quarta-feira, 22 de junho de 2022

O mito da fênix e a combustão espontânea



Apesar de parecer mágica, a capacidade de se incendiar dessa ave mitológica conhecida por renascer das próprias cinzas é um fenômeno que pode acontecer em certas situações no mundo real





A fênix é uma ave mitológica, dotada de diversos poderes e cercada por muitos mistérios e histórias. Muito presente em nossa cultura atual, a fênix é conhecida por meio das histórias de ficção (livros, filmes, games e séries). Mas não pense que esse pássaro é uma criação moderna.


A garça de Heron, maior espécie de garça que já passou pela Terra, serviu de inspiração para o surgimento de Benu, um ser mitológico do Egito Antigo CRÉDITO: WIKIPEDIA


Há cerca de 5 mil anos, a região que hoje é conhecida como Emirados Árabes Unidos abrigava a maior espécie de garça que já passou pela Terra: a garça de Heron (também chamada pelo nome científico de Ardea bennuides). Acredita-se que essa garça serviu de inspiração para o surgimento de Benu, um ser mitológico do Egito Antigo associado à alma do deus do Sol, Rá. Essa ave sagrada também era vista como símbolo do renascimento (o que também a ligava ao deus Osíris), pois se acreditava que, a cada 500 anos, ela era capaz de se consumir em chamas e renascer das próprias cinzas.

Posteriormente, já na Grécia Antiga, surgiram histórias de um pássaro com propriedades muito semelhantes a Benu e que, na mitologia grega, recebeu o nome de fênix. Embora haja contestações



sobre a real origem desse ser mitológico, foram muitas as civilizações que cultuaram animais análogos a essa ave – ou outros pássaros com habilidades mágicas –, como os chineses, árabes, persas, entre outros povos.

Por meio das histórias orais e escritas, o mito da fênix foi se propagando ao longo dos séculos. E podemos dizer que, dentre todas as histórias de pássaros mágicos, essa foi o que mais criou raízes no imaginário popular ocidental.


A fênix na cultura pop

Muitas crianças e jovens tiveram um importante contato com a fênix por meio do universo de Harry Potter. A franquia de enorme sucesso, tanto no cinema quanto na literatura, nos apresenta a personagem Fawkes, uma fênix de enorme inteligência e lealdade que acompanhava o diretor da escola de magia de Hogwarts, Alvo Dumbledore.




Nos filmes do universo de Harry Potter, a fênix Fawkes acompanhava o diretor da escola de magia de Hogwarts, Alvo Dumbledore CRÉDITO: DIVULGAÇÃO



O primeiro contato que o jovem Harry Potter teve com Fawkes foi justamente no dia de sua queima. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, o bruxo visita o escritório de Dumbledore e, em dado momento, quando ele se aproxima da ave (visivelmente velha e cansada), ela simplesmente se acende em chamas e é completamente consumida pelo fogo. O diretor acalma Harry, explicando que Fawkes é uma fênix e que já estava na hora de ela se incendiar para nascer novamente. A cena termina com uma bebê Fawkes nascendo das próprias cinzas.

Depois desse dia, a fênix participou de muitos momentos importantes da saga. Foi ela quem levou a espada da Grifinória para ajudar Harry na luta contra o monstro basilisco na Câmara Secreta e, depois, derramou suas lágrimas sobre o jovem bruxo para curá-lo de ferimentos graves e ainda o carregou, junto com seus amigos, de volta para o castelo, demonstrando seus poderes de cura e de enorme força. Fawkes também auxiliou Dumbledore quando o diretor fugia dos funcionários do Ministério da Magia em Harry Potter e a Ordem da Fênix, dentre outras aparições.

O filme mais recente da franquia, Animais fantásticos: os segredos de Dumbledore, que tem como foco o passado do diretor da escola, traz em seus cartazes de divulgação uma fênix em chamas. Seria essa fênix a própria Fawkes ou trata-se de outra fênix? Só mesmo assistindo ao filme para descobrir!


A ciência da combustão espontânea

O processo de queima – ou combustão – nada mais é do que uma reação química decorrente do encontro de três elementos: um combustível (qualquer material oxidável, ou seja, capaz de reagir com o oxigênio e pegar fogo); um comburente (geralmente, o oxigênio); e uma fonte de ignição (por exemplo, uma faísca, que fornece a energia necessária para a reação ocorrer). Se algum desses três elementos não está presente, a queima não ocorre.

A combustão é uma reação fundamental para a manutenção da vida humana no planeta e teve seu marco histórico de origem datado por pesquisas arqueológicas em cerca de 7 mil anos antes de Cristo, quando os povos antigos começaram a produzir fogo, possibilitando diversos avanços tecnológicos.

Você já acendeu uma fogueira ou viu alguém fazendo isso? Para esse processo, podemos usar um pedaço de madeira, que funcionará como combustível (ou seja, irá queimar). Para facilitar a queima, podemos jogar sobre a madeira um líquido inflamável (como o álcool). O oxigênio irá participar dessa reação química fazendo o papel de comburente. E você ainda precisa de uma fonte de energia, como a chama de um fósforo ou a faísca de um isqueiro. Se a madeira queimar por completo (ou seja, o combustível se esgotar), a combustão se interrompe. Se você cobrir essa fogueira, impedindo a entrada de mais oxigênio, a fogueira se apaga por falta de comburente.



A partir dessas informações, vamos pensar na combustão da fênix. O combustível dessa reação é a própria fênix (tanto que quando ela se torna somente cinzas, a chama acaba). O comburente dessa reação é o próprio oxigênio. Mas e a fonte de energia externa, a ignição? Como é possível um objeto pegar fogo sem receber nenhuma energia?

Apesar de parecer realmente mágica, a combustão espontânea é um fenômeno real. O fato de não haver uma fonte externa visível de energia não significa que ela não exista. A temperatura de um corpo está diretamente associada à energia que esse corpo tem. Isso significa que um corpo quente (em alta temperatura) é um corpo com mais energia do que um corpo mais frio. Portanto, embora não seja algo muito comum, alguns materiais podem pegar fogo espontaneamente apenas com o seu próprio calor.

Existe uma propriedade denominada ‘ponto de ignição’, que é a temperatura mínima para a ocorrência de uma combustão espontânea, sem a presença de uma fonte externa de ignição (como uma faísca).

Para que a combustão aconteça, é indispensável a presença de três elementos: o combustível (material que pega fogo), o comburente (geralmente o oxigênio) e o calor que inicia a reação



O ponto de ignição do álcool, por exemplo, é 363 ºC. Isso significa que, se por alguma razão, o álcool for aquecido até essa temperatura, ele pegará fogo, mesmo sem uma faísca para acendê-lo.

Já o fósforo branco (usado para fabricação de fogos de artifício e bombas de fumaça) possui ponto de ignição de apenas 34 ºC, uma temperatura extremamente baixa. Por ser capaz de se inflamar espontaneamente, mesmo em temperatura ambiente, esse sólido costuma ser armazenado em querosene, pois essa substância não possui oxigênio em sua composição, impedindo que o fósforo entre em combustão.

Materiais como carvão, feno, algodão, filmes antigos, estrume de vaca e até grãos de pistache possuem pontos de ignição baixos o suficiente para sofrerem esse tipo de combustão. Um exemplo de combustão espontânea ocorre em alguns biomas, como o pantanal e o cerrado. Em períodos de seca, incêndios pontuais podem acontecer.

O que podemos concluir é que, se a fênix não for composta por feno ou outro material de baixo ponto de ignição, dificilmente ela seria capaz de entrar em combustão espontânea. Mas podemos levantar uma hipótese final.

Diferentemente dos répteis, anfíbios e peixes, as aves e os mamíferos são endotérmicos (também chamados de ‘animais de sangue quente’), ou seja, são capazes de controlar a própria temperatura corporal e manter o corpo aquecido mesmo em ambientes mais frios. Talvez a fênix seja capaz de aquecer o próprio corpo a uma temperatura tão grande que a leve à combustão. Por se tratar de um pássaro mitológico, infelizmente não podemos encontrar um desses no mundo real e estudá-lo. Portanto, só nos resta fazer especulações e nos maravilharmos com suas belas aparições nos cinemas.


Frans Wagner
Graduando em química e mediador do Centro de Ciências,
Universidade Federal de Juiz de Fora

Ingrid Gerdi Oppe
Mestranda em educação em química,
Universidade Federal de Juiz de Fora

Lucas Mascarenhas de Miranda
Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora
Revista Ciência Hoje

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