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domingo, 14 de setembro de 2014

Mil disfarces de Getúlio Vargas convergem num gesto de coerência

OTAVIO FRIAS FILHO
RESUMO O teatral suicídio de Getúlio, impelido pelas pressões políticas internas e externas sobre seu governo e ocorrido há 60 anos, fez com que o poder político do estadista perdurasse após sua morte. Últimos anos de sua vida são tema do terceiro e último tomo da biografia que lhe consagra Lira Neto, aqui resenhado.

Os efeitos políticos do suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954), que hoje completa 60 anos, já se dissiparam há muito tempo, mas o ato continua a reverberar pela singularidade.

Trágico, violento e irrecorrível, ele discrepa dos costumes conciliatórios vigentes desde pelo menos meados do século 19, quando se fixou o padrão das revoluções com pouco ou nenhum derramamento de sangue e das transições negociadas em que parte da velha ordem se transfere como por osmose à nova (1889, 1930, 1945, 1964, 1985). Discrepa também da personalidade do suicida, conciliador-mor que encarnou como ninguém o papel de sedutor matreiro capaz de se safar das piores encrencas. Como todo gesto extremo, terá sido preparado por uma complexa malha de causas.
Foto Marcelo Justo/Folhapress 

É sabido que Getúlio sentia atração pelo suicídio honroso, destinado a prevenir alguma condição intolerável na eventualidade de uma derrota definitiva. Pelo menos duas vezes ele mencionou a possibilidade por escrito, quando era arrastado, em outubro de 1930, após muita hesitação, à ofensiva rumo ao Rio, sem saber que resistência encontraria pelo caminho, e em julho de 1932, quando foi surpreendido pelo ímpeto da contrarrevolução constitucionalista que irrompeu em São Paulo. Um de seus filhos viria a suicidar-se em 1977, o que parece sugerir alguma propensão inata.

Para que essa atração se convertesse em ato, porém, foi preciso que todas as portas se fechassem. Com os mandantes da tentativa de assassinar Carlos Lacerda (da qual resultou a morte de um oficial da Aeronáutica) alojados em seu palácio, com o "mar de lama" que as investigações subsequentes revelaram, Getúlio enfrentava uma avassaladora campanha pela renúncia, que logo se traduziu em ultimato militar transmitido pelo próprio ministro da Guerra (Exército). Naquela madrugada de 24 de agosto de 1954, ele ainda negociou uma licença que o manteria afastado do cargo até a conclusão das diligências. Os militares, contudo, foram irredutíveis.

Relatos da época indicam um presidente amargurado, aos 72 anos, com os desmandos na família cometidos às suas costas e, ao mesmo tempo, receoso de que ela passasse a objeto de execração pública: um irmão e um filho talvez estivessem a par da preparação do atentado; outro filho vendera uma propriedade a Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do palácio e mentor do crime, pago com empréstimo bancário avalizado por João Goulart, ministro do Trabalho até a véspera e afilhado político do presidente.

Num homem tão racional e metódico, mesmo os lances da paixão foram comedidos pelo cálculo. Psicologia à parte, o extraordinário nesse suicídio é seu alcance político -num derradeiro passe de mágica o velho prestidigitador inverte a maré, derrota os inimigos quando mal haviam aberto o champanhe (conforme o relato de Lacerda sobre o fatídico amanhecer) e se consagra na memória popular, comandando seu vasto eleitorado por algumas décadas desde o além-túmulo (há indícios de que ele tencionava apoiar Juscelino e seguramente gostaria de ter visto Jango ou Leonel Brizola como sucessores).

ATENTADO

Ao contrário do suicídio, o atentado é quase inexplicável. De sua execução desastrada, Lacerda emergiu como mártir vivo (fora ferido no pé) conclamando os militares a fazer justiça ao colega de farda assassinado. Mesmo que o crime fosse bem-sucedido, porém, naquele ambiente exasperado as consequências seriam devastadoras para o governo, sobre o qual recairiam as suspeitas pela eliminação do principal inimigo de Getúlio na imprensa. Por rústicos que fossem, é estranho que os autores da trama não se dessem conta disso.

Atentado e suicídio formam o clímax do terceiro volume da biografia escrita por Lira Neto,"Getúlio - Da Volta pela Consagração Popular ao Suicídio (1945-1954)" [Companhia das Letras, R$ 49,50, 430 págs.], agora lançado, completando uma empreitada de 1.654 páginas. Ali, esse autor que gosta de explorar peripécias e lances pitorescos, mas trata seu material com exatidão escrupulosa, dá a versão dos condenados, apresentada anos depois do episódio.

As confissões teriam sido obtidas sob coação. Os dois acusados apenas seguiam Lacerda, em busca de algo que o comprometesse. Quando, na madrugada de 5 de agosto, o major Rubens Vaz estacionou na rua Tonelero e Lacerda desceu do carro para entrar no prédio onde morava, um dos réus teria se aproximado para anotar o número da placa, sendo interpelado pelo militar, que também saíra do carro. Seguiu-se uma luta entre ambos; Lacerda, que mal entrara no prédio, começou a atirar, atingindo por engano o major. Um segundo tiro, desferido pelo acusado com quem se atracava, matara o oficial. O inquérito teria sido uma fantástica farsa.

São mínimos os indícios em apoio dessa versão. Lira Neto os registra com gosto, contente por envolver acontecimento tão mítico nessas fumaças de mistério: a arma de Lacerda, que de fato disparou, não foi periciada; os boletins médicos do ferimento no pé desapareceram. Mas o biógrafo endossa a versão oficial, sustentada por todas as evidências disponíveis, entre elas o relato de três jornalistas do "Diário Carioca" que por acaso viram a cena a poucos metros de distância (um deles, o vizinho Armando Nogueira, foi o primeiro a reportá-la). É preciso uma sólida fé em teorias conspiratórias para acreditar que não houve atentado.

GUARNIÇÃO

A guarda pessoal, que na época tinha 83 integrantes, havia surgido em 1938. Numa noite de maio daquele ano, seis meses depois do golpe em que Getúlio se fez ditador, um destacamento integralista (espécie de fascismo católico-tropical) invadiu o Palácio Guanabara com o objetivo de assassiná-lo e tomar o poder. O assalto foi rechaçado pela guarnição e por auxiliares do autocrata, mas a fuzilaria se prolongou enquanto o Exército e a Polícia Especial demoravam, de forma suspeita, a enviar reforços.
Foto Marcelo Justo/Folhapress 

Benjamin Vargas, irmão mais novo de Getúlio, teve papel crucial na defesa do palácio naquela madrugada e parece ter sido responsável pelo fuzilamento sumário, nos próprios jardins do Guanabara, de uma dezena de golpistas presos quando o ataque foi debelado ao amanhecer.

Em 1932, esse mesmo irmão se pusera à frente de um batalhão de voluntários, recrutado entre capangas e apaniguados da família Vargas em São Borja para combater os paulistas. Nesse batalhão, que numa arruaça de fronteira chegou a invadir território argentino, figurava Gregório Fortunato, o futuro Anjo Negro, a quem foi confiada, depois do assalto integralista, a missão de chefiar o bando convertido em guarda permanente dedicada à proteção do ditador.

Lira Neto narra incidentes espantosos durante a ditadura do Estado Novo em que Bejo -como o irmão atrabiliário e alcoólatra era chamado em família- provoca desafetos em boates, dá tiros a esmo, chega a ferir terceiros e continua impávido. Certa vez mandou sequestrar e espancar um jornalista; o assecla encarregado da tarefa seria mais tarde um dos dois condenados pela execução do atentado contra Lacerda. Nesse submundo provinciano em que se cruzavam compadrio e delinquência, em que o hábito caudilhesco da violência se ampliara na impunidade garantida pela ditadura, formou-se o "mar de lama" que tragou o mandato democrático de Getúlio.

CARTA-TESTAMENTO

Mas, como no movimento entre tese/antítese/síntese, atentado e suicídio somente se resolvem no terceiro elemento mítico dessa narrativa, a carta-testamento, também ela objeto de controvérsia duradoura. Existem duas versões desse texto.

A primeira, manuscrita certamente pelo próprio Getúlio, é mais curta. Seu tom é apressado, algo prosaico, e certas passagens exalam ressentimento. O autor reclama da "fraqueza de amigos que não me defenderam" e da "felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei". O fecho é pedestre e anticlimático: "A resposta do povo virá mais tarde...".

A segunda versão, datilografada, logo distribuída e replicada à exaustão nas rádios e jornais, foi a que passou à história. É uma magnífica exortação política, escrita com simplicidade intensa e solene. Sua qualidade literária quase faz esquecer o quanto ressoa de demagogia nacionalista e de culto à personalidade em seu teor.

"Não me acusam, me insultam, não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa." Feitas as negativas desse introito, que valem por uma refutação, o texto relembra que, depois de "decênios de espoliação", o autor se fez chefe da Revolução de 1930, instaurou "um regime de liberdade social", foi deposto e retornou ao governo "nos braços do povo".

Passa a enfrentar a resistência de grupos "nacionais e internacionais" ao aumento do salário mínimo, à restrição nas remessas de lucros para o exterior, à criação da Eletrobras. Vinha lutando "mês a mês, dia a dia, hora a hora" -o tempo da narrativa só se acelera- até concluir: "Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue", o que confere uma ressonância cristã ao sacrifício feito em nome do povo e que sela sua aliança ("uma chama imortal") com o líder imolado.

Segue-se uma saraivada desconcertante de antíteses: "Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém". No último parágrafo, uma série de frases curtas, sincopadas, prepara o crescendo de suspense que se desata no majestoso traslado da sentença final: "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".

Parece haver algum consenso entre os historiadores quanto à sequência de eventos. Getúlio faz anotações para uma carta que deixaria caso as circunstâncias o forçassem ao suicídio. Lira Neto conta que Alzira, sua filha e secretária, diz ter visto essas anotações uma semana antes entre os papéis do presidente que, interpelado por ela, desconversou, atribuindo-as a um momento de "desabafo". Essa versão já dizia que "velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor".

Em algum momento daqueles dias, Getúlio discute o assunto com o jornalista José Soares Maciel Filho, amigo e redator de seus principais discursos, a quem pede que redija uma segunda versão, como haviam feito em outras ocasiões. Maciel, que na juventude fora aluno do filósofo Benedetto Croce na Itália e depois criara um jornal no Rio para sustentar a Revolução de 30, era um ideólogo nacionalista que ocupou cargos altos na burocracia getuliana. Para tranquilizar o assessor, é plausível que o presidente tenha alegado reservar o texto para uma situação extrema que provavelmente nunca ocorreria.

CENÁRIO

Claro que todo esse cenário é apenas a condensação teatral de um drama muito maior. O raio de manobra do governo vinha se estreitando, conforme era tracionado por uma dinâmica de polarização entre forças econômicas e interesses sociais contraditórios, que Getúlio (como Jango 20 anos mais tarde) tentou conciliar enquanto conseguiu.

Como sempre, o cobertor era curto. O país precisava de recursos externos para investimentos em infraestrutura, mas a prodigalidade que os americanos haviam mostrado na Segunda Guerra e no começo da Guerra Fria, quando era prioritário manter boas relações com o Brasil, cedera lugar, a partir de 1952, a uma atitude mais dura e à exigência de que os empréstimos tramitassem menos via governos e mais via instituições privadas, o que reclamava um "ambiente de negócios", como se diria hoje, mais amigável.

O foco das tensões era o regime de câmbio, que sofreu idas e vindas no período, conforme o governo cedia às pressões estrangeiras, aos exportadores de café ou aos importadores nacionais. Programas de estabilização financeira (encetados pelos sucessivos ministros da Fazenda, Horácio Lafer e Oswaldo Aranha) eram solapados pela necessidade política do governo de ceder às demandas crescentes. A economia crescia a uma taxa média anual próxima a 6%, mas a inflação, que estivera em 8% no quadriênio anterior, chegou a cerca de 20% anuais no mandato de Getúlio.

Pelo flanco sindical, o governo era acossado por greves e pela radicalização do semiclandestino Partido Comunista, que, em mais uma reviravolta determinada por Moscou, rompera com Getúlio e adotava uma política de agitação operária. Em maio de 1954, o presidente concedeu o controvertido reajuste de 100% no salário mínimo, elevando-o a valor real próximo ao de hoje, quando a renda per capita é quase cinco vezes maior que a da época.

O governo, entretanto, mantinha controle sobre o Parlamento, onde a Câmara dos Deputados votou, em junho de 1954, um pedido de impeachment do presidente, derrotado pelo placar de 136 votos contrários e apenas 35 a favor.

A oficialidade militar, impregnada pelas divisões que cindiam a opinião pública e alvoroçada pela perda de poder aquisitivo dos soldos, ainda abrigava um setor "progressista", simpático ao nacionalismo do presidente ou ao menos apegado ao regime constitucional de 1946. O assassinato do major Vaz gerou uma catarse corporativa que fez a balança de forças pender pelo afastamento, via renúncia ou deposição.

Getúlio fora um oportunista por excelência, adotando os disfarces ideológicos que mais lhe convinham a cada conjuntura, mas seria um equívoco ignorar a linha de continuidade a estruturar essa trajetória cujas aparências parecem tão mutáveis.

Sua aversão à democracia parlamentar, sua concepção do Estado centralizado como indutor do desenvolvimento e do equilíbrio entre classes e regiões, até mesmo sua prudência em matéria fiscal e a inclinação por um regime plebiscitário que mantivesse o líder por tempo indefinido no poder -tais aspectos integram uma doutrina à qual permaneceu constante, emanada do pensamento positivista do francês Auguste Comte (1798-1857).

No final do século 19, essa doutrina, adaptada por discípulos brasileiros, desempenhou forte influência na mentalidade republicana, especialmente a gaúcha. Naquele Estado, facções positivistas e liberais chegaram a se enfrentar em duas guerras civis (1893-5 e 1923). Influência parecida aconteceu na mesma época em outros países latino-americanos, e diga-se de passagem que o recente "bolivarianismo" tem suas raízes nesse mesmo substrato.

Em linguagem marxista, as teorias de Comte refletiam na França uma parcela do pensamento burguês engajada na universalização de direitos que a Revolução de 1789 apregoou, mas intimidada pela ameaça à propriedade representada pelas insurreições operárias de 1848 e 1870. Era preciso patrocinar mudanças dentro de um curso dirigido, "racional" (a doutrina exercia peculiar fascinação sobre engenheiros e militares). Tais ideias vinham a calhar quando transplantadas ao contexto de uma elite hostil ao bacharelismo, dissidente e autoritária, reformista e conservadora, como aquela que produziu o estadista Getúlio Dornelles Vargas.

ENFOQUE

Panorama tão amplo escapa, como não poderia deixar de ser, aos propósitos do biógrafo; seu enfoque sempre minucioso está concentrado no círculo íntimo do presidente. Neste terceiro volume, o narrador utilizou os rascunhos que Alzira Vargas preparou para seu segundo livro de memórias, nunca publicado, assim como as numerosas cartas que trocou com o pai, entre 1945 e 1950, quando ele cumpria seu ostracismo como estancieiro na fazenda de São Borja e ela atuava, no Rio de Janeiro, como sua articuladora.

Além de filha devotada e secretária diligente que lhe providenciava roupas, remédios e charutos, Alzira parecia possuída, como o pai e ao contrário de certos parentes, pela paixão da política enquanto responsabilidade pública. Era também uma mulher corajosa, arguta e dotada de tino maquiavélico, o que torna a leitura da correspondência muito instrutiva.

Suas metáforas, extraídas do léxico feminino, são quase sempre tiradas divertidas nas quais ela informa o pai sobre o que se passa na corte do presidente Dutra -a famosa "copa e cozinha"- para então abrir o leque das opções a seu ver disponíveis e declarar-se à espera de ordens. Lira Neto revela que Samuel Wainer foi enviado para a famosa entrevista com Getúlio ("voltarei como líder de massas") ao que tudo indica numa manobra engendrada pela filha no Rio.

Anos mais tarde, na última reunião ministerial que Getúlio presidiu, às primeiras horas do 24 de agosto, seriam dela e de Tancredo Neves as vozes categóricas a favor de retomar pela força o mandato prestes a ser usurpado, prendendo imediatamente os generais insubordinados.

PROTAGONISTAS

Se há muito de cinematográfico no andamento dos livros de Lira Neto, não resta dúvida sobre quem são os protagonistas dessa história, que vai sendo ocupada do meio para o fim pela preciosa relação entre um pai declinante e sua filha dileta -até que o delicado fio que prende esse Lear a sua Cordélia se rompa na torrente final da tragédia.

No entanto, parece que foi faltando tempo ao autor (o trabalho inteiro consumiu cinco anos), de modo que o terceiro e o segundo volume, embora admiráveis, talvez não alcancem o nível primoroso do primeiro nem tenham sua originalidade, favorecida por tratar da fase inicial, menos divulgada, da vida do personagem.

Ele foi assunto de diversas abordagens biográficas, em geral oficiosas (a própria Alzira escreveu a sua, "Getúlio Vargas, Meu Pai", publicada em 1960). Em 1974, o criterioso historiador John W. Foster Dulles, biógrafo de Lacerda e filho do secretário de Estado norte-americano entre 1953 e 1959, publicou "Getúlio Vargas: Biografia Política". Mais recentemente, o historiador Boris Fausto lançou seu excelente e conciso "Getúlio Vargas - O Poder e o Sorriso" (2006).

Apesar desses antecessores ilustres, é provável -devido às ambições narrativas, ao rigor documental da imensa pesquisa e ao desengajamento do ponto de vista- que a biografia de Lira Neto assuma a posição de obra definitiva sobre o personagem por longo tempo, moldando a visão das próximas gerações de estudiosos, leitores e espectadores.

PRESENTE

Quanto ao leitor atual, não será ele tentado a ver analogias inquietantes entre aquele passado nem tão remoto e o presente? O PT em vez do PTB, Lula em vez de Getúlio (Dilma em vez de Dutra?), o PSDB no lugar da UDN, o PMDB no do PSD -a demagogia, a corrupção, a direita golpista-; será que estamos presos ao mesmo círculo que se repete? Mas basta ressaltar as diferenças mais importantes para concluir que essa identidade é aparente.

Em 1954, o capitalismo estava enraizado no país de modo ainda mais precário do que hoje, quando uma proporção maior da sociedade e do território foi incorporada a sua dinâmica e absorveu parte de seus benefícios. Em última análise, o sentido histórico da ditadura militar (1964-85) foi exatamente forçar pela violência uma trégua nas lutas sociais, que permitisse a acumulação destinada a completar a tarefa iniciada desde os anos 1930, a modernização capitalista.

Lamentamos as metrópoles atulhadas e a depredação da natureza, mas foi esse processo vertiginoso que trouxe a mortalidade infantil de 128 óbitos por mil nascimentos (1955), por exemplo, aos atuais 14, e a expectativa de vida dos 45 anos (1950) aos atuais 75, ambos índices objetivos de melhora nas condições coletivas de vida.

Por motivos que extrapolam esta resenha, mas que decorrem em parte do amadurecimento institucional após tantas aventuras frustradas, o Exército deixou de ser o fio desencapado da política, que potencializava os impasses até conduzi-los a soluções de força. A estrutura constitucional passou a funcionar porque a trama de interesses na economia e na sociedade se tornou mais forte e complexa. Por falta de respaldo suficiente, direita e esquerda exaltadas tiveram de abandonar há 40 anos qualquer tentativa séria de golpismo.

As relações com os Estados Unidos também evoluíram, conforme nossa dependência daquela economia se tornou menor, de maneira que uma posição nacionalista se traduziria, hoje, mais em termos de competição por mercados e tecnologias do que nos moldes tradicionais de uma resistência anti-imperialista.

O maniqueísmo ideológico dos anos 1950 se dissolveu numa espécie de centrismo tecnocrático, administrativista, no qual as alternativas, por mais encarniçada que continue sendo a luta de suas falanges pelo poder, não passam de versões um pouco mais à esquerda ou à direita -precisamente como PT e PSDB na atualidade, separados por divergências mais de grau e estilo do que de essência.

OTAVIO FRIAS FILHO, 57, diretor de Redação da Folha, é autor de "Seleção Natural - Ensaios de Cultura e Política" (Publifolha) e da coletânea teatral "Cinco Peças e Uma Farsa" (Cosac Naify).
ZED NESTI, 44, artista plástico, participa da 2ª Mostra do Programa de Exposições 2014, no Centro Cultural São Paulo até 26/10.
FOLHA DE S.PAULO

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O lado escuro de Getúlio Vargas

OTAVIO FRIAS FILHO
DIRETOR DE REDAÇÃO


RESUMO Segunda parte da biografia de Getúlio Vargas aborda seu lado "ruim", concentrando-se nos anos que levaram à ditadura do Estado Novo. Apesar de certo tom oficialesco, livro se destaca pela narrativa da Revolução de 32 e da Intentona Comunista e ajuda a desfazer maniqueísmo ingênuo em torno da figura do líder.

Assim como o colesterol, pode-se dizer que existe um Getúlio Vargas "bom" e outro "ruim". O primeiro é o líder de uma revolução democrática, o campeão dos direitos sociais, o governante nacionalista. O segundo é o chefe da única ditadura pessoal que o Brasil conheceu e o político inescrupuloso aferrado ao exercício do poder.

Claro que esse maniqueísmo ingênuo se desfaz conforme conhecemos mais sobre personalidade tão ambígua e sua complexa inserção numa época conflagrada como os meados do século passado. Fomentar essa compreensão isenta é o maior mérito da biografia em três volumes empreendida pelo jornalista e pesquisador Lira Neto, da qual se publica agora a segunda parte, "Getúlio - Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930-1945)" [Companhia das Letras, 632 págs].

Nela se concentra o Getúlio "ruim", o equilibrista ardiloso que sobrenada em meio às tormentas ideológicas da década de 1930, jogando uns contra outros, sempre aliado ao adversário da véspera -chefe do governo provisório (1930), presidente eleito pela Constituinte (1934) e enfim ditador a partir de 1937.

É natural que o protagonista comande o espetáculo numa biografia; mesmo no caso de figura decisiva como Vargas, porém, é fascinante o grau em que sua trajetória foi antes comandada pelas circunstâncias. Mestre da paciência e do silêncio, ele esperava que se consolidassem à medida que tratava de se amoldar a elas.

Não eram apenas circunstâncias locais, pois os anos 1930 ilustram com nítida evidência que não existe o "nacional", no sentido de que ele é sempre uma variante particular de fenômenos mais amplos, de dimensão internacional.

Impulsionada pela catástrofe da crise econômica de 1929, por toda parte a revolução social parecia iminente. Sua ponta de lança eram os partidos comunistas, organizados sob disciplina militar e obedientes à União Soviética.

O fascismo foi, como se sabe, uma defecção nacionalista e racista desse movimento revolucionário, logo apropriada pelos setores interessados em preservar a propriedade e a hierarquia ameaçadas. Desde os anos 1920, hordas de fanáticos das duas seitas -opostas nos propósitos, iguais em método e estética- se enfrentavam em arruaças nas principais cidades do mundo.

Divulgação/CPDOC/FGV
Getúlio Vargas após assumir a presidência do Brasil, em 1930

Quando duas forças políticas se empenham num confronto violento e prolongado sem que nenhuma submeta a outra, torna-se provável um desenlace cesarista (também chamado bonapartista). Incapaz de um compromisso estável, exaurida pelas lutas intermináveis, a sociedade vê um ditador enfeixar o poder absoluto para restabelecer a ordem periclitante, ainda que sob uma retórica revolucionária.

Nada muito diverso ocorreu no Brasil da época. Mas a comparação é instrutiva porque permite isolar, quase como num experimento químico, as peculiaridades que distinguem o cesarismo tupiniquim, getuliano, do padrão mais geral.

A mais notável, talvez, é seu caráter camaleônico. Embora formado no positivismo autoritário e reformista que fez longa escola na política gaúcha, Getúlio nunca aderiu a qualquer doutrina ideológica. Conforme as conveniências, manipulava este ou aquele aspecto de todas elas, reivindicando para si o centro de gravidade da política, afastado de ambos os extremos.

Característica psicológica da personagem? Certamente. Mas também sintoma de uma sociedade onde ideologias têm função decorativa, na qual as ideias não são levadas ao pé da letra nem sequer a sério, em que programas e compromissos são "para inglês ver".

Esse traço cultural do país responde por mazelas (sucessivas constituições, leis e orçamentos que não se respeitam, partidos de araque, política inautêntica) e também por subprodutos benfazejos (ausência de racismo politicamente articulado, tolerância religiosa e sexual, descrença em relação a dogmas).

Tortura e assassinatos políticos faziam parte da rotina da repressão policial, sobretudo após o golpe do Estado Novo, em 1937. Não podem ser quantificados porque os registros foram destruídos a tempo, mas as revoltas armadas do período deixaram um saldo reduzido de baixas.

Foram 22 mortos na Intentona Comunista (1935); ainda menos na tentativa de golpe integralista (patética versão nativa do fascismo) em 1938. Mesmo a Revolução Constitucionalista de 1932, o maior conflito armado na história republicana depois das sangrentas campanhas de Canudos e do Contestado, deixou menos de mil mortos.

Esse cômputo integra um padrão reiterado na formação brasileira, uma sociedade mais violenta do que a maioria das demais, desde logo pela extensa deformação da escravatura, mas onde a violência encontra escassa expressão política.

Cada um é livre para especular sobre esse enigma nacional. Resultado da profunda desarticulação social que é própria do legado escravocrata? Hábito adquirido da conciliação, dos acertos "pelo alto", a fim de não despertar o vulcão adormecido da desigualdade? Anemia da sociedade civil, o que deixa as forças políticas quase sempre à mercê do bloco que controla o hipertrofiado poder central? Porosidade à ascensão individual, que impede a pressão coletiva de atingir um ponto crítico?

PROTESTOS

Na opinião deste resenhista, dois episódios se destacam na narrativa de Lira Neto. O primeiro é a Revolução de 1932, a começar pela extraordinária descrição do incidente -os protestos de 23 de maio nas ruas em São Paulo- que a prenunciou. Ainda que o livro nunca abandone a perspectiva da personagem incrustada no Palácio do Catete, seu relato transmite a sensação de que a revolta se desenrola diante de nossos olhos.

Fica patente o quanto havia de reacionário no movimento, que mobilizava um sentimentalismo nostálgico da supremacia política paulista. Ao mesmo tempo, deflagrada pela elite econômica e cultural, a insurreição teve substancial apoio popular e conduziu à breve democratização de 1934, que adiou a ditadura.

Esta seria inevitável em decorrência do outro episódio proeminente, o infausto levante militar organizado no ano seguinte pelo Partido Comunista. Por volta de julho de 1935, Josef Stálin, o ditador soviético, finalmente atinou que o nazifascismo era a ameaça prioritária. Os partidos comunistas, até então instruídos a incitar a revolução armada, passaram a adotar uma política defensiva de frente ampla com as demais forças antifascistas. No Brasil, o golpe em preparação não foi abortado, em parte por causa das estimativas delirantes sobre a chance de vitória que seu líder, Luís Carlos Prestes, repassava a Moscou.

Detonada em novembro no Recife e em Natal, e dias depois no Rio, a intentona foi facilmente estrangulada pelo governo. Concebida por uma potência estrangeira, converteu-se no fantasma a ser invocado como eterno pretexto pelas duas ditaduras do século, a de 1937 e a de 1964. Foi o maior dos muitos erros de Prestes, tido por militar capaz, mas politicamente obtuso.

Seu fracasso aproximou perigosamente o Brasil do Eixo, tendência revertida para um tardio realinhamento com os Estados Unidos que só seria consumado em 1942, quando aquele país compeliu o nosso a ceder bases aéreas no Nordeste como apoio logístico para a campanha no Atlântico. Na barganha, Getúlio obteve dos americanos financiamento para a primeira siderúrgica, Volta Redonda.

Premido por manifestações populares, provocadas pelo afundamento de navios brasileiros que violavam o bloqueio naval imposto pela Alemanha à Inglaterra, o governo enviou uma força expedicionária à guerra na Itália. O engajamento com as potências democráticas desencadeou a dinâmica que levaria os militares à primeira deposição de Getúlio Vargas (1945).

Como saldo, o Estado Novo deixava um aparelho federal modernizado, uma legislação trabalhista que renderia ao getulismo dividendos eleitorais por muitos anos e incipientes processos de industrialização e urbanização que se fariam avassaladores nas décadas seguintes.

Não faltam amenidades ao livro. Desde o apreço de Getúlio Vargas por pontualidade, churrasco, cavalos, charutos, golfe e pingue-pongue até detalhes de sua estreita relação com a filha Alzira, confidente e secretária particular que organizou os arquivos do pai, esta biografia não perde o fio do pitoresco, do íntimo e do prosaico. O antiquado romance com a mulher de um hierarca do regime -a "bem-amada" que aparece nos diários secretos do presidente- é contado em tom picante.

Duas ressalvas num livro de resto admirável. A pouca familiaridade do biógrafo com temas econômicos deixa lacunosa essa importante faceta na atuação do ditador.

E as principais fontes do livro -as recordações filtradas pela devoção de Alzira Vargas e os diários mantidos pelo pai (1930-42), que mesmo ali ostenta a compostura protocolar de quem calcula sua revelação póstera- às vezes conferem uma tonalidade oficialesca ao conjunto, que não deixa de refletir, entretanto, o pesado clima cartorial da época. 
Folha de S. Paulo

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Getúlio Vargas - Vestibular UERJ

1. UERJ-2013


Os governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek foram momentos marcantes da história econômica brasileira, especialmente no que se refere ao desenvolvimento industrial do país.
Uma semelhança entre o processo de industrialização brasileiro verificado no governo de Vargas e no de JK está apontada em:

(A) expansão do mercado interno
(B) flexibilização do monetarismo
(C) regulação da política ambiental
(D) autonomia do progresso tecnológico

Alternativa correta: (A)

Comentário da questão:O governo de Vargas e o de Juscelino Kubitschek foram marcantes no processo de industrialização brasileiro. Nesses dois períodos, registrou-se grande avanço desse setor, o que alterou significativamente o perfil socioeconômico do país. Apesar das diferenças, o avanço da atividade fabril nos dois governos inseriu-se no que foi denominado posteriormente como processo de industrialização por substituição de importações. Em outras palavras, tratou-se de substituir os produtos que anteriormente eram comprados no exterior por produtos produzidos nacionalmente a fim de atender o crescente mercado interno. As imagens mostram fábricas inauguradas pelos dois presidentes, ambas destinadas a essa finalidade.
2. UERJ-2012


Alexandre Marcondes Filho foi ministro do trabalho do governo de Getúlio Vargas, entre 1941 e 1945. Seu texto, impresso nas carteiras de trabalho, reflete as políticas públicas referentes à legislação social que vinha sendo implementada naquela época.
Duas características dessa legislação estão indicadas em:

(A) garantia da estabilidade de emprego / liberdade de associação
(B) previsão de assistência médica / intensificação do controle sindical
(C) proibição do trabalho infantil / regulamentação do direito de greve
(D) concessão de férias remuneradas / qualificação do trabalhador rural

Alternativa correta: (B)

Comentário da questão:Entre as muitas transformações realizadas durante o governo de Getúlio Vargas, destaca-se a criação do Ministério do Trabalho, da Indústria e do Comércio. Esse órgão foi o responsável, entre outras atribuições, pela maior presença do poder de Estado nos conflitos entre capital e trabalho. Institui-se, então, paulatinamente, entre 1931 e 1945, um conjunto de leis reguladoras dos direitos e deveres dos trabalhadores urbanos, empregados no comércio e na indústria: delimitação da jornada de trabalho, férias remuneradas, previsão de assistência médica para acidentes, regulamentação do trabalho feminino e infantil. Em pararelo, o governo controlava os sindicatos, no sentido de que apenas os que fossem reconhecidos pelo MTIC poderiam usufruir dos benefícios trabalhistas. A carteira de trabalho, como registrado no seu texto de abertura, no momento de sua criação, representou símbolo maior de ações do governo assentadas na perspectiva de beneficiar o trabalhador de áreas urbanas, restringindo contudo a autonomia dos sindicatos.
3. UERJ-2013



Os cartazes acima foram produzidos para atrair apoio popular para um movimento de oposição ao governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934). Esse movimento colocou do mesmo lado o Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático, tradicionais adversários políticos no estado de São Paulo.
Nomeie esse movimento e indique uma justificativa apresentada pelos paulistas para considerar o governo provisório de Vargas “uma ditadura”.

Objetivo: Identificar o movimento de oposição ao governo provisório de Getúlio Vargas e explicar sua motivação.
Item do programa: Estado e industrialização na América Latina
Subitem do programa: Nacional-estatismo, crescimento industrial e transformações no mundo do trabalho, com ênfase no estudo dos casos brasileiro, argentino e mexicano

Comentário da questão:
O governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934) tinha como sustentação diferentes setores da sociedade brasileira, descontentes com o domínio oligárquico da Primeira República. No entanto, esse governo não ficou isento de oposição, principalmente de forças políticas paulistas, não apenas a antiga elite dominante presente no Partido Republicano Paulista, mas também os integrantes do Partido Democrático, tradicional adversário político do PRP em São Paulo.
Os principais motivos para a oposição paulista ao governo provisório de Vargas foram: a demora na convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, fato que permitia ao executivo federal governar por meio de decretos-leis; a nomeação de interventores para os executivos estaduais; a dissolução do Congresso Nacional e dos legislativos estaduais e municipais, que ampliou o poder discricionário do presidente. Considerando demasiada a demora na solução constitucional por parte do governo federal, as elites paulistas dão início a uma rebelião que é conhecida pela denominação de Revolução Constitucionalista de 1932.
4. UERJ-2013





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Juscelino Kubitschek e Emílio G. Médici são duas figuras representativas das décadas de 1950 e 1970. Essas duas décadas correspondem, respectivamente, aos seguintes contextos políticos no Brasil:

(A) estatismo e liberalismo
(B) privatismo e populismo
(C) agrarismo e caudilhismo
(D) desenvolvimentismo e autoritarismo

Alternativa correta: (D)

Comentário da questão:
A história brasileira no período posterior a 1945 é marcada por tentativas de estabelecer as bases do processo de industrialização, implementadas no segundo governo de Getúlio Vargas e concretizadas no governo de JK. O Plano de Metas de JK, anunciado como a possibilidade de realizar em 5 anos aquilo que não havia sido feito em 50, foi a peça central da política conhecida como "desenvolvimentismo", que alcançou o seu auge com a construção de Brasília. A mudança da capital do Brasil para o interior era considerada um requisito para o progresso do país. Nessa conjuntura, ainda se verifica a manutenção da democracia por meio de eleições livres e gerais e pelo estímulo ao caráter plural da sociedade brasileira. Esse projeto de futuro, porém, foi abortado pelo movimento militar de 1964, que, anunciando a existência de um complô comunista internacional, elaborou um modelo de governo baseado na construção de um Estado autoritário, restringindo a participação política da sociedade.
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domingo, 24 de março de 2013

Infância roubada

Historiador resgata história de órfãos obrigados a trabalhar em fazendas de nazistas e integralistas no interior de São Paulo no início do século 20.
Sofia Moutinho


Aloysio Silva, um dos órfãos entrevistados pelo historiador Sidney Aguilar para seu doutorado na Unicamp. (foto: Antoninho Perri/ Ascom Unicamp)


Quando o descendente de escravos Aloysio Silva tinha 11 anos, vivia no orfanato para meninos Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio de Janeiro. Em 1932, suainfância, e a de outros garotos da instituição, tomou um rumo diferente. Nesse ano, foi ao orfanato o fazendeiro Oswaldo Rocha Miranda com seu motorista. No pátio, todos os órfãos estavam reunidos quando o empregado começou a jogar balas no chão. Aloysio foi um dos que pegaram mais doces.

O que podia parecer motivo de alegria, no entanto, se mostrou um golpe do destino. Os meninos mais espertos, que juntaram mais balas, foram escolhidos e levados pelo fazendeiro. “Ele chegou e mandou encostar nós num canto lá, então separou nós como separa boi na mangueira”, lembra. “Da minha turma, ele tirou 20 e desses 20 tirou 10, de onde veio nós 10; ele mandou a superiora botar nós num lugar lá pra esquecer dos outros.”
Os meninos do educandário não mais foram chamados por seus nomes, receberam números de identificação e passaram a viver e realizar trabalhos forçados em fazendas no interior de São Paulo

A partir desse dia, os meninos do educandário não mais foram chamados por seus nomes, receberam números de identificação e passaram a viver e realizar trabalhos forçados em fazendas no interior de São Paulo da família Rocha Miranda, aristocratas que tinham aproximações com o nazismo e o integralismo – dois movimentos políticos de extrema direita, distintos, mas igualmente marcados pelas ideias eugenistas. Aloysio e seus colegas foram apenas os primeiros de quase 50 órfãos, a maioria negros, levados à força.

A descoberta dessa história ocorreu durante pesquisa feita pelo historiador Sidney Aguilar como parte de seu doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Aguilar dava aulas sobre a Segunda Guerra Mundial em um colégio de ensino médio quando uma aluna disse ter visto esculpida em tijolos de uma antiga fazenda paulista de Campina do Monte Alegre a suástica, insígnia nazista. O professor resolveu visitar a região e lá escutou a história dos meninos, entrevistando sobreviventes como Aloysio Silva. “O que me chamou a atenção não foram tanto as suásticas, mas os boatos que comecei a ouvir sobre esses órfãos e a forte presença integralista no local”, diz.

Os tijolos das fazendas dos irmãos Rocha Miranda exibiam símbolos nazistas e integralistas. (foto: Mário Franca/ Ascom Unicamp)

O pesquisador conta que alguns integrantes da família Rocha Miranda ocupavam a ‘Câmara dos Quarenta’, um dos órgãos superiores da Ação Integralista Brasileira (AIB). Um, Renato, era amigo próximo do líder do movimento, Plínio Salgado. Outros dois irmãos, Sérgio e Otávio, mantinham relação direta com membros do partido nazista. Sérgio era o dono da fazenda Cruzeiro do Sul, que exibia suásticas nos tijolos e no gado. Já Otávio vendeu uma de suas fazendas ao criminoso de guerra e ex-ministro do Estado nazista Alfried Krupp, que lá se instalou com mulher e filho depois do conflito mundial.

As aproximações políticas da família que ganhou a tutela dos órfãos chamaram a atenção de Aguilar. “Em meio a essas relações familiares e empresariais entre adeptos do integralismo e do nazismo, havia um grupo de 50 crianças submetidas a toda sorte de violência”, diz. “Depois de estudar documentos da época e das fazendas da família, o que descobri foi um projeto eugenista.”

De acordo com o pesquisador, os irmãos Rocha Miranda tinham um propósito ideológico ao retirar esses órfãos e levá-los para suas fazendas: queriam deixar a então capital livre de crianças negras e pobres. “A eugenia, pseudociência que buscava ‘a raça e o indivíduo perfeitos’, era muito forte no imaginário popular da época e, nesse caso, se deu por meio de práticas de afirmação de certos grupos e segregação de outros”, explica. “Nessa lógica, a transferência de crianças negras e pobres do Rio de Janeiro para o interior de São Paulo foi uma ação eugênica, uma vez que incidiu sobre órfãos (e para os eugenistas era muito importante saber a origem do indivíduo) e negros, considerados de raça inferior.”

Ao examinar documentos da época, Aguilar verificou que as transferências dos órfãos contavam com a concordância da Igreja, que mantinha o educandário, e do Estado, na figura do juiz que autorizou o processo, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, autor do primeiro Código do Menor do país. A tutela dos meninos era passada à família Rocha Miranda com a justificativa de que se tratava de ação filantrópica e educativa
.


Alunos da escola criada na fazenda Cruzeiro do Sul, onde os órfãos estudavam apenas por cerca de um ano. (foto: cedida por Sidney Aguilar)

Mas, segundo o historiador, ao chegar às fazendas, os órfãos tinham apenas um ano de escola com uma professora contratada. O restante de suas infâncias era gasto com trabalhos no campo. “Eles eram obrigados a acordar às cinco horas da manhã e tomar banho gelado em uma piscina coletiva mesmo no inverno”, conta Aguilar, com base nas entrevistas com sobreviventes e seus parentes. “Eles contam que faziam fila para receber a enxada e não podiam brincar sequer nas horas de descanso. Muitos morreram cedo, alguns fugiram e a maioria não se casou nem teve filhos.”


Momento oportuno

Nazismo e eugenia no Brasil são temas que despertam estranheza e curiosidade. Mas ambos tiveram forte presença por aqui. O Brasil chegou a ter o maior número de afiliados ao partido nazista fora da Alemanha. Já a eugenia tinha um espectro político amplo, abrangendo as ideologias nazista e integralista e até movimentos liberais e de esquerda.

Segundo o historiador Luis Edmundo de Souza Moraes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o pensamento eugenista era comum em todo o mundo no início do século 20. “Intelectuais alemães, norte-americanos e também brasileiros muito legitimados divulgavam ideias eugenistas. Os Estados Unidos tinham leis de eugenia desde 1907 e vários países europeus tiveram leis de esterilização de pessoas. A eugenia foi, no século 20, um fenômeno bem disseminado, que obviamente teve seus expoentes no Brasil.”
As transferências de órfãos para as fazendas da família Rocha Miranda terminaram, coincidentemente ou não, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os movimentos de extrema direita enfraqueceram

As transferências de meninos órfãos do Rio de Janeiro para as fazendas da família Rocha Miranda terminaram, coincidentemente ou não, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os movimentos de extrema direita enfraqueceram. Em 1938, foi proibida a existência de partido político estrangeiro no Brasil e, em 1942, o governo de Getúlio Vargas declarou guerra à Alemanha nazista. Aguilar conta que nesse momento a família Rocha Miranda mudou seu posicionamento político frente à sociedade e chegou a oferecer um dos meninos sob sua tutela para combater os alemães na guerra.

“Há duas versões para explicar o fim das transferências”, conta o historiador. “Uma delas é que Oswaldo Rocha Miranda, tutor oficial das crianças, ficou muito doente e transferiu os negócios para seu sobrinho, que liberou os meninos, mesmo os que ainda não tinham completado a maioridade. Mas tem outra possibilidade que é a influência do momento histórico, pois entre 1942 e 1943 as posições políticas colocavam integralistas e nazistas em uma situação muito delicada.”

O caso dos meninos do Educandário Romão de Mattos Duarte foi o único desse tipo que Aguilar encontrou durante sua pesquisa. Mas o historiador não descarta a possibilidade de que histórias semelhantes tenham acontecido em outras fazendas brasileiras no início do século 20. “Encontrei nas documentações eugenistas da época a ideia de que o trabalho deveria fazer parte da educação e formação das crianças pobres”, diz. “Esse discurso do trabalho como educação se transformava em uma forma de exploração sistemática do trabalho infantil pelas elites. É plausível que outros casos tenham ocorrido e sinceramente espero que esse trabalho sirva de motivação para mais pesquisas.”
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 7 de junho de 2012

DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda



Getúlio Vargas, o amigo das crianças, publicado pelo DIP em novembro de 1940.* Com o objetivo de aperfeiçoar e ampliar as atividades do Departamento Nacional de Propaganda, Vargas criou, em dezembro de 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda, extinguindo, através do mesmo decreto, o DNP. A direção geral do novo departamento permaneceu nas mãos de Lourival Fontes, diretor do antigo órgão.
A partir da criação do DIP, todos os serviços de propaganda e publicidade dos ministérios, departamentos e estabelecimentos da administração pública federal e entidades autárquicas passaram a ser executados com exclusividade pelo órgão, que também organizava e dirigia as homenagens a Vargas, constituindo o grande instrumento de promoção pessoal do chefe do governo, de sua família e das autoridades em geral. O DIP tornou-se o órgão coercitivo máximo da liberdade de pensamento e expressão durante o Estado Novo e o porta-voz autorizado do regime.

Comemorações do Estado Nacional, 1937 - 1942, na voz das classes e na palavra do chefe, publicado pelo DIP em 1943.
De acordo com o decreto que lhe deu origem, tinha como principais objetivos centralizar e coordenar a propaganda nacional, interna e externa, e servir como elemento auxiliar de informação dos ministérios e entidades públicas e privadas; organizar os serviços de turismo, interno e externo; fazer a censura do teatro, do cinema, das funções recreativas e esportivas, da radiodifusão, da literatura social e política e da imprensa; estimular a produção de filmes educativos nacionais e classificá-los para a concessão de prêmios e favores; colaborar com a imprensa estrangeira para evitar a divulgação de informações nocivas ao país; promover, organizar e patrocinar manifestações cívicas e festas populares com intuito patriótico, educativo ou de propaganda turística, assim como exposições demonstrativas das atividades do governo, e organizar e dirigir o programa de radiodifusão oficial do governo.
Para a execução dessa grande e complexa tarefa, as atividades do DIP distribuíam-se entre cinco divisões. A divisão de divulgação tinha sob sua competência as atividades de elucidação da opinião nacional sobre as diretrizes doutrinárias do regime e o combate, por todos os meios, à penetração e disseminação de qualquer idéia perturbadora da unidade nacional.

Uma grande data, publicado pelo DIP em 1941, em comemoração ao aniversário de Getúlio Vargas.
Competia à divisão de rádio, de acordo com regulamento do DIP, levar aos ouvintes radiofônicos nacionais e estrangeiros, por intermédio da radiodifusão oficial, tudo o que lhes pudesse fixar a atenção sobre as atividades brasileiras em todos os domínios, fazer a censura prévia de programas radiofônicos e de letras a serem musicadas e organizar o programa Hora do Brasil.
À divisão de teatro e cinema cabiam as funções de censurar previamente e autorizar ou interditar todos os filmes e representações teatrais em todo o território nacional; publicar no Diário Oficial a relação de peças e filmes censurados, acompanhados de suas características e do resumo do julgamento; incentivar e promover facilidades econômicas às empresas nacionais produtoras e aos distribuidores de filmes em geral, e instituir, permanentemente, um cinejornal, filmado em todo o Brasil e com motivos genuinamente brasileiros, o que deu origem ao Cinejornal brasileiro, distribuído nos cinemas de todo o país.
Sobre a divisão de imprensa recaía uma das mais importantes funções do DIP - a censura à imprensa.
Contando com uma estrutura bastante complexa, a eficácia do DIP na realização de seus fins se fez sentir rapidamente. O culto à personalidade e a construção de imagens idealizadas de Getúlio Vargas veiculadas pelo DIP - como, por exemplo, a de "pai dos pobres" - ajudaram a consolidar em pouco tempo o poder do ditador.
O DIP promoveu concursos de monografias, garantindo às obras premiadas, nitidamente de caráter apologético, publicação e divulgação por todo o país. Inúmeros folhetos explicativos do novo regime e que divulgavam a obra do governo, principalmente no campo da legislação trabalhista, marcaram a atuação doutrinária do órgão. O DIP patrocinou também concursos de música popular e foi num deles que Aquarela do Brasil, de autoria de Ari Barroso, recebeu o primeiro lugar. Além disso, cabia ao DIP distribuir a fotografia oficial do presidente Vargas, não só nas repartições públicas, mas também em colégios, clubes, estações ferroviárias, casas comerciais, etc.

Capa de um número da revista Cultura Política, 19 de abril de 1944.
Ainda dentro da área de divulgação do ideário estadonovista, o DIP lançou diversas publicações, entre as quais a de maior destaque foiCultura Política - Revista Mensal de Estudos Brasileiros. A revista tinha como propostas principais a promoção de nova concepção de cultura, unificando a ordem política e social sob a égide do Estado, e o esclarecimento do rumo das transformações políticas e sociais em curso no país. Por outro lado, as relações do DIP com a imprensa caracterizaram-se sempre pela ocorrência de numerosos atritos. Já em março de 1940, registrou-se um dos casos mais notórios de intervenção em jornais, com a invasão pela polícia de O Estado de S. Paulo; o jornal permaneceu sob intervenção do DIP até o final do Estado Novo.
Ainda em 1940, o DIP teve seu poder ampliado com a instalação, em cada estado do país, de um Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP), com suas mesmas atribuições.
O poder do DIP começou a ruir com a proximidade do fim da guerra e a vitória dos aliados. Avaliada a inexeqüibilidade dos objetivos para os quais havia sido criado, e diante da crescente pressão popular pelo fim de todos os órgãos cerceadores da liberdade criados durante a vigência do Estado Novo, o DIP foi extinto em 25 de maio de 1945.
Rejane Araújo

* Texto extraído do verbete Departamento de Imprensa e Propaganda do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro
Para saber mais:
Sugerimos a leitura do verbete Departamento de imprensa e propaganda (DIP), que se encontra disponível no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro.
Muitos outros textos sobre o tema podem ser consultados no dossiê Navegando na História - A era Vargas (1º tempo), particularmente o módulo Anos de Incerteza, temaEducação, Cultura e Propaganda.
Documentos e informações relacionadas ao assunto estão disponíveis on-line. Basta realizar a consulta em nossa base de dados Accessus.
Dica: na consulta, escolha TODOS OS ARQUIVOS, clique no tipo de documento desejado, selecione da lista de assuntos DIP (ou Departamento de Imprensa e Propaganda) e em seguida execute a pesquisa.
Para complementar, o Programa de História Oral possui em seu acervo algumas entrevistas cujos entrevistados falam sobre este assunto. Para saber quais são elas, faça a consulta na base de entrevistas selecionando novamente DIP no campo Assunto.
FGV - CPDOC

Estado Novo - um golpe na democracia


Estado Novo
Constituição de 1937. Constituição de 1937, Rio de Janeiro (RJ).Com a promulgação da Constituição de 1934, chegou ao fim o chamado governo provisório instaurado com a vitória da Revolução de 1930. A nova Constituição, elaborada por uma Assembléia Nacional Constituinte, introduziu no país uma nova ordem jurídico-política que consagrava a democracia, com a garantia do voto direto e secreto, da pluralidade sindical, da alternância no poder, dos direitos civis e da liberdade de expressão dos cidadãos. Particularmente para as mulheres, a Constituição de 1934 representou uma enorme conquista: pela primeira vez, tornavam-se eleitoras e elegíveis. Mas a Constituição durou pouco. Três anos depois, antes mesmo que a primeira eleição que elegeria o novo presidente se realizasse, Getúlio Vargas deu um golpe para manter-se no poder e instaurou uma ditadura, conhecida como Estado Novo. 

Getúlio Vargas ao centro segurando a bandeja.
Assim, em 10 de novembro de 1937, foi outorgada uma nova Constituição, idealizada e redigida pelo ministro da Justiça, Francisco Campos. A nova Carta incluía vários dispositivos semelhantes aos encontrados em constituições de regimes autoritários vigentes na Europa, como as de Portugal, Espanha e Itália. Com o Congresso Nacional fechado e com a decretação de rigorosas leis de censura, Vargas pôde conduzir o país sem que a oposição pudesse se expressar de forma legal. 

Trecho do Manifesto dos Mineiros.
Para os construtores desse novo Estado, era preciso deixar para trás aquilo que seria o causador de todos os males da nação - o liberalismo. Para eles, a decretação do Estado Novo era o complemento da Revolução de 1930, cujos ideais estavam sendo traiçoeiramente atingidos pela Constituição liberal de 1934. A crise da liberal-democracia exigia uma solução que somente uma poder forte, autoritário, estaria em condições de oferecer. O intervencionismo estatal iniciado em 1930, ainda que de forma não ostensiva, seria intensificado e se tornaria a marca dos novos tempos. 

Góes Monteiro
O desenvolvimento econômico através da industrialização era a grande meta estadonovista e, para viabilizar esse propósito maior, foram criados vários órgãos de apoio em áreas estratégicas, como por exemplo o Conselho Nacional do Petróleo, o Conselho Federal de Comércio Exterior, e a Coordenação de Mobilização Econômica - esta, instituída em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
O Estado Novo parece ter nascido, vivido e morrido sob a égide das transformações mundiais. Se o florescimento de regimes autoritários na Europa encorajou o presidente Vargas a instaurar no país um regime político autoritário, esse mesmo regime conheceu o apogeu e a queda sob a influência da Segunda Guerra.

Bustos de Getúlio Vargas retirados das ruas após a queda de seu governo.
A queda repentina das exportações de produtos agrícolas brasileiros, como o café, o cacau e a laranja, e a escassez de produtos essenciais importados, como o carvão, a gasolina, o óleo combustível e máquinas, exigiram uma resposta industrializante. Mas o país precisava de auto-suficiência no setor siderúrgico para poder acelerar o processo de industrialização. O apoio americano para a criação de uma grande companhia siderúrgica veio em troca do apoio brasileiro aos países aliados.
Da mesma forma que a guerra possibilitou o desenvolvimento da indústria de base, a partir da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em 1941, ela provocou também, ainda que indiretamente, o fim do regime ditatorial. Com a vitória dos aliados, tornava-se difícil manter no Brasil um regime autoritário. Afinal, o Brasil havia emprestado seu apoio à causa internacional da democracia. As pressões internas se faziam sentir, com manifestações em diferentes estados, desde outubro de 1943, quando foi divulgado o Manifesto dos Mineiros - documento em defesa das liberdades democráticas assinado por intelectuais, profissionais liberais e empresários.

Augusto do Amaral Peixoto conversa com Eurico Gaspar Dutra durante a campanha presidencial.
Vargas soube avaliar as dificuldades que teria para manter um governo ditatorial e começou a ceder. Assim, nos primeiros meses de 1945 foram marcadas eleições para dezembro, foi decretada a anistia e teve início o processo de reorganização dos partidos políticos, com a indicação de candidatos à presidência da República. Nessa mesma época teve início um movimento que pregava a "Constituinte com Getúlio". O avanço dos "queremistas" alertou os chefes militares para a possibilidade de Vargas vir a boicotar as eleições a fim de se manter no cargo.

Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, em seu gabinete.
Com o intuito de evitar tal investida, em 29 de outubro de 1945 Vargas foi deposto pelas forças militares, chefiadas pelo ministro da Guerra, general Góes Monteiro. Interinamente, assumiu a presidência da República o presidente do Supremo Tribunal Federal,José Linhares. Realizadas as eleições em dezembro, o general Eurico Dutra foi eleito presidente da República, selando, assim, o fim de um dos períodos da nossa história marcados pela repressão e violação dos direitos individuais.
Suely Braga
Para saber mais:
Sugerimos a leitura de alguns verbetes que se encontram disponíveis no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, tais como: Estado NovoGetúlio VargasEurico Dutra eFrancisco Campos.
Muitos outros textos sobre o tema podem ser consultados no dossiê Navegando na História - A era Vargas (1º tempo), particularmente os módulos Anos de Incerteza eDiretrizes do Estado Novo
Outros documentos e informações relacionadas ao assunto estão disponíveis on-line. Basta realizar a consulta em nossa base de dados Accessus.
Dica: na consulta, escolha TODOS OS ARQUIVOS, clique no tipo de documento desejado, selecione no campo Assunto selecione da lista de assuntos Estado Novo.
Para complementar, o Programa de História Oral possui em seu acervo um conjunto de entrevistas com os signatários do Manifesto dos Mineiros. Para saber quais são elas, faça a consulta na base de entrevistas selecionando Manifesto dos Mineiros no campo Assunto.
As entrevistas estão transcritas e abertas à consulta no próprio CPDOC, ou caso seja de seu interesse, uma cópia poderá ser enviada pelos correios mediante despesas de reprodução e remessa.
FGV - CPDOC

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

E o samba conquistou as elites

Tese defende que popularização do ritmo serviu a interesses políticos de Getúlio

Julio Lobato

A história do samba pode ser uma boa pista para se compreender importantes transformações sociais que marcaram a primeira metade do século 20 no Brasil. Foi nessa época que esse tipo de música, originária de manifestações religiosas e culturais da população de ascendência africana, deixou de ser objeto de perseguição e sinônimo de vadiagem para entrar no circuito comercial do país e, aos poucos, se transformar num dos principais símbolos de nossa cultura.


Getúlio Vargas (1882-1954) em foto de 1945
(foto: CPDOC / Fundação Getúlio Vargas)


Mas quais foram as condições que permitiram que o samba entrasse nos salões das elites e fosse executado por todo país em rádios e toca-discos? O historiador Magno Bissoli defende em sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) que a nacionalização desse tipo de música esteve em larga escala associada à industrialização do país e ao projeto político e econômico de Getúlio Vargas.

Intitulada "Caixa Preta: samba e identidade nacional na Era Vargas", a tese, orientada pelo professor Wilson do Nascimento Barbosa, procurou avaliar o impacto dessa música na formação da identidade na sociedade industrial entre 1916 e 1945. Bissoli propõe que a transformação do samba proibido em ritmo nacional relaciona-se com a cooptação da mão de obra negra como força de trabalho para o processo de industrialização pelo qual passava o país e com a necessidade de se estabelecer um símbolo nacional aceito pela elite.

"A comercialização do samba criou condições favoráveis para que o Estado atraísse, por meio da identificação, uma mão de obra até então desprezada", aponta o historiador. No entanto, ele ressalta que, à medida que era popularizado, o samba sofreu um 'embranquecimento' decorrente de sua apropriação por uma camada média da população e pela mídia, acentuadamente durante o governo nacionalista e autoritário de Getúlio Vargas.

"Vargas incorporou o samba durante o Estado Novo com dois objetivos complementares: enquanto promovia a identificação da comunidade negra com a nação brasileira, mostrava às elites e ao resto do mundo uma nacionalidade branca." Para que isso acontecesse, Bissoli explica que o governo estimulava a difusão do samba por meio de propagandas oficiais, enquanto a indústria criava um novo produto altamente rentável.

A composição de Ary Barroso "Aquarela do Brasil", de 1939, exemplifica bem o caráter ufanista que agradava aos setores do governo comprometidos com a construção de uma nova nacionalidade brasileira. As imagens idílicas de seus versos , cadenciados pelo samba, levaram ao mundo o retrato de um Brasil que, no entanto, não correspondia à realidade daqueles que criaram o ritmo.

"A história reservou aos negros a função de operários", aponta Bissoli. "Enquanto a indústria fonográfica produzia dinheiro contratando músicos e intérpretes brancos, os compositores negros, verdadeiros artistas do samba, se mantinham marginalizados na mesma condição de pobreza."

Julio Lobato
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 30 de março de 2011

O aumento do salário mínimo e a saída de Jango do Ministério do Trabalho


A política de aproximação com o movimento sindical realizada por João Goulart não passava despercebida a seus opositores que, por isso, atacavam o ministro e o presidente Vargas. Quando, em outubro de 1953, ocorreu a ameaça de uma segunda greve de marítimos, Jango foi rápido na contenção do movimento que arriscava comprometer a estabilidade do governo. Sua prática de negociar e se antecipar às demandas dos trabalhadores, forçando, muitas vezes, os empregadores a fazer concessões, foi freqüentemente vista e denunciada não como uma forma de esvaziar conflitos, mas como uma maneira de estimulá-los e mesmo de "pregar a luta de classes". Nessa ótica, e de forma equivocada, Jango não era o ministro do Trabalho, mas o ministro dos trabalhadores; pior ainda, dos "maus trabalhadores".

A gota d’água nesse tenso processo pode ser datada do início de 1954, quando Jango propôs um projeto de aumento do salário mínimo de 100%. Segundo ele, devido à elevação do custo de vida, a questão salarial continuava explosiva e, para enfrentá-la, era necessário elevar o salário mínimo de 1.200 para 2.400 cruzeiros. Não é difícil imaginar a reação provocada por esse projeto. Ao que tudo indica, Jango o encaminhou mesmo sabendo que isso poderia lhe custar o próprio cargo. Se realmente pensou assim, estava certo. Em fevereiro, em meio a uma grave crise política, era substituído por um fiel companheiro, Hugo de Faria, que assume como ministro interino.

Os principais lances da crise são úteis para se dimensionar o montante da articulação oposicionista, e que se concluiria com o episódio do suicídio de Vargas, em agosto do mesmo ano. O ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha manifestou sua total contrariedade à proposta, secundado pelos membros da "banda de música" da União Democrática Nacional (UDN) – parlamentares que faziam muito barulho no Parlamento, sempre atacando Vargas. As acusações não eram novas, mas ganhavam virulência ante o desmedido da proposta em causa. Jango era um "manipulador da classe operária", "um estimulador de greves", "um amigo dos comunistas", que tinha como plano a implantação, naturalmente com o assentimento de Vargas, de uma "república sindicalista" no Brasil. Alimentando tais ataques havia um outro. O de que Vargas mantinha conversações secretas com Juan Perón, presidente da Argentina, no sentido da formação do chamado Pacto ABC – Argentina, Brasil, Chile – com evidentes contornos anti-americanos e tendências "socializantes". Uma mistura explosiva de má condução da política interna e externa, capaz de justificar até mesmo um pedido de impedimento do presidente.

Mas ainda houve mais. O chamado Manifesto dos Coronéis, com a assinatura de 82 oficiais, explicitou o descontentamento dos militares com o tratamento que vinham recebendo do governo e afirmou a impossibilidade de um trabalhador ganhar o mesmo "salário" de um segundo-tenente do Exército. Se o aumento do salário mínimo podia quebrar o país, certamente iria esvaziar o Exército de recrutas e de dignidade. Certamente não por casualidade, o Manifesto dos Coronéis é divulgado quase no mesmo dia em que é oficializada a proposta de aumento do salário mínimo. Num dia 22 de fevereiro, dois ministros acabaram sendo exonerados: Jango, e o da Guerra, o general Espírito Santo Cardoso, substituído pelo general Zenóbio da Costa. A despeito disso, no dia 1˚ de maio de 1954, Vargas anunciou o novo salário mínimo. http://www.fgv.br

Angela de Castro Gomes

João Goulart - O ministro dos trabalhadores


João Goulart ao centro durante sua posse como ministro do Trabalho do governo Getúlio Vargas. 17 jun. 1953.A posse de João Goulart no Ministério do Trabalho do governo Getúlio Vargas, em 17 de junho de 1953, não deve ser entendida como um acontecimento político-administrativo como tantos outros do gênero, ocorridos anteriormente ou posteriormente. Há, pelo menos, duas razões para isso. A primeira tem a ver com a escolha do nome do ministro, ou seja, com sua trajetória política e com o que ela representava. A segunda envolve as circunstâncias em que ele chega ao cargo, ou seja, no bojo de uma reforma ministerial que provocou polêmica entre os contemporâneos e que ainda hoje suscita debates na literatura que trata do tema.

Jango, como era conhecido e gostava de ser tratado, torna-se ministro aos 35 anos; jovem em idade, mas nem tanto em experiência política. Sua carreira foi meteórica. Entre 1947 e início de 1952, foi deputado estadual, deputado federal, secretário de Interior e Justiça e principal organizador do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) gaúcho. Além disso, e o que o qualifica para uma posição tão alta em momento tão delicado são suas estreitas ligações pessoais com Vargas e sua já inequívoca liderança dentro do PTB. Presidente do partido desde 1952, Jango já era identificado em 1953, para o bem e para o mal, como um líder partidário de grande carisma junto à classe trabalhadora, além de receber uma especial atenção do presidente.

Toma posse no bojo de uma grande reforma ministerial e em meio a uma crise que atingia especialmente o Ministério do Trabalho. Essa reforma tem sido interpretada por uns como uma "virada à esquerda" do governo Vargas e, por outros, como uma maturação das intenções conciliadoras do mesmo governo, que insistia na busca de um consenso político. Esta última perspectiva tem ganho espaço crescente entre os estudiosos, o que implica em se pensar por que, sobretudo para os contemporâneos (militares e civis de vários partidos), interessava ou era possível ver a reforma como uma possível "radicalização popular" do governo. A resposta está, em boa parte, nas ações do titular da pasta do Trabalho.

Segadas Viana (ao centro) abraça João Goulart durante a cerimônia de transferência do cargo de ministro do Trabalho. 17 jun. 1953.

Jango é nomeado ministro quando José de Segadas Viana, outro petebista, pede exoneração do cargo, devido a discordâncias relativas ao tipo de condução política a ser dada a uma grande greve de marítimos que paralisava os portos do Rio de Janeiro, Santos e Belém. Portanto, a substituição não só deixa clara a existência de confrontos dentro do PTB no que dizia respeito às relações com o movimento sindical, como explicita o apoio que Vargas estava disposto a dar a uma nova estratégia proposta por seu jovem ministro. Em lugar de convocar os reservistas da Marinha de Guerra para substituir os grevistas, que seriam considerados desertores se fosse usada uma legislação, nunca aplicada, da época da Segunda Guerra Mundial, Jango estabelece negociações com os sindicalistas e esvazia a greve. Sua fórmula, que propunha menos repressão, vinha a calhar, pois o governo não estava em maré de popularidade junto aos trabalhadores. Um governo, aliás, que ainda na campanha de 1950 agitara como bandeira os ideais trabalhistas, marca registrada de Vargas desde o Estado Novo. Um fracasso nesse campo estratégico pelo que simbolizava e pelo número de votos que envolvia era, efetivamente, um sinal de derrota para a liderança pessoal de Vargas e para o bom curso do restante de seu mandato. A escolha de Jango, portanto, foi um ato ousado do presidente, mas o teste que o ministro enfrentaria tinha alto grau de complexidade e importância políticas.

Num certo sentido, pode-se dizer que Jango se saiu muito bem. Cerca de dez dias depois de tomar posse, a greve estava encerrada. Houve reuniões com o comando geral e o próprio ministro se encontrou com empregadores e trabalhadores para encaminhar uma solução definitiva. Muitas demandas dos grevistas foram atendidas e o impopular presidente da Federação dos Marítimos foi afastado. Uma ação rápida, que evidenciou o estilo político de um ministro que gostava de falar pessoalmente com lideranças sindicais e que intervinha diretamente na dinâmica das negociações dos conflitos trabalhistas. Interessante por um lado e assustador por outro, especialmente para setores conservadores e oposicionistas, como os militares e os udenistas, sempre dispostos a mobilizar o medo face à ameaça do "continuísmo" de Vargas e/ou de uma excessiva aproximação sua com a "massa trabalhadora". De fato, esse é o tom que marca a curta e ativa gestão de Jango na pasta do Trabalho: maior aproximação com setores sindicais e crescentes acusações por parte de variados grupos políticos oposicionistas.

Angela de Castro Gomes

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