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domingo, 19 de junho de 2011

Lições e desvios da moral

A dívida em relação ao passado se impõe. Somos solicitados a honrar uma certa memória para que sejamos responsáveis por ela, porém o convite tende a metamorfosear-se em imperativo e a responsabilização em culpa

por Samuel Tomei

Como divindades infernais encarregadas da vingança dos deuses, os editorialistas, especialistas e políticos convocam constantemente a História a serviço de uma moral ameaçadora. Periodicamente, colocam-nos alerta, por exemplo, contra o aparecimento de um novo Hitler: Gamal Abdel Nasser, em 1956, Saddam Hussein, em 1991, e mais recentemente Slobodan Milosevic. Contudo, na história, a comparação nem sempre tem, necessariamente, a força da razão. Na época da intervenção em Kosovo, nossos arautos repetiam, como papagaios, propagandas imutáveis, sem demonstrarem lembrar grande coisa das supostas lições do passado. O moralismo fundado sobre a história, nas mídias ocidentais, é exatamente o contraponto à "Voz da Rússia", monoliticamente pró-Sérvia.

Se a tentativa de instituir o passado como guia de boa conduta para o presente demonstra uma intenção louvável, o apelo ao dever de memória, que supostamente nos responsabiliza pelo que permitiria compreender a realidade, conduz à discordâncias.

Desvios do dever de memória Segundo Paul Ricoeur, a exortação de Israel ? Izkor (Lembra-te) ? é uma invocação, não uma ordem. Da invocação à lembrança, se passaria pela intimação
A prática do dever de memória é indispensável à manutenção da unidade de um grupo, conferindo-lhe coerência de valores, normas comuns. Sua invocação baseia-se na moral; a memória comum é nosso código. O dever de memória invoca a religião. Ora, como observa Serge Bernstein: "Qualquer sistema que deseje atingir uma certa estabilidade deve resgatar algo de religioso1" Nesse contexto, podemos entender o "religioso" nos dois sentidos que sugere a etimologia ambivalente do termo. Religioso no sentido de relegere (Cícero), tornar a ler o passado, e também reler no sentido de reinterpretar: a causa é, aqui, a manutenção da coesão social através da definição de uma identidade comum ? religare, religar (Lucrécio). O dever de memória, ou culto de uma memória que nos deve ser comum, é, do ponto de vista de qualquer poder, o princípio de coesão por excelência. A memória coletiva deve, para constituir-se, ser inteligível e libertar-se de qualquer trabalho crítico, sob pena de perder sua função: "Ela escolhe o que lhe interessa na matéria histórica" ? escreve Mona Ozouf2 - "dando-se o direito de isolar tal episódio revelador, de fixar-se em núcleos temporais, e ao mesmo tempo ignorar longas seqüências." Logo, ela também se estabelece através de silêncios obrigatórios3. Ela homogeneíza e tende a dissolver o indivíduo no grupo.

Segundo Paul Ricoeur, a dívida em relação ao passado se impõe; ele salienta que a exortação de Israel ? Izkor (Lembra-te) ? é uma invocação, não uma ordem. Ora, da invocação à lembrança, teríamos passado à intimação4. Somos solicitados a honrar uma certa memória a fim de sermos responsáveis por ela, porém o convite tende a metamorfosear-se em imperativo e a responsabilização em culpa. Os desvios recentes do dever de memória foram analisados e denunciados com força e fineza por Pierre Nora e Henry Rousso: "Quando o dever de memória se transforma em moral de substituição, e pretende erigir em dogma a consciência permanente, imprescritível e universal do crime cometido, chega a um impasse. [...] A moral, ou melhor, o moralismo, não combina com a moralidade histórica. Para conservar sua força de edificação, o dever de memória acaba falsificando os fatos [...].5"

Colonização a ferro e fogo Se os intelectuais denunciam as distorções da "realidade histórica", eles defendem uma memória tão seletiva e moralizadora quanto a que rejeitam
Ora, ainda que alguns intelectuais denunciem as distorções que o dever de memória impõe à "realidade histórica", eles o fazem para defender uma memória não menos seletiva e tão moralizadora quanto a que rejeitam. Condenam a mistificação da memória republicana, por exemplo ? que não pode ser negada ?, menos para buscar uma aproximação com a verdade do que para degradar a República em seu princípio.

Dois exemplos: dever de memória em relação aos povos oprimidos por uma República colonizadora amnésica; e dever de memória em relação a povos reprimidos por uma República jacobina.

As revelações do general Aussaresses admitindo ter torturado na Argélia causaram indignação, e com justa razão. Só poderíamos acolher seu testemunho com repulsa, ainda que confirme o que é amplamente conhecido e denunciado desde a época em que os fatos ocorreram6. Esse caso permitiu que alguns comentaristas provocassem uma discussão mais ampla sobre o colonialismo francês, considerado como um "impensado da história da França", como se não fosse abundante a literatura sobre a questão. A lógica é simples: a República colonizou a ferro e fogo, ultrajou seus princípios e deve arrepender-se; ela está desqualificada.

A "culpabilização" hipócrita
A realidade é menos simples. O colonialismo não nasceu com a República. E, se o direito e o dever das raças pretensamente "superiores" de civilizar as raças supostamente "inferiores" encontraram um advogado apaixonado em Jules Ferry ? cujo governo caiu devido à questão colonial ? devemos lançar ao esquecimento a tradição, ainda que minoritária, porém combativa, de um anticolonialismo arraigadamente republicano? Basta lembrar o longo discurso de Georges Clemenceau em 30 de julho de 1885, que combate o argumento vazio do princípio da colonização: "Não, não existe o direito de nações supostamente superiores contra nações inferiores." E o chefe radical coloca-se na mesma linha dos revolucionários de 1789: de 7 a 15 de maio de 1791, a Constituinte debateu as colônias e concedeu direitos políticos aos homens de cor nascidos de mães livres. Em 16 do Pluvioso7 do ano II (4 de fevereiro de 1794), a Convenção aboliu a escravidão, restabelecida, depois, por Bonaparte, em 1802. E a Constituição Republicana de 1848 proclamou: "A República não pretende mais fazer distinções entre a família humana."

As recentes revelações do general Aussaresses permitiram que alguns comentaristas provocassem uma discussão mais ampla sobre o colonialismo francês
Marc Ferro acentua a existência "de um escândalo da colonização. Na Indochina, na África, a República traiu seus valores. [?] Contudo" ? acrescenta ? "hoje reina uma espécie de "culpabilização" que me choca ainda mais pela reação de uma parte da opinião pública, que reage como se tudo lhes houvesse sido escondido. Não é verdade. Nos manuais da minha geração, no período entre guerras, estava escrito com todas as letras que, na Argélia, Bugeaud queimava os douars8 em massa e que Gallieni, em Madagascar, passava vilarejos inteiros a fio de espada."

A vez do colonialismo interno
Segundo o coordenador dos Annales, se a integração não existia socialmente, professores, mestre-escolas e médicos, "realizaram uma obra de que não têm do que se envergonhar9". Da mesma forma, Charles-Robert Ageron dedica-se minuciosamente a desconstruir "esse falso mito da Exposição de 1931, lugar de memória da República e apogeu da idéia colonial republicana. O esquecimento, a ignorância, a nostalgia, e até, para algumas pessoas, a habilidade política, puderam tornar essa fábula crível10". Mais uma vez, o dever de memória a que somos levados não passa do negativo da memória colonial, limitando-se a apresentar os supostos benefícios da expansão francesa. A moral que daí se depreende não tem nada de melhor.

Depois de incriminar a expansão externa, faz-se o mesmo com o colonialismo interno. De forma que, principalmente a partir da comemoração do bicentenário da Revolução Francesa, cresce a propensão de fustigar um certo jacobinismo republicano em nome da memória das minorias regionais oprimidas; alguns historiadores, como Pierre Chaunu, de forma um tanto provocadora, sem dúvida, chegam a falar do "genocídio" cometido na Vendée11 pela República: "Nunca tivemos uma ordem escrita por Hitler a respeito do genocídio judaico, mas possuímos as de Barère e de Carnot com respeito à Vendée12."

A intensidade trágica da História O esquecimento, a ignorância, a nostalgia ? e até, para algumas pessoas, a habilidade política ? puderam tornar crível a fábula da Exposição de 1931
Outros tentam difamar uma memória republicana apresentada de maneira simplificada, com traços de um jacobinismo autoritário, defendida ardorosamente por uns poucos nostálgicos, sobreviventes de uma França rançosa, a "France bolorenta", na expressão de Philippe Sollers. Essa velha França se enrugaria numa memória condenada: "em tempos de Internet" (comentário inevitável!), como ousar o ridículo de defender noções tão desgastadas como nação, república, escola laica, ou mesmo como ousar desconfiar de corpos intermediários, como tantos feudos potenciais, contrários ao princípio de igualdade? Só Maurras pregava, em nome da tradição, a volta desses corpos intermediários (corporações, províncias...) e rejeitava o estatismo, a centralização administrativa.

Não é possível fundar uma moral sobre uma memória unívoca. Ora, o trabalho histórico destrói a idéia da univocidade dos fatos; se a memória não se perturba com as nuances, a história deve sacrificar-se a elas. O desvio do dever de memória defende o trabalho histórico. Já em 1865, Edgard Quinet tentava "trazer o espírito crítico à história da Revolução, pois muita gente quer fazer dela um livro fechado a sete chaves em que não se pode tocar13". Se, atualmente, a tentativa é de pôr a história a serviço da memória, o autor de La Révolution já procurava libertar um pouco a história da memória, dando ao trabalho histórico uma base crítica. A história deve desmitificar, desmistificar. Diante do caráter "religioso" do dever de memória, a história seria uma operação de "laicização" da memória, relegando ao passado comum toda sua relatividade.

Enquanto não se quiser compreender que o esforço de contextualizar, de submeter incessantemente um acontecimento histórico à crítica, não é diminuir sua eventual intensidade trágica, estará sendo invocado, peremptoriamente, um dever de memória em detrimento da pesquisa permanente, assimptótica e difícil da verdade. Explicitar não é justificar. Jean-Noël Jeanneney salienta que "pode-se dizer que cabe justamente aos historiadores defenderem os atores contra o fascínio das repetições, lembrando que nada recomeça de forma idêntica e que a seqüência é sempre nova14". No entanto, isto não significa que não exista nada a ser aprendido com o estudo da história, ainda que apenas um instrumento de decifração aproximativa da complexidade do mundo. (Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Serge Bernstein, La République sur le fil, ed. Textuel, Paris, 1998, p. 52 2 - Ler entrevista de Mona Ozouf a Jean-Françosi Chanet,, "Le passé recomposé", Magazine littéraire nº 307, fevereiro de 1993, p. 93. 3 - Ler, de Jean-Noël Jeanneney, La République a besoin d?Histoire, col. Interventions, ed. Seuil, Paris 2000. 4 - Ler, de Paul Ricoeur, "La mémoire heureuse", Notre Histoire, setembro de 2000. 5 - Ler, de Henri Rousso, La hantise du passé, ed. Textuel, Paris, 1998, pp 44-45; e também, de Eric Conan e Henry Rousso, Vichy, un passé que ne passe pas, Paris 1996. 6 - Ler artigos de Pierre Vidal-Naquet, e também a edição de 21 de maio de 2001 de Le Monde, que publicou algumas cartas de Hubert Beuve-Méry ao ministro-residente Robert Lacoste. 7 - N.T.: Quinto mês do calendário republicano. 8 - N.T.: Pequenos acampamentos de nômades, comuns no Norte da África. 9 - Ler, de Marc Ferro, "La République a trahi ses valeurs", Les Collections de l?Histoire n°11, abril de 2000, p.9. 10 - Ler, de Charles-Robert Ageron, "L?Exposition coloniale de 1931, mythe républicain ou mythe impérial?", in Les lieux de mémoire, organizado por Pierre Nora, Paris, ed. Gallimard (Quarto), 1997, vol. I, p.493-515. 11 - N.T.: A Vendée
Le Monde Diplomatique Brasil

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A grande colméia humana

Através da história, as sociedades vêem
a atividade das abelhas como espelho – ou
utopia – de si próprias

Okky de Souza

As abelhas sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. Não tanto por produzirem o mel, uma das delícias da natureza, mas, principalmente, pela organização que rege a vida das colmeias. Nelas, a abelha rainha é alimentada por 50.000 abelhas operárias e voa uma única vez na vida para copular com uma dúzia de zangões, cujo esperma retém por várias semanas e que serve para fertilizar 15 000 ovos. As operárias, por sua vez, se dividem entre vários serviços ao longo da vida – desde recolher o pólen nas flores até cobrir as larvas com cera para mantê-las aquecidas – sem que ninguém lhes precise dizer que é hora de mudar de tarefa. Essas e muitas outras atividades que uma colmeia envolve se sucedem com tanta precisão que é inevitável comparar a faina das abelhas com a dos seres humanos. A historiadora inglesa Bee Wilson, da Universidade de Cambridge, nota que essa comparação tem sido feita exaustivamente através dos séculos. Todas as sociedades ocidentais desde a Grécia antiga enxergaram a colmeia como microcosmo de si próprias, como espelhos – ou utopias – de suas formas de governo, de sua política, de sua economia e das relações entre os sexos em suas organizações familiares.

As observações de Bee Wilson encontram-se em seu livro recém-lançado na Inglaterra, The Hive: the Story of the Honeybee and Us (A Colmeia: a História das Abelhas e de Nós), um passeio delicioso pelo fascínio da humanidade por aquilo que o poeta romano Virgílio definiu como "pequenas repúblicas de grandes líderes". Os romanos referiam-se à maior abelha da colônia como rex, dux, imperator ou ductor – termos que significam chefe ou imperador. Desde então, através dos tempos, o sistema que rege a colmeia já foi definido como monarquia, oligarquia, aristocracia, império e ditadura comunista, entre outras tantas formas de governo. "Como acontece no mundo dos fenômenos políticos, cada um enxerga a colmeia da maneira que lhe convém", escreve a historiadora. Na Idade Média, a colmeia foi definida pelos apologistas do feudalismo como uma comunidade regida por um rei a que todos os trabalhadores admiravam, um rei tão misericordioso que, mesmo possuindo um ferrão, jamais o usava para subjugar seus súditos. Até então, pensava-se que a abelha rainha era um macho.

Na Europa do século XVIII não só se descobriu que o manda-chuva da colmeia era fêmea como a metáfora entre abelhas e seres humanos atingiu seu ápice. Depois que a Revolução Francesa enxotou a monarquia, instituiu-se a crença de que, se a colmeia era uma monarquia, era uma monarquia republicana, nunca absolutista. O trabalho incessante das abelhas operárias não mais significava obediência cega à rainha, mas demonstração de virtude republicana. Anos depois, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder, pediu sugestões para novos símbolos que representassem o império. O Conselho de Estado propôs que fossem escolhidas as abelhas, que simbolizariam "uma república com um chefe", dotadas de ferrões mas capazes de produzir mel.

Os conselheiros de Napoleão sabiam que esses insetos eram símbolos dos reis do Egito e que 300 abelhas de ouro foram encontradas na tumba do rei Childéric, precursor dos monarcas franceses. As abelhas, portanto, serviam para tornar mais crível a transformação do filho de um advogado da Córsega, cujo nome original era o italianíssimo Buonaparte, no mandatário supremo da França. As novas roupas do imperador foram cobertas de imagens de abelhas, assim como os panos decorativos que pendiam da Catedral de Notre Dame no dia de sua coroação. Posteriormente, a águia se tornaria o emblema do imperador francês, mas as abelhas continuaram a ter lugar de honra entre os símbolos da pátria – assim como no imaginário humano em todas as épocas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Rindo da história


Quatro séculos de Brasil nos versos de Murilo Mendes
Marcello Scarrone

O que é isso? Tiradentes numa cadeira elétrica, Antônio Conselheiro enfiado na igreja por seis meses enquanto o Exército dispara tiros contra Canudos, Pinzón é quem descobre o Brasil, mas a colônia portuguesa paga o Caminha para difundir outra versão? A história nacional virada de cabeça pra baixo, seus protagonistas retratados de forma irônica e irreverente, os fatos mais importantes revisitados com humor!

Quando Murilo Mendes publica, pela Editora Ariel, sua História do Brasil (1932), o país vive o momento dramático da luta sangrenta entre os paulistas e o governo federal, que se seguiu ao golpe de 1930. Talvez por isso a releitura leve e fantasiosa dos fatos nacionais feita pelo poeta mineiro não encontrou muito sucesso na época. Conservado na Divisão de Obras Gerais da Biblioteca Nacional, o livro, que só voltou a ser editado em 1991, exibe uma linda capa de Di Cavalcanti, na qual desfilam diante dos nossos olhos índias, imperadores, presidentes e outros personagens da história pátria.

compõem seu livro, passa de um assunto a outro, de um acontecimento a outro, fazendo os leitores sorrirem e pensarem. Da divisão das capitanias, descrita como se fosse a partilha do país nas mãos das multinacionais, à ambígua decisão de D. Pedro I no fatídico dia (“Eu fico, mas vou/falar com a marquesa./Já volto pra ceia./Falando em comidas/eu fico, pois não”). “O farrista” é o apelido dado ao anjo protetor do país e sempre ausente (“Quando o almirante Cabral/ pôs as patas no Brasil/o anjo da guarda dos índios/estava passeando em Paris/Quando ele voltou de viagem/o holandês já está aqui”), enquanto todo o Segundo Reinado é condensado numa rápida e arguta pincelada (“Uma vasta sonolência/invade toda a fazenda/O imperador de pijama/lê o Larousse na rede/O fato é que com essa calma/ cinqüenta anos se agüentou”).


Raro como edição, o livro é único (ou quase) dentro da produção do autor, que a partir de 1934, tocado pela morte de um amigo, se volta para o catolicismo e para uma poesia de sabor místico e espiritual, mais densa e profunda. A leveza irreverente de História do Brasil é quase renegada pelo poeta em anos posteriores, a ponto de ser excluída por ele próprio da edição completa de suas obras em 1959, por seu conteúdo “menor”. Mas aqueles versos permanecem como testemunho de amor ao país e como “um dos poucos livros nossos em que se afirma uma forte simpatia pelos oprimidos”, nas palavras do crítico Mário Pedrosa.


Entre ‘o café dos Emboabas’ e ‘o chicote de João Candido’, há espaço ainda para ‘os pombos do Pombal’ e ‘o tango de Solano Lopez’. O momento mais alto da poesia muriliana talvez se encontre na descrição da ‘força do Aleijadinho’: “A mão doente parou, / ficou suspensa no ar, / inutilizada no ar / (...) / A esculptura bem que pede / uma força bem maior / (...) / Então de dentro do corpo / do homem disforme e triste / sae uma boca de fogo, / sopra no corpo da estatua / que respira já promptinha / dá um abraço no esculptor”. E o ponto mais agudo de sua crítica às instituições e aos políticos em ‘Linhas Paralelas’: “Um presidente resolve / construir uma boa escola / numa vila bem distante. / Mas ninguém vai nesta escola: / não tem estrada pra lá. / Depois ele resolve / construir uma estrada boa / numa outra vila do Estado. / Ninguém se muda pra lá / porque lá não tem escola”.


Mas com certeza todo o humor e a ironia do poeta, nos moldes da melhor produção modernista, concentram-se no poema-piada ‘Homo Brasiliensis’, que proclama em alto e bom tom: ”O homem é o único animal que joga no bicho”.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 23 de março de 2009

Lenin - o revolucionário discreto

Intelectual por excelência, o líder da Revolução Russa mudou o curso do mundo no século XX. Era avesso a qualquer ostentação: quando passou a morar no Kremlin escolheu um modesto aposento.
por Arthur Conte

Lenin, durante uma entrevista em Moscou pouco antes de sua morte, ocorrida em 1924

"SÓCRATES PROCLAMADO REI." Assim é possível resumir , com uma metáfora, a longa e taciturna vida, apenas no final marcada por alguns anos cintilantes de Vladimir Ilitch Ulianov, que marcou seu nome na ´história com Lenin, filósofo, polemista e revolucionário de gabinete, um dia consagrado Czar. Durante 40 anos - de aproximadamente 1877, quando tinha 17 anos e tomou partido do marxismo contra os antigos regimes até 1917, quando foi chamado para dar " o último golpe" contra a dinastia dos Romanov -, sua existência se resume a uma única imagem: o homem que permanece sentado rascunhando enquanto sua companheira, Nadjeda Krupskaia, organiza fichas.

Aos 20 anos, Lenin já era o que seria 40 anos mais tarde: a aparência envelhecida, a silhueta magra e pequena, o paletó lustroso nos cotovelos, as botinas gastas, a cabeça grande demais para ombros tão estreitos, a fronte ossuda e os olhos mongólicos. Ele tinha crises de riso nervoso e uma voz rouca, cortando as sílabas e cindindo as frases. Sofria de uma timidez prodigiosa, que só superava por uma energia prodigiosa. E, para completar, Lenin, no início de sua carreira política, ainda era ofuscado por um combatente brilhante. Fazia-lhe sombra seu irmão Alexandre, "Sacha", quatro anos mais velho, um personagem surpreendente, que organizou um atentado contra o czar, mas foi preso antes de realizar seu intento. Julgado, foi condenado à morte e enforcado aos 23 anos de idade.

Lenin - que nasceu em 22 de abril de 1870, o quarto filho entre os seis do casal llia Ulianov e Maria Alexandrovna Blank - era taciturno perto de Georgi Valentinovitch Plekhanov, intérprete inconteste do marxismo durante longas estações e papa respeitado do socialismo russo. Da mesma forma parecia, perto do jovem Lev Davidovitch Bronstein, a quem chamavam Leon Trotski, e que, com um gênio excepcional e um talento para a história, organizou o supremo combate contra os palácios imperiais, depois forjou o Exército Vermelho. Sua companheira, Krupskaia, também era taciturna. À época do casamento, durante o exílio a que ele foi forçado na Sibéria, ela completara os 27 anos de idade - um a mais que o marido. Filha da pequena nobreza arruinada, ela e a mãe precisaram alugar quartos para sobreviver. Krupskaia foi apresentada a Lenin em 1893, em Okhta, em meio a uma festa, numa noite de carnaval. Foi tomada de admiração por aquele "revolucionário muito culto", autor de uma notável Discussão entre um social-democrata e um populista, inimigo dos hipócritas gentis e irmão de Alexandre Ulianov, que fora enforcado.

Lenin, que resistia a outro envolvimento amoroso porque não queria que nada o distraísse da revolução, sentiu-se à vontade diante dessa intelectual enérgica, professora na escola do bairro Smolensk, em Petrogrado e dirigente de círculos operários na periferia da porta Nevski. Seguro de sua dedicação à causa popular e de seu incontestável talento para reunir artigos e fichários, ele a contratou como sua secretária particular. Ela era taciturna, robusta, com gestos lentos e o rosto redondo e plácido, segura de si, os lábios grossos que mal sorriam.

Krupskaia foi sempre, mais do que esposa, mãe e irmã para Lenin. Eles se irmanavam no culto revolucionário, no ódio ao czarismo, na guerra contra a injustiça, na certeza de que "o primeiro inimigo é a burguesia". Ficava maravilhada ao observar o interesse dele pelo menor detalhe que fosse da vida operária, no afã de reunir tudo o que lhe rendesse uma visão do conjunto do cotidiano proletário, de maneira a descobrir "o melhor ponto pelo qual a propaganda revolucionária podia penetrar".

Lenin, por sua vez, ficou satisfeito ao encontrar alguém que cuidasse dele. Quando criança e jovem, foi sempre coberto de pequenos cuidados pela mãe, Kaia, e os mimos adoráveis continuavam. Além disso, sendo Krupskaia a melhor secretária do mundo, tornou-se para ele indispensável. Sempre esteve ao lado dele, até a morte.

Uma única pessoa esteve perto de abalar essa tranqüila relação: a ardente Inês Armand, de rosto lindo e luminoso, durante seu exílio em Paris, principalmente nos anos 1909 e 1910. Ela era filha de uma atriz com um cantor de ópera. Criada por uma tia em Moscou, Inês Armand falava francês, inglês, russo e alemão. Ao piano, ela interpretava, diziam alguns, Chopin, Bach, Mozart. Chegou à revolução movida por uma extrema piedade pela condição operária, apesar de ser casada com um homem da alta burguesia. Tornou-se bolchevique lendo a obra de Lenin.

Nenhuma grande provação
Lenin passou a apreciar de forma mais do que racional aquele ser excepcional, que sabia aliar beleza e inteligência, energia e charme, sentido estético e dialética revolucionária. Krupskaia teve de lançar mão de toda sua paciência para contornar o problema. Passada a crise, a união do casal retomou toda a força. "Nosso casamento é um verdadeiro casamento pequeno-burguês", admitiu Lenin. O que importava mesmo era dedicar-se ao trabalho, à revolução. O único descanso autorizado pela dialética foi, em Paris, pedalar aos domingos nos campos da Île-de-France, ou, na Suíça, sair alguns dias, com uma mochila, pelas montanhas. Lenin parece velho tão precocemente que, aos 24 anos, os revolucionários do exílio o apelidaram de Stark, o Antigo. Foi, talvez, essa velhice que o preservou das tempestades vãs.

Além de não fazer questão de ser um herói, Lenin desprezava tudo o que pudesse levar a crer que o fosse. Ele nunca passou nenhuma provação terrível, coisa que, aliás, enfatizou cruamente. Preso em dezembro de 1895 por ter publicado um jornal subversivo, A causa dos trabalhadores, depois de passar um ano numa prisão de Petrogrado, escreveu francamente à irmã: "Pena já nos relaxarem, gostaria de terminar meus trabalhos". Repetiu essa mesma expressão muitas vezes. As prisões czaristas estavam, pois, longe de prefigurar um inferno. Os detentos políticos podiam ler à vontade, escrever o que queriam e até se dedicar a pesquisas eruditas. O jovem Ulianov não se privou de nada disso. Jamais se queixou das condições em que permaneceu encarcerado. Ao contrário, dizia à mãe: "Tenho tudo de que preciso e até mais". Naquele período, ele pôde dividir bem seu tempo entre os cuidados com o físico, o estudo de línguas e o trabalho; recebia tantas guloseimas e presentes que podia sonhar em "desbancar a cantina oficial".

Os três anos de exílio na Sibéria não foram mais severos: tendo chegado em maio de 1897 à sua residência forçada, em Chuchenskoie, Lenin escreveu que em casa sempre dormia "esplendidamente todas as noites". Descrevia a região como salubre e agradável; "o ar é bom, fácil de respirar", eis por que o lugar era chamado de "Itália siberiana". Ele dispunha de um quarto confortável numa casa campestre limpa. Os camponeses que o alojavam tinham todo o cuidado ao preparar suas refeições, lavar e arrumar suas roupas.

Abastecido de livros e documentos por Krupskaia, podia tranqüilamente continuar redigindo "tratados, artigos, obras". Traduziu em ritmo lento A teoria e a prática dos sindicatos ingleses, de Sydney e Beatriz Webb; recebia uma mensalidade do Estado para suas despesas pessoais; podia caçar em qualquer recanto da província, livremente. Comemorava Natal e Páscoa em companhia de outros exilados, fazia longos passeios aos arredores com seus novos amigos, entre os quais se incluía um operário finlandês.

Quando também Krupskaia foi presa, Lenin conseguiu sem dificuldades que, em vez ser exilada no norte da Rússia, como previsto pelas autoridades imperiais, ela fosse enviada a Chuchenskoie, para "encontrar seu noivo". Ao juntar-se a ele, veio acompanhada da mãe, Elisabeth Vassilievna, que permaneceu junto do casal por longos anos, encarregando-se de cozinhar. Krupskaia trouxe uma coleção inacreditável de livros, jornais, dicionários e gramáticas, mas também não esquecera de incluir na bagagem o chapéu de palha de Vladimir, um jogo de xadrez e um paletó de couro para a caça. Ao vê-lo, a futura sogra comentou, surpresa: "Meu Deus, como você engordou".

O casamento, muito burguês e ritual, foi celebrado em julho, e eles já começaram a trabalhar juntos, em especial na polêmica contra Edouard Bernstein (executor testamenteiro de Friedrich Engels, morto em 1895, que pretendeu "revisar", "modernizar" o marxismo), e a preparar a edição de um poderoso jornal socialista em toda a Rússia. Enfim, as cenas desse período são opostas às de uma prisão. Quando Lenin deixou Chuchenskoie, saiu vestido com um belo casaco de pele e equipado com uma valise suntuosa.

A persistente propaganda
Como Lenin não gostava do confronto direto e físico, evitava militar no território da Rússia, como fez, na mesma época, um terrorista da Geórgia, nove anos mais novo do que ele. Tratava-se de Iossif Vissarionovitch Djougatchvili, que preferia ser chamado de Koba - alguém que a história registraria como Stalin. Aos riscos da vida clandestina, Lenin preferiu a tranqüilidade do exílio: Paris ou Londres, Munique ou Lausanne. Ele se petrificara sob a segurança e a silhueta de um simples funcionário que ninguém notava; de terno sempre escuro; bem barbeado, de bigodes caídos e olhos semicerrados. Funcionário do Marxismo e Cia. Taciturno, sempre taciturno. Fiel a esse estilo, preparou a revolução considerada como a mais espetacular de todos os tempos, com atividades de gabinete: escrevia, rascunhava, rasurava. Nada de heroísmo nem de equipe, em momento algum.

Ora lembra o rato de biblioteca, gordo e de dentes afiados, que rói pacientemente a casa, ora a aranha tecendo a teia. Muito cedo, unidades do jornal socialista Iskra, que ele dirigia, foram criadas na Europa e em toda a Rússia; imprensas socialistas de inspiração leninista surgiram em Petrogrado, Bakou, Novgorod. Redes clandestinas eram pacientemente organizadas para encaminhar o correio entre o exílio e a clandestinidade: Toulon-Alexandria-Odessa ou Anvers-Estocolmo-Vilna; refúgios para os siberianos foragidos foram instalados nas principais capitais européias.

Grandes chefes socialistas, como Axelrode Pavel e Yuli Osipovich Martov, tinham de passar por seu intermédio para se corresponder com as células do Cáucaso, da Sibéria e da Rússia Branca. Ele pusera em funcionamento um vasto e eficaz aparelho que seria fundamental nos momentos históricos. Enquanto aguardava o tempo certo para a ação, contribuía poderosamente para expandir, com palavras de ordem, sua lenda de pai da revolução.

Há momentos em que lembra a formiga. Como no texto: "Eu afirmo: que nenhum movimento pode ser duradouro sem uma organização estável de chefes para manter-lhe a continuidade; que quanto mais as massas estiverem integradas na luta para constituir a base do movimento, mais é necessário ter tal organização e esta deve ser estável; que a organização deve ser composta essencialmente de pessoas que fazem da revolução um trabalho; que, num país de governo despótico, quanto mais limitarmos os membros dessa organização àqueles que fazem da revolução um trabalho... mais difícil será descobrir essa organização e maior será o círculo de homens e de mulheres pertencentes à classe operária ou às outras classes da sociedade em condições de ligar o movimento e de executar um trabalho ativo".

Uma formiga não esquece, principalmente, de acumular provisões. Lenin monopolizava todas as cotizações. Enquanto, para sobreviver, Georgi Valentinovitch Plekhanov precisava copiar endereços, Axelrode Pavel vender iogurtes, Leon Trotski fazer trabalhos artesanais, ele só podia se apoiar no movimento, portanto no sucesso da revolução. O segredo era a repetição, marcada pelo apelido magnético, descoberto em Londres no final de 1901, e formado, por contração, a partir de um primeiro apelido. Iliine, por sua vez resultante da junção de Ilitch e Ulian, derivado de Ulianov. A consolidação desse nome aconteceu de uma forma rígida, insistente, monótona, como uma ladainha. Por trás dos golpes mil vezes desferidos pelas mesmas palavras, um estilo, portanto, encontra-se sempre a mesma mão, o mesmo cérebro, o mesmo sistema e a mesma irresistível atração.

A revolução bolchevista, sob a luz dos ideais marxistas, foi a grande vitória desse rato, dessa aranha e dessa formiga. Ele mesmo, petrificado pela Medusa de seu sucesso, no dia em que a vitória foi consagrada, em Petrogrado, murmurou a Trotski: "Estou com a cabeça girando!" É possível, afinal ele tinha diante dos olhos o inacreditável. Da mesma forma, parecia sobretudo incrível que chegasse ao poder, antes trono, de uma das mais potentes autocracias de todos os tempos aquele homem de aparência modesta, a boca amarga, sacudido cada vez mais por um riso nervoso sempre mais difícil de reprimir, ainda que tivesse mostrado uma inigualável perseverança e uma incomparável paciência.

Aliás, no palácio, Sócrates continua sendo Sócrates. Taciturno. Poderoso sem ostentação. Lenin transferiu a capital de Petrogrado para Moscou e viveu no Kremlin. Escolheu um aposento antes ocupado por um serviçal. Tinha uma empregada, Olympiada Jouraslova, ex-operária de fundição, sob a justificativa de que era dotada de um "poderoso instinto proletário". Ele se instalara num escritório estritamente funcional, sem cortinas, desprovido do luxo característico dos que os capitalistas ocupavam. Trabalhava diante de um móvel rústico, lotado de documentos e dossiês, muitas vezes também empilhados numa simples poltrona de junco. A rudimentar decoração se completava com um singelo aquecedor a carvão, um pequeno cartão dos confins russo-turcos e, numa parede, o retrato de Marx. Ele proibiu que expusessem sua foto pelo Kremlin. Quando ia ao barbeiro para cortar os cabelos, jamais passava na frente de ninguém. Fazia questão de esperar sua vez. Durante o inverno rigoroso de 1917-1918, ficou sem aquecimento, como todos os moscovitas: "Não tem mais madeira; eu também preciso fazer economia".

Ele sentia frio nos pés, mas não queria pele de urso - um simples feltro lhe bastava. Usava cotidianamente um de seus casacos mais velhos de emigrado. A mente pura, a razão pura deveriam permanecer despojadas. Assim foram Oliver Cromwell e Maximilien Robespierre. Lenin, o dialético, era dessa mesma linhagem. Passava as noites trabalhando em seus dossiês, redigindo notas sobre diferentes temas, para orientar seus ministros. Em quatro anos, ele foi algumas vezes ao teatro, mesmo assim com escolha a dedo das peças: Ralé, de Gorki, cujos exageros apreciava; Tio Vania, de Tchekhov, que ele conhecia; e O grilo da lareira, de Dickens, que achava muito burguês.

Nunca passava pela porta do Teatro Bolchoi, pois detestava vislumbrar aqueles sinais exteriores de opulência. Tampouco se dava ao trabalho de comparecer a exposições de pinturas futuristas, arte que denunciava como portadora de um espírito de degradação. Lenin só encontrava trégua na leitura, ao reler seu caro Leon Tolstoi, reencontrar Nicolas Nekrassov, professor de sua juventude, ou descobrir, com A alegria de viver, um certo Emile Zola, que imediatamente passou a ser um de seus escritores favoritos.

O poder, numa Rússia em desespero, consistia em pegar certas teorias no contrapé. Em política internacional, como na interna, o grande sonho só se realizava sob as máscaras. E foi em meio a uma grande tristeza que uma doença obscura atingiu o velho lutador. Do final de 1921 ao início de 1924, ele permaneceu semiparalisado, freqüentemente incapaz de falar, vítima de vômitos incessantes e de terríveis dores de cabeça. Cercado de mulheres que se tornaram também enfermeiras - Krupskaia, Maria, sua irmã e quatro secretárias - ele teve de abandonar a sorte da revolução a seus camaradas. Já em setembro de 1922, Stalin havia dito: "Lenin está Kaput" - decretando que o líder estava acabado. Lenin não era mais que uma sombra e assim permaneceria até o final. Ele morreu como um burguês, numa casa de campo em Gorki. Só então a mitologia bolchevique, dialeticamente organizada, apoderou-se de seu nome e de seu corpo para fazer dele o ícone dos ícones. E, paradoxalmente, tudo termina assim: Sócrates faraó.

-Tradução de Mônica Cristina Corrêa

Cronologia
1870
22 de abril: nascimento, em Simbirsk

1887
1o de março: atentado contra o czar Alexandre III; entre os terroristas presos estava o irmão mais velho de Lenin, Alexander Ulianov, que foi condenado à morte

1889
Conseguiu graduar-se em direito, pela Universidade de Petrogrado

1895
Fundou a União para a Luta pela Libertação da Classe Operária

1897
Desterro na Sibéria

1900
Primeiro exílio, na Suíça; 21 de dezembro: lançamento do jornal Iskra (A Chama)

1903
Tornou-se o líder dos bolcheviques, no Partido Social-Democrata Russo

1909
Lançou Materialismo e empiriocriticismo

1917
Eclosão e triunfo da Revolução Russa

1918
Sofreu um atentado

1919
Congresso da III Internacional

1922
União das repúblicas socialistas soviéticas

1924
Morte, em Gorki

Advogado e escritor
Lenin nasceu em uma família que cultuava o intelecto; os filhos eram educados com senso de disciplina e amor ao estudo. A partir de 1887, cursou direito, na Universidade de Kazan. Expulso da faculdade por seus ideais, bem mais tarde conseguiu obter a graduação. Profissionalmente atuou como advogado por algum tempo, voltado à defesa de camponeses e operários. A essa atividade mesclava a de organizador de massas, via criação de núcleos de estudo e ação. O desejo de conhecer melhor outras realidades fez com que saísse de seu país em direção à Suíça, Alemanha e França. Ao voltar, foi preso e deportado para a Sibéria. Ao ser libertado optou pelo exílio, na Suíça, onde começou a atividade de editor de jornais para propaganda ideológica. Nessa época, escreveu uma de suas principais obras: O que fazer? Regressou à Rússia depois da revolução de 1905, mas logo teve de voltar ao estrangeiro, fugindo de perseguições. Viveu anos em Paris, nesse segundo exílio, período em que também escreveu muito; com destaque para a obra Materialismo e empiriocriticismo.
- Mirian Ibañez

Revista Historia Viva

domingo, 22 de março de 2009

Cidades traduzidas em prosa

Coimbra Antiga


Márcia Regina Capelari Naxara
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professora do Departamento de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Franca). Autora, entre outros livros, de Cientificismo e sensibilidade romântica: em busca de um sentido explicativo para o Brasil no século XIX. Brasília: Editora da UnB, 2004. mrnaxara@uol.com.br



A certa altura, em Como se escreve a história, Paul Veyne afirma que “Um homem da cidade pode imaginar que uma paisagem agrária, cuja criação exigiu o trabalho de dez gerações, é um pedaço da natureza...”1
A assertiva, ainda que afirmada como possibilidade, contempla a proposta colocada em discussão no Simpósio Temático “Linguagens da sobre a cidade”, em que se procurou debater a cidade, tanto conceitualmente como em experiências históricas vazadas em diversas e diferentes linguagens. Para uma aproximação, escolhi pinçar escritos que permitem indagar o quanto os discursos sobre a cidade se efetivaram e continuam a se efetivar na relação estabelecida com o mundo não urbano. Diferenças que comportam, também, pensar a(s) cidade(s) em suas variadas dimensões e, portanto, seu maior ou menor distanciamento do que seria imaginado como seu oposto — a província, o campo e, no caso brasileiro, o sertão.

Busquei retomar e tomar por ponto de partida algumas reflexões de trabalhos anteriores, levando em conta os inúmeros textos e representações que traduzem esse registro historicamente estabelecido de contraposição entre cidade e campo. A elas procu-rei somar reflexões que reputo instigantes, a partir da leitura de alguns exemplares que fazem parte da coleção Histórias e paisagens do Brasil, com a qual tive contato recentemente. Trata-se da reunião de textos selecionados por Ernani Silva Bruno, autor conhecido por seus estudos sobre a cidade de São Paulo, cujos resultados são apresentados numa perspectiva de análise cronológica, que busca mapear os caminhos do passado para o estabelecimento do presente. Inícios identi-ficados ao antigo “burgo de sertanistas”, num caminho que levou à formação da “metrópole do café” e à “São Paulo de agora”, ou seja, metade do século XX, uma vez que os volumes foram publicados por ocasião das comemorações do quarto centenário da cidade.
Não muito tempo depois, entre 1958 e 1959, com edição de Diaulas Riedel, Bruno selecionou os textos que compõem a coleção a que me referi acima. Constituída por dez volumes2, que contemplam uma divisão do país por regiões e sub-regiões3, reúne textos de gêneros diferenciados sobre cada uma delas — relatos de viajantes, contos, memórias, trechos de romances —, “os mais originais, os mais interessantes, por vezes aqueles de entrechos mais incomuns e surpreendentes”4, capazes de refletir a vida e imaginário de cada uma delas. Divisão em regiões estabelecida por critérios
que o autor sabe arbitrários e imperfeitos, que tomaram em consideração a divisão política já efetivada e os espaços geográficos, naturais e humanos que endossassem a noção de regionalidade, pelo compartilhar de características afeitas a cada uma delas e que possibilitassem recolher as produções literárias capazes de transmitir suas “histórias” e “paisagens”.
Ao estabelecer uma comparação bastante preliminar entre as duas obras, verifica-se que, nos três volumes que compõem a História e tradições da cidade de São Paulo5, a ênfase recai sobre os primórdios e a formação, numa perspectiva que ressalta o processo e demarca mais o caminho percorrido que propriamente o resultado do que o autor denomina como “metrópole” ou “agora”. Na coleção Histórias e paisagens do Brasil, que recolhe textos variados sobre um Brasil dividido em regiões ao longo do século XIX e primeira metade do XX, também se destaca, de uma certa maneira, o processo de formação, tendo por base a idéia central de país que o autor recorta — presente das mais diferentes formas em relatos, memórias, crônicas e contos —, é a de um país diverso em suas variadas histórias e representações, mas com a tônica predominante de um Brasil interior, ou interiorano, em que os avanços do “progresso” são relegados, ficam em segundo plano, de forma a proporcionar ao leitor a descoberta de especificidades em que se procura tudo o que, autenticamente, possa representar ou fornecer esboços, desenhos e concepções que enfeixem ou estejam contidas num amplo Brasil.
A reunião desses textos na forma de coleção fortalece a percepção de Brasil pela aproximação à idéia de um mosaico que vai se ajustando e sendo ajustado, sem necessidade de precisão — por vezes harmoniosamente, por vezes de forma contrastante — justapondo cor, forma, proporção, compondo algo que pode ser apreciado em seus pequenos detalhes e contribuindo para o estabelecimento de relações possíveis entre as diferenças e variados conjuntos que permite formar, sem deixar de constituir (ou delimitar) uma unidade.
A leitura do conjunto de textos possibilita, também, retomar algumas das reflexões que qualifiquei como representações do mundo “entre natureza e civilização”6, tendo em vista que, historicamente, afirmou-se a dicotomia fundamental entre campo e cidade, ainda que comportando uma grande gama de representações polissêmicas, em especial nas interpretações que se fez do então chamado “novo mundo”, pensando de forma mais específica o Brasil e as figurações do sertão, expressas em significados de polarização com os espaços da civilidade e da civilização, fortemente identi-ficados ao urbano e, portanto, à materialidade da(s) cidade(s). Dessa forma, penso que preponderou (e prepondera) quando se pensa e representa o Brasil, seja pelo texto ou pela imagem, a procura do pitoresco, do exótico, do diferente, com realce da natureza, via de regra visualizada pela sua generosa grandiosidade e pelo que tem de “específico”. Remetese para um Brasil interior, que se perde em distâncias e diversidades que, não poucas vezes, puderam ser lidas como descompasso e desacerto em relação aos caminhos da civilização e da cultura ocidentais, demarcando a predo-minância da idéia de um país que, ao buscar o estabelecimento de identidades próprias — nacionais ou locais — capazes de estabelecer sentido de interpretação para a nação, aproximando-a do mundo civilizado, acabou pela aproximação e reiteração constante do cenário natural maravilhoso, pleno de potenciais inexplorados, tendo em vista a construção de imagens a serem projetadas como ideais e sempre futu-ras.7
Sérgio Buarque de Holanda, ao escrever os ensaios publicados em Raízes do Brasil recolheu toda uma tradição de pensamento ao estabelecer o peso do mundo rural como historicamente estruturante para a compreensão do Brasil. Ao comparar as colonizações portuguesa e espanhola na América, ressaltou o caráter geral em cada uma, de forma a identificar a idéia de que a cidade hispano-americana obedecia a regras fixas e preestabelecidas8, além das determinações para a procura de ocupação das terras interiores, enquanto que aqui teria prevalecido a tendência à acomodação à paisagem imponente, aos seus contornos, sem obediência a planos racionais de plane-jamento, além da forte litoraneidade. Buarque de Holanda chega a afirmar que a cidade que os portugueses construíram na América não seria um “produto mental”, denotando aproximação extrema entre natureza e artifício, decorrente do que denominou “primazia acentuada da vida rural (que) concorda bem com o espírito da dominação portuguesa”9, forma característica de ocupação, de que resultaria a permanência do predomínio da presença do mundo rural na forma como se representou o Brasil, tanto na literatura como na historiografia.
Ainda que o tema comporte debate de que não me ocuparei aqui10 e se possa pensar a presença de tentativas de controle e imposição de planejamento no início da colonização, os projetos não foram mantidos à medida que as vilas se desenvolviam e cresciam para além do núcleo inicial. Esse debate, que por vezes tem a obra de Buarque de Holanda como ponto de partida, guarda uma concordância que, simultaneamente, o cor-robora e contradiz, pois aponta para a existência de uma inflexão da política metropolitana portuguesa a partir dos meados do século XVII, no que diz respeito à regulamentação e controle com relação à colônia. Controle que, não sem razão, foi efetivado em época coincidente à descoberta das minas e, portanto, ao aumento da cobiça e do interesse pelo interior das terras brasileiras, demarcando esforços não somente de ampliação da colonização, como de controle mais efetivo do territó-rio, em especial do chamado “sertão”. Situação em que os núcleos urbanos — as vilas e cidades — adquiriram fundamental importância. Reis Filho afirma que, com a “polí-tica centralizadora econômica e administrativa, tornou-se necessária a ampliação da ação urbanizadora da Metrópole e do Governo Geral”11, indo além, no sentido do alar-gamento das fronteiras, com o avanço sobre terras espanholas e delineamento apro-ximado das atuais fronteiras. Buarque de Holanda, em Visão do paraíso, assinala que a passagem do tempo contribuiu para mudar a perspectiva portuguesa sobre as terras interiores do Brasil, e no século XVII foi “um pouco a imagem do império espanhol, das Índias de Castela”12, que empolgou os portugueses na direção do sertão, tanto para a procura como controle dos nossos muitos eldorados.
A forma como se processou a ocupação territorial na América portuguesa, portanto, sublinha a adaptabilidade, tanto às determinações como às condições locais, pela efetivação de soluções que uniam o plano ideal a materiais e mão-de-obra disponíveis13, com adequações aos sítios onde as vilas e povoados, que vieram a tornar-se cidades, foram erigidos, em grande parte guardando relação próxima com a natureza, até porque muitas delas se desenvolveram à margem ou afastadas das possibilidades de controle.
As narrativas e leituras que foram se sobrepondo, partindo dos mais diversos lugares e momentos, qual um palimpsesto a ser recuperado em suas diversas camadas, retidas pelas diferentes formas de manifestação do talento iconográfico e/ou escrito, contribuíram para a permanência, no imaginário e nas formas como se pensou e repre-sentou o Brasil e sua formação, da idéia dominante de desordem ou “desleixo”, para usar uma expressão de Buarque de Holanda, não somente na construção da paisagem urbana, como na percepção do Brasil como um todo. Guarda-se como representação de longa duração, a vinculação a um forte efeito do pitoresco e mesmo do sublime, na aproximação e incorporação à paisagem, que reforça a presença da idéia de natureza, ou de proximidade a ela, quando se pretende dizer do Brasil.

Ao se considerar a contraposição cidade/campo enfatiza-se tanto a relação de aproximação da cidade à natureza como o seu afastamento, à medida em que a cidade constitui espaço representado como de domínio e poder e, mais do que isso, de civilidade, civilização e progresso. A tônica dos textos escolhidos me parece apresentar ao leitor a construção de uma idéia de Brasil em que o regional é o não urbano, seu aves-so, de forma a se tomar a literatura regional como significando e representando o que está fora e à margem do mundo civilizado, tendo em vista a sua aproximação ao mundo natural.

Cidades em algumas Histórias e paisagens
Retomo, então, a(s) leitura(s) do Brasil em seus diferentes espaços construídas pela seleção de Ernani Silva Bruno na coleção Histórias e paisagens do Brasil. A primeira questão a salientar quando se percorrem os volumes diz respeito às escolhas realizadas pelo autor, centradas em textos voltados para a revelação de um país interiora-no, dando a conhecer as histórias de seus campos e sertões, deixando para segundo plano as cidades. Confere-se ênfase aos viajantes que dão a conhecer terras pouco conhecidas ou a contos e romances que trazem ao leitor lendas e especificidades locais. O urbano, ou seja, a parte considerada mais civilizada, aparece muito pouco. O volume sobre São Paulo (VI) tem por título O planalto e os cafezais: São Paulo, colocando de início a tônica do que pretende oferecer como leitura. Considerando Bruno um especialista no que diz respeito à cidade de São Paulo, é significativo que, dos textos de viajantes, um deles parte de São Paulo e os demais de algum lugar para a capital, sem nela chegar. Nenhuma descrição ou história da cidade, seja no século XIX ou XX, num volume dedicado a tomar o estado como sub-região. O volume que escolhi abordar neste trabalho é o único da coleção no qual o urbano ganhou desta-que — V. A cidade, o mar e as serras: Espírito Santo, Rio de Janeiro e Distrito Federal — e em que a então capital, cartão de visitas e local emblemático quando se tra-ta de juntar natureza e artifício na construção e representação do mundo urbano, apa-rece no título e, juntamente com outras vilas e núcleos urbanos menores, nos relatos de viajantes e como lugar onde se movimentam personagens de romances e contos escolhidos em tempos diversos. Após apresentação da coleção (texto constante em todos os volumes), Bruno elabora apontamentos históricos sobre a região, seu povoamento e ocupação. Na seqüência, os escritos de viajantes introduzem o leitor em alguns dos locais da região delimitada para, então, apresentar trechos de romances e contos. Gêneros distintos, na medida em que nos relatos de viagem predomina a intenção da descrição e da veracidade, ainda que construídos na confluência de ciência e arte e, nos demais, a ficção, em textos que mesclam a procura da verossimilhança, somada aos rasgos da imaginação.
Para esse volume, Bruno selecionou trechos de quatro viajantes ilustres, cujos textos podem ser aproximados às tópicas presentes em grande parte da literatura de viagens: “No reino das palmeiras” (Do Rio de Janeiro a Sumidouro – 1817), de Carl Friedrich von Martius; “Roceiros e Bugres” (De Benevente a Vitória – 1818), de Auguste de Saint-Hilaire; “A baía e as montanhas” (Rio – Nova Friburgo – Cantagalo – 1851), de James C. Fletcher; e “A mata virgem” (Vitória – Nova Almeida – Rio Doce – 1858), de François Auguste Biard. Se atentarmos para o Rio de Janeiro descrito por Fletcher em suas primeiras impressões, verificamos que faz coro com outros viajantes que lá estiveram antes e depois dele, principalmente quando se trata de visualizar e manifestar as fortes impressões e o impacto decorrente do primeiro contato. Ele nos dá conta de seus sentimentos de assombro ao afirmar que o momento será guardado como “uma hora donde pode datar para o futuro, eternamente”, pelo seu “efeito geral”, “de fato sublime” 14. Na continuidade, com a efetiva entrada na baía e a aproximação, “a grande cidade surge diante de nós, estendendo-se, com seus brancos subúrbios, por milhas e milhas ao longo das margens irregulares da baía e recuando até quase ao pé das montanhas da Tijuca, semeada de verdes colinas (...) Esse conjunto de circunstâncias permite que do mar se tenha uma vista completa do Rio de Janeiro.”15 O texto acentua a simbiose cidade e natureza tão característica das representações do Rio de Janeiro16.
A cidade, corte e depois Distrito Federal, e as demais vilas e cidades de menor porte que Bruno apresenta ao leitor, em contos, romances e reminiscências, têm uma urbanidade em grande parte remetida e referida à natureza circundante, de forma a revelar inúmeras cidades numa cidade, comportando polissemia semelhante à que se verifica ao falar de sertão/sertões, ambos como conceitos móveis, podendo o primeiro caracterizar a vila, os pequenos lugares e a(s) cidade(s)em suas diferentes propor-ções, modos de vida, sensibilidades e representações de suas gentes.

Em seu texto, Martius17 (1817) se detém em comentários sobre o entorno da Baía de Guanabara, as ilhas e o Porto da Estrela, de onde embarca para o interior da província, na direção de Minas. O trecho de Saint-Hilaire (1818) destacado por Bruno, também anuncia o tema — Roceiros e bugres — trazendo a descrição dos percalços da viagem e as impressões causadas pelas vilas menores e pelo contato com a rústica população local, como a que se verificou em Benevente, onde, ao chegar, viu-se cercado por “índios civilizados, negros, luso-brasileiros, que [nos] olhavam com ar estranho, estúpido”18, revelando impressões sobre a pequena vila, composta por cerca de cem casas, “cobertas algumas de telhas e outras de palha”, tendo no ponto mais alto, de onde se domina não somente a campina mas o mar, “o antigo convento dos Jesuítas e sua igreja, [hoje] paróquia de todos os fiéis”: “O panorama mais aprazível oferece-se aos olhos de quem se poste diante de alguma das janelas do claustro; descortinamse ao mesmo tempo o rio, a mata majestosa que o margeia, sua embocadura, o oceano, a cidade de Benevente e os campos dos arredores.”19

O ponto de vista privilegiado do observador soma os aspectos da vila aos da natureza para a definição do belo. O prazer do olhar que passeia ao focar distanciamentos situa os diversos planos e elementos que se diferenciam e complementam. Ele descor-tina o conjunto da paisagem capaz de trazer o conforto e proteção do estar na vila/cidade e, simultaneamente, vislumbra o amplo horizonte em seus diversos planos: rio que se une ao oceano, mata majestosa que margeia campo e cidade, o primeiro plano de Benevente. Do conforto e abrigo da cidade, a contemplação distanciada e a fruição calma da natureza.
François Biard (1858), apresentado como desenhista e aventureiro francês, bastante viajado, narra episódio interessante quando da sua chegada de Vitória ao vilarejo denominado Santa Cruz, em que, do caminho, avistou, “embora ainda distante, a torre de uma igreja desenhada no céu: só podia ser Santa Cruz”, tendo a impressão de que chegaria a uma “vila de certa importância”. Qual não foi sua surpresa ao constatar que se tratava de uma fachada, “um alto muro de três pés de espessura” que escondia uma “pobre palhoça, que só se distinguia das demais, na povoação, por ser um pouco maior”; tudo havia “sido construído de tal maneira, para o êxito das aparências, que a própria parede monumental só recebera reboco e pintura da parte externa; na outra ainda estava nua. O orgulho dos habitantes, contudo, fora satisfeito”20, até porque as igrejas constituíam símbolos centrais às vilas e cidades, a mostrar o quanto real e imaginário se efetivam e mesclam à vida dos homens.
Ainda a propósito do Espírito Santo, a figura do imigrante aparece com a chegada de Milkau, personagem de Graça Aranha, a Porto do Cachoeiro, no contato com as primeiras casas e nas impressões ao ver, logo de início, “pobres habitações, como soltas na estrada”, “moradas de gente preta, da raça dos antigos escravos”, “batidos pela invasão dos brancos”, constatação visível ao adentrar a cidade e chegar ao maior sobrado, a casa do Sr. Roberto Schultz.21

Dando um salto no tempo, Bruno traz ao leitor, com o título “Reminiscências”, quatro crônicas de Rubem Braga, da metade do século XX (1947-1951). Crônicas que “falam de coisas do Espírito Santo, província natal do autor” e narram lembran-ças da infância e juventude, em que a cidade vai aparecendo na memória das brinca-deiras, da escola, dos lugares, registrando, simultaneamente, a mudança e a passagem do tempo. A perspectiva da observação, marcando temporalidades historicamente dife-renciadas, realça a relação com a natureza, demarcando fortemente a alteração e as transformações provocadas pelo “progresso” que, gradativamente, modifica o entorno da vila — o rio tem novos motores, a “mata majestosa” foi e vai sendo abatida, a agricultura é ampliada, a ferrovia corta os espaços, trazendo novas gentes e novos interesses. A aceleração do novo e do movimento, visível, ainda assim é vista do pre-sente do autor, em seu exercício sempre lacunar de rememoração, que vê o passado saudosamente, como um tempo mais tranqüilo, da infância que se foi: “Regência, na beira Sul da foz do Rio Doce... Daqui para cima todo o vale se agita numa febre de progresso; motores novos pulsam no rio, a estrovenga limpa o mato, o machado abate os troncos, o cacau se alastra, as serrarias guincham, os colonos requerem terras, a ferrovia se renova, os minérios são arrancados da terra, os americanos fazem contratos, os baianos chegam ávidos de dinheiro.”22
Os contos, crônicas e trechos de romances mostram cenas e ambientes caros às vilas e cidades. De Manuel Antonio de Almeida (1853), Bruno retira cenas de costumes relacionados às festas do Espírito Santo23 e de Sonhos D’Ouro, de José de Alencar (1872), esboços de paisagens do Rio de Janeiro, em especial de passeios a cavalo pela Tiju-ca, e da Cascatinha, definida como “mimosa” pela comparação a uma “moça elegante” que, pela proximidade da corte, freqüentemente recebe “diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro”. Na relação cidade/natureza, apare-ce a preocupação com o meio ambiente, pela referência ao esforço de recuperação da Floresta da Tijuca apresentado como uma “promessa”, a depender do crescimento das “mudas de árvore de lei, que a paciência e inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas”, com a manifestação da opinião de Alencar por meio do personagem: “Viva imagem da loucura humana! Refazer à custa de anos, trabalho e dispêndio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobiça de um lucro insignificante! (...) encostas que “se vestiam outrora de matas virgens, de árvores seculares.”24
Pela pena do Visconde de Taunay (1873), Bruno transporta o leitor a Teresópolis, tão perto do Rio e tão pouco conhecida, de acordo com o autor, que indaga: “Quem no Rio de Janeiro não é mais ou menos tísico?” e não necessita de “um passeio às montanhas? Petrópolis é muito corriqueiro; Friburgo longe demais; exploremos Teresópolis”, saindo para a aventura — depois da barca, a subida a cavalo: “Quantas maravilhas! Os morros altos há pouco, acanham-se submissos: nivelam-se comigo: a vista se alarga; escala admirada os píncaros dos Órgãos; contempla os ‘Canudos’, o ‘Garrafão’, o ‘Dedo de Deus’, o ‘Frade’ ou descansa sobre docel imenso de majestosa verdura”. Finalmente, aparece o povoado, “a igrejinha e o núcleo mais importante de Teresópolis. As construções são singelas e como comuns a lugares de tão esplêndida nature-za. As perspectivas, como sempre variadas, trazem logo o desejo de longínquos pas-seios a cavalo para avistá-las debaixo de novos aspectos.”25
Machado de Assis fala do Rio de 1840 pela experiência de um menino de escola, que hesitava quanto à escolha do lugar a brincar: se “entre o morro de S. Diogo e o cam-po de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos”26, enquanto que, num salto para 1920, Lima Barreto, no conto “Clara dos Anjos”, toma o subúrbios por local e coloca em ação o personagem Júlio Costa, branco, cantador, que seduz Clara, moça mulata, simples, que queria tão somente casar.27

O último texto — “Subúrbio, favela, samba” — crônica de Gastão Cruls (de 1949), fecha o volume de forma exemplar, tomando de conjunto os variados aspectos da cidade, tanto do ponto de vista de sua geografia quanto do que anima e liga cada um dos diferentes espaços. Remete, também, para a associação natureza e artifício na edificação da cidade, assim como para a interveniência de ambas e retoma a sensação da ausência de planejamento e ordem que são recorrentes nas impressões de viajantes. Ambas — beleza e desordem — acabam por aparecer reiterada e sistematicamente, assim como a existência dos subúrbios como característica marcante do Rio de Janeiro, sem dúvida associada às interferências geográficas que simultaneamente ligam e dividem a cidade. Cruls escreve já na metade do século XX e faz um verdadeiro inventário em que as peças do mosaico vão sendo justapostas: “Recordando o meio físico sobre o qual assenta a cidade, não espanta que os seus bairros, distribuídos por vales e separa-dos por montanhas e morros, sejam quase sempre compartimentos estanques, de difícil intercurso, ainda quando os mais vizinhos. (...) Assim, cada bairro vai fazendo vida própria, aumentando os recursos locais, fomentando o comércio, de tal modo que se baste a si mesmo e seja uma pequena cidade dentro da grande cidade.”28

O autor segue, tanto pela descrição de bairros do Rio como pelas suas interligações por trem, túneis e formas de superar os obstáculos geográficos. Na contraposição cidade/cidades e cidade/subúrbio, retoma Machado e Lima Barreto, para, por meio de seus personagens e autores, falar um pouco das representações e imagens marcantes do Rio, vinculando o espaço da cidade e do subúrbio aos tipos e pessoas específicas em termos de pertencimento: “Uma personagem de Machado de Assis diz que gostaria ‘de fazer uma História dos Subúrbios menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade’. Não nos parece que o romancista falasse aí pela boca da sua criatura. Machado, embora nascido no morro, sempre foi homem da cidade: da rua do Ouvidor, de Laranjeiras e de Botafogo...”
Na continuidade, afirma o mesmo autor:

Quem nos poderia ter dado a História do Subúrbio, era Lima Barreto, que ali quase sempre viveu, ali também morreu e, se nasceu em Laranjeiras, só depois de morto é que foi de Botafogo. Está enterrado em São João Batista. Este, sim.
Ele que nos poderia ter contado a minuciosa e comovente história daquelas ruas tristes por onde andou e cambaleou bêbedo de gênio, e de cachaça; daqueles pobres companheiros de boteco com quem traçou o trago do tédio e da amargura; daquela gente humilde com quem ombreou e confundiu as suas misérias e os seus sofrimentos. E disso, do que poderia ter sido essa História, mostram bem as notas e observações de que estão cheias as suas páginas.29

Ele procura, ainda, aproximar as palavras de Lima Barreto, expressas pela personagem Policarpo Quaresma, para firmar impressões dos subúrbios do Rio, como “curiosa coisa em matéria de edificação”, em que aparecem somados os efeitos da natureza e os artifícios da criação e improviso dos homens:

Nada mais irregular e caprichoso. Se a topografia local concorreu para isso mais ainda concorreram os azares das construções. As casas, sem qualquer plano, surgiram como se fossem semeadas ao vento. E do mesmo modo as ruas. Destas, há algumas que começam largas como bulevares e acabam estreitas como vielas. Dando voltas, fazendo circuitos inúteis, parecem fugir ao alinhamento com um ódio tenaz e sagrado. Se em algumas há grandes trechos, grandes espaços desocupados, em outras as casas se amontoam umas sobre as outras. E que casas! Há para todos os gostos e construídas de todas as formas.30

Gastão Cruls chama a atenção para o fato de que este subúrbio de que fala Policarpo Quaresma, “focado pelo pessimismo e pela ironia dolorosa de Lima Barreto, é apenas o slum dos subúrbios, e de que nem mesmo os nossos bairros mais elegantes se livram”, aumentando o grau de variedade pela afirmação de um outro subúrbio, “da grande chácara, (. . .) do sobrado avarandado, (...) do chalezinho alambicado e do bangalô para boneca”31. A temporalidade é alterada, ao se colocar em comparação o texto de Lima Barreto e as observações do autor. Na seqüência, faz alusão ao que denomi-na “sertão carioca!”, pelos lados de Jacarepaguá, Senambetiba, Camorim e Marapendi, onde seriam encontradas casas de pauapique ou ranchos de palha, com vida quase tão primitiva quanto a dos “caboclos que habitam os pontos mais remotos do país”.32

A referência acentua tanto a permanência como a convivência do primitivo e do moderno — rural e urbano — em processos que ressaltam tanto a diversidade como a com-plexidade de espaços fisicamente tão aproximados e, ao mesmo tempo, tão opostos em seus modos de vida e de representação. É o caso dos “sertões cariocas”, aparente contradição à idealização de um Rio de Janeiro cosmopolita, em que se poderiam conceber as contradições inerentes ao mundo urbano em seus inúmeros subúrbios, mas sempre definido em termos de representação pelo urbano ou pelo esforço de aproximação. Da narrativa, no entanto, surge um “sertão carioca”, a conferir o sabor do exótico. Sempre aumentando a complexidade das falas sobre o espaço urbano, Cruls referencia a ocupação dos morros existentes nas zonas norte e sul — “não faltam em todos os bairros e para todos os gostos”, habitados pela “nossa gente mais pobre, (que) vai espetando os seus barracos”, as chamadas “favelas, amontoados de casebres e choças feitos ao deus-dará...” 33. E da favela, quase em seqüência, vai ao samba e à Mangueira — “lugar de muitas desordens, é também um dos focos da nossa música popular”34 —, para alcançar, finalmente, os “Carnavais deste século” (XX) com refe-rência a grandes nomes vinculados ao seu nascimento (juntos morro, samba e carna-val), à Praça Onze, local de encontro de todo o Rio de Janeiro, nos desfiles de “quanto bloco, cordão ou rancho existisse na cidade”, e que, na segunda-feira gorda, “lá se iam, ostentando garbosamente os seus estandartes, os (cito alguns) “‘Filhos do Deserto’, os ‘Aborrecidos do Realengo’, o ‘Novo Cupido de Ouro’, a ‘Flor do Caju’, o ‘Prazer da Pedra Encantada’...”, seguindo por aí afora35. Carna-val cujo lado dramático é descrito por Aníbal M. Machado no conto “A morte da porta-estandarte”, que narra o desassossego do ciúme imaginário e do crime ensandecido que põe fim à vida de Rosinha.36

O volume, no seu conjunto, e considerado na sua relação com a coleção, tendo em vis-ta as escolhas de Ernani Silva Bruno, contém um sentido de regional que reforça o não-urbano, ou melhor, não apenas o não-urbano, mas também os aspectos que atribuem significado à forma como o urbano foi sendo configurado a partir do estabelecimento de fortes vínculos com a natureza, reiterados à exaustão, que acabam por predominar quando se trata de estabelecer caracteres identitários de reconhecimento e de perten-cimento em termos de Brasil.
Não há o que generalizar; a leitura nos traz amostras significativas da imensa polissemia imagética do urbano e de suas representações, que, semelhantemente à do sertão, ainda que com nuances próprias, por ser conceito mais claro e refletido, comportam variadas interpretações, acentuando o quanto a procura do pitoresco, exótico e característico é recorrentemente buscada quando se tenta representar e projetar imagens do Brasil. A significação não somente polarizada, mas nuançada e fortemente imiscuída em seus extremos — a cidade cosmopolita e o sertão bruto —, tem ênfase fortemente demarcada no primeiro pólo, muito embora os sertões (com ou sem lugar, e em suas mais diversas interpretações) tenham sido emprestados e tenham estado em posição central quando da construção de uma aura de grandeza e mistério que povoa o imaginário e as grandes representações plásticas do Brasil em seus diferentes espaços, tanto pela imagem como pela escrita.

Revista Historia em Reflexão

Santidade, jejum e anorexia na História


Maria Valdiza Rogério Soares
Mestre em História Comparada UFRJ. Colaboradora do Programa de Estudos Medievais -
PEM/ UFRJ.


Para o professor e psiquiatra G.J. Ballone, a anorexia é um transtorno alimentar caracterizado por limitação da ingestão de alimentos, devido à obsessão de magreza e o medo mórbido de ganhar peso. Ela pode ter origem em enfermidades somáticas (endocrinológicas, por exemplo) ou psíquicas; incluindo a manifestação de um ideal estético. Ou seja, a anorexia não consiste na perda do apetite, mas na recusa em se alimentar. Manifesta-se em cerca de 1% da população feminina.
Segundo Ballone, a anorexia é um mal que ataca especialmente as mulheres jovens. Sua incidência é maior entre os 14 e 18 anos de idade e caracteriza-se por um peso abaixo do mínimo esperado, em média 85% para idade e altura; interrupção do ciclo menstrual por pelo menos três meses; distorção de imagem corporal, pois a pessoa sentese bem mais gorda do que está; medo intenso e recusa ativa a ganhar peso.
A perda de peso nos indivíduos com anorexia ocorre com a redução do consumo alimentar total, embora alguns comecem “o regime” excluindo de sua dieta alimentos altamente calóricos. Desta forma, a maioria deles termina com uma dieta muito restrita, por vezes limitada a apenas alguns poucos tipos de alimentos. Nos casos mais graves, são adotados métodos adicionais de perda de peso, incluindo auto-indução de vômito, uso indevido de laxantes ou diuréticos e prática de exercícios intensos ou excessivos.
Ainda não se conhecem as causas fundamentais da anorexia, mas o psiquiatra Ballone aponta como causa a interação sociocultural mal adaptada, fatores biológicos, mecanismos psicológicos menos específicos e vulnerabilidade de personalidade.
Na atualidade, o ideal de atingir um corpo perfeito, que é ratificado pela mídia e pelos estilistas, colaboram para o crescimento desse ideal estético. Tendo em vista esses fatores, atualmente a anorexia é associada aos ideais de elegância ligados à magreza. Porém, nem sempre a anorexia foi ligada a padrões de beleza; mesmo não sendo conhecida por este nome, é possível detectar a presença de sintomas desta doença no Ocidente, sobretudo a partir do século XII. As pessoas daquela época não tinham consciência dessa doença e o fato de não comer, neste momento, não se relacionava com ideais de beleza, mas implicava sair do saeculum e atingir a purificação da alma, livrando-se de todos os pecados e conseguindo a sua salvação e também a de outros. Assim, a anorexia medieval manifestava-se como uma forma de devoção religiosa, em que por meios de jejuns e tortura da carne, acreditava-se, o corpo tornava-se um meio de acesso ao divino.

Desta forma, na Idade Média, a anorexia é relatada e vista sob outro prisma. A idéia de que o corpo facilitava o acesso ao sagrado parece haver crescido drama-ticamente durante o século XII. Tanto os homens como as mulheres manipulavam seus corpos, mediante flagelações, abstinências e outras formas de infligir sofrimento. Porém, isso foi mais característica das mulheres, sendo explicada pelos historiado-res pelo fato das mulheres serem mais propensas a somatizar a experiência mística e a descrevê-la utilizando exageradas metáforas corporais. Segundo Caroline Walker Bynum havia uma diferença na forma de ver e tratar a experiência de vida por homens e mulheres. Enquanto o homem escrevia sobre “a experiência mística”, oferecendo uma visão geral e tendo uma voz impessoal, a mulher, narrava sobre “a minha experiência mística”, falando diretamente de algo que lhe ocorrera (BYNUM, 1990:167-175). Ou seja, a mulher dava um significado real aos acontecimentos do corpo, falando de saborear a Deus, de beijá-lo intensamente, de adentrar em seu coração e de ser coberta por Seu sangue, fazendo de sua experiência mística um fato quase palpável.

Entretanto, seria errôneo estabelecer um contraste radical entre a devoção dos homens e a das mulheres neste momento, pois muitos deles também manifestavam sua devoção, faziam penitências e tinham visões. Seus hagiógrafos descrevem suas experiências afetivas relacionadas com Deus. Como exemplo podemos destacar Francisco de Assis.
Francisco, que muitos conhecem como o Irmão Menor, o amigo dos animais, foi o fundador do movimento religioso que deu origem à Ordem dos Frades Menores ou Franciscanismo. Nasceu em Assis, cidade da região da Úmbria, Itália, no final do século XII, sendo oriundo de uma família de comerciantes. Após seu processo de conversão, abraçou definitivamente a vida de penitente no ano de 1208; morreu em 1226. Seu primeiro hagiógrafo, Tomás de Celano, descreve sobre sua ascese alimentícia: Francisco nunca ou rarissimamente admitiu comidas cozidas. Se eram aceitas, muitas vezes misturava-lhes cinza ou lhes tirava o tempero com água fria.
Quando a fome o obrigava a comer, nunca se satisfazia além do necessário. Certa vez, quando estava doente, comeu um pouco de carne de galinha. Logo que recuperou as forças foi para a cidade de Assis. Chegando à porta da cidade, mandou ao frade que o acompanhava que lhe amarra-se uma corda no pescoço e o conduzisse assim, feito um ladrão, por toda a cidade, clamando como um pregoeiro: Vejam o comilão que engordou com carne de galinha, que comeu sem vocês saberem. Muita gente correu para ver o espetáculo estranho. Pobres de nós, que passamos nossa vida cometendo crimes e que alimentamos nossos corações e nossos corpos com luxúria e embriaguez. E assim, de coração compungido, foram chamados a uma vida melhor por tamanho exemplo. (SIL-VEIRA, 1997: 216).

O hagiógrafo destaca a moderação de Francisco ao comer. A continência do assisense é expressada pelo autor como uma característica da santidade do homem de Assis. Clara de Assis foi fundadora da Segunda Ordem Franciscana, a das Irmãs Clarissas. Nasceu em 1194 e morreu em 1253, na cidade de Assis, Itália. Era filha de família nobre. Aos 18 anos de idade largou tudo e entrou para a vida religiosa. A irmã Benvinda de Perusa salienta: Antes de ficar doente, Clara fazia tantas abstinências que na quaresma maior e na de São Martinho sempre jejuava a pão e água, exceto nos domingos, quando tomava um pouco de vinho, se havia. E três dias da semana: segunda-feira, quarta e sexta, não comia coisa alguma, até que São Francisco lhe mandou comer todos os dias um pouco; para obedecer, tomava um pouco de pão e água [...] (Processo de Canonização de Santa Clara, II, 8)

Na Legenda de Santa Clara, escrita em 1255 por ocasião da canonização de Clara de Assis, seu hagiógrafo Tomás de Celano ressalta Para que o sacrifício fosse mais grato a Deus, privava seu próprio corpozinho dos alimentos mais delicados e, enviando-os às ocultas por intermediários, reanimava o estômago de seus protegidos. (Legenda de Santa Clara 3) Segundo o celanense, a espiritualidade de Clara, mani-festada desde a sua infância, estava ligada a restrição de alimentos. Assim como ela, no Medievo, várias outras mulheres adotaram uma vida de rigorosas abstinências alimentares Marie de Oignies e Catarina de Sena Marie de Oignies, que viveu na comunidade de mulheres religiosas conhecida como Beguinas, um grupo religioso laico, cujo modo de vida consistia em viver em castidade, renunciando aos bens mundanos. Atraída desde a juventude para a prática da pobreza pessoal voluntária, ela enunciara à vida conjugal, distribuindo sua riqueza aos pobres e, junto com o marido, foi servir em uma colônia de leprosos. Anos depois, instalouse em uma cela do priorado Agostiniano de São Nicolau, em Oignies, onde viveu em completa pobreza, sobrevivendo daquilo que ganhava como fiandeira. Morreu em 1213.
Segundo Lawers: Durante muito tempo ela comeu um pão escuro e muito duro, que nem os cães queriam [...]. No fim de sua vida, já não podia absorver nenhum alimento e até o cheiro do pão lhe dava vômitos. Após seu falecimento, seus restos mortais foram encontrados tão emaciados e reduzidos pela doença e os jejuns que a espinha dorsal tocava o ventre; sob a delgada pele do ventre, aparecia a ossatura das costas (LAWERS, 1994: 220-221).
Catarina de Sena (Siena), que nasceu em 1347, foi a penúltima a nascer de uma famí-lia de 25 irmãos. Filha de um tintureiro bem estabelecido, aos sete anos fez voto de virgindade; aos 16, cortou sua longa cabeleira para evitar um casamento; aos 18, recebeu o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos e aos 20, só vivia de pão e água: Depois de ter perdido rapidamente metade do peso, deixou de engolir fosse o que fosse. Para evitar escândalo, ela tomava por vezes um pouco de salada ou um pouco de outros vegetais crus ou frutos e mastigava-os, e depois virava-se para os deitar fora. E, se chegava a engolir uma parcela mínima, o estômago não lhe dava repouso enquanto não vomitasse. (LAWERS, 1994: 221)
Segundo a tradição, foi agraciada com favores sobrenaturais, como o “casamento mís-tico”; recebeu estigmas semelhantes aos de Cristo; teve uma “morte mística”, quando foi levada em espírito ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso; teve também uma “troca mística de coração” com Cristo. Aprendeu a ler e a escrever milagrosamente para poder cumprir a missão pública que Deus lhe destinava. Dirigia um número enorme de discípulos, os caterinati, que reunia gente do clero, da nobreza e do povo. Morreu em 29 de abril de1380, aos 33 anos.

Desta forma, percebemos que as severas abstinências que algumas mulheres se impu-seram possibilitou a debilidade de seus corpos e provavelmente foi a causa, para algumas, de sua enfermidade e morte. Mais por que tanta abstinência ?

Segundo Jacques Le Goff , o período pós-invasões bárbaras foi marcado pela fome. Para ele, esse flagelo “bíblico”, assombrava o Medievo. Desta maneira, o cultivo de produtos alimentícios, a economia era destinada à subsistência; os camponeses lavra-vam as terras de seus senhores, retirando delas o suficiente para a sua sobrevi-vência. Já os donos destes senhorios, faziam uso desses recursos, mas, por possuírem riquezas, conseguiam ter acesso a outras fontes de alimentos, não dependendo exclusivamente da produção local. Ou seja, apesar da baixa produtividade, em geral, a alimentação era um sinal das diferenças sociais (LE GOFF, 1984:285-290).

Pode-se notar congruências entre as afirmações do autor citado acima com o de Massi-mo Montanari. Para Massimo, os hábitos alimentares durante a época medieval eram distintos entre os grupos sociais (nobreza e camponeses). O próprio fato de comer muito era visto na ética aristocrática como sinal de distinção social, de força e de nobreza ( MONTANARI, 2002:35-46).

Entretanto, isso contradizia os valores da cultura monástica que recomendava aos seus clérigos controle sobre seus hábitos alimentares. No período medieval, o controle da alimentação pelos santos constitui-se em um dos topos hagiográficos. A gula era associada à luxúria, bem alimentado, o corpo estava forte e apto a cometer pecados. Por esse motivo, propagava-se e admoestava-se, por meio dos relatos hagiográficos, a disciplina e o controle no ato de comer (SILVA & PASSOS, 2006:1-20).

Para Michel Lawers, nos séculos IV e V, a Igreja pregou seguidamente uma certa moderação nas práticas de abstinência. Os jejuns tinham sempre curta duração.
Recomendava-se o jejum periódico tanto para os fiéis como para os monges. Entre-tanto, a partir do século XII a prática do jejum tomou nova direção: mulheres, muitas vezes leigas, desejosas de levar uma vida perfeita, fizeram da privação de alimentos, por vezes total, um dos elementos essenciais de sua existência espiri-tual. Várias entre elas foram reconhecidas como santas. Para o autor André Vauchez, as vidas de santos e as coletâneas de milagres visavam a adaptar os servidores de Deus aos modelos que correspondiam a categorias reconhecidas da perfeição cristã: mártires, virgens, confessores, etc., e, para além disso, à figura de Cristo. Cada homem ou mulher tornado santo(a) procurara em vida se identificar com Cristo ou então aproximar-se ao máximo dessa premissa (VAUCHEZ, 1989: 211-230).

As mulheres, no início, observavam com grande rigor os períodos de abstinências previstos pela Igreja. Depois, passaram a prolongá-los, empreendendo jejuns esten-didos por vários anos. Muitas baniam completamente da sua alimentação a carne e o vinho, alimentavam-se apenas de pão, frutos silvestres e ervas. Algumas chegavam a rejeitar tudo o que fosse cozido, aceitando apenas alimentos crus. Não obstante as pressões dos seus próximos, que as forçavam a alimentar-se, a sua abstinência tornava-se cada vez mais radical.

Assim, ao recusar todo o alimento, com exceção da hóstia sagrada, elas se tornavam carne sofredora como Cristo o havia sido. Várias santas acreditavam terem sido mar-cadas com os estigmas, associando com essas práticas de ascese o seu corpo martiri-zado ao de Cristo (LAWERS, 1994: 220).

Michel Lawers faz referência, em seu texto, ao historiador americano Rudolph M. Bell, ressaltando que para Bell, as santas penitentes da Idade Média manifestavam todos os sintomas de anorexia mental. Essas mulheres que se recusavam a alimentar-se a ponto de morrer eram adolescentes em revolta contra os pais, mulheres casadas desejosas de abandonar a vida conjugal, ou mães desejosas de abandonar a vida familiar. Elas recusavam o casamento, mas recusavam igualmente o claustro; queriam, através da vida religiosa, manter-se ao mesmo tempo em obediência a Deus e viver no mundo, ajudando os pobres. As autoridades eclesiásticas, que assim não entendiam, esforçavam-se por integrálas nas ordens religiosas como forma de controlá-las. A “santa anorexia” tornava-se então, para essas mulheres, a única maneira de se subtraírem à autoridade e controle dos homens, fossem esses os pais, maridos ou padres. Podiam assim definir e afirmar a sua identidade e a sua relação com Deus (LAWERS, 1994 :221).

Já a historiadora americana Caroline W. Bynum, chamou a atenção para o fato de que as privações alimentares dessas mulheres não poderiam ser dissociadas das outras manifestações da sua piedade e da sua santidade, em particular a sua devoção ao corpo de Cristo. Salienta que o controle a disciplina e, inclusive, a tortura da carne, na devoção medieval, não significam tanto a negação do físico, mas a sua elevação – uma horrível, mas deliciosa elevação –que era via de acesso ao divino.

Através dessas penitências, essas mulheres viam em sua angústia física e mental uma oportunidade para a sua salvação e para a dos outros (BYNUM, 1990: 164-169). Exem-plos desta “santa anorexia”, contudo, não se limitaram ao medievo. Assim, no século XX, ainda encontramos manifestações desta doença motivada por ideais de espiritua-lidade. Destacamos dois casos: Marthe Robin e Simone Weil.

Marthe Louise Robin, que nasceu no dia 13 de março de 1902, em Châteauneuf-de- Galane, perto de Lyon, sudeste da França. Tinha um profundo amor a Cristo e a Igreja. Filha de agricultores, em 1928, com 26 anos, foi atingida por uma misteriosa doença e caiu de cama onde permaneceu até a morte, paralisada. Depois, segundo relatam as fontes, apareceram no seu corpo os estigmas de Cristo: os ferimentos da coroa de espinho e a chaga no flanco. Sua mensagem principal era:
Nós temos que seguir a Jesus com a ajuda e poder de Maria.” Morreu em 06 de feve-reiro de 1981, com 78 anos. Segundo seu testemunho, participava todas as semanas na paixão de Cristo, cujas dores sentia, perdia sangue e conhecia o êxtase. Durante mais de meio século não comeu nem bebeu fosse o que fosse: à parte a eucaristia, era-lhe impossível ingerir alimento ou bebida (LAWERS, 1994: 219).

Simone Weil nasceu em Paris no ano de 1909. Cresceu num lar judeu onde sua mãe impunha uma série de normas alimentícias e preceitos higiênicos, como: os filhos não deviam beijar ninguém nem deixar-se beijar, por temor aos micróbios; as frutas e verduras eram examinadas, descartando as que traziam imperfeição ou picada de inseto. Assim, tais medidas proporcionaram a Simone Weil os primeiros elementos para a elaboração de um conjunto de traços fóbicos: fobia a tocar e ser tocada; o conceito de “asqueroso” que a fazia vomitar qualquer substância que tentava ingerir e a levava a rejeitar as frutas picadas, os laticínios, a casca do pão, a pele do frango, os sabores doces e amargos, etc.
Entretanto, a fome de Simone pode ser caracterizada como um modo de comunicação com um mundo que não a compreendia e pela fome insaciável de um alimento supremo. Ela impôs a si a tarefas esgotantes e recusas alimentares. Restringiu seu apetite pen-sando nos pobres e desempregados da França. Escreveu:

Uma desgraça da vida humana é que não se pode olhar e comer ao mesmo tempo. As crianças sentem essa desgraça. O que se come é destruído. O que não se come não pode ser captado plenamente em sua realidade. No mundo sobrenatural, a alma, por meio da contemplação, come a verdade (MARTOCCIA, 2003: 173).

Ela morreu aos 34 anos, em Londres.

Neste trabalho, procuramos destacar o quanto os fatores culturais podem influenciar as manifestações do transtorno da doença. Em algumas culturas, a percepção distor-cida do corpo pode não ser proeminente, podendo a motivação para a restrição alimen-tar ter um conteúdo diferente, como desconforto epigástrico – a pessoa come demasia-damente ficando com uma sensação de mal-estar – ou antipatia por certos alimentos. Já em outras sociedades, detectamos um novo culto ao corpo: pessoas cada vez mais aderem à moda dos piercings e das tatuagens. Preferem tudo isso a ficar fora do modelo. E com isso, o ser humano moderno corre o risco de ter a sua existência estreitamente limitada aos limites de seu próprio corpo.

Assim, a anorexia não é uma exclusividade dos séculos XX e XXI, podendo ser encon-trada no século XII ainda que com motivações distintas. É uma doença que se manifesta culturalmente, indo da elevação espiritual, passando por desconforto epigástrico, a uma exagerada obsessão de seguir os ditames da moda. Hoje há mulheres que sofrem de anorexia em virtude de sua busca de atingir um “corpo perfeito”. É sabido que na Idade Média, o padrão de beleza não consistia na magreza do corpo, ao contrário, mulheres acima do peso considerado ideal nos dias de hoje eram naquela época, apreciadas, fato que pode ser constatado nas pinturas e esculturas da Baixa Idade Média e do Renascimento. A anorexia do período medieval diferenciou-se da anorexia do século XXI, elas tiveram motivações diferentes. Ao optarem por uma vida religiosa, as mulheres desejavam observar o santo evangelho de Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio (Forma de Vida de Santa Clara, CI, 1). Transformavam os seus corpos de santa em alimento, tal como havia sucedido com o de Cristo. Essas penitências eram um meio de salvar outras almas.
“Quero morrer de fome para saciar os pobres”, dizia Margarida de Cortona. Tratava-se de uma forma de imitatio Chisti , uma “imitação de Cristo” tipicamente feminina (LAWERS, 1994 :223).

Mesmo com esse poder carismático, as mulheres da Idade Média continuavam a ser vis-tas como inferiores aos homens; sua voz era silenciada e ignorada. Entretanto, uma das características mais marcante desse período foi a experiência corporal feminina, que ficou entendida como uma união com Deus.

Referências Bibliográficas
Fontes medievais impressas
CLARA DE ASSIS. Forma de Vida de Santa Clara. In: PEDROSO, José Carlos Corrêa
(Org.). Fontes Clarianas. 4ª ed. Piracicaba: Centro Franciscano de Espiritualidade, 2004.

PROCESSO DE CANONIZAÇÃO DE SANTA CLARA. In: PEDROSO, José Carlos Corrêa (org.). Fontes Clarianas. 4ª ed. Piracicaba, Centro Franciscano de Espiritualidade, 2004.

LEGENDA DE SANTA CLARA VIRGEM. In: PEDROSO, José Carlos Corrêa (org.). Fontes
Clarianas. 4ª ed. Piracicaba, Centro Franciscano de Espiritualidade, 2004.

VIDA I DE TOMÁS DE CELANO. In: SILVEIRA, Ildefonso; REIS, Orlando dos (Org). São
Francisco de Assis. Escritos e biografias de São Francisco. Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano. 8ªed. Petrópolis: Vozes, CEFEPAL do Brasil,1997.

Revista Historia em Reflexão

sábado, 21 de março de 2009

O mito de Garibaldi na América do Sul

No século XIX, o herói da unificação italiana participou ativamente das lutas republicanas no sul do Brasil e no Uruguai, tornando-se um “herói de dois mundos”
por Pietro Rinaldo Fanesi
Garibaldi na revolução – Anita Garibaldi, óleo sobre tela, Johann Moritz Rugendas, século XIX

Anita, a grande paixão da vida de Garibaldi, contribuiu para que o mito do aventureiro italiano assumisse um caráter popular no Brasil

Em 1836, o líder da Revolução Farroupilha, Bento Gonçalves, então preso no Rio de Janeiro, recebeu a visita de um imigrante que havia chegado há pouco da Itália e começava a circular pelos círculos da maçonaria brasileira. Seu nome era Giuseppe Garibaldi, e assim começava a trajetória política do revolucionário italiano pela América do Sul, que lhe renderia o título de “herói de dois mundos”.

Ao aportar no Brasil no final de 1835, Garibaldi havia imediatamente se dirigido à comunidade de italianos que adotaram o Rio de Janeiro como lar depois de expulsos de seu país por lutarem pela unificação italiana. Seu primeiro contato político foi Giuseppe Stefano Grondona, imigrante oriundo da Ligúria que chegara ao Rio em 1815, admirador do pensamento político do republicano italiano Giuseppe Mazzini. Grondona mantinha relações com os círculos democráticos de Marselha, porto de onde Garibaldi havia embarcado para a América, e aparentemente o recebeu bem na capital brasileira, introduziu-o nos meios da maçonaria local.

O recém-chegado estreitou relações com outros dois exilados italianos, Luigi Rossetti, instalado no Brasil desde 1827, e Giovanni Battista Cuneo, que era ao mesmo tempo o principal divulgador das idéias de Mazzini entre os italianos residentes no Brasil, por meio da revista Giovine Italia, e um grande captador de recursos para uma futura insurreição em sua terra natal. Foi por meio desses exilados e do também italiano Livio Zambeccari que Garibaldi entrou em contato com o gaúcho Bento Gonçalves, que se tornara também um simpatizante de Mazzini por meio da influência dos maçons italianos e representava um elo dos republicanos com a elite brasileira e, em particular, a do Rio Grande do Sul.

Sabe-se pouco sobre estas relações travadas no interior da maçonaria, motivadas por comuns ideais humanitários, internacionalistas e republicanos, mas elas podem ajudar a entender o mito que se criou no Brasil em torno da figura de Garibaldi que, após a libertação de Bento Gonçalves, lutou ao lado dos riograndenses na tomada de Laguna, em Santa Catarina, onde foi fundada a breve República Juliana em 1839. Foi ali que o “herói de dois mundos” conheceu a mulher que viria a ser a grande paixão de sua vida: Ana Maria de Jesus Ribeiro, ou simplesmente Anita Garibaldi. Por meio dessa relação o mito construído em torno de Garibaldi no Brasil assumiria uma forte ligação com a cultura popular local, permanecendo vivo até os nossos dias. Entre a população do sul do país tornou-se consenso ver no aventureiro italiano a figura de um herói popular, a não ser em áreas de grande imigração italiana procedente do Vêneto, com forte matriz católica e conservadora, como no caso da região de Caxias do Sul. Nessa região, a figura de Garibaldi foi objeto de uma confrontação política e cultural que teve conseqüências até épocas mais recentes.



Batalha dos Farrapos, óleo sobre tela, José Washington Rodrigues/ Prefeitura Municipal de São Paulo

Garibaldi lutou ao lado dos republicanos riograndeses na Revolução Farroupilha, o que fez dele um herói no sul do Brasil

Após a derrota da Revolução Farroupilha em 1840, Garibaldi estabeleceu-se no Uruguai e novamente lutaria ao lado dos republicanos e independentistas na guerra civil uruguaia ao participar da defesa de Montevidéu junto com os unionistas para libertar a cidade do cerco imposto pelas tropas do ditador argentino Manuel de Rosas e do líder conservador uruguaio Manuel Oribe. Ao contrário do Brasil, no entanto, no Uruguai as façanhas de Garibaldi não tiveram o mesmo reconhecimento unânime por parte da população local.

Na sociedade uruguaia a figura de Garibaldi sempre esteve no centro do debate entre as duas principais formações políticas do país: os colorados e os blancos. Os primeiros, representantes do liberalismo local, viam no revolucionário o chefe da Legião Italiana, herói da defesa de Montevidéu e da batalha de Santo Antonio del Salto, símbolo de uma visão laica e republicana da sociedade. Os outros, que representavam setores clericais e conservadores, viam nele apenas um mercenário intrometido numa guerra alheia.

A ligação de Garibaldi com o Uruguai foi tão forte que nas décadas posteriores ao seu retorno à Europa, várias ondas de exilados italianos aportaram em Montevidéu. Depois que os voluntários comandados por Garibaldi que marchavam para tomar Roma foram derrotados em Mentana, em 1867, mais de 1700 camisas vermelhas chegaram à capital uruguaia, muitos deles acompanhados pelas famílias, reforçando uma relação que nunca havia esvanecido. Esta imigração de tipo peculiar contribuiu com certeza para dar nova seiva, entre outras coisas, aos ideais garibaldinos que desde o primeiro momento tiveram fácil inserção na região do Rio da Prata dentro dos grupos inspirados pelos primeiros pensadores socialistas, como Saint-Simon, e depois por liberais ligados à maçonaria.

Por fim, também na Argentina foi construído um mito em torno de Garibaldi. Apesar do “herói de dois mundos” nunca ter de fato atuado nesse país, sua figura foi associada ao ativismo político ligado às idéias republicanas e, mais tarde, socialistas e anarquistas, pelo trabalho de Giovani Battista Cuneo e outros seguidores de Giuseppe Mazzini que atuavam na república platina. A presença dos exilados italianos na Argentina, e em Buenos Aires em particular, passou a ser marcante a partir de 1820, quando ativistas começaram a chegar ao Rio da Prata após serem expulsos de sua terra natal por participarem dos primeiros levantes republicanos na Itália.


Regresso de Garibaldi depois da Batalha de Santo Antonio, óleo sobre tela, Johann Moritz Rugendas, século XIX, Museu histórico de Montevidéu/ Museu Histórico de Montevidéu-Cabildo, Uruguai

No Uruguai, Garibaldi lutou pela causa republicana e tornou-se a grande figura na defesa de Montevidéu contra o cerco imposto pelos conservadores locais

Muitos marinheiros e mercantes instalaram-se na região e com certeza contribuíram para alimentar os ideais do Risorgimento entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos e na própria sociedade portenha. Na Argentina, graças ao trabalho de Giovani Battista Cuneo, o pensamento de Mazzini influenciou fortemente os intelectuais liberais da chamada “Geração dos Proscritos”, e da Joven Generación Argentina, também conhecida como Asociación de Mayo, ponto de reunião, desde 1837, de figuras como Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé Mitre e Miguel Irigoyen, que formavam a flor da elite rioplatense nos anos da grande imigração. Cuneo foi, muitas vezes, o respaldo intelectual da ação de Garibaldi na América Latina, e sua relevância foi tal que foi escrito que “a história da difusão do pensamento de Mazzini na América Latina foi em grande parte a história deste grande italiano imigrante”.

Em todos os países sul-americanos onde atuou, Garibaldi tornou-se um mito que foi utilizado de forma ambígua como elemento de identificação das comunidades italianas, relacionado ao binômio patriotismo-italianidade: de um lado Garibaldi maçom, anticlerical, democrático, internacionalista; do outro, o “pai da Pátria” (em particular a partir dos primeiros anos do século XX), sacralizado em alguns casos não apenas pela parte laica da sociedade.

Na ocasião da morte do “herói dos dois mundos”, em junho de 1882, em muitos países americanos as comemorações e as homenagens fúnebres adquiririam feições não apenas rituais, mas com forte significado político. No Uruguai a notícia da morte de Garibaldi foi recebida com forte emoção, com comemorações que foram organizadas pela comunidade italiana e a maçonaria local, e honras militares que lembraram a memória do vencedor da batalha de Santo Antonio del Salto. Em Porto Alegre, no ano seguinte foi inaugurado o primeiro trecho da rua Garibaldi, enquanto em várias localidades do sul do Brasil e na Argentina numerosas associações de assistência social e hospitais fundados pelas comunidades italianas receberam o nome de Garibaldi.

Com a chegada do novo século, as comunidades italianas aproveitaram a data do 4 de julho de 1907, primeiro aniversário do nascimento de Garibaldi, para dar continuidade a projetos destinados a consolidar a memória do herói, inaugurando estátuas e monumentos e batizando novas ruas e praças em várias cidades. A história da construção de monumentos dedicados a Garibaldi, e também a Anita, mereceria uma reconstrução cuidadosa, mas aqui cabe ressaltar a relevância desta questão para o conjunto das relações políticas e culturais dentro das comunidades italianas e nos meios locais. Em Montevidéu, por exemplo, os “camisas vermelhas”, herdeiros da memória garibaldina, esforçaram-se para convencer o governo local da necessidade de tornar visível a presença do herói na capital da república oriental. Seus esforços foram premiados quando, em 1900, foi colocada a pedra fundamental de um monumento nacional em homenagem a Garibaldi, com um discurso inaugural de Pietro Gori, incansável animador do movimento anarquista entre os imigrantes italianos no Rio da Prata. No entanto, a obra projetada pelo escultor espanhol Augustin Querol, e financiada pelo governo com 100.000 pesos já em 1883, nunca chegou a ser realizada pela obstinada oposição do partido blanco, que pressionou o parlamento a impedir a finalização do monumento, provocando grande polêmica política.


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Imigrantes italianis garibaldinos no Brasil comemoram o aniversário de morte do herói no início do século XX

Em Porto Alegre o monumento iniciado com uma subscrição pública em 1907, demoraria seis anos para ser inaugurado na nova praça dedicada ao herói, com grande participação da comunidade italiana. A escultura apresenta algumas peculiaridades interessantes: Garibaldi veste o poncho, representado o revolucionário da Farroupilha e ao seu lado já aparece Anita, a mulher guerreira.

Apesar da oposição de alguns setores políticos que não consideravam Garibaldi merecedor de um monumento de grande porte, por não ser um protagonista da história da Argentina, no bairro de Palermo, em Buenos Aires, foi erguida uma estátua eqüestre, obra do italiano Eugenio Maccagnani, inaugurada em 18 de junho de 1908, com a presença do presidente da república, Julio A. Roca.

O mito de Garibaldi, ainda bem depois da sua morte e da conclusão do processo de unificação nacional, teve uma excepcional e inédita capacidade de difusão e enraizamento popular não apenas na Itália, mas em todos os países onde o “herói de dois mundos” lutou, ou com presença de significativas comunidades italianas. Talvez porque Garibaldi, sendo neste sentido precursor de um moderno estilo de ação política, soube despertar o imaginário coletivo e popular por meio de seu extraordinário protagonismo.

Pietro Rinaldo Fanesi é professor do Departamento de História da Universidade de Camerino, Itália, e autor de Garibaldi, eroe moderno (Garibaldi, herói moderno – Editora Aracne, 2007)

Revista Historia Viva