data do anúncio da partilha da ONU, aceita pelos judeus mas rejeitada pelos países árabes], em que eu mais parecia um lamentador num banquete." Se, para muitos, o dia 14 de maio marcava o fim de um périplo de dois mil anos por um lar nacional, para Ben-Gurion era apenas o começo. E a história não demorou a prová-lo correto.
Os ataques árabes vieram de imediato. Exércitos de cinco países – Líbano, Síria, Egito, Iraque e Transjordânia (a Legião Árabe, treinada pelos britânicos) – acometeram, naquela mesma tarde, o território então dominado pelos judeus em diversos pontos de suas fronteiras. Combates ferrenhos se seguiram nas duas últimas semanas deste mês, com os defensores buscando manter suas posições contra as investidas na maioria das vezes desorganizadas dos vizinhos. A diferença na quantidade e qualidade de armamentos é abismal – o arsenal judeu é escasso e antiquado, por conta da restrição britânica de importação de armas durante o mandato, enquanto o árabe é mais moderno e volumoso, arrematado em boa parte da própria Grã-Bretanha. Ainda assim, os hebreus, com suas forças bem coordenadas, lograram importantes êxitos militares, frustrando a previsão de um acachapante massacre árabe.

O conde Bernardotte: missão espinhosa

No calor da guerra, com a comunidade internacional clamando por uma solução pacífica e os exércitos chegando ao limite de suas forças, o Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentou, no dia 20, uma proposta de trégua – bem recebida por ambos os lados e aprovada nove dias depois. O cessar-fogo, negociado pelo conde sueco Folke Bernardotte, mediador da ONU, entra em vigor no dia 11 de junho e é válido por um mês – período em que nenhum imigrante poderá ser recrutado, e que todos os combatentes estarão proibidos de receber qualquer tipo de armamento. Enquanto isso, o Conselho de Segurança prepara um novo plano de conciliação – que, seja qual for, miseravelmente estará fadado ao fracasso. A partir de agora, não há dúvidas, apenas as armas falarão por árabes e judeus.
Corrida contra o tempo - Legitimada tanto pela declaração de Balfour, em 1917, como pela partilha aprovada pelas Nações Unidas, no ano passado, a instalação de um estado judeu na Palestina esteve perigosamente ameaçada nos dias que precederam o anúncio em Tel-Aviv. E não somente por conta da batalhas entre árabes e judeus pelo controle das cidades deixadas para trás pelos britânicos, às vésperas do encerramento do mandato. Nem por causa da ameaça de invasão dos países árabes, cuja oposição à idéia já era conhecida de cor e esperada pelos sionistas. Reunidas em palácios de governo e nas Nações Unidas, as grandes potências mundiais buscaram até o último suspiro evitar a independência de Israel – cada uma, claro, visando resguardar seus interesses no Oriente Médio.
A Grã-Bretanha, que desde o anúncio da partilha havia adotado uma política de não-cooperação com as Nações Unidas na questão Palestina para não melindrar seus aliados árabes, recorreu de forma esbaforida ao órgão no final de abril, quando os hebreus consolidaram sua vitória em Haifa. A mera sugestão de ameaça à soberania árabe trouxe arrepios aos súditos da rainha, que, poucas semanas antes, ainda manifestavam a certeza de que os árabes rapidamente conquistariam os territórios destinados às comunidades judaicas. No início daquele mesmo mês, o comandante das forças britânicas na Palestina, general sir Gordon Macmillan, havia dito que os árabes "não teriam dificuldade em dominar todo o país". (De forma menos técnica, o secretário das Relações Exteriores bretão, Ernest Bevin, prevera ainda no ano passado que os judeus teriam suas "gargantas cortadas".)
Com a demonstração de força dos judeus nas batalhas pré-14 de maio, porém, Arthur Creech-Jones, secretário colonial da Grã-Bretanha, propôs em 23 de abril que a Assembléia Geral da ONU pensasse em um objetivo "mais modesto" do que a partilha – uma solução paliativa sem a pretensão de resolver o conflito entre árabes e judeus. Desta vez, garantia o dignitário, a coroa ofereceria todo seu auxílio. Os diplomatas consideraram que o súbito desejo de engajamento britânico era por demais tardio e ignoraram o apelo.

Na resistência: integrantes da Haganá resgatam homem ferido em bombardeio egípcio


As ações de bastidores dos Estados Unidos da América, por sua vez, geraram desdobramentos até à véspera da retirada britânica – e reverberaram, curiosamente, menos nas Nações Unidas do que entre o Conselho Provisório de Estado sionista. Até o início deste ano, os americanos acreditavam que a divisão da Palestina aconteceria de forma cirúrgica. Contudo, a escalada das hostilidades e a pressão da Liga Árabe em Washington e nas companhias de petróleo – que controlavam, em dados do ano passado, 42% das reservas do Oriente Médio e desenvolviam planos de expansão – levaram os americanos a rever paulatinamente sua posição pró-sionista e recomendar, em 19 de março, a suspensão da partilha, para horror da Agência Judaica. Warren Austin, embaixador dos EUA no Conselho de Segurança, sugeriu que fosse adotada uma administração conjunta da ONU na Palestina.
Mal recebido pelas outras delegações, o plano foi considerado um ataque à autoridade das Nações Unidas. A União Soviética, mantendo sua posição pró-partilha, protestou, argumentando que os Estados Unidos estavam preocupados apenas com o petróleo árabe e que não havia bases legais para sustar o plano aprovado em novembro. Indignado, o secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie, propôs que tanto ele como o representante americano renunciassem aos respectivos postos em protesto à afronta – ação negada por Austin. Na virada do mês, a Liga Árabe e a Agência Judaica rechaçaram oficialmente o plano de administração conjunta por um ano – mas os Estados Unidos não desistiram, clamando ainda por uma trégua temporária.
Pulga atrás da orelha - No início de maio, Dean Rusk, secretário-assistente de Estado, mandou um recado aos sionistas. A declaração de independência deveria ser ao menos protelada; caso contrário, Washington poderia bloquear as transferências de fundos filantrópicos dos judeus americanos para a nação caçula. Impressionado, o chefe da Agência Judaica na América, Nahum Goldmann, transmitiu as informações à central – Ben-Gurion, contudo, não se deixou intimidar, e, no dia 4, devolveu um cabograma a Rusk negando o adiamento. Quatro dias depois, o secretário de Estado George Marshall e o subsecretário Robert Lovett encontraram-se na capital com Moshe Shertok, ministro das Relações Exteriores da administração provisória judaica. Desta vez, não houve ameaças: os americanos apenas ponderaram que a invasão dos árabes era iminente, e que, se os judeus insistissem na emancipação imediata, não deveriam recorrer à ajuda dos Estados Unidos – que ainda mantinham, apesar dos protestos em diversas cidades, o embargo de armas ao Oriente Médio.

O norueguês Lie, da ONU: uma afronta


Shertok lamentou o fato de os americanos não terem mantido o apoio à resolução da partilha, e atribuiu de antemão boa parte do futuro derramamento de sangue na Palestina ao recuo dos Estados Unidos, que teria encorajado os árabes em sua beligerância. E, nesse ponto, a resposta de Marshall colocou uma pulga atrás da orelha do judeu. "Compreendo o peso de suas palavras. Não sou eu quem devo dizer-lhe o que fazer. Porém, como militar, gostaria de alertá-lo: não confie em seus consultores militares. Sim, eles acabaram de registrar alguns sucessos. Mas o que acontecerá se houver uma invasão prolongada? Isso irá enfraquecê-los. Tive esta experiência na China. No começo, foi uma vitória fácil. Agora eles estão lutando há dois anos e perderam a Manchúria". As palavras de Marshall ainda ecoavam nos ouvidos dos líderes sionistas na Palestina quando os membros da Administração Nacional – embrião de um gabinete recém-criado pelo conselho provisório – reuniram-se para decidir, em 12 de maio, pela proclamação imediata ou não do estado judeu. As deliberações duraram nada menos do que onze horas. Golda Meyerson, diretora do departamento político da Agência Judaica, relatou o fracasso de sua negociação com o rei Abdullah da Transjordânia, em uma viagem secreta àquele país – a derradeira tentativa de um compromisso pacífico entre as partes.
O jovem oficial Yigael Yadin, comandante de operações da Haganá, força de defesa judaica, apresentou seu relatório sobre o teatro de operações aos membros. As tropas hebraicas haviam garantido o controle das linhas de comunicação no interior da Palestina, mas em algumas regiões a situação era crítica. Metade de Jerusalém, por exemplo, estava nas mãos dos árabes – incluindo a malha rodoviária dos arredores, pela qual a Legião Árabe naquele momento marchava rumo à cidade. Yadin também demonstrava preocupação quanto à escassez do arsenal judeu. Pessoalmente, o comandante acreditava que, com a evacuação britânica programada para dali a dois dias, armas e material humano poderiam ser rapidamente integrados às tropas, com 50% de chances de sucesso contra o assalto árabe. Cauteloso, não descartava que uma trégua temporária fosse interessante, para possibilitar o reforço das tropas judaicas sem sacrificar os objetivos políticos.
Ben-Gurion, porém, acreditava que a proclamação da independência fortaleceria o ânimo e o espírito não somente dos combatentes, mas também da população, que precisaria estar preparada para a inevitável perda de territórios e vidas. Já o adiamento poderia representar um anticlímax e abalar o moral das tropas. Ao final da assembléia, convocou-se o sufrágio que definiria o próximo passo. Por uma apertada margem de seis votos a quatro, o gabinete decidiu rejeitar a proposta americana de trégua e declarar, assim que a Union Jack fosse baixada em Jerusalém, dali a dois dias, a criação do estado judeu na Palestina. Contatado por telefone em Nova York, o tarimbado Chaim Weizmann, chefe da Agência Judaica, assentiu. "Proclamem o estado, não importa o que aconteça." Após dar sua sentença, o veterano explodiu, em iídiche. "O que estão esperando, os idiotas?"

Presidentes: Truman e Weizmann (à dir.)


Êxitos e temores - Horas depois da cerimônia de proclamação de independência em Tel-Aviv, Chaim Weizmann foi nomeado presidente de Israel, e Ben-Gurion, primeiro-ministro. Em seguida, o Conselho de Estado revogou por unanimidade o Livro Branco de 1939, documento inglês que regulava a imigração de judeus para a Palestina. Ainda no dia 14 de maio, por intercessão direta do presidente Harry Truman, os EUA, apesar de toda a oposição à independência, foram os primeiros a reconhecer o estado de Israel, causando surpresa entre os diplomatas das Nações Unidas. Andrei Gromyko, representante da União Soviética, criticou os americanos, por colocar a assembléia em uma "posição ridícula". Fontes próximas a Truman garantem que o comandante-em-chefe andava descontente com as trapalhadas de seus assessores e que sentiu a importância estratégica de se antecipar a Moscou no reconhecimento dos sionistas – além de tudo, não custa lembrar que este é um ano eleitoral na América, e os votos da enorme comunidade judaica podem ser decisivos.
A União Soviética reconheceu Israel dois dias depois – a confirmação dos comunistas já era esperada, tendo em vista que a criação de um estado judeu moderno, com forte espírito nacionalista, era mais interessante para as pretensões históricas de Moscou de ter uma base no Oriente Médio do que a consolidação de um regime árabe retrógrado, dependente da Grã-Bretanha. A Coroa, por sua vez, comunicou apenas que a Palestina não mais fazia parte da Comunidade Britânica, e, acenando seu pendor em direção aos antigos aliados, garantiu que iria cumprir seus tratados de fornecimento de armas aos árabes – a menos que as Nações Unidas afirmassem que estes estivessem agindo ilegalmente de alguma forma.
Crucial para a nação caçula, a batalha diplomática só não era mais importante do que a contenda bélica que se descortinava na Palestina. Desde a aprovação da partilha, a Haganá concentrava-se em dois objetivos: o primeiro, a segurança da comunidade judaica durante o período da retirada britânica, e o segundo, a defesa do território contra a possível e provável invasão árabe em larga escala a partir do dia 14 de maio. O êxito das tropas judaicas na primeira questão, registrado ao longo das últimas semanas com a tomada de cidades estratégicas como Haifa – subjugada em 21 de abril após três dias de embates contra os árabes – foi coroado com a conquista da Galiléia setentrional, no início de maio. Na última peleja, em Safed, remota comunidade montanhesa em que 1.400 judeus viviam cercados por dez mil árabes, as tropas do comandante Yigal Allon repeliram os mercenários sírios comandados por Adib al-Shishakli, causando a fuga dos habitantes árabes.

Sob nova direção: judeus trocam placa

Dessa forma, o norte da Palestina estava controlado, assim como o litoral: Jaffa, última cidade dominada pelo inimigo, caiu na manhã do dia 14 de maio – mais uma vez, 70.000 árabes deixaram suas casas em terror. Livre da responsabilidade de proteger seus enclaves (à exceção de Jerusalém, o cenário parecia todo favorável aos judeus), a Haganá pôde finalmente concentrar todas as suas forças na contenda contra os exércitos invasores.
Rumo à Galiléia - Às vésperas do início da guerra, as forças árabes, somadas, eram pouco maiores que as de Israel – aproximadamente 32.500 homens contra 30.000. A vantagem dos atacantes, porém, era seu maior poder de fogo, que incluía forças aéreas à disposição. Divididas em nove brigadas pelo chefe da Haganá, as forças de Israel foram distribuídas em quatro fronts: três unidades no norte, duas na costa (para proteger Tel-Aviv), duas no sul e duas nas montanhas da Judéia, a fim de defender Jerusalém e conquistar a posse das estradas nas redondezas da cidade.
No norte, os libaneses que seguiam rumo à Galiléia, assim como os iraquianos e sírios que atacaram colônias judaicas no vale do rio Jordão, não têm se mostrado ameaças sérias para as forças da Haganá. Suas investidas estão sendo facilmente controladas pelos israelenses. As mais duras batalhas são disputadas na Judéia – onde permanece o cerco da Legião Árabe do rei Abdullah a Jerusalém – e no sul. Ali, os egípcios, avançando com duas brigadas, já conquistaram Gaza, e agora seguem, a despeito de feroz resistência, a passos largos rumo a Tel-Aviv. Pelos últimos relatos do front, o brigadeiro Muhammad Naguib, comandante da Segunda Brigada egípcia, está a perigosos 25 quilômetros da periferia da urbe.
Perder o controle da espetacular cidade de 250.000 habitantes, berço e sede do recém-criado estado de Israel, será um golpe quase fatal para os judeus, em que pese todo e qualquer outro sucesso no teatro de operações. Por isso, o general Yadin já convocou reforços vindos de Jerusalém, e, de acordo com fontes militares israelenses, poderá a qualquer momento engendrar uma emboscada noturna contra os egípcios, extraindo da escuridão e da surpresa a força necessária para derrotar os inimigos. Manter Tel-Aviv em segurança antes da trégua programada para 11 de junho é condição sine qua non para que, no período de cessar-fogo, Israel reorganize seu exército e planeje com cautela os próximos passos na guerra contra os árabes. Sem isso, o estado de Israel corre o risco de se esvair pouco tempo depois do nascimento – e David Ben-Gurion e seus pares sionistas estarão mais distantes do sonho de desfrutar do solo sagrado que, acreditam, foi prometido por Deus a seus antepassados.
Revista Veja na História

O mito Adolf Hitler


O mito Adolf Hitler
Nos 120 anos do nascimento do líder nazista, seu mais respeitado biógrafo explica como um homem carismático foi capaz de arrastar a Alemanha para a Segunda Guerra Mundial e provocar o Holocausto
por Fernando Eichenberg
É pouco provável que algum dirigente político do século 20 tenha igualado o grau de popularidade alcançado por Adolf Hitler (1889-1945) na Alemanha, nos dez anos que se seguiram a sua chegada ao poder, em 30 de janeiro de 1933. O apoio da população ao Partido Nazista era tímido se comparado à veneração dos alemães por seu líder máximo. O culto ao mito exerceu um papel determinante no funcionamento do Terceiro Reich e na aterradora dinâmica do nazismo. Adorado pelo povo, adulado por seus subordinados e temido no resto da Europa, Hitler entrou para a História como a encarnação da barbárie, o artífice do Holocausto, o símbolo de um dos regimes mais horrendos já conhecidos da humanidade.

Neste ano, completam-se 120 anos do nascimento de Hitler. Em abril de 1943, em uma Inglaterra bombardeada, nascia Ian Kershaw, que seria seu mais conceituado biógrafo. Kershaw, portanto, experimentou a guerra, mas debutou pesquisando a Idade Média. Só nos anos 1970 mergulhou no período mais trágico da Alemanha moderna. Suas teses sobre a popularidade de Hitler ampliaram a compreensão das engrenagens do nazismo. Seu trabalho monumental sobre o Führer - dois volumes somando 2500 páginas - é uma obra de referência obrigatória.

Em Paris para lançar a versão resumida do livro, Kershaw, hoje professor da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, reservou espaço de sua agenda para, em uma sala de hotel, conversar com AVENTURAS NA HISTÓRIA.

Para o senhor, a real importância de Hitler não estava em si mesmo, mas em como os alemães o viam. Como isso foi possível?
Em períodos de grande crise, surgem profetas oferecendo salvação. Não significa necessariamente que o personagem seja grandioso, mas ele tem qualidades de liderança heroica. O indivíduo Hitler não tinha grande apelo pessoal. À primeira vista, é difícil entender o que o povo enxergava nele. Mas, num contexto de perda da Primeira Guerra, humilhação nacional, turbulências políticas e miséria econômica, as pessoas estavam preparadas para investir nesse homem, ver nele qualidades que poderiam trazer uma salvação para a Alemanha.

O senhor diz que ele era um "ditador preguiçoso", que não se envolvia no funcionamento do governo. Mas discorda da tese do historiador alemão Hans Mommsen de que era um"ditador fraco". Como defini-lo?
O estilo de sua liderança não era de se envolver em todos os níveis. Não era como Josef Stálin (1878-1953), que controlava todas as diretivas. Hitler se contentava em deixar as coisas correrem, desde que na direção que ele determinou. Em outras questões, durante a guerra, ele estava longe de ser preguiçoso. Mergulhou mais e mais no microgerenciamento militar, o que foi catastrófico para a Alemanha.

De que forma seu conceito de "trabalhar para o Führer" explica a liderança de Hitler?
"Trabalhar para o Führer" era como se operava o gerenciamento: os subordinados antecipavam o patrão. Hitler representava ideias-chave que outras pessoas colocavam em prática. Estruturavam uma visão para o futuro, mas ao mesmo tempo delineavam políticas abaixo de Hitler, sem que ele precisasse dar muitas direções.

A ditadura nazista era instável?
Sim, mas esse debate perde o foco principal. Claro que havia diferentes grupos de poder, mas cada um tinha de operar de forma coincidente com as ideias representadas por Hitler. O determinante crucial desse regime era sua liderança. Sem isso, só haveria a competição de feudos.

Hitler era uma pessoa tediosa?
Ele era bastante repetitivo. Seus secretários e assistentes ouviram as mesmas histórias centenas de vezes. Por outro lado, o interesse que ele provocava nas pessoas ao redor vinha do poder que encarnava. Quando Hitler chegou ao governo, parecia que o céu era o limite, havia dinheiro para todo os projetos. Se você é arquiteto, construa seus edifícios monumentais. Se é engenheiro, projete uma via férrea até a Criméia. Se é médico, agora pode fazer experiências em seres humanos. Projetos grandiosos se tornaram possíveis. Isso em relação a seu entourage. Para o povo, que o ouvia no rádio ou em seus comícios, ele era uma imagem. Num show de música pop, você não conhece o cantor, só vê o que ele representa. Era o caso de Hitler.

O Führer se dizia guiado pela providência. Ele acreditava nisso?
Sim. Ele sentia ser alguém especial. Até o fim da Primeira Guerra, Hitler era um fracassado. Mais tarde, as circunstâncias mudaram. As pessoas passaram a vê-lo como alguém diferente, ele falava às pessoas comuns de uma maneira que outros não faziam. Com o passar do tempo, o ciclo se acelera: quanto mais ele obtém sucessos, mais tem a adulação das massas, mais acha que é infalível, mais pensa que caminha com "a certeza instintiva de um sonâmbulo" - como afirmou em 1936. Hitler tinha essa combinação de um ideólogo idealista e firme com um brilhante propagandista, junto com um esperto homem de Estado que conhecia a fraqueza dos oponentes. Isso tudo junto fazia dele um tipo de líder muito perigoso, um caso patológico.

Pouco antes do fim da guerra, Hitler acreditava em virar o jogo?
Até muito perto do fim ele achou que haveria no último momento uma disputa entre os aliados, e não era o único a pensar nisso. Penso que somente muito tarde ele se deu conta de que tinha perdido. Por outro lado, Hitler teve momentos de absoluta lucidez e realismo na guerra. Ele reconhecia a realidade, não era um idiota. Nas últimas semanas do Terceiro Reich, por um lado, ele se agarrava às suas últimas chances; por outro, tinha consciência de que estava acabado e se preparou para uma saída heroica.

Estados Unidos, Japão e América do Sul entraram em seus planos?
Seu grande objetivo era destruir o bolchevismo judeu baseado na União Soviética. Em relação aos Estados Unidos, em seu chamado Segundo Livro, escrito em 1928 e nunca publicado em vida, ele fala bem mais do tema do que em Minha Luta [sua primeira obra]. Nos anos 1930, a América se tornou um problema real. Se ela entra na guerra, os alemães não teriam como combatê-la. Mas ele não levou a América do Sul em consideração. Em 1941, Roosevelt produziu um mapa da América Latina com planos de invasão alemã, mas eles eram falsos.

O genocídio foi decidido entre 1941 e 1942. Como isso se deu?
O imperativo de remoção dos judeus estava lá desde o início, mas decidir como fazê-lo demorou, e as propostas foram alteradas ao longo do tempo. Quando a guerra começou, a Alemanha lidava não só com 500 mil judeus no país, mas com outros 2,5 milhões na Polônia. A logística para resolver esse problema fracassou. O plano de levá-los para Madagascar falhou no verão de 1940. Então surgiu a ideia da deportação para a Rússia. Logo que a guerra fosse vencida nesse front, os judeus do oeste europeu seriam deportados para lá. Mas a guerra não terminou. A improvisação desembocou nas câmeras de gás na Polônia.

Segundo o senhor, Hitler foi decisivo no desenvolvimento da política do genocídio, mas muitas das decisões foram tomadas sem ordens dele. Como funcionava esse mecanismo?
Existem registros sobre a Solução Final, mas não há documentos com "a" decisão de Hitler. Quase nunca houve relatos escritos, mas sabemos, por exemplo, que em dezembro de 1941 ele conversou privadamente com Heinrich Himmler [chefe da SS] sobre o assunto. Sabemos de um relatório que lhe foi enviado e que revela a morte de 350 mil judeus. É certo que ele tinha consciência de tudo, só não falava abertamente sobre isso. Mas ele foi central na política de extermínio. Sem Hitler, não haveria Holocausto.

Em 1943, Himmler disse que o Holocausto era "uma gloriosa página" da História alemã, "que nunca poderá ser escrita". Como era isso para Hitler?
Ele considerava os judeus uma ameaça cósmica. Não se tratava apenas de um problema da Alemanha, onde eles eram apenas 0,76% da população em 1933 e não estavam em posição de desafiar o poder. Para ele, os judeus estavam em Moscou à frente do bolchevismo, mas também dirigindo o capitalismo em Nova York e em Londres. Essa ameaça demandava uma solução apocalíptica. A questão é que Hitler e Himmler não sabiam qual seria a resposta da população alemã. Por isso o segredo.

O programa de extermínio de doentes mentais começou em 1939. De que forma ele se compara com a decisão sobre os judeus?
Hitler autorizou esse plano em cinco linhas escritas em folhas com seu cabeçalho pessoal. Não houve uma lei, apenas essas linhas autorizando seu próprio médico a dirigir esse programa. Foi algo mantido em segredo, camuflado por arranjos para remover os doentes mentais para os hospícios onde seriam executados. Mas rumores começaram a circular e o programa foi cancelado. É provável que Hitler tenha aprendido uma lição: nada por escrito e segredo total. E obviamente há uma relação direta entre as técnicas de gás utilizadas na eutanásia e no extermínio dos judeus.

Qual a relação entre o antissemitismo da população em geral e o do Partido Nazista?
Havia na Alemanha um antissemitismo latente muito difundido. Muitas pessoas achavam que os judeus eram poderosos demais, controlavam a economia e a mídia de massa. Mas elas não eram propensas a se engajar em ações violentas contra os judeus. Hitler era o mais radical dos radicais em termos de antissemitismo. Com o tempo, mais e mais pessoas foram absorvidas pelo Partido Nazista, que era determinado por essa necessidade patológica de expulsar os judeus. Mais as pessoas aderiam ao partido, mais estavam expostas a isso. E assim o antissemitismo dos radicais do partido se estendeu à burocracia de Estado, sem ter penetrado da mesma maneira no povo em sua maioria.

Quais foram os limites da penetração ideológica nazista?
A propaganda foi bem-sucedida na criação do mito do Führer como um grande líder carismático. Também foi importante para explorar o sentimento nacionalista dos alemães e na intensificação do ódio aos judeus. Mas, em outras áreas do dia a dia, a propaganda nazista não foi tão bem-sucedida. As pessoas se preocupavam mais com os problemas do cotidiano.

Uma das frases do senhor é constantemente citada: "A estrada para Auschwitz foi construída com ódio, mas pavimentada pela indiferença". Qual seu significado?
Quis dizer que a dinâmica das forças dirigentes que conduziram a Auschwitz foi provida por esse ódio patológico imbuído em Hitler. Mas, para muitas das pessoas comuns, os problemas de todo dia predominavam. É uma atitude de fechar os olhos, virar as costas para o diabo. A dinâmica do ódio da minoria obteve sucesso porque a maioria não se importava.

O senhor já disse que, se vivesse na Alemanha nazista, poderia estar tão confuso como o povo na época.
Situações e circunstâncias mudam indivíduos. Pessoas que fizeram coisas horríveis na era nazista eram antes perfeitamente comuns. Claro, todos gostaríamos de pensar que seríamos antinazistas. Mas a verdade é que a maioria de nós iria transigir com o regime. Ao se ajustar, você é cada vez mais sugado, e talvez vá acabar no Exército ou em alguma organização, onde fará coisas que, no sentido moral, serão aberrantes.

Como é hoje a relação dos alemães com o Führer?
A Alemanha, mais que qualquer outro país, deu grandes passos para encarar seu trágico passado. Se você comparar com o Japão, a Espanha, a Itália ou a própria França ocupada, foi ela quem mais fez esforços para tentar entender o que ocorreu. É hoje uma democracia muito sólida e um dos países menos nacionalistas da Europa. Os alemães mostraram que é possível aprender algo com a História. Nas escolas, nas universidades, a era do nazismo e do Holocausto está devidamente tratada. É algo admirável.


Saiba mais

LIVRO
Hitler, 1889-1936, e Hitler, 1936-1945, Ian Kershaw, W.W. Norton, 1998 e 2000
Publicada em dois volumes, é considerada uma das melhores biografias já escritas sobre o Führer.

FILME
A Queda, dir. Oliver Hirschbiegel, 2004
Na opinião de Ian Kershaw, a produção vale a pena por humanizar a figura de Hitler.

Revista Aventuras na História

Como fazíamos sem cama?


Como fazíamos sem cama?
No passado, o jeito era dormir sobre peles de animais ou montes de palha
por Maurício Barros de Castro
O chão era o limite enquanto o homem ainda não havia descoberto uma das suas mais importantes invenções: a cama. Antes de nossos ancestrais desenvolverem a capacidade de construir artefatos, eles deitavan no solo úmido e ficavam sujeitos a inundações e ataques de bichos rastejantes. Na melhor das hipóteses, dormiam sobre peles de animais ou montes de palha. Embora conseguissem maior conforto, permanecia a incômoda proximidade da terra. Era preciso se colocar acima dessas adversidades.

No antigo Egito, as pessoas já conseguiam dormir melhor. Um dos tesouros encontrados na tumba de Tutancâmon é uma cama de madeira dobrável. Acredita-se que o modelo era utilizado em viagens e campanhas de guerra. Sua engenhosidade não se perdeu com o tempo e, ainda hoje, o objeto é facilmente reduzido a um terço de seu tamanho. Mas poucas pessoas tinham acesso a tamanho privilégio. Ao contrário do resto da população, somente os faraós e nobres usavam camas para dormir ou mesas e cadeiras para comer.

Nos séculos seguintes, a cama continuou sendo utilizada não apenas para descanso, mas também como local de refeições. Uma aplicação que teve seu ápice com os romanos, acostumados a celebrar banquetes deitados em divãs semicirculares ou em forma de ferradura, repletos de almofadas.

Com o avanço da Idade Média e a compartimentação dos ambientes da casa, a cama foi recolhida ao quarto de dormir. Para se proteger do frio, os europeus passaram a utilizar um modelo herdado dos persas: o dossel, um leito cercado por colunas de madeira e cortinas de tecido.

Outras sociedades encontraram formas diferentes de repousar. Os índios preferem as redes e os japoneses gostam de futons (colchões espessos e dobráveis) sobre tatames. Ao longo do tempo, o móvel permaneceu com inúmeros usos, todos voltados para o descanso e o prazer. Não é à toa que, em vários idiomas, "ir para a cama" também pode ser sinônimo de fazer amor.

Revista Aventuras na História

Influenza mortalis


Influenza mortalis©
Invisível e microscópico, o vírus da gripe aterroriza a humanidade há milênios. Da canja de galinha aos atuais remédios, muitos tratamentos já foram usados, mas a doença continua imbatível
por Álvaro Oppermann
Em setembro de 1918, o mundo descobriu, atemorizado, um inimigo mortífero. Já não bastassem os horrores da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram dizimadas por outra causa. A humanidade estava sendo atacada pela gripe espanhola - pelo menos um quinto da população mundial contraiu a doença -, e não sabia como se defender. Os sintomas eram violentos. O doente sentia dor de cabeça e era tomado por calafrios tão intensos que os cobertores se tornavam inúteis. Depois começava a tossir sangue e os pés ficavam pretos. Quando os pulmões se enchiam de uma mistura de secreções, era o fim. E tudo isso ocorria com velocidade assustadora: da saúde ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas. "Pessoas saíam de manhã para trabalhar e não retornavam", escreve a jornalista americana Gina Kolata em Gripe: a História da Pandemia de 1918. Sozinha, a gripe matou de 30 milhões a 100 milhões de pessoas. Mais que a Primeira Guerra, que deixou 10 milhões de vítimas fatais.

Ainda é cedo para saber como será o desdobramento do atual surto de gripe suína. Mas, a cada nova pandemia, o fantasma de 1918 retorna. E com bons motivos: os métodos de transmissão só foram identificados há poucas décadas, e ainda não se conhece a receita para interromper uma crise da doença, que parece ter se tornado mais fatal no século 20 (veja os quadros nesta e nas próximas páginas).

A primeira referência à gripe na História foi feita por Hipócrates. O médico grego relatou em 412 a.C. que uma doença respiratória atacou de forma epidêmica a Grécia e em poucas semanas matou centenas. Foram os gregos que cunharam a palavra "epidemia" para as doenças infecciosas que se abatem sobre grande número de pessoas em uma localidade. A expressão vinha de epidemos, indivíduos que não moravam nas cidades. "O médico [Hipócrates] fez tal comparação porque as doenças infecciosas não eram da região e iam embora", escreve o médico Stefan Cunha Ujvari em A História e suas Epidemias.

A epidemia de gripe só reapareceu em 1173 e o primeiro caso sério veio no século 16. Em 1580, uma pandemia se alastrou pela Europa a partir da Espanha. Os agentes do contágio teriam sido os soldados do rei Felipe II (1527-1598). No século 18, três novos grandes surtos provocaram o surgimento do termo "influenza". Muitas teorias versam sobre a origem do nome, da influência dos astros à interferência do frio (já que a gripe é mais comum no inverno). Em 1837, a combinação de doença e baixas temperaturas foi tão séria em Berlim que, em janeiro, o número de mortos pela gripe excedeu o de recém-nascidos.

As pandemias de gripe atravessaram o tempo, os vírus sofreram mutações e os tratamentos também mudaram muito desde a época de Hipócrates, que, no século 5, prescrevia sangrias. Adepto da teoria clássica dos humores (secreções do corpo), ele dizia que a sangria eliminaria o fluxo sanguíneo excessivo, o suposto causador da doença. Tal tratamento foi amplamente utilizado pelos médicos até o fim do século 19. Porém, ele nem de longe era o mais bizarro. No século 18, médicos franceses garantiam que a gripe era causada pelo excesso de relações sexuais e recomendavam a castidade. Em Londres, do fim do século 19 até a década de 1920, os banhos quentes e o vinho eram recomendados como tratamento certeiro. No Brasil, em 1918, ficou popular o uso do quinino e purgantes. Nem um nem outro tinham efeito algum sobre a doença. O quinino era usado para a malária, que, sabe-se hoje, é causada por protozoário, não por vírus. Os purgantes, por sua vez, só funcionavam para causar uma bela dor de barriga no doente, que já estava debilitado. A Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1918, também indicava canja de galinha. Resultado: grandes armazéns no Rio de Janeiro e em São Paulo foram saqueados pela população em busca do frango salvador. A primeira vacina surgiria em 1945, nos Estados Unidos, feita de vírus mortos. As vacinas se popularizaram nos anos 1960, mas só em 2003 foi aprovado o uso de vírus vivos.

A descoberta do vírus

Graças ao microscópio, o estudo das causas e dos tratamentos só ganhou rigor científico no século 20. No século 19, já se conheciam as bactérias, mas o vírus da influenza A seria isolado apenas em 1933, pelos cientistas Wilson Smith, Christopher Andrews e Patrick Laidlaw. A versão B foi identificada em 1939, e a C em 1950. Essas letras, A, B e C, foram criadas nos anos 1950 para identificar os três tipos que existem: a C é a comum, a B é a típica gripe de inverno, que ataca especialmente as crianças, e a A é selvagem e perigosa - um verdadeiro peso-pesado.

O habitat natural do vírus A, causador das grandes pandemias, como a espanhola e a gripe atual, é o mesmo dos patos e de outras aves aquáticas. Ele também pode viver em mamíferos como porcos, cavalos, baleias e leões-marinhos. Isso explica por que se costuma dizer que uma gripe é "suína" ou "aviária". O apelido indica a origem do vírus A.

Gripes do porco

Quando Smith isolou o micro-organismo, na década de 1930, notou que ele tinha uma estrutura muito simples. "É constituído apenas do seu material genético, seja DNA, seja RNA. Ao contrário das bactérias, não tem o maquinário necessário para reprodução", diz Stefan Cunha Ujvari. Por isso, precisa, necessariamente, viver dentro de um hospedeiro. Ele invade as células e lá dentro faz cópias exatas de si mesmo. É a forma de se replicar.

Os vírus têm extrema dificuldade de saltar de uma ave para um ser humano. Porém, conseguem fazer essa migração utilizando os porcos como "escala". Foi isso que aconteceu em 1918, segundo a teoria de dois eminentes professores de virologia, Robert Webster e Kennedy Shortridge. O causador da gripe espanhola, dizem eles, começou provavelmente em uma ave, foi transmitido a um porco, que por sua vez infectou pessoas - razão pela qual os sobreviventes da epidemia tinham anticorpos da gripe suína.

De acordo com Shortridge, foi na China, um milênio antes da era atual, que os plantadores de arroz começaram a criar porcos junto com patos. "Foi a oportunidade ideal para o vírus saltar para nós", diz o cientista. Devemos ficar bravos com os porcos? Bem, se eles pudessem entender de virologia, também teriam motivo para ficar irritados conosco. Afinal, esses bichos também pegam gripe dos seres humanos. No início de maio de 2009, cientistas investigavam o caso de um fazendeiro de Alberta, no Canadá, que teria transmitido a gripe para sua criação de porcos: 200 animais foram contaminados após ele passar uma temporada no México, onde contraiu o vírus originado em outros porcos. Se a suspeita se confirmar, o ciclo se fechará.


Vírus mortais
As cinco maiores epidemias de gripe da História

Gripe russa - 1889-1890

Sintomas - Febre e pneumonia.

Propagação - Foi carregada pelo vento e pelas linhas de trens, como o Expresso Transiberiano. Em 15 dias atravessou a Rússia inteira, da Sibéria a São Petersburgo.

Mortos - 1,5 milhão

Tratamentos usados na época - Acreditava-se que banhos quentes e vinho eram remédios. Durante o surto, casas de banho ficaram populares em Londres.

Gripe espanhola - 1918-1919

Sintomas - Pneumonia viral, sangramentos e calafrios.

Propagação - Chegou às Américas por navio.

Mortos - 30 milhões a 100 milhões

Tratamentos - Na Europa, cidades ficaram de quarentena. No Brasil, receitava-se bromo-quinino, sulfato de quinino, limonada purgativa, chá de canela e canja de galinha.

Gripe asiática - 1957-1958

Sintomas - Febre alta, dor de cabeça e cansaço.

Propagação - Alastrou-se devagar, principalmente por terra e por mar, com surtos localizados.

Mortos - 2 milhões

Tratamentos - A tecnologia da época permitiu a fabricação de vacinas, porém não em quantidade suficiente.

Gripe de Hong Kong - 1968-1969

Sintomas - Febre alta, dor nas articulações e cansaço.

Propagação - Carro, trem, navio e avião. Os voos intercontinentais foram um fator decisivo.

Mortos - 1 milhão

Tratamentos - Antibióticos e vacina.

Gripe aviária - 1997/2004

Sintomas - Febre alta, tosse, dor de garganta.

Propagação - Em 1997, 18 pessoas foram infectadas por frangos. Depois o vírus ganhou uma mutação, o subtipo H9N2, e se espalhou através das aves.

Mortos - 300
Tratamentos - Sacrifício de 1,5 milhão de frangos em Hong Kong. O grupo farmacêutico Novartis tem um projeto de vacina contra o vírus A H5N1.

Saiba mais

LIVROS

O Monstro Bate à Nossa Porta, Mike Davis, Record, 2009
O especialista em teoria urbana relembra o passado e alerta para os perigos de uma pandemia no presente. O livro, de 2006, acaba de ser reeditado

A História e Suas Epidemias - A Convivência do Homem com os Micro-organismos, Stefan Cunha Ujvari, Senac, 2003
Referência no assunto, a obra do infectologista brasileiro está para ser relançada.

Revista Aventuras na História