
por Samuel Tomei



Lenin, durante uma entrevista em Moscou pouco antes de sua morte, ocorrida em 1924
"SÓCRATES PROCLAMADO REI." Assim é possível resumir , com uma metáfora, a longa e taciturna vida, apenas no final marcada por alguns anos cintilantes de Vladimir Ilitch Ulianov, que marcou seu nome na ´história com Lenin, filósofo, polemista e revolucionário de gabinete, um dia consagrado Czar. Durante 40 anos - de aproximadamente 1877, quando tinha 17 anos e tomou partido do marxismo contra os antigos regimes até 1917, quando foi chamado para dar " o último golpe" contra a dinastia dos Romanov -, sua existência se resume a uma única imagem: o homem que permanece sentado rascunhando enquanto sua companheira, Nadjeda Krupskaia, organiza fichas.
Aos 20 anos, Lenin já era o que seria 40 anos mais tarde: a aparência envelhecida, a silhueta magra e pequena, o paletó lustroso nos cotovelos, as botinas gastas, a cabeça grande demais para ombros tão estreitos, a fronte ossuda e os olhos mongólicos. Ele tinha crises de riso nervoso e uma voz rouca, cortando as sílabas e cindindo as frases. Sofria de uma timidez prodigiosa, que só superava por uma energia prodigiosa. E, para completar, Lenin, no início de sua carreira política, ainda era ofuscado por um combatente brilhante. Fazia-lhe sombra seu irmão Alexandre, "Sacha", quatro anos mais velho, um personagem surpreendente, que organizou um atentado contra o czar, mas foi preso antes de realizar seu intento. Julgado, foi condenado à morte e enforcado aos 23 anos de idade.
Lenin - que nasceu em 22 de abril de 1870, o quarto filho entre os seis do casal llia Ulianov e Maria Alexandrovna Blank - era taciturno perto de Georgi Valentinovitch Plekhanov, intérprete inconteste do marxismo durante longas estações e papa respeitado do socialismo russo. Da mesma forma parecia, perto do jovem Lev Davidovitch Bronstein, a quem chamavam Leon Trotski, e que, com um gênio excepcional e um talento para a história, organizou o supremo combate contra os palácios imperiais, depois forjou o Exército Vermelho. Sua companheira, Krupskaia, também era taciturna. À época do casamento, durante o exílio a que ele foi forçado na Sibéria, ela completara os 27 anos de idade - um a mais que o marido. Filha da pequena nobreza arruinada, ela e a mãe precisaram alugar quartos para sobreviver. Krupskaia foi apresentada a Lenin em 1893, em Okhta, em meio a uma festa, numa noite de carnaval. Foi tomada de admiração por aquele "revolucionário muito culto", autor de uma notável Discussão entre um social-democrata e um populista, inimigo dos hipócritas gentis e irmão de Alexandre Ulianov, que fora enforcado.
Lenin, que resistia a outro envolvimento amoroso porque não queria que nada o distraísse da revolução, sentiu-se à vontade diante dessa intelectual enérgica, professora na escola do bairro Smolensk, em Petrogrado e dirigente de círculos operários na periferia da porta Nevski. Seguro de sua dedicação à causa popular e de seu incontestável talento para reunir artigos e fichários, ele a contratou como sua secretária particular. Ela era taciturna, robusta, com gestos lentos e o rosto redondo e plácido, segura de si, os lábios grossos que mal sorriam.
Krupskaia foi sempre, mais do que esposa, mãe e irmã para Lenin. Eles se irmanavam no culto revolucionário, no ódio ao czarismo, na guerra contra a injustiça, na certeza de que "o primeiro inimigo é a burguesia". Ficava maravilhada ao observar o interesse dele pelo menor detalhe que fosse da vida operária, no afã de reunir tudo o que lhe rendesse uma visão do conjunto do cotidiano proletário, de maneira a descobrir "o melhor ponto pelo qual a propaganda revolucionária podia penetrar".
Lenin, por sua vez, ficou satisfeito ao encontrar alguém que cuidasse dele. Quando criança e jovem, foi sempre coberto de pequenos cuidados pela mãe, Kaia, e os mimos adoráveis continuavam. Além disso, sendo Krupskaia a melhor secretária do mundo, tornou-se para ele indispensável. Sempre esteve ao lado dele, até a morte.
Uma única pessoa esteve perto de abalar essa tranqüila relação: a ardente Inês Armand, de rosto lindo e luminoso, durante seu exílio em Paris, principalmente nos anos 1909 e 1910. Ela era filha de uma atriz com um cantor de ópera. Criada por uma tia em Moscou, Inês Armand falava francês, inglês, russo e alemão. Ao piano, ela interpretava, diziam alguns, Chopin, Bach, Mozart. Chegou à revolução movida por uma extrema piedade pela condição operária, apesar de ser casada com um homem da alta burguesia. Tornou-se bolchevique lendo a obra de Lenin.
Nenhuma grande provação
Lenin passou a apreciar de forma mais do que racional aquele ser excepcional, que sabia aliar beleza e inteligência, energia e charme, sentido estético e dialética revolucionária. Krupskaia teve de lançar mão de toda sua paciência para contornar o problema. Passada a crise, a união do casal retomou toda a força. "Nosso casamento é um verdadeiro casamento pequeno-burguês", admitiu Lenin. O que importava mesmo era dedicar-se ao trabalho, à revolução. O único descanso autorizado pela dialética foi, em Paris, pedalar aos domingos nos campos da Île-de-France, ou, na Suíça, sair alguns dias, com uma mochila, pelas montanhas. Lenin parece velho tão precocemente que, aos 24 anos, os revolucionários do exílio o apelidaram de Stark, o Antigo. Foi, talvez, essa velhice que o preservou das tempestades vãs.
Além de não fazer questão de ser um herói, Lenin desprezava tudo o que pudesse levar a crer que o fosse. Ele nunca passou nenhuma provação terrível, coisa que, aliás, enfatizou cruamente. Preso em dezembro de 1895 por ter publicado um jornal subversivo, A causa dos trabalhadores, depois de passar um ano numa prisão de Petrogrado, escreveu francamente à irmã: "Pena já nos relaxarem, gostaria de terminar meus trabalhos". Repetiu essa mesma expressão muitas vezes. As prisões czaristas estavam, pois, longe de prefigurar um inferno. Os detentos políticos podiam ler à vontade, escrever o que queriam e até se dedicar a pesquisas eruditas. O jovem Ulianov não se privou de nada disso. Jamais se queixou das condições em que permaneceu encarcerado. Ao contrário, dizia à mãe: "Tenho tudo de que preciso e até mais". Naquele período, ele pôde dividir bem seu tempo entre os cuidados com o físico, o estudo de línguas e o trabalho; recebia tantas guloseimas e presentes que podia sonhar em "desbancar a cantina oficial".
Os três anos de exílio na Sibéria não foram mais severos: tendo chegado em maio de 1897 à sua residência forçada, em Chuchenskoie, Lenin escreveu que em casa sempre dormia "esplendidamente todas as noites". Descrevia a região como salubre e agradável; "o ar é bom, fácil de respirar", eis por que o lugar era chamado de "Itália siberiana". Ele dispunha de um quarto confortável numa casa campestre limpa. Os camponeses que o alojavam tinham todo o cuidado ao preparar suas refeições, lavar e arrumar suas roupas.
Abastecido de livros e documentos por Krupskaia, podia tranqüilamente continuar redigindo "tratados, artigos, obras". Traduziu em ritmo lento A teoria e a prática dos sindicatos ingleses, de Sydney e Beatriz Webb; recebia uma mensalidade do Estado para suas despesas pessoais; podia caçar em qualquer recanto da província, livremente. Comemorava Natal e Páscoa em companhia de outros exilados, fazia longos passeios aos arredores com seus novos amigos, entre os quais se incluía um operário finlandês.
Quando também Krupskaia foi presa, Lenin conseguiu sem dificuldades que, em vez ser exilada no norte da Rússia, como previsto pelas autoridades imperiais, ela fosse enviada a Chuchenskoie, para "encontrar seu noivo". Ao juntar-se a ele, veio acompanhada da mãe, Elisabeth Vassilievna, que permaneceu junto do casal por longos anos, encarregando-se de cozinhar. Krupskaia trouxe uma coleção inacreditável de livros, jornais, dicionários e gramáticas, mas também não esquecera de incluir na bagagem o chapéu de palha de Vladimir, um jogo de xadrez e um paletó de couro para a caça. Ao vê-lo, a futura sogra comentou, surpresa: "Meu Deus, como você engordou".
O casamento, muito burguês e ritual, foi celebrado em julho, e eles já começaram a trabalhar juntos, em especial na polêmica contra Edouard Bernstein (executor testamenteiro de Friedrich Engels, morto em 1895, que pretendeu "revisar", "modernizar" o marxismo), e a preparar a edição de um poderoso jornal socialista em toda a Rússia. Enfim, as cenas desse período são opostas às de uma prisão. Quando Lenin deixou Chuchenskoie, saiu vestido com um belo casaco de pele e equipado com uma valise suntuosa.
A persistente propaganda
Como Lenin não gostava do confronto direto e físico, evitava militar no território da Rússia, como fez, na mesma época, um terrorista da Geórgia, nove anos mais novo do que ele. Tratava-se de Iossif Vissarionovitch Djougatchvili, que preferia ser chamado de Koba - alguém que a história registraria como Stalin. Aos riscos da vida clandestina, Lenin preferiu a tranqüilidade do exílio: Paris ou Londres, Munique ou Lausanne. Ele se petrificara sob a segurança e a silhueta de um simples funcionário que ninguém notava; de terno sempre escuro; bem barbeado, de bigodes caídos e olhos semicerrados. Funcionário do Marxismo e Cia. Taciturno, sempre taciturno. Fiel a esse estilo, preparou a revolução considerada como a mais espetacular de todos os tempos, com atividades de gabinete: escrevia, rascunhava, rasurava. Nada de heroísmo nem de equipe, em momento algum.
Ora lembra o rato de biblioteca, gordo e de dentes afiados, que rói pacientemente a casa, ora a aranha tecendo a teia. Muito cedo, unidades do jornal socialista Iskra, que ele dirigia, foram criadas na Europa e em toda a Rússia; imprensas socialistas de inspiração leninista surgiram em Petrogrado, Bakou, Novgorod. Redes clandestinas eram pacientemente organizadas para encaminhar o correio entre o exílio e a clandestinidade: Toulon-Alexandria-Odessa ou Anvers-Estocolmo-Vilna; refúgios para os siberianos foragidos foram instalados nas principais capitais européias.
Grandes chefes socialistas, como Axelrode Pavel e Yuli Osipovich Martov, tinham de passar por seu intermédio para se corresponder com as células do Cáucaso, da Sibéria e da Rússia Branca. Ele pusera em funcionamento um vasto e eficaz aparelho que seria fundamental nos momentos históricos. Enquanto aguardava o tempo certo para a ação, contribuía poderosamente para expandir, com palavras de ordem, sua lenda de pai da revolução.
Há momentos em que lembra a formiga. Como no texto: "Eu afirmo: que nenhum movimento pode ser duradouro sem uma organização estável de chefes para manter-lhe a continuidade; que quanto mais as massas estiverem integradas na luta para constituir a base do movimento, mais é necessário ter tal organização e esta deve ser estável; que a organização deve ser composta essencialmente de pessoas que fazem da revolução um trabalho; que, num país de governo despótico, quanto mais limitarmos os membros dessa organização àqueles que fazem da revolução um trabalho... mais difícil será descobrir essa organização e maior será o círculo de homens e de mulheres pertencentes à classe operária ou às outras classes da sociedade em condições de ligar o movimento e de executar um trabalho ativo".
Uma formiga não esquece, principalmente, de acumular provisões. Lenin monopolizava todas as cotizações. Enquanto, para sobreviver, Georgi Valentinovitch Plekhanov precisava copiar endereços, Axelrode Pavel vender iogurtes, Leon Trotski fazer trabalhos artesanais, ele só podia se apoiar no movimento, portanto no sucesso da revolução. O segredo era a repetição, marcada pelo apelido magnético, descoberto em Londres no final de 1901, e formado, por contração, a partir de um primeiro apelido. Iliine, por sua vez resultante da junção de Ilitch e Ulian, derivado de Ulianov. A consolidação desse nome aconteceu de uma forma rígida, insistente, monótona, como uma ladainha. Por trás dos golpes mil vezes desferidos pelas mesmas palavras, um estilo, portanto, encontra-se sempre a mesma mão, o mesmo cérebro, o mesmo sistema e a mesma irresistível atração.
A revolução bolchevista, sob a luz dos ideais marxistas, foi a grande vitória desse rato, dessa aranha e dessa formiga. Ele mesmo, petrificado pela Medusa de seu sucesso, no dia em que a vitória foi consagrada, em Petrogrado, murmurou a Trotski: "Estou com a cabeça girando!" É possível, afinal ele tinha diante dos olhos o inacreditável. Da mesma forma, parecia sobretudo incrível que chegasse ao poder, antes trono, de uma das mais potentes autocracias de todos os tempos aquele homem de aparência modesta, a boca amarga, sacudido cada vez mais por um riso nervoso sempre mais difícil de reprimir, ainda que tivesse mostrado uma inigualável perseverança e uma incomparável paciência.
Aliás, no palácio, Sócrates continua sendo Sócrates. Taciturno. Poderoso sem ostentação. Lenin transferiu a capital de Petrogrado para Moscou e viveu no Kremlin. Escolheu um aposento antes ocupado por um serviçal. Tinha uma empregada, Olympiada Jouraslova, ex-operária de fundição, sob a justificativa de que era dotada de um "poderoso instinto proletário". Ele se instalara num escritório estritamente funcional, sem cortinas, desprovido do luxo característico dos que os capitalistas ocupavam. Trabalhava diante de um móvel rústico, lotado de documentos e dossiês, muitas vezes também empilhados numa simples poltrona de junco. A rudimentar decoração se completava com um singelo aquecedor a carvão, um pequeno cartão dos confins russo-turcos e, numa parede, o retrato de Marx. Ele proibiu que expusessem sua foto pelo Kremlin. Quando ia ao barbeiro para cortar os cabelos, jamais passava na frente de ninguém. Fazia questão de esperar sua vez. Durante o inverno rigoroso de 1917-1918, ficou sem aquecimento, como todos os moscovitas: "Não tem mais madeira; eu também preciso fazer economia".
Ele sentia frio nos pés, mas não queria pele de urso - um simples feltro lhe bastava. Usava cotidianamente um de seus casacos mais velhos de emigrado. A mente pura, a razão pura deveriam permanecer despojadas. Assim foram Oliver Cromwell e Maximilien Robespierre. Lenin, o dialético, era dessa mesma linhagem. Passava as noites trabalhando em seus dossiês, redigindo notas sobre diferentes temas, para orientar seus ministros. Em quatro anos, ele foi algumas vezes ao teatro, mesmo assim com escolha a dedo das peças: Ralé, de Gorki, cujos exageros apreciava; Tio Vania, de Tchekhov, que ele conhecia; e O grilo da lareira, de Dickens, que achava muito burguês.
Nunca passava pela porta do Teatro Bolchoi, pois detestava vislumbrar aqueles sinais exteriores de opulência. Tampouco se dava ao trabalho de comparecer a exposições de pinturas futuristas, arte que denunciava como portadora de um espírito de degradação. Lenin só encontrava trégua na leitura, ao reler seu caro Leon Tolstoi, reencontrar Nicolas Nekrassov, professor de sua juventude, ou descobrir, com A alegria de viver, um certo Emile Zola, que imediatamente passou a ser um de seus escritores favoritos.
O poder, numa Rússia em desespero, consistia em pegar certas teorias no contrapé. Em política internacional, como na interna, o grande sonho só se realizava sob as máscaras. E foi em meio a uma grande tristeza que uma doença obscura atingiu o velho lutador. Do final de 1921 ao início de 1924, ele permaneceu semiparalisado, freqüentemente incapaz de falar, vítima de vômitos incessantes e de terríveis dores de cabeça. Cercado de mulheres que se tornaram também enfermeiras - Krupskaia, Maria, sua irmã e quatro secretárias - ele teve de abandonar a sorte da revolução a seus camaradas. Já em setembro de 1922, Stalin havia dito: "Lenin está Kaput" - decretando que o líder estava acabado. Lenin não era mais que uma sombra e assim permaneceria até o final. Ele morreu como um burguês, numa casa de campo em Gorki. Só então a mitologia bolchevique, dialeticamente organizada, apoderou-se de seu nome e de seu corpo para fazer dele o ícone dos ícones. E, paradoxalmente, tudo termina assim: Sócrates faraó.
-Tradução de Mônica Cristina Corrêa
Cronologia
1870
22 de abril: nascimento, em Simbirsk
1887
1o de março: atentado contra o czar Alexandre III; entre os terroristas presos estava o irmão mais velho de Lenin, Alexander Ulianov, que foi condenado à morte
1889
Conseguiu graduar-se em direito, pela Universidade de Petrogrado
1895
Fundou a União para a Luta pela Libertação da Classe Operária
1897
Desterro na Sibéria
1900
Primeiro exílio, na Suíça; 21 de dezembro: lançamento do jornal Iskra (A Chama)
1903
Tornou-se o líder dos bolcheviques, no Partido Social-Democrata Russo
1909
Lançou Materialismo e empiriocriticismo
1917
Eclosão e triunfo da Revolução Russa
1918
Sofreu um atentado
1919
Congresso da III Internacional
1922
União das repúblicas socialistas soviéticas
1924
Morte, em Gorki
Advogado e escritor
Lenin nasceu em uma família que cultuava o intelecto; os filhos eram educados com senso de disciplina e amor ao estudo. A partir de 1887, cursou direito, na Universidade de Kazan. Expulso da faculdade por seus ideais, bem mais tarde conseguiu obter a graduação. Profissionalmente atuou como advogado por algum tempo, voltado à defesa de camponeses e operários. A essa atividade mesclava a de organizador de massas, via criação de núcleos de estudo e ação. O desejo de conhecer melhor outras realidades fez com que saísse de seu país em direção à Suíça, Alemanha e França. Ao voltar, foi preso e deportado para a Sibéria. Ao ser libertado optou pelo exílio, na Suíça, onde começou a atividade de editor de jornais para propaganda ideológica. Nessa época, escreveu uma de suas principais obras: O que fazer? Regressou à Rússia depois da revolução de 1905, mas logo teve de voltar ao estrangeiro, fugindo de perseguições. Viveu anos em Paris, nesse segundo exílio, período em que também escreveu muito; com destaque para a obra Materialismo e empiriocriticismo.
- Mirian Ibañez
Revista Historia Viva

Anita, a grande paixão da vida de Garibaldi, contribuiu para que o mito do aventureiro italiano assumisse um caráter popular no Brasil
Em 1836, o líder da Revolução Farroupilha, Bento Gonçalves, então preso no Rio de Janeiro, recebeu a visita de um imigrante que havia chegado há pouco da Itália e começava a circular pelos círculos da maçonaria brasileira. Seu nome era Giuseppe Garibaldi, e assim começava a trajetória política do revolucionário italiano pela América do Sul, que lhe renderia o título de “herói de dois mundos”.
Ao aportar no Brasil no final de 1835, Garibaldi havia imediatamente se dirigido à comunidade de italianos que adotaram o Rio de Janeiro como lar depois de expulsos de seu país por lutarem pela unificação italiana. Seu primeiro contato político foi Giuseppe Stefano Grondona, imigrante oriundo da Ligúria que chegara ao Rio em 1815, admirador do pensamento político do republicano italiano Giuseppe Mazzini. Grondona mantinha relações com os círculos democráticos de Marselha, porto de onde Garibaldi havia embarcado para a América, e aparentemente o recebeu bem na capital brasileira, introduziu-o nos meios da maçonaria local.
O recém-chegado estreitou relações com outros dois exilados italianos, Luigi Rossetti, instalado no Brasil desde 1827, e Giovanni Battista Cuneo, que era ao mesmo tempo o principal divulgador das idéias de Mazzini entre os italianos residentes no Brasil, por meio da revista Giovine Italia, e um grande captador de recursos para uma futura insurreição em sua terra natal. Foi por meio desses exilados e do também italiano Livio Zambeccari que Garibaldi entrou em contato com o gaúcho Bento Gonçalves, que se tornara também um simpatizante de Mazzini por meio da influência dos maçons italianos e representava um elo dos republicanos com a elite brasileira e, em particular, a do Rio Grande do Sul.
Sabe-se pouco sobre estas relações travadas no interior da maçonaria, motivadas por comuns ideais humanitários, internacionalistas e republicanos, mas elas podem ajudar a entender o mito que se criou no Brasil em torno da figura de Garibaldi que, após a libertação de Bento Gonçalves, lutou ao lado dos riograndenses na tomada de Laguna, em Santa Catarina, onde foi fundada a breve República Juliana em 1839. Foi ali que o “herói de dois mundos” conheceu a mulher que viria a ser a grande paixão de sua vida: Ana Maria de Jesus Ribeiro, ou simplesmente Anita Garibaldi. Por meio dessa relação o mito construído em torno de Garibaldi no Brasil assumiria uma forte ligação com a cultura popular local, permanecendo vivo até os nossos dias. Entre a população do sul do país tornou-se consenso ver no aventureiro italiano a figura de um herói popular, a não ser em áreas de grande imigração italiana procedente do Vêneto, com forte matriz católica e conservadora, como no caso da região de Caxias do Sul. Nessa região, a figura de Garibaldi foi objeto de uma confrontação política e cultural que teve conseqüências até épocas mais recentes.
Batalha dos Farrapos, óleo sobre tela, José Washington Rodrigues/ Prefeitura Municipal de São Paulo
Garibaldi lutou ao lado dos republicanos riograndeses na Revolução Farroupilha, o que fez dele um herói no sul do Brasil
Após a derrota da Revolução Farroupilha em 1840, Garibaldi estabeleceu-se no Uruguai e novamente lutaria ao lado dos republicanos e independentistas na guerra civil uruguaia ao participar da defesa de Montevidéu junto com os unionistas para libertar a cidade do cerco imposto pelas tropas do ditador argentino Manuel de Rosas e do líder conservador uruguaio Manuel Oribe. Ao contrário do Brasil, no entanto, no Uruguai as façanhas de Garibaldi não tiveram o mesmo reconhecimento unânime por parte da população local.
Na sociedade uruguaia a figura de Garibaldi sempre esteve no centro do debate entre as duas principais formações políticas do país: os colorados e os blancos. Os primeiros, representantes do liberalismo local, viam no revolucionário o chefe da Legião Italiana, herói da defesa de Montevidéu e da batalha de Santo Antonio del Salto, símbolo de uma visão laica e republicana da sociedade. Os outros, que representavam setores clericais e conservadores, viam nele apenas um mercenário intrometido numa guerra alheia.
A ligação de Garibaldi com o Uruguai foi tão forte que nas décadas posteriores ao seu retorno à Europa, várias ondas de exilados italianos aportaram em Montevidéu. Depois que os voluntários comandados por Garibaldi que marchavam para tomar Roma foram derrotados em Mentana, em 1867, mais de 1700 camisas vermelhas chegaram à capital uruguaia, muitos deles acompanhados pelas famílias, reforçando uma relação que nunca havia esvanecido. Esta imigração de tipo peculiar contribuiu com certeza para dar nova seiva, entre outras coisas, aos ideais garibaldinos que desde o primeiro momento tiveram fácil inserção na região do Rio da Prata dentro dos grupos inspirados pelos primeiros pensadores socialistas, como Saint-Simon, e depois por liberais ligados à maçonaria.
Por fim, também na Argentina foi construído um mito em torno de Garibaldi. Apesar do “herói de dois mundos” nunca ter de fato atuado nesse país, sua figura foi associada ao ativismo político ligado às idéias republicanas e, mais tarde, socialistas e anarquistas, pelo trabalho de Giovani Battista Cuneo e outros seguidores de Giuseppe Mazzini que atuavam na república platina. A presença dos exilados italianos na Argentina, e em Buenos Aires em particular, passou a ser marcante a partir de 1820, quando ativistas começaram a chegar ao Rio da Prata após serem expulsos de sua terra natal por participarem dos primeiros levantes republicanos na Itália.
Regresso de Garibaldi depois da Batalha de Santo Antonio, óleo sobre tela, Johann Moritz Rugendas, século XIX, Museu histórico de Montevidéu/ Museu Histórico de Montevidéu-Cabildo, Uruguai
No Uruguai, Garibaldi lutou pela causa republicana e tornou-se a grande figura na defesa de Montevidéu contra o cerco imposto pelos conservadores locais
Muitos marinheiros e mercantes instalaram-se na região e com certeza contribuíram para alimentar os ideais do Risorgimento entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos e na própria sociedade portenha. Na Argentina, graças ao trabalho de Giovani Battista Cuneo, o pensamento de Mazzini influenciou fortemente os intelectuais liberais da chamada “Geração dos Proscritos”, e da Joven Generación Argentina, também conhecida como Asociación de Mayo, ponto de reunião, desde 1837, de figuras como Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé Mitre e Miguel Irigoyen, que formavam a flor da elite rioplatense nos anos da grande imigração. Cuneo foi, muitas vezes, o respaldo intelectual da ação de Garibaldi na América Latina, e sua relevância foi tal que foi escrito que “a história da difusão do pensamento de Mazzini na América Latina foi em grande parte a história deste grande italiano imigrante”.
Em todos os países sul-americanos onde atuou, Garibaldi tornou-se um mito que foi utilizado de forma ambígua como elemento de identificação das comunidades italianas, relacionado ao binômio patriotismo-italianidade: de um lado Garibaldi maçom, anticlerical, democrático, internacionalista; do outro, o “pai da Pátria” (em particular a partir dos primeiros anos do século XX), sacralizado em alguns casos não apenas pela parte laica da sociedade.
Na ocasião da morte do “herói dos dois mundos”, em junho de 1882, em muitos países americanos as comemorações e as homenagens fúnebres adquiririam feições não apenas rituais, mas com forte significado político. No Uruguai a notícia da morte de Garibaldi foi recebida com forte emoção, com comemorações que foram organizadas pela comunidade italiana e a maçonaria local, e honras militares que lembraram a memória do vencedor da batalha de Santo Antonio del Salto. Em Porto Alegre, no ano seguinte foi inaugurado o primeiro trecho da rua Garibaldi, enquanto em várias localidades do sul do Brasil e na Argentina numerosas associações de assistência social e hospitais fundados pelas comunidades italianas receberam o nome de Garibaldi.
Com a chegada do novo século, as comunidades italianas aproveitaram a data do 4 de julho de 1907, primeiro aniversário do nascimento de Garibaldi, para dar continuidade a projetos destinados a consolidar a memória do herói, inaugurando estátuas e monumentos e batizando novas ruas e praças em várias cidades. A história da construção de monumentos dedicados a Garibaldi, e também a Anita, mereceria uma reconstrução cuidadosa, mas aqui cabe ressaltar a relevância desta questão para o conjunto das relações políticas e culturais dentro das comunidades italianas e nos meios locais. Em Montevidéu, por exemplo, os “camisas vermelhas”, herdeiros da memória garibaldina, esforçaram-se para convencer o governo local da necessidade de tornar visível a presença do herói na capital da república oriental. Seus esforços foram premiados quando, em 1900, foi colocada a pedra fundamental de um monumento nacional em homenagem a Garibaldi, com um discurso inaugural de Pietro Gori, incansável animador do movimento anarquista entre os imigrantes italianos no Rio da Prata. No entanto, a obra projetada pelo escultor espanhol Augustin Querol, e financiada pelo governo com 100.000 pesos já em 1883, nunca chegou a ser realizada pela obstinada oposição do partido blanco, que pressionou o parlamento a impedir a finalização do monumento, provocando grande polêmica política.
Reprodução
Imigrantes italianis garibaldinos no Brasil comemoram o aniversário de morte do herói no início do século XX
Em Porto Alegre o monumento iniciado com uma subscrição pública em 1907, demoraria seis anos para ser inaugurado na nova praça dedicada ao herói, com grande participação da comunidade italiana. A escultura apresenta algumas peculiaridades interessantes: Garibaldi veste o poncho, representado o revolucionário da Farroupilha e ao seu lado já aparece Anita, a mulher guerreira.
Apesar da oposição de alguns setores políticos que não consideravam Garibaldi merecedor de um monumento de grande porte, por não ser um protagonista da história da Argentina, no bairro de Palermo, em Buenos Aires, foi erguida uma estátua eqüestre, obra do italiano Eugenio Maccagnani, inaugurada em 18 de junho de 1908, com a presença do presidente da república, Julio A. Roca.
O mito de Garibaldi, ainda bem depois da sua morte e da conclusão do processo de unificação nacional, teve uma excepcional e inédita capacidade de difusão e enraizamento popular não apenas na Itália, mas em todos os países onde o “herói de dois mundos” lutou, ou com presença de significativas comunidades italianas. Talvez porque Garibaldi, sendo neste sentido precursor de um moderno estilo de ação política, soube despertar o imaginário coletivo e popular por meio de seu extraordinário protagonismo.
Pietro Rinaldo Fanesi é professor do Departamento de História da Universidade de Camerino, Itália, e autor de Garibaldi, eroe moderno (Garibaldi, herói moderno – Editora Aracne, 2007)
Revista Historia Viva