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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Em busca do Brasil ancestral

No sítio Lapa do Santo, situado dentro da Área de Proteção Ambiental de Lagoa Santa, em Minas Gerais – que revelou o crânio de Luzia, a primeira brasileira.
Rodrigo Cardoso

Galeria de Fotos
Em busca do Brasil ancestralO sítio arqueológico Lapa do Santo, perto de Belo Horizonte, está revelando a cultura da primeira povoação de brasileiros que se tem notícia. na foto, dentro da gruta, o bioarqueólogo 
Rodrigo Elias de Oliveira.
Alberto Barioni



Arqueólogos e antropólogos estão descobrindo as práticas da cultura pré-histórica mais antiga do país na Lapa do Santo.

Não há no continente americano, atualmente, um sítio arqueológico como a Lapa do Santo. A gruta de 1,3 mil metros quadrados, localizada dentro de uma fazenda em Matozinhos, a 35 quilômetros de Belo Horizonte, em Minas Gerais, tem revelado, em quantidades incomparáveis, esqueletos de grande antiguidade e muito bem preservados.

Debruçada sobre esse solo, uma equipe de 20 profissionais, liderada pelo jovem antropólogo e arqueólogo paulista André Strauss, 30 anos, avança, como nenhuma outra expedição arqueológica, na descoberta dos hábitos culturais dos primeiros habitantes das terras brasileiras. Sua missão vai muito além do estudo dos fósseis humanos extraídos ali, que, desde 2001, já revelaram 35 sepultamentos. 

Lapa do Santo é uma das várias grutas existentes na unidade de conservação federal Área de Proteção Ambiental (APA) Lagoa Santa. Berço da arqueologia, da paleontologia e da espeleologia brasileiras, os sítios da APA são objetos de pesquisas há pelo menos 170 anos. Foi em outra das suas grutas, a Lapa Vermelha, que, em 1975, a missão franco-brasileira coordenada por Annette Emperaire encontrou o crânio de Luzia, um dos mais antigos esqueletos humanos das Américas, datado de aproximadamente 11 mil anos atrás.

Dezenas de equipes brasileiras, dinamarquesas, norte-americanas, francesas e britânicas já realizaram escavações na área, focadas na morfologia craniana do povo de Luzia e na coexistência do homem com a megafauna – o conjunto de animais de grandes proporções como tigredente- de-sabre e preguiça-gigante, por exemplo.

Strauss resolveu focar a lupa no material arqueológico que essa turma revolveu, mas ao qual não deu muita atenção: os rituais funerários dos brasileiros do início do Holoceno, período que compreende aproximadamente os últimos dez milênios.

Foi por meio da análise das práticas mortuárias desse grupo de caçadores-coletores, anteriores aos adventos da cerâmica e da agricultura, que a equipe do pesquisador brasileiro está derrubando teorias, como a que apregoava ser exclusividade dos povos que viveram nos Andes (referência quando se fala de pré-história na América do Sul) a manipulação do corpo no ato do sepultamento. 

“A Lapa do Santo tem revelado que aquele grupo pré-histórico tido como simples e homogêneo, na verdade, era sofisticado”, diz Strauss, cujo projeto “As Práticas Funerárias dos Primeiros Americanos”, coordenado por ele, é uma parceira entre o Instituto Max Planck de Antropologia, em Leipzig, na Alemanha, e a Universidade de São Paulo (USP). Considerando o caráter nômade dos caçadores-coletores do Holoceno, a antropologia convencionou acreditar que esse povo não despenderia tempo nem energia para enterrar os mortos. Na Lapa do Santo, porém, entre cerca de 10.500 e 8.000 anos atrás, observa-se uma perfeita sequência de diferentes práticas funerárias. 

É desenterrando sepulturas e analisando o material recolhido – virtualizado in loco dentro da gruta por meio de um moderno aparato tecnológico – que a equipe de Strauss vem entendendo melhor como viviam os primeiros brasileiros. 

Cultura funerária 

A manipulação do corpo é um dos traços marcantes do povo ancestral da Lapa do Santo. Os sepultamentos que emergiram do solo da gruta (leia na próxima página) revelaram que, na ausência de oferendas funerárias ou tumbas sofisticadas, a elaboração dos rituais mortuários estava representada no uso do próprio corpo do falecido como um símbolo. Foram encontrados corpos articulados reduzidos por meio de mutilações. Tíbias e fíbulas, só para citar dois ossos, são algumas das partes anatômicas removidas logo após a morte, enquanto os tecidos moles ainda estavam presentes.

Em outro sepultamento, ossos desarticulados, desmembrados de várias pessoas, estavam enterrados em uma mesma pequena cova. “Em um primeiro momento, aquele povo pré-histórico cortava os ossos dos falecidos logo após a morte e ficava com eles por vários anos”, diz Strauss. “A prática ia se repetindo com outros membros que morriam até que, em um dado momento, chegava a hora de enterrar o material acumulado, quase como se fossem relíquias”, sugere o arqueólogo brasileiro.

Para esse ritual, porém, havia certas regras. O crânio de um adulto era enterrado com o que restou de um esqueleto cortado de uma criança, e crânios infantis, com ossos de pessoas maduras. Um dos sepultamentos mais impressionantes trouxe à superfície a calota, a parte de cima do crânio, de uma criança utilizada como urna, dentro da qual foram encontrados mais de 80 dentes representando pelo menos cinco pessoas diferentes. Mais interessante: ao examinarem os dentes – Rodrigo Elias de Oliveira, odontólogo com doutorado em biologia genética, é cocoordenador do projeto –, verificou-se que uma dessas pessoas havia sido enterrada em uma tumba no mesmo sítio. Ainda não é certo, mas a expressão dessas técnicas pode indicar a existência de indivíduos especializados nesse processo dentro do grupo. 

Coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves escavou na região de Lagoa Santa, em 2009. Para esse pesquisador, uma das maiores autoridades no assunto, as pesquisas realizadas pela missão brasileira na Lapa do Santo avançam na direção de conferir maior entendimento sobre a mente do povo de Luzia. 

“Eu centrei o foco na parte física daquelas pessoas. Já o André e sua equipe estão entrando na mente delas. Na arqueologia dos caçadores-coletores daquela época, isso só é possível por meio de pinturas rupestres e rituais funerários”, afirma ele.

Neves é considerado o “pai” de Luzia. Apesar de não ter participado das escavações que desenterraram o crânio dessa primeira habitante do continente americano, foi ele quem a batizou ao estudar o material escavado e formular, há mais de duas décadas, uma nova teoria sobre o povoamento das Américas.

Segundo o cientista, houve duas e não uma onda migratória asiática para a América pelo Estreito de Bering, há 11 mil anos. Uma de Homo sapiens com morfologia mongoloide, da qual deriva a maioria dos
povos indígenas sul-americanos (a hipótese “Clóvis”), e outra com morfologia semelhante à dos africanos e aborígenes australianos, parecidos com Luzia. 

Pescaria arcaica

Strauss e Oliveira têm lançado mão dos mais avançados recursos tecnológicos para lapidar outra joia desenterrada da Lapa do Santo: o caso de decapitação mais antigo das Américas, há 10 mil anos. 

Em 2007, eles encontraram um indivíduo com a cabeça decapitada, que tinha sobre o rosto as mãos também cortadas. O crânio foi submetido a uma tomografia computadorizada. “Ela permite que estruturas internas até então invisíveis sejam observadas”, explica Strauss. A partir do modelo tridimensional, deformações sofridas em decorrência do sobrepeso da terra durante milhares de anos foram corrigidas por meio de modelos matemáticos de simetria. O resultado final permitirá a reconstrução facial desse habitante pré-histórico. 

Um especialista forense que respondeu pela reconstrução da face do rei britânico Henrique III realizou trabalho semelhante a partir do protótipo em 3D do crânio retificado. “A tecnologia de virtualização aplicada nas escavações e o registro do material encontrado na Lapa do Santo não encontram paralelo em nenhum outro sítio brasileiro antigo e de grande porte”, garante Strauss. 

De fato. Os pesquisadores carregam com eles um modelo virtual do sítio que é visitado a distância e, virtualmente, permite observar os sepultamentos. Em vez de desenhar ou fotografar como normalmente ocorre nas missões, eles geram, em campo, modelos 3D do material a ser analisado. Cópia fidedigna em escala de uma cova pesquisada, um modelo gerado a partir dessa tecnologia chega a ser impresso dentro da gruta por meio de uma impressora 3D.

Na Lapa do Santo, todo o fluxograma é informatizado e associado a um banco de dados. Na caverna mineira, foram encontrados também os anzóis de pesca mais antigos do continente americano.
Datados de aproximadamente 10 mil anos atrás, eles foram feitos de ossos de algum mamífero.

O gerenciamento digital permite, por exemplo, o registro eficiente de quantos litros havia em cada balde escavado e até a impressão de códigos de barra individuais para a identificação do material desenterrado. Em muitas escavações, esse pro cesso ainda é feito por meio de anotações a lápis em papéis.

A expertise tecnológica aplicada na Lapa do Santo despertou a atenção do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que firmou uma parceria com a equipe brasileira que escava na gruta. A partir de 6 de dezembro, todo o acervo esquelético humano da instituição será virtualizado pela equipe de Strauss. Com a colaboração do laboratório Hermes Pardini, de Belo Horizonte, serão feitas to- Há 35 sepultamentos na gruta. Anzóis feitos de osso, os mais antigos do Brasil. mografias médicas de alta resolução.

No museu da UFMG estão esqueletos de mais de 9 mil anos atrás, desenterrados de sítios importantes, como Santana do Riacho e Lagoa Santa. “Nessa primeira etapa, vamos focar nos crânios, que devem 
somar cerca de 25”, explica Strauss. O jovem antropólogo que se deparou com um sítio arqueológico virgem vai mergulhar profundamente na história dos brasileiros ancestrais. A Lapa do Santo ainda tem muitas histórias para revelar.

Revista Planeta

terça-feira, 20 de maio de 2014

Notícias História Viva

Revelações do mais antigo naufrágio no oceano Indico
O navio de dois mil anos de idade pode ter indícios do comércio entre sociedades romanas e asiáticas

cortesia do Departamento de Arqueologia do Sri Lanka


LEGENDA: Um exemplo de vaso de cerâmica encontrado no naufrágio de Godavaya.


Megan Gannon e LiveScience

O mais antigo naufrágio conhecido do Oceano Índico está no fundo do litoral sul do Sri Lanka há cerca de dois mil anos. Dentro de algumas semanas, arqueólogos mergulhadores iniciarão uma escavação que deve durar meses no local, procurando indícios sobre o comércio entre Roma e Ásia na antiguidade.

O local fica 33 metros abaixo da superfície do oceano, nas proximidades da vila de pescadores Godavaya, onde na década de 90 arqueólogos alemães encontraram um porto importante para a Rota da Seda durante o segundo século depois de Cristo.

O navio naufragado, descoberto há apenas 10 anos, não se parece em nada com o casco esquelético tradicional. Em vez disso, arqueólogos estão lidando com um monte de barras de metal corroído e uma variedade de cargas antigas espalhadas, incluindo lingotes de vidro e vasos de cerâmica, que ficaram rolando pelo fundo do mar durante centenas de anos em meio a fortes correntezas e talvez até um ou outro tsunami.

“Está tudo muito quebrado”, declara Deborah Carlson, presidente do Instituto de Arqueologia Náutica da Texas A&M University, que está conduzindo a expedição até o naufrágio de Godavaya, com colegas dos Estados Unidos, Sri Lanka e França. Por mais confuso que esteja, o local poderia preencher uma lacuna nas evidências existentes sobre o comércio que levou metais e produtos exóticos, como a seda, da Ásia até o mundo romano.

Elo Perdido

Acadêmicos acreditam que o comércio entre o Leste e o Oeste se intensificou após Roma anexar o Egito no primeiro século antes de Cristo, ganhando acesso ao Mar Vermelho, uma passagem para o Oceano Índico. Carlson observa que rotas de comércio estão documentadas em fontes literárias e históricas, como no “Périplo do Mar Vermelho”, um manual do primeiro século D.C., escrito em grego, que explica a marinheiros saindo dos Mares Mediterrâneo e Vermelho aonde ir no Oceano Índico e o que levar, vender e comprar.

“Nós só não temos os navios que realmente faziam parte desse comércio”, contou Carlson à Live Science em uma entrevista por telefone.

Carlson declarou que eles provavelmente não encontrarão algo que prove definitvamente que o navio estava indo para Roma. (De maneira semelhante, os arqueólogos provavelmente não conseguirão saber como o navio afundou, ainda que Carlson – que descreveu as “terríveis correntes” que frustraram muitas das tentativas de mergulho da equipe no ano passado – suspeite que os mares bravios possam ter tido seu papel). Mas Carlson explica que descobertas no navio afundado podem pelo menos ajudar a ilustrar que o Sri Lanka era um “pivô” nesse comércio, já que muitas das mercadorias que passavam pela ilha chegavam ao Mediterrâneo.

O que tem lá embaixo?

Os primeiros traços do naufrágio de Godavaya foram descobertos em 2003 quando pescadores locais mergulharam até o local e voltaram com artefatos antigos, incluindo uma pedra de moagem com a forma de um pequeno banco ou de uma mesa com pernas. De acordo com Carlson, pedras semelhantes já foram encontradas em monumentos budistas ricos em relíquias, conhecidos como stupas.

Carlson viu o local pela primeira em 2010. Ela e seus colegas documentaram parcialmente o naufrágio durante três campanhas exploratórias subsequentes, entre 2011 e 2013. A maior parte dos objetos encontrados ao redor do navio afundado até agora se parecem com produtos locais, e muitos deles ainda estão em sua forma bruta. Existem mais pedrasde moagem com aparência budista; lingotes de ferro e cobre (ou o que sobrou deles após a corrosão); e lingotes de vidro negro e azul-esverdeado que se originaram ao longo do litoral de Tamil Nadu, no sul da Índia, e que talvez fossem derretidos para criar vasos ou contas.

Para determinar a idade do naufrágio, Carlson e seus colegas coletaram três amostras de uma madeira delicadapresa ao navio e as enviaram para serem testadas por dois laboratórios diferentes. Os fragmentos de madeira, que provavelmente são restos do navio, são pelo menos do primeiro século antes de Cristo, ou do primeiro século depois de Cristo.

“Eu fiquei bem cética quando vi esse naufrágio em 2010. Eu pensei ‘não tem como essa coisa ser antiga”, confessou Carlson. “Mas nós coletamos essas amostras de madeira e eu fiquei chocada quando recebemos os resultados.

O local cobre uma área de aproximadamente 6x6 metros, ainda que a equipe não tenha conseguido determinar exatamente onde o navio começa e termina durante suas curtas explorações do local. Neste ano eles terão mais tempo para investigar; se o clima permitir, a equipe espera começar a mergulhar em meados de fevereiro, e continuar trabalhando até maio.

Além de determinar um limite sólido para o naufrágio, Carlson espera que ela e seus colegas consigam separar uma parte do navio submerso, levá-lo até a superfície e peneirar seu conteúdo em uma piscina, procurando moedas, objetos pessoais e tudo mais que estiver preso no sedimento. De jarros lacrados de cerâmica, a equipe pode até mesmo conseguir recuperar materiais botânicos antigos, como pólen, que poderiam até mesmo indicar em que momento do ano o navio estava viajando.

O projeto recebeu financiamento do Fundo Nacional para as Ciências Humanas. Além dos colegas do Instituto de Arqueologia Náutica, Carlson está trabalhando com pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, da University of California, Berkeley, e do Departamento de Arqueologia do Sri Lanka.
 Scientific American Brasil

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Notícias História Viva


Pegadas humanas de 800 mil anos são descobertas

AE - Agência Estado

Uma equipe de cientistas do Reino Unido anunciou nesta sexta-feira a descoberta de pegadas humanas datadas de mais de 800 mil anos na Inglaterra. São as mais antigas fora da África e os primeiros indícios de vida humana no norte da Europa.

Um grupo formado por pesquisadores do British Museum, do Museu de História Natural e da Universidade de Londres descobriu as impressões de até cinco indivíduos na lama fossilizada de um estuário em Happisburgh, na costa leste do país.

Para Nick Ashton, cientista do British Museum, as impressões são "uma tangível ligação com os nossos primeiros parentes humanos".

Os cientistas disseram que essas pegadas podem ser do Homo antecessor - hominídeo extinto que surgiu há cerca de 1,2 milhão de anos e perdurou, pelo menos, até cerca de 800 mil anos atrás -, cujos restos fossilizados foram encontrados na Espanha e datam de 800 mil anos atrás. A descoberta foi publicada na revista científica PLOS ONE. Fonte: Associated Press. 
Jornal O Estado de S. Paulo

Notícias História Viva

Missão espanhola faz descoberta que pode rever cronologia faraônica
Estudo escavou restos de um muro e colunas de mausoléu na região de Al Asasif

EFE

Uma missão de arqueólogos espanhóis e egípcios fez uma descoberta em uma tumba no sul do Egito que abre portas à reinterpretação da cronologia faraônica, pois poderia demonstrar que Amenhotep III e seu filho Amenhotep IV, conhecido como Akenaton, reinaram juntos.
EFE/ Ministério de Antiguidades do Egito
Amuletos e estátuas foram expostos junto a três esqueletos humanos e um sarcófago

A missão, liderada pelo arqueólogo espanhol Francisco Martín Valentín, escavou os restos de um muro e as colunas do mausoléu de um ministro da XVIII dinastia faraônica (1569-1315 a.C.) na região de Al Asasif, na província meridional de Luxor.

O grande diferencial da descoberta, explicou Valentín à Agência Efe, é que na escavação foram encontradas gravuras com os nomes de Amenhotep III e Amenhotep IV juntos.

Isto, segundo o especialista, "pode confirmar que os dois reis governaram juntos entre nove e dez anos dos 39 de Amenhotep III, já que os textos das colunas explicam que eram soberanos do Alto e do Baixo Egito". "Não há nada semelhante na história faraônica", afirmou taxativamente Martín Valentín.

O chefe do departamento de Egiptologia do Ministério de Antiguidades egípcio, Ali Asfar, destacou a importância dos nomes destes dois faraós aparecerem juntos. Asfar reconheceu que é muito complicado estabelecer as datas exatas dos reinados faraônicos, mas admite que este caso poderia obrigar a uma revisão das cronologias já estabelecidas, pois "confirmaria que ambos reinaram juntos".

Os reinados de Amenhotep III, também conhecido como Amenofis III, e de Amenhotep IV, que entrou para a história sob o nome de Akenaton, estão entre os mais relevantes do Egito Antigo por razões diferentes. O pai governou um país que conheceu um dos maiores períodos de prosperidade e estabilidade interna de sua história, com um longo mandato de quase quatro décadas.


Até agora, os especialistas pensavam que o filho havia se rebelado contra a forma do pai de conduzir o reinado e que, após sucedê-lo no trono após sua morte, adquiriu o nome de Akenaton e instaurou pela primeira vez o monoteísmo, com Aton como deus oficial.

No entanto a descoberta, explicou Martín Valentín, dá a entender que pai e filho estavam de acordo nessa autêntica revolução, já que compartilharam o reinado por uma década. A missão escolheu a tumba do ministro real, identificado como Amenhotep Huy, com a convicção que nela poderiam ser encontrados documentos que confirmassem o reinado conjunto.

"Desde 2009 trabalhamos neste lugar, onde escavamos cerca de 400 metros quadrados, e esperamos novas descobertas nos 600 metros quadrados que ainda faltam", disse o arqueólogo, antes de acrescentar que ninguém tinha escavado antes esse mausoléu inacabado.

Segundo o espanhol, Amenhotep III governou entre 1397 e 1340 antes de Cristo, por cerca de 38 anos, enquanto Amenhotep IV esteve à frente do país entre 1360 e 1348 a. C, ou seja, por 17 anos. A descoberta indicou que foram nesses dez anos de reinado conjunto que teria explodido a chamada "revolução atoniana". "Acho que tanto o pai como o filho, ou toda a família real, promoveram essa revolução, que deslocou o deus Amon, que era venerado em Tebas, capital faraônica de então", comentou Martín Valentín. 
Jornal O Estado de  S. Paulo

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Jericó - Em busca da cidade bíblica


Pouco se sabe sobre a cidade de Jericó, descrita no Velho Testamento como a "Cidade das Palmeiras" e conhecida por ser o lugar do retorno dos israelitas da escravidão no Egito, liderados por Josué. Escavações descobriram 20 assentamentos, dos quais o primeiro data do ano 9000 a.C.
Sérgio Pereira Couto

De cima para baixo: restos do palácio de Herodes; e retrato da moderna Jericó em 1967

O que foi a mítica cidade de Jericó? Muito do que sabemos veio da Bíblia, mais precisamente de Josué, no Velho Testamento. Poucos sabem que se trata de uma verdadeira cidade da Antiguidade que, embora não possua o glamour de uma civilização mediterrânea, tem o seu valor para um melhor entendimento da região do Oriente Médio.
No século XIX, acreditava-se que a agricultura havia se desenvolvido no Vale do Nilo em aproximadamente 4000 a.C. e teria ocorrido quase simultaneamente ao desenvolvimento da cerâmica. O Neolítico (um termo que significa "pedra nova") foi associado à invenção desta última atividade.

A partir dos primeiros trabalhos ocorridos no local, a arqueóloga britânica Kathleen Kenyon (1906-1978) percebeu que havia camadas mais profundas por baixo das já conhecidas, datadas da Idade do Bronze. Assim, a cada vez que suas próprias escavações se aprofundavam, ela encontrou depósitos que remontavam ao Neolítico, o que provava que o sítio arqueológico era mais antigo do que se pensava. Porém não foram descobertos restos de cerâmica nas camadas mais modernas, embora fossem mais profundas. Assim foram estabelecidos dois períodos para identificação dos restos encontrados: o Neolítico Pré-Cerâmica A (NPCA) e B (NPCB). A conclusão a qual Kenyon chegara era a de que, apesar da falta de cerâmica, as camadas encontradas eram de comunidades de fazendeiros.
Seria essa a Jericó da Bíblia? Essa foi a dúvida que estava na cabeça de todos quando as primeiras amostras retiradas das escavações da arqueóloga foram enviadas para a Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, onde a tecnologia do radiocarbono havia acabado de se tornar disponível. Os resultados foram especialmente surpreendentes para ela e sua equipe: as amostras remontavam a um período estimado entre 8000 e 7000 a.C., muito antes da data de 4000 a.C. conhecida. Jericó havia sido ocupada por pessoas que cultivavam grãos milhares de anos antes, remontando ao período entre 9000 e 7000 a.C. Essas datas logo foram confirmadas por leituras de outros sítios arqueológicos e as escavações de Kenyon estabeleceram o começo da história da agricultura.

Vista aérea do sítio arqueológico de Jericó

Muralhas e Mortos

Apesar das provas que mudavam a concepção histórica sobre o início da atividade agricultural, os prédios da antiga Jericó e seus conteúdos foram ainda mais surpreendentes. Construções na quantidade descoberta pelos arqueólogos era algo completamente sem precedentes numa era tão longínqua. A camada do NPCA era cercada por um trincheira larga cavada no leito de pedra e uma muralha com aproximadamente 3,66 metros de altura e 2,74 metros de largura. Essa construção era complementada por uma torre de aproximadamente 7,62 metros de altura, feita de pedra talhada com uma escadaria interna que levava a um terraço plano.
O objetivo dessa torre e da muralha é discutido até hoje. Kenyon pensou se tratar de medidas defensivas, mas teorias mais recentes sugerem que se assim fosse, teriam como meta proteger o vilarejo de inundações e deslizamentos de terra e não de ataques de inimigos.

A área no interior das muralhas é grande e poderia conter cerca de 500 pessoas em qualquer período. As casas eram construídas com pedras ou tijolos de argila, eram redondas e parcialmente abaixo do solo. Na próxima camada, pertencente ao NPCB, as casas mudaram para o formato retangular, mas mantiveram os pisos de argamassa. Porém, as do NPCB eram polidas e pintadas.
Outro detalhe que chamou a atenção dos arqueólogos foi que os habitantes de Jericó do NPCB viviam literalmente com seus mortos. Kenyon foi capaz de escavar cerca de um décimo de toda a área, mas encontrou cerca de 276 buracos usados em enterros e todos eles eram associados às construções da cidade. Estavam nos pisos, entre as paredes, sobre as estruturas das casas e mesmo dentro da já citada torre. Poucos eram acompanhados por artefatos, mas muitos deles, principalmente os que continham corpos de adultos, não tinham os crânios, que eram enterrados em separado.

Grupos de crânios decorados foram identificados como sendo do período NPCB. Sete estavam em um único buraco, alguns estavam em casas e outros ainda sobre os pisos pintados e polidos. Suas faces foram modeladas com aplicações de gesso sobre os ossos e muitos não possuíam as mandíbulas, uma indicação de que podem ter sido colocados como decoração cerimonial depois de anos enterrados.
Por vezes moluscos eram colocados no lugar dos olhos e havia traços de outras decorações no gesso de alguns deles, que poderia ser para desenhar bigodes. Alguns dos crânios encontrados pareciam ter sido enterrados novamente enquanto outros eram conservados para mostrar nas casas, junto dos demais ossos que estavam nos buracos encontrados. Eram preparados com muito cuidado e a maioria dos crânios está em excelentes condições de preservação, o que indica que poderiam fazer parte de algum culto aos antepassados.

Períodos
Por fim, resta falar um pouco sobre o que se conhece dos períodos históricos de Jericó. O primeiro assentamento foi seguido por um (por volta de 6800 a.C.) que os arqueólogos dizem ser de um povo que teria absorvido os habitantes originais para dentro da cultura então predominante. Na metade final da Idade do Bronze Médio (por volta de 1700 a.C), a cidade já tinha prosperidade o suficiente para ter seus muros expandidos e reforçados. Foi destruída por volta de 1550 a.C., e o local ficou abandonado até ser reutilizado no século IX a.C.
Pouco depois, houve uma invasão assíria, seguida por uma babilônica. Jericó ficou novamente sem habitantes entre 586 e 538 a.C., perío do do exílio babilônico. O rei persa Ciro, o Grande, refundou a cidade distante um quilômetro e meio a sudeste do seu local histórico no monte Tell es-Sultan.

Sob domínio persa a cidade foi um centro administrativo e serviu como sede para Alexandre, o Grande, após sua conquista da região entre 336 e 323 a.C. Passou para o domínio helênico em meados do século II a.C. e foi arrendada por Herodes de Cleópatra, após a rainha egípcia tê-la recebido como presente de Marco Antônio.
Após a queda de Jerusalém pelo exército de Vespasiano em 70 d.C., Jericó declinou rapidamente, e apenas em 100 d.C. a cidade foi uma pequena guarnição romana. Outros períodos se seguiram, mas o mistério sobre quem seriam seus primeiros habitantes, bem como seus hábitos tão peculiares, ainda persiste até que novas evidências sejam descobertas.


Para saber
SANTON, Kate. Archaeology - Unearthing the Misteries of the Past. Parragon Publishing, 2007.
BARTLETT, John. Jericho. Taunton Press, 2005.
MITCHELL, T.C. Biblical Archaeology - Documents for the British Museum. Cambridge USA, 1988.
Revista Leituras da História

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O impacto das mudanças climáticas nas dinastias chinesas

Registros em estalagmites revelam como índices pluviométricos afetaram a ascensão e queda de imperadores chineses

David Biello


© Science/AAAS
Milhares de anos de chuva: Amostra da estalagmite encontrada na gruta Wanxiang, China, começou a se formar aproximadamente em 190 d.C.

No século 9 uma seca terrível dizimou a colheita chinesa, e a fome se espalhou por todo o país, então sob o domínio da dinastia Tang. No ano 907 d.C. – após cerca de três séculos de domínio – essa dinastia caiu o imperador Ai foi deposto e o império dividido. De acordo com o registro atmosférico existente em uma estalagmite, uma das causas dessa ruína pode ter sido a mudança climática.

“Acreditamos que o clima tenha tido um papel importante na história chinesa” comenta o paleoclimatologista Hai Chen da University of Minnesota e membro da equipe científica que analisou a estalagmite da gruta Wanxiang em Gansu, uma província no noroeste da China. A estalagmite revela, por exemplo, que as chuvas essenciais das monções asiáticas se tornaram raras na época do declínio das dinastias Tang, Yuan e Ming ao longo dos últimos 1.810 anos.

O clima ─ observa Cheng ─ foi a gota que faltava para o copo transbordar. Formada por carbonato de cálcio dissolvido pelos pingos de água, a estalagmite de 11,7 centímetros conserva um registro da chuva nesta região, que está situada na margem da área de impacto das monções asiáticas. A região recebe menor quantidade de chuvas quando a monção é suave e mais chuva quando os ventos são fortes, explicam os pesquisadores em artigo publicado recentemente naScience.

© Science/AAAS
Segredos das estalagmintes – Interior da Gruta Wanxiang

Esses períodos de chuvas fortes e fracas, quando comparados com os registros da história chinesa, coincidem com períodos de tumulto ou de prosperidade no império, como no caso da expansão da dinastia Song ao norte ─ uma época de colheitas abundantes. Além disso, o registro da estalagmite coincide com retrações glaciais nos Alpes, registros de sedimentos do Lago Huguang Maar no sul da China e secas ocorridas desde Barbados até o sul da França.

O colapso da dinastia Tang, na verdade, coincide com o da civilização Maia ─ ambos devido a um estado de extrema seca. “Demonstramos que o registro da gruta está bem correlacionado com muitos outros registros, inclusive o da Pequena Idade do Gelo na Europa, das mudanças de temperatura em todo o hemisfério Norte, e uma variabilidade solar importante”, observa Chang.

A variabilidade da intensidade solar no passado parece ter tido um papel preponderante na determinação da força das monções asiáticas. O registro revelado nos 50 anos passados, no entanto, mostra um quadro diferente, com fuligens produzidas pelo homem e gases do efeito estufa determinando a intensidade da chuva.

“É provável que a atual tendência de aquecimento global ou influência antropogênica esteja acompanhada de uma tendência de enfraquecimento das monções do verão asiático, principalmente no noroeste da China,” ─ comenta Cheng. Talvez por isso os atuais líderes chineses estejam tão ansiosos para atuar nas mudanças climáticas causadas pelo homem.
Scientific American Brasil

O colapso dos rapanui

Ao contrário do que sugerem as teses vigentes sobre a extinção dessa civilização no Pacífico Sul, foram roedores, e não humanos, os grandes agentes da degradação ambiental na Ilha de Páscoa

Terry L. Hunt

Harald Sund/Getty images

Todos os anos, milhares de turistas do mundo inteiro percorrem longas distâncias pelo Pacífico Sul para ver as famosas estátuas de pedra da Ilha da Páscoa. Desde 1722, quando os primeiros europeus ali chegaram, essas figuras megalíticas, os moais, intrigam visitantes. O interesse em saber como foram construídos e movidos levou a outra questão também enigmática: o que aconteceu às pessoas que os criaram?

De acordo com o relato corrente sobre o passado da ilha, os habitantes nativos - que se autodenominam rapanui e se referem à ilha como Rapa Nui - outrora formavam uma sociedade grande e próspera que entrou em colapso em conseqüência da degradação ambiental. Segundo essa teoria, um pequeno grupo de colonizadores da Polinésia teria chegado entre os séculos IX e X. Trezentos anos depois, o aumento populacional acelerado e a obsessão em construir moais levaram a uma pressão cada vez maior no ambiente. No final do século XVII, os rapanui haviam desmatado a ilha, o que resultou em guerras, fome e colapso cultural.

Jared Diamond, geógrafo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, usou os rapanui como parábola sobre os perigos da destruição ambiental. "Em apenas alguns séculos", escreveu em 1995, "os habitantes da Ilha de Páscoa liquidaram suas florestas, levaram suas plantas e animais à extinção, e viram sua complexa sociedade rumar para o caos e o canibalismo. Estamos perto de seguir seu exemplo?" Em Colapso, publicado em 2005, Diamond descreveu Rapa Nui como "o exemplo mais claro de uma sociedade que se autodestruiu ao explorar demais os próprios recursos".

Dois elementos chave no relato de Diamond - que certamente não está sozinho ao descrever Rapa Nui como um conto sobre a moralidade ambiental - são o grande número de polinésios vivendo na ilha e sua tendência a derrubar árvores. Ao analisar estimativas sobre a população nativa, diz que não ficaria surpreso se excedesse 15 mil indivíduos em seu auge. Uma vez derrubadas todas as árvores do grande grupo de palmeiras, seguiram-se "fome, declínio da população e canibalismo". Quando os europeus chegaram, no século XVIII, encontraram somente um pequeno vestígio dessa civilização.

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Thor Heyerdahl,antropólogo e explorador norueguês, quem chamou a atenção do grande público para a ilha

Em minha primeira viagem a Rapa Nui esperava confirmar essas teses. Em vez disso, encontrei evidências que não se encaixavam na linha do tempo básica. Quando examinei os dados de escavações arqueológicas disponíveis e alguns trabalhos similares realizados em outras ilhas do Pacífico, percebi que muito do que era atribuído à pré-história de Rapa Nui não passava de especulação. Estou convencido, agora, de que simplesmente o colapso ambiental auto-induzido não explica a queda dos rapanui. 

Datações de carbono que fizemos e dados paleoambientais apontam para uma explicação diferente sobre o que aconteceu nessa pequena ilha. A história é mais complexa do que a comumente descrita. 

Os primeiros colonizadores podem ter chegado muito depois do que se acreditava, e eles não viajavam sozinhos. Traziam galinhas e ratos, ambos utilizados como alimento. Mais importante é, no entanto, o que os ratos comiam. Esses roedores prolíferos podem ter sido a principal causa da degradação ambiental. Usar os rapanui como exemplo de "ecocídio", como Diamond o chamou, torna a narrativa atraente, mas a realidade da história trágica da ilha não é menos significativa.

Pesquisas Iniciais
Mais de 3 mil km de oceano separam Rapa Nui da América do Sul, o continente mais próximo. A ilha habitável menos distante é Pitcairn, 2 mil km a oeste. Rapa Nui tem apenas cerca de 170 km, e fica um pouco ao sul dos trópicos, o que significa que seu clima é menos convidativo que o de muitas ilhas tropicais do Pacífico. Ventos fortes e imensas oscilações no índice pluviométrico dificultam a agricultura. 

A flora e a fauna são limitadas. Além de galinhas e ratos, há poucos vertebrados terrestres. Muitas das espécies de pássaros que já habitaram a ilha estão agora extintas no local. Grandes palmeiras do gênero Jubaea cobriam a maior parte da ilha, mas elas, também, desapareceram. Pesquisa recente encontrou apenas 48 tipos de plantas nativas, incluindo 14 introduzidas pelos rapanui.

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A paisagem permanece amplamente árida, como mostra a foto da região de Ahu Tongariki

Relatos de visitantes europeus foram usados para argumentar que, na época da descoberta européia, a população nativa estava em declínio, mas eles às vezes se contradizem. Em seu registro, o explorador holandês Jacob Roggeveen, que levou os primeiros europeus a aportar ali, retratou a ilha como empobrecida e sem árvores. No entanto, depois de partirem, Roggeveen e os comandantes de seus três navios a descreveram como "extraordinariamente fértil, com produção de banana, batata, cana-de-açúcar de espessura notável e muitos outros frutos da terra. Essa nação, no que diz respeito a seu solo rico e bom clima poderia ser transformada em um Paraíso terrestre, caso trabalhada e cultivada de forma adequada". Um dos comandantes de Roggeveen escreveu, mais tarde, que havia avistado "extensões inteiras de florestas" a distância. 

Um visitante do século XIX, J. L. Palmer, declarou, no Journal of the Royal Geographic Society, que havia visto "troncos de grandes árvores, Edwardisia, coqueiros e hibiscos". Os coqueiros foram introduzidos recentemente na ilha, portanto Palmer deve ter visto a hoje extinta palmeira Jubaea.

É claro que os registros históricos têm lacunas. Há tempos pesquisadores tentam dar respostas mais definitivas sobre a pré-história da Ilha de Páscoa, mas não raro contribuem mais para a confusão.

O explorador e antropólogo norueguês Thor Heyerdahl, por exemplo, visitou Rapa Nui em 1950 e despertou amplo interesse sobre os moais e as grandes fundações de pedra, ou ahus, sobre as quais com freqüência estão assentados. Mas também ajudou a difundir conclusões errôneas. Heyerdahl acreditava que as ilhas polinésias, incluindo Rapa Nui, haviam sido colonizadas por viajantes da América do Sul, e não do oeste do Pacífico. Em 1947, ele iniciou a famosa expedição Kon-Tiki, navegando numa pequena embarcação feita de madeira e materiais básicos, do Peru até as ilhas Tuamotu, a fim de provar que era possível que povos pré-históricos tivessem feito a viagem. 

Em 1955, comandou uma expedição arqueológica a Rapa Nui. E propôs que a ilha havia sido colonizada a partir do leste, apontando semelhanças entre suas estátuas e trabalhos em pedra sul-americanos. Evidências lingüísticas e genéticas estabeleceram com solidez a origem polinésia dos rapanui, mas as conclusões feitas por Heyerdahl ainda anuviam os relatos arqueológicos. 

Uma amostra de carvão descoberta na península Poike - que marca, em princípio, o local de uma antiga fornalha - foi datada como sendo de 400 d.C. Aliada à idéia então prevalecente de que a língua dos rapanui indicava muitos séculos de isolamento de outros grupos polinésios, a datação em carbono dessa amostra levou especialistas a concluir que a colonização humana começou ali por volta do século V.
Mais recentemente, no entanto, alguns arqueólogos rejeitaram essa datação, enquanto outros questionaram se as evidências lingüísticas refletem o isolamento dos rapanui em vez de uma colonização anterior. Essa fase posterior da pesquisa passou a indicar a data de 800-900 d.C. como provavelmente a época mais anterior da colonização humana no local. 

Apesar de os arqueólogos realmente terem concentrado seus esforços em estabelecer exatamente quando a ilha foi colonizada, eles dedicaram muito de seu trabalho ao estudo das mudanças que esses colonizadores trouxeram, em especial o desmatamento. A equipe de Heyerdahl colheu amostras de pólen mostrando que as palmeiras já haviam sido abundantes na ilha. Durante as escavações, características indicativas de onde as raízes haviam crescido em alguma época foram encontradas, revelando uma vegetação mais alastrada no passado e apontando para a possibilidade de que os humanos haviam causado a perda de cobertura florestal.

John Flenley forneceu grande parte das evidências mais recentes detalhadas nessa área. No final da década de 70 e na de 80, ele coletou e analisou depósitos de sedimentos de três crateras: Rano Aroi, próxima do centro da ilha; Rano Raraku, adjacente à pedreira onde muitas das estátuas foram esculpidas; e Rano Kau, localizada na ponta sudoeste da ilha. Cada uma dessas depressões tem um lago raso, que coleta sedimentos levados pelo vento de outras regiões da ilha.

A melhor evidência veio de um núcleo de 10,5 metros de Rano Kau, mostrando que durante milhares de anos a ilha havia sido arborizada antes de as árvores desaparecerem, processo ocorrido entre 800 e 1500 d.C. No entanto, mais recentemente a validade dessas datas - derivadas da datação por radiocarbono de amostras de sedimentos dos lagos - foi questionada. Em 2004, Kevin Butler, Christine A. Prior e Flenley mostraram que as amostras volumosas de sedimento de locais como esses com freqüência contêm um pouco de carbono consideravelmente mais antigo que a data de depósito. Isso significa que a cronologia proposta por Flenley poderia indicar que o desmatamento induzido por humanos fosse centenas de anos mais antigo do que realmente é.

Outros trabalhos arqueológicos e paleoambientais recentes desafiaram hipóteses que vigoraram por muito tempo sobre a pré-história de Rapa Nui. Catherine Orliac, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, realizou um estudo notável com 32.960 espécies de plantas. Além de identificar 14 organismos não identificados antes na ilha, ela mostrou que a principal fonte de combustível dos rapanui mudou de maneira drástica. Entre 1300 e 1650, eles queimaram madeira de árvores, mas usaram capim, samambaias e plantas similares para obter combustível a partir daquele ponto. No entanto, Orliac argumentou que pelo menos dez espécies de vegetação florestal podem ter persistido até os europeus começarem a visitar a ilha.


Patrício Novoa
Durante milhares de anos, Rapa Nui foi recoberta por uma grande floresta de palmeiras. Uma espécie muito similar a Jubae chiliensis

Em outro estudo, Orliac examinou resíduos da casca dura que envolve a semente da palmeira Jubaea. Esses exemplares que foram carbonizados, roídos por ratos ou encontrados associados a materiais humanos forneceram evidências da ocupação humana da ilha. Ela datou vários deles e descobriu que eram posteriores a 1250.

Andréas Mieth e Hans-Rudolf Bork, da Universidade Christian-Albrecht em Kiel, Alemanha, estudaram o processo de desmatamento em Rapa Nui e concluíram que as palmeiras Jubaea haviam coberto a maior parte da ilha. Segundo eles, o desmatamento começou por volta de 1280. Os rapanui abandonaram em grande parte a península nos 200 anos seguintes, mas se assentaram novamente em algumas áreas, entre 1500 e 1675.

Em 2003, o geólogo Dan Mann e vários colegas obtiveram datação por carbono de pedaços de carvão encontrados em solos de diversas localidades da ilha. Também documentaram episódios remotos de erosão severa que, de acordo com as medições de carbono, começaram logo depois de 1200. O estudo deles, como o de Mieth e Bork, aponta que o desmatamento se deu entre 1200 e 1650, sem indícios de impacto humano anterior a esse período.

Tanto a equipe de Mann quanto Mieth e Bork conciliaram suas descobertas com trabalhos anteriores ao argumentar que a população, durante os séculos anteriores a 1200, deve ter sido pequena ou temporária. Foi apenas quando o número de habitantes permanente cresceu que os indícios de presença humana se tornaram claros no registro paleoambiental.

Mas esse cenário inclui várias suposições questionáveis. Ele exige uma pequena população colonizadora com taxa de crescimento lenta e pouco impacto ecológico. Depois de nossa própria pesquisa em Rapa Nui, começamos a nos perguntar se a escassez de evidências acerca da presença humana anterior a 1200 deveria ser levada em consideração por seu valor nominal - talvez a ilha não tivesse sido realmente colonizada tão cedo quanto se acreditava.
Datação é Tudo
Ao visitar rapa nui pela primeira vez, em maio de 2000, não tinha idéia de que acabaria questionando o que acreditava saber acerca do passado da ilha. Na realidade, viajava como turista, não como arqueólogo. Mas fui convidado por Sergio Rapu, governador nativo da ilha e ex-aluno meu - ele estudou arqueologia na Universidade do Havaí - a fazer pesquisas na ilha. 

Previa que meu trabalho e de meus alunos, iniciado em agosto de 2000, ajudaria a dar os toques finais em uma história bem estabelecida. Mas, quando comecei a rever dados de pesquisa arqueológica, estudos sobre os moais e evidências sobre mudanças ambientais, percebi que havia uma série de lacunas no que se sabia sobre Rapa Nui, e passei a ficar cada vez mais cético sobre tudo dito acerca da pré-história da ilha. 

Nos anos seguintes, fizemos trabalho de campo durante um ou dois meses por ano. Meu colega Carl P. Lipo, arqueólogo da Universidade Estadual da Califórnia, juntou-se ao grupo e me apresentou ao potencial das imagens por satélite, que usamos para explorar características como as antigas estradas pelas quais os rapanui transportavam os moais da pedreira de Rano Raraku para qualquer canto da ilha. Seguir o alinhamento das rotas também resultou na documentação de vários moais até então não registrados.

Em 2004, começamos novas escavações em Anakena. Essa praia de areia branca teria sido o local mais convidativo para que os primeiros colonizadores ancorassem seus barcos (grande parte da costa é composta por despenhadeiros ou penhascos rochosos). Por isso, a maioria dos antropólogos suspeita que as primeiras colônias tenham sido estabelecidas ao redor de Anakena. Pretendíamos estudar subsistência e mudança ambiental, não cronologia básica, que acreditávamos já estar estabelecida.

A estratificação magnificamente inalterada da areia provou ser o sonho dos arqueólogos. A integridade das camadas seria útil para determinar quando as coisas haviam acontecido. Desenterramos fragmentos abundantes de carvão (indicando o uso de fogo), ossos (incluindo os de ratos polinésios, uma espécie que chegou com os colonos) e fragmentos de obsidiana lascada (sinal claro de trabalho manual humano) nos 3 a 5 cm de barro subjacente. Abaixo, não encontramos nada que sugerisse atividade humana. Ao contrário a argila antiga era enigmática, com vazios irregulares - locais onde o solo uma vez se moldara ao redor das raízes das árvores de palmeira Jubaea.
Sem dúvida havíamos encontrado a camada de material mais antigo relacionado a humanos em Anakena, e presumindo que este fosse o local das primeiras colônias da ilha, estávamos em excelente posição para determinar a data da colonização inicial. Portanto, fiquei decepcionado quando o laboratório que faz a datação por carbono dessas amostras nos enviou um e-mail comunicando que as datas mais antigas eram de apenas 800 anos atrás, o que significava que a ocupação começara por volta de 1200. As datas das camadas mais próximas à superfície eram progressivamente mais recentes, o que não é consistente com a possibilidade de que de alguma forma nossas amostras tivessem sido contaminadas por carbono moderno. Realmente não havia como explicar esses números, pelo menos não pelo modelo convencional aceito de desenvolvimento de Rapa Nui. Quando a cópia em papel do relatório chegou, algumas semanas depois, examinei os dados de novo. Quanto mais analisava, mais parecia que nossos resultados não eram o problema.

Conversei com Atholl Anderson, da Universidade Nacional Australiana. Ele havia feito uma triagem cuidadosa de datações por carbono da Nova Zelândia e concluído que os primeiros colonos chegaram lá por volta de 1200, várias centenas de anos depois do que os arqueólogos acreditavam no início. A reação às suas idéias foi bastante fria no começo, mas o tempo e evidências adicionais provaram que estava correto. Com essa experiência nas costas, Anderson me aconselhou a manter a cabeça aberta e confiar nos meus dados mais do que em quaisquer idéias anteriores.

Mas a cronologia tradicional estaria simplesmente errada? Lipo e eu analisamos mais a fundo as evidências sobre a colonização humana inicial. Avaliamos 45 datações por carbono publicadas indicando presença humana mais de 750 anos atrás utilizando um protocolo de "higiene cronométrica". Rejeitamos datas medidas com base em de fontes não confiáveis, como organismos marinhos, que exigem correções para o carbono mais antigo vindo do ambiente oceânico. Também desconsideramos datas únicas que não haviam sido confirmadas por uma segunda datação do mesmo contexto arqueológico. Utilizar somente datas emparelhadas ajuda a assegurar a confiabilidade dos dados. Ficamos com somente nove datas aceitáveis. Com essa seleção, evidências sobre a primeira ocupação ocorrendo por volta do século IX simplesmente ruíram. 

Apesar de os nossos resultados não se encaixarem na data de colonização aceita para Rapa Nui, eles se ajustavam à cronologia do desmatamento que Orliac, Mann, e Mieth e Bork haviam desenvolvido. É preciso simplesmente descartar a idéia de que uma população pequena e temporária ocupou a ilha por séculos. Ao contrário, postulamos que o impacto ambiental foi disseminado desde o começo.


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A praia de Anakena, provavelmente onde ocorreu a primeira colonização de Rapa Nui, foi o local onde o autor conduziu suas escavações arqueológicas

A noção de que os humanos não chegaram a Rapa Nui até cerca de 1200 não foi a única coisa que me fez repensar minhas suposições acerca da ilha. Pesquisas feitas em outras ilhas do Pacífico fornecem um paralelo atraente e uma possível explicação para o dano ambiental em Rapa Nui. 

Ratos no Paraíso
Durante milhares de anos, a maior parte de Rapa Nui esteve coberta de palmeiras. Registros de pólen mostram que a Jubaea se estabeleceu lá há pelo menos 35 mil anos e sobreviveu a várias mudanças climáticas e ambientais. Mas, na época em que Roggeveen chegou, em 1722, a maior parte da floresta havia desaparecido.

Não se trata de uma observação nova o fato de que virtualmente todas as cascas de sementes de palmeira encontradas em cavernas ou escavações arqueológicas de Rapa Nui mostram sinais de terem sido roídas por ratos, mas o impacto desses ratos no destino da ilha pode ter sido subestimado. Evidências de outros locais no Pacífico revelam que com freqüência esses animais contribuíram para o desmatamento, e eles podem muito bem ter tido um papel importante na degradação ambiental de Rapa Nui.

O arqueólogo J. Stephen Athens, do Instituto Internacional de Pesquisas Arqueo-lógicas, fez escavações na ilha de Oahu, Havaí, e descobriu que o desmatamento da planície Ewa ocorreu em grande parte entre 900 e 1100, mas que a primeira evidência de presença humana nessa parte da ilha só aconteceu por volta de 1250. Não havia explicações climáticas para o desaparecimento das palmeiras, mas havia indícios de que o rato da Polinésia (Rattus exulans), introduzido pelos primeiros colonizadores humanos, estava presente na área por volta de 900. Athens mostrou que era bastante provável que os ratos tivessem desmatado grandes áreas de Oahu.

Paleobotânicos demonstraram o efeito destrutivo de ratos na vegetação nativa em muitas outras ilhas, mesmo naquelas ecologicamente diversas como a Nova Zelândia. Em áreas das quais eles são removidos, com freqüência a vegetação se recupera rapidamente. E na ilha Nihoa, no noroeste das ilhas havaianas, onde não há evidência de que os ratos jamais tenham se estabelecido, a vegetação nativa ainda sobrevive, apesar dos assentamentos humanos pré-históricos.

Como clandestinos ou fonte de proteína para os viajantes polinésios, os ratos teriam encontrado um ambiente acolhedor em Rapa Nui - um fornecimento quase ilimitado de alimento de alta qualidade e, a não ser pelos humanos, nenhum predador. Em um cenário tão ideal, os roedores podem se reproduzir com tanta rapidez que sua população teria dobrado a cada seis ou sete semanas. Um único casal poderia, dessa forma, gerar uma população de quase 17 milhões em pouco mais de três anos. Na década de 70, no atol de Kure, nas ilhas havaianas, a uma latitude similar à de Rapa Nui, mas com um fornecimento menor de alimento, registrou-se que a densidade populacional do rato polinésio teria alcançado 182 por m2. Em Rapa Nui, isso equivaleria a uma população de 1,9 milhão de animais. A uma densidade de 300 por m2, o que não seria desmedido, dada a abundância de alimento, a população de ratos pode ter excedido 3,1 milhões.
As evidências de outras partes do Pacífico tornam difícil acreditar que os ratos não tenham causado uma degradação ambiental rápida e ampla. Mas ainda há a questão de seu efeito em relação às mudanças causadas por humanos, que cortavam árvores para vários fins e praticavam agricultura de corte e queima. Acredito haver evidências substanciais de que foram roedores, mais que humanos, que levaram ao desmatamento. 

Nossas escavações em Anakena, assim como estudos arqueológicos anteriores, encontraram milhares de ossos de rato. Ao que tudo indica, a população de ratos polinésios cresceu com rapidez, e decaiu mais recentemente antes de se extinguir face à competição de espécies de rato introduzidas por europeus. Quase todas as cascas de semente de palmeira descobertas na ilha mostram sinais de terem sido roídas, sugerindo que esses animais que já foram onipresentes afetaram a capacidade de reprodução das palmeiras Jubaea. Motivos para considerar os ratos mais culpados que os humanos também são revelados pela análise de sedimentos obtidos em Ranu Kau que, como as evidências do Havaí, parecem indicar que a floresta decaiu (deixando menos pólen no sedimento) antes do uso extensivo de fogo pelas pessoas. 

Quando a segunda rodada de resultado por carbono chegou, um quadro completo da pré-história de Rapa Nui começava a se formar. Os primeiros colonizadores chegaram de outras ilhas da Polinésia por volta de 1200. A quantidade deles aumentou rapidamente, talvez a um ritmo de 3% ao ano, o que seria similar ao rápido crescimento de outros locais no Pacífico. Na ilha Pitcairn, por exemplo, a população cresceu 3,4% por ano depois da chegada dos amotinados do Bounty em 1790. Em Rapa Nui, um crescimento anual de 3% significaria que uma população de 50 colonos teria aumentado para quase 1.000 em um século. O número de roedores teria explodido com mais velocidade ainda, e a combinação de humanos cortando árvores e ratos comendo as sementes teria levado a um rápido desmatamento. Portanto, na minha opinião, não houve um período longo durante o qual a população humana viveu em algum tipo de equilíbrio idílico com o frágil ambiente.

Também parece que os habitantes da ilha começaram a construir moais e ahus logo depois de chegar ali. Por volta de 1350, a população provavelmente chegou ao máximo de cerca de 3 mil pessoas, e permaneceu estável até a chegada dos europeus. As limitações ambientais de Rapa Nui teriam evitado que a população crescesse muito mais. Em 1722, a maioria das árvores da ilha já tinha sumido, mas o desmatamento não precipitou o colapso da sociedade, como Diamond e outros argumentaram.
Não existem provas confiáveis de que a população da ilha tenha alcançado 15 mil pessoas ou mais, e a verdadeira queda dos rapanui foi resultado não de disputas internas, mas do contato com os europeus. Quando Roggeveen desembarcou no litoral de Rapa Nui, poucos dias depois da Páscoa (daí o nome da ilha), ele levou consigo mais de 100 de seus homens armados com mosquetes, pistolas e cutelos. Antes de avançar muito, Roggeveen ouviu disparos vindos da retaguarda. Ele se virou e viu dez ou 12 habitantes mortos e muitos outros feridos. Seus marujos afirmaram que alguns dos rapanui haviam feito gestos ameaçadores. Qualquer que tenha sido a provocação, o resultado não foi de bom agouro para os habitantes da ilha.

Doenças trazidas de fora, conflitos com invasores europeus e escravidão seguiram-se durante os 150 anos seguintes, e essas foram as principais causas do colapso. No começo da década de 1860, mais de mil rapanui foram levados da ilha como escravos e, no final da década seguinte, o número de habitantes nativos chegava somente a cerca de 100. Em 1888, a ilha foi anexada ao Chile. Atualmente permanece como parte daquele país. 

Na década de 30, o etnógrafo francês Alfred Métraux visitou a ilha. Mais tarde descreveu o fim de Rapa Nui como "uma das atrocidades mais medonhas cometidas por homens brancos nos Mares do Sul". Foi genocídio, não ecocídio, o causador do fim dos rapanui. Não ocorreu uma catástrofe ecológica em Rapa Nui, pois ela foi resultado de vários fatores, não somente de miopia humana.

Acredito que o mundo enfrente, hoje, uma crise ambiental global sem precedentes, e compreendo a utilidade de exemplos históricos sobre as armadilhas da destruição ambiental. Portanto, foi com certa inquietação que concluí que Rapa Nui não fornece tal exemplo. Mas, como cientista, não posso ignorar os problemas encontrados na narrativa aceita sobre a pré-história da ilha. Erros ou exageros nos argumentos para a proteção do ambiente somente levam a respostas simplistas ao extremo e prejudicam a causa do ambientalismo. No final, acabaremos nos perguntando por que nossas respostas simples não foram suficientes para fazer alguma diferença na confrontação dos problemas atuais.

Os ecossistemas são complexos, e há necessidade premente de compreendê-los melhor. Com certeza o papel dos roedores em Rapa Nui mostra o impacto potencialmente devastador, e com freqüência inesperado, de espécies invasoras. Espero podermos continuar a explorar o que aconteceu em Rapa Nui e a aprender qualquer que seja a lição que essa ilha remota tem a nos ensinar.
Easter Island, Earth Island., P. G. Bahn e J. R. Flenley. Thames and Hudson, 1991.

Anomalous radiocarbon dates from Easter Island. K. C. Butler, A. Prior e J. R. Flenley. Radiocarbon 46(1):395-405, 2004. 

Easter\\`s end. J. Diamond. Discover 9:62-69, 1995. 

Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Record, 2005.

Late colonization of Easter Island. T. L. Hunt e C. P. Lipo. Science 311:1603-1606, 2006.

Mapping prehistoric statue roads on Easter Island. C. P. Lipo e T. L. Hunt. Antiquity 79:158-168.
Scientific American Brasil

Ilíada foi publicada nos anos 700 a.C.

Biblioteca Ambrosiana, Milão
Códice Ilíada de Homero, aproximadamente do final do séc. 6, a. C. 

Métodos de genética evolutiva indicam origem do clássico de Homero

Joel N. Shurkin e Inside Science News Service

Esta história foi originalmente publicada por Inside Science News Service 

Cientistas que decodificam a história genética humana investigando como genes sofrem mutação aplicaram a mesma técnica a um dos mais antigos e celebrados textos do Ocidente para revelar a data em que foi escrito. 

O texto é a “Ilíada”, de Homero, e seu autor – se existiu – provavelmente escreveu a obra em762 a.C., com uma margem de erro de 50 anos, descobriram os pesquisadores. A “Ilíada” conta a história da Guerra de Troia – se é que a guerra ocorreu – entre gregos e troianos.

Os pesquisadores aceitam que o confronto ocorreu e que alguém chamado Homero escreveu sobre ela, explica Mark Pagel, teórico evolutivo da University of Reading, na Inglaterra. Seus colaboradores incluem Eric Altschuler, geneticista da University of Medicine and Denstistry of New Jersey, em Newark, e Andreea S. Calude, linguista da Reading, e do Instituto Santa Fé, no Novo México. Eles trabalharam a com o texto padrão do poema épico.

A data a que chegaram está de acordo com a época em que muitos acadêmicos acreditam que a Ilíada foi compilada, então o artigo, publicado no periódico Bioessays, não terá classicistas irritados. O estudo basicamente afirma o que eles [os acadêmicos] vêm dizendo: que o trabalho foi escrito no oitavo século a.C.

De acordo com Pagel, ver geneticistas em um projeto desses não deveria ser surpreendente.

“Linguagens se comportam extraordinariamente como genes”, declarou Pagel. “É uma analogia direta. Tentamos documentar as regularidades na evolução linguistica e estudar o vocabulário de Homero como forma de observar se a linguagem evolui da maneira que achamos que evolui. Se for o caso, conseguiremos encontrar uma data para Homero”.

A existência de um indivíduo chamado Homero que escreveu a Ilíada é improvável. Brian Rose, professor de estudos clássicos e curador da seção Mediterrânea do Museu da University of Pennsylvania, acredita que está claro que a Ilíada é uma compilação de tradições orais datando até o século13 a.C.

“A Ilíada é um amálgama de várias histórias que parecem se concentrar em conflitos em uma área específica do noroeste da Turquia”, observa Rose. 

A história da “Ilíada” é bem conhecida, cheia de personagens como Helena de Tróia, Aquiles, Paris, Agamenon, e vários deuses e deusas que se comportam mal. Ela conta como uma frota gigantesca de navios gregos atravessou o “mar negro como vinho” para sitiar Tróia e recuperar uma esposa roubada. Sua sequência é a “Odisséia”.

Classistas e arqueólogos têm certeza de que Troia existiu e sabem mais ou menos onde ela se encontra. No século 19, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann e o inglês Frank Calvert escavaram o que hoje é conhecida como a Cidadela de Tróia e descobriram evidências de um conflito militar do século12 a.C., incluindo flechas e mais de1 metrode destroços queimados ao redor de uma fortaleza incendiada. De acordo com Rose, não se sabe se isso foi uma guerra entre Tróia e um inimigo externo, ou uma guerra civil.

A compilação que conhecemos como a “Ilíada” foi escrita séculos depois, na data que Pagel está propondo.

Os cientistas procuraram as palavras da “Ilíada” da mesma forma que procurariam genes em um genoma.

Os pesquisadores empregaram uma ferramenta linguística chamada de lista de palavras de Swadesh, criada nos anos 1940 e 1950 pelo linguista americano Morris Swadesh. Pagel explica que a lista contém aproximadamente 200 conceitos descritos por palavras aparentemente em todas as línguas e culturas. Geralmente são palavras para partes do corpo, cores, e parentescos como “pai” e “mãe”. 

Eles procuraram palavras de Swadesh na “Ilíada” e encontraram 172 delas. Em seguida analisaram suas mudanças.

Eles tomaram a língua dos Hititas, um povo que existiu durante a época da guerra que pode ter sido travada, e a Grécia moderna, e rastrearam as mudanças nas palavras do Hitita para o Homérico e em seguida para o grego moderno. É precisamente assim que se mede a história genética de humanos, tomando a origem e verificando as alterações no genoma e a época em que ocorreram ao longo do tempo.

Eles observaram cognatos, por exemplo, palavras derivadas de palavras ancestrais. Existe “water’ em inglês, “wasser” em alemão, “vatten” em sueco, todos cognatos emanando de “wator” em proto-germânico. Noentanto, a palavra “hund” do Inglês Arcaico [Old English] acabou se tornando “hound”, mas foi eventualmente substituída por “dog”, que não é um cognato. 

“Eu sou um teórico evolutivo”, observou Pagel. “Eu estudo linguagens porque elas são um incrível replicador transmitido culturalmente. Ela se replica com uma fidelidade que é simplesmente impressionante”.

Documentando a regularidade de mutações linguísticas, Pagel e os outros conseguiram uma linha do tempo para a história de Helena e dos homens que morreram por ela – a genética se encontra com os clássicos.
Scientific American Brasil

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Notícias História Viva

Arqueólogos búlgaros descobrem cidade pré-histórica mais antiga da Europa

Assentamento de 350 pessoas, com 6700 anos de idade, perto da cidade de Provadia, foi 

um rico centro produtor de sal 

AFP
AP
Restos do muro da cidade pré-histórica encontrada em Provadia, considerada a mais antiga da Europa
Arqueólogos anunciaram a descoberta da cidade pré-histórica mais antiga da Europa no leste da Bulgária, onde foi encontrada também uma arcaica produção de sal, que teria sido a origem de grandes riquezas descobertas no local.
Escavações feitas no sítio, próximo à cidade moderna de Provadia, até agora revelaram os vestígios de um assentamento de casas de dois pavimentos, uma série de buracos no chão usados em rituais, assim como pedaços de um portão, estruturas de uma fortaleza e três muros de fortificação posteriores, todos com datação de carbono referente aos períodos Calcolítico (Idade do Cobre) médio e tardio, entre 4.700 e 4.200 anos antes de Cristo.
AP
Esqueletos de um adulto e duas crianças encontrados no cemitério da cidade pré-histórica descoberta na Bulgária
"Não estamos falando de uma cidade como as cidades-estado gregas, assentamentos antigos romanos ou medievais, mas do que arqueólogos concordam que tenha sido uma cidade no quinto milênio antes de Cristo", afirmou Vasil Nikolov, pesquisador do Instituto Nacional de Arqueologia da Bulgária, após anunciar as descobertas no começo do mês.
Nikolov e sua equipe trabalham desde 2005 em escavações do assentamento Provadia-Solnitsata, situado perto do resort de Varna, no Mar Negro.
Uma pequena necrópole também foi encontrada, mas ainda precisa ser estudada mais a fundo e poderá manter os cientistas ocupados por gerações.
O arqueólogo Krum Bachvarov, do Instituto Nacional de Arqueologia, afirmou que sua última descoberta é "extremamente interessante" devido às posições peculiares de sepultamento e dos objetos descobertos nas sepulturas, que são diferentes dos de outras sepulturas neolíticas encontradas na Bulgária.
"Os enormes muros no entorno do assentamento, que foram construídos muito altos e com blocos de pedra, também são algo que até agora não tinha sido visto em escavações de sítios pré-históricos no sul da Europa", acrescentou Bachvarov. 
Bem fortificada, com um centro religioso e, mais importante, um grande centro de produção para uma commodity específica que foi comercializada por toda parte, o assentamento de cerca de 350 pessoas encontrou todas as condições para ser considerada a mais antiga "cidade pré-histórica" conhecida na Europa, afirmou a equipe.
"Em uma época em que não se conhecia a roda e a carroça, estas pessoas arrastaram enormes rochas para construir muros enormes. Por quê? O que escondiam atrás deles?", questionou Nikolov. 

A resposta é o sal.

Precioso como ouro 
A área é rica em grandes depósitos de sal rochoso, uns dos maiores no sul da Europa e o único a ser explorado até o sexto milênio antes de Cristo, disse Nikolov.

Isto é o que faz de Provadia-Solnitsata um local tão importante.
Atualmente, o sal ainda é extraído no local, mas 7.000 anos atrás, tinha uma importância completamente diferente.
"O sal foi uma commodity extremamente valorizada em épocas antigas, por ser necessário tanto para as vidas das pessoas e como um método de comércio e moeda a partir do sexto milênio a.C. até o ano 600 a.C.", explicou o cientista.
A extração de sal no local começou em 5.500 anos a.C., quando as pessoas começaram a ferver salmoura de uma fonte vizinha em estufas encontradas dentro do assentamento, disse Nikolov, citando os resultados de datação de carbono de um laboratório britânico em Glasgow, Escócia.
"Esta é a primeira vez no sul da Europa e no oeste de Anatólia que os arqueólogos encontraram traços de produção de sal em uma época tão remota, o fim do sexto milênio a.C., e conseguiram prová-la com dados arqueológicos e científicos", confirmou Bachvarov.
A produção de sal saiu do assentamento por volta do fim do sexto milênio e a produtividade aumentou gradualmente. Após ser fervido, o sal era cozido para formar pequenos tijolos.
Nikolov disse que a produção cresceu de forma permanente a partir de 5.500 a.C., quando uma carga das estufas de Provadia-Solnitsata rendia cerca de 25 quilos de sal seco. Por volta de 4.700 a 4.500 a.C., este volume tinha aumentado para 4.000 a 5.000 quilos de sal.
"Em uma época em que o sal era tão precioso quanto o ouro, você imagina o que isto significou", afirmou.
O comércio de sal deu à população local grande poder econômico, o que poderia explicar os bens em ouro encontrados em seputuras da Necrópole de Varna e que remontam a 4.300 a.C., sugerou Nikolov.http://ultimosegundo.ig.com.br

terça-feira, 23 de julho de 2013

O portão de Plutão?

Arqueólogos italianos podem ter encontrado uma porta para o ‘mundo inferior’,descrita em históricos textos gregos e romanos.

O portão de Plutão?
Uma simulação digital de como seria a recém-descoberta 'Porta do Inferno' nos tempos do Império RomanoO local era rota de peregrinação naquela época. (imagem: Francesco D'Andria)
Cientistas italianodescobriram a porta para o ‘inferno’. Calma, não se trata de um sinal do apocalipse. Na verdade, um grupo de arqueólogos italianos encontrou ruínas de um antigo templo que a tradição romana diz abrigar um portal para o mundo inferior,o hades. 
Segundo registros históricos, qualquer animal que entrasse nolocal, cheio de um vapor nebuloso edenso, encontrava a morte instantânea 
Segundo escritode cerca de dois mil anos, esse templo estaria localizado próximo à antiga cidade romana de Hierápolis (perto da atual Pamukkale, na Turquia). Dedicado aHades (Plutão) e Perséfone (Core), ele abrigaria uma espécie de caverna com vapores altamente mortais, a tal ‘porta do inferno’ – descrita pelo historiador gregStrabo como um local "cheio de um vapor tãnebuloso e denso que dificilmente era possível ver o chão" e no qual "qualquer animal que entre encontra a morte instantânea". 
Lugar bacana, não é? Pois bem, naqueles tempos a cidade estava na rota de muitos peregrinos que circulavam pela região. Conforme o arqueólogo Francesco D'Andria, da Universidade de Salento (Itália), declarou ao Discovery News, a maioria dos visitantes do templo vinha em busca da água da fonte existente no local, capaz de produzir profecias e visões em sonhos – e ainda aproveitava as fontes termais das proximidades
descoberta do complexo foi feita a partir da reconstrução das rotas para essas fontes. Em meio às muitas ruínas do local, os italianos identificaram um templo dedicado às deidades do hades e evidências arquitetônicas que batem com as descrições históricas. 
Portão de Plutão
O sítio encontrado pelos arqueólogos apresenta características muito semelhantes ao local descrito nos textos históricos. As inscrições indicam um templo dedicada Hades (Plutão) e Perséfone (Core), senhores do mundo inferior. (foto: Francesco D'Andria)
Fora seu aspecto místico, a letalidade da caverna era quase ‘turística’: os pesquisadores explicam que, apesar de serem proibidode se aproximar da entrada,os peregrinos assistiam aos ritos dodegraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais. 
Os peregrinos assistiam aos ritos dodegraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais 
Os sacerdotes também bebiam da água alucinógena e sacrificavam touros em honra a PlutãoOs próprios arqueólogos comprovaram os efeitos dos vapores durante as escavações: diversos pássaros que se aproximaram da abertura quente morriam imediatamente coo vapor tóxico
Segundo D'Andria, a descoberta é excepcional por confirmar informações que só existiam em fontes históricas muito antigas. Ele explica que o templo era popular até o século 4 e foi visitado até o século 6. Coo crescimento dcatolicismo, no entanto, acabou abandonado– e, posteriormente, destruído por terremotos e intempéries. 
Os pesquisadores trabalham, agora, na reconstrução digital do local. Essa não foi a primeira descoberta polêmica e mística do grupo: dois anos atrás, eles anunciaram ter encontrado, na mesma regiãoum túmulo que pode ter pertencido ao apóstolo Felipe, um dos doze discípulode Jesus Cristo, segundo a Bíblia.

Porta dos fundos?

Saindo um pouco da mitologia e da antiguidadeo nosso mundo já possui outra ‘porta para o inferno’, essa bem mais moderna. Localizada não muito longe dali, na região deDerweze  (ou Darvaza), no Turcomenistão, ela arde em labaredas incandescentes desde a década de 1970. No entanto, muito longe de ser obra de algum deus da antiguidade, esse portão em pleno deserto de Karakum é fruto da ação humana.
Derweze
No deserto do Turcomenistão, uma outra 'porta para o inferno', que nada tem a ver codeuses antigos, mas com a economia moderna. (foto: Wikimedia commons)
No início da década de 1970, a então União Soviética pretendia explorar os ricodepósitode gás natural da região. Quando o chão abaixo da plataforma de perfuraçãcedeu, criou um buraco de cerca de 70 metrode diâmetro que liberava gás natural na atmosfera. Para prevenir seus efeitos tóxicos, os geólogodecidiram que a melhoopção seria ‘tacar fogo em tudo’, na esperança de que, em algumas semanas, reservatório se esgotasse. Resultadoo regime comunista acabou, a União Soviética se esfacelou e o nosso ‘inferno moderno’ continua a arder e a espalhar um forte odor pela região
Apesar de nenhum templo ter sido construído e de ninguém sacrificar touros por lá, Darvaza se tornou também uma atração turística – até a tribo que habitava a região foi expulsa de lá em 2004, para não ‘incomodar’ os visitantes. Desde 2010 o governo dpaís vem buscando formas de fechar a porta ou ao menos limitar a sua influência ndesenvolvimento de outros campode extração de gás natural na região

Marcelo Garcia 
Revista Ciência Hoje